"O Arquiteto do Verbo: Identidade e Modernidade na Obra de Corsino Fortes"
1933-2015
"Corsino Fortes: O Poeta da Utopia e da Modernidade Cabo-Verdiana"
Corsino António Fortes (1933–2015), natural do Mindelo, São Vicente, é a figura cimeira da modernidade literária de Cabo Verde. Conhecido como o "Poeta da Utopia", a sua obra marca a transição definitiva entre o lirismo contemplativo da geração Claridade e uma nova épica nacionalista, onde a palavra é um instrumento de fundação e resistência. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa (1966), Fortes viveu a dualidade da diáspora e do regresso, exercendo magistratura em Angola e assumindo, com a independência de Cabo Verde em 1975, papéis fundamentais na construção do novo Estado: foi o primeiro Embaixador em Portugal, ocupou cargos ministeriais e presidiu à Associação de Escritores Cabo-Verdianos, sendo em 2013 o presidente fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras. A sua poética funde a consciência política anticolonial, alinhada aos ideais de Amílcar Cabral, com uma inovação formal radical. Fortes não apenas descreve a ilha; esculpe-a através de uma linguagem influenciada pelo concretismo e pelo rigor de João Cabral de Melo Neto. A sua escrita é telúrica e corporal, exemplificada no título da obra de 1974 Pão & Fonema, que sintetiza a filosofia de alimentar o corpo (pão/sobrevivência) e o espírito (fonema/identidade). Na sua poesia, as crianças são "magras como violas", as rochas fundem-se com o peito e as ilhas alimentam-se de fonemas, transfigurando o sofrimento da seca numa gramática de resistência.
"Corsino Fortes: O Poeta da Utopia e da Modernidade Cabo-Verdiana"
A obra magna de Fortes, reunida no volume A Cabeça Calva de Deus, compõe-se de três momentos essenciais que formam uma trilogia épica. Pão & Fonema (1974) é o grito da fome que se transforma em consciência e verbo; Árvore & Tambor (1986) celebra as raízes e a cultura rítmica africana; Pedras de Sol & Substância (2001) consolida a nação como entidade mineral, eterna e soberana. Esta estrutura reflete a evolução da utopia cabo-verdiana, da luta anticolonial à consolidação identitária.
ILHA
Corsino Fortes (A Cabeça Calva de Deus)
Sol & semente: raiz & relâmpago
Tambor de som
Que floresce
A cabeça calva de Deus.
O poema abre com a díade explosiva "Sol & semente: raiz & relâmpago", evocando geração vital e violência criadora — luz solar e semente germinativa que se enraízam na terra árida, mas irrompem como relâmpagos vulcânicos. Segue "Tambor de som / Que floresce", onde o ritmo africano não apenas pulsa, mas gera vida orgânica e cultural, transformando som em florescência.
Culmina na "cabeça calva de Deus", metáfora‑título da obra magna: uma divindade despida, mineral e solar que preside à epopeia cabo-verdiana — ilha como crânio nu exposto ao sol, gerador de utopia nacional. Este micro-poema sintetiza a fusão corpo‑geologia‑história central na obra do "Poeta da Utopia".
Ditongo de Leite e Sangue: O Berço de Corsino Fortes
Corsino António Fortes nasceu a 14 de fevereiro de 1933 em Mindelo, São Vicente — a capital cultural de Cabo Verde. Filho de uma família que encarnava a resiliência insular, o seu nascimento ocorreu num Mindelo que era, simultaneamente, um porto cosmopolita de marujos e músicos e um cenário de profundas carências sociais. Esta dualidade entre o "sonho oceânico" e a "seca interior" foi a primeira lição da sua vida. A sua infância foi marcada pelo ritmo das ruas mindelenses, onde a morna ecoava como crónica da alma e o cais de Pidjiguiti servia de janela para o mundo. Corsino cresceu num ambiente de diáspora viva: entre marinheiros que partiam e mulheres que esperavam, a viola e o funaná eram o "pão quotidiano" que alimentava a esperança contra a fome. A figura materna e o núcleo familiar foram centrais, representando o "ventre-rocha" que, mesmo na escassez, protegia a identidade e a dignidade.
"Cada criança / É ditongo de leite com sangue nas vogais."
Ditongo de Leite e Sangue: O Berço de Corsino Fortes
Neste cenário de rocha nua e vulcânica, o jovem Corsino desenvolveu uma sensibilidade telúrica. Ele observava as "crianças nuas e magras como violas" (que mais tarde imortalizaria em poesia), compreendendo precocemente que o crioulo era o fonema vital de resistência. A sua infância foi a escola da "geografia árida", onde aprendeu a ler o mundo através dos pés nus sobre a pedra e da tensão constante entre a falta de água e a imensidão do mar. O seu percurso académico iniciou-se no Mindelo, culminando no histórico Liceu Gil Eanes. Este liceu foi o seu grande laboratório intelectual. Ali, Corsino Fortes absorveu a cultura clássica e os ideais da geração Claridade, mas começou também a germinar a sua própria "utopia": a necessidade de uma linguagem que não apenas lamentasse o destino, mas que fundasse uma nação. Foi neste ambiente estudantil que a fusão entre a tradição oral das ilhas e a erudição literária se consolidou.
A sólida formação inicial no Mindelo deu-lhe as ferramentas para, em 1966, licenciar-se em Direito pela Universidade de Lisboa. No entanto, o seu pensamento nunca saiu verdadeiramente de São Vicente; os seus primeiros estudos foram o alicerce para transformar a vivência da criança faminta no Mindelo na epopeia de um povo. Corsino partiu para o mundo como jurista, mas levou consigo a gramática de sangue e sol que aprendeu no cais da sua infância.
"Casa dos Estudantes do Império: De Lisboa à Revolução de Corsino Fortes"
A chegada de Corsino Fortes a Lisboa para cursar Direito na Universidade de Lisboa marcou uma viragem decisiva na sua trajetória. A capital portuguesa dos anos 50 e 60 funcionava como um caldeirão de efervescência intelectual e clandestinidade política, sendo o ponto de encontro obrigatório para os jovens africanos que viriam a liderar os movimentos de libertação, como Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Pedro Pires. A Casa dos Estudantes do Império (CEI), ativa até 1965, foi o epicentro dessa transformação. Ali, Fortes conviveu com o núcleo duro da luta anticolonial africana — Agostinho Neto, Marcelino dos Santos e Eduardo Mondlane. Este ambiente de tertúlias culturais e políticas incendiou a sua consciência revolucionária, transformando o jovem mindelense num militante da utopia pan-africana. Foi através deste contacto transnacional que compreendeu que a causa de Cabo Verde estava intrinsecamente ligada à libertação de todo o continente. Durante este período, colaborou ativamente na revista "Mensagem" (da CEI), utilizando a literatura como uma arma de denúncia contra o sistema colonial.
"Descem crianças nuas e magras como violas / As costelas dentro das cordas."
"Casa dos Estudantes do Império: De Lisboa à Revolução de Corsino Fortes"
A Lisboa dos anos 60 pulsava com o Neo-realismo tardio de figuras como Sophia de Mello Breyner Andresen, Miguel Torga e Carlos de Oliveira. Embora tenha absorvido esta estética de intervenção social, Fortes operou uma rutura original: recusou o lirismo social tradicional para abraçar um rigor técnico e formal mais próximo do concretismo brasileiro e da "poética da pedra" de João Cabral de Melo Neto. A sua escrita passou a caracterizar-se por uma sintaxe quebrada, grafismo concreto e pelo uso do fonema como sustento vital, distanciando-se do realismo descritivo português. Licenciou-se em 1966 com uma tese sobre Direito do Trabalho, mas a sua passagem por Lisboa deixou-o com uma tensão criativa irresolúvel: de um lado, a erudição da biblioteca clássica europeia; do outro, a memória viva da fome e do cais de Pidjiguiti. Esta dualidade preparou o terreno para a sua maturidade literária. Ao partir para Angola para exercer como juiz, Fortes já levava consigo a "gramática revolucionária" que explodiria em "Pão & Fonema" (1974), obra que refundou a modernidade literária cabo-verdiana.
"Nascemos do vulcão, mas crescemos pelo abraço."
Entre a Herança e a Rutura: A Superação da Geração Claridade
Corsino Fortes herda a Claridade (1936) — revista fundacional da literatura cabo-verdiana criada por Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes — mas rompe radicalmente com o seu lirismo saudosista e "evasionista". Fortes reconhece em Baltasar Lopes o pioneiro da consciência crioula e da língua mestiça, mas critica a poesia Claridade por contemplar a seca em vez de a combater. Se Lopes cantava a "ilha mítica" e a "tristeza das ilhas", Fortes dinamita essas imagens, erguendo "rochas no peito" para construir a nação real. Esta tensão filial marca toda a sua obra: uma reverência formal (rigor linguístico herdado) combinada com uma revolução temática (ação política).
Fortes não chega a publicar na Claridade original (que encerrou em 1960), mas dialoga com ela em Pão & Fonema (1974), transformando o "pão da poesia" de Baltasar no "pão & fonema" revolucionário — onde a cultura é ação.
A sua superação da estética claridosa é total: substitui o lamento pela epopeia. Onde os seus mestres viam a tragédia passiva, Fortes ergue "Djone despido" em cortejo orgíaco e a militância do P.A.I.G.C. como "potência fálica & famélica" da construção nacional. Este é o "parricídio necessário" para fundar a modernidade literária cabo-verdiana.
A revista renasceria em 1998, com o apoio e a bênção de Corsino Fortes, que se consolidou, assim, como a ponte viva entre a utopia contemplativa e a utopia concreta da independência.
"Onde o pão falta / O fonema alimenta."
"Poemas (1957): Da Rocha Viva à Gramática Telúrica de Fortes"
Poemas (1957), a obra de estreia de Corsino Fortes aos 24 anos, revela já um realismo telúrico que funde a dureza vulcânica de Cabo Verde com a mestiçagem crioula essencial à identidade insular. Este volume é o precursor fundamental da rutura épica que o autor operaria na década de 70. Fortes retrata a geografia árida sem o saudosismo característico da geração Claridade. São Vicente surge como rocha viva e a seca não é alvo de lamento, mas sim de uma descrição em pormenor cru: o solo negro, os pés famintos e o mar como uma fronteira inescapável. Esta terra palpável prefigura os "pés nus sobre o pão da manhã" das suas obras maduras, ancorando, desde cedo, o corpo no basalto insular.
"Poemas (1957): Da Rocha Viva à Gramática Telúrica de Fortes"
Nesta fase, o crioulo emerge como uma língua híbrida: um português tensionado por ritmos africanos, onde a morna e o funaná se infiltram na sintaxe. Fortes não idealiza a mestiçagem; vive-a como uma estratégia de sobrevivência quotidiana. O fonema aparece já como o "leite materno" misturado ao sangue da ilha, antecipando o célebre verso de Porta de Sol: "cada criança / é ditongo de leite / com sangue nas vogais". Poemas (1957) marca o intervalo exato entre a contemplação da Claridade e a revolução de Pão & Fonema. É um realismo ainda intimista, mas já carregado com a consciência nacionalista que Fortes começava a consolidar nos seus contactos em Lisboa. É aqui que o autor testa a gramática telúrica que, anos mais tarde, deixaria de apenas descrever a rocha para passar a dinamitá-la em nome da construção da nação.
Do Poeta ao Estadista: Fortes e a Militância PAIGC"
Corsino Fortes transforma-se de poeta insular em intelectual militante durante os anos 60 e 70, alinhando a sua utopia literária à luta pela independência através do PAIGC, sob a égide do pensamento de Amílcar Cabral. A sua militância foi a ponte entre a erudição jurídica e a resistência no terreno. Após licenciar-se em Direito (1966), Fortes exerceu como juiz em Angola, onde testemunhou de perto as engrenagens da opressão colonial. Com a vitória dos movimentos de libertação, assumiu um papel histórico: foi o primeiro Embaixador de Cabo Verde em Portugal (1975–1981). Neste cargo, não foi apenas um diplomata, mas o rosto da utopia concretizada, negociando a transição soberana e protegendo a dignidade da diáspora. Ocupou ainda cargos de relevo como Ministro da Justiça, articulando sempre a ética política com a substância cultural.
"Pão e fonema / No mesmo ventre de terra e de grito."
Do Poeta ao Estadista: Fortes e a Militância PAIGC"
Na sua obra, o "P.A.I.G.C." é elevado a mito fundacional. Fortes descreve o partido como a "potência fálica da terra + potência famélica do povo", fundindo a fome insular com a mística da guerrilha. O massacre de Pidjiguiti (1959) é transfigurado em bandeira poética, simbolizando a união indissolúvel entre África, Guiné e Cabo Verde. Sob a liderança de Cabral, a quem chama de "Estrela da manhã", Fortes desenha a independência como uma "árvore de Boé" plantada no meio do Atlântico. Até ao fim da vida, Fortes trabalhou para que a independência fosse um facto cultural vivo. Presidiu à Associação dos Escritores Cabo-Verdianos e fundou a Academia Cabo-verdiana de Letras em 2013.
"Potência Fálica & Famélica: P.A.I.G.C. em Corsino Fortes"
P.A.I.G.C.
É a potência fálica da terra + a potência famélica do povo
É o povo de coração em marcha sob a bandeira de Pidjiguiti
É a árvore de Boé + a proa do arquipélago que abafroa
No umbigo da colónia
A caravela da opressão secular
É o tambor da história + o ovo da concórdia
Que devolve
Á libertaria África
A dupla fatia do seu patrimônio
É o braço do povo + o corpo da terra toda ela
De peito aberto De pátria aberta
É a Estrela da manhã
No sangue
Na alvorada
Na árvore
De todos nós
II
Amílcar!
