"Tchalé Figueira: vida, pintura e poesia de um criador cabo-verdiano"
nasceu em 1953
"Tchalé Figueira: Onde o Azul e a Luz se Encontram"
Emigrou aos 17 anos por razões políticas, viajando pela Europa, Ásia e Américas, fixando-se em Basileia (Suíça) de 1974 a 1985, onde estudou na Kunstschule Basel e iniciou a sua carreira artística. A sua passagem pela Suíça deu-lhe as ferramentas técnicas e a visão global, mas é em São Vicente que ele encontra a sua matéria-prima: o mar, o vento, a solidão e a resiliência do povo cabo-verdiano. Ele é o artista que leva o Mindelo para as galerias de Paris ou Dakar, sem nunca perder a autenticidade da sua "Ponta D’Praia". Na literatura, publicou Todos os Náufragos do Mundo (1992), O Azul e a Luz (2002), Contos da Basileia (2011), entre outras, explorando exílio, memória e colonialismo — temas que cruzam as suas pinturas vibrantes.
Carlos Alberto Figueira, universalmente conhecido como Tchalé Figueira, é muito mais do que um pintor ou um escritor; é um artista total que personifica o espírito cosmopolita e crítico do Mindelo, a capital cultural de Cabo Verde. A alcunha de "homem das sete artes" deve-se à sua natureza inquieta. Embora seja nas artes plásticas e na literatura que o seu nome mais brilha, Tchalé é um criador que não reconhece fronteiras entre géneros. A sua obra é um diálogo constante onde a pintura tem ritmo poético e a sua escrita é carregada de imagens visuais vibrantes.
"A Escola da Boémia: Influências e Vivências do Jovem Tchalé"
Tchalé cresceu numa cidade marcada pela "morabeza" e pela abertura ao mundo. O Mindelo era o ponto de paragem de navios de todas as bandeiras, o que trouxe influências musicais, literárias e artísticas que não existiam noutras ilhas. A juventude do artista foi vivida entre os cafés, as praças e os encontros de intelectuais e músicos. Esta atmosfera de tertúlia e debate constante foi a sua primeira "universidade", onde aprendeu que a arte e a vida são indissociáveis. Irmão do também conceituado artista Manuel Figueira, Tchalé cresceu num ambiente onde a criação era natural. No entanto, enquanto Manuel seguiu uma linha mais ligada à recuperação das tradições (tecelagem), Tchalé inclinou-se para uma expressão mais urbana, rebelde e cosmopolita.
"A Escola da Boémia: Influências e Vivências do Jovem Tchalé"
Como Dervixes sem equilíbrio Dervixes sem equilíbrio Bailam na miséria do Mundo,
Saturno louco, come seu filho
Num quadro negro de Góia.
Meninas de batom-rouge,
São putas num paraíso kitsch…
As trinta moedas de Judas
Passando de mão em mão
Liberdade enclausurada
A lua está ferida,
Hienas adornadas com flores,
Crianças morrem de fome em África…
Deus padece de Alzheimer livro O Azul e a Luz (2001/2002)
A presença constante da Baía do Porto Grande influenciou a sua estética. O mar para Tchalé não é apenas paisagem, é um símbolo de partida, de isolamento e de ligação ao "estrangeiro", algo que se reflete mais tarde nos seus temas de "naufrágios" e "exílios". Já na juventude, Tchalé demonstrava um espírito inquieto. O ambiente boémio permitiu-lhe observar as disparidades sociais da época colonial, alimentando a veia de crítica social que define a sua obra madura. Esta juventude portuária, entre docas e tradições crioulas, ecoa nas suas pinturas e poemas sobre memória, exílio e identidade, refletindo o "caudaloso" espírito mindelense que o tornou o "homem das sete artes".
Este é um poderoso excerto poético de Tchalê Figueira, carregado de imagens satíricas e críticas sociais que ecoam os temas centrais da sua obra — exílio, desigualdade e decadência humana.
Tchalé Figueira: Onde o Azul e a Luz se Encontram O "Homem das Sete Artes" entre o Mindelo e o Mundo
Carlos Alberto Figueira, universalmente conhecido como Tchalé Figueira, é uma das figuras mais magnéticas e transversais da cultura contemporânea de Cabo Verde. Nascido no Mindelo, em 1953, Tchalê não se deixou limitar pelas fronteiras geográficas da ilha de São Vicente, nem pelas barreiras disciplinares da arte. Pintor, poeta, romancista, músico e percucionista, ele é o "artista total" que utiliza o pincel e a pena para dissecar as contradições da alma humana. A sua identidade foi moldada no ambiente cosmopolita e boémio do Mindelo, onde o mar não era um muro, mas um convite à partida. Aos 17 anos, partiu como marinheiro (c. 1970), mas foi em Basileia, na Suíça, que a sua vocação se cristalizou. Entre 1974 e 1985, frequentou a Kunstschule Basel, onde protagonizou um ato de resistência intelectual: recusou-se a pintar o "exotismo africano" esperado pelos seus mestres europeus. Em vez disso, apropriou-se da técnica ocidental para criticar o próprio Ocidente, fundindo o expressionismo europeu com uma sensibilidade africana urbana e rebelde.
"Recusei-me a ser um artista exótico para consumo europeu."
Tchalé Figueira: Onde o Azul e a Luz se Encontram O "Homem das Sete Artes" entre o Mindelo e o Mundo
A obra de Tchalé é marcada por uma lucidez que não teme o choque. No seu poema "Como Dervixes sem equilíbrio" (do livro O Azul e a Luz), ele escreve que "Deus padece de Alzheimer", uma metáfora poderosa para o desamparo de um mundo onde "crianças morrem de fome em África" e o sagrado é vendido por "trinta moedas de Judas". Esta crueza literária encontra um espelho perfeito nas suas telas, habitadas por figuras distorcidas, cores elétricas (o seu azul identitário) e temas que oscilam entre a sátira social e o lirismo dos naufrágios. Após o regresso a Cabo Verde em 1985, Tchalé estabeleceu o seu Atelier Ponta D’Praia (Mindelo, desde 2014), transformando-o num farol de resistência cultural. Com uma vasta bibliografia que inclui títulos como Solitário, ** Contos da Basileia (2011)** e um currículo de exposições que percorre o mundo — da Bienal de Dakar (Prix Fondation Blachère, 2008) às galerias de Paris e Lisboa — o artista permanece fiel ao seu papel de provocador. Tchalé Figueira prova que a arte cabo-verdiana é muito mais do que saudade; é uma explosão de cores, uma crítica feroz ao presente e, acima de tudo, um lugar onde, apesar das sombras do mundo, o azul do horizonte e a luz da inteligência insistem em se encontrar.
"A Estética do Grito: O Expressionismo e o Reconhecimento Global de Tchalé"
A pintura de Tchalé Figueira não nasce para decorar paredes; nasce para interpelar a consciência. No vasto panorama das artes plásticas contemporâneas, Tchalé afirma-se como um expressionista nato, cuja obra é um diálogo tenso entre a beleza cromática e a crueza da realidade humana. O estilo de Tchalé é inconfundível. Caracteriza-se por uma liberdade formal que rejeita o rigor académico em favor da emoção bruta. As suas telas são habitadas por figuras distorcidas, rostos que parecem máscaras e cenários que oscilam entre o sonho e o pesadelo.
Do ponto de vista técnico, a sua paleta é elétrica e contrastante. O uso de acrílicos vibrantes — amarelos solares, vermelhos viscerais e azuis profundos — serve para iluminar temas que, de outra forma, seriam sombrios. A sua pincelada é rápida e gestual, revelando a urgência de um artista que "não pinta o que vê, mas o que sente sobre o que vê". Tchalé utiliza a cor como uma partitura musical, criando ritmos visuais que guiam o espetador através das suas composições.
"A pintura é uma forma de resistência contra a mediocridade do mundo."
"A Estética do Grito: O Expressionismo e o Reconhecimento Global de Tchalé"
Os temas de Tchalé Figueira são uma crónica da condição humana. No seu atelier no Mindelo, ele observa e traduz o mundo em séries temáticas poderosas: Crítica social ( o artista utiliza a sátira para denunciar a corrupção, o racismo e as heranças do colonialismo); Humano marginalizado (as suas figuras são frequentemente os esquecidos — o bêbado, a prostituta, o marinheiro solitário — elevando o marginal ao estatuto de protagonista artístico); "War is Stupid" (uma das suas séries mais emblemáticas, onde condena a estupidez da violência global, provando que a sua arte, embora enraizada em Cabo Verde, comunica com qualquer parte do globo). O percurso de Tchalé é pontuado por uma projeção que extravasa as fronteiras do arquipélago. O reconhecimento máximo da sua carreira nas artes plásticas aconteceu em 2008, quando foi distinguido na Bienal de Dakar (Dak’Art), no Senegal.
Ao receber o Prix Fondation Blachère, Tchalé consolidou o seu estatuto como uma das vozes mais relevantes da arte contemporânea africana. Este prémio não foi apenas um reconhecimento individual, mas a validação de uma estética que recusa o "exotismo fácil" e aposta na autenticidade intelectual. Com exposições em cidades como Lisboa, Paris, Basileia e Washington, o nome de Tchalé Figueira figura hoje em importantes coleções públicas e privadas, reafirmando que a sua "lanterna nas trevas" continua a brilhar com intensidade global.
"Cabo Verde é uma nau de pedra que flutua num mar de incertezas."
"War is Stupid" ("A guerra é estúpida") é uma das séries de pintura mais impactantes e politicamente carregadas de Tchalé Figueira, que serve como um manifesto humanista contra a violência e as atrocidades cometidas em diversas épocas da história.
War is Stupid Série de pinturas de crítica à violência
War is Stupid é uma série de pinturas de Tchalé Figueira em que o artista radicaliza a sua crítica à violência, às guerras contemporâneas e às formas de opressão herdadas do colonialismo e do fascismo. O título explicita uma tomada de posição ética: a guerra é apresentada como estupidez humana repetida, uma derrota moral e civilizacional, mais do que um “mal inevitável”.
Breve História Colonial e Outras Memórias (2023-2024)
Breve História Colonial e Outras Memórias (2023-2024) é uma exposição individual de pinturas de Tchalé Figueira, apresentada no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa, de 24 de novembro de 2023 a 12 de janeiro de 2024, que reúne 18 telas de grande formato para denunciar os horrores do colonialismo em África e as suas heranças contemporâneas.A mostra foca os "carrascos dos africanos" — figuras grotescas como Salazar, soldados da guerra colonial portuguesa, Leopoldo II do Congo (responsável por milhões de mortes), nazistas e o Ku Klux Klan —, retratados com traços expressionistas vorazes, dentes de tubarão e expressões de ódio sádico. Figueira desafia a amnésia histórica, ligando o genocídio colonial (Conferência de Berlim, 1884-1885; mutilações no Congo; escravatura e violações nas colónias portuguesas) a tragédias atuais, como naufrágios de migrantes no Mediterrâneo, que perpetuam a desumanização dos africanos.
Retratos do meu Imaginário" (2020)
"Retratos do meu Imaginário" (2020) é uma exposição do prestigiado artista plástico e escritor cabo-verdiano Tchalé Figueira.
A Nação – Jornal Independente -
A Nação – Jornal Independente -
+1
Inaugurada em outubro de 2020 na Livraria Nhô Eugénio, na Praia (Cabo Verde), a mostra apresentou 11 quadros inéditos que marcaram o regresso do artista após o período de confinamento devido à pandemia de COVID-19.As telas retratam o "arco da velha" insular — prostitutas, bêbados, mendigos, músicos carnavalescos —, expressos em traço sintético e expressionista que revela "rugas interiores" e máscaras do coração humano. Figueira descreve-os como "rostos saídos do mundo meu, do meu interior", nada realistas mas carregados de vaidade, medo, vergonha e desejo, questionando o papel do espectador perante o "Outro menor" excluído pelo sistema.
Algumas obras de Tchalé Figueira
Versos de Tinta e Sal: A Cartografia Poética de Tchalé Figueira
Carlos Alberto Figueira, artisticamente conhecido como Tchalé Figueira, afirma-se na literatura cabo-verdiana contemporânea como um poeta de imagens violentas e denúncia social. A sua escrita cruza a experiência do exílio mindelense com uma estética expressionista que dialoga permanentemente com as suas telas. Obras como Todos os Naufrágios do Mundo (1992) e O Azul e a Luz (2002) representam marcos fundamentais da sua produção lírica, refletindo a evolução de um lamento pessoal para uma sátira global. O Lamento Marítimo: Todos os Naufrágios do Mundo (1992)
A sua estreia poética surge como uma catarse do trauma migratório após o seu regresso de Basileia em 1985. O título evoca a diáspora crioula através de poemas curtos e fragmentados que mimetizam o improviso do Jazz, rompendo com a métrica tradicional da morna literária. Nestes versos, Tchalé descreve marinheiros perdidos, portos fantasmas e saudades líquidas do Porto Grande. Aqui, o mar não é romantizado; é um espaço de destruição identitária — uma metáfora da emigração forçada aos 17 anos e de uma Cabo Verde pós-colonial ainda à procura de ancoradouro.
