"Gociante Patissa: Jornalismo, Literatura e Memória de Angola"
17 de dezembro de 1978
Gociante Patissa: A Voz de Benguela na Literatura Pós-Conflito
Gociante Patissa (Daniel Gociante Patissa, 1978) representa uma das vozes mais autênticas da chamada Geração Pós-Conflito em Angola. Natural de Monte Belo, na província de Benguela, o autor afirma-se no cenário literário após o fim da guerra civil (2002), num momento em que a escrita angolana se liberta do imperativo nacionalista para explorar as fraturas sociais, a memória da guerra e a quotidianidade contraditória do novo milénio. A sua escrita é profundamente marcada pelo diálogo entre a língua portuguesa e a língua umbundu, integrando heranças da oralidade africana em formas literárias modernas como o conto, a novela e a crónica. Obras como A Última Ouvinte e O Consulado do Vazio evidenciam a sua capacidade de satirizar a realidade política e social, sem perder o vínculo com a identidade regional e com o universo camponês de Benguela. Enquanto jornalista, ativista cultural e promotor da língua umbundu, Patissa contribui para descentralizar o cânone literário angolano — frequentemente concentrado em Luanda — ao escrever a partir das margens geográficas e simbólicas. A sua obra não se reduz ao registo ficcional: funciona também como exercício de preservação cultural e de investigação social, tornando-o uma referência incontornável para compreender a Angola contemporânea, as tensões do período pós‑guerra e a emergência de novas subjetividades angolanas.
As Raízes de Monte Belo: A Formação de Gociante Patissa
Daniel Gociante Patissa nasceu em 1978 na comuna do Monte Belo, município da Ganda, província de Benguela. A infância e a adolescência decorrem num ambiente rural profundamente marcado pelos anos mais intensos da guerra civil pós‑independência, cujas dinâmicas sociais e violências atravessam a sua memória e mais tarde a sua ficção.Crescer em Monte Belo foi determinante para a sua identidade literária. No seio familiar, Patissa absorve a tradição oral umbundu – histórias, provérbios, genealogias – que mais tarde transpõe para a escrita. A imersão nessa oralidade permite‑lhe construir uma obra que não apenas utiliza o português, mas que pensa e sente a partir das estruturas e imaginário da sua língua materna.
A localização periférica de Monte Belo, distante dos grandes centros urbanos como Luanda, confere à sua visão de mundo uma perspetiva descentralizada. Na adolescência, observa de perto as dificuldades das comunidades rurais, o isolamento e as estratégias de sobrevivência diante da guerra, experiências que se convertem em matéria‑prima para a crítica social e para as personagens que habitam as margens da sociedade angolana.
Apesar das limitações impostas pelo conflito na região de Benguela nas décadas de 1980 e 1990, o jovem Patissa encontra na leitura e, depois, no jornalismo, instrumentos para organizar e interpretar essas vivências. Esta fase inicial em Monte Belo constitui o alicerce de toda a sua obra e explica a constante preocupação em documentar a memória coletiva e a cultura das populações do planalto central angolano.
"Gociante Patissa: Umbundu e a Nova Literatura Angolana Pós-Conflito"
A oralidade umbundu e a biblioteca do pai funcionam como dois eixos fundadores da formação de Gociante Patissa, que depois se reencontram na sua escrita. Na infância, Patissa cresceu num ambiente em que a oralidade umbundu era central: histórias, provérbios, canções e anedotas transmitidos em família e na comunidade. Essa experiência marca a sua literatura, visível no uso sistemático de provérbios umbundu em livros como Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas, onde a língua umbundu estrutura o modo de pensar das personagens e reforça a dimensão ética e comunitária dos contos. Críticos sublinham que a “angolanidade” e a força da sua obra passam justamente por esse trânsito entre umbundu e português, com a incorporação de léxico e ritmos da fala vernacular no texto escrito.Em entrevistas e textos autobiográficos, o autor refere ter tido a “sorte” de ter pais que transformaram a casa num espaço de transmissão de oralidade e de acesso a livros, funcionando quase como uma pequena biblioteca familiar. Essa biblioteca paterna, associada ao incentivo à leitura, ofereceu-lhe contacto precoce com a literatura em português e permitiu-lhe comparar o universo dos livros com o mundo contado em umbundu à volta da fogueira. A combinação entre esses dois repertórios – o escrito e o oral, o português e o umbundu – explica a versatilidade genérica de Patissa (conto, novela, poesia, crónica) e alimenta a sua preocupação em preservar, registrar e atualizar a memória cultural do planalto central angolano.
"A Palavra em Análise: O Olhar do Linguista na Obra de Patissa"
A formação académica de Gociante Patissa constitui o terceiro pilar que sustenta a sua obra, articulando a sensibilidade literária com uma consciência linguística rigorosa. Licenciado em Ensino da Língua Inglesa (Linguística/Inglês), o autor desenvolve uma relação crítica com a linguagem, aprendendo a “desmontar” e reconstruir o discurso. O estudo da Linguística permite‑lhe encarar o português e o umbundu não apenas como meios de comunicação, mas como sistemas em contacto; na sua escrita, as interferências entre ambas as línguas são usadas de forma consciente para forjar um estilo angolano assumidamente híbrido. O domínio da língua inglesa abre‑lhe ainda o horizonte das literaturas anglófonas – em particular a produção africana de expressão inglesa – aproximando‑o de autores que, como ele, escrevem a partir da tensão entre a tradição local e a língua herdada da colonização. Com esta base académica, Patissa transforma‑se num verdadeiro “arqueólogo” das palavras: mais do que escrever ficção, investiga etimologias, provérbios e estruturas gramaticais que ajudam a compreender e a fixar a identidade linguística e cultural do planalto central de Angola.
«Você vais bater uma mulher grávida, lhe empurras nas escadas, ferir a filha alheia?! Não sabes que isso é matar a tua própria mãe?» — provérbio benguelense partilhado no blogue, condenando violência doméstica.
"Do Ecrã às Letras: Gociante Patissa e o Laboratório do 'Comboio da Amizade'"
Antes de se consolidar como uma das figuras centrais da literatura angolana contemporânea, Gociante Patissa trilhou um caminho decisivo na comunicação social. O seu início nesta área está ligado ao programa “Comboio da Amizade”, emitido pela Televisão Pública de Angola (TPA) em Benguela, onde, ainda muito jovem, experimenta a reportagem e a apresentação. A participação neste projeto infantil e juvenil funcionou como um verdadeiro laboratório linguístico. No “Comboio da Amizade”, o jovem comunicador exercita a concisão, a clareza e, sobretudo, a proximidade com o público, aprendendo a traduzir o quotidiano em linguagem acessível. Esta fase é fundamental para que desenvolva a capacidade de captar a “pulsação” das ruas e a linguagem das novas gerações de Benguela. A dinâmica da comunicação televisiva e radiofónica influencia diretamente a sua estética literária. É nesse contexto que Patissa apura o olhar de observador do quotidiano, transformando episódios banais em narrativas densas, e que treina a agilidade narrativa exigida pelo guionismo e pela apresentação – traços que mais tarde se reconhecem na estrutura das suas crónicas e contos, marcados pelo ritmo da fala e pela vivacidade dos diálogos.
Através da TPA, Gociante Patissa assume-se como mediador cultural num período de transição em Angola. O programa serve de plataforma para promover cidadania e identidade local, permitindo-lhe passar do papel de “ouvinte” das histórias de Monte Belo ao de narrador da realidade angolana perante um público alargado. Este início na comunicação é, assim, o prelúdio necessário para o escritor que, mais tarde, usará a pena para prolongar, no papel, a voz que primeiro ecoou nos ecrãs de Benguela.
"A Pena de Intervenção: Gociante Patissa e o Jornalismo como Laboratório Literário"
Gociante Patissa constrói, em paralelo à escrita literária, um percurso sólido na comunicação social e no jornalismo cultural. Começa ainda muito jovem na Televisão Pública de Angola, em Benguela, no programa infantil e juvenil “Comboio da Amizade”, onde experimenta a reportagem e a apresentação. Essa vivência funciona como laboratório de linguagem e de escuta do quotidiano, afinando a capacidade de falar com clareza e proximidade para um público amplo.Mais tarde, reforça essa vertente como colaborador do Jornal Cultura, onde publica crónicas, entrevistas e reflexões sobre literatura, língua e sociedade angolana. A partir daí, consolida-se como uma voz crítica do campo cultural, particularmente em torno da valorização das línguas nacionais. Integra também a Gazeta Lavra & Oficina, ligada à União dos Escritores Angolanos, chegando a assumir funções editoriais. Nesta revista, atua como mediador entre diferentes gerações de escritores, ajudando a divulgar novas vozes e a pensar o lugar da literatura num país em reconstrução pós‑conflito.
Toda esta atividade jornalística e editorial reforça a sua obra de ficção. O treino de observação, a atenção às falas reais e a necessidade de síntese discursiva atravessam os seus contos e crónicas, que frequentemente assumem a forma de registo do quotidiano e comentário social. Ao mesmo tempo, a sua presença nos media e nas publicações culturais faz dele um mediador entre o campo literário e a esfera pública, usando a palavra – oral e escrita – para interrogar a Angola contemporânea.
Guardião da Identidade: Gociante Patissa e o Ativismo pelas Línguas Nacionais
Para além da criação literária, Gociante Patissa afirma-se como um dos mais dinâmicos ativistas culturais da Angola contemporânea. O seu trabalho transcende o papel do escritor solitário para se tornar uma missão de salvaguarda do património imaterial, centrada na valorização das línguas nacionais e no descentramento da cultura angolana.Como linguista de formação e falante nativo, Patissa combate a marginalização das línguas africanas no sistema de ensino e na literatura. Para si, o umbundu não é mero dialeto doméstico ou relíquia do passado, mas uma língua viva, capaz de expressar a complexidade do pensamento moderno. Nas suas obras, a introdução de termos e estruturas sintáticas umbundu não constitui adorno exótico, mas ato político de resistência contra a uniformização linguística, forçando o português a dialogar com a mundividência do Planalto Central. Atua assim como mediador, trazendo a filosofia banto e os provérbios para o debate intelectual urbano, garantindo que esses saberes não se percam na modernidade. Um dos contributos maiores é a persistência em produzir e dinamizar cultura a partir de Benguela. Ao recusar o êxodo para Luanda – centro das decisões e do mercado editorial –, Patissa prova que a periferia geográfica pode ser centro de excelência intelectual. Através de palestras, workshops e presença na imprensa regional, incentiva a leitura e a escrita entre jovens, funcionando como mentor de novos talentos.
Para Patissa, o ativismo cultural é cidadania ativa. Nas redes sociais, no jornalismo e em fóruns literários, denuncia a exclusão cultural e defende uma Angola plurilingue e descentralizada. Esta postura consagra-o como “arquivo vivo” e defensor incansável da memória coletiva do seu povo.
"O Jango da Escrita: Oralidade e Realismo na Obra de Gociante Patissa"
Gociante Patissa constrói uma obra literária variada e consistente, transitando entre conto, novela, poesia e crónica, sempre ancorada na experiência angolana pós-conflito e na valorização do interior do país. Entre as principais publicações destacam-se A Última Ouvinte (2010), livro de contos que marca a sua estreia na prosa ficcional, centrado em personagens marginais e na memória rural de Benguela; Não tem Pernas o Tempo (2013), uma novela que explora a passagem do tempo e as sequelas da guerra civil através de narrativas familiares; e Guardanapo de Papel (2014), recolha de poesia publicada em Portugal, com tons intimistas e reflexões sobre identidade e perda.Outros títulos fundamentais incluem Fátussengóla, o Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas (2015), onde a rádio comunitária serve de pretexto para sátira social e preservação linguística; Almas de Porcelana (2016), poesia reunida no Brasil que enfatiza a fragilidade humana e a resistência cultural; e O Homem que Plantava Aves (2017), contos que retratam o quotidiano imprevisível do campo angolano, entre fábula e realismo mágico. Estas obras consolidam-no como autor de referência na Geração Pós-Conflito, com edições em Angola, Portugal e Brasil.
"O Jango da Escrita: Oralidade e Realismo na Obra de Gociante Patissa"
Os temas recorrentes orbitam em torno da identidade angolana, articulada entre o rural e o urbano, o umbundu e o português, num registo de memória coletiva pós-guerra. A imprevisibilidade da vida manifesta-se nas contradições do presente – oportunismo, corrupção, mas também solidariedade comunitária –, enquanto as línguas locais, especialmente o umbundu, funcionam como veículo de resistência cultural, incorporando provérbios e expressões que densificam o pensamento das personagens e preservam filosofias bantu. No plano estilístico, Patissa mistura realismo cru com oralidade africana: diálogos vivos que captam o ritmo da fala vernacular, estruturas narrativas que evocam a contação de histórias à fogueira e um hibridismo linguístico intencional, com interferências do umbundu no português. Este estilo autêntico, entre crónica jornalística e fábula moral, dá corpo a uma Angola descentralizada e plurilingue, refletindo a sua formação linguística e o ativismo cultural.
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
«Tríade «Pedra, Tempo e Obra» Na madrugada
acelera-se a pulsação
no movimento irreversível do tempo
os fantasmas da responsabilidade cantam
ecoam as lembranças
é a despedida do repouso
De dia
o suor espalha-se
pelos poros afora
na orquestra de quem trabalha
estradas rasgam-se na curva dos seios
na nudez do arco-íris
a vida é infindável caminhada
De noite
o corpo exausto cobra pelo descanso
os olhos carregados enganam as almas
que adormecem masturbadas
Ontem foi partida
hoje é caminhada
e o amanhã uma promessa ainda in Consulado do Vazio
Consulado do Vazio (2008) marca a estreia poética de Gociante Patissa como uma voz introspectiva e interventiva da literatura angolana contemporânea, centrada no vazio existencial e na memória cultural umbundu.
O livro reúne poemas escritos ainda durante o período da guerra em Angola e reflete o envolvimento do autor com a sociedade civil, apresentando apelos ao fim do conflito armado e mensagens de esperança. A obra explora o vazio existencial e temporal, com versos que reflectem sobre o movimento irreversível do tempo, fantasmas da memória e a condição humana num contexto angolano pós-independência. Poemas como os da tríade «Pedra, Tempo e Obra» destacam-se pela introspeção, usando imagens simples do quotidiano rural para questionar a efemeridade da vida e a busca por significado. No panorama da literatura umbundu, o livro marca o início da trajectória de Patissa, misturando oralidade local com sensibilidade moderna, sem cair em nostalgia excessiva.
Poema «Tríade: Pedra, Tempo e Obra» estrutura-se em três momentos cíclicos — madrugada, dia e noite —, simbolizando a tríade Pedra (estabilidade/suor do labor), Tempo (movimento irreversível) e Obra (fruto da existência).
A madrugada introduz a pulsação acelerada do tempo, com «fantasmas da responsabilidade» que ecoam memórias, marcando o fim do repouso e o peso da consciência angolana pós-independência. De dia, o suor do trabalho colectivo (orquestra, estradas nos seios da terra) evoca a luta quotidiana, transformando a nudez do arco-íris numa «infindável caminhada» de resiliência rural umbundu. À noite, o cansaço trai as almas num sono ilusório («masturbadas»), criticando a alienação após o esforço.
Contemplação
Contemplei a equação da calema
um tanto brava
e ao mesmo tempo de toques ternos
afaguei as águas que no vai-e-vem
talvez química biologia - não sei
conservam o eterno frio sob azul
Li em cada movimento um verso
descontraído ajoelhado
como se a rezar o terço
mas a vida não é como mar
tem escala relógio e bumbar
o dever não quis esperar
e tive de zarpar
in Consulado do Vazio
Não se fez manhã ainda
Sou mais um
um mais apenas
entre milhares de anónimas penas
Pinto nestas linhas de poema desarmado
um marco de respeito pelas ideias
que morreram no peito
sem terem subido à boca
ou descido às mãos
ou beijado montras
Àqueles cuja imaginação e sonhos
se tornaram predilectos rivais
empresto uma certeza
com o calibre das outras e algo mais
não se fez manhã ainda
e não há obstáculo cricial
quando vai o coração aos pedais
in Consulado do Vazio
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
Canos soltaram gargalhadas
E no rosto desse sonho sem fim
que já passou da idade de ir à escola
pintam-se telas de alegres destinos
traçados com vontade e certezas cantadas
os gatilhos não mais cumprirão os dedos
o automatismo que os envaidece adormecerá
blindados sentar-se-ão no chão
esquecidos
enferrujados
as covas não mais serão notícia.
in Consulado do Vazio
Este poema de Consulado do Vazio (2008) apresenta uma pausa lírica na contemplação da natureza, personificando o mar como «equação da calema» — ondas bravias mas ternas —, contrastando o eterno ritmo natural com a urgência humana.
O eu lírico «afagueia» as águas num «vai-e-vem» misterioso («química biologia — não sei»), lendo «versos» no movimento azul que guarda «eterno frio». Ajoelhado «como se a rezar o terço», evoca espiritualidade umbundu, mas o «dever» impõe «escala relógio e bumbar», forçando-o a «zarpar».
Este poema de Gociante Patissa, presente em Consulado do Vazio (2008), celebra a vitória simbólica da paz sobre a guerra, usando imagens vívidas e contrastantes para evocar esperança num futuro pós-conflito angolano. A abertura com «canos soltaram gargalhadas» personifica armas (canos de espingardas) como riendo de alívio, invertendo o terror bélico em alegria. O «sonho sem fim / que já passou da idade de ir à escola» representa uma nação adulta, madura para «telas de alegres destinos» pintadas com «vontade e certezas cantadas» — uma Angola que troca violência por criação cultural.
Este poema de Consulado do Vazio (2008) evoca a luta silenciosa das ideias reprimidas numa Angola pós-guerra, onde o eu lírico se assume como «mais um» entre «milhares de anónimas penas», pintando com versos «desarmados» um tributo às vozes caladas.
A ausência de «manhã» simboliza um amanhecer adiado — metáfora para liberdades adiadas —, enquanto ideias «morreram no peito / sem terem subido à boca / ou descido às mãos». Contrasta rivais «predilectos» (opressores de sonhos) com a «certeza» poética, que pedala sem «obstáculo cricial» guiada pelo coração.
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
NÃO SE FEZ MANHÃ AINDA
Sou mais um
um mais apenas
entre milhares de anónimas penas
Pinto nestas linhas de poema desarmado
um marco de respeito pelas ideias
que morreram no peito
sem terem subido à boca
ou descido às mãos
ou beijado montras
Àqueles cuja imaginação e sonhos
se tornaram predilectos rivais
empresto uma certeza
com o calibre das outras e algo mais
não se fez manhã ainda
e não há obstáculo crucial
quando vai o coração aos pedais.
in «Consulado do Vazio»
CENÁRIOS DO FUTURO
Pelas artérias da cidade vão
calcorreando atrás do pão
já não surpreende o “não!”
ter sonhos é em vão
A vida é para a frente
e sempre em frente caminham
são um investimento perigoso
cenários do amanhã
de um futuro sem gozo
Na dor basta um “ai!”
mãos de pedinte não podem ambicionar mais
quando não se tem direito
a ter medo do relento
só deus pode ser pai
São o templo vazio
as vítimas do progresso
as lacunas do amor
preenche-as o quotidiano terror
seus azares desfilam
nos pregões dissonantes
perdidos na densidade do silêncio
A vida é para a frente
e sempre em frente caminham
são um investimento perigoso
cenários do amanhã
de um futuro sem gozo.
in «Consulado do Vazio»
SONHOS DE RUA
No dia de São Valentim
vou apanhar flores
e guardá-las bem perto de mim
debaixo do meu banco de jardim
e tenho a certeza de que logo à noite
a morena miss dos meus sonhos
a sua prenda virá reclamar
sou criança de rua
mas tenho o sonho
na conta do que a sorte me negar
in «Consulado do Vazio»
«Sonhos de Rua» de Consulado do Vazio (2008) revela a pureza infantil face à adversidade, com o eu lírico — «criança de rua» — a planear apanhar flores no Dia de São Valentim, escondendo-as «debaixo do meu banco de jardim» para atrair a «morena miss dos meus sonhos».
A espera ingénua («a sua prenda virá reclamar») contrasta a miséria material («o que a sorte me negar») com a abundância onírica, transformando o banco público em altar romântico. O sonho compensa a rua, preservando dignidade através da imaginação.
Este poema de Consulado do Vazio (2008) apresenta o eu lírico como «mais um» entre «milhares de anónimas penas», erguendo com versos «desarmados» um tributo às ideias sufocadas — mortas «no peito» sem voz, gesto ou visibilidade pública («beijado montras»).
A «manhã» adiada simboliza liberdades reprimidas numa Angola pós-independência, onde sonhos enfrentam «predilectos rivais» (opressores). A resposta é uma «certeza» poética de maior calibre, movida pelo «coração aos pedais» — ciclismo como metáfora de progresso resiliente sem «obstáculo crucial».
«Cenários do Futuro» de Consulado do Vazio (2008) pinta um retrato cru da exclusão urbana angolana, onde multidões «calcorreando atrás do pão» persistem «sempre em frente» apesar do «não!» constante e sonhos tornados vãos.
A repetição refrão («A vida é para a frente / [...] cenários do amanhã / de um futuro sem gozo») sublinha marcha mecânica rumo a progresso ilusório, onde pedintes sem «direito a ter medo do relento» são «investimento perigoso» — descartáveis para a cidade.
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
Inserido na novela O Consulado do Vazio, o poema «Disse a minha mão» funciona como manifesto estético e ético de Gociante Patissa. Nele, a escrita não é vaidade, mas missão visceral e compromisso inadiável com a condição humana angolana. A personificação da mão que «ordena» escrever sugere uma necessidade biológica da literatura. Esta assume-se como equalizador social: «falaríamos como ricos / ou ouviríamos como pobres» posiciona o escritor como ponte entre mundos, dando autoridade aos desfavorecidos e sensibilidade aos privilegiados. Num país marcado por abismos sociais, a literatura cria espaço para diálogo nacional. As metáforas revelam a profundidade do compromisso: «abrir o poço no deserto» simboliza esperança onde há escassez; «partilhar o tutano» entrega a essência vital ao coletivo. Escrever é advocacia – ferramenta jurídica e moral em defesa dos silenciados.
O poema culmina com o escritor como «bálsamo» para «milhares de vozes» e gerações que «farejam pingos de luzes». Numa Angola em cura, a palavra ilumina e emancipa, guiando da sombra para a cidadania plena.
Disse a minha mão Disse a minha mão que escrevêssemos
porque escrevendo
ou falaríamos como ricos
ou ouviríamos como pobres
ou vice-versa
Disse a minha mão que escrevêssemos
porque escrevendo
ou abrimos o poço no deserto
ou o nosso tutano partilhamos
Disse a minha mão que escrevêssemos
porque escrevendo advogamos
seremos o bálsamo
para milhares de vozes
de almas e gestações farejando pingos de luzes in Consulado do Vazio
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
Lá vai mais uma dobrando a esquina
de pregão firme como a voz do tambor
humilhada aos poucos pelo sol
nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor
Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo
veja esta
nos olhos encarnados grita despercebida
uma mulher mal amada
nunca descoberta
rainha de etapas queimadas
ele que devia ser companheiro
é de se esconder no copo
quando os ventos são ásperos
autêntico chá em taças de champanhe
não estar disposta para mais um suor sagrado
é para ele frontal apelo à violência
habituada a levar da cara
Por aqui passou mais uma profissional da zunga protagonista anónima com mil mestrados da vida
contudo não contada na segurança social
para o turista uma espécie de paisagem
rosto de uma noite que lançou a mulher
às avenidas dialécticas dos centros urbanos
no seu dever de sustentar a sociedade
a mesma que a condenará antes de amanhecer
por não participar da vida política
ou por não saber ler
nem escrever in «Consulado do Vazio»
ÁFRICA MÃE ZUNGUEIRA Esta que se aproxima
carrega uma criança às costas
e outra no ventre
uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa
lembrando que é hora de parar e amamentar
e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar
gestora de um ovário condenado a não parar
porque é património social
penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade
Conhece bem demais a cidade
não tanto pelos monumentos
mas pela necessidade
viandante como a borboleta
fez-se fiel e histérica amante
da lei da compra e venda de porta à porta
uma lei entretanto não prevista por lei
“depender só do marido? Nunca”
mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes
no estômago só o funji do jantar de ontem
sem tempo sequer para escovar os dentes
"Ecos do Quotidiano: Oralidade e Observação Social em A Última Ouvinte"
Publicada em 2010 pela União dos Escritores Angolanos, a obra A Última Ouvinte consolida Gociante Patissa como uma das vozes mais lúcidas da narrativa curta angolana contemporânea. Abandonando o lirismo puro da sua estreia poética (Consulado do Vazio, 2008), mergulha num realismo social apurado, onde Benguela e as suas sanzalas servem de palco a dramas humanos universais. O livro reúne sete contos — janelas para a Angola profunda —, destacando-se a mestria de Patissa na transposição da oralidade para a escrita. Inspirada nas histórias junto à fogueira da infância benguelense, a linguagem ágil e rítmica preserva o sabor da fala local sem regionalismos herméticos. No conto-título, exploram-se ilusões e solidão moderna através da relação entre locutor (Cassule) e ouvinte (Esperança da Graça), tetraplégica cuja voz revela dignidade além do corpo. Em Os Dentes do Soba, confrontam-se tradição ancestral e influência colonial/missionária.
