"Hirondina Joshua: A Voz da Nova Literatura Moçambicana"
31 de maio de 1987
Hirondina Joshua: A Arquiteta da Poesia Corpóreo-Cósmica no Século XXI
No panorama da literatura lusófona contemporânea, poucos nomes encarnam a renovação estética de forma tão visceral quanto Hirondina Joshua. Nascida em Maputo (1987), a autora emergiu no cenário literário com Os Ângulos da Casa (2016), obra que, sob o olhar atento de Mia Couto, anunciou uma voz que não temia a desconstrução da forma. Em 2026, Joshua já não é apenas uma promessa, mas uma figura central na geopolítica das letras africanas, atuando como um ponto de convergência entre a tradição lírica moçambicana e o experimentalismo transnacional. A sua relevância atual transcende o domínio do papel. Através de uma escrita que funde o feminismo africano, a metafísica e o pós-colonialismo, Joshua propõe uma linguagem "corporal-cósmica" que ressoa globalmente — de adaptações performáticas no Brasil à sua participação em palcos de prestígio como o Festival de Edimburgo. Mais do que poeta, a sua atuação como curadora no projeto Mbenga Artes & Reflexões e a sua presença em publicações de vanguarda na Galiza e em Portugal solidificam-na como uma mediadora cultural imprescindível. Ler Hirondina Joshua hoje é, portanto, confrontar o corpo enquanto território de resistência e a palavra como um organismo vivo em constante mutação.
As Raízes do Olhar: Infância, Família e o Despertar em Maputo
A identidade literária de Hirondina Joshua é indissociável da topografia humana e cultural de Maputo, onde nasceu a 31 de maio de 1987. A sua infância foi o palco de uma observação silenciosa e profunda, moldada por um ambiente familiar que privilegiava o rigor intelectual. Filha de uma dinâmica onde a disciplina e o estímulo à curiosidade coexistiam, Joshua encontrou no seio familiar o suporte necessário para transformar a sensibilidade em ofício. O seu pai, figura central nesta génese, foi o curador das suas primeiras leituras, desafiando-a, ainda na adolescência, a navegar entre a densidade da literatura moçambicana de Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa e o cânone da literatura universal. A adolescência de Joshua foi marcada por uma imersão multidisciplinar que expandiu os limites da página. Em 2005, a sua estreia no teatro com a peça O Grasnar dos Corvos, sob a direção de Jaime Santos no Centro Cultural Brasil-Moçambique, conferiu-lhe uma consciência precoce da corporeidade da palavra, elemento que se tornaria a espinha dorsal da sua poética futura.
A sua formação escolar e artística consolidou-se em instituições-chave de Maputo; a passagem pelas oficinas de escrita de Fernanda Angius no Camões – Centro Cultural Português foi o cadinho onde a sua técnica foi refinada. Foi nesta intersecção — entre o rigor da educação formal, a liberdade do palco e as tertúlias em centros culturais — que Joshua preparou o terreno para a sua estreia em 2016. Esta juventude maputense não foi apenas uma etapa cronológica, mas a fundação de uma voz que hoje utiliza a memória familiar e a disciplina formativa para dissecar a condição humana.
Entre a Norma e o Verbo: A Arquitetura Jurídica na Poética de Joshua
O percurso académico de Hirondina Joshua é definido por uma coexistência singular: a estrutura rigorosa do Direito e a fluidez transgressora da Literatura. Longe de serem universos excludentes, estas duas áreas operam na sua obra como forças complementares. Se o Direito lhe conferiu o domínio da norma, da lógica e da justiça, a poesia surge como o espaço onde essa mesma ordem é desafiada para dar lugar à metafísica do corpo e da alma. Para Joshua, a formação jurídica atua como um filtro de disciplina e precisão. Enquanto o seu processo criativo é muitas vezes visceral — aproximando-se do surrealismo e da escrita automática —, a sua faceta de jurista intervém no momento da lapidação. É aqui que o texto é submetido a uma economia de palavras e a um rigor gramatical que conferem à sua obra, como em Córtex ou Os Ângulos da Casa, uma densidade cirúrgica. Esta "arquitetura do dizer" permite que os seus temas mais abstratos sejam ancorados por uma clareza formal rara na poesia contemporânea.
Além da técnica, a sensibilidade jurídica de Joshua reflete-se na sua ética humanista. A sua presença na Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e a sua colaboração em revistas como a InComunidade demonstram uma autora que compreende a literatura não apenas como estética, mas como um compromisso civil. Em 2026, Hirondina Joshua permanece como o exemplo máximo da escritora que utiliza a balança do Direito para pesar a palavra, garantindo que cada verso tenha a força de um veredito e a leveza de uma revelação.
A Anatomia do Invisível: O Itinerário Poético de Hirondina Joshua
A obra literária de Hirondina Joshua configura-se como um dos projetos mais audaciosos da literatura moçambicana contemporânea, caracterizando-se por uma "arqueologia do sentir" que recusa fórmulas convencionais. Desde a sua estreia, Joshua estabeleceu um território onde a palavra não apenas descreve a realidade, mas a disseca, operando na intersecção entre o corpo biológico, a arquitetura do espaço e a metafísica do pensamento. O marco inicial desta jornada, Os Ângulos da Casa (2016), sob a égide crítica de Mia Couto, apresentou uma poeta preocupada com a geometria da intimidade. Nele, a casa é uma extensão da pele, e cada verso procura os limites da identidade moçambicana num contexto pós-colonial. Seguiu-se o radicalismo de Córtex (2021), onde a autora mergulhou na "escrita automática" e no surrealismo para explorar as camadas da consciência. Esta obra consolidou o seu prestígio internacional, sendo celebrada em plataformas como a Palavra Comum pela sua capacidade de transformar processos neurológicos em lírica pura. Em lançamentos mais recentes, como Câmara de Ar (2023), Joshua expandiu a sua investigação para o que define como uma "linguagem corporal-cósmica". A sua escrita tornou-se mais fluida e transnacional, permitindo que a sua poesia fosse transposta para outras linguagens, como a dança moderna e o teatro, especialmente no Brasil. Hoje, a obra de Hirondina Joshua é estudada como um pilar da vanguarda lusófona, onde o feminismo, a espiritualidade e a metapoesia se fundem para questionar as leis naturais da existência.
"A Poética do Fôlego: O Poema Infinito em Câmara de Ar, de Hirondina Joshua"
O Grasnar dos Corvos (2005) é uma peça de teatro escrita em coautoria por Hirondina Joshua, ainda no início da sua carreira aos 18 anos, sob a direção do declamador Jaime Santos, e encenada no Centro Cultural Brasil-Moçambique, em Maputo.
Esta obra coletiva, que inclui nomes como Gulamo Khan, representa os primeiros passos de Joshua no teatro experimental moçambicano, numa fase de formação em oficinas cénicas e coletivos literários, antes da sua consagração na poesia. O título sugere uma atmosfera de presságio e transformação, com os corvos como símbolo de morte, aviso ou mudança radical — temas que ecoam na imagética visceral da autora (ossos, coração rubro, vulnerabilidade corporal) vista em obras posteriores como A Estranheza Fora da Página.
O Nascimento de uma Vanguarda:O Impacto de "Os Ângulos da Casa"
A estreia de Hirondina Joshua com Os Ângulos da Casa em 2016 não foi apenas um lançamento editorial, mas um acontecimento sísmico na literatura moçambicana, marcando a transição para uma nova era estética. Publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), o livro de estreia de Joshua rompeu com a tradição da poesia moçambicana mais ligada ao social ou ao político direto, voltando-se para uma introversão metafísica. O impacto foi imediato, conferindo-lhe o Prémio de Reconhecimento Literário e posicionando-a como a voz mais promissora da sua geração.
O prefácio, assinado por Mia Couto, funcionou como um selo de legitimidade e uma profecia. O prestigiado autor de Terra Sonâmbula descreveu Joshua como uma escritora que não se limita a ocupar a casa, mas que a reconstrói através de uma linguagem "necessária e urgente". Couto destacou a capacidade da autora de desordenar o mundo para encontrar uma nova ordem poética, celebrando a sua audácia em tratar o corpo e o espaço como territórios de constante mutação.
O Nascimento de uma Vanguarda:O Impacto de "Os Ângulos da Casa"
Em Os Ângulos da Casa, a arquitetura doméstica torna-se uma metáfora da psique. Joshua utiliza uma economia de meios e uma precisão cirúrgica para explorar a solidão, o desejo e a ancestralidade. Este livro estabeleceu o que viria a ser a sua marca registada: uma poesia que, embora visceral, é lapidada por um rigor técnico que a afasta do sentimentalismo fácil.
O projeto "ONDE A CASA MORA" é uma obra de vídeodança que nasce do diálogo entre a literatura de Joshua e a expressão corporal contemporânea. Inspirado diretamente no livro de estreia da autora, o vídeo explora a premissa de que a "casa" não é apenas uma estrutura de cimento, mas o próprio corpo habitado. A obra traduz para o movimento a "arquitetura dos sentimentos" que Joshua descreve nos seus versos, utilizando a dança para dar volume e tridimensionalidade à sua poética visceral.
"Fenómeno do Fogo: A Ascensão Sílaba a Sílaba"
"Ignoto Deo", incluído em Os Ângulos da Casa (2016), expressa a busca espiritual de Hirondina Joshua por Deus através de sílabas e sangue puro, numa luta paradoxal de quem é inerme perante a substância cósmica. O eu lírico invoca o divino como "fenómeno do fogo stricto sensu", matéria primordial do trabalho cósmico, chamando-O no "semblante amorfo da música". Este poema exemplifica a poética visceral da autora, tensionando carne e transcendência, concreto e sagrado — onde a derrota espiritual se transmuta em criação alquímica. A concisão ritualística reforça o tom litúrgico, ecoando temas recorrentes como corpo inventado e casa metafísica na sua obra.