«O mundo é um matadouro e eu pinto o matadouro.»
"Onde a Melancolia se torna Matéria: A Transição Estética de 1998"
Publicado seis anos após a sua estreia, Onde os Sentimentos se Encontram (1998) representa a transição definitiva de Tchalé Figueira da melancolia marítima para a crueza expressionista. Se em 1992 o poeta ainda chorava os "naufrágios" da alma e da diáspora, em 1998 ele começa a dissecar os sentimentos como se fossem matéria orgânica. Apesar do título sugerir um lirismo romântico, a obra é um exercício de desengano. Os "sentimentos" que aqui se cruzam não são de harmonia, mas de confronto. É neste livro que Tchalé consolida a sua voz como um observador cínico da "comédia humana". O Mindelo deixa de ser apenas o Porto Grande da saudade para se tornar um palco de figuras grotescas, antecipando a fauna urbana (as prostitutas, os bêbados, os marginais) que povoará as suas telas e livros seguintes.
Este livro coincide com um período de intensa produção no seu Atelier Ponta D’Praia. A escrita de 1998 é, talvez, a que mais se assemelha aos seus esboços a carvão: rápida, nervosa e carregada de contrastes. Tchalé utiliza a palavra para "esboçar" as sombras que a cor, por vezes, ainda não conseguia captar totalmente.
"Um povo que vende o seu chão, vende a sua sombra e o seu destino."
Versos de Tinta e Sal: A Cartografia Poética de Tchalé Figueira
A Lucidez Impiedosa: O Azul e a Luz (2002) Esta obra marca a maturidade do "homem das sete artes", coincidindo com o seu apogeu plástico. A sátira social domina a narrativa, e o célebre poema "Como Dervixes sem equilíbrio" exemplifica a sua iconografia apocalíptica: "Deus padece de Alzheimer", hienas adornadas com flores e crianças famintas em África. O "Azul" (cor assinatura das suas telas) simboliza uma esperança ferida, enquanto a "Luz" não é o brilho tropical bucólico, mas uma claridade inquisitorial e expressionista que expõe as feridas da miséria global e as hipocrisias ocidentais. O diálogo entre ambas as obras traça uma trajetória clara: de Naufrágios (intimista e elegíaco) a Azul (cosmopolita e combativo), Tchalé rejeita a "saudade" melancólica em favor de uma crioulidade rebelde. A sua "poesia expressionista verbal" funciona como uma extensão das suas pinturas; onde o pincel atinge o limite da figuração, a palavra intervém para nomear o inominável. No seu Atelier Ponta D’Praia, Tchalé eleva o marginal ao estatuto de voz universal, unindo o Mindelo ao mundo num protesto vibrante contra o esquecimento histórico.
«A minha obra é universal. Mas vivo num bairro chamado Cabo Verde.»
"O Eterno Retorno: A Viagem como Balanço Existencial (2012)"
(...) IX
Nas vagas da vida avistei Europa, cansado do mar
purguei o sal, pelas estradas caminhei, em Helvécia
cheguei…
Desenhando pássaros, nuvens, e mulheres, amizade,
filhos, arte, amor pela arte, na arte da vida, poesia
sublime naveguei nos dias…
Regressei às ilhas, após 15 longos anos, escutei o
Cântico da Manhã Futura!...
Hoje, sou peregrino, nos trilhos do mundo, em queda e
ascensão, a vida corre, em alegrias e tristeza, sigo o
caminho, como poeta, vivendo, novos mundos
criando, com as musas do meu destino, abraço a luz,
meus anos formosos, Monte Verde sagrado, sua
neblina mística, de suave frescura…
Narinas amplas, oxigénio no cérebro,
horizontes e utopias, a imensidão do mar, 15
quilómetros por 24 São Vicente voga, suspensa no ar,
ela flutua, flores brotando, serenas jornadas, doce
memória, a vida é bela, amo-vos mulheres, oh musas
divinas, candeia altiva, lua celeste, alvorada em parto
razão de viver…
Adio a morte, para um outro dia
“E tudo regressa, ao ponto de partida!...” VI Roterdão meu templo, rezo as divinas, bicicletas
voando, meu falo sulca, regressei a Ítaca, de rosto
bronzeado, labareda ardendo, I'am a sex machine;
exótico sexual, europa mulher, minha concubina; sou
bailarino leve, pétala no vento, furacão coreógrafo,
bailo James Brown… mans mans World… minha
tragédia; sou emigrante!... Visto de estadia, aborta aos três meses, barco ou
fronteira, eis a escolha, comboios de gado, Lisboa
alerta, Salazar esqualo, capanga mor, Tarrafal demente,
coleccionando cérebros, misantropia perversa,
esquadrões da morte, optei de novo, o caminho do
mar… (...)
A Viagem (27 páginas, autopublicado no Mindelo) retoma a odisseia migratória de Tchalê Figueira, fechando o ciclo iniciado em Todos os Naufrágios do Mundo (1992). O poeta evoca Roterdão — primeira escala do exílio aos 17 anos — como "templo" onde "bicicletas voam" e imagens sexuais ("meu falo sulca") simbolizam o regresso cíclico: "E tudo regressa ao ponto de partida".
Explora emigração clandestina, ilhas "sem destino" e vida insular quotidiana, num tom reflexivo que contrasta com a sátira violenta anterior. Marca a maturação do exilado regressado ao Atelier Ponta D’Praia, unindo diáspora pessoal à poética crioula universal.
"A Estética do Fragmento: O Relâmpago Poético em 'Curtos, 7 Contos' (2018)"
Publicada em 2018, a obra Curtos, 7 Contos representa um momento de viragem formal na trajetória literária de Tchalé Figueira. O título apresenta um jogo de espelhos: embora anuncie "contos", o que o leitor encontra é um exercício de microficção poética ou poesia narrativa, onde a brevidade é elevada ao estatuto de arma estética. Neste livro, Tchalé abandona as grandes descrições para se focar no essencial. Cada texto funciona como um esboço rápido no seu caderno de desenho — uma linha nervosa que captura um estado de alma ou uma cena de rua no Mindelo antes que esta se desvaneça. A economia de palavras não retira força à mensagem; pelo contrário, cada frase atua como um "relâmpago" que ilumina, por breves instantes, as sombras da condição humana. Se as obras anteriores de Tchalé podiam ser comparadas a grandes telas a óleo, Curtos, 7 Contos assemelha-se a uma série de gravuras ou ilustrações a tinta da china. A técnica é seca, o contraste entre a luz e a sombra é absoluto, e não há espaço para adornos. É o Tchalé mais sintético, capaz de dissecar uma vida inteira num único parágrafo, provando que a sua "lanterna nas trevas" se tornou, com os anos, um feixe de luz laser: preciso, térmico e focado.
"Tempe Runhe: A Poética da Resistência no Olho do Furacão (2022)"
Lançada no Mindelo em 2022, a obra Tempe Runhe é um dos testemunhos literários mais recentes de Tchalé Figueira. O título, em crioulo, estabelece imediatamente uma ligação visceral com as raízes do autor e com o sentimento de inquietação que atravessa a sociedade cabo-verdiana e o mundo atual. Escrito e publicado num período marcado por crises globais — desde a pandemia de COVID-19 às tensões geopolíticas e económicas —, Tempe Runhe funciona como um diário de bordo de uma tempestade. Tchalé utiliza a poesia para dar nome ao "tempo ruim" que não é apenas climático, mas moral, social e político.
«Cabo Verde é um deserto cultural, cada artista luta sozinho.»
As coisas tristes deste mundo Observo angustiado um pássaro Morto no asfalto da cidade É real o seu cheiro putrefato Triste regressei a casa A mil quilômetros daqui num desvario Vejo na televisão mísseis a matar crianças A cruel visão da notícia na televisão Não transmite o cheiro dos mortos Talvez por isso a indiferença dos homens?
Este poema de Tchalé Figueira funciona como um manifesto estético que sustenta toda a sua produção literária. Nele, o autor estabelece um contraste brutal entre a realidade visceral (o pássaro morto e o seu cheiro) e a realidade mediada (a guerra na televisão), revelando a sua maior angústia: a indiferença humana.
As varizes nas colunas das pernas
As varizes nas colunas das minhas pernas
Colunas calcinadas pelo incontrolável tempo
A necrófila hiena, o carnívoro leão,
Morte pelo entupimento das artérias coronárias
O coração é um músculo que bomba sangue; a grande
Maravilha do mundo. O cérebro laguna de átomos,
Genocídio alimento para chacais – Monte de cadáveres
Percorrem a inutilidade dos meus poemas
Sinto as minhas unhas conspurcadas pela terra
Dos coveiros – Saco de podridão lenta,
Soldado morto no ventre putrefacto
De um alazão com ligaduras embebidas em sangue
Carpindo nos olhos de uma gazela inocente,
Meia-noite navega na barca que atravessa o sub-mundo,
Canhões estilhaçando crianças em inocência
O planeta é obsceno, e uma mulher vítima
De sodomia de um batalhão de trogloditas,
Fermenta num laboratório de amarguras
Cérebros em obediência divina
Tirania de abutres encharcados em sangue
Banqueteando a minha poesia em flor
A crítica social explode na segunda parte: violência bélica ("canhões estilhaçando crianças"), violação coletiva ("mulher vítima de sodomia de um batalhão de trogloditas"), culminando no desespero metafísico — planeta "obsceno", cérebros em "obediência divina", abutres banqueteando a "poesia em flor".
Começa com a decadência física — varizes como "colunas calcinadas pelo incontrolável tempo", coração reduzido a "músculo que bomba sangue" —, evoluindo para um cenário necrófago: hienas, leões, chacais devorando cadáveres, unhas "conspurcadas pela terra dos coveiros".
"Na terra dos mortos" — Poema de Tchalê Figueira Na algazarra
Dança Belzebu com
Colares de crânios
Tambores e chocalhos
Nas margens de um rio de
Sangue das guerras;
Soldados mercenários
Coleccionam cadáveres
Mães alucinadas
Ao lado de crianças
Assassinadas
Arrancam seus cabelos
E em tenebrosos palácios
Lordes das guerras
Com sorrisos Colgate
Em banquetes perversos
Bebem champanhe
Com sabor a crueldade.
Num cenário apocalíptico, Tchalé Figueira pinta Belzebu dançando entre crânios e tambores de sangue, enquanto mercenários coleccionam cadáveres e mães alucinadas choram crianças assassinadas. Nos tenebrosos palácios, lordes da guerra brindam com champanhe "sabor a crueldade", sorrisos Colgate contrastando com a carnificina.
O poema denuncia a obscenidade bélica global num turbilhão de imagens necrófagas — ecoando as suas séries War is Stupid —, onde o luxo sádico dos poderosos consome a humanidade destroçada.
"Do lado frio da trincheira" é um poema em que Tchalê Figueira transforma a guerra e a violência contemporânea numa visão apocalíptica do mundo, usando imagens brutais e quase cinematográficas. O eu poético fala a partir da “trincheira”, lugar de frio e morte, convidando irónica e amargamente a “glorificar” cadáveres, crianças deformadas, campos contaminados e corpos mutilados, como se estivesse a expor a hipocrisia dos discursos heroicos sobre a guerra.
Do lado frio da trincheira
Do lado frio da trincheira contempla a tua obra!
Canta!… Glorifica os teus mortos embrulhados em pús,
Mostra a tua fria cama – cérebros ensopados em silêncio
Átomos em torrentes radioactivas
Crianças deformadas, rostos tingidos em urânio,
Cabeças rapadas num hospital de angústias
Ofídias com unhas de fogo
Gladiadores num alfabeto de mortos…
Bailando no topo da sagrada montanha, um homem
Vomita balas, traja uma capa de vermes – Deus indiferente,
observa a Sua obra-prima – Monos tísicos borrifando sangue,
artérias podres do mundo
África é um tambor encharcado de vírus
Coreografia abominável… tratado de Berlim.
Zebras agonizam nas savanas.
Somos a mesquinha deformação no Universo,
A grande obra do Criador.
O poema constrói um cenário de devastação física e moral: corpos em pus, cérebros ensopados em silêncio, átomos radioativos, rostos tingidos em urânio e zebras agonizantes nas savanas mostram um planeta envenenado pela tecnologia bélica e pelo legado colonial. Deus aparece como figura distante e indiferente, contemplando esta “obra-prima” de destruição, o que reforça o tom de blasfémia crítica e de revolta contra qualquer tentativa de justificar o horror. No fim, o sujeito reconhece-se como “mesquinha deformação no Universo” e, ao mesmo tempo, como parte dessa “grande obra do Criador”, condensando a contradição entre a pequenez humana e a responsabilidade colossal pelo estado obsceno do mundo.
Fascismo No lado sórdido da
estrada
abundam monstros,
bichos ferozes,
uivo de alcateias
corações murchos
de medonha barbárie.
Botas de aço pisando rosas
cárceres de inimagináveis
torturas,
linguagem de azêmolas falantes.