Há hélice & sonho
na raiz da árvore que tomba
Há sangue & ombro
na pele do tambor que rompe
É da pedra do Sol Que move
O sangue e o rosto da pirâmide
Não há Janeiro
Não há Novembro
Que não seja
Uma península de dor
Entre duas bandeiras
"P.A.I.G.C.", de Corsino Fortes na trilogia A Cabeça Calva de Deus, é um hino épico ao Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, fundindo "potência fálica da terra + potência famélica do povo" numa marcha libertadora. O poema enumera o partido como "povo de coração em marcha sob a bandeira de Pidjiguiti", "árvore de Boé + proa do arquipélago", "tambor da história + ovo da concórdia" que rompe "a caravela da opressão secular" para devolver à África a "dupla fatia do seu patrimônio". Culmina no "braço do povo + corpo da terra toda ela / De peito aberto De pátria aberta", com Amílcar Cabral como "Estrela da manhã / No sangue / Na alvorada / Na árvore / De todos nós".
Na seção II, dirigindo-se a "Amílcar!", Fortes exalta a violência transformadora: "Há hélice & sonho / na raiz da árvore que tomba / Há sangue & ombro / na pele do tambor que rompe". A "pedra do Sol" move a pirâmide revolucionária, transcendendo tempo colonial — "Não há Janeiro / Não há Novembro / Que não seja / Uma península de dor / Entre duas bandeiras" —, convertendo sofrimento em luta entre opressão e liberdade.
Fortes eleva o P.A.I.G.C. a mito fundacional da nação: partido como corpo erótico-faminto guiado por Cabral, unindo Guiné-Bissau e Cabo Verde contra o colonialismo português, num cume político da sua poética épica.
"Redes Diplomáticas: De Angola ao Brasil, o Laboratório de Fortes"
Corsino Fortes iniciou o seu serviço jurídico nos anos 60 como juiz do trabalho em Angola (após licenciar-se em Lisboa, em 1966). Em Luanda e Benguela, testemunhou as engrenagens do colonialismo tardio: a exploração laboral, a fome urbana e a efervescência da guerrilha. Este período foi o seu laboratório sociológico; o Direito do Trabalho tornou-se uma "aula de injustiça" que irrigaria diretamente a obra Pão & Fonema. A "potência famélica do povo" que Fortes descreve nasceu da sua experiência nos tribunais coloniais, onde a lei portuguesa colidia com a realidade africana. Nas suas passagens e contactos consulares pelo Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo), Fortes operou uma síntese estética fundamental. Ao contactar com a obra de João Cabral de Melo Neto e com os movimentos concretistas, absorveu o rigor fonético e a secura estilística que viriam a explodir na sua sintaxe quebrada. Simultaneamente, as redes intelectuais afro-brasileiras reforçaram a sua visão da caboverdianidade como uma mestiçagem vibrante e resistente, longe do lamento colonial.
"A ilha roda no rosto da criança / Com a 'vareta presa' na roda do vento."
"Redes Diplomáticas: De Angola ao Brasil, o Laboratório de Fortes"
Pós-Revolução dos Cravos (1974), Fortes assumiu o papel histórico de primeiro Embaixador de Cabo Verde em Portugal (1975–1981). Foi ele quem negociou os termos da soberania, o repatriamento da diáspora e os novos laços culturais entre os dois países. Fortes transformou o espaço da antiga administração colonial no palco da "proa do arquipélago", provando que a diplomacia era, para ele, uma extensão da sua epopeia literária. Serviu também como Embaixador em Angola, consolidando o eixo de cooperação sul-sul. Em 2025, o percurso diplomático de Corsino Fortes é celebrado como o modelo do "intelectual-estadista". O seu trabalho nos tribunais de Angola e nas embaixadas de Lisboa e Luanda permitiu que Cabo Verde passasse de um arquipélago esquecido a uma nação com voz soberana. Como fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras em 2013, ele garantiu que a "diplomacia do fonema" continuasse a elevar a cultura cabo-verdiana ao plano universal
"Cabo Verde não é um país pequeno; é um país disperso que o mar tenta unir."
Legado Institucional: TCV e Academia de Letras de Fortes"
Corsino Fortes consolidou o seu papel como o grande fundador institucional da cultura cabo-verdiana pós-independência, provando que o poeta não deve apenas cantar a nação, mas também construir as suas infraestruturas duradouras.
Nos anos 80, enquanto exercia funções ministeriais e de governação, Fortes foi o principal impulsionador da criação da Televisão de Cabo Verde (TCV), inaugurada em 1986. Ele via no primeiro canal televisivo nacional uma plataforma vital para difundir a morna, o funaná, a língua crioula e a poética insular para o mundo. Sob a sua visão, a televisão transformou-se no "tambor de som" da modernidade, ligando as ilhas e a diáspora e ecoando os ritmos de Pão & Fonema para as novas gerações urbanas.
"A cultura é a única arma que não mata, mas que vence todas as guerras."
Legado Institucional: TCV e Academia de Letras de Fortes"
Em 2013, já na maturidade da sua carreira, Fortes presidiu à fundação da Academia Cabo-verdiana de Letras (ACL), que idealizou como a guardiã da língua mestiça e da identidade nacional. Ao institucionalizar o "fonema vital", criou uma barreira contra a homogeneização da globalização, assegurando que a tradição da Claridade continuasse a ser renovada pelas gerações pós-Fortes. O legado de Fortes demonstra que o intelectual militante deve construir os seus próprios canais (TV) e os seus próprios templos (Academias). O seu percurso institucional transformou o conceito de "Pão & Fonema" numa política cultural viva, unindo indissociavelmente a ilha, o ecrã e a página literária.
"Escrevo para que a minha terra deixe de ser um parágrafo de fome na história do mundo."
"A Obra Poética: Epopeia Insular de Fortes"
Corsino Fortes edificou uma epopeia insular moderna através da sua trilogia monumental, A Cabeça Calva de Deus. Ao longo de quase três décadas, o autor uniu os temas da fome, da resistência e da identidade cabo-verdiana em poemas de fôlego que narram a nação como um arquipélago vivo e soberano. A obra organiza-se num ciclo de crescimento que acompanha a própria história do país:
Pão & Fonema (1974): O ponto de partida. Lançado no ano da Revolução dos Cravos, foca-se nas secas cíclicas e no grito pela palavra libertadora. Simboliza a fome e a revolta do povo contra o colonialismo, onde o "fonema" surge como o sustento espiritual necessário para a libertação.
Árvore & Tambor (1986): Representa a materialização do "pão" através dos ritmos de construção nacional. Evoca a semente, a ligação à terra e a força da diáspora, transformando a luta pela independência numa celebração rítmica e coletiva.
"A ilha roda no rosto da criança / Com a 'vareta presa' na roda do vento."
"A Obra Poética: Epopeia Insular de Fortes"
Pedras de Sol & Substância (2001): O encerramento do ciclo épico. Aqui, a pedra deixa de ser símbolo de esterilidade para se tornar memória e paraíso insular. É a celebração da maturidade da nação, onde a luz do sol se funde com a substância da liberdade reconquistada.
Fortes reinventou o género épico ao afastar-se das formas clássicas. Utilizou versos livres, infiltrações do crioulo e "cartogramas" poéticos das ilhas, fundindo erotismo, profecia e identidade mestiça. A sua escrita não é apenas narrativa; é plástica e visual, tratando cada palavra como um elemento mineral. Composta por um total de 4.055 versos, a trilogia canta a "cabeça calva de Deus" — uma metáfora para a paisagem árida e vulcânica de Cabo Verde que, na mão de Fortes, se torna um território de fertilidade estética inesgotável. Ele provou que a insularidade não é uma prisão, mas a proa de um navio voltado para o infinito.
"A poesia é o tambor que acorda a pedra."
Corsino Fortes: A Cabeça Calva de Deus — Trilogia Épica da Nação Cabo-Verdiana
Corsino Fortes construiu a sua obra poética essencial em torno da trilogia épica A Cabeça Calva de Deus (2001), que reúne Pão & Fonema (1974), Árvore & Tambor (1986) e Pedras de Sol & Substância (2001). Esta estrutura dialógica reflete o percurso histórico e identitário de Cabo Verde, desde a luta pela sobrevivência em ilhas áridas até à construção de uma nação independente, transformando a insularidade em metáfora viva do povo.Pão & Fonema abre o ciclo com o “chão de povo, chão de pedra”, evocando seca, fome, emigração e passividade perante a opressão colonial, contrapostas à palavra como fonema-grito de liberdade e semente de esperança. Os cantos exploram o corpo insular — rostos, pulmões, mãos — como palco de resistência, culminando no “pão & patrimônio” que clama pela rutura revolucionária e pela germinação cultural.
Corsino Fortes: A Cabeça Calva de Deus — Trilogia Épica da Nação Cabo-Verdiana
Árvore & Tambor aprofunda a materialização do pão através de ritmos ancestrais, sol e semente, incorporando a oralidade cabo-verdiana — morna, tambor — numa poética de comunicabilidade atlântica e produção coletiva. Aqui, o poeta renova a tradição oral, fundindo erotismo, denúncia social e expectativa de aurora nacional, com o povo a “chover gota a gota” a sua chuva de séculos.
Pedras de Sol & Substância encerra o arco com dimensão telúrica e cósmica, celebrando a pedra como alicerce arqueológico e cultural das ilhas, num tom pictórico e musical que substancializa a identidade crioula. A trilogia funda, assim, Cabo Verde como pátria poética, em constante reinvenção, cruzando história, memória coletiva e épica da independência.
Pão & Fonema: Do Chão de Pedra ao Fonema Libertador
Pão & Fonema (1974), livro de estreia de Corsino Fortes e primeiro volume da trilogia épica A Cabeça Calva de Deus, é um longo poema dividido em três cantos que dramatiza a luta pela sobrevivência do povo cabo-verdiano sob o jugo colonial português, fundindo fome física com aspiração à palavra libertadora. Publicada no ano da Revolução dos Cravos, a obra soma cerca de 1.300 versos em edição Sá da Costa (1980), com cartogramas do arquipélago e versos livres assimétricos que evocam tradição oral mindelense e modernidade experimental.
O Canto I — Tchon de pove tchon de pedra retrata o ciclo implacável da seca insular (“ano a ano / crânio a crânio”), com imagens telúricas de crânios ancestrais, “poços de pedra / Abertos / No olho da cabra” e membros de terra que explodem na boca das ruas, simbolizando imobilidade faminta e passividade perante a opressão. Fortes transforma a geologia árida em corpo colectivo sofrido, contrapondo a “estátua de pão só” à promessa quebrada da terra No Canto II — Pão & patrimônio, o tom vira clamor revolucionário: o “agora” da independência irrompe como grito fonético (“De boca a barlavento”), exaltando mãos que trabalham e cantam a rutura anticolonial, com o povo a navegar “com pés menos pés / De proteínas” rumo à liberdade. Aqui materializa-se a ponte entre fome e herança cultural, num apelo à germinação nacional.
Pão & Fonema: Do Chão de Pedra ao Fonema Libertador
O Canto III consuma a alquimia poética: o fonema-grito torna-se pão substantivo (“mãe é ilha nua / Por Dezembro rasgando / O seu inverno de chita”), com ritmo de morna e tambor que reinventa o épico africano, fundindo crioulismos, prosaísmo moderno e erotismo à construção da identidade cabo-verdiana pré-1975.Em última análise, Pão & Fonema não é apenas um lamento sobre a aridez; é um ato de refundação linguística. Ao subverter a sintaxe portuguesa com a cadência do crioulo e a mística da morna, Fortes prova que a independência de Cabo Verde começou na palavra. O livro estabelece que a soberania nacional exige tanto o 'pão' que sacia a fome física quanto o 'fonema' que resgata a dignidade histórica, fundando assim a base da épica cabo-verdiana contemporânea.
Proposição
Ano a ano
crânio a crânio
Rostos contornam
o olho da ilha
Com poços de pedra
Abertos
No olho da cabra
E membros de terra
explodem
na boca das ruas
Estátua de pão só
Estátuas de pão sol
Ano a ano
crânio a crânio
Tambores rompem
a promessa da terra
Com pedras
Devolvendo às bocas
As suas veias
De muitos remos
poema telúrico da trilogia Pão & Fonema (1974)
"Proposição": terra, fome e rebelião na poética telúrica de Corsino Fortes
O poema estrutura-se em dois estrofes principais com refrão repetido ("ano a ano / crânio a crânio"), criando um ritmo hipnótico e circular que evoca a temporalidade cíclica das secas e fomes cabo-verdianas, onde rostos ancestrais — "crânio a crânio" — contornam o "olho da ilha", simbolizando vigilância insular ferida por "poços de pedra / abertos / no olho da cabra". Na primeira estrofe, "membros de terra / explodem / na boca das ruas" como "estátua de pão só / estátuas de pão sol", fundindo imagens de erupção vulcânica (terra viva do Fogo/Mindelo), fome ("pão só") e aspiração solar, representando a explosão vital do povo perante a miséria. A segunda retoma o refrão com "tambores rompem / a promessa da terra / com pedras", rompendo o fatalismo claridoso da terra estéril, para devolver "às bocas / as suas veias / de muitos remos" — metáfora da emigração marítima coletiva que alimenta a diáspora e a resistência nacional. Telúrico, sonoro e ritualístico, o texto de Pão & Fonema (1974) afirma a caboverdianidade mestiça através de fonemas orais mindelenses, contrastando sofrimento animal/insular com rebelião poética pré-independência, ecoando a herança de Claridade.
