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ARTE DO GRAFFITI

Maria Luísa Santos

Created on March 22, 2026

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ARTE DO GRAFFITI

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LUÍSA SANTOS MARCELA CÂNDIDO MANUELA GUITA

introdução

O graffiti é uma forma de expressão artística que surgiu nas ruas e se tornou um importante movimento cultural e artístico em todo o mundo. Começou por estar associado a atos de rebeldia e vandalismo, mas foi evoluindo ao longo das décadas e hoje é reconhecido como uma forma legítima de arte urbana, presente em galerias, museus e espaços públicos. Dois grandes nomes do graffiti são Jean-Michel Basquiat e Keith Haring.

JEAN-MICHEL BASQUIAT

Jean-Michel Basquiat foi um dos artistas mais importantes ligados ao graffiti. Nasceu em 1960, em Nova Iorque (filho de mãe porto-riquenha e pai haitiano). Começou a sua carreira nas ruas assinando com o pseudónimo "SAMO". Os seus trabalhos misturavam palavras, símbolos, figuras e críticas sociais, abordando temas como racismo, desigualdade e poder. Basquiat conseguiu fazer a transição do graffiti para o mundo da arte contemporânea, tornando-se um artista reconhecido internacionalmente. O seu estilo único combinava influências do expressionismo, arte africana e cultura urbana. Mesmo com uma carreira curta, devido à sua morte precoce em 1988, ele deixou um legado duradouro e é considerado um dos artistas mais influentes do século XX.

JEAN-MICHEL BASQUIATOBRAS

Esta é uma das obras mais famosas de Basquiat, "Ironia do Policial Negro" transmite mensagens sociais. Tece duras críticas às práticas racistas que vigoravam (e ainda vigoram) nos Estados Unidos. Este quadro, que combina grafite e pintura expressionista, apresenta um indivíduo no centro. O seu chapéu, que se assemelha a uma gaiola, identifica-o como um agente da Polícia. Nos Estados Unidos da América, a polícia é conhecida pela sua brutalidade, sobretudo com os cidadãos negros. A dualidade de padrões e a violência da autoridade têm sido denunciadas em massa nas últimos anos com o movimento Black Lives Matter. No início da década de 80, Basquiat já alertava para estas questões, perguntando-se porque é que um homem negro se juntaria a uma polícia racista. A profissão, neste caso, é vista como uma outra forma de domínio e opressão. Isso fica explícito com a palavra "pawn" (peão, alguém que é manipulado) no canto inferior direito.

Ironia do Policial Negro (1981)

JEAN-MICHEL BASQUIATOBRAS

Pescaria é umas das obras de graffite mais populares de Basquiat, onde fica evidente o estilo neo-expressionista do pintor. Nota-se a energia, as cores vivas, as pinceladas rápidas e a figura de grandes dimensões.No centro, está um homem com espinhos em volta da cabeça, que carrega uma cana nas costas e segura um peixe pela linha. Os traços brancos mostram ainda o seu esqueleto. Nesta fase da sua produção artística, a influência da street art ainda está muito presente. O quadro foi pintado na época em que Basquiat tinha acabado de trocar os prédios abandonados pelas telas.

Pescaria (1981)

Pescaria (1981)

KEITH HARING

Outro grande nome relacionado ao graffiti é Keith Haring. Foi muito ativo em Nova Iorque nos anos 1980. Ficou conhecido pelos seus desenhos simples, com linhas fortes e figuras icónicas, como pessoas a dançar e cães. Diferente de muitos artistas da época, Haring utilizava espaços públicos como estações de metro para criar as suas obras, tornando a arte acessível a todos. O seu trabalho abordava temas como amor, paz, política, SIDA e direitos humanos. Ele acreditava que a arte deveria ser para todos, e não apenas para galerias.

KEITH HARINGOBRAS

Haring criou este mural como resposta à epidemia de crack que assolava Nova Iorque nos anos 80. Ele sentia-se frustrado com a inação do governo e foi pessoalmente afetado quando o seu assistente de estúdio, Benny, ficou viciado na droga.Pintou este mural, sem autorização, numa parede de um campo no Harlem. Acabou por ser preso por vandalismo e multado. No entanto, a obra tornou-se tão popular e a sua mensagem tão necessária que o comissário dos parques da cidade pediu-lhe que voltasse para repintar o mural oficialmente depois de a versão original ter sido vandalizada.