“Ignoto Deo”
Pretendo chegar a Deus
Sílaba a sílaba
Com sangue puro
Como quem luta
E nunca soube o que é lutar
Sou inerme
Na carne da substância pura:
Matéria do trabalho cósmico,
Fenómeno do fogo
“Stricto sensu”.
Chamo a Deus
No semblante amorfo da música.
In Os Ângulos da Casa (2016)
O Abismo Transparente:O Concerto Metafísico de Hirondina Joshua
Concerto com Deus Música soberba
cor do espaço
massa
na transparência
da síbala
Mundo
distância
insólitos
pedaços
poços
feito
abismo
imo
na garganta
do Verbo.
In Os Ângulos da Casa (2016)
"Concerto com Deus", de Os Ângulos da Casa (2016), apresenta a música divina como soberba força cósmica — cor do espaço, massa transparente na sílaba — que fragmenta o mundo em pedaços insólitos, poços e abismos. O eu lírico capta esta tensão primordial na garganta do Verbo, unindo o imenso (mundo, distância) ao íntimo (sílaba, garganta). O poema condensa a poética de Hirondina Joshua em imagens táteis e paradoxais: transparência opaca, massa leve, abismo imóvel. Esta estética fragmentária evoca o "concerto" como diálogo cósmico onde a palavra se faz carne sonora, em continuidade com "Ignoto Deo" e a busca espiritual através da matéria visceral característica da autora.
Tal como na sua estética visceral reconhecida em festivais como o de Edimburgo ou o Correntes d'Escritas, Joshua funde o corpo (a garganta) com o conceito metafísico (o Verbo).
SENSUS
Falamos a mesma língua
Do raiar do tempo
Falamos a mesma língua
Sussurrada pelo vento
A língua do céu
Neste Sol da alvorada
Da nuvem sem véu
Em labareda
Falamos o toque
A vontade
A veia
O sangue...
A Vida em ascendência
Quimera em Transcendência
A língua que nos refaz
Em dias lentos
Transforma-nos
Em eternos
Vencedores do silêncio
Falamos sem voz
Em alta voz
A língua
A língua
A secreta
Língua
Falamos falamos
O toque
A vontade
De nascer...
A língua...
A língua da pele
O poema da pedra.
In Os Ângulos da Casa (2016)
A Língua da Pele: O Poema da Pedra e a Sinfonia dos Sentidos
"Sensus", de Os Ângulos da Casa (2016), celebra uma língua primordial e secreta partilhada desde o raiar do tempo — sussurrada pelo vento, céu e Sol da alvorada —, que transcende a voz para se tornar toque, vontade, veia, sangue e vida em ascendência. Esta "quimera em transcendência" refaz os seres em "dias lentos", transformando-os em eternos vencedores do silêncio. O eu lírico invoca uma comunicação tátil e cósmica ("língua da pele", "poema da pedra"), onde falar sem voz é alta voz, unindo corpo e eternidade numa poética sensorial. O poema exemplifica a metapoesia de Hirondina Joshua: a língua como matéria viva que dissolve fronteiras entre finito e infinito, humano e divino, ecoando os temas de Ignoto Deo e "Concerto com Deus".
Nocturno
Comboio em caudas clandestinas.
Subo até ao horizonte, sento-me ao lado da razão.
A noite já bêbada, todo o resto que me restou. Sou eu mesma, o demónio do devaneio. A substância intáctil da matéria.
Já de nada sei. De mim fugi. In Os Ângulos da Casa (2016)
O Demónio do Devaneio: A Fuga Noturna de Hirondina Joshua
"Nocturno", de Os Ângulos da Casa (2016), evoca uma viagem noturna clandestina num comboio até ao horizonte, onde o eu lírico se confronta com a razão enquanto a noite se embriaga. Restos de identidade dissolvem-se no "demónio do devaneio", tornando-se substância intáctil da matéria — um fugir de si mesma rumo ao desconhecido. O poema capta a poética joshuana da fragmentação noturna: corpo em movimento errante, razão como companheira precária, matéria impalpável que escapa ao saber. Esta deriva introspetiva, entre embriaguez cósmica e autoabandono, dialoga com a "noite anterior" da metapoesia da autora, onde o devaneio é portal para o invisível.
O poema termina no auge da despersonalização: "De mim fugi".
FRONTEIRA
“De vez
Em quando Deus tira-me a poesia,
olho pedra e vejo pedra mesmo”.
– Adélia Prado
Numa noite qualquer o poema vai
Se fazer em mim, não
Se procura um poema e encontrá-lo é engano.
A existência do poema
A estação interior de algo mais
Exterior que a insânia e o poema
Não nasce, surge. Antecede a
Própria palavra, é o verbo do
Sangue das carnes mundanas e do
Insubmisso espírito humano.
O poema não chega a nascer
Porque a noite inunda a
Compaixão dos sentidos; e o dia
Não cabe na mão de uma flor.
Os astros não se harmonizam com
O corpo celeste da palavra,
O poema não nasce.
Apesar da palavra gritar,
O poema inventa uma outra garganta e
Esconde a voz.
In Os Ângulos da Casa (2016)
O Poema que Inventa a Voz: A Fronteira entre o Verbo e o Sangue
"Fronteira", de Os Ângulos da Casa (2016), reflete sobre a natureza elusiva do poema através da epígrafe de Adélia Prado ("Deus tira-me a poesia, olho pedra e vejo pedra mesmo"). O eu lírico afirma que o poema não se procura nem nasce — surge espontaneamente como estação interior anterior à palavra, verbo do sangue carnal e espírito insubmisso.
Antecedendo a insânia, o poema inunda a compaixão dos sentidos na noite e escapa ao dia que "não cabe na mão de uma flor". Apesar do grito da palavra, inventa outra garganta e esconde a voz, mantendo-se em tensão cósmica com astros e corpo celeste. Esta metapoesia exemplifica o cerne da poética joshuana: o poema como entidade autónoma, matéria viva que resiste à domesticação verbal.
O fecho é extraordinário. O poema é uma entidade autónoma que "inventa uma outra garganta" e "esconde a voz" do poeta. Esta é a definição máxima de metapoesia na Geração pós-80: o autor é apenas o hospedeiro de uma força que grita por si mesma.
O Voo Essencial: A Hegemonia do Espírito sobre a Matéria
Hegemonia O voo pode ser feito pelas mãos
pelos braços
pés
ou cabeça…
o voo essencial
não tem corpo
pode não respeitar
o medo.
O voo assim a fechar o círculo…
parece
transparente
nu
conhece o céu
a retina, e sua pupila
vibra na boca do coração de uma criança.
O voo pode ser feito pelas mãos…ou pelos dedos… In Os Ângulos da Casa (2016)
"Hegemonia", de Os Ângulos da Casa (2016), explora o voo essencial como transcendência corporal, podendo realizar-se por mãos, braços, pés, cabeça ou dedos — mas na sua forma pura, dispensa corpo, ignora o medo e fecha o círculo da existência. Este voo transparente e nu conhece o céu, vibrando na retina e na "boca do coração de uma criança". O poema condensa a poética joshuana em imagens de leveza paradoxal: matéria dissolvida que pulsa no íntimo infantil, evocando a "casa metafísica" e o espírito insubmisso. A repetição circular ("O voo pode ser feito pelas mãos…ou pelos dedos") reforça a hegemonia do voo como força vital que une corpo, céu e coração primordial.
Ao situar a vibração desse voo no "coração de uma criança", Joshua liga a alta metafísica à inocência primordial, um tema recorrente na nova geração literária moçambicana.
Em dor menor Não há dó: em mi(m)
não reside o lá
deambulo em si.
In Os Ângulos da Casa (2016)
A Partitura da Ausência: O Solfejo Existencial de Hirondina Joshua
"Em dor menor", de Os Ângulos da Casa (2016), é um minipoema musical que joga com notas e tons: "Não há dó: em mi(m) não reside o lá, deambulo em si". A ausência de dó (nota musical e compaixão) confina o eu lírico ao mi menor, sem alcançar o lá maior, errando em si mesmo. Esta peça exemplifica a concisão radical de Hirondina Joshua, fundindo música, dor e identidade num espaço tonal fechado. O jogo silábico (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si) espelha a poética corporal da autora, onde a voz lírica deambula confinada, ecoando temas de vulnerabilidade e busca interior presentes em "Ignoto Deo" e "Nocturno".
O livro nasceu na veia. Foi então que partiu para dentro de outros
mundos.
Eram negros os dedos do homem. A cabeça parecia um asfalto de
guerra.
— Um analfabeto completo: bom para quem nasce. Tinha o
elemento essencial para viver:
a madura obscuridade vista no plano superficial.
Foi então que nasceu a selvagem Letra, nas mãos e nos dentes
ferozes.
A escrita. A voz superlativa. O canto cru. Tudo lhe nascera
rapidamente como a febre do universo.
— E ele não via.
A cada dia ao invés de compreender, descompreendia o
movimento sagrado do verbo.
Porque ele era seu próprio estrangeiro no estado urgente e
repentino, e os seus desejos eram vítimas do caminho errante.
Podia-se dele imaginar tudo: menos a arte do líquido rubro.