"Konde Palmanhã Manchê": palma manchada e soberania crioule em Corsino Fortes
Konde Palmanhã Manchê
Ó Konde
Ó Konde palmanhã manchê
Konde note ftcha ftchode
E palmanhã manchê
C’pê plantode na tchon
E terra na coraçon
Konde sangue rasgâ na corpe
Arve de broçe aberte
E smente gritâ na rotcha
Tambor de boca verde
E daquel som
Ma quell sangue soldode
Nascê boca
boca centrodeboca rasgode Na roda de sol
Ó Konde palmanhã manchê
E Criste bem dsê morada
El bem ta bem
Pa broçe direita de Monte Cara
C’se cobe d’enxada
Ma se calçon drill
C’se pê na tchon
Ma se dede quebrode
Bem sentâ
Na pedra radonde dnôs fogon
Sem tchuva na mon
Sem fraqueza na sangue
E sem corve na coraçon
Ó Konde
Ó Konde palmanhã manchê
Ó Konde palmanhã manchê
Sem dsuspère pundrode
Na bandêra de porta
Sem lanterna cindide
Na robe de burre
Pa naufroge de navi
Sem navi quebrode
Na boca de pove
E mar bem olte! brobe!
dsusperodeBen quebrâ na Praia Grande
Sês broçe gorde de pecode
E mar bem
Na se luxe
E na se grandèza!
Se mostre
De mar erguide na pêto
Se mapa bronque
Desenhode n’alma
Bem bidê na colónia dnha boca
Tod’aquel negoce dnha sangue ultramarine
tradução livre para português europeu do poema "Konde Palmanhã Manchê" (Quando a Manhã Amanhecer), de Corsino Fortes.
O poema "Konde Palmanhã Manchê", de Corsino Fortes, é um hino Crioulo em estrutura tripartida que invoca a "palma da mão manchada" como símbolo da mão trabalhadora cabo-verdiana, clamando pela terra prometida contra o sofrimento colonial.
Celebra a caboverdianidade resiliente em kriolu mindelense, fundindo terra, mar e corpo num lamento-utopia de Pão e Fonema (1974), primeira parte de A Cabeça Calva de Deus.
Na primeira estrofe, contrapõe dor telúrica ("sangue rasgâ na corpe", "semente gritâ na rotcha") a vitalidade ritual ("tambor de boca verde", "boca centrodeboca rasgode / Na roda de sol"). A segunda evoca naufrágio e resistência marítima ("mar erguide na pêto", "mapa bronque / Desenhode n’alma"), transformando "negoce dnha sangue ultramarine" em soberania mestiça na Praia Grande. A terceira sitúa Cristo na paisagem insular (Monte Cara, fogon), exaltando firmeza sem fraqueza ("Sem tchuva na mon / Sem fraqueza na sangue").
Tradução livre para português europeu do poema "Konde Palmanhã Manchê" (Quando a Manhã Amanhecer), de Corsino Fortes.
Quando a Manhã Amanhecer
Ó Quando
Ó Quando a manhã amanhecer
Quando a noite fechar fechada
E a manhã amanhecer
Com o pé plantado no chão
E a terra no coração
Quando o sangue rasgar no corpo
Árvore de braços abertos
E a semente gritar na rocha
Tambor de boca verde
E daquele som
Com aquele sangue soldado
Nascer boca
Boca centrada / boca rasgada
Na roda do sol
Ó Quando a manhã amanhecer
Sem desespero pendurado
Na bandeira da porta
Sem lanterna acesa
No rabo do burro
Para naufrágio de navio
Sem navio quebrado
Na boca do povo
E o mar vem alto! bravo! desesperado
Vem quebrar na Praia Grande
Os seus braços gordos de pecado
E o mar vem
No seu luxo
E na sua grandeza!
O seu monstro
De mar erguido no peito
O seu mapa branco
Desenhado na alma
Vem ver na colónia da minha boca
Todo aquele negócio do meu sangue ultramarino
Ó Quando a manhã amanhecer
E Cristo vier dizer morada (viver connosco)
Ele vem, ele vem bem
Pelo braço direito do Monte Cara
Com o seu cabo de enxada
Com as suas calças de cotim (drill)
Com o seu pé no chão
Com o seu dedo quebrado
Vem sentar-se
Na pedra redonda do nosso fogão
Sem chuva na mão
Sem fraqueza no sangue
E sem corvo no coração
Ó Quando
Ó Quando a manhã amanhecer
Este poema é um exemplo fascinante da "mestiçagem do verbo" do autor, escrito em crioulo de São Vicente. Nele, Fortes utiliza figuras bíblicas (Cristo) e geográficas (Monte Cara) para falar da libertação e da dignidade do povo cabo-verdiano.
"Dinamitar Rochas no Peito: Culpa Insular em Corsino Fortes"
"Pecado Original", de Corsino Fortes, incluído em Pão & Fonema (1974), apresenta um eu lírico que confessa a sua passagem corrosiva pelo mundo, deixando marcas de destruição em tudo o que toca. O poema organiza-se em quatro estrofes curtas e assimétricas, com repetições ritmadas como "Mais negros", "Tão velhas" e "Não poder fugir", que intensificam o peso cumulativo das ações descritas. A sintaxe fragmentada, com verbos isolados e elipses, simula o avançar pesado e inevitável do sujeito, como pisadas que vão minando o solo insular.
Na primeira estrofe, "Passo pelos dias / E deixo-os negros / Mais negros / Do que a noute brumosa" instaura uma contaminação temporal: o eu escurece o dia, invertendo a ordem natural e evocando uma escuridão bíblica adaptada à experiência cabo‑verdiana. Segue-se o olhar devastador na segunda: "Olho para as coisas / E torno-as velhas / Tão velhas / A cair de carunchos", onde o mero acto de ver envelhece e corrói a matéria até à podridão, sugerindo um poder corrosivo inerente à visão do sujeito.
A terceira estrofe materializa as pegadas físicas: "Só charcos imundos / Atestam no solo / As pegadas do meu pisar / E fica sempre rubro vermelho / Todo o rio por onde me lavo", pintando uma culpa indelével — lama e sangue que poluem terra e água, símbolos essenciais da geografia e identidade das ilhas. O clímax irrompe na quarta: "E não poder fugir / Não poder fugir nunca / A este destino / De dinamitar rochas / Dentro do peito", fundindo corpo humano e geologia vulcânica de Cabo Verde num acto de violência interna que é tragédia e, paradoxalmente, potencial revolucionário.
O "pecado original" aqui transcende a culpa cristã tradicional, assumindo-se como consciência trágica do ser‑ilha: o eu carrega uma força destrutiva que corrói tempo, matéria e corpo, mas prepara uma transformação explosiva — ecoando a luta anticolonial e a construção da nação cabo‑verdiana na poética épica de Fortes.
Pecado Original
Passo pelos dias
E deixo-os negros
Mais negros
Do que a noute brumosa.
Olho para as coisas
E torno-as velhas
Tão velhas
A cair de carunchos.
Só charcos imundos
Atestam no solo
As pegadas do meu pisar
E fica sempre rubro vermelho
Todo o rio por onde me lavo.
E não poder fugir
Não poder fugir nunca
A este destino
De dinamitar rochas
Dentro do peito...
"Orça o Teu Leme: Libertação Solar em 'Girassol' de Corsino Fortes"
Girassol
Girassol
Rasga a tua indecisão
E liberta-te.
Vem colar
O teu destino
Ao suspiro
Deste hirto jasmim
Que foge ao vento
Como
Pensamento perdido.
Aderido
Aos teus flancos
Singram navios.
Navios sem mares
Sem rumos
De velas rotas.
Amanheceu!
Orça o teu leme
E entra em mim
Antes que o Sol
Te desoriente
Girassol!
"Girassol", de Corsino Fortes, incluído em Pão & Fonema (1974), é um apelo imperativo e vibrante dirigido ao girassol como símbolo de indecisão a romper para a ação libertadora. O eu lírico exorta a planta solar a "rasgar a tua indecisão / E liberta-te", colando o seu destino ao "hirto jasmim / Que foge ao vento / Como / Pensamento perdido", evocando desejo preso e errância mental num ritmo de estrofes curtas e exclamativas que criam urgência propulsora. No centro da segunda estrofe, emerge a imagem de "navios / Navios sem mares / Sem rumos / De velas rotas" aderidos aos flancos do girassol, metáfora poderosa da diáspora cabo-verdiana imóvel, embarcações fantasmas coladas ao corpo insular, aguardando o impulso para singrar. O clímax irrompe com "Amanheceu!", sinal de renascimento que obriga ação decisiva: "Orça o teu leme / E entra em mim / Antes que o Sol / Te desoriente / Girassol!", fundindo eu lírico e girassol-ilha numa fusão criadora e urgente.
Fortes transforma aqui a hesitação em revolução poética: o girassol deve romper amarras, guiar-se pelo eu (poeta/não) e navegar para identidade móvel, ecoando a aspiração anticolonial à independência de Cabo Verde. Contrastando com a destruição corrosiva de "Pecado Original", este poema convoca e acolhe, convertendo culpa interna em hino coletivo à mobilidade e construção nacional na poética épica do autor.
De pé nu sobre o pão da manhã
Desde a manhã os pés
Estão nus ao redor da ilha,
Nus de árvore nus de tambor
Joelhos de sol E volutas de poeira
Nos tornozelos
Em movimento
Desde o início
O tambor dos dedos
Sob o pão das pedras
O cão das artérias
preso
na voragem
Dos calcanhares Que agitam
Na terra polvorenta
o ponteiro dos membros
sobre a testa do mundo
Os membros o mundo o meridiano de permeio
O sarilho dos corvos na falésia Anuncia-nos
À boca do povoado
Ao vento gordo sabor a fiambre hálito
de pão novo
À beira-mar erguemos as nossas costelas
À promessa pública do mar E
À beira-mar navegamos
Com mãos menos mãos
Com pés menos pés
De proteínas
"Pés Nus no Pão das Pedras: Corpo Insular em Corsino Fortes"
"De pé nu sobre o pão da manhã", de Corsino Fortes em Pão & Fonema (1974), evoca o corpo cabo‑verdiano nu e primordial em movimento ao redor da ilha árida, pisando pedras como pão em busca de sustento e identidade coletiva. Desde a manhã, os pés nus circundam a ilha "nus de árvore nus de tambor", com "joelhos de sol" e "volutas de poeira / Nos tornozelos", num ritmo inicial que desperta o "tambor dos dedos / Sob o pão das pedras". O corpo torna‑se instrumento vivo: "o cão das artérias preso / na voragem / Dos calcanhares" agita a terra polvorenta, transformando membros em "ponteiro" que marca o "meridiano de permeio" entre o corpo e o mundo.
Corvos na falésia anunciam essa dança ao "povoado" e ao "vento gordo sabor a fiambre hálito / de pão novo", guiando o movimento à beira‑mar onde se erguem "costelas / À promessa pública do mar". Ali, o povo navega metamorfoseado — "com mãos menos mãos / Com pés menos pés / De proteínas" —, fundindo nudez faminta com aspiração marítima, numa imagem de resiliência que transcende o material para o simbólico.
Fortes celebra a nudez teimosa do povo insular: pés sobre pão‑pedra simbolizam fome agrícola, partida migratória e renascimento nacional, num hino corporal à sobrevivência anticolonial que estrutura a poética épica do livro, contrastando com a culpa individual de poemas como "Pecado Original"
"Djone Despido: Cortejo Orgíaco em Corsino Fortes"
O povo o poente o pão de permeio
Então Djone! nosso Djone
fidje de Bia ou Maria
Despe a camisa
E vendida
Passeamos tal tronco
Entre palmeiras de secura
Assim
Falucho
de orgasmo
que caminha
Ao som de palmas
Instrumentos de corda
violão & viola
Há sempre o banjo o cavaquinho
Que nos interrompem
Entre duas freguesias
E dizem
unha & bronze
Da nudez
E das árvores
Que crescem no céu da boca
E dos rios
que nascem na veia cava
E do sangue
do povo sobre o mapa
Desde o nascer E desde a nascença
Os pés o poente o meridiano de permeio
"O povo o poente o pão de permeio", de Corsino Fortes em Pão & Fonema (1974), celebra Djone — figura arquetípica do povo cabo‑verdiano — num cortejo festivo, erótico e musical que une nudez, poente e pão como mediadores entre corpo e nação insular. O poema abre com a enumeração cíclica "O povo o poente o pão de permeio", invocando "nosso Djone / fidje de Bia ou Maria" que "despe a camisa / E vendida", transformando o tronco nu num "falucho / de orgasmo / que caminha / Ao som de palmas / Instrumentos de corda / violão & viola". Esta imagem pulsa com ritmo musical, simulando o avançar rítmico entre palmeiras secas da ilha árida.
Instrumentos como "banjo o cavaquinho" interrompem entre freguesias, proclamando em diálogo poético "unha & bronze / Da nudez / E das árvores / Que crescem no céu da boca / E dos rios / que nascem na veia cava / E do sangue / do povo sobre o mapa". Aqui, Fortes funde anatomia individual (unha, veia cava) com geografia coletiva (mapa, árvores no céu da boca), exaltando a vitalidade erótica que brota da secura colonial para mapear a identidade nacional.
O ciclo fecha com "Desde o nascer E desde a nascença / Os pés o poente o meridiano de permeio", ecoando poemas anteriores e consolidando o hino épico‑festivo: Djone representa o povo em movimento orgiástico e sonoro, convertendo nudez vendida em cortejo libertador, contrastando a secura árida com a exuberância musical da cabo‑verdianidade em construção.