Crack is wack (1986)

KEITH HARINGOBRAS

Pintar o Muro de Berlim foi um dos atos políticos mais arriscados de Haring. Ele usou apenas as cores da bandeira alemã (preto, vermelho e amarelo). Desenhou uma corrente de figuras humanas interligadas pelas mãos e pés, simbolizando o desejo de união entre a Alemanha Ocidental e a Oriental. Enquanto pintava, soldados da Alemanha Oriental vigiavam-no através do muro com binóculos, pois aquela secção tecnicamente pertencia ao lado Leste. Haring tinha de saltar de volta para o lado Ocidental sempre que se sentia ameaçado. Sabia que a obra era efémera. No dia seguinte à conclusão, outros artistas já tinham pintado por cima de partes do mural. Ele afirmou que a sua intenção era "destruir o muro psicologicamente" através da arte e que a permanência do desenho não era importante.

Mural do Muro de Berlim (Berlim, 1986)

OUTROS ARTISTAS

Banksy

Banksy é o pseudónimo do artista britânico de arte urbana, cuja verdadeira identidade permanece desconhecida. Acredita-se que tenha nascido em Bristol, Inglaterra, por volta de 1974. Começou a fazer graffiti nos anos 1980, durante o crescimento da cultura de arte urbana em Bristol. O seu trabalho utiliza principalmente a técnica de estencil, que lhe permite criar imagens rapidamente nas paredes das cidades. As obras de Banksy surgem frequentemente em espaços públicos e abordam temas como política, consumismo, guerra, desigualdade social e liberdade, utilizando humor e crítica social. Tornou-se mundialmente famoso e algumas das suas obras já foram vendidas por milhões em leilões.

Banksy

- Técnica: stencil -materiais: tinta spray - Suporte: parede urbana -Modo de representação/expressão: Figura humana com pose dinâmica (associado à violência), mas em vez de alguma arma está um ramo de flores, linguagem visual direta, com bastante contraste e simbólica.- Mensagens: O stencil garante clareza gráfica e leitura imediata. A oposição entre gesto violento e flores cria ironia visual. A obra transmite uma mensagem pacifista, defendendo a substituição da violência pelo amor e diálogo. O espaço urbano, especialmente em contexto de conflito, reforça a crítica social. - Tema: crítica à violência e ao conflito. - Sentido e intencionalidade: Mostrar que a paz e o amor podem substituir a violência, criticar a forma como os conflitos são normalmente resolvidos através da força, defender que gestos pacíficos podem ser mais poderosos que armas. O contraste entre a postura violenta e o objeto pacífico (flores) é intencional: Banksy usa-o para provocar reflexão sobre como a sociedade reage aos conflitos.

lOVE IS IN THE AIR 2005, LONDRES

SHOP UNTIL YOU DROP2011, LONDRES

-técnica: stencil -materiais: tinta spray -suporte: parede exterior de um edifício -Modo de representação/expressão: Figura humana em queda livre como se estivesse a saltar de um prédio com ausência de cor.erda de controlo provocada pelo consumismo (simbolizado pelo carrinho de compras). O espaço urbano comercial reforça a crítica ao sistema económico e à cultura das grandes cidades. O espaço urbano comercial reforça a crítica ao sistema económico. Tema: A crítica ao consumo excessivo na sociedade moderna. Sentido e intencionalidade: -Mostrar como a sociedade incentiva as pessoas a comprar constantemente. -Criticar a ideia de que a felicidade depende do consumo. -Sugerir que o consumismo pode levar a uma queda moral, social ou económica. A queda da mulher simboliza como o consumo exagerado pode levar à perda de controlo e de valores.