E depois já não se podia jurar, tornámo-nos nessa linha criminal;
porque bastava ver-se. Ou ser-se cego.
In Os Ângulos da Casa (2016)
A Febre do Universo: A Geração da Letra Selvagem
Este poema narrativo de Hirondina Joshua relata o nascimento visceral da escrita numa figura masculina marcada pela "madura obscuridade" — dedos negros, cabeça de asfalto de guerra, analfabeto completo que possui o elemento essencial para viver. A "selvagem Letra" emerge feroz nas mãos e dentes, gerando voz superlativa e canto cru como febre universal, mas o homem descompreende o "movimento sagrado do verbo", tornando-se estrangeiro a si próprio. A poética joshuana atinge aqui o seu tom mais épico e corpóreo: a escrita como parto violento do líquido rubro (sangue), arte negada ao errante cujos desejos são vítimas do caminho.
A linha final ("tornámo-nos nessa linha criminal") universaliza a condição humana entre visão e cegueira, ecoando a tensão entre matéria primal e espírito insubmisso característica da autora.
No início era o verbo amar A carne tinha olhos. A carne via sobre o telhado do mundo.
Era antiga a condição com que se podia equilibrar a tenda das coisas. O vento era com cor. Ao lado havia a caixa dos mistérios. Uma voz que não se podia ouvir a dizer como se deve viver…
Era o fim. No início o verbo amar não tinha voz.
Passou o tempo sob a terra. A água desapareceu. Acredita-se que era por causa dos olhos que se fundaram no coração. Veio o cansaço para disfarçar a queda. No início havia o verbo amar em cima da asa ou do tendão das cores. Havia um furacão por vencer e com certeza de que se já tinha nas mãos. No início era o ardor, a cegueira.
No início era o verbo amar. Em cada imagem há o som faminto do sal, transformando a morte em embriaguez. Há o vaso dilatado de esperança depois de cantarmos. Digo: depois da planta que se fez na face.
– A distância alumia as estações perdidas. Mas como podem se perder as estações se ainda há a existência?
Como se perde o tempo?
Olho para a diurna loucura e incendeio. Regresso ao ventre primário. publicado na revista Palavra Comum
A Simbiose entre o Criativo e o Crítico: "A Estranheza Fora da Página"
A Estranheza Fora da Página (2021, Edições Húmus) resulta de uma escrita a quatro mãos entre Hirondina Joshua e Ana Mafalda Leite, questionando ontologicamente a poesia como "matéria visível" que precede a palavra. O livro explora o processo criativo como acto preparatório e elusivo — o poema não se procura nem nasce, mas surge na intersecção de duas vozes lusófonas distintas: a corporalidade moçambicana visceral de Joshua e a lírica europeia, pós-colonial, de Leite.
A "estranheza" do título evoca o inusitado do diálogo poético transatlântico, fundindo África e Europa em temas como identidade mestiça, corpo-palavra e a tensão entre o visível e o intangível. Estruturado em secções alternadas, exemplifica a rede contemporânea da poesia lusófona.
A Simbiose entre o Criativo e o Crítico: "A Estranheza Fora da Página"
"O que restará do poema?" precisa-mos de poemasde cinemas de vontades
contra a surdez voragem do mundo
ser um poema que ainda não sabe
um cordão de escrita que apeteça e responda
um abajour que acenda fogo lento
numa paisagem crescendo fora do corpo
onde todos se juntam para não falar:
uma fábula intensa, quietamente silenciosa
dizes-me
ensino o difícil caminho das mães
invoco a palavra elementar.
deito-me sobre o útero, instigo o sangue para que
se torne terrestre:
a sílaba encarnada na garganta, a dor em
metamorfose.
“O que restará do poema?” é um poema que questiona a essência e a sobrevivência da poesia num mundo surdo e voraz, propondo que o que resta do poema é algo vivo, necessário e transformador, como uma "fábula intensa, quietamente silenciosa". Ele evoca a urgência de poemas que resistam à "surdez voragem do mundo", tornando-se "um cordão de escrita que apeteça e responda" ou "um abajour que acenda fogo lento", imagens que sugerem iluminação íntima e persistente contra o vazio.
A Anatomia da Consciência:O Radicalismo Estético de "Córtex"
Em Córtex (2021), publicado pela Editora Exclamação, Hirondina Joshua abandona a segurança das paredes domésticas para cartografar o território mais hermético do ser: a massa cinzenta. Se em obras anteriores o corpo era o abrigo, aqui ele é o laboratório. A obra é um exercício de precisão implacável, como nota Joana Bértholo no prefácio, onde o verso não flui — ele corta. A relevância de Córtex no panorama de atual reside na sua capacidade de fundir o biológico com o metafísico. Joshua utiliza termos como "órgão cimentado" ou "couraças abertas" para descrever a luta entre a pulsão vital e a rigidez do pensamento. Ao dialogar com o Eclesiastes bíblico, a autora eleva a biologia à categoria de mito, questionando a vaidade da consciência num tempo de fragmentação acelerada. Esta "poética cerebral" afasta-se do lirismo tradicional moçambicano, aproximando-se de uma vanguarda europeia e latino-americana, o que justifica a sua ampla tradução e receção em plataformas como a Palavra Comum. Com esta obra, Joshua não apenas confirmou a sua maturidade, mas estabeleceu uma ruptura formal. Ela provou que a poesia moçambicana pós-Mia Couto é capaz de uma abstração radical, onde a identidade não é apenas geográfica, mas neuronal. Córtex é, em última análise, o veredito de uma autora que compreende que o silêncio é o único lugar onde o pensamento pode, finalmente, descansar.
Do livro Córtex
"o ventre escurece os modos de respirar:
disseram-me no dia em que as crianças responderam as máquinas:
sílaba que sustenta o suor
o barro sedentário nas iluminuras da boca."
"O pensamento é um animal que não se deixa abater.
Escrevo para que o córtex não se transforme em pedra.
Há um incêndio nas palavras que a gramática não apaga.
Sou o que sobra do que não disse."
"de repente as palavras estão na minha cara
brincam no meu rosto
basta olhar os animais diante da pedra
nos corredores da insónia
os fortes animais trilham na noite
pelas mãos cruzam a remota barbárie
alumiam velocidades.
às vezes o rosto é palavra
que os animais trilham."
"desfaço o mioma nas regiões da dor
o que fulgura está nas danças
a gravação do solo
o idioma atravessado"
"como atravessar os espelhos sem a face de deus?"
"O Ritual do Invisível: ´Parábolas e Sombras em Um Levita À Sombra dos Altares"
Um Levita À Sombra dos Altares (Húmus, 2021), de Hirondina Joshua, apresenta-se como uma incursão densa pela prosa poética, onde o silêncio e o sagrado se encontram. Com prefácio de António Cabrita, a obra funciona como um dispositivo de metapoesia sensorial, no qual a autora não se limita a descrever o mundo, mas a realizar um ritual sobre ele. A escrita de Joshua aqui é parabólica e truncada: as narrativas assemelham-se a fábulas orais africanas que perderam a sua moral tradicional para ganharem uma pulsão surrealista. São textos que, tal como "anjos caídos", habitam um espaço de suspensão, evocando a cadência dos versículos bíblicos sem, contudo, se prenderem a dogmas. O "Levita" do título é a metáfora perfeita para a própria autora: aquela que serve ao altar da palavra, mas que prefere o murmúrio das sombras à luz direta do púlpito.
"as árvores obedecem a um sono antigo.
por isso o caule ainda se demora, em movimentos redondos, exige da raiz o cúbico milagre das alienações.
– esperam pela chuva (Joshua, 2021: 44)."
"A Poética do Fôlego: O Poema Infinito em Câmara de Ar, de Hirondina Joshua"
Câmara de Ar (Douda Correria, 2023), o mais recente livro de poesia de Hirondina Joshua, é uma obra compacta e intensa que explora a metáfora da "câmara de ar" como espaço vital de resiliência e tensão, sustentando o corpo e o poema em movimento ou vazio.
A poeta moçambicana, conhecida pela sua escrita sensorial e metapoiética, continua aqui a investigar o corpo vulnerável, a memória quotidiana e as relações humanas em contexto de crise — amor, guerra, fragmentos sociais —, com uma linguagem tátil e fragmentada que "toca na palavra de forma viva", em continuidade com obras como A Estranheza Fora da Página e Córtex.
É uma obra de poesia na qual a autora se desafiou na escrita de um poema longo, procurando "tocar na palavra de forma viva". A obra explora a ideia de continuidade e o desejo de "escrever um poema tão longo quanto o tempo", refletindo sobre a paixão e a existência. Em 2024, a obra foi traduzida para o espanhol por Santiago Aguaded Landero (ACSAL Ediciones).
"Queria me desafiar no poema longo.
Durante quase seis anos a matéria foi se fazendo: os círculos rodando e a vida sendo o que é."