Mais que ficção, A Última Ouvinte é escuta sociológica: Patissa observa personagens com ironia fina e empatia profunda, captando contradições entre cicatrizes do passado e urgências presentes. Para a literatura angolana, descentraliza o olhar, provando que periferias geográficas são centros narrativos inesgotáveis.
"Oralidade e Desenraizamento: Uma Análise da Novela Não Tem Pernas o Tempo"
Não Tem Pernas o Tempo (2013), novela de Gociante Patissa publicada pela União dos Escritores Angolanos em Luanda, mergulha na memória familiar e coletiva de uma comunidade do interior de Benguela, marcada pela guerra civil angolana. A narrativa acompanha gerações de uma família rural, entrelaçando passado e presente através de histórias orais transmitidas em círculos familiares. O tempo, que «não tem pernas», rasteja implacável, deixando cicatrizes de deslocações forçadas, perdas e tentativas de reconstrução num pós-conflito ainda frágil. Patissa recria os anos 1980–1990 no Planalto Central: violência quotidiana, campos de deslocados, mas também a resiliência das tradições umbundu e a solidariedade comunitária. Os temas centrais giram em torno da transmissão intergeracional de memórias, da imprevisibilidade da vida angolana contemporânea e do desenraizamento face à migração para Luanda e às promessas não cumpridas da paz. O estilo combina realismo cru com oralidade africana: diálogos vivos, provérbios umbundu como eixos morais, hibridismo linguístico que dá voz autêntica às personagens rurais.
A novela destaca-se como um dos trabalhos mais pessoais de Patissa, com claros traços autobiográficos ligados a Monte Belo, consolidando-o como voz essencial da literatura pós-conflito, descentrada de Luanda e plurilingue.
"A Palavra que não se Apaga: Fragilidade e Memória em Guardanapo de Papel"
Guardanapo de Papel (2014) é um livro de poesia de Gociante Patissa, publicado em Portugal, que reúne poemas intimistas e reflexivos, marcados pela experiência pessoal e pela observação do quotidiano angolano.A obra explora a fragilidade da existência humana – metaforizada no guardanapo, objecto efémero e descartável – em contraste com a permanência da memória e da palavra escrita. Os poemas abordam a perda, a saudade da terra natal (Monte Belo), a tensão entre o rural e o urbano, e a identidade angolana num mundo em mudança. Há também uma forte presença da oralidade umbundu, com provérbios e imagens que evocam a sabedoria comunitária. Patissa adota um registo coloquial e direto, próximo da fala, com versos curtos e rítmicos que lembram a contação oral. O hibridismo linguístico está presente: palavras e sintaxes umbundu entrelaçam-se ao português, criando uma voz poética autêntica e plurilingue. O tom oscila entre melancolia, ironia e esperança, reflectindo a imprevisibilidade da vida pós-conflito. Publicado fora de Angola, este livro marca a internacionalização de Patissa e mostra a sua versatilidade genérica, passando da prosa para a poesia lírica. É uma obra de transição, que liga a experiência autobiográfica à maturidade estilística das publicações seguintes, consolidando temas recorrentes como a memória, a língua e a resistência cultural.
"O Asfalto e a Raiz: A Resistência do Olhar em Sem Vida no Pé"
Este poema de Guardanapo de Papel (2014) retrata a dignidade silenciosa do trabalhador rural angolano, cuja existência é definida pela repetição quotidiana e pela perda física – «sem vida no pé» –, mas cuja memória persiste viva nos «olhos de lição». A imagem central opõe o asfalto (símbolo de progresso urbano) ao campo, onde o corpo já não responde, mas os sentidos guardam milho, chuva e café – elementos essenciais da vida camponesa do Planalto Central. O ritmo dos versos, com elipses e pausas («passos escassos / quase nulos»), imita o andar cansado do velho clementino, que mesmo assim «vai com as formigas dançar» rumo à obra, transformando a fadiga em resistência poética. O desfecho questiona com ironia e força: «que importa se sem vida no pé?», elevando o valor das «veredas fecundas» – os caminhos de vida e memória – acima da mera funcionalidade corporal. É um elogio à resiliência das comunidades rurais de Benguela, em sintonia com o ativismo de Patissa pela cultura descentrada e plurilingue.
SEM VIDA NO PÉ
… e as sentenças correram seu caminho
ao asfalto cedeu esse campo não é o seu sem vida no pé conserva olhos de lição milho, chuva e café
Todos os dias, todo o dia passos escassos quase nulos clemente vai com as formigas dançar pelos caminhos da obra eis o brotar de fecundas veredas que importa se sem vida no pé?
In «Guardanapo de Papel»
"A Urgência da Luz sob o Céu de Chumbo"
Este poema de Gociante Patissa descreve a tensão entre a esperança e a inevitabilidade. O "olhar reincidente" foca-se num pequeno ponto de luz (o farol) que resiste no meio da escuridão total. Há uma urgência em alcançar essa luz ("há-de ser minha") antes que o tempo se esgote ("antes que caia... o fim do cenário"), revelando um espírito que prefere a luta à resignação ou ao perdão passivo. Um olhar reincidente e inquieto fixa-se no pingo de luz do farol — tímido ponto veludo contra o céu de negra nuvem. Essa luz, para lá do mar-útero que nutre a aragem comum, apaga outras velas mas promete ser do poeta.
Antes que a manhã caia do céu e o cenário acabe, essa luz ainda há-de ser sua. Mesmo que tudo lhe façam, resta uma certeza: menos perdoar. O farol simboliza esperança obstinada perante a escuridão inevitável.
RASTOS NA LINHA DO FAROL
Reincidente olhar inquieta-se
à volta do pingo de luz
aquele tímido ponto veludo
quando o céu todo é negra nuvem.
Aquela luz
para lá do mar
útero da mesma aragem
que outras velas vai apagar
ainda há-de ser minha
antes que caia do céu a manhã e o fim do cenário
ou façam-me tudo então
menos perdoar. In «Guardanapo de Papel»
"A Beleza Contra o Tempo: A Voz que Ressuscita o Mundo"
“A beleza nunca é triste”
Nem os postiços
nem as lembranças
belas
Que é só o mar
no bater das ondas
a tomar o seu banho
nada para desmerecer
as almas
engolidas pela espuma
E se ente soldado é defunto
até voltar da guerra
Tchipa ressuscitou o mundo
na saudade que canta
na frente da chama
“cá na mata, a vida é bela, mamã[2]”
mesmo aos olhos do fado In «Guardanapo de Papel»
Este poema de Gociante Patissa é uma homenagem emocionante à resiliência e à memória de Tchipa (pseudónimo do músico angolano Manuel de Jesus), que cantou a beleza mesmo em tempos de guerra.O poeta afirma que a beleza resiste à tristeza, nem nos postiços nem nas lembranças belas. O mar, no bater das ondas, toma o seu banho vivo — nada desmerece as almas engolidas pela espuma, que fazem parte do ciclo natural.
Se o soldado é defunto até voltar da guerra, a tchipa (mulher que espera) ressuscita o mundo na saudade que canta. Na frente da chama, ecoa o refrão popular: "cá na mata, a vida é bela, mamã" — esperança feminina que desafia o fado e a morte.
[2] Trecho da canção “Cartinha da Saudade”, do músico angolano Jacinto Tchipa, década de 1980
Preguiça da cabaça
O deserto tem sua pressa
parece que passa
parece que pára
O céu vai sem gotas
há muito
a vegetação
absorta escapa
bebendo dos meus olhos
e o deserto
parece que passa
parece que pára
brincando aos tempos
Mas tinha já que passar
não sobra muito mais
na cabaça
das lágrimas In «Guardanapo de Papel»
"A Preguiça da Cabaça: Quando a Sede Vira Tempo"
Este poema é uma meditação profunda sobre a escassez e a angústia da espera, usando a imagem da seca e do deserto para falar de uma sede que é tanto física quanto existencial. No deserto, a cabaça guarda uma preguica líquida enquanto o tempo oscila entre passar e parar. O céu seco há muito não manda gotas, e a vegetação escapa absorta, bebendo das lágrimas do poeta.
O deserto brinca com os tempos, mas a cabaça das lágrimas aproxima-se do fim — não sobra muito mais. A pressa do deserto contrasta com a lentidão vital do que resta na cabaça, entre ilusão de movimento e paralisia seca.
GUARDANAPO DE PAPEL
Já cansado
o velho bar
fecha-se ao pó
fértil
da esquina
qual navio atracado
para nova largada.
Do mar de verão
vem pujante a brisa
traçando cordão
na esquina
monumental
do cine.
Estátua e gente
parece tudo de madeira
pela porta entreaberta
vê-se que algo voa
bem rente
mas ninguém vai dizer
se é saia
ou guardanapo de papel. in «Guardanapo de Papel»
"A Leveza do Acaso: Entre a Estátua e o Papel"
Este poema de Gociante Patissa, que dá título à obra «Guardanapo de Papel», utiliza uma cena urbana estática — um bar antigo a fechar, um cinema, uma estátua — para contrastar com a leveza e a incerteza do movimento. O autor brinca com a percepção: num cenário onde tudo parece "de madeira" (rígido, imóvel), algo voa de forma ambígua. A dúvida final entre a "saia" (o humano, o erótico) e o "guardanapo de papel" (o descartável, o lixo urbano) simboliza a fragilidade e a efemeridade das coisas que passam despercebidas na rotina das cidades.
LÍNGUA, GELOS E LABAREDAS
filhas são amantes
redundância
que leva à pirâmide
enquanto no gelo
dorme o oxigénio
que falta à labareda
só lembrada na cor da língua.
Cada limite
novo começo
multiplicação
ou soma
processos
levam ao mesmo
repetição.
in «Guardanapo de Papel», 2014
"Língua, Gelos e Labaredas", de Gociante Patissa, é uma reflexão metalinguística sobre os limites da comunicação e a criação poética. O poema utiliza metáforas de gelo e fogo para explorar a interdependência entre o silêncio, a expressão e o processo de nomear a realidade.
A obra aborda a ciclicidade da existência, onde o limite da linguagem se transforma num novo começo através da repetição. A escrita é vista como um processo de multiplicação e soma, celebrando a resiliência da língua entre a inércia e a paixão.
A Estética da Fragilidade: Uma Viagem por "Almas de Porcelana"
Almas de Porcelana (2016) é uma coletânea poética de Gociante Patissa, publicada no Brasil pela Penalux, que reúne poemas de Consulado do Vazio (2008) e Guardanapo de Papel (2014), acrescida de textos diversos.Em Almas de Porcelana, o escritor angolano Gociante Patissa convida-nos a olhar para a condição humana através de uma lente de rara delicadeza. Longe de associar a porcelana à fraqueza, o autor utiliza-a como uma metáfora para a sensibilidade e para a sofisticação das emoções que nos compõem. A obra é um exercício de autodescoberta e observação social. Nos seus versos, Patissa explora a linha ténue entre o que é duradouro e o que é quebradiço, pintando um retrato honesto das vivências contemporâneas em Angola e na lusofonia. Através de uma linguagem cuidada e rítmica, o poeta transforma o quotidiano em algo transcendente, lembrando-nos que é na nossa vulnerabilidade que reside a nossa maior humanidade. Ler este livro é aceitar o desafio de olhar para as próprias "fissuras" com aceitação, reconhecendo que, tal como a porcelana fina, a alma humana ganha valor pela sua história, pela sua transparência e pela beleza do seu design interior.
"A fragilidade não é ausência de força, é a transparência da alma que se deixa ver sem filtros."
SERVIÇAIS DO PARQUE
Na primeira
das horas
do patrão
vai morta
a manhã
do poeta
A saliva
corta
o vidro
Já não sigo
o curso dos lábios
tão curtos
como os pés
e os anos
Sei de cor o pregão
como o bocejar
com que se coze o jejum
da segunda classe
onde o pó cai
e vai
antes da chuva
e do avião
Toques atrevidos
antecipam-se
no lugar da saudação
oh
e na mão
o vapor do trapo
entorpecido
que roça o veículo
e a ponta do nariz
“Vou limpar, patrão?” in «Almas de Porcelana»
"A Manhã Invisível: O Vidro entre o Patrão e o Poeta"
Este poema de Gociante Patissa expõe o abismo social através da figura do limpador de vidros. O autor contrasta a "hora do patrão" com a "manhã morta do poeta", sugerindo que a necessidade de sobrevivência sufoca a criatividade e a dignidade. O trabalho é mecânico, marcado pelo "jejum" e pela invisibilidade, onde o homem se torna apenas uma extensão do "trapo entorpecido", pedindo permissão para existir através da pergunta final: "Vou limpar, patrão?".Na primeira hora do patrão, a manhã do poeta morre. A saliva corta o vidro enquanto o poeta já não segue o curso dos lábios curtos como pés e anos, sabendo de cor o pregão e o bocejar do jejum da segunda classe.
O pó cai antes da chuva e do avião. Toques atrevidos substituem saudações, e na mão o vapor do trapo entorpecido roça o veículo e a ponta do nariz. "Vou limpar, patrão?" — a submissão quotidiana dos serviçais do parque, condensada na humilhação ritualizada.
RETRATO ITINERANTE
Pela vidraça do turista
três pescadores
dois a remar
tão certos da partida
como não é da canoa parar
Sungas e peitos desnudos
picanha ou acarajé
o suor perdeu-se nos trapos
a chuva inflama os graus
está visto
um pouco mais a leste
grudadas casas da altura da girafa
Boceja agora o sol
no pátio da capelinha
um pouco abaixo do nível da favela
por lá não se ouve Mandela
por cá a maré promete
E some a canoa da vista
para lá do salvador farol
partindo as ondas
ao compasso das asas
do pássaro que no cipó se acoita.
Mestre é o mar
tácita bênção de mulher
é de noite que se ganha o dia
o pão e amar na Bahia.
Salvador da Bahia, Brasil, 6 de dezembro de 2013 in «Almas de Porcelana»
"O Pão nas Ondas:A Bahia para lá da Vidraça"
Este poema de Gociante Patissa oferece um olhar cinematográfico sobre a Bahia, captando o contraste entre a visão superficial do "turista" e a realidade crua dos pescadores e da favela. O autor utiliza elementos locais (picanha, acarajé, Salvador) para falar da luta pela sobrevivência: o trabalho duro no mar, o suor, e a inversão do tempo, onde "é de noite que se ganha o dia". A presença do mar como "mestre" e a "bênção de mulher" reforçam o misticismo e a força da natureza que dita o ritmo da vida.
Pela vidraça do turista, três pescadores — dois a remar — surgem certos da partida, como a canoa que não para. Sungas, peitos desnudos, suor nos trapos, chuva que inflama: a leste, casas grudadas à altura da girafa; o sol boceja no pátio da capelinha, abaixo da favela onde Mandela não ecoa.
A maré promete enquanto a canoa some para lá do farol salvador, partindo ondas ao compasso das asas do pássaro no cipó. Mestre é o mar, tácita bênção de mulher: de noite ganha-se o dia, o pão e amar na Bahia.
O AMOR É ROUPA DE DOMINGO
Da caverna que me cabe espreito
As medidas do mundo
Dois e dois lá vão
Para quem sabe contar
São anos
E dormem e acordam na mesma sombra
Do amanhã nem luz
falseando sábios
Me pus
Taciturno desespontâneo
Derrubam-me as nuvens deste céu
Faltam ombros
Quem dera ao menos caber num palavrão
Foda-se, todavia!
Conheço o amor
Como conheço o fundo da noite
O amor é roupa de domingo
Se adquire
Lava
Engoma
E pendura
Contando para o dia
O próprio dia
O amor é
A camisa as calças
A blusa a saia
Botão que desprega
À porta da festa
A nódoa na lapela
O rubro na veia
Temerário
O amor comparece
O amor falta
O amor é que sabe
Salva selva
Ouve tudo menos conselhos
Fosse o amor tecido
Como se tecem os sentidos
Um pouco mais seria
Que roupa de saída
Investimento privado
Dívida pública
O amor é só mesmo isso
Isso tudo Ver menos in «Almas de Porcelana»
"A Estética do Afeto: O Amor como Peça de Uso"
Este poema de Gociante Patissa, incluído em Almas de Porcelana, retira o amor do pedestal romântico e coloca-o no campo do ritual e da utilidade. Ao compará-lo a uma "roupa de domingo", o autor sugere que o amor é algo que se prepara, se exibe socialmente e se desgasta (como o botão que desprega ou a nódoa na lapela). É uma visão simultaneamente pragmática e melancólica, onde o sentimento é tratado como um "investimento" ou "dívida", oscilando entre o cuidado doméstico e a fragilidade de uma peça de vestuário que só serve para certas ocasiões.
Da caverna pessoal, o poeta espreita as medidas do mundo onde anos dormem na mesma sombra sem luz do amanhã. Taciturno, derrubado por nuvens sem ombros para sustentar, deseja caber num palavrão — "foda-se!" —, mas conhece o amor como o fundo da noite. Fosse tecido como os sentidos, seria mais que roupa de saída — investimento privado, dívida pública. O amor é só isso, isso tudo: imprevisível, ritual e essencial.
"A Rede do Ventre: O Voo que nunca Solta a Mão"
UMBILICAL PÁRA-QUEDAS
Se voar é de asas abertas
Em replay põem-se a nu as cicatrizes.
Tudo é nada mais senão o vento
que faz assobiar e sublima cantos
tocar o céu pelo penteado da montanha
até ceder à lei de gravidade
Houve sempre uma mão
houve sempre uma mãe.
in «Almas de Porcelana»
Este poema de Gociante Patissa é uma metáfora poderosa sobre a liberdade e a segurança. O autor sugere que, embora o voo (a vida, a ambição, a independência) exija "asas abertas", ele traz à tona as "cicatrizes" do passado. A queda é inevitável pela "lei da gravidade", mas o que impede o desastre final é a raiz: o "umbilical" que funciona como para-quedas. A figura da mãe surge como a rede de segurança invisível que permite o risco do voo.
LEGENDAS-IMPRENSA
Tratamos
cadáveres
servimos
frescos
urgência
(hospital)
Reciclamos
homens, mulheres e crianças
ideais
juventude
sonhos
fora do prazo
(manicómio)
Terrenos
de futuro
Dubai
nos céus
prestação
decimal
ao mês
aqui
condomínios
celestiais
(igreja)
Ocupado
reservado
democracia
futuras instalações
esperança
obra embargada
liberdade
crescimento
roubo qualificado
reconstrução
paz
corrompeu
assalto à mão armada
formação
último modelo
violação
esperança
crise
(Angola) in «Almas de Porcelana»
"O Dicionário da Crise: Angola em Legendas"
Este poema de Gociante Patissa é uma crítica mordaz e satírica à sociedade angolana contemporânea, estruturado como se fosse uma série de classificados ou manchetes de jornal que revelam a degradação das instituições e dos valores. O autor utiliza o formato de legendas ou anúncios para expor a ironia e o cinismo presentes em diferentes esferas da vida pública em Angola. Ele associa o hospital à morte, o manicómio ao desperdício de sonhos e juventude, e a igreja ao comércio de bens "celestiais" com promessas de futuro tipo Dubai. A estrofe final é a mais contundente, apresentando um dicionário de eufemismos onde "democracia" é uma obra embargada, "reconstrução" é sinónimo de roubo e "paz" aparece corrompida. É um retrato de um país onde as palavras perderam o seu sentido original para camuflar uma crise profunda de valores e de governação.
"Gociante Patissa: Do Encanto da Escuta à Dureza da Manhã"
É FRONTAL A MANHÃ
Já fui mais
atrás
escolhi
desencontros
e cansei
Estatelo-me
no canto
Maomé de costas com a montanha.
Invadem-me Outonos que já encontrei
músculos com preço e prazo
nada mais
Deixo-me derreter na força da noite
e quando acordo
é frontal a manhã
(não foi viagem)
confirmam meus lábios
despidos e secos.
in Almas de Porcelana
O poema «É frontal a manhã», de Gociante Patissa, expressa um profundo cansaço existencial e a passagem de um desencontro acumulado para uma aceitação crua da realidade quotidiana.
O eu lírico confessa ter escolhido «desencontros» até ao esgotamento, estatelo contra o impossível — como «Maomé de costas com a montanha» —, invadido por memórias de Outonos reduzidas a «músculos com preço e prazo».
Derretido na noite, desperta perante uma manhã «frontal», confirmada por lábios «despidos e secos»: não foi viagem, mas confronto despido com o real, num renascimento sem ilusões típico da poética pós‑guerra de Patissa.
"A Última Ouvinte: Crónica de uma Angola Imprevisível"
A Última Ouvinte é o segundo livro publicado pelo escritor angolano Gociante Patissa, lançado em 2010 pela União dos Escritores Angolanos (UEA).“A última ouvinte” reúne sete contos que exploram, com humor, ironia e ternura, a vida quotidiana em Angola pós-guerra, entre o meio rural e a cidade, sempre com atenção às vozes marginalizadas e à oralidade. No conto-título, acompanhamos Caçule, jovem radialista que mantém uma relação quase íntima com uma ouvinte fiel, Esperança da Graça, conhecida na antena como Marta Domingas. A intriga nasce do fascínio que ele cria pela voz e pelas cartas dessa mulher, idealizando-a como síntese de um público anónimo que lhe dá sentido profissional e afectivo. Quando finalmente decide ir ao seu encontro, confronta-se com uma realidade marcada pela doença e pela vulnerabilidade, e o desfecho trágico transforma-a literalmente na “última ouvinte”, simbolizando o choque entre fantasia mediática e dureza do real.
«...vasos cheios de água. E a conversa com as flores não mais parou, o locutor Caçule ficou maluco.»
"A Última Ouvinte: Crónica de uma Angola Imprevisível"
Outros contos abordam temas como o desencontro entre gerações, o contraste campo–cidade e as mudanças de valores na Angola urbana em expansão. Em “Um natal com a avó”, por exemplo, a personagem Velha‑Mbali visita a família na cidade e recusa abandonar o campo, gerando situações cómicas e críticas sobre o consumismo urbano, a precariedade das viagens e a perda de certas referências comunitárias. A cena em que a avó corre atrás do galo fugido e acaba atropelada por um kupapata, misturando umbundu e português, mostra bem a maneira como o livro combina oralidade, humor e comentário social. Conjunto, os contos constroem um retrato de Angola como espaço “imprevisível”, onde convivem tradições rurais, modernidade caótica e memórias da guerra, filtradas por narradores próximos do povo e da linguagem popular. A rádio, a família, o trabalho informal e as deslocações (do interior para a cidade, ou do kimbo para o asfalto) surgem como eixos centrais, permitindo ao autor problematizar pertença, identidade e desigualdade sem perder a leveza narrativa.
«É de pequena que se forja a herança cultural.»
O Eco do Quotidiano: Uma Viagem por "O Apito que Não Se Ouviu"
Em O Apito que Não Se Ouviu, Gociante Patissa afasta-se momentaneamente da poesia para se revelar um exímio observador do real. Este livro de crónicas, publicado em 2015, funciona como um espelho da sociedade angolana, capturando as nuances, os ruídos e, acima de tudo, os silêncios de um país em constante transformação.O título é, em si, uma metáfora poderosa. O "apito" que ninguém ouve simboliza as situações do dia-a-dia que, de tão comuns, se tornam invisíveis: as injustiças subtis, os dilemas do trânsito, as conversas de esquina e as contradições da modernidade. Patissa não se limita a descrever o que vê; ele interroga a realidade com uma ironia fina e uma sensibilidade que humaniza cada personagem e cenário.
Dividido entre o registo jornalístico e a liberdade literária, o autor utiliza a crónica para dar voz ao que é comum, transformando pequenos episódios banais em grandes reflexões sobre a cidadania, a cultura e a identidade. É uma obra essencial para quem deseja compreender a alma urbana de Angola através de uma escrita que é, ao mesmo tempo, crítica, nostálgica e profundamente esperançosa.
"A fragilidade não é ausência de força, é a transparência da alma que se deixa ver sem filtros."
Entre a Terra e o Céu: A Metáfora de "O Homem Que Plantava Aves"
O Homem Que Plantava Aves (2017) é uma das obras mais aclamadas de Gociante Patissa, onde o autor mergulha no realismo mágico para explorar a profundidade da alma humana e as tradições de Angola.Em O Homem Que Plantava Aves, Gociante Patissa apresenta-nos uma coletânea de contos onde a realidade e o fantástico se fundem de forma magistral. O título, profundamente sugestivo, serve de porta de entrada para um universo onde o impossível se torna quotidiano: a ideia de "plantar" algo que é feito para voar sintetiza a busca humana por raízes e, simultaneamente, pelo desejo de liberdade.
Nesta obra, Patissa utiliza uma escrita telúrica e sensorial. Os seus contos não são apenas narrativas; são pinturas sociais que retratam a resiliência do povo angolano, as suas crenças, os seus traumas e as suas esperanças. O autor consegue, com uma mestria invulgar, dar voz ao silêncio das aldeias e ao ruído das cidades, criando personagens que carregam em si a herança dos antepassados e a incerteza do futuro.
É um livro que celebra a imaginação como forma de sobrevivência. Ler estes contos é aceitar que a vida, tal como a ave que nasce da terra, precisa de cuidado para crescer, mas de coragem para se desprender e ganhar o céu.
