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Os Lusíadas

Leonor Almeida Gouveia

Created on May 21, 2026

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Transcript

Os Lusíadas

de Luís de Camões
Estâncias 78 a 87
Canto VII
Alexandra Virgínio, n.º 1; Leonor Gouveia, n.º 12; Leonor Teixeira, n.º 13

Contextualização

Depois de partirem de Melinde, os portugueses prosseguem a viagem para a Índia. O percurso foi conturbado e alvo de ataques de deuses marinhos aos Lusitanos, a mando de Baco. Vénus protege a armada portuguesa e, desta forma, chegam ao seu destino - a Índia. No canto VII fazem os primeiros contactos com os indianos, árabes e com o Samorim, a quem Paulo da Gama (comandante da armada) apresenta as figuras das bandeiras portuguesas. Luís de Camões termina com uma reflexão sobre o estado da nação. Refere a desilusão pessoal com a “Pátria ingrata” que não reconhece a sua dedicação às letras e apenas o recompensa com ingratidão. Sente-se cansado, desanimado e recorre, por isso, à invocação das Ninfas.

Estância 78

Um ramo na mão tinha... Mas, ó cego, Eu, que cometo , insano e temerário, Sem vós, Ninfas do Tejo e do Mondego, Por caminho tão árduo, longo e vário! Vosso favor invoco, que navego Por alto mar, com vento tão contrário, Que, se não me ajudais, hei grande medo Que o meu fraco batel se alague cedo.

Apóstrofe

Dupla adjetivação

Apóstrofe

Tripla adjetivação

Metáfora

Estância 79

Olhai que há tanto tempo que, cantando O vosso Tejo e os vossos Lusitanos, A Fortuna me traz peregrinando, Novos trabalhos vendo e novos danos: Agora o mar, agora esprimentando Os perigos Mavórcios inumanos, Qual Cânace , que à morte se condena, Nũa mão sempre a espada e noutra a pena;

Personificação

Anáfora

Referência mitológica

Estância 80

Agora, com pobreza avorrecida, Por hospícios alheios degradado; Agora, da esperança já adquirida, De novo, mais que nunca, derribado; Agora, às costas escapando a vida, Que dum fio pendia tão delgado, Que não menos milagre foi salvar-se Que pera o Rei judaico acrecentar-se.

Anáfora

Metáfora

Referência mitológica

Estância 81

E ainda, Ninfas minhas, não bastava Que tamanhas misérias me cercassem, Senão que aqueles que eu cantando andava Tal prémio de meus versos me tornassem: A troco dos descansos que esperava, Das capelas de louro que me honrassem, Trabalhos nunca usados me inventaram, Com que em tão duro estado me deitaram!

Apóstrofe

Ironia

Antítese

Hipérbole

Estância 82

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores O vosso Tejo cria valerosos Que assi sabem prezar, com tais favores, A quem os faz, cantando, gloriosos! Que exemplos a futuros escritores, Pera espertar engenhos curiosos, Pera porem as cousas em memória, Que merecem ter eterna glória!

Apóstrofe

Imperativo

Personificação

Anáfora

Estância 83

Pois logo, tantos males, é forçado Que só vosso favor não me faleça, Principalmente aqui, que sou chegado Onde feitos diversos engrandeça: Dai-mo vós sós, que eu tenho já jurado Que não no empregue em quem o não mereça, Nem por lisonja louve algum subido, Sob pena de não ser agradecido

Aliteração

Apóstrofe

Antítese

Estância 84

Nem creiais, Ninfas, não, que fama desse A quem ao bem comum do seu Rei Antepuser seu próprio interesse, Immigo da divina e humana Lei. Nenhum ambicioso, que quisesse Subir a grandes cargos, cantarei, Só por poder com torpes exercícios Usar mais largamente de seus vícios

Apóstrofe

Antítese

Anástrofe

Estância 85

Nenhum que use de seu poder bastante, Para servir a seu desejo feio, E que, por comprazer ao vulgo errante, Se muda em mais figuras que Proteio. Nem, Camenas, também cuideis que canto Quem, com hábito honesto e grave, veio, Por contentar ao Rei no ofício novo, A despir e roubar o pobre povo.

Comparação

Estância 86

Nem quem acha que é justo e que é direito Guardar-se a lei do Rei severamente, E não acha que é justo e bom respeito, Que se pague o suor da servil gente; Nem quem sempre, com pouco experto peito, Razões aprende, e cuida que é prudente, Para taxar, com mão rapace e escassa, Os trabalhos alheios, que não passa.

Anáfora

Metáfora

Estância 87

Aqueles sós direi, que aventuraram Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida, Onde, perdendo-a, em fama a dilataram, Tão bem de suas obras merecida. Apolo, e as Musas que me acompanharam, Me dobrarão a fúria concedida, Enquanto eu tomo alento descansado, Por tornar ao trabalho, mais folgado.

Hipérbole

Declamação do poema

por Sandra Hung

https://www.rtp.pt/play/palco/p14060/e817127/os-lusiadas

Síntese das estâncias

Nas estâncias 78 a 87 do Canto VII de Os Lusíadas, Camões interrompe a narrativa para refletir sobre o seu trabalho poético. Ele mostra-se cansado e inseguro e, em desespero, pede ajuda às ninfas do Tejo e do Mondego para conseguir continuar a escrever. Faz, também, um desabafo pessoal: lembra as dificuldades da sua vida, como a pobreza, o sofrimento e a falta de reconhecimento pelo seu esforço. Em seguida, dirige críticas à sociedade, condena a corrupção, a ambição e a injustiça de muitos que ocupam cargos importantes apenas por interesse próprio. Por fim, Camões reforça o seu objetivo: não quer cantar esses falsos heróis, mas sim aqueles que realmente merecem ser lembrados, ou seja, os que servem com coragem, honra e dedicação a Deus, ao rei e à pátria.