Falanges de braços estendidos e
a suástica medonha no vento
abanando,
monstros esmagando
flores.
Nas minhas epístolas,
entre papoilas e trevas
escolho sempre o ardor
da beleza.
Tchalé Figueira pinta o horror fascista num turbilhão de imagens bárbaras: monstros na estrada, alcateias uivando, botas de aço a esmagar rosas, suásticas ao vento e cárceres de torturas. Contra a "medonha barbárie" e "linguagem de azêmolas", o poeta resiste com epístolas de "papoilas e trevas", escolhendo sempre "o ardor da beleza" perante a destruição das flores humanas.
1 de junho em Gaza Na noite e dias de pesadelos
Na guerra estúpida dos homens
Feia é a algazarra dos criminosos
Carregam crânios como troféus
Com tambores e chocalhos
Vão percutindo maldades
Flores da inocência esmagadas
Pisadas por botas lamacentas
Sujas de sangue na terra derramada
Crianças assassinadas
Mães alucinadas pela dor
Arrancam seus cabelos
A máquina estúpida da guerra
Expele gangrena no mundo
Algures os de gravatas comem caviar
Tchalé Figueira denuncia o massacre infantil em Gaza com imagens apocalípticas: criminosos percutindo "maldades" sobre crânios, botas lamacentas esmagando "flores da inocência", mães alucinadas perante crianças assassinadas. A "máquina estúpida da guerra" expele gangrena global, enquanto senhores de gravata devoram caviar — sátira feroz ao luxo sádico dos belicistas.
Meu País Surreal de Tchalé Figueira é um poema corrosivo que pinta Cabo Verde como um circo político distópico, onde a corrupção e a vaidade das elites devoram a esperança popular sob um manto de surrealismo expressionista.
Este texto denuncia um parlamento necrófilo — "corvos falantes", "advogados do diabo", "hienas huivam" —, transformando deputados em abutres plutocratas e sapos coaxantes de gravata, legislando "leis de latrina" num "rebanho insciente" lobotomizado. A imagem do "povo pasmado, catatônico" capta a alienação coletiva perante tribunos embusteiros e pavões vaidosos, ecoando a sátira política de Txon Vendido, onde elites vendem soberania por flatulência retórica. O "vento nordeste perpétuo" simboliza a aridez crónica das ilhas — seca literal e metafórica —, agravada pelo êxodo juvenil sem futuro, que cita o "poeta do mar" (provável alusão a Corsino Fortes ou Sterling Radino): "ter que ir mas querer ficar". Ulisses I, "majestoso de CV", surge como Mandrake prestidigitador num "arquipélago de fantásticas lorotas", ironizando líderes que iludem com promessas vazias num circo trágico.
MEU PAÍS SURREAL
Corvos falantes
Advogados do diabo
Leis corrompidas
Bando de necrófilos
Negras togas de vaidades
Abutres plutocratas
Libertando flatulência
Suas leis de latrina
Pavões legisladores
Tribunos embusteiros
Rebanho insciente
Aguardando prodígios
Povo pasmado, lobotomia
Cabo Vede catatônico
Hienas huivam no parlamento
Neste vento nordeste perpétuo
Sapos com gravatas coaxam falácias
E a juventude sem futuro num êxodo
E como escreveu o poeta do mar
" ter que ir mas querer ficar"
E, Ulisses I, majestoso de CV é
Um Mandrake prestigiditador neste
Circo, arquipélago de fantásticas
Lorotas.
Poema anti-guerra Soldado!... O som sucumbiu na tua
Traqueia – o dia morreu estilhaçado
Na escuridão do teu peito
A tua arma destrói o mundo
A tua casa é ausente de luz
tuas garras de carnívoro mundano dilacerando vidas…
Casa fúnebre – Bombas e engenhos
Urânio esturricando na cabeça calva de
Anjos…
A eterna pantomímica da guerra
Em câmaras frias jazem
Heróis de medalhas no peito…
Sem luz a besta uiva
Bebe-se terebintina
No abismo da demência
Este poema de Tchalé Figueira é uma descida ao abismo da desumanidade, onde a guerra não é glorificada, mas sim exposta como uma "eterna pantomímica" de horror. Com a crueza de quem maneja tanto o pincel como a palavra, o autor transforma o cenário bélico numa natureza-morta de carne e metal, onde o brilho das medalhas é ofuscado pela "escuridão do peito" e pelo silêncio da morte.A força da obra reside no contraste entre o sagrado e o profano: a imagem do urânio a queimar a cabeça de anjos é um grito de revolta contra a tecnologia usada para o extermínio. No final, o que resta é a demência; um mundo sem luz onde a "besta" sobrevive a beber terebintina — um solvente que, em vez de limpar a tela, corrói a alma de quem a contempla. É, acima de tudo, um manifesto visual sobre a estupidez do heroísmo face à realidade fria da morgue.
Há lagos nas Lágrimas
Há lagos nas lágrimas
Sorrisos no amor
Relógio de cristal
Seus perpétuos
Ponteiros
Bate o coração!...
De sangue este rio
Ziguezagueando
Nas veias do tempo
Estrada de luz
Navalha afiada
Oboé respirando
Beijo sentido
O aspar de um verbo
Nas palmas das
Minhas mãos
De luz e treva
Duas esferas
Girando a cada
Instante.
Este poema de Tchalé Figueira é uma composição delicada sobre a transitoriedade e a dualidade da existência. Se no poema anterior tínhamos a crueza do urânio e da morte, aqui encontramos a fluidez da vida: o sangue que corre como um rio "ziguezagueando nas veias do tempo" e as lágrimas que, pela sua profundidade, se transformam em lagos de introspeção. O autor utiliza símbolos de uma precisão cirúrgica — como o relógio de cristal e a navalha afiada — para nos recordar que a beleza e a dor caminham lado a lado. A imagem final das "duas esferas" de luz e treva girando nas palmas das mãos é uma metáfora poderosa para a condição humana: somos os guardiões do nosso próprio equilíbrio entre o que brilha e o que se esconde. É um texto que não se lê apenas; sente-se como o pulsar de um coração que marca o ritmo de um universo interior vasto e em constante rotação.
"Escrevo como quem pinta: com cores fortes e sem medo de borrar a realidade."
HUMANO
Líquido e sólido
Homem e mulher
Casamento de átomos
Biliões de células
Tem o seu cérebro
Tanto quanto estrelas
No Universo
Que estranho animal
Construtor do bem e do mal
Primata que cria e destrói
Inventor de divindades
Deus seu enigmático labirinto
De perguntas sem resposta
Feroz assassino Irracional
Mata e morre cegamente
Pela pátria bandeira e fronteira
Sua efémera existência um relâmpago
Pálpebras quebradas num caixão
Morreu!
HUMANO, este poema de Tchalé Figueira, destila uma visão expressionista e trágica da condição humana, celebrando o potencial cósmico do primata criador ao mesmo tempo que o condena como inventor de crueldades efémeras.O ser humano emerge como paradoxo material — "Líquido e sólido / Homem e mulher / Casamento de átomos" —, uma sinfonia de "biliões de células" cerebrais equiparável às estrelas do Universo, exaltando a complexidade biológica e criativa. Contudo, Figueira subverte o milagre em grotesco: "Que estranho animal / Construtor do bem e do mal", primata que forja divindades num "enigmático labirinto / De perguntas sem resposta", revelando o enigmático vazio existencialista que atravessa a sua obra plástica e literária.
A denúncia intensifica-se no "Feroz assassino Irracional" que "mata e morre cegamente / Pela pátria bandeira e fronteira", ecoando séries como War is Stupid (2015) e Breve História Colonial (2023), onde a estupidez bélica e nacionalista devora nações. O fecho niilista — "Sua efémera existência um relâmpago / Pálpebras quebradas num caixão / Morreu!" — sela a mortalidade como ruptura abrupta, sem redenção, alinhando-se à "epopeia trágica das ilhas" de Solitário e à sátira de Txon Vendido.
Entre Tela e Página: A Obra Total de Tchalé Figueira
Em Tchalê Figueira, a escrita e a pintura dialogam como expressões inseparáveis de uma mesma visão criativa, nascida do subconsciente, das memórias pessoais e de uma crítica aguda à sociedade. Ambas as artes emergem sem hierarquia — pincel ou caneta fluem espontaneamente da vida quotidiana em Mindelo, das viagens pela Europa e África, e de influências partilhadas como Ensor, Bacon ou a literatura africana —, formando uma obra total que ele próprio chama de "never ending book". Os temas cruzam-se em denúncia feroz: as telas captam o grotesco visível da corrupção, colonialismo e violência, em séries como "Ditadores" ou "Guerra", enquanto os livros, de Solitário a Txon Vendido, aprofundam o invisível — exílio, desertificação, diáspora cabo‑verdiana — com ironia distópica e personagens errantes que ecoam as figuras burlescas das pinturas.
Figueira vê a arte como "lanterna nas trevas", interventiva e sem concessões, que expõe o "matadouro" humano para despertar reflexão e esperança. Pintura e escrita complementam-se assim: a primeira choca pelo imediato, a segunda expande em narrativas poéticas e fantasmagóricas, desafiando censura e unindo o real ao onírico numa mitologia pessoal profundamente humanista.
"Lanterna nas Trevas: A Estética da Indignação na Prosa de Tchalé Figueira"
A prosa e a ficção de Tchalé Figueira, autor cabo-verdiano nascido no Mindelo em 1953, representam uma voz singular na literatura lusófona africana, marcada pela fusão de realismo social, sátira política e elementos autobiográficos derivados da sua experiência como emigrante, pintor expressionista e ativista cultural. Com mais de duas décadas de produção ficcional, Figueira constrói narrativas que partem da "epopeia trágica das ilhas" — conceito que atravessa obras como Solitário (2005) e Txon Vendido (2021) —, denunciando a seca histórica, a fome, a emigração forçada e a corrupção neocolonial. A sua prosa equilibra a dureza dos diálogos crioulos com uma singeleza poética, recriando a oralidade insular e transformando a miséria em revolta épica, muitas vezes através de um humor negro que expõe elites políticas e potências internacionais.Em Solitário, Figueira inaugura o seu ciclo ficcional com uma novela que dramatiza o êxodo massivo da população perante as "sepulturas de areias do deserto", alegoria à devastação climática e à percepção de Cabo Verde como território sacrificável. Esta obra funda o olhar social do autor, centrado na diáspora e na identidade dos "vencidos", e dialoga com a sua própria trajectória de emigrante para a Suíça, reflectida em Contos de Basileia (2010/2011), colecção de relatos autobiográficos que misturam erotismo existencialista, solidão urbana e o choque cultural do alter ego crioulo na Europa. Outras peças como Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-navegação (2005) e A Índia que Procuramos (2013/2014) exploram buscas identitárias e ficção histórica fantástica, enquanto Moro Nesta Ilha Há Mais de Cinquenta Anos & Outros Contos (2016) e Curtos - 7 Contos (2017/2018) incorporam o fantástico e o intelectual para criticar o desalento insular.
"Lanterna nas Trevas: A Estética da Indignação na Prosa de Tchalé Figueira"
O ponto alto da sátira surge em Txon Vendido, thriller político distópico onde um presidente corrupto vende o arquipélago deserto à UE (com aval dos EUA) para depósito de lixo nuclear, plano desmantelado por guerrilheiros locais e uma activista japonesa. Aqui, o absurdo grotesco — evacuar a população para o Paraguai — serve para fustigar mecanismos reais de governação transnacional, machismo e "lixo dos governos", regenerando as "ilhas verdes" pela resistência popular. Esta ficção madura, apresentada em Mindelo e na Praia em 2021, exemplifica a versatilidade de Figueira aos 70 anos, unindo denúncia pós-colonial à poética visual da sua pintura, e posiciona-o como cronista da condição crioula no mundo globalizado.
No conjunto da obra, a prosa de Figueira enriquece a literatura cabo-verdiana contemporânea ao deslocar a epopeia heroica para os "crioulos cidadãos do mundo", abordando temas como colonialismo ambiental, exílio sentimental e revolução cultural contida. Obras recentes como O Exílio Sentimental de Marcus Blum reforçam esta trajetória, confirmando o autor como ponte entre tradição oral mindelense e crítica global, ideal para análises educativas sobre ficção distópica e realismo social lusófono.
«O sofrimento é humano.»
"Solitário: A Epopeia do Êxodo e a Escrita Visual de Tchalé Figueira"
O livro referido é a novela "Solitário" de Tchalé Figueira, publicada originalmente em 2005 pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro de Cabo Verde.A novela "Solitário" (2005) funciona como um alerta social e ambiental. A história centra-se no êxodo trágico da população das ilhas de Cabo Verde, que se vê forçada a fugir devido ao avanço implacável das areias do deserto, que ameaçam transformar o arquipélago numa "sepultura de areia". A obra é considerada o ponto de partida para uma reflexão mais ampla que o autor continuou em "Txon Vendido" (Chão Vendido). Nesta "sequela espiritual", o cenário de desertificação é levado ao extremo: o país é vendido por um presidente corrupto para se tornar um depósito de lixo nuclear, e a população é evacuada para terras no Paraguai. O livro reflete a faceta interventiva do autor. Tal como na sua pintura, Tchalé utiliza a escrita para denunciar a corrupção política, a decadência social e a passividade perante a destruição ambiental. A faceta interventiva de Tchalé Figueira revela-se tanto na sua pintura como na escrita, onde denuncia com veemência a corrupção política, a decadência social e a passividade face à destruição ambiental, usando a ficção como arma de crítica e alerta para os perigos reais que ameaçam Cabo Verde.
