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O problema da justiça

Diana

Created on April 2, 2026

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Transcript

O problema da justiça

Nuno Júdice

  • 1949-2024
  • Estreou-se em 1972
  • Poesia, ficção e ensaio
  • Professor universitário em Lisboa
  • Recebeu vários prémios literários importantes
  • Escrita combina reflexão e ironia
Ideia central do poema

Os deuses estão furiosos com os homens,porque os homens não querem saber dos deuses:penso que o castigo não deve estar longee olho para o céu, à espera de ver o Juízo Final. O pior é que o céu está vazio; mas um anjo vem ter comigo, e explica-meporquê: «Já ninguém vai para o inferno. Os condenados metem recurso atrás de recurso, eos arcanjos tiveram um esgotamento. São pedro,que não pode com tantos arguidos a bater-lheà porta para entrar no paraíso, gritandoa presunção de inocência, escondeu-seno meio das nuvens. É por isso que o céuestá cheio de nuvens, para ninguém saberem qual delas se esconde.» E o anjo deu-meum cartão: «Se lhe calhar a si uma condenaçãopara o inferno, ou para o purgatório, telefone-meque eu resolvo tudo. Ganhei todos os casos.» Efoi-se embora, arrastanto as asas, coma pasta a abarrotar de papéis.

O poema transforma o Juízo Final numa espécie de tribunal burocrático

Assim, a justiça divina aparece atrsada, confusa e quase absurda.

O problema da justiça, Nuno Júdice

Expectativa e rutura

o problema da justiça

  • Expectativa de castigo divino
  • Olhar para o céu com esperança de julgamento

“Os deuses estão furiosos com os homens, porque os homens não querem saber dos deuses: penso que o castigo não deve estar longe e olho para o céu, à espera de ver o Juízo Final. O pior é que o céu está vazio; (...)"

"(...) o céu está vazio (...)"

  • Ausência de Deus / de justiça
  • Sensação de falha e desorganização

Explicação do anjo

o problema da justiça

  • Surge o anjo para explicar a situação
  • Início da descrição do funcionamento da “justiça”

“um anjo vem ter comigo, e explica-me porquê: «Já ninguém vai para o inferno. Os condenados metem recurso atrás de recurso (...) São pedro, que não pode com tantos arguidos (...) gritando a presunção de inocência (...)"

"(...) «Já ninguém vai para o inferno. Os condenados metem recurso atrás de recurso (...)"

  • Uso de linguagem jurídica
  • Justiça apresentada como burocrática e ineficaz

São Pedro e as nuvens

o problema da justiça

  • São Pedro responsável pelo julgamento
  • Incapacidade de lidar com a quantidade de “arguidos”

“São pedro, que não pode com tantos arguidos a bater-lhe à porta para entrar no paraíso (...) escondeu-se no meio das nuvens. É por isso que o céu está cheio de nuvens, para ninguém saber em qual delas se esconde.»

"(...) São pedro, (...) escondeu-seno meio das nuvens.."

  • Nuvens deixam de simbolizar o divino e passam a esconder
  • Justiça que se oculta e foge à sua função

Ironia e crítica final

o problema da justiça

  • Sistema apresentado como burocrático e bloqueado
  • Tom irónico torna-se mais evidente

"(...) «Se lhe calhar a si uma condenação para o inferno, ou para o purgatório, telefone-me que eu resolvo tudo. Ganhei todos os casos.» E foi-se embora, arrastanto as asas, com a pasta a abarrotar de papéis."

"(...)telefone-meque eu resolvo tudo. Ganhei todos os casos. (...)"

  • Anjo comporta-se como advogado ou intermediário
  • Justiça transformada num sistema manipulável e pouco credível

Juízo Final

Michelangelo

Pintura: ordem e julgamento absoluto Poema: sistema bloqueado e ineficaz Contraste entre ideal e realidade

o problema da justiça

Conclusão

  • A justiça no poema não é apenas divina mas também uma crítica à justiça humana.
  • Quando presa à burocracia, à linguagem técnica e a processos intermináveis, deixa de cumprir a sua função.
  • A pintura de Michelangelo representa a grandeza da justiça divina, enquanto o poema revela a sua falha e lentidão.