«Pesinsa panyãle ongolo; pukamba panyãle ofuka» (Do chão não nasce pau torcido; da terra não nasce capim amargo) — do conto-título O Homem Que Plantava Aves,
A Voz da Inquietude: O Legado de "Fátussengóla"
Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas (2014) é uma das obras mais singulares de Gociante Patissa, onde o autor utiliza a figura de um locutor de rádio para tecer uma crítica social profunda e inteligente. Em Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas, Gociante Patissa apresenta-nos uma narrativa que é, ao mesmo tempo, uma homenagem à radiodifusão e um manifesto contra as certezas absolutas. A personagem central, Fátussengóla, personifica o poder da palavra falada e a sua capacidade de moldar — ou desafiar — a opinião pública na Angola contemporânea. O livro explora a dualidade do rádio como ferramenta de massas: por um lado, o conforto da voz que entra pelas casas; por outro, a responsabilidade de quem comunica. Em vez de entregar respostas prontas, Fátussengóla opta por "espalhar dúvidas", incentivando o seu auditório a questionar a realidade, a política, os costumes e as injustiças sociais. Com uma escrita ágil e repleta de oralidade, Patissa mergulha no imaginário urbano e suburbano, capturando os anseios de quem ouve e de quem fala. É uma obra que celebra a dúvida como o primeiro passo para a liberdade de pensamento, reafirmando que, num mundo cheio de ruído, a pergunta certa pode ser mais poderosa do que qualquer afirmação.
"O Infinito no Quotidiano: Uma Reflexão sobre "Palavras são Tantas"
Palavras são Tantas (2019) é uma antologia organizada por Gociante Patissa para a 3ª Oficina Literária, reunindo vozes emergentes da literatura angolana com foco em poesia e prosa poética do planalto central e litoral benguelense. Patissa seleciona textos de autores contemporâneos, privilegiando a oralidade umbundu, memória rural e crítica social subtil — ecos da sua própria poética («África mãe Zungueira», inéditos). A antologia consolida o seu papel de mentor literário, articulando gerações pós-Fátussengóla (2014).Em Palavras são Tantas, Gociante Patissa reafirma que a crueza e a beleza da vida não residem nos grandes eventos, mas nos detalhes que as palavras, quando bem escolhidas, conseguem resgatar do esquecimento. Este livro é um inventário de observações, onde o autor utiliza a brevidade da crónica para expandir o sentido de cidadania, cultura e humanidade. O título sugere uma certa urgência e, ao mesmo tempo, uma abundância: num mundo saturado de informação, Patissa seleciona as palavras que realmente importam para descrever Angola, as suas gentes e os seus dilemas. A obra funciona como uma conversa aberta com o leitor, abordando desde as peripécias das ruas de Benguela e Luanda até reflexões mais introspectivas sobre o fazer literário e a língua portuguesa. Com o seu estilo característico — que mistura o rigor jornalístico com a sensibilidade poética — Patissa demonstra que, embora as palavras sejam muitas, cada uma tem o peso da responsabilidade social. É um livro que convida à pausa e à escuta, provando que a literatura é a ferramenta mais eficaz para dar ordem ao caos do dia-a-dia.
"O Ventre e o Milho: A Raiz de Tudo"
POEMA INÉDITO "QUEM SENÃO O MILHO?" As alfaces vistosas que pitam a rua São as faces que a rua mal pinta
Enquanto isso há que suar para suar
A geometria dos dias
As alfaces e as faces ou a ponte
Entre o menino e a dívida da rua
E quem faz a rua
Senão o ventre?
Quem faz o galo cantar?
Quem, senão o milho?
A preguiça da caneta
É fruto maduro
Na pauta
O vazio da cadeira
A exclusão na lareira
É frio no leite
A minha rua
A tua rua
São mulheres
São mulheres
com aplausos
em atraso
Um dia as mulheres pariram
os homens
Que pariram as ruas
E quem faz a rua
Senão o ventre?
Quem faz o galo cantar?
Quem, senão o milho?
Este poema de Gociente Patissa, escritor angolano, é uma reflexão poderosa sobre a origem, o trabalho e a invisibilidade social. O autor estabelece uma linhagem direta: as mulheres pariram os homens, que por sua vez construíram as ruas. No entanto, a base de tudo permanece no ventre, simbolizando a criação e a força feminina que sustenta a sociedade, muitas vezes sem o devido reconhecimento ("aplausos em atraso"). A metáfora "Quem faz o galo cantar? / Quem, senão o milho?" sugere que nada acontece sem o sustento básico ou a motivação primária. O galo não canta por vontade própria, mas porque foi alimentado. É uma ode ao que é essencial e funcional por trás das aparências. Ele brinca com as palavras "alfaces" e "faces", mostrando como a estética da cidade muitas vezes esconde o suor e a "geometria dos dias" (a rotina dura) de quem realmente a constrói. Termos como "vazio da cadeira" e "exclusão na lareira" reforçam o sentimento de abandono ou de falta de lugar para certas figuras na estrutura social urbana. Patissa aponta para uma matriarquia proletária que constrói o mundo mas fica à porta, esperando "aplausos em atraso".
"A Voz e a Memória: O Retrato de Angola em Gociante Patissa"
POEMA INÉDITO:ALUGAM-SE VELHOS
Empurro o hoje com as mãos
Tipo a minha mãe o arado
Salgo com os poros o pão
Ainda deste lado. À mulemba nem a nado
Em mim tudo cabe
Tudo se ajusta
O chegar que inquieta
O partir que sabe a dieta
Da Ganda herdo o ciclo dos eucaliptos
Juvenis, floridos, silentes
já só lhes restando a calvície
e a dureza da crosta aparentemente
Do Monte Belo em mim batem
O cieiro do calar da lareira
Ou as cinzas dos velhos que partem
Onde a esperança é a primeira
Por aí ouvi um dia destes
Que era das árvores rebentar
Secar e de novo rebentar
É que abundando firmes viram peste
Neste chão longânime e gelado
Sobrando avós para netos
Acena ao denso vazio o preto
Alugam-se avôs onde forem achados.
Este é um poema poderoso de Gociante Patissa que evoca a perda geracional e a utilidade descartável dos mais velhos na sociedade contemporânea.O poeta projeta-se como herdeiro resiliente de Ganda e Monte Belo, empurrando o presente com mãos calejadas — como a mãe com o arado — e salgando o pão com o suor dos poros. A imagem sintetiza a herança rural do planalto central angolano: trabalho árduo, circularidade vital e recusa da mulemba (a cidade caótica) mesmo a nado.
Da Ganda vêm os eucaliptos juvenis, floridos e silentes, reduzidos à calvície e crosta dura — metáfora para os velhos cuja abundância se torna “peste”. O ciclo rebentar-secar-rebentar questiona o excesso de longevidade num “chão longânime e gelado”, onde a esperança é sempre a primeira a morrer.De Monte Belo ecoa o “cieiro do calar da lareira” e as cinzas dos que partem, contrastando com o “denso vazio” atual. O preto que acena e o anúncio final — “Alugam-se avôs onde forem achados” — invertem o valor: os velhos, pilares da memória coletiva, viram mercadoria sobressalente para netos desorientados.
"Cartografia do Afeto: Benguela como Espaço e Sentimento"
Por vezes Benguela
O apito comboio
Vazio
Ouve!
MBokoyo
Ananás
lamento de embalar
Semáforo banana
Netos da mãe que houve
que fora
que fosse
aço nos laços
peito pulsando em Kwanzas
vida fora
é coração feito de calculadora
Por vezes Benguela
Essa grade entreaberta
Em mim
POEMA INÉDITO| POR VEZES BENGUELA
Por vezes Benguela
o grito lá fora
da luz
de volta
Criança
Costelas de esteira
Xiii - pouco barulho
Benguela por vezes
no lugar devoluto
daquele rafeiro as fezes
bêbado astuto
Sardinha carvão
O provérbio andarilho
Por vezes Benguela
complexa porque simples
de palmilhar
simples porque complexa
de a porta fechar
O marketing
Tão mentido que é
«Por Vezes Benguela» captura a cidade natal de Gociante Patissa em fragmentos paradoxais, entre luz que regressa e gritos contidos, costelas infantis de esteira e silêncio («Xiii - pouco barulho»). Benguela surge complexa na sua simplicidade — palmilhar fácil mas portas que se fecham —, marcada por rafeiros bêbados, sardinhas de carvão e provérbios andarilhos, num marketing «me(n)tido» que engana. O autor define a cidade através de uma dualidade fascinante: ela é "complexa porque simples". Esta simplicidade reside na rotina do comércio de rua e no "apito do comboio", enquanto a complexidade surge na transformação das relações humanas, onde o coração parece agora "feito de calculadora" e o peito "pulsa em Kwanzas". Patissa utiliza termos em Umbundu (como MBokoyo) para ancorar a modernidade da cidade nas suas raízes ancestrais. Ao fim, Benguela deixa de ser apenas um lugar no mapa para se tornar uma "grade entreaberta" dentro do próprio poeta, sugerindo que a identidade do autor e a identidade da terra são indissociáveis e permanentemente em diálogo.
De origens rurais (“venho doutras águas”, “trago tatuado o campo”), o poeta contrapõe-se à força predatória da selva urbana (“que se lixe a selva / O jacaré incluso”). A imagem do jacaré — cuja força está na água — simboliza a adaptação predatória à cidade, enquanto o eu lírico afirma a sua identidade camponesa, indissociável mesmo que roubada. A “estrada adiada” e a “comichão do volante” sugerem um nomadismo interior, nunca plenamente urbano.O refrão “Só quero pintar o mundo da cor do pão” é o cerne programático: o pão, essencial e simples, opõe-se à aspiração consumista da urbe. Ser “fora da norma” — no prédio onde se conhece melhor a chave que o vizinho — é a definição assumida do poeta, que rasga “artérias” (ruas, relações) com o calcanhar, recusando o anonimato e a violência quotidiana da cidade. Patissa constrói assim uma poética da margem voluntária, onde a memória rural e afectiva se sobrepõe à geografia hostil da modernidade angolana pós-guerra, mantendo a coerência temática com os outros inéditos que trabalhámos (campo vs. mulemba, perda geracional).
"A Cor do Pão e o Eco da Voz: A Angola de Gociante Patissa"
E no prédio
Mais fácil se conhece cada dente da chave
Do que as feições do vizinho
Rasgo as artérias com o calcanhar
Nas mãos a comichão do volante
Afinal fui sempre a estrada adiada
Abstenho-me do espectro que rege a urbe
É que trago tatuado o campo
Que roubem isso também
Só quero pintar o mundo da cor do pão
POEMA INÉDITO| SÓ QUERO PINTAR O MUNDO DA COR DO PÃO
À margem aspirada chegado
Teimo em rezar para não ter que rezar
Por tudo e por nada
Abstenho-me dessa omnipresença
Que rege a urbe
E substitui o bom dia por graças a Deus
Sei que não devia
Que é na água a força do jacaré
Mas eu venho doutras águas
Caso já não saibam
Portanto, que se lixe a selva
O jacaré incluso
Só quero pintar o mundo da cor do pão
Define-me o fora da norma
Até que surja o noticiário
Carregado, tinto
Fecho a porta bem fechada e congelo a geografia
Transporto-me para todos os lugares onde passei
Às mulheres que amei
(não que me prenda o tempo verbal)
Este poema de Gociante Patissa, inédito, é um manifesto de resistência pessoal contra a alienação urbana, centrado na recusa da “omnipresença” que homogeneíza a vida citadina.
O eu lírico chega “à margem aspirada” da cidade e teima em “rezar para não ter que rezar”, trocando o “bom dia” genuíno por fórmulas vazias como “graças a Deus”. Esta omnipresença urbana — espectro que rege a urbe — é rejeitada em favor de uma geografia interior: o poeta fecha a porta, congela o mundo noticioso “carregado, tinto” e transporta-se às memórias de amores e lugares passados.
"A Insuficiência do Verso: O Sacrifício e a Seiva Materna"
POEMA INÉDITO| POR QUE SANGRAM AS MÃES?
(às mães do Victor Isaac Paulino ‘Paizinho’ e da Ivandra Vinez ‘Messita’)
Mãe nenhuma merece poema
Um só poema
Mãe
Nem uma
Merece um poema
Um só
É pouco
A menos que sangre
A inspiração
O papel rasgado
Às tiras
Pegado
O que seja
Tesoura
Prensa
Guilhotina
Alavanca
Sangra a seiva
Da árvore
Que foi
É uma mãe
Que indaga
Solidão pública
Encharcando o peito
Os peitos
Com o rio dos olhos
Porquê, meu filho,
Porquê, minha filha?
Que mal, tão mal fizeste?
Mãe nenhuma merece poema
Um só poema
Mãe
Nem uma
Merece um poema
Um só
É pouco
A menos que sangre
A inspiração
Oh mundo imundo
E os limites?
Neste poema, Gociante Patissa afasta-se da ironia quotidiana para mergulhar numa dor que a palavra escrita parece não conseguir conter. Ao dedicar os versos às mães de Victor Isaac Paulino e Ivandra Vinez, o autor estabelece que a figura da mãe é sagrada demais para ser reduzida a um simples objeto literário: "Mãe nenhuma merece poema / Um só poema / (...) É pouco".O autor sugere que a poesia só é digna de uma mãe se for um ato de violência e entrega física. Não basta a tinta; é preciso que a inspiração "sangre", que o papel seja "rasgado às tiras", usando ferramentas de corte e pressão como a "tesoura", a "prensa" e a "guilhotina". Esta metáfora bruta ilustra que a maternidade — e especialmente a maternidade que enfrenta a perda — é um processo de desmembramento e resistência.
Ao terminar com a imagem da "seiva da árvore que foi", Patissa liga este poema ao ciclo da natureza e à ancestralidade que já exploraste no conto da Velha-Mbali. A mãe é a árvore, a origem, e quando ela sofre, o que corre não é apenas tinta, mas a própria essência da vida (a seiva).
"Entre o Sal e o Metal: A Poética da Viagem em 'Mar de Fevereiro' de Gociante Patissa"
POEMA INÉDITO|MAR DE FEVEREIRO sobre as asas de metal
Outro chão
O mesmo sal
Que nos lê
Mar de Fevereiro
Cobre as malas cabedal
No quinto
Ontem dos infernos
Hoje alegre compacto dos dias
Os céus pela ponta dos dedos
Furtiva novena
Prenhe de aplausos
Fosse isto um poema
Mais que a sede de poiso
Entre domingo e sexta
Tanta sesta
Tanta festa
Mar ou rio
O que der
Este poema «Mar de Fevereiro», de Gociante Patissa, evoca a transitoriedade da existência entre migração, memória e desejo de ancoradouro, num registo lírico mais rarefeito e marinho. O eu lírico viaja «sobre as asas de metal» para «outro chão», mas encontra o «mesmo sal» que o lê — imagem que funde saudade atlântica com a identidade litoral angolana. O «Mar de Fevereiro» cobre malas de cabedal no quinto andar, contrastando infernos do passado com o «alegre compacto dos dias», numa novena furtiva prenhe de aplausos. A dúvida final — «Fosse isto um poema / Mais que a sede de poiso» — questiona a própria escrita face à letargia («sesta») e euforia («festa») entre domingo e sexta. «Mar ou rio / O que der» sintetiza a fluidez resignada: sem raízes fixas, o poeta aceita o que a corrente trouxer, numa poética pós-guerra que prolonga o nomadismo interior dos inéditos analisados.
"A Sentinela da Memória: Ismael Mateus no Cântico de Gociante Patissa"
ISMAEL MORA AQUI
Difícil adeus
Esse que nos invade
A manhã noticiosa
meu confrade
Ismael Mateus
Pilastro que desfalca
A casa dos escribas
No olho que lê
A vela dos sentidos ardeu
Nossa gente pede mentiras
Uma para cada tela
Difícil se abre Outubro
Cidadão Ismael
confrade Mateus
Impotentes, sobra
No crente e no ateu
o mar de lembranças
vincado o lastro teu
Na dialéctica voz
Nos laços caneta
Senão no bom gosto
Da África em ti cantante
Ismael mora aqui
No poema «Ismael Mora Aqui», Gociante Patissa abandona a ficção para se assumir confrade e cronista da perda. É um tributo sentido a Ismael Mateus (1964-2024), «pilastro que desfalca a casa dos escribas», cuja morte irrompe na «manhã noticiosa» como adeus difícil à cidadania lúcida angolana.
A dualidade «Cidadão Ismael / confrade Mateus» destaca a «voz dialéctica» e «laços caneta» que vincaram o lastro cultural. Patissa critica subtilmente a sociedade que «pede mentiras / uma para cada tela», contrapondo-a à verdade que Mateus encarnava.
A afirmação final — «Ismael mora aqui» — transcende a morte física: sobrevive na «África cantante» e na memória dos que prosseguem a missão de pensar e escrever Angola.
A Cor do Pão: O Manifesto da Essência contra a Urbe
SÓ QUERO PINTAR O MUNDO DA COR DO PÃO
À margem aspirada chegado
Teimo em rezar para não ter que rezar
Por tudo e por nada
Abstenho-me dessa omnipresença
Que rege a urbe
E substitui o bom dia por graças a Deus
Sei que não devia
Que é na água a força do jacaré
Mas eu venho doutras águas
Caso já não saibam
Portanto, que se lixe a selva
O jacaré incluso
Só quero pintar o mundo da cor do pão
Define-me o fora da norma
Até que surja o noticiário
Carregado, tinto
Fecho a porta bem fechada e congelo a geografia
Transporto-me para todos os lugares onde passei
Às mulheres que amei
(não que me prenda o tempo verbal)
E no prédio
Mais fácil se conhece cada dente da chave
Do que as feições do vizinho
Rasgo as artérias com o calcanhar
Nas mãos a comichão do volante
Afinal fui sempre a estrada adiada
Abstenho-me do espectro que rege a urbe
É que trago tatuado o campo
Que roubem isso também
Só quero pintar o mundo da cor do pão
Gociante Patissa | Luanda, Angola, 30 Junho 2019
Em "Só Quero Pintar o Mundo da Cor do Pão", Gociante Patissa apresenta-nos um dos seus textos mais viscerais, onde o conflito entre a identidade rural e a desumanização urbana atinge o seu expoente máximo. Escrito em Luanda, o poema é um grito de resistência de quem se recusa a ser moldado pelas conveniências e ritmos de uma capital que "substitui o bom dia por graças a Deus", criticando uma religiosidade superficial que esvazia a verdadeira ligação entre os homens.O sujeito poético assume-se como alguém "fora da norma". Ele reconhece a "força do jacaré" — uma metáfora para a astúcia e o poder necessários para sobreviver na selva das grandes cidades — mas afirma com rebeldia: "mas eu venho doutras águas". Esta afirmação é o regresso às origens, à Comuna de Monte Belo, reafirmando que a sua matriz não pertence ao asfalto, mas sim a um tempo e espaço onde a sobrevivência tem o peso e a honestidade do pão.
A Cor do Pão: O Manifesto da Essência contra a Urbe
SÓ QUERO PINTAR O MUNDO DA COR DO PÃO
À margem aspirada chegado
Teimo em rezar para não ter que rezar
Por tudo e por nada
Abstenho-me dessa omnipresença
Que rege a urbe
E substitui o bom dia por graças a Deus
Sei que não devia
Que é na água a força do jacaré
Mas eu venho doutras águas
Caso já não saibam
Portanto, que se lixe a selva
O jacaré incluso
Só quero pintar o mundo da cor do pão
Define-me o fora da norma
Até que surja o noticiário
Carregado, tinto
Fecho a porta bem fechada e congelo a geografia
Transporto-me para todos os lugares onde passei
Às mulheres que amei
(não que me prenda o tempo verbal)
E no prédio
Mais fácil se conhece cada dente da chave
Do que as feições do vizinho
Rasgo as artérias com o calcanhar
Nas mãos a comichão do volante
Afinal fui sempre a estrada adiada
Abstenho-me do espectro que rege a urbe
É que trago tatuado o campo
Que roubem isso também
Só quero pintar o mundo da cor do pão
Gociante Patissa | Luanda, Angola, 30 Junho 2019
A crueza da vida moderna é descrita através da alienação dos prédios, onde o indivíduo conhece melhor o "dente da chave" do que as feições do seu vizinho. Perante esta frieza, o poeta utiliza a memória como um mecanismo de defesa: ele "congela a geografia" para regressar aos lugares e às mulheres que amou, provando que a literatura é o seu verdadeiro passaporte para a liberdade.O poema culmina numa imagem de resistência indelével: "trago tatuado o campo". Mesmo que a urbe lhe roube o espaço e o tempo, não consegue apagar a sua essência camponesa. Ao querer "pintar o mundo da cor do pão", Patissa apela a um regresso ao essencial, à nutrição da alma e à verdade das mãos que trabalham a terra, transformando a "estrada adiada" que foi a sua vida numa caminhada definitiva de afirmação cultural e humana.
"O Ciclo do Regresso: Da Vela ao Chão"
À MÃO MORENA DO CHÃO
Lá longe, bem longe
desfilam sonhos
pintados
sobre a tábua côncava
uma vela difusa
a mesma vontade de chegar Do lado de cá colhe o chão
a semente
lençol de asteriscos
oh casuarinas
o mar guarda o céu
as águas os encontros
estes a vida
Correm as horas
a mesa partida e chegada
para lá do sombreiro
amanhã é regresso
à mão deste chão
Este poema de Gociante Patissa celebra a ligação umbilical entre o homem, a terra e o mar. Ele explora a dualidade entre o "lá longe" (o sonho, a viagem, a vela no horizonte) e o "lado de cá" (a realidade do chão, a semente e o trabalho). A natureza (mar, céu, casuarinas) aparece como guardiã da vida e dos encontros, sugerindo que o destino final é sempre um regresso às raízes, à "mão morena" que cultiva e sustenta.
«poema publicado na antologia «Di Versos – Poesia e Tradução, N.º 22»
Poema Inédito| VISCOSO PREGÃO
O sol que cai no mar
porção Luanda marginal
da minha rua
Boa ou má
Planta silhuetas
Que até parecem mulheres
Tivessem nome e endereço
Na minha nua
Paisagem
Meninas, mulheres
Dadas a vender(se)
vendem tudo
Tudo tudinho
Por acaso
Não poupam palavra
Nem algodão
Quanto mais a commodity
Sinuosa
Cravada em si
Vez a outra só apanham
Nada de facto apanham
No revezar da toalhita
Se homem passa
Homem não é
É só cofre
Bebé! Amor! Não vai uma foca?
E homem que passa
Aumenta passo, aumenta susto
Meu bebé! Amor! Não vai uma?
E assim a noite cresce, vidros fumados confidentes
Dos pneus que cantam
O negro alcatrão
A gula, o pânico
Sorte imunda
O látex azulado
Como as vestes do polícia busca-polo
Meu bebé! Amor! Não vai uma?
O amor da minha rua é assim,
Generoso chão
Viscoso pregão
Amor infinito
Porque bom mercar que é
a tudo se abre.
"A Cidade Mercadoria: Erotismo e Sobrevivência em Viscoso Pregão"
No poema "Viscoso Pregão", Gociante Patissa afasta-se da nostalgia de Benguela para confrontar a realidade áspera da Marginal de Luanda. O autor utiliza uma linguagem sensorial e direta para descrever a prostituição e o comércio de rua, onde o "amor" é reduzido a uma commodity (mercadoria). A cidade é apresentada como um cenário de silhuetas sem nome ou endereço, onde mulheres se tornam extensões do que vendem. A força do poema reside no contraste entre o apelo sedutor ("Meu bebé! Amor!") e a realidade mecânica e predatória do ato. O homem deixa de ser pessoa para ser apenas um "cofre", enquanto a noite é pontuada pelo medo, pela "gula" e pelo "pânico". Patissa utiliza imagens cruas, como o "látex azulado" e o "negro alcatrão", para pintar um retrato de uma Luanda viscosa — termo que sugere algo pegajoso, difícil de limpar e que adere à pele da sociedade. Ao final, o "amor infinito" de que o poeta fala é uma ironia amarga: é infinito apenas porque o mercado nunca fecha e o "chão generoso" da rua acolhe a sorte imunda de quem sobrevive na margem.
Poema inédito | COMO ACORDAR BUGANVÍLIAS
[para Ana Paula Tavares]
Conhecemos o lume
Pelo estalar da maçaroca
Granizo, lareira e esperança
A outra face recuso
Clarão, clareira e vingança
Meu lume tem vocação griot
A terra em mim é eterna criança
Em reverso
Cada chão que ficou é lume a hibernar
No pó dos meus pés griot
Mau grado os caminhos
Caminhos que correm
Caminhos que nos correm
Como quem nada quer no verso
O trilho da maçaroca é gume
Nos calcanhares desnudos da menina
húmido sutiã da dona de casa
dorso torcido da avó
Por capricho sem volta da enxada
caminhos para a casa de xará
"O Suor que Floresce: A Memória Griot de Patissa"
Nos caminhos por onde passei
Passai vassoura de palha
Que espalhe brácteas
Sei suar que baste
Para acordar buganvílias
Nas tranças adágio Cabinda
Na cantilena epitáfio de um cisanji
Fernando Ndondi
"Quem fica saudades tem
quem vai saudades leva"
O eu poético recusa um lume ligado à vingança e à clareira violenta, preferindo um fogo com “vocação griot”, ligado à memória oral e a uma terra eternamente criança. Cada chão deixado para trás é um lume adormecido no pó dos pés do narrador, apesar dos caminhos que ele percorre e que também o percorrem, como se a própria vida o empurrasse.A maçaroca funciona como fio cortante que atravessa gerações: fere os calcanhares da menina, marca o corpo da dona de casa e entorta o dorso da avó, sob o capricho da enxada que traça caminhos até à casa da “xará”. Nos lugares por onde passou, o poeta pede que se varra com vassoura de palha para espalhar brácteas de buganvílias, símbolo de beleza resistente. Ele afirma saber “suar que baste” para acordar essas buganvílias, ligando o esforço ao florescimento da memória e da poesia. O poema fecha com a citação de Fernando Ndondi — “Quem fica saudades tem / quem vai saudades leva” —, sublinhando o duplo movimento da saudade em quem parte e em quem fica, num gesto de homenagem à poesia angolana e a Ana Paula Tavares.