"Tchalé Figueira: Entre o Êxodo de Solitário e a Odisseia de Ptolomeu"
Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-navegação é uma novela de Tchalê Figueira, publicada em 2005 pela Mar da Palavra, Edições, na coleção Margens Lusófonas, com prefácio de Germano Almeida.
A obra celebra a epopeia secular do povo cabo‑verdiano, marcado pelo mar como destino inevitável de evasão, aventura e emigração, face às limitações impostas pela Natureza árida do arquipélago. O protagonista, Ptolomeu Rodrigues, nasce na ilha de S. Pedro — ecoando a origem do autor em S. Vicente — e foge da sua terra natal para uma odisseia global pelos portos da emigração cabo‑verdiana.
Ao longo da narrativa, encadeiam‑se histórias de desvarios sexuais, encontros improváveis com figuras históricas como Amílcar Cabral e Pedro Pires — obreiros da independência de Cabo Verde —, e vivências com candongueiros, revolucionárias do IRA e do País Basco, em terras da Holanda, Alemanha, Irlanda ou Rússia. Ptolomeu evoca o aventureiro Corto Maltese, guiando o leitor num registo dinâmico e atento, quase em "flash rewind", que mistura real e ficção numa circum‑navegação simbólica da diáspora. Esta novela curta (87 páginas) insere‑se na veia interventiva de Tchalê Figueira, exaltando a resiliência migratória cabo‑verdiana como epopeia moderna, em contraste com os alertas ambientais e políticos de obras como Solitário (2005).
"Contos de Basileia: A Odisseia Suíça e a Formação da Identidade Artística"
Contos de Basileia (2010 ou 2011) é um livro de contos de Tchalê Figueira, editado pela editora Dada em Cabo Verde. O título remete diretamente à experiência pessoal do autor em Basileia (Basel), na Suíça, onde viveu e trabalhou entre 1974 e 1985, estudando arte na Kunstgewerbeschule. Estes contos capturam memórias da diáspora cabo‑verdiana na Europa, misturando o quotidiano de imigrantes com vivências urbanas, desencontros culturais e a nostalgia das ilhas. Fazendo parte da sua extensa produção literária — que inclui poesia desde os anos 90 e ficção a partir de 2005 —, esta obra explora a condição do emigrante africano num contexto europeu, com a ironia e o realismo cru característicos de Figueira, que denuncia desigualdades sociais e celebra a resiliência do povo cabo‑verdiano. Integra-se na veia cosmopolita do autor, contrastando com narrativas mais ancoradas em Cabo Verde como Solitário ou Ptolomeu, mas partilhando o tom interventivo que atravessa toda a sua obra multifacetada (escrita, pintura).
«Que se lixem os governos e os ministérios.»
"A Metáfora da Viagem:Utopia e Realidade em A Índia que Procuramos"
A Índia que Procuramos (2013) é uma novela de Tchalê Figueira, publicada no âmbito da sua produção literária cosmopolita que explora a diáspora e as buscas identitárias. Esta obra é uma das mais fascinantes de Tchalé Figueira porque, apesar do título sugerir uma viagem geográfica, é na verdade uma viagem interior e filosófica. A narrativa evoca o tema clássico das "Índias" como metáfora de aspiração e desilusão — um eldorado procurado por navegadores e emigrantes —, centrando-se nas experiências de cabo‑verdianos em movimento pelo mundo, entre o sonho de prosperidade e a realidade de desenraizamento cultural. O título sugere uma procura simbólica por raízes ou utopias perdidas, num registo que mistura realismo migratório com elementos oníricos, típico do autor.
Esta obra de 2013 segue Contos de Basileia (2010/2011) e antecede outras publicações como A Viagem (2013), reforçando a veia ficcional de Figueira, que usa a escrita para mapear rotas atlânticas da diáspora cabo‑verdiana, entre São Vicente, Europa e horizontes longínquos. Integra-se na sua crítica subtil às desigualdades globais, complementando os alertas ambientais de Solitário (2005).
«A arte é uma lanterna nas trevas.»
"A Utopia da Montanha: A Esperança de um Novo Mundo em O Exílio Sentimental de Marcus Blum"
O Exílio Sentimental de Marcus Blum (2016) é um romance curto de Tchalê Figueira, apresentado no Centro Nacional de Artesanato e Design (CNAD) em Mindelo, com prefácio de Germano Almeida e edição da Rosa de Porcelana, marcando os 10 anos da editora.
A narrativa segue Marcus Blum, um "cidadão do mundo" cabo‑verdiano moderno, num exílio que mistura itinerância global, utopia e esperança num novo mundo. Exilado numa ilha — que acaba por se revelar o seu lugar preferido —, o protagonista vive uma prosa poética e fantasmagórica, inventada pelo autor, longe dos cânones tradicionais da prosa crioula cabo‑verdiana.
A obra inaugura um novo estilo no autor, exigindo leitura atenta e culto, com intertextualidades e diálogos com outros autores, refletindo as suas viagens e leituras vastas. Contrasta com obras anteriores como Contos de Basileia ou A Índia que Procuramos, focando o desenraizamento sentimental e a visão poética universal, enquadrando-se na evolução literária de Figueira rumo a narrativas mais complexas e cosmopolitas.
«O artista deve mexer onde dói mais.»
"O Olhar de Quem Fica: Tempo e Insularidade em Moro nesta ilha há mais de cinquenta anos"
Este livro é uma das várias obras que Tchalé Figueira publicou em 2016, que também incluiu os títulos Solitude Blues e Uma Pequena Odisseia Mindelense. A obra insere-se na sua vasta bibliografia, onde o autor explora temas da condição humana, da emigração e da vida nas ilhas de Cabo Verde, muitas vezes com uma abordagem crítica e visual que reflete a sua carreira na pintura. O título dá conta da experiência vivida numa ilha — provavelmente São Vicente, berço do autor —, onde o confinamento insular, as memórias pessoais e as tensões sociais se entrelaçam em narrativas curtas que misturam realismo cru com ironia crítica. Os contos exploram temas como a longevidade no mesmo lugar, a diáspora implícita, as relações humanas num contexto insular limitado e a denúncia subtil de injustiças sociais, ecoando a veia interventiva vista em Solitário ou Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-navegação. O título — "Moro nesta ilha há mais de cinquenta anos" — não é apenas uma contagem de tempo; é uma declaração de autoridade. O autor coloca-se na posição de quem viu as transformações sociais, políticas e urbanas de Cabo Verde (especialmente de Mindelo) e agora as relata com uma mistura de nostalgia e ironia.
"Soberania sob Entulho: A Crítica Geopolítica em Txon Vendido"
Txon Vendido (2021) é um romance de Tchalê Figueira, editado pela Livraria Pedro Cardoso, com 132 páginas, que retoma a epopeia trágica das ilhas cabo‑verdianas iniciada em Solitário (2005).
Em "Txon Vendido" (Chão Vendido), Tchalé Figueira apresenta uma narrativa distópica e mordaz sobre o destino de Cabo Verde. O país, fustigado por uma desertificação irreversível, vê-se mergulhado num esquema de corrupção de proporções globais.
O enredo centra-se num acordo secreto entre um presidente corrupto e potências internacionais (EUA e UE). O plano é macabro: o território cabo-verdiano é vendido para se tornar um depósito mundial de lixo nuclear. Em troca de somas astronómicas, a população é forçada a um êxodo em massa para terras compradas no Paraguai. No entanto, a trama complica-se com a resistência de grupos que se recusam a abandonar a pátria, desencadeando uma luta de guerrilha contra o exército. Através de personagens como a operária Kyoko, o autor explora a traição política, a perda da soberania e a degradação ética perante o desastre ambiental.
"Viver numa ilha é estar cercado por um horizonte que nos convida a partir, mas por uma terra que nos obriga a resistir."
Arte como Lanterna: Visão de Figueira sobre o Cabo Verde Actual
Tchalé Figueira encara a sociedade contemporânea de Cabo Verde como uma «ditadura pseudodemocrática», marcada por profundas desigualdades sociais, corrupção endémica e uma passividade coletiva perante legados traumáticos como a fome, a escravatura e o colonialismo. Para ele, o país sofre com políticas culturais débeis — sem galerias, museus ou apoios institucionais sérios —, agravadas por clientelismo que sufoca os artistas e por uma hipnose europeia que descura o diálogo essencial com África. Critica investimentos absurdos num «exército fantoche» em detrimento da cultura, e a fragmentação dos criadores, cada um por si num «deserto» artístico sem movimentos unidos. Figueira denuncia também a persistência de traumas coloniais — de Salazar a Leopoldo II —, visíveis hoje em naufrágios no Mediterrâneo e desigualdades globais, apelando à memória viva para evitar o esquecimento e fomentar orgulho africano. A arte surge, assim, como «lanterna nas trevas»: uma ferramenta interventiva que choca com o grotesco do real para despertar consciência, resistência e prosperidade genuína na sociedade cabo‑verdiana.
"A Sentinela Insubmissa: O Artista como Provocador da Consciência Coletiva"
Para Tchalé Figueira, a arte nunca foi um exercício de mera contemplação estética ou um adorno para a "morabeza" turística. O seu papel define-se pela postura da sentinela: aquele que vigia as ilhas a partir da solidão do seu atelier, captando as fraturas de uma sociedade em constante tensão entre a tradição e a globalização. Como observador, Tchalé recusa a "ilha-postal". O seu olhar mergulha no quotidiano invisível — nos becos do Mindelo, na solidão dos que ficam (como em Moro nesta ilha...) e na degradação ambiental que ameaça soterrar a identidade cabo-verdiana sob a areia ou o lixo nuclear (temas centrais de Solitário e Txon Vendido). Ele não se limita a descrever a realidade; ele disseca-a com a precisão de um cirurgião e a crueza de um expressionista. Enquanto provocador, o autor utiliza o sarcasmo e a ironia como ferramentas de intervenção social. A sua escrita e a sua pintura são formas de "legítima defesa" contra a passividade política e o conformismo cultural. Ao apresentar cenários distópicos onde a pátria é leiloada ou asfixiada pelo deserto, Tchalé obriga o leitor (e o espetador) a confrontar-se com as consequências éticas do presente. Em suma, ser artista, na visão de Tchalé Figueira, é assumir a responsabilidade de ser uma voz incómoda. É transformar a "solitude" criativa num ato de resistência, garantindo que, enquanto houver uma tela ou uma página em branco, a dignidade do "chão" cabo-verdiano não será vendida em silêncio.
A Projeção Internacional: Do Mindelo para o Mundo
O reconhecimento da obra de Tchalé Figueira ultrapassa as fronteiras do arquipélago, consolidando-o como uma das vozes mais singulares da arte contemporânea africana. Um dos marcos da sua carreira foi a conquista do prestigiado Prix Fondation Blachère na Bienal de Dakar (Dak’Art 2008), um prémio que distingue a excelência e a inovação na criação visual do continente. Além desta distinção, a sua obra integra coleções globais de renome, estando representada em museus e acervos privados na Europa, África e América. Esta presença internacional não é apenas um selo de qualidade estética, mas a prova de que as suas temáticas — a insularidade, o êxodo e a resistência — possuem uma ressonância universal, dialogando com os grandes dilemas da humanidade contemporânea.
«A minha obra é universal. Mas vivo num bairro chamado Cabo Verde.»
A Insubmissão como Herança: O Legado de Tchalé Figueira
O legado de Tchalé Figueira na arte cabo-verdiana contemporânea é, acima de tudo, o da liberdade intelectual. Ele rompeu com o tradicionalismo idílico e com a "literatura de lamentação", introduzindo uma estética de intervenção direta e um realismo crítico que não teme o grotesco. Ao longo de décadas, Tchalé construiu uma ponte inédita entre a pintura neo-expressionista e a ficção narrativa, provando que o artista das ilhas pode (e deve) ser um cidadão do mundo. O seu legado reside na coragem de denunciar a corrupção, a desertificação moral e a venda da soberania (temas de Txon Vendido), servindo de bússola para as novas gerações de artistas que procuram uma voz própria, longe dos clichés turísticos. Tchalé Figueira deixa uma obra que é um testemunho de resistência. Ele ensinou-nos que a arte é a última linha de defesa da dignidade de um povo e que, mesmo quando a areia ameaça tudo soterrar (como em Solitário), a palavra e o traço permanecem como prova de que a ilha não se rendeu.
"A arte não é para decorar paredes, é para abrir janelas na cabeça das pessoas."