A Geometria do Invisível: A Escrita Arquetípica de Hirondina Joshua
A literatura de Hirondina Joshua não se lê; habita-se. Desde a sua estreia com Os Ângulos da Casa, a autora moçambicana estabeleceu uma estética onde o espaço doméstico deixa de ser betão para se tornar biologia. A sua escrita é uma "arquitetura do imaterial", onde as paredes da casa funcionam como extensões da pele e os corredores como sinapses de um pensamento em constante ebulição. Joshua opera no território do surrealismo contemporâneo, utilizando a escrita como um mecanismo de escavação. Através de uma linguagem que recusa o óbvio, ela pratica o que poderíamos chamar de "metafísica do corpo". Não há separação entre o sagrado e o profano: o erotismo é espiritualizado e a espiritualidade é carnal. A sua técnica, influenciada pela liberdade de Herberto Helder, utiliza o aforismo e a fragmentação para capturar o "vómito artístico" — aquele instante em que a palavra nasce bruta antes de ser lapidada pela consciência. No centro da sua obra reside o paradoxo da existência. Joshua explora a morte não como um fim, mas como uma presença latente que confere urgência à vida. Em obras como Córtex, a autora desloca o foco da casa física para a casa cerebral, investigando a memória e o esquecimento. A sua voz é uma das mais singulares da literatura moçambicana atual, rompendo com tradições meramente descritivas para abraçar uma universalidade existencial que ressoa em qualquer geografia. Ler Hirondina Joshua é aceitar o convite para entrar num altar onde a linguagem é o único deus e o silêncio é a moldura de cada verso. É, em última análise, o encontro com uma poesia que não teme o escuro, porque sabe que é nele que se revelam os verdadeiros ângulos do ser.
A Revolução do Íntimo: Hirondina Joshua e o Despertar da Geração XXI
A literatura moçambicana vive hoje um momento de metamorfose profunda. Se o século XX foi o tempo da "palavra-arma" contra o colonialismo, o século XXI é o tempo da "palavra-espelho", e no centro desta transmutação está Hirondina Joshua. Como figura de proa da nova geração, Joshua não escreve para definir uma fronteira geográfica, mas para mapear as fronteiras invisíveis da existência humana. Ao contrário dos seus predecessores, que focavam na construção da identidade nacional, Hirondina e os seus contemporâneos — como Álvaro Taruma e Mbate Pedro — operam uma viragem para a subjetividade. Nesta nova geração, o compromisso não é com a ideologia, mas com a estética e a liberdade formal. A escrita de Joshua, frequentemente descrita como visceral e metafísica, exemplifica este novo fôlego onde o surrealismo e a introspeção substituem o panfletismo.
"A casa não tem janelas, tem olhos que se abrem para o escuro. Onde o teto termina, começa a minha sede. Não se habita um espaço, habita-se a ferida que o espaço deixou em nós."
A Revolução do Íntimo: Hirondina Joshua e o Despertar da Geração XXI
Em obras como Os Ângulos da Casa, Hirondina redefine o papel da mulher na literatura moçambicana. Ela afasta-se do retrato da "mãe-pátria" para explorar a mulher como um ser de desejo, dúvida e complexidade intelectual. Esta "geometria do eu" é partilhada por outras vozes femininas emergentes, como Virgília Ferrão e Lica Sebastião, que trazem novas camadas de ficção e realismo mágico à narrativa do país. O impacto desta geração, com Joshua à frente, reflete-se na sua presença em palcos globais. Reconhecida por mestres como Mia Couto e celebrada em festivais internacionais, a sua obra prova que a literatura moçambicana atual é uma voz de exportação, capaz de dialogar com as angústias universais do ser. É uma literatura que já não pede licença para existir; ela impõe-se pela sua audácia e pela sua capacidade de encontrar o sagrado no quotidiano.
"Escrevo com os dedos de dentro. O cérebro é uma casa sem mobília onde o pensamento tropeça no silêncio. Não procuro a palavra, procuro o osso da palavra."
Arquitetura do Verbo: Hirondina Joshua e a Consolidação Internacional da Geração pós-80
Aos 27 anos, Hirondina Joshua já desenhava o seu nome no mapa da literatura mundial ao receber a Menção Honrosa no Prémio Mondiale di Poesia Nósside (2014), sob a chancela da UNESCO. O poema "Invenção" foi o prenúncio de uma carreira que viria a renovar a tradição poética de Moçambique, trocando o foco coletivo por uma escrita visceral, experimental e profundamente metapoiética.
Em "Invenção", a autora trata o ato de criar não como um exercício intelectual, mas como um processo orgânico. Inventar não é "descobrir algo novo", mas sim "dar à luz" uma realidade que já existia no subconsciente. O poema sugere que o poeta é um canal por onde a matéria bruta se transforma em sentido.O poema é uma metapoesia (poesia sobre o ato de fazer poesia). Ele ilustra perfeitamente o que a crítica chama de "escrita visceral" da autora: uma busca pelo "osso da palavra" que mencionei anteriormente. Foi esta força de transformar o abstrato em algo quase tátil que impressionou o júri internacional da UNESCO e do Prémio Nósside.
Arquitetura do Verbo: Hirondina Joshua e a Consolidação Internacional da Geração pós-80
A trajetória de Joshua é marcada por uma internacionalização estratégica e meritocrática. Com o apoio da Linha de Apoio à Tradução e Edição (LATE) do Camões I.P. e DGLAB, a sua obra Córtex atravessou o Atlântico para ser editada no México, integrando redes bibliográficas fundamentais. Este movimento, acompanhado por prefácios de figuras canónicas como Mia Couto e vozes contemporâneas como Joana Bértholo, posiciona-a como uma ponte entre gerações e geografias. A sua voz tem ressoado em festivais de prestígio global, desde o Correntes d’Escritas em Portugal até ao Edinburgh International Book Festival na Escócia. Mais do que uma escritora, Joshua é hoje uma agente cultural ativa: como jurada no prémio brasileiro Pena de Ouro e curadora na Mbenga Artes & Reflexões, ela exerce uma influência direta na formação de novas vozes lusófonas. A poesia de Hirondina não se esgota no papel. A sua capacidade de criar imagens tão físicas quanto metafísicas permitiu que a sua obra fosse adaptada para a dança contemporânea no Brasil, provando que o seu "verbo" possui uma tridimensionalidade rara. Joshua não é apenas uma referência da Geração pós-80; ela é a arquiteta de um novo tempo na literatura de língua portuguesa.
Presença Internacional de Hirondina Joshua em Festivais e Antologias CPLP
Hirondina Joshua destaca-se pela sua projeção em festivais literários internacionais de referência, consolidando a poesia moçambicana contemporânea nos circuitos da lusofonia e além. Participou na 21.ª edição das Correntes d'Escritas (Póvoa de Varzim, 2020), na XXXVII edição do Festival Internacional de Poesia de Barcelona (2022, única voz em português), no Lisbon Revisited 2022 – Dias de Poesia (Casa Fernando Pessoa, Portugal), no Edinburgh International Book Festival (2023, maior celebração mundial da palavra escrita) e nas Jornadas Luso-Andaluzas de Poesia (2024). Estas presenças refletem o reconhecimento da sua escrita visceral e metapoiética em palcos europeus de prestígio. No contexto da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), Joshua marcou igualmente presença no 8.º Macau Literary Festival – The Script Road (2019), reforçando laços com Macau através da antologia Rio das Pérolas (2020), coordenada por António MR Martins. Estes eventos promovem o diálogo entre gerações e espaços lusófonos, posicionando-a como ponte entre Moçambique e a diáspora poética global.
"O que assusta é a nitidez: a possibilidade da fala em exercício"
Presença Internacional de Hirondina Joshua em Festivais e Antologias CPLP
A autora integra antologias emblemáticas da CPLP que celebram a diversidade da língua portuguesa. Em Português, Lugar de Escrita - Mulheres na Poesia (2021), uma edição da Embaixada de Itália em Lisboa e Casa Fernando Pessoa pelo Dia da Língua Portuguesa, representa as vozes femininas moçambicanas. Integra também Este Imenso Mar - Antologia de Autores Contemporâneos de Língua Portuguesa (2022, Camões I.P.), ao lado de nomes como Ana Mafalda Leite, ampliando a sua influência na rede institucional lusófona. Esta presença em coletâneas e festivais CPLP — complementada por traduções como Córtex para espanhol (México, 2022, com fundo bibliográfico Camões) e adaptações no Brasil (Os Ângulos da Casa em dança moderna) — afirma Hirondina Joshua como figura central da nova geração moçambicana, dialogando com tradições orais chope e experimentalismo global.
"Apesar da palavra gritar, o poema inventa uma outra garganta e esconde a voz".
Rio das Pérolas
Rio das Pérolas é uma antologia de poesia contemporânea em língua portuguesa ligada a Macau, coordenada pelo poeta português António MR Martins e publicada pela editora Ipsis Verbis em 2020. São 24 os autores (Ana Cristina Alves, António Bondoso, António Correia, António Duarte Mil-Homens, António Graça de Abreu, António José Queiroz, António MR Martins (Organizador e coautor), Carlos Morais José, Deusa d'África, Dora Nunes Gago, Fernanda Dias, Fernando Sales Lopes, Francisco Conduto de Pina, Gisela Casimiro, Gisele Wolkoff, Gonçalo Lobo Pinheiro, Henrique Levy, Hirondina Joshua, João Morgado, José Drummond, José Luís Outono, Natalia Borges Polesso, Sara F. Costa e Sellma Luann) que compõem uma obra de memórias e de inspirações fluídas como as águas do Rio das Pérolas. A antologia procura captar, em verso, a relação entre língua portuguesa e Macau: a herança histórica, a transição de soberania em 1999, o crescimento urbano, as pontes, os deuses e mitos locais, bem como o quotidiano contemporâneo. Os poemas oscilam entre o registo memorialista, a observação crítica e o imaginário quase mítico, usando o rio e o delta como metáfora da fluidez do tempo, das identidades e do encontro entre Oriente e Ocidente.
O livro conta com prefácio de Ana Paula Dias e ilustrações do artista local Erik Fok, reforçando o diálogo entre texto, memória e imagem na representação poética de Macau.