"Poema em Construção: Edificando a Memória sobre o Chão de Barro"
Inédito| POEMA EM CONSTRUÇÃO
Prometem chuva amanhã
Chuva abundante destes céus
É certa amanhã a chuva
No altar das previsões, dizem
Os homens que nos rodeiam
E encerram de toda a parte
Mas eu cá prefiro fazer a cama, mãe
Antes embalar nas mãos do sono
De chover entendem as mulheres
O resto só fogos e canivetes
Chuva estéril do decreto
Nem na poesia mais se fia, mãe
Quanto mais no LEAD
Ultimamente!
E segue o mundo avançado mudo
Dos homens Gaza
Grandes tão grandes
Que sangram nas mãos
O grito perdido da criança ferida
Desperdiçando o dom
Que era deixar quem de direito sangrar
Sem violência para bem gerar
Naquele lugar, bendito e frutífero local
Dez meses menos um mais tarde
Todo o saber sem idade é vaidade, mãe
Amanhã talvez perceba o alcance
Do chão cama que nos moldou
Chão terra chão casa de barro
Sempre faltou almofada
E eu revolto sem te perceber
Cada pedra que no lugar punhas
Era um cágado afinal, e...
“Kambeu ukulu”, minha mãe!
Em «Poema em Construção», Gociante Patissa tece um diálogo entre geopolítica actual e ancestralidade materna. A metáfora da «chuva» contrapõe dois mundos: a chuva prevista pelos «homens do altar das previsões» (poder, decretos, meteorologia fria) e a chuva feminina, ligada à fertilidade e criação. O clímax critica Gaza e o «grito perdido da criança ferida», denunciando masculinidade tóxica que «sangra nas mãos» em vez de permitir o sangue gerador do ventre («dez meses menos um mais tarde»). Patissa ataca a vacuidade moderna («Nem na poesia mais se fia... quanto mais no LEAD»), refugiando-se no conselho materno e no «chão de barro». O fecho com o provérbio umbundu «Kambeu ukulu» (tartaruga velha/sábia) simboliza resistência lenta. Cada pedra da mãe é um cágado vivo — sabedoria tradicional dinâmica, que sobrevive à «vaidade do saber sem idade» dos homens modernos.
"O Riso nas Horas Vagas: Uma Poética da Existência em Gociante Patissa"
[poema inédito] LETRA ÁRABE NA AREIA
A vida cabe no número
Da dança árabe
Tem ventre, curvas
Ginga imprevisível
E antes de tudo o resto
É curta
A vida, minha mãe,
Cabe no tempo do sol
Que esconde os raios no deserto árabe
Uma asa é medo, culpa e santos
De letra morta na areia
Cobiçando o escuro
A outra também areia vive
Véus à parte
No dia em que o maestro
Qualquer que seja sua graça
Se digne tocar
A trilha da minha dança
Gravai na lápide tal coisa:
Viveu pensando
E rindo alto
Nas horas vagas trabalhou.
Neste poema inédito, Gociante Patissa utiliza a estética da caligrafia e da cultura árabe como metáfora para a própria existência: algo que possui curvas, ventre e uma "ginga imprevisível", mas que é, acima de tudo, curta. A imagem da "letra na areia" reforça a natureza efêmera da vida, sujeita ao sopro do tempo e do esquecimento. O autor estabelece um contraste entre o peso das convenções — o medo, a culpa e os "santos de letra morta" — e a liberdade de uma vida vivida "véus à parte". O ponto alto do poema é o seu desfecho, onde Patissa redige o seu próprio epitáfio. Numa inversão irónica dos valores modernos que priorizam a produtividade, o poeta pede para ser lembrado como alguém que "viveu pensando e rindo alto", relegando o trabalho apenas às "horas vagas". É uma afirmação de resistência humanista, onde o pensamento e a alegria são os verdadeiros eixos de uma vida plena, enquanto a morte é encarada apenas como o momento em que o "maestro" toca a trilha final.
POEMA INÉDITO|LOIÇA LIMPA
Aos meus amores
Não ofereçais relógio
amanhã ontem nem agora
Não vá o céu cair na tentação
De lhes cobrar o pulso
Ou o ponto da hora
Aos meus amores
Não ofereçais vestidos
Alvos rendilhados
A ferro bem passados
Não vá o diabo ou o seu oposto
Sujar a nódoa
O amor come-se com as mãos
De amassar o pão
Minha mãe
E eu feito de mãos e argamassa
Lavei a louça
Mais cedo
toda ela
desta vez
toda
e se não mais cozinhar
É para não vê-la suja
outra vez.
"A Metafísica do Quotidiano: O Amor e a Finitude em Loiça Limpa"
Loiça Limpa é um poema íntimo dedicado aos amores do poeta — mãe e amantes —, que rejeita presentes materiais como relógios ou vestidos rendilhados, por receio de que o tempo ou o destino os corrompam com o peso das horas ou nódoas inevitáveis. O amor verdadeiro surge simples e tátil, comparado ao acto de comer com as mãos que amassam o pão, evocando a herança materna de gestos essenciais e práticos. No gesto final, o eu lírico lava obsessivamente toda a louça «mais cedo / toda ela / desta vez / toda», não por evitar cozinhar, mas para preservar a pureza doméstica, poupando os afectos à repetição da sujidade quotidiana.
Nem tudo por lá é Cristo já não é em dias o calendário
Contar
É por corpos
Da raça há tanto tolhida
À lente de um mundo embalado
no sono dos anjos
Só posso dar por mim a coçar tanto calo
no teu joelho
Timbrando meio século
De preces
E devoção à tribo escolhida
Minha temente mãe Enquanto isso, minh'África
"Kulo handi wamalanga
Olopeto petu
Cina twalile"
Com quantas lentes
Com quantas, quantas
sopas solidárias se raspa
o fundo
da questão,
ó mãe,
minha enorme mãe?
O Raio X não mostra a dor,
É este o mal, doutor
O Raio X não mostra a dor,
Mas a dor está lá
A dor lá está, Senhor
Para além da Lente: A Dor Invisível de Patissa
Poema inédito | O RAIO-X NÃO MOSTRA A DOR
Saúdo-te, minha mãe,
Ainda, ainda
Que linda te encontres
Como a aldeia que moveu
O orvalho alguma vez
Sola do pai que foi
lindo-bandido favorito
Coral
Hoje é domingo, mãe
Ao menos para alguns
Que linda te encontres
de feias já nos bastam as palavras
Deste tempo
Contratempo
Tanta bomba
Tanto se tomba
Minha mãe
Santa terra que nada
Minha enorme mãe
O poeta saúda a mãe com ternura, comparando-a à aldeia natal que ainda guarda beleza apesar dos tempos difíceis. Evoca a herança familiar — o pai "lindo-bandido favorito" — e lamenta as bombas e tombos da actualidade, que contrastam com o domingo festivo de alguns. A mãe é santa terra, enorme criadora de uma raça tolhida há meio século, cujas preces e devoção à tribo resistem invisíveis. O refrão em umbundo clama que ainda não é dia para África, questionando as sopas solidárias que não raspam o fundo da questão. O raio-X, metáfora central, simboliza exames frios que ignoram a dor profunda — física, social, histórica — da mãe e do continente. A dor existe, mesmo não detetada, e é esse o mal que os doutores e senhores não enxergam.
Acolá Ruas desertas, casas na sacola
Que era bola
vuvuzelas
Só que por lá, por lá
mesmo assim
aquele Janeiro teimara em ligar
30 natais no lombo
Aló! Unjevite?
mana ao pé de ponte
Aló, minha enorme mãe
Ukasi?
seus panos de leite
estrutura esguia
serena e séria como o não saber dançar
Aló, minha mãe!
o gelo aqui chama-se Washington
Ainda para mais sete dias e nada
mas bem estou, mãe, DC
tosses e posses à jeito
que não esfrie meu prato-colo até o mês acabar
Termina a conversa
por lá
despeço-me, repleto estou
que se lixem os dólares UTT
comi a voz
a voz-maior!
Até breve, a njali
Acolá, porém, não sorri cordão umbilical
O meu filho está distante, certo?
sinto. Oh voz, quão distante meu filho cabe?
o meu filho, muito longe se acoita.
"A Voz que Alimenta: O Cordão Umbilical do Exílio"
Em janeiro de 2010, uma mãe angolana liga do Luanda pobre — com bancos vazios, funji sem panela e Estado omnipresente — para o filho exilado em Washington DC. Por lá, o Mundial de Futebol e a CAN dominam, enquanto o "bálsamo Obama" não cura saudades que ignoram leis. A mãe mente a miséria, mas a sua voz alimenta como cosmopolita sanzala. Acolá, ruas desertas e vuvuzelas contrastam com o "gelo" americano. O filho mente prosperidade ("tosses e posses"), mas é a mãe quem sente o cordão umbilical cortado: "O meu filho está distante, não está? / quão distante meu filho cabe?". Provérbios umbundus e ironias políticas ("tapa-saias constitucional") tecem o diálogo transatlântico. A despedida assimétrica revela tudo: o filho fica "repleto" pela "voz-maior", enquanto a mãe, com "30 natais no lombo", interroga as distâncias emocionais que só ela lê. A mulher não dança, mas sustenta o filho através do oceano com panos de leite e serenidade.
Poema inédito | A MULHER QUE LIA DISTÂNCIAS
2010. Por lá
Aquele Janeiro tinha mãe e telefonava
como quem mentisse o banco vazio
o funji sem panela nem lombi
e uma voz que era minha
Cosmopolita sanzala
Acolá
naquele Janeiro o futebol engolia a terra
Ombaka, Lwanda,
CAN que não era lata
uma tapa-saias constitucional
Quatro a zero zé de quatro igual
por lá sobre as asas
do Estado com Departamento
saudades não conhecem lei
nem o bálsamo Obama continental
cavalga jacaré mundumbe esse
como um deles a mim AJS
"Kalume eci akwete oco cuyovola"
POEMA INÉDITO | OS PAIS JANELAM (*)
Os pais janelam,
pais nossos de cada um
Janelas pelas quais
Cá andamos
O janelar pelo qual
Ainda cá moram
Depois que partem
Os pais janelam
Para não portarem
Portas seriam largas
E de larga já nos basta
a tábua
Que mal nasce a semente
Bem cabem na janela
Mãe e pai
Justa medida
Que nos cabe
O apertado abraço
A festinha tatuada na derme
O fumegante manjar à mesa
E por este janelar
moldura da íris umbilical
Ardente saudade futuro polido
Qual dedo anelar
Janelas brisam por dentro
Premente, meu pai, oh mãe
No achado da memória
É das janelas o trinco fingido
"A Íris Umbilical: Memória e Presença em 'Os Pais Janelam' de Gociante Patissa"
Este poema «Os pais janelam», de Gociante Patissa, transforma a ausência dos pais falecidos numa presença contínua e íntima, através da metáfora das janelas como portais da memória. «Os pais janelam» — pais nossos de cada um —, são janelas pelas quais ainda «cá andamos» e «cá moram» mesmo após partirem. Portas seriam largas demais, como a tábua do caixão; as janelas oferecem a «justa medida»: o «apertado abraço», a «festinha tatuada na derme», o «fumegante manjar à mesa».
A «moldura da íris umbilical» — ardente saudade polida como «dedo anelar» — condensa o laço vital: mães e pais enquadram-se na janela da infância, brisando por dentro com memória premente. O «trinco fingido» sugere que o luto não fecha, mas filtra o passado, mantendo-os presentes no «achado da memória».
Patissa eleva aqui o doméstico ao sagrado, coerente com a reverência pelas raízes (seiva materna, avós alugados) que atravessam a sua obra: os pais não partem, janelam-nos eternamente.
(*) à memória de Víctor Manuel Patissa (Jul 1946 - Jul 2001)
"O Compasso da Memória: O Tempo e a Herança Paterna em 'A Música Tem Tempo' de Gociante Patissa"
POEMA INÉDITO | A MÚSICA TEM TEMPO
Nesse dia entrei disparado
Atrás do arco
Cilindrada ao alto
No quintal
miradouro traquinas
Ontem ou amanhã
Anoitecia-me
Fôlego parco
Atrás do arco
Ao pé do mamoeiro
Pregado vivia o pai menor Avindo
Cantando notas a tiracolo
Cigarra e tudo só ouvindo
O pé que bate o chão batido
Simétrica dança
O pai assim só dança um pé?
É compasso, papá
Desenganava o moço
Olha que a música tem tempo
Daí em diante
Só queria ser muito música
Tanto tempo que ela tem.
[à memória de Henrique Avindo Manuel (1970-1996)]
Este poema «A música tem tempo», dedicado à memória de Henrique Avindo Manuel, celebra a transmissão intergeracional do ritmo e da alegria vital através da figura paterna. O eu lírico, criança traquina, entra «disparado» no quintal atrás do «arco» (provavelmente arco-íris ou brinquedo), encontrando o «pai menor Avindo» pregado ao mamoeiro, cantando «notas a tiracolo» como cigarra ouvida mas não vista. O menino questiona a dança assimétrica — «O pai assim só dança um pé?» —, recebendo a lição: «É compasso, papá. / Olha que a música tem tempo». A revelação transforma-o: «Daí em diante / Só queria ser muito música / Tanto tempo que ela tem». Patissa condensa aqui a herança oral angolana — quintal, chão batido, compasso assimétrico — como antídoto ao «fôlego parco» e anoitecer, coerente com o «janelar» dos pais e a seiva materna nos outros textos.
De acordo com as publicações de Gociante Patissa no seu blogue e redes sociais, Henrique Avindo Manuel foi uma figura marcante da sua infância e juventude no município do Lobito, província de Benguela. Patissa frequentemente evoca o nome de Henrique Avindo Manuel nas suas crónicas como parte de um esforço de preservação da memória coletiva de pessoas que marcaram a sua geração, mas que faleceram precocemente.
POEMA INÉDITO| MOSCOVO A BARCELONA
Entre Moscovo e Barcelona
Voa a mortalha
Ou o chamado da soberania
da saúde
para a saúde
da soberania
Ngolêh
Entre Moscovo e Barcelona
Angola e a mortalha
“humbi-humbi”
Ou o havemos de voltar
Que conta netos
Nas paredes e nos homens
Palácio Pegasus
Quatro décadas d’envergadura
Moscovo a Barcelona
Solene indagação
Em paz
E os santos de casa?
A nós resta sonhar
“Kakele ka cimbamba”
Até que um dia
Até que um dia
Porque
“Cilanda ongombe citunda vonjo”
Peleje meu hospital
ao suspiro final
Do mais alto
Também.
"Moscovo a Barcelona: Soberania, Saúde e a Metáfora da Mortalha em Gociante Patissa"
Este poema inédito «Moscovo a Barcelona» mergulha na diáspora angolana pós-independência, contrapondo trajetos exílicos a provérbios umbundu que ancoram a identidade na saudade da terra.«Entre Moscovo e Barcelona / Voa a mortalha» estabelece o eixo geográfico da formação soviética e da migração europeia, onde paira a morte ou o «chamado da soberania / da saúde para a saúde / da soberania». Ngolêh — saudade em umbundu — resume o dilema: partir pela sobrevivência ou ficar pela nação. O «Palácio Pegasus» evoca quatro décadas de luta, entre Angola e o exílio.
«Humbi-humbi» (vamos voltar), «Kakele ka cimbamba» (a galinha não esquece o poleiro), «Cilanda ongombe citunda vonjo» (o rio não esquece a nascente) funcionam como âncoras culturais contra o desenraizamento. Estes ditos, entrançados no texto, preservam a oralidade do planalto central, contrastando o «sonhar» dos exilados com os «santos de casa» — raízes deixadas para trás.
A «solene indagação / Em paz» culmina no apelo visceral: «Peleje meu hospital / ao suspiro final / Do mais alto». Patissa funde viagem física e espiritual numa poética da diáspora, onde a soberania se negocia entre mortalha, provérbios e o último suspiro angolano — registo que prolonga a reverência pelas origens vista em «Os pais janelam» ou na seiva materna.
Gociante Patissa | Luanda | 10 setembro 1979 - 08 Julho 2022 |
O Fôlego Interrompido: A Ironia da Velhice na Escrita de Patissa
[Poema inédito] DE QUE NOS VALE DIA DO IDOSO?
Carrego a estiagem
Na ponta do dedo
Húmidos dedos regados
Salgado fluído do olhar
Feito guardanapo insubmisso
Carrego a estiagem
No punho cerrado
Que me alivia o peso da cabeça
Só somar troncos e frondes serrados
Enterrar bolsas de sombra
Tremer-nos o osso cada meia centena dos nossos
"Nda tukunamenla vali pi?"
Resulta que desse punho encharcado
Salgado fluído do olhar
Não flori
Um poema que seja
Desse ao menos um’estrofe
Algo que desce e destoa cifras
D'esperança micro-universo
Vida cá da gente
É semana cósmica abreviada
Na quarta a velha Flora seca
"Ame ame ciyunge"
Na sexta é o fogo que se afoga
"Sekulu Ndalu watusya vali"
De que nos vale Dia do Idoso
Oh fôlego taxado a meio século?
Gociante Patissa | Luanda 30 Abril 2022 |
No poema "De que nos vale Dia do Idoso?", Gociante Patissa despe-se do lirismo contemplativo para assumir o papel de escritor-interventor. Através de uma linguagem que funde a crueza do português com a profundidade ancestral do Umbundu, o autor questiona a validade das celebrações oficiais num contexto onde a sobrevivência é uma batalha diária e a longevidade um privilégio raro.O poema abre com a imagem da "estiagem na ponta do dedo", uma metáfora poderosa para a aridez da vida e a escassez de recursos que marca o interior de Angola. O "salgado fluído do olhar" — as lágrimas que ensopam o "guardanapo insubmisso" — não serve para fazer florir a poesia, mas para carregar o peso de uma consciência que vê os seus "troncos e frondes" (os mais velhos e a sabedoria que carregam) serem serrados precocemente pela pobreza e pelo abandono.
O Fôlego Interrompido: A Ironia da Velhice na Escrita de Patissa
POEMA INÉDITO| DE QUE NOS VALE DIA DO IDOSO?
Carrego a estiagem
Na ponta do dedo
Húmidos dedos regados
Salgado fluído do olhar
Feito guardanapo insubmisso
Carrego a estiagem
No punho cerrado
Que me alivia o peso da cabeça
Só somar troncos e frondes serrados
Enterrar bolsas de sombra
Tremer-nos o osso cada meia centena dos nossos
"Nda tukunamenla vali pi?"
Resulta que desse punho encharcado
Salgado fluído do olhar
Não flori
Um poema que seja
Desse ao menos um’estrofe
Algo que desce e destoa cifras
D'esperança micro-universo
Vida cá da gente
É semana cósmica abreviada
Na quarta a velha Flora seca
"Ame ame ciyunge"
Na sexta é o fogo que se afoga
"Sekulu Ndalu watusya vali"
De que nos vale Dia do Idoso
Oh fôlego taxado a meio século?
Gociante Patissa | Luanda 30 Abril 2022 |
A estrutura do poema utiliza a "semana cósmica abreviada" para ilustrar a brevidade trágica da existência nas comunidades periféricas. Entre a quarta-feira, onde a "velha Flora seca", e a sexta-feira, onde o "fogo se afoga" (Sekulu Ndalu watusya vali), Patissa descreve um ciclo de morte que não espera pelo tempo natural. Ao inserir expressões em Umbundu, o autor dá voz ao lamento coletivo do Planalto Central, transformando o poema num grito de denúncia contra a precariedade de um "fôlego taxado a meio século".Em última análise, Patissa desmascara a hipocrisia das efemérides institucionais. Para o autor, celebrar o "Dia do Idoso" numa realidade onde o "osso treme" antes dos cinquenta anos é uma ironia amarga. O texto reafirma a sua posição como um "advogado das vozes silenciadas", utilizando a literatura para confrontar as cifras oficiais com a verdade nua e crua do micro-universo popular angolano.
A Voz Coletiva: Gociante Patissa e o Rasto das Antologias
Para além da sua sólida carreira a solo, Gociante Patissa tem sido uma das figuras centrais na internacionalização da nova literatura angolana, marcando presença em diversas antologias de prestígio no espaço da Lusofonia. A sua participação nestas obras coletivas não é apenas um registo de poemas ou contos; é um exercício de diálogo cultural que une Angola a Portugal, Brasil e Moçambique. Um dos marcos mais significativos foi a sua inclusão na antologia "800 Anos – O Futuro da Língua Portuguesa" (2014), publicada em Portugal. Ao lado de nomes consagrados, Patissa representou a vitalidade da escrita angolana contemporânea, provando que a língua é um organismo vivo que se renova em cada margem do Atlântico. A sua escrita também ecoou em Moçambique, na coletânea "A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua" (2013), reforçando os laços literários dentro do continente africano. Mas o papel de Patissa nas antologias vai além do de autor. Com o projeto "Palavras são Tantas" (2019), ele assumiu a missão de mentor e organizador. Esta obra, resultante de oficinas literárias, serviu de montra para uma nova geração de escritores de várias províncias de Angola, demonstrando que Patissa acredita na literatura como um esforço coletivo e formativo. Estar presente nestas coletâneas — desde as "Edições Sempre-em-Pé" em Portugal até aos dossiers comemorativos do Dia Mundial da Língua Portuguesa — permitiu que a sua voz, inicialmente nascida em Benguela, se tornasse um património partilhado por todos os que habitam a língua de Camões.
Da Oralidade ao Pixel: A Ponte Literária de Gociante Patissa
Gociante Patissa estabelece uma intersecção única entre a tradição oral e a modernidade digital, transformando o seu blogue, Angola Debates e Ideias, numa extensão da "árvore das palavras" africana. Numa era de rapidez tecnológica, o autor não abandona as raízes; pelo contrário, utiliza as ferramentas digitais para preservar e amplificar a voz do povo. A sua escrita carrega a cadência do contador de histórias tradicional — o ritmo, a pausa e a ironia — mas adapta-os ao formato da crónica e do post de blogue. Livros como O Apito que Não Se Ouviu e Fátussengóla nasceram precisamente deste exercício: capturar o "ouvir dizer" das ruas de Benguela e Luanda e dar-lhe uma forma perene através da escrita online. Esta transição do ecrã para o papel permite que a oralidade angolana, muitas vezes fugaz, ganhe uma nova vida. Patissa prova que o digital não vem substituir a tradição, mas sim oferecer-lhe um novo fôlego. No seu universo literário, o blogue é o espaço de debate imediato e a obra impressa é o arquivo da memória, provando que é possível ser profundamente tecnológico sem nunca deixar de ser profundamente ancestral.
Da Terra ao Mundo: O Reconhecimento e a Projeção de Gociante Patissa
Gociante Patissa recebeu o Prémio Provincial de Cultura e Artes de Benguela 2012, na categoria de Investigação em Ciências Sociais e Humanas, pelo contributo na divulgação da língua umbundu através de tradições orais, contos e novas tecnologias de informação. Este reconhecimento oficial premiou a digitalização de provérbios ancestrais no blog Angola Debates e o resgate da memória benguelense em narrativas como Fátussengóla, marcando a projeção nacional do autor para além do eixo Luanda.
Patissa consolidou a sua projeção lusófona em eventos internacionais de relevo. Na Feira do Livro de Frankfurt (2016), representou Angola, debatendo a baixa visibilidade da literatura africana lusófona e defendendo circuitos editoriais alternativos para autores periféricos. Já na Flipelô (Bahia, 2018), recitou poesia de Guardanapo de Papel e dialogou com Salgado Maranhão, reforçando a receção brasileira após Almas de Porcelana. Estas participações — alargadas a Israel (linguística), Museu de Lamego (2023), Embaixada de Portugal em Luanda (2019) e Cascais (Dia Mundial da Poesia, 2026) — transformam Patissa em elo entre oralidade umbundu, literatura pós‑guerra e diáspora digital. O prémio de Benguela e os palcos internacionais consagram-no como mentor da «benguelensidade» lusófona.
Um dos pilares da sua importância reside na intersecção entre a tradição oral e o digital. Através do seu blogue, Angola Debates e Ideias, Patissa democratizou o acesso à literatura, funcionando como uma "árvore das palavras" moderna onde o debate é imediato e inclusivo. Esta presença online não substitui o livro físico, mas alimenta-o, servindo de laboratório para obras de realismo mágico como O Homem Que Plant8ava Aves (2017). O reconhecimento do seu trabalho atravessou fronteiras precocemente. Se em 2012 foi consagrado com o Prémio Provincial de Benguela de Cultura e Artes, a sua voz rapidamente ecoou em palcos internacionais de prestígio, como a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, e a Flipelô, no Brasil. Além disso, a sua participação em antologias fundamentais, como 800 Anos – O Futuro da Língua Portuguesa, consolidou-o como um embaixador da lusofonia.
Gociante Patissa: A Voz que Une a Tradição à Modernidade Digital
A literatura angolana contemporânea encontra em Gociante Patissa uma das suas figuras mais dinâmicas e multifacetadas. Escritor, cronista e ativista cultural, Patissa não se limita a publicar livros; ele constrói um ecossistema onde a herança da palavra falada se funde harmoniosamente com a agilidade do mundo digital. O seu percurso é marcado por uma curiosidade insaciável sobre o quotidiano. Em obras como O Apito que Não Se Ouviu (2015) e Palavras são Tantas (2019), o autor resgata o género da crónica para dar palco aos silêncios e às contradições das ruas de Angola. Já na poesia, com o aclamado Almas de Porcelana (2016), explora a "estética da fragilidade", transformando a sensibilidade humana numa forma de resistência e beleza.