"O artista não pode ser um funcionário do regime; tem de ser o espinho na carne do poder."
"Tchalé Figueira: vida, pintura e poesia de um criador cabo-verdiano"
Helena Borralho
Created on February 20, 2026
Start designing with a free template
Discover more than 1500 professional designs like these:
View
Terrazzo Presentation
View
Visual Presentation
View
Relaxing Presentation
View
Modern Presentation
View
Colorful Presentation
View
Modular Structure Presentation
View
Chromatic Presentation
Explore all templates
Transcript
"Tchalé Figueira: vida, pintura e poesia de um criador cabo-verdiano"
nasceu em 1953
"Tchalé Figueira: Onde o Azul e a Luz se Encontram"
Emigrou aos 17 anos por razões políticas, viajando pela Europa, Ásia e Américas, fixando-se em Basileia (Suíça) de 1974 a 1985, onde estudou na Kunstschule Basel e iniciou a sua carreira artística. A sua passagem pela Suíça deu-lhe as ferramentas técnicas e a visão global, mas é em São Vicente que ele encontra a sua matéria-prima: o mar, o vento, a solidão e a resiliência do povo cabo-verdiano. Ele é o artista que leva o Mindelo para as galerias de Paris ou Dakar, sem nunca perder a autenticidade da sua "Ponta D’Praia". Na literatura, publicou Todos os Náufragos do Mundo (1992), O Azul e a Luz (2002), Contos da Basileia (2011), entre outras, explorando exílio, memória e colonialismo — temas que cruzam as suas pinturas vibrantes.
Carlos Alberto Figueira, universalmente conhecido como Tchalé Figueira, é muito mais do que um pintor ou um escritor; é um artista total que personifica o espírito cosmopolita e crítico do Mindelo, a capital cultural de Cabo Verde. A alcunha de "homem das sete artes" deve-se à sua natureza inquieta. Embora seja nas artes plásticas e na literatura que o seu nome mais brilha, Tchalé é um criador que não reconhece fronteiras entre géneros. A sua obra é um diálogo constante onde a pintura tem ritmo poético e a sua escrita é carregada de imagens visuais vibrantes.
"A Escola da Boémia: Influências e Vivências do Jovem Tchalé"
Tchalé cresceu numa cidade marcada pela "morabeza" e pela abertura ao mundo. O Mindelo era o ponto de paragem de navios de todas as bandeiras, o que trouxe influências musicais, literárias e artísticas que não existiam noutras ilhas. A juventude do artista foi vivida entre os cafés, as praças e os encontros de intelectuais e músicos. Esta atmosfera de tertúlia e debate constante foi a sua primeira "universidade", onde aprendeu que a arte e a vida são indissociáveis. Irmão do também conceituado artista Manuel Figueira, Tchalé cresceu num ambiente onde a criação era natural. No entanto, enquanto Manuel seguiu uma linha mais ligada à recuperação das tradições (tecelagem), Tchalé inclinou-se para uma expressão mais urbana, rebelde e cosmopolita.
"A Escola da Boémia: Influências e Vivências do Jovem Tchalé"
Como Dervixes sem equilíbrio Dervixes sem equilíbrio Bailam na miséria do Mundo, Saturno louco, come seu filho Num quadro negro de Góia. Meninas de batom-rouge, São putas num paraíso kitsch… As trinta moedas de Judas Passando de mão em mão Liberdade enclausurada A lua está ferida, Hienas adornadas com flores, Crianças morrem de fome em África… Deus padece de Alzheimer livro O Azul e a Luz (2001/2002)
A presença constante da Baía do Porto Grande influenciou a sua estética. O mar para Tchalé não é apenas paisagem, é um símbolo de partida, de isolamento e de ligação ao "estrangeiro", algo que se reflete mais tarde nos seus temas de "naufrágios" e "exílios". Já na juventude, Tchalé demonstrava um espírito inquieto. O ambiente boémio permitiu-lhe observar as disparidades sociais da época colonial, alimentando a veia de crítica social que define a sua obra madura. Esta juventude portuária, entre docas e tradições crioulas, ecoa nas suas pinturas e poemas sobre memória, exílio e identidade, refletindo o "caudaloso" espírito mindelense que o tornou o "homem das sete artes".
Este é um poderoso excerto poético de Tchalê Figueira, carregado de imagens satíricas e críticas sociais que ecoam os temas centrais da sua obra — exílio, desigualdade e decadência humana.
Tchalé Figueira: Onde o Azul e a Luz se Encontram O "Homem das Sete Artes" entre o Mindelo e o Mundo
Carlos Alberto Figueira, universalmente conhecido como Tchalé Figueira, é uma das figuras mais magnéticas e transversais da cultura contemporânea de Cabo Verde. Nascido no Mindelo, em 1953, Tchalê não se deixou limitar pelas fronteiras geográficas da ilha de São Vicente, nem pelas barreiras disciplinares da arte. Pintor, poeta, romancista, músico e percucionista, ele é o "artista total" que utiliza o pincel e a pena para dissecar as contradições da alma humana. A sua identidade foi moldada no ambiente cosmopolita e boémio do Mindelo, onde o mar não era um muro, mas um convite à partida. Aos 17 anos, partiu como marinheiro (c. 1970), mas foi em Basileia, na Suíça, que a sua vocação se cristalizou. Entre 1974 e 1985, frequentou a Kunstschule Basel, onde protagonizou um ato de resistência intelectual: recusou-se a pintar o "exotismo africano" esperado pelos seus mestres europeus. Em vez disso, apropriou-se da técnica ocidental para criticar o próprio Ocidente, fundindo o expressionismo europeu com uma sensibilidade africana urbana e rebelde.
"Recusei-me a ser um artista exótico para consumo europeu."
Tchalé Figueira: Onde o Azul e a Luz se Encontram O "Homem das Sete Artes" entre o Mindelo e o Mundo
A obra de Tchalé é marcada por uma lucidez que não teme o choque. No seu poema "Como Dervixes sem equilíbrio" (do livro O Azul e a Luz), ele escreve que "Deus padece de Alzheimer", uma metáfora poderosa para o desamparo de um mundo onde "crianças morrem de fome em África" e o sagrado é vendido por "trinta moedas de Judas". Esta crueza literária encontra um espelho perfeito nas suas telas, habitadas por figuras distorcidas, cores elétricas (o seu azul identitário) e temas que oscilam entre a sátira social e o lirismo dos naufrágios. Após o regresso a Cabo Verde em 1985, Tchalé estabeleceu o seu Atelier Ponta D’Praia (Mindelo, desde 2014), transformando-o num farol de resistência cultural. Com uma vasta bibliografia que inclui títulos como Solitário, ** Contos da Basileia (2011)** e um currículo de exposições que percorre o mundo — da Bienal de Dakar (Prix Fondation Blachère, 2008) às galerias de Paris e Lisboa — o artista permanece fiel ao seu papel de provocador. Tchalé Figueira prova que a arte cabo-verdiana é muito mais do que saudade; é uma explosão de cores, uma crítica feroz ao presente e, acima de tudo, um lugar onde, apesar das sombras do mundo, o azul do horizonte e a luz da inteligência insistem em se encontrar.
"A Estética do Grito: O Expressionismo e o Reconhecimento Global de Tchalé"
A pintura de Tchalé Figueira não nasce para decorar paredes; nasce para interpelar a consciência. No vasto panorama das artes plásticas contemporâneas, Tchalé afirma-se como um expressionista nato, cuja obra é um diálogo tenso entre a beleza cromática e a crueza da realidade humana. O estilo de Tchalé é inconfundível. Caracteriza-se por uma liberdade formal que rejeita o rigor académico em favor da emoção bruta. As suas telas são habitadas por figuras distorcidas, rostos que parecem máscaras e cenários que oscilam entre o sonho e o pesadelo. Do ponto de vista técnico, a sua paleta é elétrica e contrastante. O uso de acrílicos vibrantes — amarelos solares, vermelhos viscerais e azuis profundos — serve para iluminar temas que, de outra forma, seriam sombrios. A sua pincelada é rápida e gestual, revelando a urgência de um artista que "não pinta o que vê, mas o que sente sobre o que vê". Tchalé utiliza a cor como uma partitura musical, criando ritmos visuais que guiam o espetador através das suas composições.
"A pintura é uma forma de resistência contra a mediocridade do mundo."
"A Estética do Grito: O Expressionismo e o Reconhecimento Global de Tchalé"
Os temas de Tchalé Figueira são uma crónica da condição humana. No seu atelier no Mindelo, ele observa e traduz o mundo em séries temáticas poderosas: Crítica social ( o artista utiliza a sátira para denunciar a corrupção, o racismo e as heranças do colonialismo); Humano marginalizado (as suas figuras são frequentemente os esquecidos — o bêbado, a prostituta, o marinheiro solitário — elevando o marginal ao estatuto de protagonista artístico); "War is Stupid" (uma das suas séries mais emblemáticas, onde condena a estupidez da violência global, provando que a sua arte, embora enraizada em Cabo Verde, comunica com qualquer parte do globo). O percurso de Tchalé é pontuado por uma projeção que extravasa as fronteiras do arquipélago. O reconhecimento máximo da sua carreira nas artes plásticas aconteceu em 2008, quando foi distinguido na Bienal de Dakar (Dak’Art), no Senegal. Ao receber o Prix Fondation Blachère, Tchalé consolidou o seu estatuto como uma das vozes mais relevantes da arte contemporânea africana. Este prémio não foi apenas um reconhecimento individual, mas a validação de uma estética que recusa o "exotismo fácil" e aposta na autenticidade intelectual. Com exposições em cidades como Lisboa, Paris, Basileia e Washington, o nome de Tchalé Figueira figura hoje em importantes coleções públicas e privadas, reafirmando que a sua "lanterna nas trevas" continua a brilhar com intensidade global.
"Cabo Verde é uma nau de pedra que flutua num mar de incertezas."
"War is Stupid" ("A guerra é estúpida") é uma das séries de pintura mais impactantes e politicamente carregadas de Tchalé Figueira, que serve como um manifesto humanista contra a violência e as atrocidades cometidas em diversas épocas da história.
War is Stupid Série de pinturas de crítica à violência
War is Stupid é uma série de pinturas de Tchalé Figueira em que o artista radicaliza a sua crítica à violência, às guerras contemporâneas e às formas de opressão herdadas do colonialismo e do fascismo. O título explicita uma tomada de posição ética: a guerra é apresentada como estupidez humana repetida, uma derrota moral e civilizacional, mais do que um “mal inevitável”.
Breve História Colonial e Outras Memórias (2023-2024)
Breve História Colonial e Outras Memórias (2023-2024) é uma exposição individual de pinturas de Tchalé Figueira, apresentada no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa, de 24 de novembro de 2023 a 12 de janeiro de 2024, que reúne 18 telas de grande formato para denunciar os horrores do colonialismo em África e as suas heranças contemporâneas.A mostra foca os "carrascos dos africanos" — figuras grotescas como Salazar, soldados da guerra colonial portuguesa, Leopoldo II do Congo (responsável por milhões de mortes), nazistas e o Ku Klux Klan —, retratados com traços expressionistas vorazes, dentes de tubarão e expressões de ódio sádico. Figueira desafia a amnésia histórica, ligando o genocídio colonial (Conferência de Berlim, 1884-1885; mutilações no Congo; escravatura e violações nas colónias portuguesas) a tragédias atuais, como naufrágios de migrantes no Mediterrâneo, que perpetuam a desumanização dos africanos.
Retratos do meu Imaginário" (2020)
"Retratos do meu Imaginário" (2020) é uma exposição do prestigiado artista plástico e escritor cabo-verdiano Tchalé Figueira. A Nação – Jornal Independente - A Nação – Jornal Independente - +1 Inaugurada em outubro de 2020 na Livraria Nhô Eugénio, na Praia (Cabo Verde), a mostra apresentou 11 quadros inéditos que marcaram o regresso do artista após o período de confinamento devido à pandemia de COVID-19.As telas retratam o "arco da velha" insular — prostitutas, bêbados, mendigos, músicos carnavalescos —, expressos em traço sintético e expressionista que revela "rugas interiores" e máscaras do coração humano. Figueira descreve-os como "rostos saídos do mundo meu, do meu interior", nada realistas mas carregados de vaidade, medo, vergonha e desejo, questionando o papel do espectador perante o "Outro menor" excluído pelo sistema.
Algumas obras de Tchalé Figueira
Versos de Tinta e Sal: A Cartografia Poética de Tchalé Figueira
Carlos Alberto Figueira, artisticamente conhecido como Tchalé Figueira, afirma-se na literatura cabo-verdiana contemporânea como um poeta de imagens violentas e denúncia social. A sua escrita cruza a experiência do exílio mindelense com uma estética expressionista que dialoga permanentemente com as suas telas. Obras como Todos os Naufrágios do Mundo (1992) e O Azul e a Luz (2002) representam marcos fundamentais da sua produção lírica, refletindo a evolução de um lamento pessoal para uma sátira global. O Lamento Marítimo: Todos os Naufrágios do Mundo (1992) A sua estreia poética surge como uma catarse do trauma migratório após o seu regresso de Basileia em 1985. O título evoca a diáspora crioula através de poemas curtos e fragmentados que mimetizam o improviso do Jazz, rompendo com a métrica tradicional da morna literária. Nestes versos, Tchalé descreve marinheiros perdidos, portos fantasmas e saudades líquidas do Porto Grande. Aqui, o mar não é romantizado; é um espaço de destruição identitária — uma metáfora da emigração forçada aos 17 anos e de uma Cabo Verde pós-colonial ainda à procura de ancoradouro.