"Difusão e Diálogo: Hirondina Joshua na RTP/Antena 2"
"A vida está dentro da morte como sabemos, mas de um modo demasiado fracassado."
“quando alguém planta pedra é para que a pedra cresça”
"Hirondina Joshua: A Voz da Nova Literatura Moçambicana"
Helena Borralho
Created on February 23, 2026
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"Hirondina Joshua: A Voz da Nova Literatura Moçambicana"
31 de maio de 1987
Hirondina Joshua: A Arquiteta da Poesia Corpóreo-Cósmica no Século XXI
No panorama da literatura lusófona contemporânea, poucos nomes encarnam a renovação estética de forma tão visceral quanto Hirondina Joshua. Nascida em Maputo (1987), a autora emergiu no cenário literário com Os Ângulos da Casa (2016), obra que, sob o olhar atento de Mia Couto, anunciou uma voz que não temia a desconstrução da forma. Em 2026, Joshua já não é apenas uma promessa, mas uma figura central na geopolítica das letras africanas, atuando como um ponto de convergência entre a tradição lírica moçambicana e o experimentalismo transnacional. A sua relevância atual transcende o domínio do papel. Através de uma escrita que funde o feminismo africano, a metafísica e o pós-colonialismo, Joshua propõe uma linguagem "corporal-cósmica" que ressoa globalmente — de adaptações performáticas no Brasil à sua participação em palcos de prestígio como o Festival de Edimburgo. Mais do que poeta, a sua atuação como curadora no projeto Mbenga Artes & Reflexões e a sua presença em publicações de vanguarda na Galiza e em Portugal solidificam-na como uma mediadora cultural imprescindível. Ler Hirondina Joshua hoje é, portanto, confrontar o corpo enquanto território de resistência e a palavra como um organismo vivo em constante mutação.
As Raízes do Olhar: Infância, Família e o Despertar em Maputo
A identidade literária de Hirondina Joshua é indissociável da topografia humana e cultural de Maputo, onde nasceu a 31 de maio de 1987. A sua infância foi o palco de uma observação silenciosa e profunda, moldada por um ambiente familiar que privilegiava o rigor intelectual. Filha de uma dinâmica onde a disciplina e o estímulo à curiosidade coexistiam, Joshua encontrou no seio familiar o suporte necessário para transformar a sensibilidade em ofício. O seu pai, figura central nesta génese, foi o curador das suas primeiras leituras, desafiando-a, ainda na adolescência, a navegar entre a densidade da literatura moçambicana de Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khosa e o cânone da literatura universal. A adolescência de Joshua foi marcada por uma imersão multidisciplinar que expandiu os limites da página. Em 2005, a sua estreia no teatro com a peça O Grasnar dos Corvos, sob a direção de Jaime Santos no Centro Cultural Brasil-Moçambique, conferiu-lhe uma consciência precoce da corporeidade da palavra, elemento que se tornaria a espinha dorsal da sua poética futura. A sua formação escolar e artística consolidou-se em instituições-chave de Maputo; a passagem pelas oficinas de escrita de Fernanda Angius no Camões – Centro Cultural Português foi o cadinho onde a sua técnica foi refinada. Foi nesta intersecção — entre o rigor da educação formal, a liberdade do palco e as tertúlias em centros culturais — que Joshua preparou o terreno para a sua estreia em 2016. Esta juventude maputense não foi apenas uma etapa cronológica, mas a fundação de uma voz que hoje utiliza a memória familiar e a disciplina formativa para dissecar a condição humana.
Entre a Norma e o Verbo: A Arquitetura Jurídica na Poética de Joshua
O percurso académico de Hirondina Joshua é definido por uma coexistência singular: a estrutura rigorosa do Direito e a fluidez transgressora da Literatura. Longe de serem universos excludentes, estas duas áreas operam na sua obra como forças complementares. Se o Direito lhe conferiu o domínio da norma, da lógica e da justiça, a poesia surge como o espaço onde essa mesma ordem é desafiada para dar lugar à metafísica do corpo e da alma. Para Joshua, a formação jurídica atua como um filtro de disciplina e precisão. Enquanto o seu processo criativo é muitas vezes visceral — aproximando-se do surrealismo e da escrita automática —, a sua faceta de jurista intervém no momento da lapidação. É aqui que o texto é submetido a uma economia de palavras e a um rigor gramatical que conferem à sua obra, como em Córtex ou Os Ângulos da Casa, uma densidade cirúrgica. Esta "arquitetura do dizer" permite que os seus temas mais abstratos sejam ancorados por uma clareza formal rara na poesia contemporânea. Além da técnica, a sensibilidade jurídica de Joshua reflete-se na sua ética humanista. A sua presença na Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e a sua colaboração em revistas como a InComunidade demonstram uma autora que compreende a literatura não apenas como estética, mas como um compromisso civil. Em 2026, Hirondina Joshua permanece como o exemplo máximo da escritora que utiliza a balança do Direito para pesar a palavra, garantindo que cada verso tenha a força de um veredito e a leveza de uma revelação.
A Anatomia do Invisível: O Itinerário Poético de Hirondina Joshua
A obra literária de Hirondina Joshua configura-se como um dos projetos mais audaciosos da literatura moçambicana contemporânea, caracterizando-se por uma "arqueologia do sentir" que recusa fórmulas convencionais. Desde a sua estreia, Joshua estabeleceu um território onde a palavra não apenas descreve a realidade, mas a disseca, operando na intersecção entre o corpo biológico, a arquitetura do espaço e a metafísica do pensamento. O marco inicial desta jornada, Os Ângulos da Casa (2016), sob a égide crítica de Mia Couto, apresentou uma poeta preocupada com a geometria da intimidade. Nele, a casa é uma extensão da pele, e cada verso procura os limites da identidade moçambicana num contexto pós-colonial. Seguiu-se o radicalismo de Córtex (2021), onde a autora mergulhou na "escrita automática" e no surrealismo para explorar as camadas da consciência. Esta obra consolidou o seu prestígio internacional, sendo celebrada em plataformas como a Palavra Comum pela sua capacidade de transformar processos neurológicos em lírica pura. Em lançamentos mais recentes, como Câmara de Ar (2023), Joshua expandiu a sua investigação para o que define como uma "linguagem corporal-cósmica". A sua escrita tornou-se mais fluida e transnacional, permitindo que a sua poesia fosse transposta para outras linguagens, como a dança moderna e o teatro, especialmente no Brasil. Hoje, a obra de Hirondina Joshua é estudada como um pilar da vanguarda lusófona, onde o feminismo, a espiritualidade e a metapoesia se fundem para questionar as leis naturais da existência.
"A Poética do Fôlego: O Poema Infinito em Câmara de Ar, de Hirondina Joshua"
O Grasnar dos Corvos (2005) é uma peça de teatro escrita em coautoria por Hirondina Joshua, ainda no início da sua carreira aos 18 anos, sob a direção do declamador Jaime Santos, e encenada no Centro Cultural Brasil-Moçambique, em Maputo.
Esta obra coletiva, que inclui nomes como Gulamo Khan, representa os primeiros passos de Joshua no teatro experimental moçambicano, numa fase de formação em oficinas cénicas e coletivos literários, antes da sua consagração na poesia. O título sugere uma atmosfera de presságio e transformação, com os corvos como símbolo de morte, aviso ou mudança radical — temas que ecoam na imagética visceral da autora (ossos, coração rubro, vulnerabilidade corporal) vista em obras posteriores como A Estranheza Fora da Página.
O Nascimento de uma Vanguarda:O Impacto de "Os Ângulos da Casa"
A estreia de Hirondina Joshua com Os Ângulos da Casa em 2016 não foi apenas um lançamento editorial, mas um acontecimento sísmico na literatura moçambicana, marcando a transição para uma nova era estética. Publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), o livro de estreia de Joshua rompeu com a tradição da poesia moçambicana mais ligada ao social ou ao político direto, voltando-se para uma introversão metafísica. O impacto foi imediato, conferindo-lhe o Prémio de Reconhecimento Literário e posicionando-a como a voz mais promissora da sua geração.
O prefácio, assinado por Mia Couto, funcionou como um selo de legitimidade e uma profecia. O prestigiado autor de Terra Sonâmbula descreveu Joshua como uma escritora que não se limita a ocupar a casa, mas que a reconstrói através de uma linguagem "necessária e urgente". Couto destacou a capacidade da autora de desordenar o mundo para encontrar uma nova ordem poética, celebrando a sua audácia em tratar o corpo e o espaço como territórios de constante mutação.
O Nascimento de uma Vanguarda:O Impacto de "Os Ângulos da Casa"
Em Os Ângulos da Casa, a arquitetura doméstica torna-se uma metáfora da psique. Joshua utiliza uma economia de meios e uma precisão cirúrgica para explorar a solidão, o desejo e a ancestralidade. Este livro estabeleceu o que viria a ser a sua marca registada: uma poesia que, embora visceral, é lapidada por um rigor técnico que a afasta do sentimentalismo fácil.
O projeto "ONDE A CASA MORA" é uma obra de vídeodança que nasce do diálogo entre a literatura de Joshua e a expressão corporal contemporânea. Inspirado diretamente no livro de estreia da autora, o vídeo explora a premissa de que a "casa" não é apenas uma estrutura de cimento, mas o próprio corpo habitado. A obra traduz para o movimento a "arquitetura dos sentimentos" que Joshua descreve nos seus versos, utilizando a dança para dar volume e tridimensionalidade à sua poética visceral.