STOP AND SEARCH2007, BETHLEHEM

-técnica: stencil -materiais: tinta spray -suporte: parede exterior de um edifício -Modo de representação/expressão: Figura humana em queda livre como se estivesse a saltar de um prédio com ausência de cor.-Mensagens: A inversão de poder cria impacto e questiona a autoridade, a criança simboliza inocência, fragilidade e humanidade e o soldado armado representa poder institucional e controlo militar. Tema: A crítica ao poder e a autoridade. Sentido e intencionalidade: -Questionar o abuso de poder das autoridades. -Mostrar a vulnerabilidade da inocência (a criança) perante a força militar. -Criar uma inversão de papéis para expor o absurdo de certas práticas de controlo e vigilância.

Bordalo II

Bordalo II é o nome artístico de Artur Bordalo, um artista urbano português nascido em Lisboa, em 1987. Desde cedo demonstrou interesse pela arte, inspirado pelo seu avô, que também era pintor. Começou a fazer graffiti aos 11 anos, pintando muros com spray e desenvolvendo a sua criatividade nas ruas. Ficou conhecido internacionalmente pelas suas grandes esculturas e murais feitos com lixo e materiais reciclados, como plástico, metal ou pneus. Estas obras representam frequentemente animais e têm como objetivo alertar para problemas ambientais, como a poluição e o consumo excessivo de recursos. Bordalo II define o seu trabalho como “artivismo”, uma combinação de arte com ativismo ambiental.

HALF RABBIT2017, VILA NOVA DE GAIA

- técnica: assemblage e escultura mural em relevo- materiais: lixo reutilizado (plásticos, pneus, sucata, metais, madeira), tinta spray -suporte: fachada de edifício -modo de representação/expressão: um coelho feito de lixo, procura expressar o lixo produzido pela humanidade e seus impactos na natureza.-mensagens: A obra é uma crítica ao desperdício da sociedade moderna. -tema: Poluição ambiental -Sentido e intensionalidade: A intenção do artista é mostrar a contradição entre a beleza dos animais e os resíduos produzidos pelos humanos, alertando para a necessidade de reduzir o lixo e proteger o ambiente.

técnica: técnica mista + assemblage + aerossol + tinta plástica -materiais:plásticos, fragmentos metálicos, pneus, sucata e tinta spray -suporte: parede urbana -modo de representação/expressão: é um símbolo de sabedoria e cultura. A utilização de lixo chama atenção para a destruição dos habitats naturais-mensagens: a imagem é vista como uma crítica ao consumismo e à poluição utilizando o material que representa a destruição e a poluição. Tema: Relação entre o ser humano, a cidade e a natureza. Intenção: Chamar a atenção para o impacto ambiental causado pela atividade humana. Sentido: Os olhos da coruja, animal associado à sabedoria e observação, parecem vigiar a cidade. A obra sugere que a natureza está constantemente “a observar” as ações humanas, funcionando como uma crítica ao descuido com o ambiente.

OWL EYES2014, CASTELO BRANCO

Owl eyes, 2014 Castelo Branco

RED SQUIRREL2014, CASTELO BRANCO

-técnica: assemblage e escultura mural em relevo - materiais: resíduos plásticos e industriais e tinta spray -suporte: edifício urbano -modo de representação/expressão: Figura dinâmica e naturalista, cores vibrantes contrastando com os materiais reciclados com volume e profundidadeMensagens: Criar o animal com lixo evidencia que a ação humana ameaça a biodiversidade. O tema: ameaça à biodiversidade e à vida animal causada pelas atividades humanas. A intenção e sentido: é sensibilizar o público para a preservação das espécies e dos habitats naturais.

Vhils

Vhils é o nome artístico de Alexandre Farto, um artista português nascido em Lisboa, em 1987. Começou a fazer graffiti ainda jovem, pintando muros e comboios na região de Lisboa. Mais tarde estudou arte em Londres, onde desenvolveu o seu estilo próprio.Vhils tornou-se conhecido por uma técnica inovadora: em vez de pintar as paredes, ele escava ou remove camadas da superfície, criando retratos e imagens diretamente nos muros. As suas obras exploram temas como identidade, memória, urbanização e a relação entre as pessoas e a cidade. Hoje, o seu trabalho pode ser visto em várias cidades do mundo