Mais do que um autor individual, Patissa é um mentor. Ao organizar coletâneas e oficinas, ele garante que a literatura angolana não seja apenas um rasto do passado, mas um fenómeno vivo e em constante renovação. Gociante Patissa prova, assim, que entre o "apito" que ninguém ouve e as "aves" que se plantam, existe um território vasto de humanidade que só a grande literatura consegue mapear.
"Mar de Letras e Vozes: A Presença Multimédia de Gociante Patissa"
"O Olhar de Vidraça: Crónicas de Gociante Patissa"
«As montras da vida, onde os homens bebem e deixam-se beber até que a sombra ilumine mais que uma noção de lugar a beira do nada?» — Evocando o vazio consumista e a ausência espiritual nas periferias angolanas.
"Gociante Patissa: Jornalismo, Literatura e Memória de Angola"
Helena Borralho
Created on March 2, 2026
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Transcript
"Gociante Patissa: Jornalismo, Literatura e Memória de Angola"
17 de dezembro de 1978
Gociante Patissa: A Voz de Benguela na Literatura Pós-Conflito
Gociante Patissa (Daniel Gociante Patissa, 1978) representa uma das vozes mais autênticas da chamada Geração Pós-Conflito em Angola. Natural de Monte Belo, na província de Benguela, o autor afirma-se no cenário literário após o fim da guerra civil (2002), num momento em que a escrita angolana se liberta do imperativo nacionalista para explorar as fraturas sociais, a memória da guerra e a quotidianidade contraditória do novo milénio. A sua escrita é profundamente marcada pelo diálogo entre a língua portuguesa e a língua umbundu, integrando heranças da oralidade africana em formas literárias modernas como o conto, a novela e a crónica. Obras como A Última Ouvinte e O Consulado do Vazio evidenciam a sua capacidade de satirizar a realidade política e social, sem perder o vínculo com a identidade regional e com o universo camponês de Benguela. Enquanto jornalista, ativista cultural e promotor da língua umbundu, Patissa contribui para descentralizar o cânone literário angolano — frequentemente concentrado em Luanda — ao escrever a partir das margens geográficas e simbólicas. A sua obra não se reduz ao registo ficcional: funciona também como exercício de preservação cultural e de investigação social, tornando-o uma referência incontornável para compreender a Angola contemporânea, as tensões do período pós‑guerra e a emergência de novas subjetividades angolanas.
As Raízes de Monte Belo: A Formação de Gociante Patissa
Daniel Gociante Patissa nasceu em 1978 na comuna do Monte Belo, município da Ganda, província de Benguela. A infância e a adolescência decorrem num ambiente rural profundamente marcado pelos anos mais intensos da guerra civil pós‑independência, cujas dinâmicas sociais e violências atravessam a sua memória e mais tarde a sua ficção.Crescer em Monte Belo foi determinante para a sua identidade literária. No seio familiar, Patissa absorve a tradição oral umbundu – histórias, provérbios, genealogias – que mais tarde transpõe para a escrita. A imersão nessa oralidade permite‑lhe construir uma obra que não apenas utiliza o português, mas que pensa e sente a partir das estruturas e imaginário da sua língua materna. A localização periférica de Monte Belo, distante dos grandes centros urbanos como Luanda, confere à sua visão de mundo uma perspetiva descentralizada. Na adolescência, observa de perto as dificuldades das comunidades rurais, o isolamento e as estratégias de sobrevivência diante da guerra, experiências que se convertem em matéria‑prima para a crítica social e para as personagens que habitam as margens da sociedade angolana. Apesar das limitações impostas pelo conflito na região de Benguela nas décadas de 1980 e 1990, o jovem Patissa encontra na leitura e, depois, no jornalismo, instrumentos para organizar e interpretar essas vivências. Esta fase inicial em Monte Belo constitui o alicerce de toda a sua obra e explica a constante preocupação em documentar a memória coletiva e a cultura das populações do planalto central angolano.
"Gociante Patissa: Umbundu e a Nova Literatura Angolana Pós-Conflito"
A oralidade umbundu e a biblioteca do pai funcionam como dois eixos fundadores da formação de Gociante Patissa, que depois se reencontram na sua escrita. Na infância, Patissa cresceu num ambiente em que a oralidade umbundu era central: histórias, provérbios, canções e anedotas transmitidos em família e na comunidade. Essa experiência marca a sua literatura, visível no uso sistemático de provérbios umbundu em livros como Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas, onde a língua umbundu estrutura o modo de pensar das personagens e reforça a dimensão ética e comunitária dos contos. Críticos sublinham que a “angolanidade” e a força da sua obra passam justamente por esse trânsito entre umbundu e português, com a incorporação de léxico e ritmos da fala vernacular no texto escrito.Em entrevistas e textos autobiográficos, o autor refere ter tido a “sorte” de ter pais que transformaram a casa num espaço de transmissão de oralidade e de acesso a livros, funcionando quase como uma pequena biblioteca familiar. Essa biblioteca paterna, associada ao incentivo à leitura, ofereceu-lhe contacto precoce com a literatura em português e permitiu-lhe comparar o universo dos livros com o mundo contado em umbundu à volta da fogueira. A combinação entre esses dois repertórios – o escrito e o oral, o português e o umbundu – explica a versatilidade genérica de Patissa (conto, novela, poesia, crónica) e alimenta a sua preocupação em preservar, registrar e atualizar a memória cultural do planalto central angolano.
"A Palavra em Análise: O Olhar do Linguista na Obra de Patissa"
A formação académica de Gociante Patissa constitui o terceiro pilar que sustenta a sua obra, articulando a sensibilidade literária com uma consciência linguística rigorosa. Licenciado em Ensino da Língua Inglesa (Linguística/Inglês), o autor desenvolve uma relação crítica com a linguagem, aprendendo a “desmontar” e reconstruir o discurso. O estudo da Linguística permite‑lhe encarar o português e o umbundu não apenas como meios de comunicação, mas como sistemas em contacto; na sua escrita, as interferências entre ambas as línguas são usadas de forma consciente para forjar um estilo angolano assumidamente híbrido. O domínio da língua inglesa abre‑lhe ainda o horizonte das literaturas anglófonas – em particular a produção africana de expressão inglesa – aproximando‑o de autores que, como ele, escrevem a partir da tensão entre a tradição local e a língua herdada da colonização. Com esta base académica, Patissa transforma‑se num verdadeiro “arqueólogo” das palavras: mais do que escrever ficção, investiga etimologias, provérbios e estruturas gramaticais que ajudam a compreender e a fixar a identidade linguística e cultural do planalto central de Angola.
«Você vais bater uma mulher grávida, lhe empurras nas escadas, ferir a filha alheia?! Não sabes que isso é matar a tua própria mãe?» — provérbio benguelense partilhado no blogue, condenando violência doméstica.
"Do Ecrã às Letras: Gociante Patissa e o Laboratório do 'Comboio da Amizade'"
Antes de se consolidar como uma das figuras centrais da literatura angolana contemporânea, Gociante Patissa trilhou um caminho decisivo na comunicação social. O seu início nesta área está ligado ao programa “Comboio da Amizade”, emitido pela Televisão Pública de Angola (TPA) em Benguela, onde, ainda muito jovem, experimenta a reportagem e a apresentação. A participação neste projeto infantil e juvenil funcionou como um verdadeiro laboratório linguístico. No “Comboio da Amizade”, o jovem comunicador exercita a concisão, a clareza e, sobretudo, a proximidade com o público, aprendendo a traduzir o quotidiano em linguagem acessível. Esta fase é fundamental para que desenvolva a capacidade de captar a “pulsação” das ruas e a linguagem das novas gerações de Benguela. A dinâmica da comunicação televisiva e radiofónica influencia diretamente a sua estética literária. É nesse contexto que Patissa apura o olhar de observador do quotidiano, transformando episódios banais em narrativas densas, e que treina a agilidade narrativa exigida pelo guionismo e pela apresentação – traços que mais tarde se reconhecem na estrutura das suas crónicas e contos, marcados pelo ritmo da fala e pela vivacidade dos diálogos. Através da TPA, Gociante Patissa assume-se como mediador cultural num período de transição em Angola. O programa serve de plataforma para promover cidadania e identidade local, permitindo-lhe passar do papel de “ouvinte” das histórias de Monte Belo ao de narrador da realidade angolana perante um público alargado. Este início na comunicação é, assim, o prelúdio necessário para o escritor que, mais tarde, usará a pena para prolongar, no papel, a voz que primeiro ecoou nos ecrãs de Benguela.
"A Pena de Intervenção: Gociante Patissa e o Jornalismo como Laboratório Literário"
Gociante Patissa constrói, em paralelo à escrita literária, um percurso sólido na comunicação social e no jornalismo cultural. Começa ainda muito jovem na Televisão Pública de Angola, em Benguela, no programa infantil e juvenil “Comboio da Amizade”, onde experimenta a reportagem e a apresentação. Essa vivência funciona como laboratório de linguagem e de escuta do quotidiano, afinando a capacidade de falar com clareza e proximidade para um público amplo.Mais tarde, reforça essa vertente como colaborador do Jornal Cultura, onde publica crónicas, entrevistas e reflexões sobre literatura, língua e sociedade angolana. A partir daí, consolida-se como uma voz crítica do campo cultural, particularmente em torno da valorização das línguas nacionais. Integra também a Gazeta Lavra & Oficina, ligada à União dos Escritores Angolanos, chegando a assumir funções editoriais. Nesta revista, atua como mediador entre diferentes gerações de escritores, ajudando a divulgar novas vozes e a pensar o lugar da literatura num país em reconstrução pós‑conflito. Toda esta atividade jornalística e editorial reforça a sua obra de ficção. O treino de observação, a atenção às falas reais e a necessidade de síntese discursiva atravessam os seus contos e crónicas, que frequentemente assumem a forma de registo do quotidiano e comentário social. Ao mesmo tempo, a sua presença nos media e nas publicações culturais faz dele um mediador entre o campo literário e a esfera pública, usando a palavra – oral e escrita – para interrogar a Angola contemporânea.
Guardião da Identidade: Gociante Patissa e o Ativismo pelas Línguas Nacionais
Para além da criação literária, Gociante Patissa afirma-se como um dos mais dinâmicos ativistas culturais da Angola contemporânea. O seu trabalho transcende o papel do escritor solitário para se tornar uma missão de salvaguarda do património imaterial, centrada na valorização das línguas nacionais e no descentramento da cultura angolana.Como linguista de formação e falante nativo, Patissa combate a marginalização das línguas africanas no sistema de ensino e na literatura. Para si, o umbundu não é mero dialeto doméstico ou relíquia do passado, mas uma língua viva, capaz de expressar a complexidade do pensamento moderno. Nas suas obras, a introdução de termos e estruturas sintáticas umbundu não constitui adorno exótico, mas ato político de resistência contra a uniformização linguística, forçando o português a dialogar com a mundividência do Planalto Central. Atua assim como mediador, trazendo a filosofia banto e os provérbios para o debate intelectual urbano, garantindo que esses saberes não se percam na modernidade. Um dos contributos maiores é a persistência em produzir e dinamizar cultura a partir de Benguela. Ao recusar o êxodo para Luanda – centro das decisões e do mercado editorial –, Patissa prova que a periferia geográfica pode ser centro de excelência intelectual. Através de palestras, workshops e presença na imprensa regional, incentiva a leitura e a escrita entre jovens, funcionando como mentor de novos talentos. Para Patissa, o ativismo cultural é cidadania ativa. Nas redes sociais, no jornalismo e em fóruns literários, denuncia a exclusão cultural e defende uma Angola plurilingue e descentralizada. Esta postura consagra-o como “arquivo vivo” e defensor incansável da memória coletiva do seu povo.
"O Jango da Escrita: Oralidade e Realismo na Obra de Gociante Patissa"
Gociante Patissa constrói uma obra literária variada e consistente, transitando entre conto, novela, poesia e crónica, sempre ancorada na experiência angolana pós-conflito e na valorização do interior do país. Entre as principais publicações destacam-se A Última Ouvinte (2010), livro de contos que marca a sua estreia na prosa ficcional, centrado em personagens marginais e na memória rural de Benguela; Não tem Pernas o Tempo (2013), uma novela que explora a passagem do tempo e as sequelas da guerra civil através de narrativas familiares; e Guardanapo de Papel (2014), recolha de poesia publicada em Portugal, com tons intimistas e reflexões sobre identidade e perda.Outros títulos fundamentais incluem Fátussengóla, o Homem do Rádio que Espalhava Dúvidas (2015), onde a rádio comunitária serve de pretexto para sátira social e preservação linguística; Almas de Porcelana (2016), poesia reunida no Brasil que enfatiza a fragilidade humana e a resistência cultural; e O Homem que Plantava Aves (2017), contos que retratam o quotidiano imprevisível do campo angolano, entre fábula e realismo mágico. Estas obras consolidam-no como autor de referência na Geração Pós-Conflito, com edições em Angola, Portugal e Brasil.
"O Jango da Escrita: Oralidade e Realismo na Obra de Gociante Patissa"
Os temas recorrentes orbitam em torno da identidade angolana, articulada entre o rural e o urbano, o umbundu e o português, num registo de memória coletiva pós-guerra. A imprevisibilidade da vida manifesta-se nas contradições do presente – oportunismo, corrupção, mas também solidariedade comunitária –, enquanto as línguas locais, especialmente o umbundu, funcionam como veículo de resistência cultural, incorporando provérbios e expressões que densificam o pensamento das personagens e preservam filosofias bantu. No plano estilístico, Patissa mistura realismo cru com oralidade africana: diálogos vivos que captam o ritmo da fala vernacular, estruturas narrativas que evocam a contação de histórias à fogueira e um hibridismo linguístico intencional, com interferências do umbundu no português. Este estilo autêntico, entre crónica jornalística e fábula moral, dá corpo a uma Angola descentralizada e plurilingue, refletindo a sua formação linguística e o ativismo cultural.
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
«Tríade «Pedra, Tempo e Obra» Na madrugada acelera-se a pulsação no movimento irreversível do tempo os fantasmas da responsabilidade cantam ecoam as lembranças é a despedida do repouso De dia o suor espalha-se pelos poros afora na orquestra de quem trabalha estradas rasgam-se na curva dos seios na nudez do arco-íris a vida é infindável caminhada De noite o corpo exausto cobra pelo descanso os olhos carregados enganam as almas que adormecem masturbadas Ontem foi partida hoje é caminhada e o amanhã uma promessa ainda in Consulado do Vazio
Consulado do Vazio (2008) marca a estreia poética de Gociante Patissa como uma voz introspectiva e interventiva da literatura angolana contemporânea, centrada no vazio existencial e na memória cultural umbundu. O livro reúne poemas escritos ainda durante o período da guerra em Angola e reflete o envolvimento do autor com a sociedade civil, apresentando apelos ao fim do conflito armado e mensagens de esperança. A obra explora o vazio existencial e temporal, com versos que reflectem sobre o movimento irreversível do tempo, fantasmas da memória e a condição humana num contexto angolano pós-independência. Poemas como os da tríade «Pedra, Tempo e Obra» destacam-se pela introspeção, usando imagens simples do quotidiano rural para questionar a efemeridade da vida e a busca por significado. No panorama da literatura umbundu, o livro marca o início da trajectória de Patissa, misturando oralidade local com sensibilidade moderna, sem cair em nostalgia excessiva.
Poema «Tríade: Pedra, Tempo e Obra» estrutura-se em três momentos cíclicos — madrugada, dia e noite —, simbolizando a tríade Pedra (estabilidade/suor do labor), Tempo (movimento irreversível) e Obra (fruto da existência). A madrugada introduz a pulsação acelerada do tempo, com «fantasmas da responsabilidade» que ecoam memórias, marcando o fim do repouso e o peso da consciência angolana pós-independência. De dia, o suor do trabalho colectivo (orquestra, estradas nos seios da terra) evoca a luta quotidiana, transformando a nudez do arco-íris numa «infindável caminhada» de resiliência rural umbundu. À noite, o cansaço trai as almas num sono ilusório («masturbadas»), criticando a alienação após o esforço.
Contemplação Contemplei a equação da calema um tanto brava e ao mesmo tempo de toques ternos afaguei as águas que no vai-e-vem talvez química biologia - não sei conservam o eterno frio sob azul Li em cada movimento um verso descontraído ajoelhado como se a rezar o terço mas a vida não é como mar tem escala relógio e bumbar o dever não quis esperar e tive de zarpar in Consulado do Vazio
Não se fez manhã ainda Sou mais um um mais apenas entre milhares de anónimas penas Pinto nestas linhas de poema desarmado um marco de respeito pelas ideias que morreram no peito sem terem subido à boca ou descido às mãos ou beijado montras Àqueles cuja imaginação e sonhos se tornaram predilectos rivais empresto uma certeza com o calibre das outras e algo mais não se fez manhã ainda e não há obstáculo cricial quando vai o coração aos pedais in Consulado do Vazio
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
Canos soltaram gargalhadas E no rosto desse sonho sem fim que já passou da idade de ir à escola pintam-se telas de alegres destinos traçados com vontade e certezas cantadas os gatilhos não mais cumprirão os dedos o automatismo que os envaidece adormecerá blindados sentar-se-ão no chão esquecidos enferrujados as covas não mais serão notícia. in Consulado do Vazio
Este poema de Consulado do Vazio (2008) apresenta uma pausa lírica na contemplação da natureza, personificando o mar como «equação da calema» — ondas bravias mas ternas —, contrastando o eterno ritmo natural com a urgência humana. O eu lírico «afagueia» as águas num «vai-e-vem» misterioso («química biologia — não sei»), lendo «versos» no movimento azul que guarda «eterno frio». Ajoelhado «como se a rezar o terço», evoca espiritualidade umbundu, mas o «dever» impõe «escala relógio e bumbar», forçando-o a «zarpar».
Este poema de Gociante Patissa, presente em Consulado do Vazio (2008), celebra a vitória simbólica da paz sobre a guerra, usando imagens vívidas e contrastantes para evocar esperança num futuro pós-conflito angolano. A abertura com «canos soltaram gargalhadas» personifica armas (canos de espingardas) como riendo de alívio, invertendo o terror bélico em alegria. O «sonho sem fim / que já passou da idade de ir à escola» representa uma nação adulta, madura para «telas de alegres destinos» pintadas com «vontade e certezas cantadas» — uma Angola que troca violência por criação cultural.
Este poema de Consulado do Vazio (2008) evoca a luta silenciosa das ideias reprimidas numa Angola pós-guerra, onde o eu lírico se assume como «mais um» entre «milhares de anónimas penas», pintando com versos «desarmados» um tributo às vozes caladas. A ausência de «manhã» simboliza um amanhecer adiado — metáfora para liberdades adiadas —, enquanto ideias «morreram no peito / sem terem subido à boca / ou descido às mãos». Contrasta rivais «predilectos» (opressores de sonhos) com a «certeza» poética, que pedala sem «obstáculo cricial» guiada pelo coração.
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
NÃO SE FEZ MANHÃ AINDA Sou mais um um mais apenas entre milhares de anónimas penas Pinto nestas linhas de poema desarmado um marco de respeito pelas ideias que morreram no peito sem terem subido à boca ou descido às mãos ou beijado montras Àqueles cuja imaginação e sonhos se tornaram predilectos rivais empresto uma certeza com o calibre das outras e algo mais não se fez manhã ainda e não há obstáculo crucial quando vai o coração aos pedais. in «Consulado do Vazio»
CENÁRIOS DO FUTURO Pelas artérias da cidade vão calcorreando atrás do pão já não surpreende o “não!” ter sonhos é em vão A vida é para a frente e sempre em frente caminham são um investimento perigoso cenários do amanhã de um futuro sem gozo Na dor basta um “ai!” mãos de pedinte não podem ambicionar mais quando não se tem direito a ter medo do relento só deus pode ser pai São o templo vazio as vítimas do progresso as lacunas do amor preenche-as o quotidiano terror seus azares desfilam nos pregões dissonantes perdidos na densidade do silêncio A vida é para a frente e sempre em frente caminham são um investimento perigoso cenários do amanhã de um futuro sem gozo. in «Consulado do Vazio»
SONHOS DE RUA No dia de São Valentim vou apanhar flores e guardá-las bem perto de mim debaixo do meu banco de jardim e tenho a certeza de que logo à noite a morena miss dos meus sonhos a sua prenda virá reclamar sou criança de rua mas tenho o sonho na conta do que a sorte me negar in «Consulado do Vazio»
«Sonhos de Rua» de Consulado do Vazio (2008) revela a pureza infantil face à adversidade, com o eu lírico — «criança de rua» — a planear apanhar flores no Dia de São Valentim, escondendo-as «debaixo do meu banco de jardim» para atrair a «morena miss dos meus sonhos». A espera ingénua («a sua prenda virá reclamar») contrasta a miséria material («o que a sorte me negar») com a abundância onírica, transformando o banco público em altar romântico. O sonho compensa a rua, preservando dignidade através da imaginação.
Este poema de Consulado do Vazio (2008) apresenta o eu lírico como «mais um» entre «milhares de anónimas penas», erguendo com versos «desarmados» um tributo às ideias sufocadas — mortas «no peito» sem voz, gesto ou visibilidade pública («beijado montras»). A «manhã» adiada simboliza liberdades reprimidas numa Angola pós-independência, onde sonhos enfrentam «predilectos rivais» (opressores). A resposta é uma «certeza» poética de maior calibre, movida pelo «coração aos pedais» — ciclismo como metáfora de progresso resiliente sem «obstáculo crucial».
«Cenários do Futuro» de Consulado do Vazio (2008) pinta um retrato cru da exclusão urbana angolana, onde multidões «calcorreando atrás do pão» persistem «sempre em frente» apesar do «não!» constante e sonhos tornados vãos. A repetição refrão («A vida é para a frente / [...] cenários do amanhã / de um futuro sem gozo») sublinha marcha mecânica rumo a progresso ilusório, onde pedintes sem «direito a ter medo do relento» são «investimento perigoso» — descartáveis para a cidade.
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
Inserido na novela O Consulado do Vazio, o poema «Disse a minha mão» funciona como manifesto estético e ético de Gociante Patissa. Nele, a escrita não é vaidade, mas missão visceral e compromisso inadiável com a condição humana angolana. A personificação da mão que «ordena» escrever sugere uma necessidade biológica da literatura. Esta assume-se como equalizador social: «falaríamos como ricos / ou ouviríamos como pobres» posiciona o escritor como ponte entre mundos, dando autoridade aos desfavorecidos e sensibilidade aos privilegiados. Num país marcado por abismos sociais, a literatura cria espaço para diálogo nacional. As metáforas revelam a profundidade do compromisso: «abrir o poço no deserto» simboliza esperança onde há escassez; «partilhar o tutano» entrega a essência vital ao coletivo. Escrever é advocacia – ferramenta jurídica e moral em defesa dos silenciados. O poema culmina com o escritor como «bálsamo» para «milhares de vozes» e gerações que «farejam pingos de luzes». Numa Angola em cura, a palavra ilumina e emancipa, guiando da sombra para a cidadania plena.
Disse a minha mão Disse a minha mão que escrevêssemos porque escrevendo ou falaríamos como ricos ou ouviríamos como pobres ou vice-versa Disse a minha mão que escrevêssemos porque escrevendo ou abrimos o poço no deserto ou o nosso tutano partilhamos Disse a minha mão que escrevêssemos porque escrevendo advogamos seremos o bálsamo para milhares de vozes de almas e gestações farejando pingos de luzes in Consulado do Vazio
"A Poética da Transição:Identidade e Memória em Consulado do Vazio"
Lá vai mais uma dobrando a esquina de pregão firme como a voz do tambor humilhada aos poucos pelo sol nos mapas de salitre da poeira que adormeceu no suor Forte por fora muitas vezes vulnerável no íntimo veja esta nos olhos encarnados grita despercebida uma mulher mal amada nunca descoberta rainha de etapas queimadas ele que devia ser companheiro é de se esconder no copo quando os ventos são ásperos autêntico chá em taças de champanhe não estar disposta para mais um suor sagrado é para ele frontal apelo à violência habituada a levar da cara Por aqui passou mais uma profissional da zunga protagonista anónima com mil mestrados da vida contudo não contada na segurança social para o turista uma espécie de paisagem rosto de uma noite que lançou a mulher às avenidas dialécticas dos centros urbanos no seu dever de sustentar a sociedade a mesma que a condenará antes de amanhecer por não participar da vida política ou por não saber ler nem escrever in «Consulado do Vazio»
ÁFRICA MÃE ZUNGUEIRA Esta que se aproxima carrega uma criança às costas e outra no ventre uma nuvem húmida rasga-lhe a blusa lembrando que é hora de parar e amamentar e lá vai ela seguindo o itinerário que a barriga traçar gestora de um ovário condenado a não parar porque é património social penhora o útero na luta contra a taxa de mortalidade Conhece bem demais a cidade não tanto pelos monumentos mas pela necessidade viandante como a borboleta fez-se fiel e histérica amante da lei da compra e venda de porta à porta uma lei entretanto não prevista por lei “depender só do marido? Nunca” mal acordou a urbe já peleja aliciando clientes no estômago só o funji do jantar de ontem sem tempo sequer para escovar os dentes
"Ecos do Quotidiano: Oralidade e Observação Social em A Última Ouvinte"
Publicada em 2010 pela União dos Escritores Angolanos, a obra A Última Ouvinte consolida Gociante Patissa como uma das vozes mais lúcidas da narrativa curta angolana contemporânea. Abandonando o lirismo puro da sua estreia poética (Consulado do Vazio, 2008), mergulha num realismo social apurado, onde Benguela e as suas sanzalas servem de palco a dramas humanos universais. O livro reúne sete contos — janelas para a Angola profunda —, destacando-se a mestria de Patissa na transposição da oralidade para a escrita. Inspirada nas histórias junto à fogueira da infância benguelense, a linguagem ágil e rítmica preserva o sabor da fala local sem regionalismos herméticos. No conto-título, exploram-se ilusões e solidão moderna através da relação entre locutor (Cassule) e ouvinte (Esperança da Graça), tetraplégica cuja voz revela dignidade além do corpo. Em Os Dentes do Soba, confrontam-se tradição ancestral e influência colonial/missionária. Mais que ficção, A Última Ouvinte é escuta sociológica: Patissa observa personagens com ironia fina e empatia profunda, captando contradições entre cicatrizes do passado e urgências presentes. Para a literatura angolana, descentraliza o olhar, provando que periferias geográficas são centros narrativos inesgotáveis.