"Fenómeno do Fogo: A Ascensão Sílaba a Sílaba"
"Ignoto Deo", incluído em Os Ângulos da Casa (2016), expressa a busca espiritual de Hirondina Joshua por Deus através de sílabas e sangue puro, numa luta paradoxal de quem é inerme perante a substância cósmica. O eu lírico invoca o divino como "fenómeno do fogo stricto sensu", matéria primordial do trabalho cósmico, chamando-O no "semblante amorfo da música". Este poema exemplifica a poética visceral da autora, tensionando carne e transcendência, concreto e sagrado — onde a derrota espiritual se transmuta em criação alquímica. A concisão ritualística reforça o tom litúrgico, ecoando temas recorrentes como corpo inventado e casa metafísica na sua obra.
“Ignoto Deo” Pretendo chegar a Deus Sílaba a sílaba Com sangue puro Como quem luta E nunca soube o que é lutar Sou inerme Na carne da substância pura: Matéria do trabalho cósmico, Fenómeno do fogo “Stricto sensu”. Chamo a Deus No semblante amorfo da música. In Os Ângulos da Casa (2016)
O Abismo Transparente:O Concerto Metafísico de Hirondina Joshua
Concerto com Deus Música soberba cor do espaço massa na transparência da síbala Mundo distância insólitos pedaços poços feito abismo imo na garganta do Verbo. In Os Ângulos da Casa (2016)
"Concerto com Deus", de Os Ângulos da Casa (2016), apresenta a música divina como soberba força cósmica — cor do espaço, massa transparente na sílaba — que fragmenta o mundo em pedaços insólitos, poços e abismos. O eu lírico capta esta tensão primordial na garganta do Verbo, unindo o imenso (mundo, distância) ao íntimo (sílaba, garganta). O poema condensa a poética de Hirondina Joshua em imagens táteis e paradoxais: transparência opaca, massa leve, abismo imóvel. Esta estética fragmentária evoca o "concerto" como diálogo cósmico onde a palavra se faz carne sonora, em continuidade com "Ignoto Deo" e a busca espiritual através da matéria visceral característica da autora.
Tal como na sua estética visceral reconhecida em festivais como o de Edimburgo ou o Correntes d'Escritas, Joshua funde o corpo (a garganta) com o conceito metafísico (o Verbo).
SENSUS Falamos a mesma língua Do raiar do tempo Falamos a mesma língua Sussurrada pelo vento A língua do céu Neste Sol da alvorada Da nuvem sem véu Em labareda Falamos o toque A vontade A veia O sangue... A Vida em ascendência Quimera em Transcendência A língua que nos refaz Em dias lentos Transforma-nos Em eternos Vencedores do silêncio Falamos sem voz Em alta voz A língua A língua A secreta Língua Falamos falamos O toque A vontade De nascer... A língua... A língua da pele O poema da pedra. In Os Ângulos da Casa (2016)
A Língua da Pele: O Poema da Pedra e a Sinfonia dos Sentidos
"Sensus", de Os Ângulos da Casa (2016), celebra uma língua primordial e secreta partilhada desde o raiar do tempo — sussurrada pelo vento, céu e Sol da alvorada —, que transcende a voz para se tornar toque, vontade, veia, sangue e vida em ascendência. Esta "quimera em transcendência" refaz os seres em "dias lentos", transformando-os em eternos vencedores do silêncio. O eu lírico invoca uma comunicação tátil e cósmica ("língua da pele", "poema da pedra"), onde falar sem voz é alta voz, unindo corpo e eternidade numa poética sensorial. O poema exemplifica a metapoesia de Hirondina Joshua: a língua como matéria viva que dissolve fronteiras entre finito e infinito, humano e divino, ecoando os temas de Ignoto Deo e "Concerto com Deus".
Nocturno Comboio em caudas clandestinas. Subo até ao horizonte, sento-me ao lado da razão. A noite já bêbada, todo o resto que me restou. Sou eu mesma, o demónio do devaneio. A substância intáctil da matéria. Já de nada sei. De mim fugi. In Os Ângulos da Casa (2016)
O Demónio do Devaneio: A Fuga Noturna de Hirondina Joshua
"Nocturno", de Os Ângulos da Casa (2016), evoca uma viagem noturna clandestina num comboio até ao horizonte, onde o eu lírico se confronta com a razão enquanto a noite se embriaga. Restos de identidade dissolvem-se no "demónio do devaneio", tornando-se substância intáctil da matéria — um fugir de si mesma rumo ao desconhecido. O poema capta a poética joshuana da fragmentação noturna: corpo em movimento errante, razão como companheira precária, matéria impalpável que escapa ao saber. Esta deriva introspetiva, entre embriaguez cósmica e autoabandono, dialoga com a "noite anterior" da metapoesia da autora, onde o devaneio é portal para o invisível.
O poema termina no auge da despersonalização: "De mim fugi".
FRONTEIRA “De vez Em quando Deus tira-me a poesia, olho pedra e vejo pedra mesmo”. – Adélia Prado Numa noite qualquer o poema vai Se fazer em mim, não Se procura um poema e encontrá-lo é engano. A existência do poema A estação interior de algo mais Exterior que a insânia e o poema Não nasce, surge. Antecede a Própria palavra, é o verbo do Sangue das carnes mundanas e do Insubmisso espírito humano. O poema não chega a nascer Porque a noite inunda a Compaixão dos sentidos; e o dia Não cabe na mão de uma flor. Os astros não se harmonizam com O corpo celeste da palavra, O poema não nasce. Apesar da palavra gritar, O poema inventa uma outra garganta e Esconde a voz. In Os Ângulos da Casa (2016)
O Poema que Inventa a Voz: A Fronteira entre o Verbo e o Sangue
"Fronteira", de Os Ângulos da Casa (2016), reflete sobre a natureza elusiva do poema através da epígrafe de Adélia Prado ("Deus tira-me a poesia, olho pedra e vejo pedra mesmo"). O eu lírico afirma que o poema não se procura nem nasce — surge espontaneamente como estação interior anterior à palavra, verbo do sangue carnal e espírito insubmisso. Antecedendo a insânia, o poema inunda a compaixão dos sentidos na noite e escapa ao dia que "não cabe na mão de uma flor". Apesar do grito da palavra, inventa outra garganta e esconde a voz, mantendo-se em tensão cósmica com astros e corpo celeste. Esta metapoesia exemplifica o cerne da poética joshuana: o poema como entidade autónoma, matéria viva que resiste à domesticação verbal.
O fecho é extraordinário. O poema é uma entidade autónoma que "inventa uma outra garganta" e "esconde a voz" do poeta. Esta é a definição máxima de metapoesia na Geração pós-80: o autor é apenas o hospedeiro de uma força que grita por si mesma.
O Voo Essencial: A Hegemonia do Espírito sobre a Matéria
Hegemonia O voo pode ser feito pelas mãos pelos braços pés ou cabeça… o voo essencial não tem corpo pode não respeitar o medo. O voo assim a fechar o círculo… parece transparente nu conhece o céu a retina, e sua pupila vibra na boca do coração de uma criança. O voo pode ser feito pelas mãos…ou pelos dedos… In Os Ângulos da Casa (2016)
"Hegemonia", de Os Ângulos da Casa (2016), explora o voo essencial como transcendência corporal, podendo realizar-se por mãos, braços, pés, cabeça ou dedos — mas na sua forma pura, dispensa corpo, ignora o medo e fecha o círculo da existência. Este voo transparente e nu conhece o céu, vibrando na retina e na "boca do coração de uma criança". O poema condensa a poética joshuana em imagens de leveza paradoxal: matéria dissolvida que pulsa no íntimo infantil, evocando a "casa metafísica" e o espírito insubmisso. A repetição circular ("O voo pode ser feito pelas mãos…ou pelos dedos") reforça a hegemonia do voo como força vital que une corpo, céu e coração primordial.
Ao situar a vibração desse voo no "coração de uma criança", Joshua liga a alta metafísica à inocência primordial, um tema recorrente na nova geração literária moçambicana.
Em dor menor Não há dó: em mi(m) não reside o lá deambulo em si. In Os Ângulos da Casa (2016)
A Partitura da Ausência: O Solfejo Existencial de Hirondina Joshua
"Em dor menor", de Os Ângulos da Casa (2016), é um minipoema musical que joga com notas e tons: "Não há dó: em mi(m) não reside o lá, deambulo em si". A ausência de dó (nota musical e compaixão) confina o eu lírico ao mi menor, sem alcançar o lá maior, errando em si mesmo. Esta peça exemplifica a concisão radical de Hirondina Joshua, fundindo música, dor e identidade num espaço tonal fechado. O jogo silábico (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si) espelha a poética corporal da autora, onde a voz lírica deambula confinada, ecoando temas de vulnerabilidade e busca interior presentes em "Ignoto Deo" e "Nocturno".
O livro nasceu na veia. Foi então que partiu para dentro de outros mundos. Eram negros os dedos do homem. A cabeça parecia um asfalto de guerra. — Um analfabeto completo: bom para quem nasce. Tinha o elemento essencial para viver: a madura obscuridade vista no plano superficial. Foi então que nasceu a selvagem Letra, nas mãos e nos dentes ferozes. A escrita. A voz superlativa. O canto cru. Tudo lhe nascera rapidamente como a febre do universo. — E ele não via. A cada dia ao invés de compreender, descompreendia o movimento sagrado do verbo. Porque ele era seu próprio estrangeiro no estado urgente e repentino, e os seus desejos eram vítimas do caminho errante. Podia-se dele imaginar tudo: menos a arte do líquido rubro. E depois já não se podia jurar, tornámo-nos nessa linha criminal; porque bastava ver-se. Ou ser-se cego. In Os Ângulos da Casa (2016)
A Febre do Universo: A Geração da Letra Selvagem
Este poema narrativo de Hirondina Joshua relata o nascimento visceral da escrita numa figura masculina marcada pela "madura obscuridade" — dedos negros, cabeça de asfalto de guerra, analfabeto completo que possui o elemento essencial para viver. A "selvagem Letra" emerge feroz nas mãos e dentes, gerando voz superlativa e canto cru como febre universal, mas o homem descompreende o "movimento sagrado do verbo", tornando-se estrangeiro a si próprio. A poética joshuana atinge aqui o seu tom mais épico e corpóreo: a escrita como parto violento do líquido rubro (sangue), arte negada ao errante cujos desejos são vítimas do caminho.