Vhils é o nome artístico de Alexandre Farto, um artista português nascido em Lisboa, em 1987. Começou a fazer graffiti ainda jovem, pintando muros e comboios na região de Lisboa. Mais tarde estudou arte em Londres, onde desenvolveu o seu estilo próprio.Vhils tornou-se conhecido por uma técnica inovadora: em vez de pintar as paredes, ele escava ou remove camadas da superfície, criando retratos e imagens diretamente nos muros.As suas obras exploram temas como identidade, memória, urbanização e a relação entre as pessoas e a cidade. Hoje, o seu trabalho pode ser visto em várias cidades do mundo

-técnica:scraping / escultura em relevo na superfície Materiais: martelos pneumáticos, berbequins, cinzéis, martelos manuais e explosivos. -suporte:rampa de acesso de pedra -modo de representação/expressão: Representação figurativa do rosto de José Saramago, criada através de intervenção na superfície da pedra e visível especialmente quando a água recua.-mensagens: valorização da cultura portuguesa, homenagem à literatura e preservação da memória de uma figura importante da sociedade Tema: Cultura, memória e valorização de figuras marcantes da sociedade. Intenção: Homenagear o escritor José Saramago e destacar a importância da literatura e do pensamento crítico. Sentido: Ao gravar o rosto na parede através da técnica de escavação, o artista simboliza como a obra e o pensamento de Saramago ficaram “gravados” na cultura e na história.

JOSÉ SARAMAGO 2020, LOURINHÃ

ria Évora, 2019 Ilha de São Vicente

CESÁRIA ÉVORA 2019, ILHA DE S. VICENTE

-técnica:scraping / escultura em relevo na superfície -materiais: berbequim, cinzéis e martelos -suporte: fachada de uma biblioteca -modo de representação/expressão: A imagem é lida através do contraste entre as partes que ficaram intactas (tons escuros/superfície original) e as partes escavadas (tons claros/interior do material).-Mensagens: Como é comum no trabalho de Vhils, a obra explora a forma como as figuras históricas moldam o caráter dos lugares onde viveram, e como esses lugares, por sua vez, preservam a sua história. Tema: Identidade cultural e homenagem a figuras importantes da música. Intenção: Celebrar a cantora Cesária Évora e reconhecer o seu impacto na cultura cabo-verdiana e na música mundial. Sentido: O retrato monumental reforça a ideia de que a artista é um símbolo da cultura de Cabo Verde e da ligação cultural entre diferentes povos de língua portuguesa.

--técnica: scraping / escultura em relevo na superfície -materiais: gesso e alvenaria, berbequim, martelos pneumáticos, cinzéis e martelos manuais -suporte: parede de alvenaria urbana -modo de representação/expressão: Vhils esculpiu o rosto de Siobhan diretamente em camadas de gesso e alvenaria. A obra não utiliza tinta; a imagem é revelada através da remoção de material, criando um contraste entre as profundezas claras do suporte e a superfície original escura-mensagens: Ao escolher uma DJ e influenciadora como Siobhan Bell, a obra celebra o papel vital das comunidades criativas contemporâneas na definição da alma de Londres, elevando uma figura da subcultura ao estatuto de monumento urbano Tema: Identidade humana e valorização de pessoas comuns. Intenção: Dar visibilidade a indivíduos reais que fazem parte da comunidade e representam a diversidade das cidades. Sentido: O retrato gravado na parede simboliza como cada pessoa deixa a sua marca na sociedade e na história do lugar onde vive.

PORTRAIT OF SIOBHAN BELL 2018, LONDRES

ConclusÃO

As obras de Bansky, Bordalo II e Vhils, têm em comum o facto de serem arte urbana e, desta forma, transmitirem mensagens sociais ao público. Nas obras de Bansky referidas, "Love Is in the Air", "Shop Until You Drop" e "Stop and Search", o artista critica vários problemas da sociedade como a violência, o consumismo e a autoridade. Nas obras de Bordalo II que referimos no nosso trabalho, "Half Rabbit", "Owl Eyes" e "Red Squirrel", usa lixo e materiais reciclados para criar animais e alertar para os problemas ambientais. Já Vhils, com as obras "José Saramago", "Cesária Évora" e "Portrait of Siobhan Bell", ao criar retratos esculpidos nas paredes, foca-se na identidade e nas pessoas.