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a vida

Vasco Ferreira Pina (Aluno EBSAAS)

Created on April 21, 2026

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Transcript

a vida

antes do 25 de abril

ENTREVISTA

ENTREVISTADA

NOME: MARIA DE FATIMA DA SILVA VIEIRA GASPAR FERREIRA

Data de nascimento : 13/10/1942

IDADE: 83 anos

NASCIDA: FUNCHAL (MONTE)

entrevista

  • Como foi a sua infancia?
  • Que responsabilidades tinha enquanto criança?
  • Como conheceu o avo ?
  • Como foi a sua vida depois de casar?
  • A família foi afetada pela guerra colonial ?
  • O que significou o 25 de Abril para si?

Que responsabilidades tinha enquanto criança?

Sendo a única rapariga, fiquei responsável por cuidar dos meus irmãos e da casa. Tratava deles, preparava a comida e fazia tudo o que fosse necessário. Assumi responsabilidades de adulta muito cedo e não tive oportunidade de viver uma infância normal.

Como foi a sua infancia ?

Nasci no Funchal, na zona do Monte, em 1942, numa família muito pobre e numerosa. Éramos nove irmãos, ao todo 11 pessoas a viver na mesma casa. A casa era pequena, com apenas dois quartos e uma cozinha . Vivíamos todos muito apertados, sem conforto. O meu pai era bordadeiro e trabalhava muito, mas ganhava pouco. A minha mãe não trabalhava, por isso a vida era cheia de dificuldades. Nunca fui à escola, porque desde muito nova tive de ficar em casa a cuidar dos meus irmãos. Passei muita fome. A nossa alimentação era quase sempre à base de pão e milho cozido, e mesmo assim tinha de ser dividida por todos. Havia dias em que não chegava. Cresci habituada à falta de tudo.

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O que significou o 25 de Abril para si?

Quando aconteceu o 25 de abril , senti que algo muito importante estava a acontecer. Durante muitos anos, vivemos com dificuldades, com pouca liberdade e poucas oportunidades, por isso aquele momento trouxe uma grande esperança. Antes do 25 de Abril, havia censura e muito controlo. As pessoas tinham medo de falar e de se expressar livremente. Quem era pobre tinha ainda menos oportunidades de melhorar de vida. A educação não era acessível a todos, e muitos, como eu, nem sequer tiveram a oportunidade de ir à escola. Depois da revolução, começaram a surgir mudanças. As pessoas passaram a poder falar com mais liberdade, sem tanto medo. Houve mais acesso à educação e melhores condições de vida para muitas famílias. A sociedade tornou-se mais justa e com mais igualdade. Para mim, o mais importante foi ver que os meus filhos iam crescer num país diferente daquele em que eu cresci. Um país com mais oportunidades, onde podiam estudar e escolher o seu futuro. Senti que o sofrimento que vivi poderia não se repetir na vida deles, e isso deu-me muita esperança.

Como conheceu o avo ?

Conheci o avo quando tinha 21 anos, no Funchal, na casa de bordados onde ajudava o meu pai. Eu passava grande parte do dia nesse espaço, a trabalhar e a ajudar a minha família, e foi ali que ele começou a aparecer com mais frequência. Ele vinha de uma realidade completamente diferente da minha, mas naquela altura isso não era algo em que eu pensasse muito. Começámos por conversar de forma simples, sobre o trabalho e o dia a dia. Ele mostrava-se muito educado, calmo e interessado em saber mais sobre a minha vida, o que me surpreendia, porque eu vinha de uma vida muito dura e com poucas oportunidades. Com o tempo, essas conversas começaram a ser mais frequentes. Ele tinha estudado em Lisboa, tinha uma visão do mundo muito diferente da minha e gostava muito de matemática e de eletrónica, o que me fazia ver que ele tinha um futuro muito diferente do que eu conhecia. Mesmo assim, nunca me fez sentir inferior. A relação foi crescendo aos poucos, com respeito e alguma admiração mútua. Eu vinha de uma vida de trabalho pesado e dificuldades, enquanto ele tinha tido estudos e estabilidade. Era quase como se fossem dois mundos diferentes que se encontraram naquele espaço simples da casa de bordados. Mais tarde, essa ligação acabou por se tornar mais séria e foi o início da nossa vida em conjunto.

Como foi a sua vida depois de casar?

O teu avo vinha de uma família com melhores condições do que a minha. O pai dele era sargento-mor do exército e a mãe era professora do ensino básico. Sempre tiveram uma vida mais estável e deram-lhe a oportunidade de estudar. Ele estudou em Lisboa e tirou uma licenciatura em eletrónica. Sempre gostou muito de matemática e de tudo o que tinha a ver com números Depois de acabar os estudos, começou a trabalhar na Marconi, que era uma empresa muito importante na área das telecomunicações. Tinha um bom trabalho e um salário estável, o que lhe deu uma vida muito diferente da que eu conheci em pequena. Depois de casar, a minha vida mudou completamente. como o teu avo trabalhava na Marconi e era chefe geral tinha um bom ordenado. Disse-me que eu não precisava de trabalhar mais, e assim foi. Graças a ele, consegui sair da pobreza e também ajudar a minha família. Os meus irmãos passaram a ter melhores condições de vida, o que sempre foi muito importante para mim.

A família foi afetada pela guerra?

Sim, um dos meus irmãos foi para a Guerra do Ultramar. Foi uma fase muito difícil. Vivíamos com medo constante e sem saber se ele ia voltar. Quando regressou, já não era o mesmo. A guerra deixou-lhe marcas profundas, sobretudo a nível psicológico. Naquela altura não havia apoio, e ele nunca conseguiu recuperar totalmente. Acabou por falecer anos mais tarde, o que foi uma grande dor para todos nós.