Porta de sol (1974)
I
Das colinas de colmo [1]
com portas de sol
Descem crianças
nuas e magras
como violas
As costelas dentro das cordas
Todas
primogénitas
do mesmo ventre
E filhas
Do mesmo vulcão E da mesma viola
Da mesma rocha E do mesmo grito
II
A ilha roda no rosto da criança
com a “vareta presa” na roda do vento
III
Nem sempre
A criança respira
um pulmão
roto de mapas
E assim
como as ilhas
Ao pôr-do-sol
Se alimentam
De fonema
Cada criança
É ditongo de leite
com sangue nas vogais
"Crianças-Violas nas Portas de Sol: Infância Insular em Corsino Fortes"
"Porta de sol" (1974), de Corsino Fortes em Pão & Fonema, evoca crianças cabo‑verdianas descendo das colinas áridas como violas nuas e magras, filhas primordiais do vulcão, rocha e grito insular, num hino à infância faminta que se nutre de fonema ao pôr do sol.
Na primeira estrofe, "Das colinas de colmo / com portas de sol / Descem crianças / nuas e magras / como violas / As costelas dentro das cordas", as primogénitas do "mesmo ventre" emergem como instrumentos vivos do sofrimento coletivo — costelas como cordas tensas —, unidas ao "mesmo vulcão E da mesma viola / Da mesma rocha E do mesmo grito", fundindo corpo infantil com geologia vulcânica e música da ilha devastada.
A segunda estrofe capta o movimento cíclico: "A ilha roda no rosto da criança / com a 'vareta presa' na roda do vento", enquanto na terceira "Nem sempre / A criança respira / um pulmão / roto de mapas", simbolizando respiração fragmentada pela diáspora e violência cartográfica colonial. Ao pôr-do-sol, como as ilhas, alimentam-se "De fonema", elevando o som à sobrevivência espiritual essencial.
O clímax fonético define cada criança como "ditongo de leite / com sangue nas vogais", metaforizando a linguagem crioula como nutrição híbrida — leite materno misturado a sangue revolucionário —, central na poética de Fortes que transforma o fonema em pão da identidade cabo‑verdiana contra a fome e o esquecimento.
Árvore & Tambor: Ritmo Produtivo e Sedução Política
Árvore & Tambor (1986), segundo volume da trilogia épica A Cabeça Calva de Deus de Corsino Fortes, aprofunda a materialização do “pão” de Pão & Fonema, celebrando os instrumentos de produção nacional e a comunicabilidade atlântica de Cabo Verde pós-independência. Publicado pelo Instituto Caboverdiano do Livro e Dom Quixote (Lisboa), com prefácio de Ana Mafalda Leite, o poema de 130 páginas estrutura-se em “Proposição & Prólogo”, cinco cantos e “Prólogo & Proposição”, numa dinâmica circular que funde ritmos locais com modernidade.
Aqui, o povo “aprendeu a chover a sua subsistência”, transformando seca em construção coletiva: árvore como matéria-prima, tambor como som sagrado e comunicador (“na árvore / está o tambor / E contra a erosão: a política da sedução”). Sons de pilão, morna e marulho florescem a “cabeça calva de Deus”, com imagens como “OVO / que cresce / No tambor da ilha / como SOL / Mordendo o umbigo de Deus”.
Árvore & Tambor: Ritmo Produtivo e Sedução Política
Fortes incorpora oralidade cabo-verdiana — “Hoje chovia a chuva que não chove” —, erotismo e intertextualidade (José Craveirinha: “Hoje queria ser apenas tambor no coração do imbondeiro”), posicionando o arquipélago no mundo através de intercâmbio cultural e ritmo persuasivo (ut musica poesis). A paisagem insular evolui: do chão pedregoso à sedução política que combate erosão, num hino à identidade crioula sustentável. Nesta obra, Fortes opera uma síntese magistral entre a técnica e a terra. Se em Pão & Fonema a palavra era um instrumento de rutura, em Árvore & Tambor ela torna-se uma tecnologia de construção. Ao fundir a intertextualidade de Craveirinha com o ritmo do pilão, o poeta estabelece que a identidade cabo-verdiana é uma 'obra aberta': um projeto sustentável que se nutre da tradição para fertilizar o futuro, provando que o tambor é, afinal, o coração batente da própria ecologia insular.
Pedras Solares: Memória Cósmica da Ilha Eterna
Pedras de Sol & Substância (2001), terceiro e último volume da trilogia épica A Cabeça Calva de Deus de Corsino Fortes, celebra a dimensão telúrica, arqueológica e cósmica da identidade cabo-verdiana, fechando o ciclo com uma poética pictórica e musical que substancializa a nação insular. Publicado simultaneamente com a edição completa da trilogia (Morais Editores, Lisboa), o poema de cerca de 1.200 versos aprofunda a “pedra solar” como alicerce cultural eterno, após a fome de Pão & Fonema e a produção de Árvore & Tambor.
Fortes transforma a geologia vulcânica em memória viva: “pedras de sol” como relíquias ancestrais que resistem ao tempo, com ritmo de cartogramas insulares e fusão cósmica (“sol mordendo o umbigo de Deus”). A ilha emerge como organismo telúrico completo — pedra, sol, substância orgânica —, celebrando a mestiçagem crioula em tom profético e sustentável, pós-independência consolidada.
Esta fase final da trilogia posiciona Cabo Verde no cosmos atlântico: das rochas áridas à substância cultural perene, com linguagem que funde oralidade, erotismo telúrico e visão universal, coroando Fortes como “poeta da utopia” que reinventa o épico africano moderno.
A Cabeça Calva de Deus: Trilogia Épica da Utopia Cabo-Verdiana
A Cabeça Calva de Deus (2001), obra magna de Corsino Fortes, reúne a trilogia épica completa — Pão & Fonema (1974), Árvore & Tambor (1986) e Pedras de Sol & Substância (2001) —, num volume de 4.055 versos que narra a epopeia da identidade cabo-verdiana desde a fome colonial até à utopia cósmica pós-independência. Publicada pelas Morais Editores (Lisboa), com prefácio de Floriano Martins e traduções em inglês, francês e italiano, a estrutura dialógica transforma a insularidade árida numa “cabeça calva de Deus”: crânio vulcânico nu, mas gerador de semente, ritmo e substância cultural.
O ciclo inicia com o “tchon de pove tchon de pedra” faminto, evolui para o “tambor da ilha” produtivo e culmina nas “pedras de sol” eternas, fundindo oralidade (morna, pilão), erotismo telúrico e fonemas revolucionários numa poética que rompe o saudosismo claridoso para fundar a nação atlântica. Fortes reinventa o épico africano moderno: ilha como organismo vivo, povo como fonema-grito que “chove a sua subsistência” contra erosão colonial.
A Cabeça Calva de Deus: Trilogia Épica da Utopia Cabo-Verdiana
A metáfora‑título — “cabeça calva de Deus” — condensa o arquipélago como divindade despida, exposta ao sol mas florescendo utopia mestiça, coroando Fortes como ponte entre Claridade e globalidade lusófona. Edição canónica, premiada em 2015, essencial para estudos pós-coloniais sobre caboverdianidade. Em última análise, A Cabeça Calva de Deus é o inventário de uma ressurreição. Ao transformar o crânio vulcânico das ilhas num útero de fonemas e luz, Corsino Fortes legou à Lusofonia uma obra-mundo. Dez anos após o seu desaparecimento físico, a trilogia permanece como o alicerce onde a 'pedra' da geografia e a 'substância' da cultura se fundem, provando que na calvície das ilhas habita, afinal, a memória inteira do futuro cabo-verdiano.
I MULHER
Sol & semente: raiz & relâmpago
Tambor de som que floresce
A cabeça calva de Deus
Isto é
Aurora que nasce do carvão da vida
Como
Flor vermelha no tambor da alma
Arco-íris que vibra no sangue do dragoeiro
A folha e o rosto
A face e a lâmpada
Da manhã plena
Assim força de ser dia
Assim
Fonte de ser diálogo
"Mulher": força cósmica e dialética na poética cabo-verdiana de Corsino Fortes
II Há quem diga
“Que o peito da mulher e a pedra mais dura
Que Deus pôs sobre a terra dos homens”
Quê terra! Quê homens!
Mas! Há quem diga
Que nos seios dela
A Via Láctea bebe o sol da forca pela
Mulher! é na palma
Palma da tua mão
Que explode a Estrela da manhã
À porta da ilha
Com a flor do teu osso
E do caos das vida! quando
A saudade é deserto longo E a areia do teu corpo Viaja
pela boca marítima do meu regresso
como e belo! bela
A frescura do teu rosto
Abrimos oásis
Na Cratera da minha alma
“Em sombra acesa”
III
Há quem diga
“Que entre o caos e o crime
Há sempre um corpo de mulher”
Mas! há quem diga…
“Se o homem traz um sonho de dentro
A mulher traz a eternidade no rosto
Isto é
Se o pai e o poder da impotência
O útero da mãe é maior que o Universo
Na estrutura dialógica, contrapõe ditados machistas ("o peito da mulher e a pedra mais dura", "entre o caos e o crime há sempre um corpo de mulher") à visão utópica do poeta: a mulher transforma deserto/saudade em regresso marítimo, impotência masculina em eternidade materna ("o útero da mãe é maior que o Universo"), afirmando-a como protagonista da caboverdianidade mestiça. Sonoro e ritualístico, evoca A Cabeça Calva de Deus com ritmo oral mindelense, celebrando a resiliência feminina insular perante o "caos das vida".
O poema, dividido em três partes, exalta a mulher cabo-verdiana como força cósmica e vital — "Sol & semente: raiz & relâmpago" —, fundindo imagens telúricas (tambor que floresce, flor no dragoeiro, oásis na cratera da alma) e celestiais (aurora do carvão, arco-íris no sangue, Via Láctea nos seios, Estrela da Manhã na palma da mão).
Sinos de Silêncio: Haicais e Canções Póstumas de Fortes
Sinos de Silêncio: Canções e Haikais (2015), última obra póstuma de Corsino Fortes publicada pela Rosa de Porcelana (Lisboa), marca ruptura radical com a trilogia épica A Cabeça Calva de Deus, adotando haicais e canções curtas num formato de 128 páginas em capa dura. Composto principalmente por haicais — forma japonesa que Fortes cultivava há anos, partilhados no Facebook —, o livro reflete meditação íntima sobre silêncio, memória e finitude, contrastando com o épico nacionalista anterior.
Os haicais condensam ilha, mar e azul ontológico em imagens mínimas (“sombrios e alegóricos, quais imperceptíveis, os sinos se diluem no semântico e morfológico azul”), explorando estados de alma com economia silábica e tensão entre luz/escuridão. Canções evocam “respingares de Hidra” e “mareações em viagem”, fundindo cosmovisão cabo-verdiana com destilações metafóricas que transcendem o cânone de Pão & Fonema.
Sinos de Silêncio: Canções e Haikais foi publicado póstumamente, meses após a morte de Corsino Fortes.
“Hoje chovia a chuva que não chove.” (Árvore & Tambor)
Corsino Fortes: A Transfiguração do Mulato na Epopeia da Nação
Corsino Fortes (1933–2015) transcende a dicotomia clássica entre síntese crioula e negritude ao fundir a mestiçagem cultural num projeto de modernidade épica. Em obras como A Cabeça Calva de Deus, a sua poética afasta-se tanto da harmonia passiva dos Claridosos como da angústia racial de outros movimentos africanos, integrando a identidade cabo-verdiana num engajamento anticolonial que não necessita de centralizar o mulato como um protagonista trágico ou isolado. Fortes herda a crioulidade do movimento Claridade, mas eleva-a. Enquanto autores como Baltasar Lopes focavam numa síntese sociológica e harmoniosa, Fortes dinamiza o "mulato" através de metáforas telúricas. O protagonista não é apenas um produto biológico, mas um ser geológico: as ilhas surgem como "rosto de mulher" e o corpo como basalto. A mestiçagem, para Fortes, é a ferramenta que permite a resistência à seca e à fome, transformando o "pão e o fonema" num património de sobrevivência coletiva.
"Depois da hora zero / E da mensagem povo no tambor da ilha / Todas as coisas ficaram públicas na boca da república"
Corsino Fortes: A Transfiguração do Mulato na Epopeia da Nação
Embora evite o essencialismo racial, Fortes incorpora a dignidade da negritude através da reabilitação da memória do trabalho escravo e das roças de São Tomé. A sua "negritude" é política e rítmica: o uso de fonemas orais, do tambor e da morna funciona como uma forma de resistência cultural ao domínio colonial. O híbrido racial surge aqui como uma figura afirmativa — um "mestiço da alma" — que utiliza a língua portuguesa para expressar uma consciência africana profunda e inalienável. Diferente da literatura moçambicana ou angolana de meados do século XX, que muitas vezes focava no conflito identitário do mulato, Fortes opta por um epos coletivo. O mulato deixa de ser uma figura secundária ou um mediador entre mundos para se tornar a própria "substância" da nação.
Através da dialética entre o "Cais de Partida" e o "Cais de Regresso", Fortes projeta uma nação em rede. Nela, a identidade cabo-verdiana é transfronteiriça: o mulato é aquele que, ao habitar a diáspora, universaliza a raiz africana. A sua poética termina por subsumir as distinções de cor numa "nação solar" utópica, onde o silêncio das montanhas e o som dos búzios ressoam uma identidade que já não precisa de escolher lados, pois ela própria é o ponto de encontro.
Linguagem Poética de Corsino Fortes: Crioulismos, Ritmo e Oralidade Mindelense
Corsino Fortes constrói uma linguagem poética que funde crioulismos mindelenses com ritmo musical e oralidade, renovando a tradição claridosa através de fonemas coletivos, mornas e mazurcas que ressoam a identidade insular cabo-verdiana. Fortes incorpora o crioulo de São Vicente (Mindelo) em poemas bilíngues, como "Tchon de pove tchon de pedra", demarcando secas, fome e labuta com termos locais que democratizam a língua portuguesa e evocam o "tambor de boca verde" do povo. Esses crioulismos — "pão & fonema", "barlavento" — criam hibridez linguística, ressignificando o português como veículo de resistência cultural anticolonial.