"Oralidade e Desenraizamento: Uma Análise da Novela Não Tem Pernas o Tempo"
Não Tem Pernas o Tempo (2013), novela de Gociante Patissa publicada pela União dos Escritores Angolanos em Luanda, mergulha na memória familiar e coletiva de uma comunidade do interior de Benguela, marcada pela guerra civil angolana. A narrativa acompanha gerações de uma família rural, entrelaçando passado e presente através de histórias orais transmitidas em círculos familiares. O tempo, que «não tem pernas», rasteja implacável, deixando cicatrizes de deslocações forçadas, perdas e tentativas de reconstrução num pós-conflito ainda frágil. Patissa recria os anos 1980–1990 no Planalto Central: violência quotidiana, campos de deslocados, mas também a resiliência das tradições umbundu e a solidariedade comunitária. Os temas centrais giram em torno da transmissão intergeracional de memórias, da imprevisibilidade da vida angolana contemporânea e do desenraizamento face à migração para Luanda e às promessas não cumpridas da paz. O estilo combina realismo cru com oralidade africana: diálogos vivos, provérbios umbundu como eixos morais, hibridismo linguístico que dá voz autêntica às personagens rurais. A novela destaca-se como um dos trabalhos mais pessoais de Patissa, com claros traços autobiográficos ligados a Monte Belo, consolidando-o como voz essencial da literatura pós-conflito, descentrada de Luanda e plurilingue.
"A Palavra que não se Apaga: Fragilidade e Memória em Guardanapo de Papel"
Guardanapo de Papel (2014) é um livro de poesia de Gociante Patissa, publicado em Portugal, que reúne poemas intimistas e reflexivos, marcados pela experiência pessoal e pela observação do quotidiano angolano.A obra explora a fragilidade da existência humana – metaforizada no guardanapo, objecto efémero e descartável – em contraste com a permanência da memória e da palavra escrita. Os poemas abordam a perda, a saudade da terra natal (Monte Belo), a tensão entre o rural e o urbano, e a identidade angolana num mundo em mudança. Há também uma forte presença da oralidade umbundu, com provérbios e imagens que evocam a sabedoria comunitária. Patissa adota um registo coloquial e direto, próximo da fala, com versos curtos e rítmicos que lembram a contação oral. O hibridismo linguístico está presente: palavras e sintaxes umbundu entrelaçam-se ao português, criando uma voz poética autêntica e plurilingue. O tom oscila entre melancolia, ironia e esperança, reflectindo a imprevisibilidade da vida pós-conflito. Publicado fora de Angola, este livro marca a internacionalização de Patissa e mostra a sua versatilidade genérica, passando da prosa para a poesia lírica. É uma obra de transição, que liga a experiência autobiográfica à maturidade estilística das publicações seguintes, consolidando temas recorrentes como a memória, a língua e a resistência cultural.
"O Asfalto e a Raiz: A Resistência do Olhar em Sem Vida no Pé"
Este poema de Guardanapo de Papel (2014) retrata a dignidade silenciosa do trabalhador rural angolano, cuja existência é definida pela repetição quotidiana e pela perda física – «sem vida no pé» –, mas cuja memória persiste viva nos «olhos de lição». A imagem central opõe o asfalto (símbolo de progresso urbano) ao campo, onde o corpo já não responde, mas os sentidos guardam milho, chuva e café – elementos essenciais da vida camponesa do Planalto Central. O ritmo dos versos, com elipses e pausas («passos escassos / quase nulos»), imita o andar cansado do velho clementino, que mesmo assim «vai com as formigas dançar» rumo à obra, transformando a fadiga em resistência poética. O desfecho questiona com ironia e força: «que importa se sem vida no pé?», elevando o valor das «veredas fecundas» – os caminhos de vida e memória – acima da mera funcionalidade corporal. É um elogio à resiliência das comunidades rurais de Benguela, em sintonia com o ativismo de Patissa pela cultura descentrada e plurilingue.
SEM VIDA NO PÉ … e as sentenças correram seu caminho ao asfalto cedeu esse campo não é o seu sem vida no pé conserva olhos de lição milho, chuva e café Todos os dias, todo o dia passos escassos quase nulos clemente vai com as formigas dançar pelos caminhos da obra eis o brotar de fecundas veredas que importa se sem vida no pé? In «Guardanapo de Papel»
"A Urgência da Luz sob o Céu de Chumbo"
Este poema de Gociante Patissa descreve a tensão entre a esperança e a inevitabilidade. O "olhar reincidente" foca-se num pequeno ponto de luz (o farol) que resiste no meio da escuridão total. Há uma urgência em alcançar essa luz ("há-de ser minha") antes que o tempo se esgote ("antes que caia... o fim do cenário"), revelando um espírito que prefere a luta à resignação ou ao perdão passivo. Um olhar reincidente e inquieto fixa-se no pingo de luz do farol — tímido ponto veludo contra o céu de negra nuvem. Essa luz, para lá do mar-útero que nutre a aragem comum, apaga outras velas mas promete ser do poeta. Antes que a manhã caia do céu e o cenário acabe, essa luz ainda há-de ser sua. Mesmo que tudo lhe façam, resta uma certeza: menos perdoar. O farol simboliza esperança obstinada perante a escuridão inevitável.
RASTOS NA LINHA DO FAROL Reincidente olhar inquieta-se à volta do pingo de luz aquele tímido ponto veludo quando o céu todo é negra nuvem. Aquela luz para lá do mar útero da mesma aragem que outras velas vai apagar ainda há-de ser minha antes que caia do céu a manhã e o fim do cenário ou façam-me tudo então menos perdoar. In «Guardanapo de Papel»
"A Beleza Contra o Tempo: A Voz que Ressuscita o Mundo"
“A beleza nunca é triste” Nem os postiços nem as lembranças belas Que é só o mar no bater das ondas a tomar o seu banho nada para desmerecer as almas engolidas pela espuma E se ente soldado é defunto até voltar da guerra Tchipa ressuscitou o mundo na saudade que canta na frente da chama “cá na mata, a vida é bela, mamã[2]” mesmo aos olhos do fado In «Guardanapo de Papel»
Este poema de Gociante Patissa é uma homenagem emocionante à resiliência e à memória de Tchipa (pseudónimo do músico angolano Manuel de Jesus), que cantou a beleza mesmo em tempos de guerra.O poeta afirma que a beleza resiste à tristeza, nem nos postiços nem nas lembranças belas. O mar, no bater das ondas, toma o seu banho vivo — nada desmerece as almas engolidas pela espuma, que fazem parte do ciclo natural. Se o soldado é defunto até voltar da guerra, a tchipa (mulher que espera) ressuscita o mundo na saudade que canta. Na frente da chama, ecoa o refrão popular: "cá na mata, a vida é bela, mamã" — esperança feminina que desafia o fado e a morte.
[2] Trecho da canção “Cartinha da Saudade”, do músico angolano Jacinto Tchipa, década de 1980
Preguiça da cabaça O deserto tem sua pressa parece que passa parece que pára O céu vai sem gotas há muito a vegetação absorta escapa bebendo dos meus olhos e o deserto parece que passa parece que pára brincando aos tempos Mas tinha já que passar não sobra muito mais na cabaça das lágrimas In «Guardanapo de Papel»
"A Preguiça da Cabaça: Quando a Sede Vira Tempo"
Este poema é uma meditação profunda sobre a escassez e a angústia da espera, usando a imagem da seca e do deserto para falar de uma sede que é tanto física quanto existencial. No deserto, a cabaça guarda uma preguica líquida enquanto o tempo oscila entre passar e parar. O céu seco há muito não manda gotas, e a vegetação escapa absorta, bebendo das lágrimas do poeta. O deserto brinca com os tempos, mas a cabaça das lágrimas aproxima-se do fim — não sobra muito mais. A pressa do deserto contrasta com a lentidão vital do que resta na cabaça, entre ilusão de movimento e paralisia seca.
GUARDANAPO DE PAPEL Já cansado o velho bar fecha-se ao pó fértil da esquina qual navio atracado para nova largada. Do mar de verão vem pujante a brisa traçando cordão na esquina monumental do cine. Estátua e gente parece tudo de madeira pela porta entreaberta vê-se que algo voa bem rente mas ninguém vai dizer se é saia ou guardanapo de papel. in «Guardanapo de Papel»
"A Leveza do Acaso: Entre a Estátua e o Papel"
Este poema de Gociante Patissa, que dá título à obra «Guardanapo de Papel», utiliza uma cena urbana estática — um bar antigo a fechar, um cinema, uma estátua — para contrastar com a leveza e a incerteza do movimento. O autor brinca com a percepção: num cenário onde tudo parece "de madeira" (rígido, imóvel), algo voa de forma ambígua. A dúvida final entre a "saia" (o humano, o erótico) e o "guardanapo de papel" (o descartável, o lixo urbano) simboliza a fragilidade e a efemeridade das coisas que passam despercebidas na rotina das cidades.
LÍNGUA, GELOS E LABAREDAS filhas são amantes redundância que leva à pirâmide enquanto no gelo dorme o oxigénio que falta à labareda só lembrada na cor da língua. Cada limite novo começo multiplicação ou soma processos levam ao mesmo repetição. in «Guardanapo de Papel», 2014
"Língua, Gelos e Labaredas", de Gociante Patissa, é uma reflexão metalinguística sobre os limites da comunicação e a criação poética. O poema utiliza metáforas de gelo e fogo para explorar a interdependência entre o silêncio, a expressão e o processo de nomear a realidade. A obra aborda a ciclicidade da existência, onde o limite da linguagem se transforma num novo começo através da repetição. A escrita é vista como um processo de multiplicação e soma, celebrando a resiliência da língua entre a inércia e a paixão.
A Estética da Fragilidade: Uma Viagem por "Almas de Porcelana"
Almas de Porcelana (2016) é uma coletânea poética de Gociante Patissa, publicada no Brasil pela Penalux, que reúne poemas de Consulado do Vazio (2008) e Guardanapo de Papel (2014), acrescida de textos diversos.Em Almas de Porcelana, o escritor angolano Gociante Patissa convida-nos a olhar para a condição humana através de uma lente de rara delicadeza. Longe de associar a porcelana à fraqueza, o autor utiliza-a como uma metáfora para a sensibilidade e para a sofisticação das emoções que nos compõem. A obra é um exercício de autodescoberta e observação social. Nos seus versos, Patissa explora a linha ténue entre o que é duradouro e o que é quebradiço, pintando um retrato honesto das vivências contemporâneas em Angola e na lusofonia. Através de uma linguagem cuidada e rítmica, o poeta transforma o quotidiano em algo transcendente, lembrando-nos que é na nossa vulnerabilidade que reside a nossa maior humanidade. Ler este livro é aceitar o desafio de olhar para as próprias "fissuras" com aceitação, reconhecendo que, tal como a porcelana fina, a alma humana ganha valor pela sua história, pela sua transparência e pela beleza do seu design interior.
"A fragilidade não é ausência de força, é a transparência da alma que se deixa ver sem filtros."
SERVIÇAIS DO PARQUE Na primeira das horas do patrão vai morta a manhã do poeta A saliva corta o vidro Já não sigo o curso dos lábios tão curtos como os pés e os anos Sei de cor o pregão como o bocejar com que se coze o jejum da segunda classe onde o pó cai e vai antes da chuva e do avião Toques atrevidos antecipam-se no lugar da saudação oh e na mão o vapor do trapo entorpecido que roça o veículo e a ponta do nariz “Vou limpar, patrão?” in «Almas de Porcelana»
"A Manhã Invisível: O Vidro entre o Patrão e o Poeta"
Este poema de Gociante Patissa expõe o abismo social através da figura do limpador de vidros. O autor contrasta a "hora do patrão" com a "manhã morta do poeta", sugerindo que a necessidade de sobrevivência sufoca a criatividade e a dignidade. O trabalho é mecânico, marcado pelo "jejum" e pela invisibilidade, onde o homem se torna apenas uma extensão do "trapo entorpecido", pedindo permissão para existir através da pergunta final: "Vou limpar, patrão?".Na primeira hora do patrão, a manhã do poeta morre. A saliva corta o vidro enquanto o poeta já não segue o curso dos lábios curtos como pés e anos, sabendo de cor o pregão e o bocejar do jejum da segunda classe. O pó cai antes da chuva e do avião. Toques atrevidos substituem saudações, e na mão o vapor do trapo entorpecido roça o veículo e a ponta do nariz. "Vou limpar, patrão?" — a submissão quotidiana dos serviçais do parque, condensada na humilhação ritualizada.
RETRATO ITINERANTE Pela vidraça do turista três pescadores dois a remar tão certos da partida como não é da canoa parar Sungas e peitos desnudos picanha ou acarajé o suor perdeu-se nos trapos a chuva inflama os graus está visto um pouco mais a leste grudadas casas da altura da girafa Boceja agora o sol no pátio da capelinha um pouco abaixo do nível da favela por lá não se ouve Mandela por cá a maré promete E some a canoa da vista para lá do salvador farol partindo as ondas ao compasso das asas do pássaro que no cipó se acoita. Mestre é o mar tácita bênção de mulher é de noite que se ganha o dia o pão e amar na Bahia. Salvador da Bahia, Brasil, 6 de dezembro de 2013 in «Almas de Porcelana»
"O Pão nas Ondas:A Bahia para lá da Vidraça"
Este poema de Gociante Patissa oferece um olhar cinematográfico sobre a Bahia, captando o contraste entre a visão superficial do "turista" e a realidade crua dos pescadores e da favela. O autor utiliza elementos locais (picanha, acarajé, Salvador) para falar da luta pela sobrevivência: o trabalho duro no mar, o suor, e a inversão do tempo, onde "é de noite que se ganha o dia". A presença do mar como "mestre" e a "bênção de mulher" reforçam o misticismo e a força da natureza que dita o ritmo da vida. Pela vidraça do turista, três pescadores — dois a remar — surgem certos da partida, como a canoa que não para. Sungas, peitos desnudos, suor nos trapos, chuva que inflama: a leste, casas grudadas à altura da girafa; o sol boceja no pátio da capelinha, abaixo da favela onde Mandela não ecoa. A maré promete enquanto a canoa some para lá do farol salvador, partindo ondas ao compasso das asas do pássaro no cipó. Mestre é o mar, tácita bênção de mulher: de noite ganha-se o dia, o pão e amar na Bahia.
O AMOR É ROUPA DE DOMINGO Da caverna que me cabe espreito As medidas do mundo Dois e dois lá vão Para quem sabe contar São anos E dormem e acordam na mesma sombra Do amanhã nem luz falseando sábios Me pus Taciturno desespontâneo Derrubam-me as nuvens deste céu Faltam ombros Quem dera ao menos caber num palavrão Foda-se, todavia! Conheço o amor Como conheço o fundo da noite O amor é roupa de domingo Se adquire Lava Engoma E pendura Contando para o dia O próprio dia O amor é A camisa as calças A blusa a saia Botão que desprega À porta da festa A nódoa na lapela O rubro na veia Temerário O amor comparece O amor falta O amor é que sabe Salva selva Ouve tudo menos conselhos Fosse o amor tecido Como se tecem os sentidos Um pouco mais seria Que roupa de saída Investimento privado Dívida pública O amor é só mesmo isso Isso tudo Ver menos in «Almas de Porcelana»
"A Estética do Afeto: O Amor como Peça de Uso"
Este poema de Gociante Patissa, incluído em Almas de Porcelana, retira o amor do pedestal romântico e coloca-o no campo do ritual e da utilidade. Ao compará-lo a uma "roupa de domingo", o autor sugere que o amor é algo que se prepara, se exibe socialmente e se desgasta (como o botão que desprega ou a nódoa na lapela). É uma visão simultaneamente pragmática e melancólica, onde o sentimento é tratado como um "investimento" ou "dívida", oscilando entre o cuidado doméstico e a fragilidade de uma peça de vestuário que só serve para certas ocasiões. Da caverna pessoal, o poeta espreita as medidas do mundo onde anos dormem na mesma sombra sem luz do amanhã. Taciturno, derrubado por nuvens sem ombros para sustentar, deseja caber num palavrão — "foda-se!" —, mas conhece o amor como o fundo da noite. Fosse tecido como os sentidos, seria mais que roupa de saída — investimento privado, dívida pública. O amor é só isso, isso tudo: imprevisível, ritual e essencial.
"A Rede do Ventre: O Voo que nunca Solta a Mão"
UMBILICAL PÁRA-QUEDAS Se voar é de asas abertas Em replay põem-se a nu as cicatrizes. Tudo é nada mais senão o vento que faz assobiar e sublima cantos tocar o céu pelo penteado da montanha até ceder à lei de gravidade Houve sempre uma mão houve sempre uma mãe. in «Almas de Porcelana»
Este poema de Gociante Patissa é uma metáfora poderosa sobre a liberdade e a segurança. O autor sugere que, embora o voo (a vida, a ambição, a independência) exija "asas abertas", ele traz à tona as "cicatrizes" do passado. A queda é inevitável pela "lei da gravidade", mas o que impede o desastre final é a raiz: o "umbilical" que funciona como para-quedas. A figura da mãe surge como a rede de segurança invisível que permite o risco do voo.
LEGENDAS-IMPRENSA Tratamos cadáveres servimos frescos urgência (hospital) Reciclamos homens, mulheres e crianças ideais juventude sonhos fora do prazo (manicómio) Terrenos de futuro Dubai nos céus prestação decimal ao mês aqui condomínios celestiais (igreja) Ocupado reservado democracia futuras instalações esperança obra embargada liberdade crescimento roubo qualificado reconstrução paz corrompeu assalto à mão armada formação último modelo violação esperança crise (Angola) in «Almas de Porcelana»
"O Dicionário da Crise: Angola em Legendas"
Este poema de Gociante Patissa é uma crítica mordaz e satírica à sociedade angolana contemporânea, estruturado como se fosse uma série de classificados ou manchetes de jornal que revelam a degradação das instituições e dos valores. O autor utiliza o formato de legendas ou anúncios para expor a ironia e o cinismo presentes em diferentes esferas da vida pública em Angola. Ele associa o hospital à morte, o manicómio ao desperdício de sonhos e juventude, e a igreja ao comércio de bens "celestiais" com promessas de futuro tipo Dubai. A estrofe final é a mais contundente, apresentando um dicionário de eufemismos onde "democracia" é uma obra embargada, "reconstrução" é sinónimo de roubo e "paz" aparece corrompida. É um retrato de um país onde as palavras perderam o seu sentido original para camuflar uma crise profunda de valores e de governação.
"Gociante Patissa: Do Encanto da Escuta à Dureza da Manhã"
É FRONTAL A MANHÃ Já fui mais atrás escolhi desencontros e cansei Estatelo-me no canto Maomé de costas com a montanha. Invadem-me Outonos que já encontrei músculos com preço e prazo nada mais Deixo-me derreter na força da noite e quando acordo é frontal a manhã (não foi viagem) confirmam meus lábios despidos e secos. in Almas de Porcelana
O poema «É frontal a manhã», de Gociante Patissa, expressa um profundo cansaço existencial e a passagem de um desencontro acumulado para uma aceitação crua da realidade quotidiana. O eu lírico confessa ter escolhido «desencontros» até ao esgotamento, estatelo contra o impossível — como «Maomé de costas com a montanha» —, invadido por memórias de Outonos reduzidas a «músculos com preço e prazo». Derretido na noite, desperta perante uma manhã «frontal», confirmada por lábios «despidos e secos»: não foi viagem, mas confronto despido com o real, num renascimento sem ilusões típico da poética pós‑guerra de Patissa.
"A Última Ouvinte: Crónica de uma Angola Imprevisível"
A Última Ouvinte é o segundo livro publicado pelo escritor angolano Gociante Patissa, lançado em 2010 pela União dos Escritores Angolanos (UEA).“A última ouvinte” reúne sete contos que exploram, com humor, ironia e ternura, a vida quotidiana em Angola pós-guerra, entre o meio rural e a cidade, sempre com atenção às vozes marginalizadas e à oralidade. No conto-título, acompanhamos Caçule, jovem radialista que mantém uma relação quase íntima com uma ouvinte fiel, Esperança da Graça, conhecida na antena como Marta Domingas. A intriga nasce do fascínio que ele cria pela voz e pelas cartas dessa mulher, idealizando-a como síntese de um público anónimo que lhe dá sentido profissional e afectivo. Quando finalmente decide ir ao seu encontro, confronta-se com uma realidade marcada pela doença e pela vulnerabilidade, e o desfecho trágico transforma-a literalmente na “última ouvinte”, simbolizando o choque entre fantasia mediática e dureza do real.
«...vasos cheios de água. E a conversa com as flores não mais parou, o locutor Caçule ficou maluco.»
"A Última Ouvinte: Crónica de uma Angola Imprevisível"
Outros contos abordam temas como o desencontro entre gerações, o contraste campo–cidade e as mudanças de valores na Angola urbana em expansão. Em “Um natal com a avó”, por exemplo, a personagem Velha‑Mbali visita a família na cidade e recusa abandonar o campo, gerando situações cómicas e críticas sobre o consumismo urbano, a precariedade das viagens e a perda de certas referências comunitárias. A cena em que a avó corre atrás do galo fugido e acaba atropelada por um kupapata, misturando umbundu e português, mostra bem a maneira como o livro combina oralidade, humor e comentário social. Conjunto, os contos constroem um retrato de Angola como espaço “imprevisível”, onde convivem tradições rurais, modernidade caótica e memórias da guerra, filtradas por narradores próximos do povo e da linguagem popular. A rádio, a família, o trabalho informal e as deslocações (do interior para a cidade, ou do kimbo para o asfalto) surgem como eixos centrais, permitindo ao autor problematizar pertença, identidade e desigualdade sem perder a leveza narrativa.
«É de pequena que se forja a herança cultural.»
O Eco do Quotidiano: Uma Viagem por "O Apito que Não Se Ouviu"
Em O Apito que Não Se Ouviu, Gociante Patissa afasta-se momentaneamente da poesia para se revelar um exímio observador do real. Este livro de crónicas, publicado em 2015, funciona como um espelho da sociedade angolana, capturando as nuances, os ruídos e, acima de tudo, os silêncios de um país em constante transformação.O título é, em si, uma metáfora poderosa. O "apito" que ninguém ouve simboliza as situações do dia-a-dia que, de tão comuns, se tornam invisíveis: as injustiças subtis, os dilemas do trânsito, as conversas de esquina e as contradições da modernidade. Patissa não se limita a descrever o que vê; ele interroga a realidade com uma ironia fina e uma sensibilidade que humaniza cada personagem e cenário. Dividido entre o registo jornalístico e a liberdade literária, o autor utiliza a crónica para dar voz ao que é comum, transformando pequenos episódios banais em grandes reflexões sobre a cidadania, a cultura e a identidade. É uma obra essencial para quem deseja compreender a alma urbana de Angola através de uma escrita que é, ao mesmo tempo, crítica, nostálgica e profundamente esperançosa.
"A fragilidade não é ausência de força, é a transparência da alma que se deixa ver sem filtros."
Entre a Terra e o Céu: A Metáfora de "O Homem Que Plantava Aves"
O Homem Que Plantava Aves (2017) é uma das obras mais aclamadas de Gociante Patissa, onde o autor mergulha no realismo mágico para explorar a profundidade da alma humana e as tradições de Angola.Em O Homem Que Plantava Aves, Gociante Patissa apresenta-nos uma coletânea de contos onde a realidade e o fantástico se fundem de forma magistral. O título, profundamente sugestivo, serve de porta de entrada para um universo onde o impossível se torna quotidiano: a ideia de "plantar" algo que é feito para voar sintetiza a busca humana por raízes e, simultaneamente, pelo desejo de liberdade. Nesta obra, Patissa utiliza uma escrita telúrica e sensorial. Os seus contos não são apenas narrativas; são pinturas sociais que retratam a resiliência do povo angolano, as suas crenças, os seus traumas e as suas esperanças. O autor consegue, com uma mestria invulgar, dar voz ao silêncio das aldeias e ao ruído das cidades, criando personagens que carregam em si a herança dos antepassados e a incerteza do futuro. É um livro que celebra a imaginação como forma de sobrevivência. Ler estes contos é aceitar que a vida, tal como a ave que nasce da terra, precisa de cuidado para crescer, mas de coragem para se desprender e ganhar o céu.