A linha final ("tornámo-nos nessa linha criminal") universaliza a condição humana entre visão e cegueira, ecoando a tensão entre matéria primal e espírito insubmisso característica da autora.
No início era o verbo amar A carne tinha olhos. A carne via sobre o telhado do mundo. Era antiga a condição com que se podia equilibrar a tenda das coisas. O vento era com cor. Ao lado havia a caixa dos mistérios. Uma voz que não se podia ouvir a dizer como se deve viver… Era o fim. No início o verbo amar não tinha voz. Passou o tempo sob a terra. A água desapareceu. Acredita-se que era por causa dos olhos que se fundaram no coração. Veio o cansaço para disfarçar a queda. No início havia o verbo amar em cima da asa ou do tendão das cores. Havia um furacão por vencer e com certeza de que se já tinha nas mãos. No início era o ardor, a cegueira. No início era o verbo amar. Em cada imagem há o som faminto do sal, transformando a morte em embriaguez. Há o vaso dilatado de esperança depois de cantarmos. Digo: depois da planta que se fez na face. – A distância alumia as estações perdidas. Mas como podem se perder as estações se ainda há a existência? Como se perde o tempo? Olho para a diurna loucura e incendeio. Regresso ao ventre primário. publicado na revista Palavra Comum
A Simbiose entre o Criativo e o Crítico: "A Estranheza Fora da Página"
A Estranheza Fora da Página (2021, Edições Húmus) resulta de uma escrita a quatro mãos entre Hirondina Joshua e Ana Mafalda Leite, questionando ontologicamente a poesia como "matéria visível" que precede a palavra. O livro explora o processo criativo como acto preparatório e elusivo — o poema não se procura nem nasce, mas surge na intersecção de duas vozes lusófonas distintas: a corporalidade moçambicana visceral de Joshua e a lírica europeia, pós-colonial, de Leite. A "estranheza" do título evoca o inusitado do diálogo poético transatlântico, fundindo África e Europa em temas como identidade mestiça, corpo-palavra e a tensão entre o visível e o intangível. Estruturado em secções alternadas, exemplifica a rede contemporânea da poesia lusófona.
A Simbiose entre o Criativo e o Crítico: "A Estranheza Fora da Página"
"O que restará do poema?" precisa-mos de poemasde cinemas de vontades contra a surdez voragem do mundo ser um poema que ainda não sabe um cordão de escrita que apeteça e responda um abajour que acenda fogo lento numa paisagem crescendo fora do corpo onde todos se juntam para não falar: uma fábula intensa, quietamente silenciosa dizes-me ensino o difícil caminho das mães invoco a palavra elementar. deito-me sobre o útero, instigo o sangue para que se torne terrestre: a sílaba encarnada na garganta, a dor em metamorfose.
“O que restará do poema?” é um poema que questiona a essência e a sobrevivência da poesia num mundo surdo e voraz, propondo que o que resta do poema é algo vivo, necessário e transformador, como uma "fábula intensa, quietamente silenciosa". Ele evoca a urgência de poemas que resistam à "surdez voragem do mundo", tornando-se "um cordão de escrita que apeteça e responda" ou "um abajour que acenda fogo lento", imagens que sugerem iluminação íntima e persistente contra o vazio.
A Anatomia da Consciência:O Radicalismo Estético de "Córtex"
Em Córtex (2021), publicado pela Editora Exclamação, Hirondina Joshua abandona a segurança das paredes domésticas para cartografar o território mais hermético do ser: a massa cinzenta. Se em obras anteriores o corpo era o abrigo, aqui ele é o laboratório. A obra é um exercício de precisão implacável, como nota Joana Bértholo no prefácio, onde o verso não flui — ele corta. A relevância de Córtex no panorama de atual reside na sua capacidade de fundir o biológico com o metafísico. Joshua utiliza termos como "órgão cimentado" ou "couraças abertas" para descrever a luta entre a pulsão vital e a rigidez do pensamento. Ao dialogar com o Eclesiastes bíblico, a autora eleva a biologia à categoria de mito, questionando a vaidade da consciência num tempo de fragmentação acelerada. Esta "poética cerebral" afasta-se do lirismo tradicional moçambicano, aproximando-se de uma vanguarda europeia e latino-americana, o que justifica a sua ampla tradução e receção em plataformas como a Palavra Comum. Com esta obra, Joshua não apenas confirmou a sua maturidade, mas estabeleceu uma ruptura formal. Ela provou que a poesia moçambicana pós-Mia Couto é capaz de uma abstração radical, onde a identidade não é apenas geográfica, mas neuronal. Córtex é, em última análise, o veredito de uma autora que compreende que o silêncio é o único lugar onde o pensamento pode, finalmente, descansar.
Do livro Córtex
"o ventre escurece os modos de respirar: disseram-me no dia em que as crianças responderam as máquinas: sílaba que sustenta o suor o barro sedentário nas iluminuras da boca."
"O pensamento é um animal que não se deixa abater. Escrevo para que o córtex não se transforme em pedra. Há um incêndio nas palavras que a gramática não apaga. Sou o que sobra do que não disse."
"de repente as palavras estão na minha cara brincam no meu rosto basta olhar os animais diante da pedra nos corredores da insónia os fortes animais trilham na noite pelas mãos cruzam a remota barbárie alumiam velocidades. às vezes o rosto é palavra que os animais trilham."
"desfaço o mioma nas regiões da dor o que fulgura está nas danças a gravação do solo o idioma atravessado"
"como atravessar os espelhos sem a face de deus?"
"O Ritual do Invisível: ´Parábolas e Sombras em Um Levita À Sombra dos Altares"
Um Levita À Sombra dos Altares (Húmus, 2021), de Hirondina Joshua, apresenta-se como uma incursão densa pela prosa poética, onde o silêncio e o sagrado se encontram. Com prefácio de António Cabrita, a obra funciona como um dispositivo de metapoesia sensorial, no qual a autora não se limita a descrever o mundo, mas a realizar um ritual sobre ele. A escrita de Joshua aqui é parabólica e truncada: as narrativas assemelham-se a fábulas orais africanas que perderam a sua moral tradicional para ganharem uma pulsão surrealista. São textos que, tal como "anjos caídos", habitam um espaço de suspensão, evocando a cadência dos versículos bíblicos sem, contudo, se prenderem a dogmas. O "Levita" do título é a metáfora perfeita para a própria autora: aquela que serve ao altar da palavra, mas que prefere o murmúrio das sombras à luz direta do púlpito.
"as árvores obedecem a um sono antigo. por isso o caule ainda se demora, em movimentos redondos, exige da raiz o cúbico milagre das alienações. – esperam pela chuva (Joshua, 2021: 44)."
"A Poética do Fôlego: O Poema Infinito em Câmara de Ar, de Hirondina Joshua"
Câmara de Ar (Douda Correria, 2023), o mais recente livro de poesia de Hirondina Joshua, é uma obra compacta e intensa que explora a metáfora da "câmara de ar" como espaço vital de resiliência e tensão, sustentando o corpo e o poema em movimento ou vazio. A poeta moçambicana, conhecida pela sua escrita sensorial e metapoiética, continua aqui a investigar o corpo vulnerável, a memória quotidiana e as relações humanas em contexto de crise — amor, guerra, fragmentos sociais —, com uma linguagem tátil e fragmentada que "toca na palavra de forma viva", em continuidade com obras como A Estranheza Fora da Página e Córtex. É uma obra de poesia na qual a autora se desafiou na escrita de um poema longo, procurando "tocar na palavra de forma viva". A obra explora a ideia de continuidade e o desejo de "escrever um poema tão longo quanto o tempo", refletindo sobre a paixão e a existência. Em 2024, a obra foi traduzida para o espanhol por Santiago Aguaded Landero (ACSAL Ediciones).
"Queria me desafiar no poema longo. Durante quase seis anos a matéria foi se fazendo: os círculos rodando e a vida sendo o que é."
A Geometria do Invisível: A Escrita Arquetípica de Hirondina Joshua
A literatura de Hirondina Joshua não se lê; habita-se. Desde a sua estreia com Os Ângulos da Casa, a autora moçambicana estabeleceu uma estética onde o espaço doméstico deixa de ser betão para se tornar biologia. A sua escrita é uma "arquitetura do imaterial", onde as paredes da casa funcionam como extensões da pele e os corredores como sinapses de um pensamento em constante ebulição. Joshua opera no território do surrealismo contemporâneo, utilizando a escrita como um mecanismo de escavação. Através de uma linguagem que recusa o óbvio, ela pratica o que poderíamos chamar de "metafísica do corpo". Não há separação entre o sagrado e o profano: o erotismo é espiritualizado e a espiritualidade é carnal. A sua técnica, influenciada pela liberdade de Herberto Helder, utiliza o aforismo e a fragmentação para capturar o "vómito artístico" — aquele instante em que a palavra nasce bruta antes de ser lapidada pela consciência. No centro da sua obra reside o paradoxo da existência. Joshua explora a morte não como um fim, mas como uma presença latente que confere urgência à vida. Em obras como Córtex, a autora desloca o foco da casa física para a casa cerebral, investigando a memória e o esquecimento. A sua voz é uma das mais singulares da literatura moçambicana atual, rompendo com tradições meramente descritivas para abraçar uma universalidade existencial que ressoa em qualquer geografia. Ler Hirondina Joshua é aceitar o convite para entrar num altar onde a linguagem é o único deus e o silêncio é a moldura de cada verso. É, em última análise, o encontro com uma poesia que não teme o escuro, porque sabe que é nele que se revelam os verdadeiros ângulos do ser.