Linguagem Poética de Corsino Fortes: Crioulismos, Ritmo e Oralidade Mindelense
Influenciado pela morna e mazurca mindelenses, o ritmo poético simula danças e ventos: "Na morna! Na mazurca o trompete da evasão" transforma pedras em coreografias crioulas, com assonâncias e repetições que ecoam o funaná e o lamento oral. A economia verbal, inspirada em João Cabral e concretismo, gera "geometria de sangue & fonema", onde gotas de letras "gotejam" em sinestesia musical. A oralidade de trovadores e "meninas da vida" do Mindelo irrompe em haikais e canções como "De boca a barlavento", priorizando fonemas ritmados — grito, seiva, mar — que constroem epopeia coletiva, superando evasionismo para uma "cabeça calva de Deus" em rede diáspora-insular.
Corsino Fortes: Presidente da Associação e Guardião do Cânone Claridoso
Corsino Fortes presidiu a Associação dos Escritores Cabo-verdianos de 2003 a 2006, atuando como figura central na promoção da literatura nacional pós-independência. Nessa posição, elogiou publicamente Teixeira de Sousa como "um dos maiores nomes da literatura lusófona", destacando sua base científica e dimensão ensaística em obras que provam "que a morte não interrompe a vida". Sua liderança contribuiu para consolidar o cânone claridoso, ressignificando o anticolonialismo de Claridade em poéticas dinâmicas como Pão & Fonema, superando o estaticismo para uma cabo-verdianidade em rede.
Fortes liderou a entidade durante um período de maturação literária, integrando gerações claridosas e pós-claridosas, e fundou a Academia Cabo-verdiana de Letras em 2013, estabelecendo critérios de relevância para canonização. Sua gestão reforçou a transição da luta anticolonial para identidade universalista, com colaborações em revistas como Claridade e antologias africanas.
Corsino Fortes: Presidente da Associação e Guardião do Cânone Claridoso
Ao falecimento de Sousa em 2006, Fortes lamentou a perda de projetos inconclusos, exaltando romances como Xicu Garcia pela profundidade humanista e científica, alinhados à ética claridosa de comunhão com a terra. Esse tributo reflete afinidade com ficcionistas que humanizam o mulato insular, ecoando temas de mestiçagem em sua própria épica. Fortes inovou o legado de Baltasar Lopes e Armindo Vieira, transformando a "proposta claridosa" em epopeia coletiva via fonemas orais, contra o evasionismo para uma "nova largada" dialética. Sua obra e liderança institucional afirmaram o claridoso como ética estética fundacional, contestando nacionalistas dos anos 50 e ampliando-o para diáspora global
Corsino Fortes: Prémios e Legado Pós-Colonial Lusófono
Corsino Fortes recebeu o Prémio Mário António em 1994 pela sua obra Pão & Fonema, distinção atribuída pela crítica portuguesa que reconheceu a inovação épica e ritmada da sua poética anticolonial. Outros prémios incluem o Prémio Pedro Cardoso (2009) em Cabo Verde e nomeações como Grande-Oficial do Infante D. Henrique, consolidando-o como referência lusófona. O seu impacto na nova geração lusófona manifesta-se em antologias e teses que o posicionam como ponte entre claridosos e pós-independência, influenciando autores como José Luís Tavares.
Prémio Mário António de 1994 premiou a fusão de fonemas crioulos e rigor formal em Pão & Fonema, comparado a João Cabral por críticos como Carmen Secco. Fortes acumulou honrarias diplomáticas e literárias, incluindo presidência da Associação dos Escritores Cabo-verdianos (2003-2006) e fundação da Academia Cabo-verdiana de Letras.
Corsino Fortes: Prémios e Legado Pós-Colonial Lusófono
Fortes inspira poetas contemporâneos cabo-verdianos como João Vário e Arménio Vieira, que adotam sua "revolta do pão" em narrativas identitárias híbridas, ampliadas em encontros lusófonos como o da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa). Sua poética ressignifica o claridoso para diáspora global, influenciando ficcionistas moçambicanos e guineenses em antologias africanas de língua portuguesa. No Encontro da Praia, a UCCLA dedicou sessão a Fortes sob o tema "Diásporas", com intervenções do Presidente Jorge Carlos Fonseca e lançamento de prémios em seu nome, como o Prémio Corsino Fortes – BCA de Literatura (criado postumamente). Essas ações consolidaram-no como ícone da lusofonia africana, integrando sua poética a diálogos interculturais. O Prémio Corsino Fortes, parceria Academia Cabo-verdiana de Letras e BCA, premiou obras inéditas em português/crioulo desde 2018, com Jornada de Ádvena de Domingos Landim como vencedor inicial, promovido em eventos UCCLA para fomentar nova geração.
"Sou um poeta que escreve com pedras."
"Ter saudade do futuro."
"O Arquiteto do Verbo: Identidade e Modernidade na Obra de Corsino Fortes"
Helena Borralho
Created on December 29, 2025
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"O Arquiteto do Verbo: Identidade e Modernidade na Obra de Corsino Fortes"
1933-2015
"Corsino Fortes: O Poeta da Utopia e da Modernidade Cabo-Verdiana"
Corsino António Fortes (1933–2015), natural do Mindelo, São Vicente, é a figura cimeira da modernidade literária de Cabo Verde. Conhecido como o "Poeta da Utopia", a sua obra marca a transição definitiva entre o lirismo contemplativo da geração Claridade e uma nova épica nacionalista, onde a palavra é um instrumento de fundação e resistência. Licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa (1966), Fortes viveu a dualidade da diáspora e do regresso, exercendo magistratura em Angola e assumindo, com a independência de Cabo Verde em 1975, papéis fundamentais na construção do novo Estado: foi o primeiro Embaixador em Portugal, ocupou cargos ministeriais e presidiu à Associação de Escritores Cabo-Verdianos, sendo em 2013 o presidente fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras. A sua poética funde a consciência política anticolonial, alinhada aos ideais de Amílcar Cabral, com uma inovação formal radical. Fortes não apenas descreve a ilha; esculpe-a através de uma linguagem influenciada pelo concretismo e pelo rigor de João Cabral de Melo Neto. A sua escrita é telúrica e corporal, exemplificada no título da obra de 1974 Pão & Fonema, que sintetiza a filosofia de alimentar o corpo (pão/sobrevivência) e o espírito (fonema/identidade). Na sua poesia, as crianças são "magras como violas", as rochas fundem-se com o peito e as ilhas alimentam-se de fonemas, transfigurando o sofrimento da seca numa gramática de resistência.
"Corsino Fortes: O Poeta da Utopia e da Modernidade Cabo-Verdiana"
A obra magna de Fortes, reunida no volume A Cabeça Calva de Deus, compõe-se de três momentos essenciais que formam uma trilogia épica. Pão & Fonema (1974) é o grito da fome que se transforma em consciência e verbo; Árvore & Tambor (1986) celebra as raízes e a cultura rítmica africana; Pedras de Sol & Substância (2001) consolida a nação como entidade mineral, eterna e soberana. Esta estrutura reflete a evolução da utopia cabo-verdiana, da luta anticolonial à consolidação identitária.
ILHA Corsino Fortes (A Cabeça Calva de Deus) Sol & semente: raiz & relâmpago Tambor de som Que floresce A cabeça calva de Deus.
O poema abre com a díade explosiva "Sol & semente: raiz & relâmpago", evocando geração vital e violência criadora — luz solar e semente germinativa que se enraízam na terra árida, mas irrompem como relâmpagos vulcânicos. Segue "Tambor de som / Que floresce", onde o ritmo africano não apenas pulsa, mas gera vida orgânica e cultural, transformando som em florescência. Culmina na "cabeça calva de Deus", metáfora‑título da obra magna: uma divindade despida, mineral e solar que preside à epopeia cabo-verdiana — ilha como crânio nu exposto ao sol, gerador de utopia nacional. Este micro-poema sintetiza a fusão corpo‑geologia‑história central na obra do "Poeta da Utopia".
Ditongo de Leite e Sangue: O Berço de Corsino Fortes
Corsino António Fortes nasceu a 14 de fevereiro de 1933 em Mindelo, São Vicente — a capital cultural de Cabo Verde. Filho de uma família que encarnava a resiliência insular, o seu nascimento ocorreu num Mindelo que era, simultaneamente, um porto cosmopolita de marujos e músicos e um cenário de profundas carências sociais. Esta dualidade entre o "sonho oceânico" e a "seca interior" foi a primeira lição da sua vida. A sua infância foi marcada pelo ritmo das ruas mindelenses, onde a morna ecoava como crónica da alma e o cais de Pidjiguiti servia de janela para o mundo. Corsino cresceu num ambiente de diáspora viva: entre marinheiros que partiam e mulheres que esperavam, a viola e o funaná eram o "pão quotidiano" que alimentava a esperança contra a fome. A figura materna e o núcleo familiar foram centrais, representando o "ventre-rocha" que, mesmo na escassez, protegia a identidade e a dignidade.
"Cada criança / É ditongo de leite com sangue nas vogais."
Ditongo de Leite e Sangue: O Berço de Corsino Fortes
Neste cenário de rocha nua e vulcânica, o jovem Corsino desenvolveu uma sensibilidade telúrica. Ele observava as "crianças nuas e magras como violas" (que mais tarde imortalizaria em poesia), compreendendo precocemente que o crioulo era o fonema vital de resistência. A sua infância foi a escola da "geografia árida", onde aprendeu a ler o mundo através dos pés nus sobre a pedra e da tensão constante entre a falta de água e a imensidão do mar. O seu percurso académico iniciou-se no Mindelo, culminando no histórico Liceu Gil Eanes. Este liceu foi o seu grande laboratório intelectual. Ali, Corsino Fortes absorveu a cultura clássica e os ideais da geração Claridade, mas começou também a germinar a sua própria "utopia": a necessidade de uma linguagem que não apenas lamentasse o destino, mas que fundasse uma nação. Foi neste ambiente estudantil que a fusão entre a tradição oral das ilhas e a erudição literária se consolidou. A sólida formação inicial no Mindelo deu-lhe as ferramentas para, em 1966, licenciar-se em Direito pela Universidade de Lisboa. No entanto, o seu pensamento nunca saiu verdadeiramente de São Vicente; os seus primeiros estudos foram o alicerce para transformar a vivência da criança faminta no Mindelo na epopeia de um povo. Corsino partiu para o mundo como jurista, mas levou consigo a gramática de sangue e sol que aprendeu no cais da sua infância.
"Casa dos Estudantes do Império: De Lisboa à Revolução de Corsino Fortes"
A chegada de Corsino Fortes a Lisboa para cursar Direito na Universidade de Lisboa marcou uma viragem decisiva na sua trajetória. A capital portuguesa dos anos 50 e 60 funcionava como um caldeirão de efervescência intelectual e clandestinidade política, sendo o ponto de encontro obrigatório para os jovens africanos que viriam a liderar os movimentos de libertação, como Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Pedro Pires. A Casa dos Estudantes do Império (CEI), ativa até 1965, foi o epicentro dessa transformação. Ali, Fortes conviveu com o núcleo duro da luta anticolonial africana — Agostinho Neto, Marcelino dos Santos e Eduardo Mondlane. Este ambiente de tertúlias culturais e políticas incendiou a sua consciência revolucionária, transformando o jovem mindelense num militante da utopia pan-africana. Foi através deste contacto transnacional que compreendeu que a causa de Cabo Verde estava intrinsecamente ligada à libertação de todo o continente. Durante este período, colaborou ativamente na revista "Mensagem" (da CEI), utilizando a literatura como uma arma de denúncia contra o sistema colonial.
"Descem crianças nuas e magras como violas / As costelas dentro das cordas."
"Casa dos Estudantes do Império: De Lisboa à Revolução de Corsino Fortes"
A Lisboa dos anos 60 pulsava com o Neo-realismo tardio de figuras como Sophia de Mello Breyner Andresen, Miguel Torga e Carlos de Oliveira. Embora tenha absorvido esta estética de intervenção social, Fortes operou uma rutura original: recusou o lirismo social tradicional para abraçar um rigor técnico e formal mais próximo do concretismo brasileiro e da "poética da pedra" de João Cabral de Melo Neto. A sua escrita passou a caracterizar-se por uma sintaxe quebrada, grafismo concreto e pelo uso do fonema como sustento vital, distanciando-se do realismo descritivo português. Licenciou-se em 1966 com uma tese sobre Direito do Trabalho, mas a sua passagem por Lisboa deixou-o com uma tensão criativa irresolúvel: de um lado, a erudição da biblioteca clássica europeia; do outro, a memória viva da fome e do cais de Pidjiguiti. Esta dualidade preparou o terreno para a sua maturidade literária. Ao partir para Angola para exercer como juiz, Fortes já levava consigo a "gramática revolucionária" que explodiria em "Pão & Fonema" (1974), obra que refundou a modernidade literária cabo-verdiana.
"Nascemos do vulcão, mas crescemos pelo abraço."