«O mundo é um matadouro e eu pinto o matadouro.»
"Onde a Melancolia se torna Matéria: A Transição Estética de 1998"
Publicado seis anos após a sua estreia, Onde os Sentimentos se Encontram (1998) representa a transição definitiva de Tchalé Figueira da melancolia marítima para a crueza expressionista. Se em 1992 o poeta ainda chorava os "naufrágios" da alma e da diáspora, em 1998 ele começa a dissecar os sentimentos como se fossem matéria orgânica. Apesar do título sugerir um lirismo romântico, a obra é um exercício de desengano. Os "sentimentos" que aqui se cruzam não são de harmonia, mas de confronto. É neste livro que Tchalé consolida a sua voz como um observador cínico da "comédia humana". O Mindelo deixa de ser apenas o Porto Grande da saudade para se tornar um palco de figuras grotescas, antecipando a fauna urbana (as prostitutas, os bêbados, os marginais) que povoará as suas telas e livros seguintes. Este livro coincide com um período de intensa produção no seu Atelier Ponta D’Praia. A escrita de 1998 é, talvez, a que mais se assemelha aos seus esboços a carvão: rápida, nervosa e carregada de contrastes. Tchalé utiliza a palavra para "esboçar" as sombras que a cor, por vezes, ainda não conseguia captar totalmente.
"Um povo que vende o seu chão, vende a sua sombra e o seu destino."
Versos de Tinta e Sal: A Cartografia Poética de Tchalé Figueira
A Lucidez Impiedosa: O Azul e a Luz (2002) Esta obra marca a maturidade do "homem das sete artes", coincidindo com o seu apogeu plástico. A sátira social domina a narrativa, e o célebre poema "Como Dervixes sem equilíbrio" exemplifica a sua iconografia apocalíptica: "Deus padece de Alzheimer", hienas adornadas com flores e crianças famintas em África. O "Azul" (cor assinatura das suas telas) simboliza uma esperança ferida, enquanto a "Luz" não é o brilho tropical bucólico, mas uma claridade inquisitorial e expressionista que expõe as feridas da miséria global e as hipocrisias ocidentais. O diálogo entre ambas as obras traça uma trajetória clara: de Naufrágios (intimista e elegíaco) a Azul (cosmopolita e combativo), Tchalé rejeita a "saudade" melancólica em favor de uma crioulidade rebelde. A sua "poesia expressionista verbal" funciona como uma extensão das suas pinturas; onde o pincel atinge o limite da figuração, a palavra intervém para nomear o inominável. No seu Atelier Ponta D’Praia, Tchalé eleva o marginal ao estatuto de voz universal, unindo o Mindelo ao mundo num protesto vibrante contra o esquecimento histórico.
«A minha obra é universal. Mas vivo num bairro chamado Cabo Verde.»
"O Eterno Retorno: A Viagem como Balanço Existencial (2012)"
(...) IX Nas vagas da vida avistei Europa, cansado do mar purguei o sal, pelas estradas caminhei, em Helvécia cheguei… Desenhando pássaros, nuvens, e mulheres, amizade, filhos, arte, amor pela arte, na arte da vida, poesia sublime naveguei nos dias… Regressei às ilhas, após 15 longos anos, escutei o Cântico da Manhã Futura!... Hoje, sou peregrino, nos trilhos do mundo, em queda e ascensão, a vida corre, em alegrias e tristeza, sigo o caminho, como poeta, vivendo, novos mundos criando, com as musas do meu destino, abraço a luz, meus anos formosos, Monte Verde sagrado, sua neblina mística, de suave frescura… Narinas amplas, oxigénio no cérebro, horizontes e utopias, a imensidão do mar, 15 quilómetros por 24 São Vicente voga, suspensa no ar, ela flutua, flores brotando, serenas jornadas, doce memória, a vida é bela, amo-vos mulheres, oh musas divinas, candeia altiva, lua celeste, alvorada em parto razão de viver… Adio a morte, para um outro dia
“E tudo regressa, ao ponto de partida!...” VI Roterdão meu templo, rezo as divinas, bicicletas voando, meu falo sulca, regressei a Ítaca, de rosto bronzeado, labareda ardendo, I'am a sex machine; exótico sexual, europa mulher, minha concubina; sou bailarino leve, pétala no vento, furacão coreógrafo, bailo James Brown… mans mans World… minha tragédia; sou emigrante!... Visto de estadia, aborta aos três meses, barco ou fronteira, eis a escolha, comboios de gado, Lisboa alerta, Salazar esqualo, capanga mor, Tarrafal demente, coleccionando cérebros, misantropia perversa, esquadrões da morte, optei de novo, o caminho do mar… (...)
A Viagem (27 páginas, autopublicado no Mindelo) retoma a odisseia migratória de Tchalê Figueira, fechando o ciclo iniciado em Todos os Naufrágios do Mundo (1992). O poeta evoca Roterdão — primeira escala do exílio aos 17 anos — como "templo" onde "bicicletas voam" e imagens sexuais ("meu falo sulca") simbolizam o regresso cíclico: "E tudo regressa ao ponto de partida". Explora emigração clandestina, ilhas "sem destino" e vida insular quotidiana, num tom reflexivo que contrasta com a sátira violenta anterior. Marca a maturação do exilado regressado ao Atelier Ponta D’Praia, unindo diáspora pessoal à poética crioula universal.
"A Estética do Fragmento: O Relâmpago Poético em 'Curtos, 7 Contos' (2018)"
Publicada em 2018, a obra Curtos, 7 Contos representa um momento de viragem formal na trajetória literária de Tchalé Figueira. O título apresenta um jogo de espelhos: embora anuncie "contos", o que o leitor encontra é um exercício de microficção poética ou poesia narrativa, onde a brevidade é elevada ao estatuto de arma estética. Neste livro, Tchalé abandona as grandes descrições para se focar no essencial. Cada texto funciona como um esboço rápido no seu caderno de desenho — uma linha nervosa que captura um estado de alma ou uma cena de rua no Mindelo antes que esta se desvaneça. A economia de palavras não retira força à mensagem; pelo contrário, cada frase atua como um "relâmpago" que ilumina, por breves instantes, as sombras da condição humana. Se as obras anteriores de Tchalé podiam ser comparadas a grandes telas a óleo, Curtos, 7 Contos assemelha-se a uma série de gravuras ou ilustrações a tinta da china. A técnica é seca, o contraste entre a luz e a sombra é absoluto, e não há espaço para adornos. É o Tchalé mais sintético, capaz de dissecar uma vida inteira num único parágrafo, provando que a sua "lanterna nas trevas" se tornou, com os anos, um feixe de luz laser: preciso, térmico e focado.
"Tempe Runhe: A Poética da Resistência no Olho do Furacão (2022)"
Lançada no Mindelo em 2022, a obra Tempe Runhe é um dos testemunhos literários mais recentes de Tchalé Figueira. O título, em crioulo, estabelece imediatamente uma ligação visceral com as raízes do autor e com o sentimento de inquietação que atravessa a sociedade cabo-verdiana e o mundo atual. Escrito e publicado num período marcado por crises globais — desde a pandemia de COVID-19 às tensões geopolíticas e económicas —, Tempe Runhe funciona como um diário de bordo de uma tempestade. Tchalé utiliza a poesia para dar nome ao "tempo ruim" que não é apenas climático, mas moral, social e político.
«Cabo Verde é um deserto cultural, cada artista luta sozinho.»
As coisas tristes deste mundo Observo angustiado um pássaro Morto no asfalto da cidade É real o seu cheiro putrefato Triste regressei a casa A mil quilômetros daqui num desvario Vejo na televisão mísseis a matar crianças A cruel visão da notícia na televisão Não transmite o cheiro dos mortos Talvez por isso a indiferença dos homens?
Este poema de Tchalé Figueira funciona como um manifesto estético que sustenta toda a sua produção literária. Nele, o autor estabelece um contraste brutal entre a realidade visceral (o pássaro morto e o seu cheiro) e a realidade mediada (a guerra na televisão), revelando a sua maior angústia: a indiferença humana.
As varizes nas colunas das pernas As varizes nas colunas das minhas pernas Colunas calcinadas pelo incontrolável tempo A necrófila hiena, o carnívoro leão, Morte pelo entupimento das artérias coronárias O coração é um músculo que bomba sangue; a grande Maravilha do mundo. O cérebro laguna de átomos, Genocídio alimento para chacais – Monte de cadáveres Percorrem a inutilidade dos meus poemas Sinto as minhas unhas conspurcadas pela terra Dos coveiros – Saco de podridão lenta, Soldado morto no ventre putrefacto De um alazão com ligaduras embebidas em sangue Carpindo nos olhos de uma gazela inocente, Meia-noite navega na barca que atravessa o sub-mundo, Canhões estilhaçando crianças em inocência O planeta é obsceno, e uma mulher vítima De sodomia de um batalhão de trogloditas, Fermenta num laboratório de amarguras Cérebros em obediência divina Tirania de abutres encharcados em sangue Banqueteando a minha poesia em flor
A crítica social explode na segunda parte: violência bélica ("canhões estilhaçando crianças"), violação coletiva ("mulher vítima de sodomia de um batalhão de trogloditas"), culminando no desespero metafísico — planeta "obsceno", cérebros em "obediência divina", abutres banqueteando a "poesia em flor".
Começa com a decadência física — varizes como "colunas calcinadas pelo incontrolável tempo", coração reduzido a "músculo que bomba sangue" —, evoluindo para um cenário necrófago: hienas, leões, chacais devorando cadáveres, unhas "conspurcadas pela terra dos coveiros".
"Na terra dos mortos" — Poema de Tchalê Figueira Na algazarra Dança Belzebu com Colares de crânios Tambores e chocalhos Nas margens de um rio de Sangue das guerras; Soldados mercenários Coleccionam cadáveres Mães alucinadas Ao lado de crianças Assassinadas Arrancam seus cabelos E em tenebrosos palácios Lordes das guerras Com sorrisos Colgate Em banquetes perversos Bebem champanhe Com sabor a crueldade.
Num cenário apocalíptico, Tchalé Figueira pinta Belzebu dançando entre crânios e tambores de sangue, enquanto mercenários coleccionam cadáveres e mães alucinadas choram crianças assassinadas. Nos tenebrosos palácios, lordes da guerra brindam com champanhe "sabor a crueldade", sorrisos Colgate contrastando com a carnificina. O poema denuncia a obscenidade bélica global num turbilhão de imagens necrófagas — ecoando as suas séries War is Stupid —, onde o luxo sádico dos poderosos consome a humanidade destroçada.
"Do lado frio da trincheira" é um poema em que Tchalê Figueira transforma a guerra e a violência contemporânea numa visão apocalíptica do mundo, usando imagens brutais e quase cinematográficas. O eu poético fala a partir da “trincheira”, lugar de frio e morte, convidando irónica e amargamente a “glorificar” cadáveres, crianças deformadas, campos contaminados e corpos mutilados, como se estivesse a expor a hipocrisia dos discursos heroicos sobre a guerra.
Do lado frio da trincheira Do lado frio da trincheira contempla a tua obra! Canta!… Glorifica os teus mortos embrulhados em pús, Mostra a tua fria cama – cérebros ensopados em silêncio Átomos em torrentes radioactivas Crianças deformadas, rostos tingidos em urânio, Cabeças rapadas num hospital de angústias Ofídias com unhas de fogo Gladiadores num alfabeto de mortos… Bailando no topo da sagrada montanha, um homem Vomita balas, traja uma capa de vermes – Deus indiferente, observa a Sua obra-prima – Monos tísicos borrifando sangue, artérias podres do mundo África é um tambor encharcado de vírus Coreografia abominável… tratado de Berlim. Zebras agonizam nas savanas. Somos a mesquinha deformação no Universo, A grande obra do Criador.
O poema constrói um cenário de devastação física e moral: corpos em pus, cérebros ensopados em silêncio, átomos radioativos, rostos tingidos em urânio e zebras agonizantes nas savanas mostram um planeta envenenado pela tecnologia bélica e pelo legado colonial. Deus aparece como figura distante e indiferente, contemplando esta “obra-prima” de destruição, o que reforça o tom de blasfémia crítica e de revolta contra qualquer tentativa de justificar o horror. No fim, o sujeito reconhece-se como “mesquinha deformação no Universo” e, ao mesmo tempo, como parte dessa “grande obra do Criador”, condensando a contradição entre a pequenez humana e a responsabilidade colossal pelo estado obsceno do mundo.