A Revolução do Íntimo: Hirondina Joshua e o Despertar da Geração XXI
A literatura moçambicana vive hoje um momento de metamorfose profunda. Se o século XX foi o tempo da "palavra-arma" contra o colonialismo, o século XXI é o tempo da "palavra-espelho", e no centro desta transmutação está Hirondina Joshua. Como figura de proa da nova geração, Joshua não escreve para definir uma fronteira geográfica, mas para mapear as fronteiras invisíveis da existência humana. Ao contrário dos seus predecessores, que focavam na construção da identidade nacional, Hirondina e os seus contemporâneos — como Álvaro Taruma e Mbate Pedro — operam uma viragem para a subjetividade. Nesta nova geração, o compromisso não é com a ideologia, mas com a estética e a liberdade formal. A escrita de Joshua, frequentemente descrita como visceral e metafísica, exemplifica este novo fôlego onde o surrealismo e a introspeção substituem o panfletismo.
"A casa não tem janelas, tem olhos que se abrem para o escuro. Onde o teto termina, começa a minha sede. Não se habita um espaço, habita-se a ferida que o espaço deixou em nós."
A Revolução do Íntimo: Hirondina Joshua e o Despertar da Geração XXI
Em obras como Os Ângulos da Casa, Hirondina redefine o papel da mulher na literatura moçambicana. Ela afasta-se do retrato da "mãe-pátria" para explorar a mulher como um ser de desejo, dúvida e complexidade intelectual. Esta "geometria do eu" é partilhada por outras vozes femininas emergentes, como Virgília Ferrão e Lica Sebastião, que trazem novas camadas de ficção e realismo mágico à narrativa do país. O impacto desta geração, com Joshua à frente, reflete-se na sua presença em palcos globais. Reconhecida por mestres como Mia Couto e celebrada em festivais internacionais, a sua obra prova que a literatura moçambicana atual é uma voz de exportação, capaz de dialogar com as angústias universais do ser. É uma literatura que já não pede licença para existir; ela impõe-se pela sua audácia e pela sua capacidade de encontrar o sagrado no quotidiano.
"Escrevo com os dedos de dentro. O cérebro é uma casa sem mobília onde o pensamento tropeça no silêncio. Não procuro a palavra, procuro o osso da palavra."
Arquitetura do Verbo: Hirondina Joshua e a Consolidação Internacional da Geração pós-80
Aos 27 anos, Hirondina Joshua já desenhava o seu nome no mapa da literatura mundial ao receber a Menção Honrosa no Prémio Mondiale di Poesia Nósside (2014), sob a chancela da UNESCO. O poema "Invenção" foi o prenúncio de uma carreira que viria a renovar a tradição poética de Moçambique, trocando o foco coletivo por uma escrita visceral, experimental e profundamente metapoiética.
Em "Invenção", a autora trata o ato de criar não como um exercício intelectual, mas como um processo orgânico. Inventar não é "descobrir algo novo", mas sim "dar à luz" uma realidade que já existia no subconsciente. O poema sugere que o poeta é um canal por onde a matéria bruta se transforma em sentido.O poema é uma metapoesia (poesia sobre o ato de fazer poesia). Ele ilustra perfeitamente o que a crítica chama de "escrita visceral" da autora: uma busca pelo "osso da palavra" que mencionei anteriormente. Foi esta força de transformar o abstrato em algo quase tátil que impressionou o júri internacional da UNESCO e do Prémio Nósside.
Arquitetura do Verbo: Hirondina Joshua e a Consolidação Internacional da Geração pós-80
A trajetória de Joshua é marcada por uma internacionalização estratégica e meritocrática. Com o apoio da Linha de Apoio à Tradução e Edição (LATE) do Camões I.P. e DGLAB, a sua obra Córtex atravessou o Atlântico para ser editada no México, integrando redes bibliográficas fundamentais. Este movimento, acompanhado por prefácios de figuras canónicas como Mia Couto e vozes contemporâneas como Joana Bértholo, posiciona-a como uma ponte entre gerações e geografias. A sua voz tem ressoado em festivais de prestígio global, desde o Correntes d’Escritas em Portugal até ao Edinburgh International Book Festival na Escócia. Mais do que uma escritora, Joshua é hoje uma agente cultural ativa: como jurada no prémio brasileiro Pena de Ouro e curadora na Mbenga Artes & Reflexões, ela exerce uma influência direta na formação de novas vozes lusófonas. A poesia de Hirondina não se esgota no papel. A sua capacidade de criar imagens tão físicas quanto metafísicas permitiu que a sua obra fosse adaptada para a dança contemporânea no Brasil, provando que o seu "verbo" possui uma tridimensionalidade rara. Joshua não é apenas uma referência da Geração pós-80; ela é a arquiteta de um novo tempo na literatura de língua portuguesa.
Presença Internacional de Hirondina Joshua em Festivais e Antologias CPLP
Hirondina Joshua destaca-se pela sua projeção em festivais literários internacionais de referência, consolidando a poesia moçambicana contemporânea nos circuitos da lusofonia e além. Participou na 21.ª edição das Correntes d'Escritas (Póvoa de Varzim, 2020), na XXXVII edição do Festival Internacional de Poesia de Barcelona (2022, única voz em português), no Lisbon Revisited 2022 – Dias de Poesia (Casa Fernando Pessoa, Portugal), no Edinburgh International Book Festival (2023, maior celebração mundial da palavra escrita) e nas Jornadas Luso-Andaluzas de Poesia (2024). Estas presenças refletem o reconhecimento da sua escrita visceral e metapoiética em palcos europeus de prestígio. No contexto da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), Joshua marcou igualmente presença no 8.º Macau Literary Festival – The Script Road (2019), reforçando laços com Macau através da antologia Rio das Pérolas (2020), coordenada por António MR Martins. Estes eventos promovem o diálogo entre gerações e espaços lusófonos, posicionando-a como ponte entre Moçambique e a diáspora poética global.
"O que assusta é a nitidez: a possibilidade da fala em exercício"
Presença Internacional de Hirondina Joshua em Festivais e Antologias CPLP
A autora integra antologias emblemáticas da CPLP que celebram a diversidade da língua portuguesa. Em Português, Lugar de Escrita - Mulheres na Poesia (2021), uma edição da Embaixada de Itália em Lisboa e Casa Fernando Pessoa pelo Dia da Língua Portuguesa, representa as vozes femininas moçambicanas. Integra também Este Imenso Mar - Antologia de Autores Contemporâneos de Língua Portuguesa (2022, Camões I.P.), ao lado de nomes como Ana Mafalda Leite, ampliando a sua influência na rede institucional lusófona. Esta presença em coletâneas e festivais CPLP — complementada por traduções como Córtex para espanhol (México, 2022, com fundo bibliográfico Camões) e adaptações no Brasil (Os Ângulos da Casa em dança moderna) — afirma Hirondina Joshua como figura central da nova geração moçambicana, dialogando com tradições orais chope e experimentalismo global.
"Apesar da palavra gritar, o poema inventa uma outra garganta e esconde a voz".
Rio das Pérolas
Rio das Pérolas é uma antologia de poesia contemporânea em língua portuguesa ligada a Macau, coordenada pelo poeta português António MR Martins e publicada pela editora Ipsis Verbis em 2020. São 24 os autores (Ana Cristina Alves, António Bondoso, António Correia, António Duarte Mil-Homens, António Graça de Abreu, António José Queiroz, António MR Martins (Organizador e coautor), Carlos Morais José, Deusa d'África, Dora Nunes Gago, Fernanda Dias, Fernando Sales Lopes, Francisco Conduto de Pina, Gisela Casimiro, Gisele Wolkoff, Gonçalo Lobo Pinheiro, Henrique Levy, Hirondina Joshua, João Morgado, José Drummond, José Luís Outono, Natalia Borges Polesso, Sara F. Costa e Sellma Luann) que compõem uma obra de memórias e de inspirações fluídas como as águas do Rio das Pérolas. A antologia procura captar, em verso, a relação entre língua portuguesa e Macau: a herança histórica, a transição de soberania em 1999, o crescimento urbano, as pontes, os deuses e mitos locais, bem como o quotidiano contemporâneo. Os poemas oscilam entre o registo memorialista, a observação crítica e o imaginário quase mítico, usando o rio e o delta como metáfora da fluidez do tempo, das identidades e do encontro entre Oriente e Ocidente. O livro conta com prefácio de Ana Paula Dias e ilustrações do artista local Erik Fok, reforçando o diálogo entre texto, memória e imagem na representação poética de Macau.
"Difusão e Diálogo: Hirondina Joshua na RTP/Antena 2"
"A vida está dentro da morte como sabemos, mas de um modo demasiado fracassado."
“quando alguém planta pedra é para que a pedra cresça”