«Pesinsa panyãle ongolo; pukamba panyãle ofuka» (Do chão não nasce pau torcido; da terra não nasce capim amargo) — do conto-título O Homem Que Plantava Aves,
A Voz da Inquietude: O Legado de "Fátussengóla"
Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas (2014) é uma das obras mais singulares de Gociante Patissa, onde o autor utiliza a figura de um locutor de rádio para tecer uma crítica social profunda e inteligente. Em Fátussengóla, o homem do rádio que espalhava dúvidas, Gociante Patissa apresenta-nos uma narrativa que é, ao mesmo tempo, uma homenagem à radiodifusão e um manifesto contra as certezas absolutas. A personagem central, Fátussengóla, personifica o poder da palavra falada e a sua capacidade de moldar — ou desafiar — a opinião pública na Angola contemporânea. O livro explora a dualidade do rádio como ferramenta de massas: por um lado, o conforto da voz que entra pelas casas; por outro, a responsabilidade de quem comunica. Em vez de entregar respostas prontas, Fátussengóla opta por "espalhar dúvidas", incentivando o seu auditório a questionar a realidade, a política, os costumes e as injustiças sociais. Com uma escrita ágil e repleta de oralidade, Patissa mergulha no imaginário urbano e suburbano, capturando os anseios de quem ouve e de quem fala. É uma obra que celebra a dúvida como o primeiro passo para a liberdade de pensamento, reafirmando que, num mundo cheio de ruído, a pergunta certa pode ser mais poderosa do que qualquer afirmação.
"O Infinito no Quotidiano: Uma Reflexão sobre "Palavras são Tantas"
Palavras são Tantas (2019) é uma antologia organizada por Gociante Patissa para a 3ª Oficina Literária, reunindo vozes emergentes da literatura angolana com foco em poesia e prosa poética do planalto central e litoral benguelense. Patissa seleciona textos de autores contemporâneos, privilegiando a oralidade umbundu, memória rural e crítica social subtil — ecos da sua própria poética («África mãe Zungueira», inéditos). A antologia consolida o seu papel de mentor literário, articulando gerações pós-Fátussengóla (2014).Em Palavras são Tantas, Gociante Patissa reafirma que a crueza e a beleza da vida não residem nos grandes eventos, mas nos detalhes que as palavras, quando bem escolhidas, conseguem resgatar do esquecimento. Este livro é um inventário de observações, onde o autor utiliza a brevidade da crónica para expandir o sentido de cidadania, cultura e humanidade. O título sugere uma certa urgência e, ao mesmo tempo, uma abundância: num mundo saturado de informação, Patissa seleciona as palavras que realmente importam para descrever Angola, as suas gentes e os seus dilemas. A obra funciona como uma conversa aberta com o leitor, abordando desde as peripécias das ruas de Benguela e Luanda até reflexões mais introspectivas sobre o fazer literário e a língua portuguesa. Com o seu estilo característico — que mistura o rigor jornalístico com a sensibilidade poética — Patissa demonstra que, embora as palavras sejam muitas, cada uma tem o peso da responsabilidade social. É um livro que convida à pausa e à escuta, provando que a literatura é a ferramenta mais eficaz para dar ordem ao caos do dia-a-dia.
"O Ventre e o Milho: A Raiz de Tudo"
POEMA INÉDITO "QUEM SENÃO O MILHO?" As alfaces vistosas que pitam a rua São as faces que a rua mal pinta Enquanto isso há que suar para suar A geometria dos dias As alfaces e as faces ou a ponte Entre o menino e a dívida da rua E quem faz a rua Senão o ventre? Quem faz o galo cantar? Quem, senão o milho? A preguiça da caneta É fruto maduro Na pauta O vazio da cadeira A exclusão na lareira É frio no leite A minha rua A tua rua São mulheres São mulheres com aplausos em atraso Um dia as mulheres pariram os homens Que pariram as ruas E quem faz a rua Senão o ventre? Quem faz o galo cantar? Quem, senão o milho?
Este poema de Gociente Patissa, escritor angolano, é uma reflexão poderosa sobre a origem, o trabalho e a invisibilidade social. O autor estabelece uma linhagem direta: as mulheres pariram os homens, que por sua vez construíram as ruas. No entanto, a base de tudo permanece no ventre, simbolizando a criação e a força feminina que sustenta a sociedade, muitas vezes sem o devido reconhecimento ("aplausos em atraso"). A metáfora "Quem faz o galo cantar? / Quem, senão o milho?" sugere que nada acontece sem o sustento básico ou a motivação primária. O galo não canta por vontade própria, mas porque foi alimentado. É uma ode ao que é essencial e funcional por trás das aparências. Ele brinca com as palavras "alfaces" e "faces", mostrando como a estética da cidade muitas vezes esconde o suor e a "geometria dos dias" (a rotina dura) de quem realmente a constrói. Termos como "vazio da cadeira" e "exclusão na lareira" reforçam o sentimento de abandono ou de falta de lugar para certas figuras na estrutura social urbana. Patissa aponta para uma matriarquia proletária que constrói o mundo mas fica à porta, esperando "aplausos em atraso".
"A Voz e a Memória: O Retrato de Angola em Gociante Patissa"
POEMA INÉDITO:ALUGAM-SE VELHOS Empurro o hoje com as mãos Tipo a minha mãe o arado Salgo com os poros o pão Ainda deste lado. À mulemba nem a nado Em mim tudo cabe Tudo se ajusta O chegar que inquieta O partir que sabe a dieta Da Ganda herdo o ciclo dos eucaliptos Juvenis, floridos, silentes já só lhes restando a calvície e a dureza da crosta aparentemente Do Monte Belo em mim batem O cieiro do calar da lareira Ou as cinzas dos velhos que partem Onde a esperança é a primeira Por aí ouvi um dia destes Que era das árvores rebentar Secar e de novo rebentar É que abundando firmes viram peste Neste chão longânime e gelado Sobrando avós para netos Acena ao denso vazio o preto Alugam-se avôs onde forem achados.
Este é um poema poderoso de Gociante Patissa que evoca a perda geracional e a utilidade descartável dos mais velhos na sociedade contemporânea.O poeta projeta-se como herdeiro resiliente de Ganda e Monte Belo, empurrando o presente com mãos calejadas — como a mãe com o arado — e salgando o pão com o suor dos poros. A imagem sintetiza a herança rural do planalto central angolano: trabalho árduo, circularidade vital e recusa da mulemba (a cidade caótica) mesmo a nado.
Da Ganda vêm os eucaliptos juvenis, floridos e silentes, reduzidos à calvície e crosta dura — metáfora para os velhos cuja abundância se torna “peste”. O ciclo rebentar-secar-rebentar questiona o excesso de longevidade num “chão longânime e gelado”, onde a esperança é sempre a primeira a morrer.De Monte Belo ecoa o “cieiro do calar da lareira” e as cinzas dos que partem, contrastando com o “denso vazio” atual. O preto que acena e o anúncio final — “Alugam-se avôs onde forem achados” — invertem o valor: os velhos, pilares da memória coletiva, viram mercadoria sobressalente para netos desorientados.
"Cartografia do Afeto: Benguela como Espaço e Sentimento"
Por vezes Benguela O apito comboio Vazio Ouve! MBokoyo Ananás lamento de embalar Semáforo banana Netos da mãe que houve que fora que fosse aço nos laços peito pulsando em Kwanzas vida fora é coração feito de calculadora Por vezes Benguela Essa grade entreaberta Em mim
POEMA INÉDITO| POR VEZES BENGUELA Por vezes Benguela o grito lá fora da luz de volta Criança Costelas de esteira Xiii - pouco barulho Benguela por vezes no lugar devoluto daquele rafeiro as fezes bêbado astuto Sardinha carvão O provérbio andarilho Por vezes Benguela complexa porque simples de palmilhar simples porque complexa de a porta fechar O marketing Tão mentido que é
«Por Vezes Benguela» captura a cidade natal de Gociante Patissa em fragmentos paradoxais, entre luz que regressa e gritos contidos, costelas infantis de esteira e silêncio («Xiii - pouco barulho»). Benguela surge complexa na sua simplicidade — palmilhar fácil mas portas que se fecham —, marcada por rafeiros bêbados, sardinhas de carvão e provérbios andarilhos, num marketing «me(n)tido» que engana. O autor define a cidade através de uma dualidade fascinante: ela é "complexa porque simples". Esta simplicidade reside na rotina do comércio de rua e no "apito do comboio", enquanto a complexidade surge na transformação das relações humanas, onde o coração parece agora "feito de calculadora" e o peito "pulsa em Kwanzas". Patissa utiliza termos em Umbundu (como MBokoyo) para ancorar a modernidade da cidade nas suas raízes ancestrais. Ao fim, Benguela deixa de ser apenas um lugar no mapa para se tornar uma "grade entreaberta" dentro do próprio poeta, sugerindo que a identidade do autor e a identidade da terra são indissociáveis e permanentemente em diálogo.
De origens rurais (“venho doutras águas”, “trago tatuado o campo”), o poeta contrapõe-se à força predatória da selva urbana (“que se lixe a selva / O jacaré incluso”). A imagem do jacaré — cuja força está na água — simboliza a adaptação predatória à cidade, enquanto o eu lírico afirma a sua identidade camponesa, indissociável mesmo que roubada. A “estrada adiada” e a “comichão do volante” sugerem um nomadismo interior, nunca plenamente urbano.O refrão “Só quero pintar o mundo da cor do pão” é o cerne programático: o pão, essencial e simples, opõe-se à aspiração consumista da urbe. Ser “fora da norma” — no prédio onde se conhece melhor a chave que o vizinho — é a definição assumida do poeta, que rasga “artérias” (ruas, relações) com o calcanhar, recusando o anonimato e a violência quotidiana da cidade. Patissa constrói assim uma poética da margem voluntária, onde a memória rural e afectiva se sobrepõe à geografia hostil da modernidade angolana pós-guerra, mantendo a coerência temática com os outros inéditos que trabalhámos (campo vs. mulemba, perda geracional).
"A Cor do Pão e o Eco da Voz: A Angola de Gociante Patissa"
E no prédio Mais fácil se conhece cada dente da chave Do que as feições do vizinho Rasgo as artérias com o calcanhar Nas mãos a comichão do volante Afinal fui sempre a estrada adiada Abstenho-me do espectro que rege a urbe É que trago tatuado o campo Que roubem isso também Só quero pintar o mundo da cor do pão
POEMA INÉDITO| SÓ QUERO PINTAR O MUNDO DA COR DO PÃO À margem aspirada chegado Teimo em rezar para não ter que rezar Por tudo e por nada Abstenho-me dessa omnipresença Que rege a urbe E substitui o bom dia por graças a Deus Sei que não devia Que é na água a força do jacaré Mas eu venho doutras águas Caso já não saibam Portanto, que se lixe a selva O jacaré incluso Só quero pintar o mundo da cor do pão Define-me o fora da norma Até que surja o noticiário Carregado, tinto Fecho a porta bem fechada e congelo a geografia Transporto-me para todos os lugares onde passei Às mulheres que amei (não que me prenda o tempo verbal)
Este poema de Gociante Patissa, inédito, é um manifesto de resistência pessoal contra a alienação urbana, centrado na recusa da “omnipresença” que homogeneíza a vida citadina. O eu lírico chega “à margem aspirada” da cidade e teima em “rezar para não ter que rezar”, trocando o “bom dia” genuíno por fórmulas vazias como “graças a Deus”. Esta omnipresença urbana — espectro que rege a urbe — é rejeitada em favor de uma geografia interior: o poeta fecha a porta, congela o mundo noticioso “carregado, tinto” e transporta-se às memórias de amores e lugares passados.
"A Insuficiência do Verso: O Sacrifício e a Seiva Materna"
POEMA INÉDITO| POR QUE SANGRAM AS MÃES? (às mães do Victor Isaac Paulino ‘Paizinho’ e da Ivandra Vinez ‘Messita’) Mãe nenhuma merece poema Um só poema Mãe Nem uma Merece um poema Um só É pouco A menos que sangre A inspiração O papel rasgado Às tiras Pegado O que seja Tesoura Prensa Guilhotina Alavanca Sangra a seiva Da árvore Que foi
É uma mãe Que indaga Solidão pública Encharcando o peito Os peitos Com o rio dos olhos Porquê, meu filho, Porquê, minha filha? Que mal, tão mal fizeste? Mãe nenhuma merece poema Um só poema Mãe Nem uma Merece um poema Um só É pouco A menos que sangre A inspiração Oh mundo imundo E os limites?
Neste poema, Gociante Patissa afasta-se da ironia quotidiana para mergulhar numa dor que a palavra escrita parece não conseguir conter. Ao dedicar os versos às mães de Victor Isaac Paulino e Ivandra Vinez, o autor estabelece que a figura da mãe é sagrada demais para ser reduzida a um simples objeto literário: "Mãe nenhuma merece poema / Um só poema / (...) É pouco".O autor sugere que a poesia só é digna de uma mãe se for um ato de violência e entrega física. Não basta a tinta; é preciso que a inspiração "sangre", que o papel seja "rasgado às tiras", usando ferramentas de corte e pressão como a "tesoura", a "prensa" e a "guilhotina". Esta metáfora bruta ilustra que a maternidade — e especialmente a maternidade que enfrenta a perda — é um processo de desmembramento e resistência. Ao terminar com a imagem da "seiva da árvore que foi", Patissa liga este poema ao ciclo da natureza e à ancestralidade que já exploraste no conto da Velha-Mbali. A mãe é a árvore, a origem, e quando ela sofre, o que corre não é apenas tinta, mas a própria essência da vida (a seiva).
"Entre o Sal e o Metal: A Poética da Viagem em 'Mar de Fevereiro' de Gociante Patissa"
POEMA INÉDITO|MAR DE FEVEREIRO sobre as asas de metal Outro chão O mesmo sal Que nos lê Mar de Fevereiro Cobre as malas cabedal No quinto Ontem dos infernos Hoje alegre compacto dos dias Os céus pela ponta dos dedos Furtiva novena Prenhe de aplausos Fosse isto um poema Mais que a sede de poiso Entre domingo e sexta Tanta sesta Tanta festa Mar ou rio O que der
Este poema «Mar de Fevereiro», de Gociante Patissa, evoca a transitoriedade da existência entre migração, memória e desejo de ancoradouro, num registo lírico mais rarefeito e marinho. O eu lírico viaja «sobre as asas de metal» para «outro chão», mas encontra o «mesmo sal» que o lê — imagem que funde saudade atlântica com a identidade litoral angolana. O «Mar de Fevereiro» cobre malas de cabedal no quinto andar, contrastando infernos do passado com o «alegre compacto dos dias», numa novena furtiva prenhe de aplausos. A dúvida final — «Fosse isto um poema / Mais que a sede de poiso» — questiona a própria escrita face à letargia («sesta») e euforia («festa») entre domingo e sexta. «Mar ou rio / O que der» sintetiza a fluidez resignada: sem raízes fixas, o poeta aceita o que a corrente trouxer, numa poética pós-guerra que prolonga o nomadismo interior dos inéditos analisados.
"A Sentinela da Memória: Ismael Mateus no Cântico de Gociante Patissa"
ISMAEL MORA AQUI Difícil adeus Esse que nos invade A manhã noticiosa meu confrade Ismael Mateus Pilastro que desfalca A casa dos escribas No olho que lê A vela dos sentidos ardeu Nossa gente pede mentiras Uma para cada tela Difícil se abre Outubro Cidadão Ismael confrade Mateus Impotentes, sobra No crente e no ateu o mar de lembranças vincado o lastro teu Na dialéctica voz Nos laços caneta Senão no bom gosto Da África em ti cantante Ismael mora aqui
No poema «Ismael Mora Aqui», Gociante Patissa abandona a ficção para se assumir confrade e cronista da perda. É um tributo sentido a Ismael Mateus (1964-2024), «pilastro que desfalca a casa dos escribas», cuja morte irrompe na «manhã noticiosa» como adeus difícil à cidadania lúcida angolana. A dualidade «Cidadão Ismael / confrade Mateus» destaca a «voz dialéctica» e «laços caneta» que vincaram o lastro cultural. Patissa critica subtilmente a sociedade que «pede mentiras / uma para cada tela», contrapondo-a à verdade que Mateus encarnava. A afirmação final — «Ismael mora aqui» — transcende a morte física: sobrevive na «África cantante» e na memória dos que prosseguem a missão de pensar e escrever Angola.
A Cor do Pão: O Manifesto da Essência contra a Urbe
SÓ QUERO PINTAR O MUNDO DA COR DO PÃO À margem aspirada chegado Teimo em rezar para não ter que rezar Por tudo e por nada Abstenho-me dessa omnipresença Que rege a urbe E substitui o bom dia por graças a Deus Sei que não devia Que é na água a força do jacaré Mas eu venho doutras águas Caso já não saibam Portanto, que se lixe a selva O jacaré incluso Só quero pintar o mundo da cor do pão Define-me o fora da norma Até que surja o noticiário Carregado, tinto Fecho a porta bem fechada e congelo a geografia Transporto-me para todos os lugares onde passei Às mulheres que amei (não que me prenda o tempo verbal) E no prédio Mais fácil se conhece cada dente da chave Do que as feições do vizinho Rasgo as artérias com o calcanhar Nas mãos a comichão do volante Afinal fui sempre a estrada adiada Abstenho-me do espectro que rege a urbe É que trago tatuado o campo Que roubem isso também Só quero pintar o mundo da cor do pão Gociante Patissa | Luanda, Angola, 30 Junho 2019
Em "Só Quero Pintar o Mundo da Cor do Pão", Gociante Patissa apresenta-nos um dos seus textos mais viscerais, onde o conflito entre a identidade rural e a desumanização urbana atinge o seu expoente máximo. Escrito em Luanda, o poema é um grito de resistência de quem se recusa a ser moldado pelas conveniências e ritmos de uma capital que "substitui o bom dia por graças a Deus", criticando uma religiosidade superficial que esvazia a verdadeira ligação entre os homens.O sujeito poético assume-se como alguém "fora da norma". Ele reconhece a "força do jacaré" — uma metáfora para a astúcia e o poder necessários para sobreviver na selva das grandes cidades — mas afirma com rebeldia: "mas eu venho doutras águas". Esta afirmação é o regresso às origens, à Comuna de Monte Belo, reafirmando que a sua matriz não pertence ao asfalto, mas sim a um tempo e espaço onde a sobrevivência tem o peso e a honestidade do pão.
A Cor do Pão: O Manifesto da Essência contra a Urbe
SÓ QUERO PINTAR O MUNDO DA COR DO PÃO À margem aspirada chegado Teimo em rezar para não ter que rezar Por tudo e por nada Abstenho-me dessa omnipresença Que rege a urbe E substitui o bom dia por graças a Deus Sei que não devia Que é na água a força do jacaré Mas eu venho doutras águas Caso já não saibam Portanto, que se lixe a selva O jacaré incluso Só quero pintar o mundo da cor do pão Define-me o fora da norma Até que surja o noticiário Carregado, tinto Fecho a porta bem fechada e congelo a geografia Transporto-me para todos os lugares onde passei Às mulheres que amei (não que me prenda o tempo verbal) E no prédio Mais fácil se conhece cada dente da chave Do que as feições do vizinho Rasgo as artérias com o calcanhar Nas mãos a comichão do volante Afinal fui sempre a estrada adiada Abstenho-me do espectro que rege a urbe É que trago tatuado o campo Que roubem isso também Só quero pintar o mundo da cor do pão Gociante Patissa | Luanda, Angola, 30 Junho 2019
A crueza da vida moderna é descrita através da alienação dos prédios, onde o indivíduo conhece melhor o "dente da chave" do que as feições do seu vizinho. Perante esta frieza, o poeta utiliza a memória como um mecanismo de defesa: ele "congela a geografia" para regressar aos lugares e às mulheres que amou, provando que a literatura é o seu verdadeiro passaporte para a liberdade.O poema culmina numa imagem de resistência indelével: "trago tatuado o campo". Mesmo que a urbe lhe roube o espaço e o tempo, não consegue apagar a sua essência camponesa. Ao querer "pintar o mundo da cor do pão", Patissa apela a um regresso ao essencial, à nutrição da alma e à verdade das mãos que trabalham a terra, transformando a "estrada adiada" que foi a sua vida numa caminhada definitiva de afirmação cultural e humana.
"O Ciclo do Regresso: Da Vela ao Chão"
À MÃO MORENA DO CHÃO Lá longe, bem longe desfilam sonhos pintados sobre a tábua côncava uma vela difusa a mesma vontade de chegar Do lado de cá colhe o chão a semente lençol de asteriscos oh casuarinas o mar guarda o céu as águas os encontros estes a vida Correm as horas a mesa partida e chegada para lá do sombreiro amanhã é regresso à mão deste chão
Este poema de Gociante Patissa celebra a ligação umbilical entre o homem, a terra e o mar. Ele explora a dualidade entre o "lá longe" (o sonho, a viagem, a vela no horizonte) e o "lado de cá" (a realidade do chão, a semente e o trabalho). A natureza (mar, céu, casuarinas) aparece como guardiã da vida e dos encontros, sugerindo que o destino final é sempre um regresso às raízes, à "mão morena" que cultiva e sustenta.
«poema publicado na antologia «Di Versos – Poesia e Tradução, N.º 22»
Poema Inédito| VISCOSO PREGÃO O sol que cai no mar porção Luanda marginal da minha rua Boa ou má Planta silhuetas Que até parecem mulheres Tivessem nome e endereço Na minha nua Paisagem Meninas, mulheres Dadas a vender(se) vendem tudo Tudo tudinho Por acaso Não poupam palavra Nem algodão Quanto mais a commodity Sinuosa Cravada em si Vez a outra só apanham Nada de facto apanham No revezar da toalhita Se homem passa Homem não é É só cofre Bebé! Amor! Não vai uma foca? E homem que passa Aumenta passo, aumenta susto Meu bebé! Amor! Não vai uma?
E assim a noite cresce, vidros fumados confidentes Dos pneus que cantam O negro alcatrão A gula, o pânico Sorte imunda O látex azulado Como as vestes do polícia busca-polo Meu bebé! Amor! Não vai uma? O amor da minha rua é assim, Generoso chão Viscoso pregão Amor infinito Porque bom mercar que é a tudo se abre.
"A Cidade Mercadoria: Erotismo e Sobrevivência em Viscoso Pregão"
No poema "Viscoso Pregão", Gociante Patissa afasta-se da nostalgia de Benguela para confrontar a realidade áspera da Marginal de Luanda. O autor utiliza uma linguagem sensorial e direta para descrever a prostituição e o comércio de rua, onde o "amor" é reduzido a uma commodity (mercadoria). A cidade é apresentada como um cenário de silhuetas sem nome ou endereço, onde mulheres se tornam extensões do que vendem. A força do poema reside no contraste entre o apelo sedutor ("Meu bebé! Amor!") e a realidade mecânica e predatória do ato. O homem deixa de ser pessoa para ser apenas um "cofre", enquanto a noite é pontuada pelo medo, pela "gula" e pelo "pânico". Patissa utiliza imagens cruas, como o "látex azulado" e o "negro alcatrão", para pintar um retrato de uma Luanda viscosa — termo que sugere algo pegajoso, difícil de limpar e que adere à pele da sociedade. Ao final, o "amor infinito" de que o poeta fala é uma ironia amarga: é infinito apenas porque o mercado nunca fecha e o "chão generoso" da rua acolhe a sorte imunda de quem sobrevive na margem.
Poema inédito | COMO ACORDAR BUGANVÍLIAS [para Ana Paula Tavares] Conhecemos o lume Pelo estalar da maçaroca Granizo, lareira e esperança A outra face recuso Clarão, clareira e vingança Meu lume tem vocação griot A terra em mim é eterna criança Em reverso Cada chão que ficou é lume a hibernar No pó dos meus pés griot Mau grado os caminhos Caminhos que correm Caminhos que nos correm Como quem nada quer no verso O trilho da maçaroca é gume Nos calcanhares desnudos da menina húmido sutiã da dona de casa dorso torcido da avó Por capricho sem volta da enxada caminhos para a casa de xará
"O Suor que Floresce: A Memória Griot de Patissa"
Nos caminhos por onde passei Passai vassoura de palha Que espalhe brácteas Sei suar que baste Para acordar buganvílias Nas tranças adágio Cabinda Na cantilena epitáfio de um cisanji Fernando Ndondi "Quem fica saudades tem quem vai saudades leva"
O eu poético recusa um lume ligado à vingança e à clareira violenta, preferindo um fogo com “vocação griot”, ligado à memória oral e a uma terra eternamente criança. Cada chão deixado para trás é um lume adormecido no pó dos pés do narrador, apesar dos caminhos que ele percorre e que também o percorrem, como se a própria vida o empurrasse.A maçaroca funciona como fio cortante que atravessa gerações: fere os calcanhares da menina, marca o corpo da dona de casa e entorta o dorso da avó, sob o capricho da enxada que traça caminhos até à casa da “xará”. Nos lugares por onde passou, o poeta pede que se varra com vassoura de palha para espalhar brácteas de buganvílias, símbolo de beleza resistente. Ele afirma saber “suar que baste” para acordar essas buganvílias, ligando o esforço ao florescimento da memória e da poesia. O poema fecha com a citação de Fernando Ndondi — “Quem fica saudades tem / quem vai saudades leva” —, sublinhando o duplo movimento da saudade em quem parte e em quem fica, num gesto de homenagem à poesia angolana e a Ana Paula Tavares.