Entre a Herança e a Rutura: A Superação da Geração Claridade
Corsino Fortes herda a Claridade (1936) — revista fundacional da literatura cabo-verdiana criada por Baltasar Lopes, Jorge Barbosa e Manuel Lopes — mas rompe radicalmente com o seu lirismo saudosista e "evasionista". Fortes reconhece em Baltasar Lopes o pioneiro da consciência crioula e da língua mestiça, mas critica a poesia Claridade por contemplar a seca em vez de a combater. Se Lopes cantava a "ilha mítica" e a "tristeza das ilhas", Fortes dinamita essas imagens, erguendo "rochas no peito" para construir a nação real. Esta tensão filial marca toda a sua obra: uma reverência formal (rigor linguístico herdado) combinada com uma revolução temática (ação política). Fortes não chega a publicar na Claridade original (que encerrou em 1960), mas dialoga com ela em Pão & Fonema (1974), transformando o "pão da poesia" de Baltasar no "pão & fonema" revolucionário — onde a cultura é ação. A sua superação da estética claridosa é total: substitui o lamento pela epopeia. Onde os seus mestres viam a tragédia passiva, Fortes ergue "Djone despido" em cortejo orgíaco e a militância do P.A.I.G.C. como "potência fálica & famélica" da construção nacional. Este é o "parricídio necessário" para fundar a modernidade literária cabo-verdiana. A revista renasceria em 1998, com o apoio e a bênção de Corsino Fortes, que se consolidou, assim, como a ponte viva entre a utopia contemplativa e a utopia concreta da independência.
"Onde o pão falta / O fonema alimenta."
"Poemas (1957): Da Rocha Viva à Gramática Telúrica de Fortes"
Poemas (1957), a obra de estreia de Corsino Fortes aos 24 anos, revela já um realismo telúrico que funde a dureza vulcânica de Cabo Verde com a mestiçagem crioula essencial à identidade insular. Este volume é o precursor fundamental da rutura épica que o autor operaria na década de 70. Fortes retrata a geografia árida sem o saudosismo característico da geração Claridade. São Vicente surge como rocha viva e a seca não é alvo de lamento, mas sim de uma descrição em pormenor cru: o solo negro, os pés famintos e o mar como uma fronteira inescapável. Esta terra palpável prefigura os "pés nus sobre o pão da manhã" das suas obras maduras, ancorando, desde cedo, o corpo no basalto insular.
"Poemas (1957): Da Rocha Viva à Gramática Telúrica de Fortes"
Nesta fase, o crioulo emerge como uma língua híbrida: um português tensionado por ritmos africanos, onde a morna e o funaná se infiltram na sintaxe. Fortes não idealiza a mestiçagem; vive-a como uma estratégia de sobrevivência quotidiana. O fonema aparece já como o "leite materno" misturado ao sangue da ilha, antecipando o célebre verso de Porta de Sol: "cada criança / é ditongo de leite / com sangue nas vogais". Poemas (1957) marca o intervalo exato entre a contemplação da Claridade e a revolução de Pão & Fonema. É um realismo ainda intimista, mas já carregado com a consciência nacionalista que Fortes começava a consolidar nos seus contactos em Lisboa. É aqui que o autor testa a gramática telúrica que, anos mais tarde, deixaria de apenas descrever a rocha para passar a dinamitá-la em nome da construção da nação.
Do Poeta ao Estadista: Fortes e a Militância PAIGC"
Corsino Fortes transforma-se de poeta insular em intelectual militante durante os anos 60 e 70, alinhando a sua utopia literária à luta pela independência através do PAIGC, sob a égide do pensamento de Amílcar Cabral. A sua militância foi a ponte entre a erudição jurídica e a resistência no terreno. Após licenciar-se em Direito (1966), Fortes exerceu como juiz em Angola, onde testemunhou de perto as engrenagens da opressão colonial. Com a vitória dos movimentos de libertação, assumiu um papel histórico: foi o primeiro Embaixador de Cabo Verde em Portugal (1975–1981). Neste cargo, não foi apenas um diplomata, mas o rosto da utopia concretizada, negociando a transição soberana e protegendo a dignidade da diáspora. Ocupou ainda cargos de relevo como Ministro da Justiça, articulando sempre a ética política com a substância cultural.
"Pão e fonema / No mesmo ventre de terra e de grito."
Do Poeta ao Estadista: Fortes e a Militância PAIGC"
Na sua obra, o "P.A.I.G.C." é elevado a mito fundacional. Fortes descreve o partido como a "potência fálica da terra + potência famélica do povo", fundindo a fome insular com a mística da guerrilha. O massacre de Pidjiguiti (1959) é transfigurado em bandeira poética, simbolizando a união indissolúvel entre África, Guiné e Cabo Verde. Sob a liderança de Cabral, a quem chama de "Estrela da manhã", Fortes desenha a independência como uma "árvore de Boé" plantada no meio do Atlântico. Até ao fim da vida, Fortes trabalhou para que a independência fosse um facto cultural vivo. Presidiu à Associação dos Escritores Cabo-Verdianos e fundou a Academia Cabo-verdiana de Letras em 2013.
"Potência Fálica & Famélica: P.A.I.G.C. em Corsino Fortes"
P.A.I.G.C. É a potência fálica da terra + a potência famélica do povo É o povo de coração em marcha sob a bandeira de Pidjiguiti É a árvore de Boé + a proa do arquipélago que abafroa No umbigo da colónia A caravela da opressão secular É o tambor da história + o ovo da concórdia Que devolve Á libertaria África A dupla fatia do seu patrimônio É o braço do povo + o corpo da terra toda ela De peito aberto De pátria aberta É a Estrela da manhã No sangue Na alvorada Na árvore De todos nós II Amílcar! Há hélice & sonho na raiz da árvore que tomba Há sangue & ombro na pele do tambor que rompe É da pedra do Sol Que move O sangue e o rosto da pirâmide Não há Janeiro Não há Novembro Que não seja Uma península de dor Entre duas bandeiras
"P.A.I.G.C.", de Corsino Fortes na trilogia A Cabeça Calva de Deus, é um hino épico ao Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, fundindo "potência fálica da terra + potência famélica do povo" numa marcha libertadora. O poema enumera o partido como "povo de coração em marcha sob a bandeira de Pidjiguiti", "árvore de Boé + proa do arquipélago", "tambor da história + ovo da concórdia" que rompe "a caravela da opressão secular" para devolver à África a "dupla fatia do seu patrimônio". Culmina no "braço do povo + corpo da terra toda ela / De peito aberto De pátria aberta", com Amílcar Cabral como "Estrela da manhã / No sangue / Na alvorada / Na árvore / De todos nós". Na seção II, dirigindo-se a "Amílcar!", Fortes exalta a violência transformadora: "Há hélice & sonho / na raiz da árvore que tomba / Há sangue & ombro / na pele do tambor que rompe". A "pedra do Sol" move a pirâmide revolucionária, transcendendo tempo colonial — "Não há Janeiro / Não há Novembro / Que não seja / Uma península de dor / Entre duas bandeiras" —, convertendo sofrimento em luta entre opressão e liberdade. Fortes eleva o P.A.I.G.C. a mito fundacional da nação: partido como corpo erótico-faminto guiado por Cabral, unindo Guiné-Bissau e Cabo Verde contra o colonialismo português, num cume político da sua poética épica.
"Redes Diplomáticas: De Angola ao Brasil, o Laboratório de Fortes"
Corsino Fortes iniciou o seu serviço jurídico nos anos 60 como juiz do trabalho em Angola (após licenciar-se em Lisboa, em 1966). Em Luanda e Benguela, testemunhou as engrenagens do colonialismo tardio: a exploração laboral, a fome urbana e a efervescência da guerrilha. Este período foi o seu laboratório sociológico; o Direito do Trabalho tornou-se uma "aula de injustiça" que irrigaria diretamente a obra Pão & Fonema. A "potência famélica do povo" que Fortes descreve nasceu da sua experiência nos tribunais coloniais, onde a lei portuguesa colidia com a realidade africana. Nas suas passagens e contactos consulares pelo Brasil (Rio de Janeiro e São Paulo), Fortes operou uma síntese estética fundamental. Ao contactar com a obra de João Cabral de Melo Neto e com os movimentos concretistas, absorveu o rigor fonético e a secura estilística que viriam a explodir na sua sintaxe quebrada. Simultaneamente, as redes intelectuais afro-brasileiras reforçaram a sua visão da caboverdianidade como uma mestiçagem vibrante e resistente, longe do lamento colonial.
"A ilha roda no rosto da criança / Com a 'vareta presa' na roda do vento."
"Redes Diplomáticas: De Angola ao Brasil, o Laboratório de Fortes"
Pós-Revolução dos Cravos (1974), Fortes assumiu o papel histórico de primeiro Embaixador de Cabo Verde em Portugal (1975–1981). Foi ele quem negociou os termos da soberania, o repatriamento da diáspora e os novos laços culturais entre os dois países. Fortes transformou o espaço da antiga administração colonial no palco da "proa do arquipélago", provando que a diplomacia era, para ele, uma extensão da sua epopeia literária. Serviu também como Embaixador em Angola, consolidando o eixo de cooperação sul-sul. Em 2025, o percurso diplomático de Corsino Fortes é celebrado como o modelo do "intelectual-estadista". O seu trabalho nos tribunais de Angola e nas embaixadas de Lisboa e Luanda permitiu que Cabo Verde passasse de um arquipélago esquecido a uma nação com voz soberana. Como fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras em 2013, ele garantiu que a "diplomacia do fonema" continuasse a elevar a cultura cabo-verdiana ao plano universal
"Cabo Verde não é um país pequeno; é um país disperso que o mar tenta unir."
Legado Institucional: TCV e Academia de Letras de Fortes"
Corsino Fortes consolidou o seu papel como o grande fundador institucional da cultura cabo-verdiana pós-independência, provando que o poeta não deve apenas cantar a nação, mas também construir as suas infraestruturas duradouras. Nos anos 80, enquanto exercia funções ministeriais e de governação, Fortes foi o principal impulsionador da criação da Televisão de Cabo Verde (TCV), inaugurada em 1986. Ele via no primeiro canal televisivo nacional uma plataforma vital para difundir a morna, o funaná, a língua crioula e a poética insular para o mundo. Sob a sua visão, a televisão transformou-se no "tambor de som" da modernidade, ligando as ilhas e a diáspora e ecoando os ritmos de Pão & Fonema para as novas gerações urbanas.
"A cultura é a única arma que não mata, mas que vence todas as guerras."
Legado Institucional: TCV e Academia de Letras de Fortes"
Em 2013, já na maturidade da sua carreira, Fortes presidiu à fundação da Academia Cabo-verdiana de Letras (ACL), que idealizou como a guardiã da língua mestiça e da identidade nacional. Ao institucionalizar o "fonema vital", criou uma barreira contra a homogeneização da globalização, assegurando que a tradição da Claridade continuasse a ser renovada pelas gerações pós-Fortes. O legado de Fortes demonstra que o intelectual militante deve construir os seus próprios canais (TV) e os seus próprios templos (Academias). O seu percurso institucional transformou o conceito de "Pão & Fonema" numa política cultural viva, unindo indissociavelmente a ilha, o ecrã e a página literária.
"Escrevo para que a minha terra deixe de ser um parágrafo de fome na história do mundo."
"A Obra Poética: Epopeia Insular de Fortes"
Corsino Fortes edificou uma epopeia insular moderna através da sua trilogia monumental, A Cabeça Calva de Deus. Ao longo de quase três décadas, o autor uniu os temas da fome, da resistência e da identidade cabo-verdiana em poemas de fôlego que narram a nação como um arquipélago vivo e soberano. A obra organiza-se num ciclo de crescimento que acompanha a própria história do país: Pão & Fonema (1974): O ponto de partida. Lançado no ano da Revolução dos Cravos, foca-se nas secas cíclicas e no grito pela palavra libertadora. Simboliza a fome e a revolta do povo contra o colonialismo, onde o "fonema" surge como o sustento espiritual necessário para a libertação. Árvore & Tambor (1986): Representa a materialização do "pão" através dos ritmos de construção nacional. Evoca a semente, a ligação à terra e a força da diáspora, transformando a luta pela independência numa celebração rítmica e coletiva.
"A ilha roda no rosto da criança / Com a 'vareta presa' na roda do vento."
"A Obra Poética: Epopeia Insular de Fortes"
Pedras de Sol & Substância (2001): O encerramento do ciclo épico. Aqui, a pedra deixa de ser símbolo de esterilidade para se tornar memória e paraíso insular. É a celebração da maturidade da nação, onde a luz do sol se funde com a substância da liberdade reconquistada. Fortes reinventou o género épico ao afastar-se das formas clássicas. Utilizou versos livres, infiltrações do crioulo e "cartogramas" poéticos das ilhas, fundindo erotismo, profecia e identidade mestiça. A sua escrita não é apenas narrativa; é plástica e visual, tratando cada palavra como um elemento mineral. Composta por um total de 4.055 versos, a trilogia canta a "cabeça calva de Deus" — uma metáfora para a paisagem árida e vulcânica de Cabo Verde que, na mão de Fortes, se torna um território de fertilidade estética inesgotável. Ele provou que a insularidade não é uma prisão, mas a proa de um navio voltado para o infinito.
"A poesia é o tambor que acorda a pedra."
Corsino Fortes: A Cabeça Calva de Deus — Trilogia Épica da Nação Cabo-Verdiana
Corsino Fortes construiu a sua obra poética essencial em torno da trilogia épica A Cabeça Calva de Deus (2001), que reúne Pão & Fonema (1974), Árvore & Tambor (1986) e Pedras de Sol & Substância (2001). Esta estrutura dialógica reflete o percurso histórico e identitário de Cabo Verde, desde a luta pela sobrevivência em ilhas áridas até à construção de uma nação independente, transformando a insularidade em metáfora viva do povo.Pão & Fonema abre o ciclo com o “chão de povo, chão de pedra”, evocando seca, fome, emigração e passividade perante a opressão colonial, contrapostas à palavra como fonema-grito de liberdade e semente de esperança. Os cantos exploram o corpo insular — rostos, pulmões, mãos — como palco de resistência, culminando no “pão & patrimônio” que clama pela rutura revolucionária e pela germinação cultural.