Fascismo No lado sórdido da estrada abundam monstros, bichos ferozes, uivo de alcateias corações murchos de medonha barbárie. Botas de aço pisando rosas cárceres de inimagináveis torturas, linguagem de azêmolas falantes. Falanges de braços estendidos e a suástica medonha no vento abanando, monstros esmagando flores. Nas minhas epístolas, entre papoilas e trevas escolho sempre o ardor da beleza.
Tchalé Figueira pinta o horror fascista num turbilhão de imagens bárbaras: monstros na estrada, alcateias uivando, botas de aço a esmagar rosas, suásticas ao vento e cárceres de torturas. Contra a "medonha barbárie" e "linguagem de azêmolas", o poeta resiste com epístolas de "papoilas e trevas", escolhendo sempre "o ardor da beleza" perante a destruição das flores humanas.
1 de junho em Gaza Na noite e dias de pesadelos Na guerra estúpida dos homens Feia é a algazarra dos criminosos Carregam crânios como troféus Com tambores e chocalhos Vão percutindo maldades Flores da inocência esmagadas Pisadas por botas lamacentas Sujas de sangue na terra derramada Crianças assassinadas Mães alucinadas pela dor Arrancam seus cabelos A máquina estúpida da guerra Expele gangrena no mundo Algures os de gravatas comem caviar
Tchalé Figueira denuncia o massacre infantil em Gaza com imagens apocalípticas: criminosos percutindo "maldades" sobre crânios, botas lamacentas esmagando "flores da inocência", mães alucinadas perante crianças assassinadas. A "máquina estúpida da guerra" expele gangrena global, enquanto senhores de gravata devoram caviar — sátira feroz ao luxo sádico dos belicistas.
Meu País Surreal de Tchalé Figueira é um poema corrosivo que pinta Cabo Verde como um circo político distópico, onde a corrupção e a vaidade das elites devoram a esperança popular sob um manto de surrealismo expressionista. Este texto denuncia um parlamento necrófilo — "corvos falantes", "advogados do diabo", "hienas huivam" —, transformando deputados em abutres plutocratas e sapos coaxantes de gravata, legislando "leis de latrina" num "rebanho insciente" lobotomizado. A imagem do "povo pasmado, catatônico" capta a alienação coletiva perante tribunos embusteiros e pavões vaidosos, ecoando a sátira política de Txon Vendido, onde elites vendem soberania por flatulência retórica. O "vento nordeste perpétuo" simboliza a aridez crónica das ilhas — seca literal e metafórica —, agravada pelo êxodo juvenil sem futuro, que cita o "poeta do mar" (provável alusão a Corsino Fortes ou Sterling Radino): "ter que ir mas querer ficar". Ulisses I, "majestoso de CV", surge como Mandrake prestidigitador num "arquipélago de fantásticas lorotas", ironizando líderes que iludem com promessas vazias num circo trágico.
MEU PAÍS SURREAL Corvos falantes Advogados do diabo Leis corrompidas Bando de necrófilos Negras togas de vaidades Abutres plutocratas Libertando flatulência Suas leis de latrina Pavões legisladores Tribunos embusteiros Rebanho insciente Aguardando prodígios Povo pasmado, lobotomia Cabo Vede catatônico Hienas huivam no parlamento Neste vento nordeste perpétuo Sapos com gravatas coaxam falácias E a juventude sem futuro num êxodo E como escreveu o poeta do mar " ter que ir mas querer ficar" E, Ulisses I, majestoso de CV é Um Mandrake prestigiditador neste Circo, arquipélago de fantásticas Lorotas.
Poema anti-guerra Soldado!... O som sucumbiu na tua Traqueia – o dia morreu estilhaçado Na escuridão do teu peito A tua arma destrói o mundo A tua casa é ausente de luz tuas garras de carnívoro mundano dilacerando vidas… Casa fúnebre – Bombas e engenhos Urânio esturricando na cabeça calva de Anjos… A eterna pantomímica da guerra Em câmaras frias jazem Heróis de medalhas no peito… Sem luz a besta uiva Bebe-se terebintina No abismo da demência
Este poema de Tchalé Figueira é uma descida ao abismo da desumanidade, onde a guerra não é glorificada, mas sim exposta como uma "eterna pantomímica" de horror. Com a crueza de quem maneja tanto o pincel como a palavra, o autor transforma o cenário bélico numa natureza-morta de carne e metal, onde o brilho das medalhas é ofuscado pela "escuridão do peito" e pelo silêncio da morte.A força da obra reside no contraste entre o sagrado e o profano: a imagem do urânio a queimar a cabeça de anjos é um grito de revolta contra a tecnologia usada para o extermínio. No final, o que resta é a demência; um mundo sem luz onde a "besta" sobrevive a beber terebintina — um solvente que, em vez de limpar a tela, corrói a alma de quem a contempla. É, acima de tudo, um manifesto visual sobre a estupidez do heroísmo face à realidade fria da morgue.
Há lagos nas Lágrimas Há lagos nas lágrimas Sorrisos no amor Relógio de cristal Seus perpétuos Ponteiros Bate o coração!... De sangue este rio Ziguezagueando Nas veias do tempo Estrada de luz Navalha afiada Oboé respirando Beijo sentido O aspar de um verbo Nas palmas das Minhas mãos De luz e treva Duas esferas Girando a cada Instante.
Este poema de Tchalé Figueira é uma composição delicada sobre a transitoriedade e a dualidade da existência. Se no poema anterior tínhamos a crueza do urânio e da morte, aqui encontramos a fluidez da vida: o sangue que corre como um rio "ziguezagueando nas veias do tempo" e as lágrimas que, pela sua profundidade, se transformam em lagos de introspeção. O autor utiliza símbolos de uma precisão cirúrgica — como o relógio de cristal e a navalha afiada — para nos recordar que a beleza e a dor caminham lado a lado. A imagem final das "duas esferas" de luz e treva girando nas palmas das mãos é uma metáfora poderosa para a condição humana: somos os guardiões do nosso próprio equilíbrio entre o que brilha e o que se esconde. É um texto que não se lê apenas; sente-se como o pulsar de um coração que marca o ritmo de um universo interior vasto e em constante rotação.
"Escrevo como quem pinta: com cores fortes e sem medo de borrar a realidade."
HUMANO Líquido e sólido Homem e mulher Casamento de átomos Biliões de células Tem o seu cérebro Tanto quanto estrelas No Universo Que estranho animal Construtor do bem e do mal Primata que cria e destrói Inventor de divindades Deus seu enigmático labirinto De perguntas sem resposta Feroz assassino Irracional Mata e morre cegamente Pela pátria bandeira e fronteira Sua efémera existência um relâmpago Pálpebras quebradas num caixão Morreu!
HUMANO, este poema de Tchalé Figueira, destila uma visão expressionista e trágica da condição humana, celebrando o potencial cósmico do primata criador ao mesmo tempo que o condena como inventor de crueldades efémeras.O ser humano emerge como paradoxo material — "Líquido e sólido / Homem e mulher / Casamento de átomos" —, uma sinfonia de "biliões de células" cerebrais equiparável às estrelas do Universo, exaltando a complexidade biológica e criativa. Contudo, Figueira subverte o milagre em grotesco: "Que estranho animal / Construtor do bem e do mal", primata que forja divindades num "enigmático labirinto / De perguntas sem resposta", revelando o enigmático vazio existencialista que atravessa a sua obra plástica e literária.
A denúncia intensifica-se no "Feroz assassino Irracional" que "mata e morre cegamente / Pela pátria bandeira e fronteira", ecoando séries como War is Stupid (2015) e Breve História Colonial (2023), onde a estupidez bélica e nacionalista devora nações. O fecho niilista — "Sua efémera existência um relâmpago / Pálpebras quebradas num caixão / Morreu!" — sela a mortalidade como ruptura abrupta, sem redenção, alinhando-se à "epopeia trágica das ilhas" de Solitário e à sátira de Txon Vendido.
Entre Tela e Página: A Obra Total de Tchalé Figueira
Em Tchalê Figueira, a escrita e a pintura dialogam como expressões inseparáveis de uma mesma visão criativa, nascida do subconsciente, das memórias pessoais e de uma crítica aguda à sociedade. Ambas as artes emergem sem hierarquia — pincel ou caneta fluem espontaneamente da vida quotidiana em Mindelo, das viagens pela Europa e África, e de influências partilhadas como Ensor, Bacon ou a literatura africana —, formando uma obra total que ele próprio chama de "never ending book". Os temas cruzam-se em denúncia feroz: as telas captam o grotesco visível da corrupção, colonialismo e violência, em séries como "Ditadores" ou "Guerra", enquanto os livros, de Solitário a Txon Vendido, aprofundam o invisível — exílio, desertificação, diáspora cabo‑verdiana — com ironia distópica e personagens errantes que ecoam as figuras burlescas das pinturas. Figueira vê a arte como "lanterna nas trevas", interventiva e sem concessões, que expõe o "matadouro" humano para despertar reflexão e esperança. Pintura e escrita complementam-se assim: a primeira choca pelo imediato, a segunda expande em narrativas poéticas e fantasmagóricas, desafiando censura e unindo o real ao onírico numa mitologia pessoal profundamente humanista.
"Lanterna nas Trevas: A Estética da Indignação na Prosa de Tchalé Figueira"
A prosa e a ficção de Tchalé Figueira, autor cabo-verdiano nascido no Mindelo em 1953, representam uma voz singular na literatura lusófona africana, marcada pela fusão de realismo social, sátira política e elementos autobiográficos derivados da sua experiência como emigrante, pintor expressionista e ativista cultural. Com mais de duas décadas de produção ficcional, Figueira constrói narrativas que partem da "epopeia trágica das ilhas" — conceito que atravessa obras como Solitário (2005) e Txon Vendido (2021) —, denunciando a seca histórica, a fome, a emigração forçada e a corrupção neocolonial. A sua prosa equilibra a dureza dos diálogos crioulos com uma singeleza poética, recriando a oralidade insular e transformando a miséria em revolta épica, muitas vezes através de um humor negro que expõe elites políticas e potências internacionais.Em Solitário, Figueira inaugura o seu ciclo ficcional com uma novela que dramatiza o êxodo massivo da população perante as "sepulturas de areias do deserto", alegoria à devastação climática e à percepção de Cabo Verde como território sacrificável. Esta obra funda o olhar social do autor, centrado na diáspora e na identidade dos "vencidos", e dialoga com a sua própria trajectória de emigrante para a Suíça, reflectida em Contos de Basileia (2010/2011), colecção de relatos autobiográficos que misturam erotismo existencialista, solidão urbana e o choque cultural do alter ego crioulo na Europa. Outras peças como Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-navegação (2005) e A Índia que Procuramos (2013/2014) exploram buscas identitárias e ficção histórica fantástica, enquanto Moro Nesta Ilha Há Mais de Cinquenta Anos & Outros Contos (2016) e Curtos - 7 Contos (2017/2018) incorporam o fantástico e o intelectual para criticar o desalento insular.
"Lanterna nas Trevas: A Estética da Indignação na Prosa de Tchalé Figueira"
O ponto alto da sátira surge em Txon Vendido, thriller político distópico onde um presidente corrupto vende o arquipélago deserto à UE (com aval dos EUA) para depósito de lixo nuclear, plano desmantelado por guerrilheiros locais e uma activista japonesa. Aqui, o absurdo grotesco — evacuar a população para o Paraguai — serve para fustigar mecanismos reais de governação transnacional, machismo e "lixo dos governos", regenerando as "ilhas verdes" pela resistência popular. Esta ficção madura, apresentada em Mindelo e na Praia em 2021, exemplifica a versatilidade de Figueira aos 70 anos, unindo denúncia pós-colonial à poética visual da sua pintura, e posiciona-o como cronista da condição crioula no mundo globalizado. No conjunto da obra, a prosa de Figueira enriquece a literatura cabo-verdiana contemporânea ao deslocar a epopeia heroica para os "crioulos cidadãos do mundo", abordando temas como colonialismo ambiental, exílio sentimental e revolução cultural contida. Obras recentes como O Exílio Sentimental de Marcus Blum reforçam esta trajetória, confirmando o autor como ponte entre tradição oral mindelense e crítica global, ideal para análises educativas sobre ficção distópica e realismo social lusófono.
«O sofrimento é humano.»
"Solitário: A Epopeia do Êxodo e a Escrita Visual de Tchalé Figueira"
O livro referido é a novela "Solitário" de Tchalé Figueira, publicada originalmente em 2005 pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro de Cabo Verde.A novela "Solitário" (2005) funciona como um alerta social e ambiental. A história centra-se no êxodo trágico da população das ilhas de Cabo Verde, que se vê forçada a fugir devido ao avanço implacável das areias do deserto, que ameaçam transformar o arquipélago numa "sepultura de areia". A obra é considerada o ponto de partida para uma reflexão mais ampla que o autor continuou em "Txon Vendido" (Chão Vendido). Nesta "sequela espiritual", o cenário de desertificação é levado ao extremo: o país é vendido por um presidente corrupto para se tornar um depósito de lixo nuclear, e a população é evacuada para terras no Paraguai. O livro reflete a faceta interventiva do autor. Tal como na sua pintura, Tchalé utiliza a escrita para denunciar a corrupção política, a decadência social e a passividade perante a destruição ambiental. A faceta interventiva de Tchalé Figueira revela-se tanto na sua pintura como na escrita, onde denuncia com veemência a corrupção política, a decadência social e a passividade face à destruição ambiental, usando a ficção como arma de crítica e alerta para os perigos reais que ameaçam Cabo Verde.