"Poema em Construção: Edificando a Memória sobre o Chão de Barro"
Inédito| POEMA EM CONSTRUÇÃO Prometem chuva amanhã Chuva abundante destes céus É certa amanhã a chuva No altar das previsões, dizem Os homens que nos rodeiam E encerram de toda a parte Mas eu cá prefiro fazer a cama, mãe Antes embalar nas mãos do sono De chover entendem as mulheres O resto só fogos e canivetes Chuva estéril do decreto Nem na poesia mais se fia, mãe Quanto mais no LEAD Ultimamente! E segue o mundo avançado mudo Dos homens Gaza Grandes tão grandes Que sangram nas mãos O grito perdido da criança ferida Desperdiçando o dom Que era deixar quem de direito sangrar Sem violência para bem gerar Naquele lugar, bendito e frutífero local Dez meses menos um mais tarde
Todo o saber sem idade é vaidade, mãe Amanhã talvez perceba o alcance Do chão cama que nos moldou Chão terra chão casa de barro Sempre faltou almofada E eu revolto sem te perceber Cada pedra que no lugar punhas Era um cágado afinal, e... “Kambeu ukulu”, minha mãe!
Em «Poema em Construção», Gociante Patissa tece um diálogo entre geopolítica actual e ancestralidade materna. A metáfora da «chuva» contrapõe dois mundos: a chuva prevista pelos «homens do altar das previsões» (poder, decretos, meteorologia fria) e a chuva feminina, ligada à fertilidade e criação. O clímax critica Gaza e o «grito perdido da criança ferida», denunciando masculinidade tóxica que «sangra nas mãos» em vez de permitir o sangue gerador do ventre («dez meses menos um mais tarde»). Patissa ataca a vacuidade moderna («Nem na poesia mais se fia... quanto mais no LEAD»), refugiando-se no conselho materno e no «chão de barro». O fecho com o provérbio umbundu «Kambeu ukulu» (tartaruga velha/sábia) simboliza resistência lenta. Cada pedra da mãe é um cágado vivo — sabedoria tradicional dinâmica, que sobrevive à «vaidade do saber sem idade» dos homens modernos.
"O Riso nas Horas Vagas: Uma Poética da Existência em Gociante Patissa"
[poema inédito] LETRA ÁRABE NA AREIA A vida cabe no número Da dança árabe Tem ventre, curvas Ginga imprevisível E antes de tudo o resto É curta A vida, minha mãe, Cabe no tempo do sol Que esconde os raios no deserto árabe Uma asa é medo, culpa e santos De letra morta na areia Cobiçando o escuro A outra também areia vive Véus à parte No dia em que o maestro Qualquer que seja sua graça Se digne tocar A trilha da minha dança Gravai na lápide tal coisa: Viveu pensando E rindo alto Nas horas vagas trabalhou.
Neste poema inédito, Gociante Patissa utiliza a estética da caligrafia e da cultura árabe como metáfora para a própria existência: algo que possui curvas, ventre e uma "ginga imprevisível", mas que é, acima de tudo, curta. A imagem da "letra na areia" reforça a natureza efêmera da vida, sujeita ao sopro do tempo e do esquecimento. O autor estabelece um contraste entre o peso das convenções — o medo, a culpa e os "santos de letra morta" — e a liberdade de uma vida vivida "véus à parte". O ponto alto do poema é o seu desfecho, onde Patissa redige o seu próprio epitáfio. Numa inversão irónica dos valores modernos que priorizam a produtividade, o poeta pede para ser lembrado como alguém que "viveu pensando e rindo alto", relegando o trabalho apenas às "horas vagas". É uma afirmação de resistência humanista, onde o pensamento e a alegria são os verdadeiros eixos de uma vida plena, enquanto a morte é encarada apenas como o momento em que o "maestro" toca a trilha final.
POEMA INÉDITO|LOIÇA LIMPA Aos meus amores Não ofereçais relógio amanhã ontem nem agora Não vá o céu cair na tentação De lhes cobrar o pulso Ou o ponto da hora Aos meus amores Não ofereçais vestidos Alvos rendilhados A ferro bem passados Não vá o diabo ou o seu oposto Sujar a nódoa O amor come-se com as mãos De amassar o pão Minha mãe E eu feito de mãos e argamassa Lavei a louça Mais cedo toda ela desta vez toda e se não mais cozinhar É para não vê-la suja outra vez.
"A Metafísica do Quotidiano: O Amor e a Finitude em Loiça Limpa"
Loiça Limpa é um poema íntimo dedicado aos amores do poeta — mãe e amantes —, que rejeita presentes materiais como relógios ou vestidos rendilhados, por receio de que o tempo ou o destino os corrompam com o peso das horas ou nódoas inevitáveis. O amor verdadeiro surge simples e tátil, comparado ao acto de comer com as mãos que amassam o pão, evocando a herança materna de gestos essenciais e práticos. No gesto final, o eu lírico lava obsessivamente toda a louça «mais cedo / toda ela / desta vez / toda», não por evitar cozinhar, mas para preservar a pureza doméstica, poupando os afectos à repetição da sujidade quotidiana.
Nem tudo por lá é Cristo já não é em dias o calendário Contar É por corpos Da raça há tanto tolhida À lente de um mundo embalado no sono dos anjos Só posso dar por mim a coçar tanto calo no teu joelho Timbrando meio século De preces E devoção à tribo escolhida Minha temente mãe Enquanto isso, minh'África "Kulo handi wamalanga Olopeto petu Cina twalile" Com quantas lentes Com quantas, quantas sopas solidárias se raspa o fundo da questão, ó mãe, minha enorme mãe? O Raio X não mostra a dor, É este o mal, doutor O Raio X não mostra a dor, Mas a dor está lá A dor lá está, Senhor
Para além da Lente: A Dor Invisível de Patissa
Poema inédito | O RAIO-X NÃO MOSTRA A DOR Saúdo-te, minha mãe, Ainda, ainda Que linda te encontres Como a aldeia que moveu O orvalho alguma vez Sola do pai que foi lindo-bandido favorito Coral Hoje é domingo, mãe Ao menos para alguns Que linda te encontres de feias já nos bastam as palavras Deste tempo Contratempo Tanta bomba Tanto se tomba Minha mãe Santa terra que nada Minha enorme mãe
O poeta saúda a mãe com ternura, comparando-a à aldeia natal que ainda guarda beleza apesar dos tempos difíceis. Evoca a herança familiar — o pai "lindo-bandido favorito" — e lamenta as bombas e tombos da actualidade, que contrastam com o domingo festivo de alguns. A mãe é santa terra, enorme criadora de uma raça tolhida há meio século, cujas preces e devoção à tribo resistem invisíveis. O refrão em umbundo clama que ainda não é dia para África, questionando as sopas solidárias que não raspam o fundo da questão. O raio-X, metáfora central, simboliza exames frios que ignoram a dor profunda — física, social, histórica — da mãe e do continente. A dor existe, mesmo não detetada, e é esse o mal que os doutores e senhores não enxergam.
Acolá Ruas desertas, casas na sacola Que era bola vuvuzelas Só que por lá, por lá mesmo assim aquele Janeiro teimara em ligar 30 natais no lombo Aló! Unjevite? mana ao pé de ponte Aló, minha enorme mãe Ukasi? seus panos de leite estrutura esguia serena e séria como o não saber dançar Aló, minha mãe! o gelo aqui chama-se Washington Ainda para mais sete dias e nada mas bem estou, mãe, DC tosses e posses à jeito que não esfrie meu prato-colo até o mês acabar Termina a conversa por lá despeço-me, repleto estou que se lixem os dólares UTT comi a voz a voz-maior! Até breve, a njali Acolá, porém, não sorri cordão umbilical O meu filho está distante, certo? sinto. Oh voz, quão distante meu filho cabe? o meu filho, muito longe se acoita.
"A Voz que Alimenta: O Cordão Umbilical do Exílio"
Em janeiro de 2010, uma mãe angolana liga do Luanda pobre — com bancos vazios, funji sem panela e Estado omnipresente — para o filho exilado em Washington DC. Por lá, o Mundial de Futebol e a CAN dominam, enquanto o "bálsamo Obama" não cura saudades que ignoram leis. A mãe mente a miséria, mas a sua voz alimenta como cosmopolita sanzala. Acolá, ruas desertas e vuvuzelas contrastam com o "gelo" americano. O filho mente prosperidade ("tosses e posses"), mas é a mãe quem sente o cordão umbilical cortado: "O meu filho está distante, não está? / quão distante meu filho cabe?". Provérbios umbundus e ironias políticas ("tapa-saias constitucional") tecem o diálogo transatlântico. A despedida assimétrica revela tudo: o filho fica "repleto" pela "voz-maior", enquanto a mãe, com "30 natais no lombo", interroga as distâncias emocionais que só ela lê. A mulher não dança, mas sustenta o filho através do oceano com panos de leite e serenidade.
Poema inédito | A MULHER QUE LIA DISTÂNCIAS 2010. Por lá Aquele Janeiro tinha mãe e telefonava como quem mentisse o banco vazio o funji sem panela nem lombi e uma voz que era minha Cosmopolita sanzala Acolá naquele Janeiro o futebol engolia a terra Ombaka, Lwanda, CAN que não era lata uma tapa-saias constitucional Quatro a zero zé de quatro igual por lá sobre as asas do Estado com Departamento saudades não conhecem lei nem o bálsamo Obama continental cavalga jacaré mundumbe esse como um deles a mim AJS "Kalume eci akwete oco cuyovola"
POEMA INÉDITO | OS PAIS JANELAM (*) Os pais janelam, pais nossos de cada um Janelas pelas quais Cá andamos O janelar pelo qual Ainda cá moram Depois que partem Os pais janelam Para não portarem Portas seriam largas E de larga já nos basta a tábua Que mal nasce a semente Bem cabem na janela Mãe e pai Justa medida Que nos cabe O apertado abraço A festinha tatuada na derme O fumegante manjar à mesa E por este janelar moldura da íris umbilical Ardente saudade futuro polido Qual dedo anelar Janelas brisam por dentro Premente, meu pai, oh mãe No achado da memória É das janelas o trinco fingido
"A Íris Umbilical: Memória e Presença em 'Os Pais Janelam' de Gociante Patissa"
Este poema «Os pais janelam», de Gociante Patissa, transforma a ausência dos pais falecidos numa presença contínua e íntima, através da metáfora das janelas como portais da memória. «Os pais janelam» — pais nossos de cada um —, são janelas pelas quais ainda «cá andamos» e «cá moram» mesmo após partirem. Portas seriam largas demais, como a tábua do caixão; as janelas oferecem a «justa medida»: o «apertado abraço», a «festinha tatuada na derme», o «fumegante manjar à mesa». A «moldura da íris umbilical» — ardente saudade polida como «dedo anelar» — condensa o laço vital: mães e pais enquadram-se na janela da infância, brisando por dentro com memória premente. O «trinco fingido» sugere que o luto não fecha, mas filtra o passado, mantendo-os presentes no «achado da memória». Patissa eleva aqui o doméstico ao sagrado, coerente com a reverência pelas raízes (seiva materna, avós alugados) que atravessam a sua obra: os pais não partem, janelam-nos eternamente.
(*) à memória de Víctor Manuel Patissa (Jul 1946 - Jul 2001)
"O Compasso da Memória: O Tempo e a Herança Paterna em 'A Música Tem Tempo' de Gociante Patissa"
POEMA INÉDITO | A MÚSICA TEM TEMPO Nesse dia entrei disparado Atrás do arco Cilindrada ao alto No quintal miradouro traquinas Ontem ou amanhã Anoitecia-me Fôlego parco Atrás do arco Ao pé do mamoeiro Pregado vivia o pai menor Avindo Cantando notas a tiracolo Cigarra e tudo só ouvindo O pé que bate o chão batido Simétrica dança O pai assim só dança um pé? É compasso, papá Desenganava o moço Olha que a música tem tempo Daí em diante Só queria ser muito música Tanto tempo que ela tem. [à memória de Henrique Avindo Manuel (1970-1996)]
Este poema «A música tem tempo», dedicado à memória de Henrique Avindo Manuel, celebra a transmissão intergeracional do ritmo e da alegria vital através da figura paterna. O eu lírico, criança traquina, entra «disparado» no quintal atrás do «arco» (provavelmente arco-íris ou brinquedo), encontrando o «pai menor Avindo» pregado ao mamoeiro, cantando «notas a tiracolo» como cigarra ouvida mas não vista. O menino questiona a dança assimétrica — «O pai assim só dança um pé?» —, recebendo a lição: «É compasso, papá. / Olha que a música tem tempo». A revelação transforma-o: «Daí em diante / Só queria ser muito música / Tanto tempo que ela tem». Patissa condensa aqui a herança oral angolana — quintal, chão batido, compasso assimétrico — como antídoto ao «fôlego parco» e anoitecer, coerente com o «janelar» dos pais e a seiva materna nos outros textos.
De acordo com as publicações de Gociante Patissa no seu blogue e redes sociais, Henrique Avindo Manuel foi uma figura marcante da sua infância e juventude no município do Lobito, província de Benguela. Patissa frequentemente evoca o nome de Henrique Avindo Manuel nas suas crónicas como parte de um esforço de preservação da memória coletiva de pessoas que marcaram a sua geração, mas que faleceram precocemente.
POEMA INÉDITO| MOSCOVO A BARCELONA Entre Moscovo e Barcelona Voa a mortalha Ou o chamado da soberania da saúde para a saúde da soberania Ngolêh Entre Moscovo e Barcelona Angola e a mortalha “humbi-humbi” Ou o havemos de voltar Que conta netos Nas paredes e nos homens Palácio Pegasus Quatro décadas d’envergadura Moscovo a Barcelona Solene indagação Em paz E os santos de casa? A nós resta sonhar “Kakele ka cimbamba” Até que um dia Até que um dia Porque “Cilanda ongombe citunda vonjo” Peleje meu hospital ao suspiro final Do mais alto Também.
"Moscovo a Barcelona: Soberania, Saúde e a Metáfora da Mortalha em Gociante Patissa"
Este poema inédito «Moscovo a Barcelona» mergulha na diáspora angolana pós-independência, contrapondo trajetos exílicos a provérbios umbundu que ancoram a identidade na saudade da terra.«Entre Moscovo e Barcelona / Voa a mortalha» estabelece o eixo geográfico da formação soviética e da migração europeia, onde paira a morte ou o «chamado da soberania / da saúde para a saúde / da soberania». Ngolêh — saudade em umbundu — resume o dilema: partir pela sobrevivência ou ficar pela nação. O «Palácio Pegasus» evoca quatro décadas de luta, entre Angola e o exílio. «Humbi-humbi» (vamos voltar), «Kakele ka cimbamba» (a galinha não esquece o poleiro), «Cilanda ongombe citunda vonjo» (o rio não esquece a nascente) funcionam como âncoras culturais contra o desenraizamento. Estes ditos, entrançados no texto, preservam a oralidade do planalto central, contrastando o «sonhar» dos exilados com os «santos de casa» — raízes deixadas para trás. A «solene indagação / Em paz» culmina no apelo visceral: «Peleje meu hospital / ao suspiro final / Do mais alto». Patissa funde viagem física e espiritual numa poética da diáspora, onde a soberania se negocia entre mortalha, provérbios e o último suspiro angolano — registo que prolonga a reverência pelas origens vista em «Os pais janelam» ou na seiva materna.
Gociante Patissa | Luanda | 10 setembro 1979 - 08 Julho 2022 |
O Fôlego Interrompido: A Ironia da Velhice na Escrita de Patissa
[Poema inédito] DE QUE NOS VALE DIA DO IDOSO? Carrego a estiagem Na ponta do dedo Húmidos dedos regados Salgado fluído do olhar Feito guardanapo insubmisso Carrego a estiagem No punho cerrado Que me alivia o peso da cabeça Só somar troncos e frondes serrados Enterrar bolsas de sombra Tremer-nos o osso cada meia centena dos nossos "Nda tukunamenla vali pi?" Resulta que desse punho encharcado Salgado fluído do olhar Não flori Um poema que seja Desse ao menos um’estrofe Algo que desce e destoa cifras D'esperança micro-universo Vida cá da gente É semana cósmica abreviada Na quarta a velha Flora seca "Ame ame ciyunge" Na sexta é o fogo que se afoga "Sekulu Ndalu watusya vali" De que nos vale Dia do Idoso Oh fôlego taxado a meio século? Gociante Patissa | Luanda 30 Abril 2022 |
No poema "De que nos vale Dia do Idoso?", Gociante Patissa despe-se do lirismo contemplativo para assumir o papel de escritor-interventor. Através de uma linguagem que funde a crueza do português com a profundidade ancestral do Umbundu, o autor questiona a validade das celebrações oficiais num contexto onde a sobrevivência é uma batalha diária e a longevidade um privilégio raro.O poema abre com a imagem da "estiagem na ponta do dedo", uma metáfora poderosa para a aridez da vida e a escassez de recursos que marca o interior de Angola. O "salgado fluído do olhar" — as lágrimas que ensopam o "guardanapo insubmisso" — não serve para fazer florir a poesia, mas para carregar o peso de uma consciência que vê os seus "troncos e frondes" (os mais velhos e a sabedoria que carregam) serem serrados precocemente pela pobreza e pelo abandono.
O Fôlego Interrompido: A Ironia da Velhice na Escrita de Patissa
POEMA INÉDITO| DE QUE NOS VALE DIA DO IDOSO? Carrego a estiagem Na ponta do dedo Húmidos dedos regados Salgado fluído do olhar Feito guardanapo insubmisso Carrego a estiagem No punho cerrado Que me alivia o peso da cabeça Só somar troncos e frondes serrados Enterrar bolsas de sombra Tremer-nos o osso cada meia centena dos nossos "Nda tukunamenla vali pi?" Resulta que desse punho encharcado Salgado fluído do olhar Não flori Um poema que seja Desse ao menos um’estrofe Algo que desce e destoa cifras D'esperança micro-universo Vida cá da gente É semana cósmica abreviada Na quarta a velha Flora seca "Ame ame ciyunge" Na sexta é o fogo que se afoga "Sekulu Ndalu watusya vali" De que nos vale Dia do Idoso Oh fôlego taxado a meio século? Gociante Patissa | Luanda 30 Abril 2022 |
A estrutura do poema utiliza a "semana cósmica abreviada" para ilustrar a brevidade trágica da existência nas comunidades periféricas. Entre a quarta-feira, onde a "velha Flora seca", e a sexta-feira, onde o "fogo se afoga" (Sekulu Ndalu watusya vali), Patissa descreve um ciclo de morte que não espera pelo tempo natural. Ao inserir expressões em Umbundu, o autor dá voz ao lamento coletivo do Planalto Central, transformando o poema num grito de denúncia contra a precariedade de um "fôlego taxado a meio século".Em última análise, Patissa desmascara a hipocrisia das efemérides institucionais. Para o autor, celebrar o "Dia do Idoso" numa realidade onde o "osso treme" antes dos cinquenta anos é uma ironia amarga. O texto reafirma a sua posição como um "advogado das vozes silenciadas", utilizando a literatura para confrontar as cifras oficiais com a verdade nua e crua do micro-universo popular angolano.
A Voz Coletiva: Gociante Patissa e o Rasto das Antologias
Para além da sua sólida carreira a solo, Gociante Patissa tem sido uma das figuras centrais na internacionalização da nova literatura angolana, marcando presença em diversas antologias de prestígio no espaço da Lusofonia. A sua participação nestas obras coletivas não é apenas um registo de poemas ou contos; é um exercício de diálogo cultural que une Angola a Portugal, Brasil e Moçambique. Um dos marcos mais significativos foi a sua inclusão na antologia "800 Anos – O Futuro da Língua Portuguesa" (2014), publicada em Portugal. Ao lado de nomes consagrados, Patissa representou a vitalidade da escrita angolana contemporânea, provando que a língua é um organismo vivo que se renova em cada margem do Atlântico. A sua escrita também ecoou em Moçambique, na coletânea "A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua" (2013), reforçando os laços literários dentro do continente africano. Mas o papel de Patissa nas antologias vai além do de autor. Com o projeto "Palavras são Tantas" (2019), ele assumiu a missão de mentor e organizador. Esta obra, resultante de oficinas literárias, serviu de montra para uma nova geração de escritores de várias províncias de Angola, demonstrando que Patissa acredita na literatura como um esforço coletivo e formativo. Estar presente nestas coletâneas — desde as "Edições Sempre-em-Pé" em Portugal até aos dossiers comemorativos do Dia Mundial da Língua Portuguesa — permitiu que a sua voz, inicialmente nascida em Benguela, se tornasse um património partilhado por todos os que habitam a língua de Camões.
Da Oralidade ao Pixel: A Ponte Literária de Gociante Patissa
Gociante Patissa estabelece uma intersecção única entre a tradição oral e a modernidade digital, transformando o seu blogue, Angola Debates e Ideias, numa extensão da "árvore das palavras" africana. Numa era de rapidez tecnológica, o autor não abandona as raízes; pelo contrário, utiliza as ferramentas digitais para preservar e amplificar a voz do povo. A sua escrita carrega a cadência do contador de histórias tradicional — o ritmo, a pausa e a ironia — mas adapta-os ao formato da crónica e do post de blogue. Livros como O Apito que Não Se Ouviu e Fátussengóla nasceram precisamente deste exercício: capturar o "ouvir dizer" das ruas de Benguela e Luanda e dar-lhe uma forma perene através da escrita online. Esta transição do ecrã para o papel permite que a oralidade angolana, muitas vezes fugaz, ganhe uma nova vida. Patissa prova que o digital não vem substituir a tradição, mas sim oferecer-lhe um novo fôlego. No seu universo literário, o blogue é o espaço de debate imediato e a obra impressa é o arquivo da memória, provando que é possível ser profundamente tecnológico sem nunca deixar de ser profundamente ancestral.
Da Terra ao Mundo: O Reconhecimento e a Projeção de Gociante Patissa
Gociante Patissa recebeu o Prémio Provincial de Cultura e Artes de Benguela 2012, na categoria de Investigação em Ciências Sociais e Humanas, pelo contributo na divulgação da língua umbundu através de tradições orais, contos e novas tecnologias de informação. Este reconhecimento oficial premiou a digitalização de provérbios ancestrais no blog Angola Debates e o resgate da memória benguelense em narrativas como Fátussengóla, marcando a projeção nacional do autor para além do eixo Luanda. Patissa consolidou a sua projeção lusófona em eventos internacionais de relevo. Na Feira do Livro de Frankfurt (2016), representou Angola, debatendo a baixa visibilidade da literatura africana lusófona e defendendo circuitos editoriais alternativos para autores periféricos. Já na Flipelô (Bahia, 2018), recitou poesia de Guardanapo de Papel e dialogou com Salgado Maranhão, reforçando a receção brasileira após Almas de Porcelana. Estas participações — alargadas a Israel (linguística), Museu de Lamego (2023), Embaixada de Portugal em Luanda (2019) e Cascais (Dia Mundial da Poesia, 2026) — transformam Patissa em elo entre oralidade umbundu, literatura pós‑guerra e diáspora digital. O prémio de Benguela e os palcos internacionais consagram-no como mentor da «benguelensidade» lusófona.
Um dos pilares da sua importância reside na intersecção entre a tradição oral e o digital. Através do seu blogue, Angola Debates e Ideias, Patissa democratizou o acesso à literatura, funcionando como uma "árvore das palavras" moderna onde o debate é imediato e inclusivo. Esta presença online não substitui o livro físico, mas alimenta-o, servindo de laboratório para obras de realismo mágico como O Homem Que Plant8ava Aves (2017). O reconhecimento do seu trabalho atravessou fronteiras precocemente. Se em 2012 foi consagrado com o Prémio Provincial de Benguela de Cultura e Artes, a sua voz rapidamente ecoou em palcos internacionais de prestígio, como a Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha, e a Flipelô, no Brasil. Além disso, a sua participação em antologias fundamentais, como 800 Anos – O Futuro da Língua Portuguesa, consolidou-o como um embaixador da lusofonia.
Gociante Patissa: A Voz que Une a Tradição à Modernidade Digital
A literatura angolana contemporânea encontra em Gociante Patissa uma das suas figuras mais dinâmicas e multifacetadas. Escritor, cronista e ativista cultural, Patissa não se limita a publicar livros; ele constrói um ecossistema onde a herança da palavra falada se funde harmoniosamente com a agilidade do mundo digital. O seu percurso é marcado por uma curiosidade insaciável sobre o quotidiano. Em obras como O Apito que Não Se Ouviu (2015) e Palavras são Tantas (2019), o autor resgata o género da crónica para dar palco aos silêncios e às contradições das ruas de Angola. Já na poesia, com o aclamado Almas de Porcelana (2016), explora a "estética da fragilidade", transformando a sensibilidade humana numa forma de resistência e beleza.
Mais do que um autor individual, Patissa é um mentor. Ao organizar coletâneas e oficinas, ele garante que a literatura angolana não seja apenas um rasto do passado, mas um fenómeno vivo e em constante renovação. Gociante Patissa prova, assim, que entre o "apito" que ninguém ouve e as "aves" que se plantam, existe um território vasto de humanidade que só a grande literatura consegue mapear.
"Mar de Letras e Vozes: A Presença Multimédia de Gociante Patissa"
"O Olhar de Vidraça: Crónicas de Gociante Patissa"
«As montras da vida, onde os homens bebem e deixam-se beber até que a sombra ilumine mais que uma noção de lugar a beira do nada?» — Evocando o vazio consumista e a ausência espiritual nas periferias angolanas.