Corsino Fortes: A Cabeça Calva de Deus — Trilogia Épica da Nação Cabo-Verdiana
Árvore & Tambor aprofunda a materialização do pão através de ritmos ancestrais, sol e semente, incorporando a oralidade cabo-verdiana — morna, tambor — numa poética de comunicabilidade atlântica e produção coletiva. Aqui, o poeta renova a tradição oral, fundindo erotismo, denúncia social e expectativa de aurora nacional, com o povo a “chover gota a gota” a sua chuva de séculos. Pedras de Sol & Substância encerra o arco com dimensão telúrica e cósmica, celebrando a pedra como alicerce arqueológico e cultural das ilhas, num tom pictórico e musical que substancializa a identidade crioula. A trilogia funda, assim, Cabo Verde como pátria poética, em constante reinvenção, cruzando história, memória coletiva e épica da independência.
Pão & Fonema: Do Chão de Pedra ao Fonema Libertador
Pão & Fonema (1974), livro de estreia de Corsino Fortes e primeiro volume da trilogia épica A Cabeça Calva de Deus, é um longo poema dividido em três cantos que dramatiza a luta pela sobrevivência do povo cabo-verdiano sob o jugo colonial português, fundindo fome física com aspiração à palavra libertadora. Publicada no ano da Revolução dos Cravos, a obra soma cerca de 1.300 versos em edição Sá da Costa (1980), com cartogramas do arquipélago e versos livres assimétricos que evocam tradição oral mindelense e modernidade experimental. O Canto I — Tchon de pove tchon de pedra retrata o ciclo implacável da seca insular (“ano a ano / crânio a crânio”), com imagens telúricas de crânios ancestrais, “poços de pedra / Abertos / No olho da cabra” e membros de terra que explodem na boca das ruas, simbolizando imobilidade faminta e passividade perante a opressão. Fortes transforma a geologia árida em corpo colectivo sofrido, contrapondo a “estátua de pão só” à promessa quebrada da terra No Canto II — Pão & patrimônio, o tom vira clamor revolucionário: o “agora” da independência irrompe como grito fonético (“De boca a barlavento”), exaltando mãos que trabalham e cantam a rutura anticolonial, com o povo a navegar “com pés menos pés / De proteínas” rumo à liberdade. Aqui materializa-se a ponte entre fome e herança cultural, num apelo à germinação nacional.
Pão & Fonema: Do Chão de Pedra ao Fonema Libertador
O Canto III consuma a alquimia poética: o fonema-grito torna-se pão substantivo (“mãe é ilha nua / Por Dezembro rasgando / O seu inverno de chita”), com ritmo de morna e tambor que reinventa o épico africano, fundindo crioulismos, prosaísmo moderno e erotismo à construção da identidade cabo-verdiana pré-1975.Em última análise, Pão & Fonema não é apenas um lamento sobre a aridez; é um ato de refundação linguística. Ao subverter a sintaxe portuguesa com a cadência do crioulo e a mística da morna, Fortes prova que a independência de Cabo Verde começou na palavra. O livro estabelece que a soberania nacional exige tanto o 'pão' que sacia a fome física quanto o 'fonema' que resgata a dignidade histórica, fundando assim a base da épica cabo-verdiana contemporânea.
Proposição Ano a ano crânio a crânio Rostos contornam o olho da ilha Com poços de pedra Abertos No olho da cabra E membros de terra explodem na boca das ruas Estátua de pão só Estátuas de pão sol Ano a ano crânio a crânio Tambores rompem a promessa da terra Com pedras Devolvendo às bocas As suas veias De muitos remos poema telúrico da trilogia Pão & Fonema (1974)
"Proposição": terra, fome e rebelião na poética telúrica de Corsino Fortes
O poema estrutura-se em dois estrofes principais com refrão repetido ("ano a ano / crânio a crânio"), criando um ritmo hipnótico e circular que evoca a temporalidade cíclica das secas e fomes cabo-verdianas, onde rostos ancestrais — "crânio a crânio" — contornam o "olho da ilha", simbolizando vigilância insular ferida por "poços de pedra / abertos / no olho da cabra". Na primeira estrofe, "membros de terra / explodem / na boca das ruas" como "estátua de pão só / estátuas de pão sol", fundindo imagens de erupção vulcânica (terra viva do Fogo/Mindelo), fome ("pão só") e aspiração solar, representando a explosão vital do povo perante a miséria. A segunda retoma o refrão com "tambores rompem / a promessa da terra / com pedras", rompendo o fatalismo claridoso da terra estéril, para devolver "às bocas / as suas veias / de muitos remos" — metáfora da emigração marítima coletiva que alimenta a diáspora e a resistência nacional. Telúrico, sonoro e ritualístico, o texto de Pão & Fonema (1974) afirma a caboverdianidade mestiça através de fonemas orais mindelenses, contrastando sofrimento animal/insular com rebelião poética pré-independência, ecoando a herança de Claridade.
"Konde Palmanhã Manchê": palma manchada e soberania crioule em Corsino Fortes
Konde Palmanhã Manchê Ó Konde Ó Konde palmanhã manchê Konde note ftcha ftchode E palmanhã manchê C’pê plantode na tchon E terra na coraçon Konde sangue rasgâ na corpe Arve de broçe aberte E smente gritâ na rotcha Tambor de boca verde E daquel som Ma quell sangue soldode Nascê boca boca centrodeboca rasgode Na roda de sol
Ó Konde palmanhã manchê E Criste bem dsê morada El bem ta bem Pa broçe direita de Monte Cara C’se cobe d’enxada Ma se calçon drill C’se pê na tchon Ma se dede quebrode Bem sentâ Na pedra radonde dnôs fogon Sem tchuva na mon Sem fraqueza na sangue E sem corve na coraçon Ó Konde Ó Konde palmanhã manchê
Ó Konde palmanhã manchê Sem dsuspère pundrode Na bandêra de porta Sem lanterna cindide Na robe de burre Pa naufroge de navi Sem navi quebrode Na boca de pove E mar bem olte! brobe! dsusperodeBen quebrâ na Praia Grande Sês broçe gorde de pecode E mar bem Na se luxe E na se grandèza! Se mostre De mar erguide na pêto Se mapa bronque Desenhode n’alma Bem bidê na colónia dnha boca Tod’aquel negoce dnha sangue ultramarine
tradução livre para português europeu do poema "Konde Palmanhã Manchê" (Quando a Manhã Amanhecer), de Corsino Fortes.
O poema "Konde Palmanhã Manchê", de Corsino Fortes, é um hino Crioulo em estrutura tripartida que invoca a "palma da mão manchada" como símbolo da mão trabalhadora cabo-verdiana, clamando pela terra prometida contra o sofrimento colonial.
Celebra a caboverdianidade resiliente em kriolu mindelense, fundindo terra, mar e corpo num lamento-utopia de Pão e Fonema (1974), primeira parte de A Cabeça Calva de Deus.
Na primeira estrofe, contrapõe dor telúrica ("sangue rasgâ na corpe", "semente gritâ na rotcha") a vitalidade ritual ("tambor de boca verde", "boca centrodeboca rasgode / Na roda de sol"). A segunda evoca naufrágio e resistência marítima ("mar erguide na pêto", "mapa bronque / Desenhode n’alma"), transformando "negoce dnha sangue ultramarine" em soberania mestiça na Praia Grande. A terceira sitúa Cristo na paisagem insular (Monte Cara, fogon), exaltando firmeza sem fraqueza ("Sem tchuva na mon / Sem fraqueza na sangue").
Tradução livre para português europeu do poema "Konde Palmanhã Manchê" (Quando a Manhã Amanhecer), de Corsino Fortes.
Quando a Manhã Amanhecer Ó Quando Ó Quando a manhã amanhecer Quando a noite fechar fechada E a manhã amanhecer Com o pé plantado no chão E a terra no coração Quando o sangue rasgar no corpo Árvore de braços abertos E a semente gritar na rocha Tambor de boca verde E daquele som Com aquele sangue soldado Nascer boca Boca centrada / boca rasgada Na roda do sol
Ó Quando a manhã amanhecer Sem desespero pendurado Na bandeira da porta Sem lanterna acesa No rabo do burro Para naufrágio de navio Sem navio quebrado Na boca do povo E o mar vem alto! bravo! desesperado Vem quebrar na Praia Grande Os seus braços gordos de pecado E o mar vem No seu luxo E na sua grandeza! O seu monstro De mar erguido no peito O seu mapa branco Desenhado na alma Vem ver na colónia da minha boca Todo aquele negócio do meu sangue ultramarino
Ó Quando a manhã amanhecer E Cristo vier dizer morada (viver connosco) Ele vem, ele vem bem Pelo braço direito do Monte Cara Com o seu cabo de enxada Com as suas calças de cotim (drill) Com o seu pé no chão Com o seu dedo quebrado Vem sentar-se Na pedra redonda do nosso fogão Sem chuva na mão Sem fraqueza no sangue E sem corvo no coração Ó Quando Ó Quando a manhã amanhecer
Este poema é um exemplo fascinante da "mestiçagem do verbo" do autor, escrito em crioulo de São Vicente. Nele, Fortes utiliza figuras bíblicas (Cristo) e geográficas (Monte Cara) para falar da libertação e da dignidade do povo cabo-verdiano.
"Dinamitar Rochas no Peito: Culpa Insular em Corsino Fortes"
"Pecado Original", de Corsino Fortes, incluído em Pão & Fonema (1974), apresenta um eu lírico que confessa a sua passagem corrosiva pelo mundo, deixando marcas de destruição em tudo o que toca. O poema organiza-se em quatro estrofes curtas e assimétricas, com repetições ritmadas como "Mais negros", "Tão velhas" e "Não poder fugir", que intensificam o peso cumulativo das ações descritas. A sintaxe fragmentada, com verbos isolados e elipses, simula o avançar pesado e inevitável do sujeito, como pisadas que vão minando o solo insular. Na primeira estrofe, "Passo pelos dias / E deixo-os negros / Mais negros / Do que a noute brumosa" instaura uma contaminação temporal: o eu escurece o dia, invertendo a ordem natural e evocando uma escuridão bíblica adaptada à experiência cabo‑verdiana. Segue-se o olhar devastador na segunda: "Olho para as coisas / E torno-as velhas / Tão velhas / A cair de carunchos", onde o mero acto de ver envelhece e corrói a matéria até à podridão, sugerindo um poder corrosivo inerente à visão do sujeito. A terceira estrofe materializa as pegadas físicas: "Só charcos imundos / Atestam no solo / As pegadas do meu pisar / E fica sempre rubro vermelho / Todo o rio por onde me lavo", pintando uma culpa indelével — lama e sangue que poluem terra e água, símbolos essenciais da geografia e identidade das ilhas. O clímax irrompe na quarta: "E não poder fugir / Não poder fugir nunca / A este destino / De dinamitar rochas / Dentro do peito", fundindo corpo humano e geologia vulcânica de Cabo Verde num acto de violência interna que é tragédia e, paradoxalmente, potencial revolucionário. O "pecado original" aqui transcende a culpa cristã tradicional, assumindo-se como consciência trágica do ser‑ilha: o eu carrega uma força destrutiva que corrói tempo, matéria e corpo, mas prepara uma transformação explosiva — ecoando a luta anticolonial e a construção da nação cabo‑verdiana na poética épica de Fortes.
Pecado Original Passo pelos dias E deixo-os negros Mais negros Do que a noute brumosa. Olho para as coisas E torno-as velhas Tão velhas A cair de carunchos. Só charcos imundos Atestam no solo As pegadas do meu pisar E fica sempre rubro vermelho Todo o rio por onde me lavo. E não poder fugir Não poder fugir nunca A este destino De dinamitar rochas Dentro do peito...
"Orça o Teu Leme: Libertação Solar em 'Girassol' de Corsino Fortes"
Girassol Girassol Rasga a tua indecisão E liberta-te. Vem colar O teu destino Ao suspiro Deste hirto jasmim Que foge ao vento Como Pensamento perdido. Aderido Aos teus flancos Singram navios. Navios sem mares Sem rumos De velas rotas. Amanheceu! Orça o teu leme E entra em mim Antes que o Sol Te desoriente Girassol!
"Girassol", de Corsino Fortes, incluído em Pão & Fonema (1974), é um apelo imperativo e vibrante dirigido ao girassol como símbolo de indecisão a romper para a ação libertadora. O eu lírico exorta a planta solar a "rasgar a tua indecisão / E liberta-te", colando o seu destino ao "hirto jasmim / Que foge ao vento / Como / Pensamento perdido", evocando desejo preso e errância mental num ritmo de estrofes curtas e exclamativas que criam urgência propulsora. No centro da segunda estrofe, emerge a imagem de "navios / Navios sem mares / Sem rumos / De velas rotas" aderidos aos flancos do girassol, metáfora poderosa da diáspora cabo-verdiana imóvel, embarcações fantasmas coladas ao corpo insular, aguardando o impulso para singrar. O clímax irrompe com "Amanheceu!", sinal de renascimento que obriga ação decisiva: "Orça o teu leme / E entra em mim / Antes que o Sol / Te desoriente / Girassol!", fundindo eu lírico e girassol-ilha numa fusão criadora e urgente. Fortes transforma aqui a hesitação em revolução poética: o girassol deve romper amarras, guiar-se pelo eu (poeta/não) e navegar para identidade móvel, ecoando a aspiração anticolonial à independência de Cabo Verde. Contrastando com a destruição corrosiva de "Pecado Original", este poema convoca e acolhe, convertendo culpa interna em hino coletivo à mobilidade e construção nacional na poética épica do autor.