"Tchalé Figueira: Entre o Êxodo de Solitário e a Odisseia de Ptolomeu"
Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-navegação é uma novela de Tchalê Figueira, publicada em 2005 pela Mar da Palavra, Edições, na coleção Margens Lusófonas, com prefácio de Germano Almeida. A obra celebra a epopeia secular do povo cabo‑verdiano, marcado pelo mar como destino inevitável de evasão, aventura e emigração, face às limitações impostas pela Natureza árida do arquipélago. O protagonista, Ptolomeu Rodrigues, nasce na ilha de S. Pedro — ecoando a origem do autor em S. Vicente — e foge da sua terra natal para uma odisseia global pelos portos da emigração cabo‑verdiana. Ao longo da narrativa, encadeiam‑se histórias de desvarios sexuais, encontros improváveis com figuras históricas como Amílcar Cabral e Pedro Pires — obreiros da independência de Cabo Verde —, e vivências com candongueiros, revolucionárias do IRA e do País Basco, em terras da Holanda, Alemanha, Irlanda ou Rússia. Ptolomeu evoca o aventureiro Corto Maltese, guiando o leitor num registo dinâmico e atento, quase em "flash rewind", que mistura real e ficção numa circum‑navegação simbólica da diáspora. Esta novela curta (87 páginas) insere‑se na veia interventiva de Tchalê Figueira, exaltando a resiliência migratória cabo‑verdiana como epopeia moderna, em contraste com os alertas ambientais e políticos de obras como Solitário (2005).
"Contos de Basileia: A Odisseia Suíça e a Formação da Identidade Artística"
Contos de Basileia (2010 ou 2011) é um livro de contos de Tchalê Figueira, editado pela editora Dada em Cabo Verde. O título remete diretamente à experiência pessoal do autor em Basileia (Basel), na Suíça, onde viveu e trabalhou entre 1974 e 1985, estudando arte na Kunstgewerbeschule. Estes contos capturam memórias da diáspora cabo‑verdiana na Europa, misturando o quotidiano de imigrantes com vivências urbanas, desencontros culturais e a nostalgia das ilhas. Fazendo parte da sua extensa produção literária — que inclui poesia desde os anos 90 e ficção a partir de 2005 —, esta obra explora a condição do emigrante africano num contexto europeu, com a ironia e o realismo cru característicos de Figueira, que denuncia desigualdades sociais e celebra a resiliência do povo cabo‑verdiano. Integra-se na veia cosmopolita do autor, contrastando com narrativas mais ancoradas em Cabo Verde como Solitário ou Ptolomeu, mas partilhando o tom interventivo que atravessa toda a sua obra multifacetada (escrita, pintura).
«Que se lixem os governos e os ministérios.»
"A Metáfora da Viagem:Utopia e Realidade em A Índia que Procuramos"
A Índia que Procuramos (2013) é uma novela de Tchalê Figueira, publicada no âmbito da sua produção literária cosmopolita que explora a diáspora e as buscas identitárias. Esta obra é uma das mais fascinantes de Tchalé Figueira porque, apesar do título sugerir uma viagem geográfica, é na verdade uma viagem interior e filosófica. A narrativa evoca o tema clássico das "Índias" como metáfora de aspiração e desilusão — um eldorado procurado por navegadores e emigrantes —, centrando-se nas experiências de cabo‑verdianos em movimento pelo mundo, entre o sonho de prosperidade e a realidade de desenraizamento cultural. O título sugere uma procura simbólica por raízes ou utopias perdidas, num registo que mistura realismo migratório com elementos oníricos, típico do autor. Esta obra de 2013 segue Contos de Basileia (2010/2011) e antecede outras publicações como A Viagem (2013), reforçando a veia ficcional de Figueira, que usa a escrita para mapear rotas atlânticas da diáspora cabo‑verdiana, entre São Vicente, Europa e horizontes longínquos. Integra-se na sua crítica subtil às desigualdades globais, complementando os alertas ambientais de Solitário (2005).
«A arte é uma lanterna nas trevas.»
"A Utopia da Montanha: A Esperança de um Novo Mundo em O Exílio Sentimental de Marcus Blum"
O Exílio Sentimental de Marcus Blum (2016) é um romance curto de Tchalê Figueira, apresentado no Centro Nacional de Artesanato e Design (CNAD) em Mindelo, com prefácio de Germano Almeida e edição da Rosa de Porcelana, marcando os 10 anos da editora. A narrativa segue Marcus Blum, um "cidadão do mundo" cabo‑verdiano moderno, num exílio que mistura itinerância global, utopia e esperança num novo mundo. Exilado numa ilha — que acaba por se revelar o seu lugar preferido —, o protagonista vive uma prosa poética e fantasmagórica, inventada pelo autor, longe dos cânones tradicionais da prosa crioula cabo‑verdiana. A obra inaugura um novo estilo no autor, exigindo leitura atenta e culto, com intertextualidades e diálogos com outros autores, refletindo as suas viagens e leituras vastas. Contrasta com obras anteriores como Contos de Basileia ou A Índia que Procuramos, focando o desenraizamento sentimental e a visão poética universal, enquadrando-se na evolução literária de Figueira rumo a narrativas mais complexas e cosmopolitas.
«O artista deve mexer onde dói mais.»
"O Olhar de Quem Fica: Tempo e Insularidade em Moro nesta ilha há mais de cinquenta anos"
Este livro é uma das várias obras que Tchalé Figueira publicou em 2016, que também incluiu os títulos Solitude Blues e Uma Pequena Odisseia Mindelense. A obra insere-se na sua vasta bibliografia, onde o autor explora temas da condição humana, da emigração e da vida nas ilhas de Cabo Verde, muitas vezes com uma abordagem crítica e visual que reflete a sua carreira na pintura. O título dá conta da experiência vivida numa ilha — provavelmente São Vicente, berço do autor —, onde o confinamento insular, as memórias pessoais e as tensões sociais se entrelaçam em narrativas curtas que misturam realismo cru com ironia crítica. Os contos exploram temas como a longevidade no mesmo lugar, a diáspora implícita, as relações humanas num contexto insular limitado e a denúncia subtil de injustiças sociais, ecoando a veia interventiva vista em Solitário ou Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-navegação. O título — "Moro nesta ilha há mais de cinquenta anos" — não é apenas uma contagem de tempo; é uma declaração de autoridade. O autor coloca-se na posição de quem viu as transformações sociais, políticas e urbanas de Cabo Verde (especialmente de Mindelo) e agora as relata com uma mistura de nostalgia e ironia.
"Soberania sob Entulho: A Crítica Geopolítica em Txon Vendido"
Txon Vendido (2021) é um romance de Tchalê Figueira, editado pela Livraria Pedro Cardoso, com 132 páginas, que retoma a epopeia trágica das ilhas cabo‑verdianas iniciada em Solitário (2005). Em "Txon Vendido" (Chão Vendido), Tchalé Figueira apresenta uma narrativa distópica e mordaz sobre o destino de Cabo Verde. O país, fustigado por uma desertificação irreversível, vê-se mergulhado num esquema de corrupção de proporções globais. O enredo centra-se num acordo secreto entre um presidente corrupto e potências internacionais (EUA e UE). O plano é macabro: o território cabo-verdiano é vendido para se tornar um depósito mundial de lixo nuclear. Em troca de somas astronómicas, a população é forçada a um êxodo em massa para terras compradas no Paraguai. No entanto, a trama complica-se com a resistência de grupos que se recusam a abandonar a pátria, desencadeando uma luta de guerrilha contra o exército. Através de personagens como a operária Kyoko, o autor explora a traição política, a perda da soberania e a degradação ética perante o desastre ambiental.
"Viver numa ilha é estar cercado por um horizonte que nos convida a partir, mas por uma terra que nos obriga a resistir."
Arte como Lanterna: Visão de Figueira sobre o Cabo Verde Actual
Tchalé Figueira encara a sociedade contemporânea de Cabo Verde como uma «ditadura pseudodemocrática», marcada por profundas desigualdades sociais, corrupção endémica e uma passividade coletiva perante legados traumáticos como a fome, a escravatura e o colonialismo. Para ele, o país sofre com políticas culturais débeis — sem galerias, museus ou apoios institucionais sérios —, agravadas por clientelismo que sufoca os artistas e por uma hipnose europeia que descura o diálogo essencial com África. Critica investimentos absurdos num «exército fantoche» em detrimento da cultura, e a fragmentação dos criadores, cada um por si num «deserto» artístico sem movimentos unidos. Figueira denuncia também a persistência de traumas coloniais — de Salazar a Leopoldo II —, visíveis hoje em naufrágios no Mediterrâneo e desigualdades globais, apelando à memória viva para evitar o esquecimento e fomentar orgulho africano. A arte surge, assim, como «lanterna nas trevas»: uma ferramenta interventiva que choca com o grotesco do real para despertar consciência, resistência e prosperidade genuína na sociedade cabo‑verdiana.
"A Sentinela Insubmissa: O Artista como Provocador da Consciência Coletiva"
Para Tchalé Figueira, a arte nunca foi um exercício de mera contemplação estética ou um adorno para a "morabeza" turística. O seu papel define-se pela postura da sentinela: aquele que vigia as ilhas a partir da solidão do seu atelier, captando as fraturas de uma sociedade em constante tensão entre a tradição e a globalização. Como observador, Tchalé recusa a "ilha-postal". O seu olhar mergulha no quotidiano invisível — nos becos do Mindelo, na solidão dos que ficam (como em Moro nesta ilha...) e na degradação ambiental que ameaça soterrar a identidade cabo-verdiana sob a areia ou o lixo nuclear (temas centrais de Solitário e Txon Vendido). Ele não se limita a descrever a realidade; ele disseca-a com a precisão de um cirurgião e a crueza de um expressionista. Enquanto provocador, o autor utiliza o sarcasmo e a ironia como ferramentas de intervenção social. A sua escrita e a sua pintura são formas de "legítima defesa" contra a passividade política e o conformismo cultural. Ao apresentar cenários distópicos onde a pátria é leiloada ou asfixiada pelo deserto, Tchalé obriga o leitor (e o espetador) a confrontar-se com as consequências éticas do presente. Em suma, ser artista, na visão de Tchalé Figueira, é assumir a responsabilidade de ser uma voz incómoda. É transformar a "solitude" criativa num ato de resistência, garantindo que, enquanto houver uma tela ou uma página em branco, a dignidade do "chão" cabo-verdiano não será vendida em silêncio.
A Projeção Internacional: Do Mindelo para o Mundo
O reconhecimento da obra de Tchalé Figueira ultrapassa as fronteiras do arquipélago, consolidando-o como uma das vozes mais singulares da arte contemporânea africana. Um dos marcos da sua carreira foi a conquista do prestigiado Prix Fondation Blachère na Bienal de Dakar (Dak’Art 2008), um prémio que distingue a excelência e a inovação na criação visual do continente. Além desta distinção, a sua obra integra coleções globais de renome, estando representada em museus e acervos privados na Europa, África e América. Esta presença internacional não é apenas um selo de qualidade estética, mas a prova de que as suas temáticas — a insularidade, o êxodo e a resistência — possuem uma ressonância universal, dialogando com os grandes dilemas da humanidade contemporânea.
«A minha obra é universal. Mas vivo num bairro chamado Cabo Verde.»
A Insubmissão como Herança: O Legado de Tchalé Figueira
O legado de Tchalé Figueira na arte cabo-verdiana contemporânea é, acima de tudo, o da liberdade intelectual. Ele rompeu com o tradicionalismo idílico e com a "literatura de lamentação", introduzindo uma estética de intervenção direta e um realismo crítico que não teme o grotesco. Ao longo de décadas, Tchalé construiu uma ponte inédita entre a pintura neo-expressionista e a ficção narrativa, provando que o artista das ilhas pode (e deve) ser um cidadão do mundo. O seu legado reside na coragem de denunciar a corrupção, a desertificação moral e a venda da soberania (temas de Txon Vendido), servindo de bússola para as novas gerações de artistas que procuram uma voz própria, longe dos clichés turísticos. Tchalé Figueira deixa uma obra que é um testemunho de resistência. Ele ensinou-nos que a arte é a última linha de defesa da dignidade de um povo e que, mesmo quando a areia ameaça tudo soterrar (como em Solitário), a palavra e o traço permanecem como prova de que a ilha não se rendeu.
"A arte não é para decorar paredes, é para abrir janelas na cabeça das pessoas."
"O artista não pode ser um funcionário do regime; tem de ser o espinho na carne do poder."