De pé nu sobre o pão da manhã Desde a manhã os pés Estão nus ao redor da ilha, Nus de árvore nus de tambor Joelhos de sol E volutas de poeira Nos tornozelos Em movimento Desde o início O tambor dos dedos Sob o pão das pedras O cão das artérias preso na voragem Dos calcanhares Que agitam Na terra polvorenta o ponteiro dos membros sobre a testa do mundo Os membros o mundo o meridiano de permeio O sarilho dos corvos na falésia Anuncia-nos À boca do povoado Ao vento gordo sabor a fiambre hálito de pão novo À beira-mar erguemos as nossas costelas À promessa pública do mar E À beira-mar navegamos Com mãos menos mãos Com pés menos pés De proteínas
"Pés Nus no Pão das Pedras: Corpo Insular em Corsino Fortes"
"De pé nu sobre o pão da manhã", de Corsino Fortes em Pão & Fonema (1974), evoca o corpo cabo‑verdiano nu e primordial em movimento ao redor da ilha árida, pisando pedras como pão em busca de sustento e identidade coletiva. Desde a manhã, os pés nus circundam a ilha "nus de árvore nus de tambor", com "joelhos de sol" e "volutas de poeira / Nos tornozelos", num ritmo inicial que desperta o "tambor dos dedos / Sob o pão das pedras". O corpo torna‑se instrumento vivo: "o cão das artérias preso / na voragem / Dos calcanhares" agita a terra polvorenta, transformando membros em "ponteiro" que marca o "meridiano de permeio" entre o corpo e o mundo. Corvos na falésia anunciam essa dança ao "povoado" e ao "vento gordo sabor a fiambre hálito / de pão novo", guiando o movimento à beira‑mar onde se erguem "costelas / À promessa pública do mar". Ali, o povo navega metamorfoseado — "com mãos menos mãos / Com pés menos pés / De proteínas" —, fundindo nudez faminta com aspiração marítima, numa imagem de resiliência que transcende o material para o simbólico. Fortes celebra a nudez teimosa do povo insular: pés sobre pão‑pedra simbolizam fome agrícola, partida migratória e renascimento nacional, num hino corporal à sobrevivência anticolonial que estrutura a poética épica do livro, contrastando com a culpa individual de poemas como "Pecado Original"
"Djone Despido: Cortejo Orgíaco em Corsino Fortes"
O povo o poente o pão de permeio Então Djone! nosso Djone fidje de Bia ou Maria Despe a camisa E vendida Passeamos tal tronco Entre palmeiras de secura Assim Falucho de orgasmo que caminha Ao som de palmas Instrumentos de corda violão & viola Há sempre o banjo o cavaquinho Que nos interrompem Entre duas freguesias E dizem unha & bronze Da nudez E das árvores Que crescem no céu da boca E dos rios que nascem na veia cava E do sangue do povo sobre o mapa Desde o nascer E desde a nascença Os pés o poente o meridiano de permeio
"O povo o poente o pão de permeio", de Corsino Fortes em Pão & Fonema (1974), celebra Djone — figura arquetípica do povo cabo‑verdiano — num cortejo festivo, erótico e musical que une nudez, poente e pão como mediadores entre corpo e nação insular. O poema abre com a enumeração cíclica "O povo o poente o pão de permeio", invocando "nosso Djone / fidje de Bia ou Maria" que "despe a camisa / E vendida", transformando o tronco nu num "falucho / de orgasmo / que caminha / Ao som de palmas / Instrumentos de corda / violão & viola". Esta imagem pulsa com ritmo musical, simulando o avançar rítmico entre palmeiras secas da ilha árida. Instrumentos como "banjo o cavaquinho" interrompem entre freguesias, proclamando em diálogo poético "unha & bronze / Da nudez / E das árvores / Que crescem no céu da boca / E dos rios / que nascem na veia cava / E do sangue / do povo sobre o mapa". Aqui, Fortes funde anatomia individual (unha, veia cava) com geografia coletiva (mapa, árvores no céu da boca), exaltando a vitalidade erótica que brota da secura colonial para mapear a identidade nacional. O ciclo fecha com "Desde o nascer E desde a nascença / Os pés o poente o meridiano de permeio", ecoando poemas anteriores e consolidando o hino épico‑festivo: Djone representa o povo em movimento orgiástico e sonoro, convertendo nudez vendida em cortejo libertador, contrastando a secura árida com a exuberância musical da cabo‑verdianidade em construção.
Porta de sol (1974) I Das colinas de colmo [1] com portas de sol Descem crianças nuas e magras como violas As costelas dentro das cordas Todas primogénitas do mesmo ventre E filhas Do mesmo vulcão E da mesma viola Da mesma rocha E do mesmo grito II A ilha roda no rosto da criança com a “vareta presa” na roda do vento III Nem sempre A criança respira um pulmão roto de mapas E assim como as ilhas Ao pôr-do-sol Se alimentam De fonema Cada criança É ditongo de leite com sangue nas vogais
"Crianças-Violas nas Portas de Sol: Infância Insular em Corsino Fortes"
"Porta de sol" (1974), de Corsino Fortes em Pão & Fonema, evoca crianças cabo‑verdianas descendo das colinas áridas como violas nuas e magras, filhas primordiais do vulcão, rocha e grito insular, num hino à infância faminta que se nutre de fonema ao pôr do sol. Na primeira estrofe, "Das colinas de colmo / com portas de sol / Descem crianças / nuas e magras / como violas / As costelas dentro das cordas", as primogénitas do "mesmo ventre" emergem como instrumentos vivos do sofrimento coletivo — costelas como cordas tensas —, unidas ao "mesmo vulcão E da mesma viola / Da mesma rocha E do mesmo grito", fundindo corpo infantil com geologia vulcânica e música da ilha devastada. A segunda estrofe capta o movimento cíclico: "A ilha roda no rosto da criança / com a 'vareta presa' na roda do vento", enquanto na terceira "Nem sempre / A criança respira / um pulmão / roto de mapas", simbolizando respiração fragmentada pela diáspora e violência cartográfica colonial. Ao pôr-do-sol, como as ilhas, alimentam-se "De fonema", elevando o som à sobrevivência espiritual essencial. O clímax fonético define cada criança como "ditongo de leite / com sangue nas vogais", metaforizando a linguagem crioula como nutrição híbrida — leite materno misturado a sangue revolucionário —, central na poética de Fortes que transforma o fonema em pão da identidade cabo‑verdiana contra a fome e o esquecimento.
Árvore & Tambor: Ritmo Produtivo e Sedução Política
Árvore & Tambor (1986), segundo volume da trilogia épica A Cabeça Calva de Deus de Corsino Fortes, aprofunda a materialização do “pão” de Pão & Fonema, celebrando os instrumentos de produção nacional e a comunicabilidade atlântica de Cabo Verde pós-independência. Publicado pelo Instituto Caboverdiano do Livro e Dom Quixote (Lisboa), com prefácio de Ana Mafalda Leite, o poema de 130 páginas estrutura-se em “Proposição & Prólogo”, cinco cantos e “Prólogo & Proposição”, numa dinâmica circular que funde ritmos locais com modernidade. Aqui, o povo “aprendeu a chover a sua subsistência”, transformando seca em construção coletiva: árvore como matéria-prima, tambor como som sagrado e comunicador (“na árvore / está o tambor / E contra a erosão: a política da sedução”). Sons de pilão, morna e marulho florescem a “cabeça calva de Deus”, com imagens como “OVO / que cresce / No tambor da ilha / como SOL / Mordendo o umbigo de Deus”.
Árvore & Tambor: Ritmo Produtivo e Sedução Política
Fortes incorpora oralidade cabo-verdiana — “Hoje chovia a chuva que não chove” —, erotismo e intertextualidade (José Craveirinha: “Hoje queria ser apenas tambor no coração do imbondeiro”), posicionando o arquipélago no mundo através de intercâmbio cultural e ritmo persuasivo (ut musica poesis). A paisagem insular evolui: do chão pedregoso à sedução política que combate erosão, num hino à identidade crioula sustentável. Nesta obra, Fortes opera uma síntese magistral entre a técnica e a terra. Se em Pão & Fonema a palavra era um instrumento de rutura, em Árvore & Tambor ela torna-se uma tecnologia de construção. Ao fundir a intertextualidade de Craveirinha com o ritmo do pilão, o poeta estabelece que a identidade cabo-verdiana é uma 'obra aberta': um projeto sustentável que se nutre da tradição para fertilizar o futuro, provando que o tambor é, afinal, o coração batente da própria ecologia insular.
Pedras Solares: Memória Cósmica da Ilha Eterna
Pedras de Sol & Substância (2001), terceiro e último volume da trilogia épica A Cabeça Calva de Deus de Corsino Fortes, celebra a dimensão telúrica, arqueológica e cósmica da identidade cabo-verdiana, fechando o ciclo com uma poética pictórica e musical que substancializa a nação insular. Publicado simultaneamente com a edição completa da trilogia (Morais Editores, Lisboa), o poema de cerca de 1.200 versos aprofunda a “pedra solar” como alicerce cultural eterno, após a fome de Pão & Fonema e a produção de Árvore & Tambor. Fortes transforma a geologia vulcânica em memória viva: “pedras de sol” como relíquias ancestrais que resistem ao tempo, com ritmo de cartogramas insulares e fusão cósmica (“sol mordendo o umbigo de Deus”). A ilha emerge como organismo telúrico completo — pedra, sol, substância orgânica —, celebrando a mestiçagem crioula em tom profético e sustentável, pós-independência consolidada. Esta fase final da trilogia posiciona Cabo Verde no cosmos atlântico: das rochas áridas à substância cultural perene, com linguagem que funde oralidade, erotismo telúrico e visão universal, coroando Fortes como “poeta da utopia” que reinventa o épico africano moderno.
A Cabeça Calva de Deus: Trilogia Épica da Utopia Cabo-Verdiana
A Cabeça Calva de Deus (2001), obra magna de Corsino Fortes, reúne a trilogia épica completa — Pão & Fonema (1974), Árvore & Tambor (1986) e Pedras de Sol & Substância (2001) —, num volume de 4.055 versos que narra a epopeia da identidade cabo-verdiana desde a fome colonial até à utopia cósmica pós-independência. Publicada pelas Morais Editores (Lisboa), com prefácio de Floriano Martins e traduções em inglês, francês e italiano, a estrutura dialógica transforma a insularidade árida numa “cabeça calva de Deus”: crânio vulcânico nu, mas gerador de semente, ritmo e substância cultural. O ciclo inicia com o “tchon de pove tchon de pedra” faminto, evolui para o “tambor da ilha” produtivo e culmina nas “pedras de sol” eternas, fundindo oralidade (morna, pilão), erotismo telúrico e fonemas revolucionários numa poética que rompe o saudosismo claridoso para fundar a nação atlântica. Fortes reinventa o épico africano moderno: ilha como organismo vivo, povo como fonema-grito que “chove a sua subsistência” contra erosão colonial.
A Cabeça Calva de Deus: Trilogia Épica da Utopia Cabo-Verdiana
A metáfora‑título — “cabeça calva de Deus” — condensa o arquipélago como divindade despida, exposta ao sol mas florescendo utopia mestiça, coroando Fortes como ponte entre Claridade e globalidade lusófona. Edição canónica, premiada em 2015, essencial para estudos pós-coloniais sobre caboverdianidade. Em última análise, A Cabeça Calva de Deus é o inventário de uma ressurreição. Ao transformar o crânio vulcânico das ilhas num útero de fonemas e luz, Corsino Fortes legou à Lusofonia uma obra-mundo. Dez anos após o seu desaparecimento físico, a trilogia permanece como o alicerce onde a 'pedra' da geografia e a 'substância' da cultura se fundem, provando que na calvície das ilhas habita, afinal, a memória inteira do futuro cabo-verdiano.
I MULHER Sol & semente: raiz & relâmpago Tambor de som que floresce A cabeça calva de Deus Isto é Aurora que nasce do carvão da vida Como Flor vermelha no tambor da alma Arco-íris que vibra no sangue do dragoeiro A folha e o rosto A face e a lâmpada Da manhã plena Assim força de ser dia Assim Fonte de ser diálogo
"Mulher": força cósmica e dialética na poética cabo-verdiana de Corsino Fortes
II Há quem diga “Que o peito da mulher e a pedra mais dura Que Deus pôs sobre a terra dos homens” Quê terra! Quê homens! Mas! Há quem diga Que nos seios dela A Via Láctea bebe o sol da forca pela Mulher! é na palma Palma da tua mão Que explode a Estrela da manhã À porta da ilha Com a flor do teu osso E do caos das vida! quando A saudade é deserto longo E a areia do teu corpo Viaja pela boca marítima do meu regresso como e belo! bela A frescura do teu rosto Abrimos oásis Na Cratera da minha alma “Em sombra acesa”
III Há quem diga “Que entre o caos e o crime Há sempre um corpo de mulher” Mas! há quem diga… “Se o homem traz um sonho de dentro A mulher traz a eternidade no rosto Isto é Se o pai e o poder da impotência O útero da mãe é maior que o Universo
Na estrutura dialógica, contrapõe ditados machistas ("o peito da mulher e a pedra mais dura", "entre o caos e o crime há sempre um corpo de mulher") à visão utópica do poeta: a mulher transforma deserto/saudade em regresso marítimo, impotência masculina em eternidade materna ("o útero da mãe é maior que o Universo"), afirmando-a como protagonista da caboverdianidade mestiça. Sonoro e ritualístico, evoca A Cabeça Calva de Deus com ritmo oral mindelense, celebrando a resiliência feminina insular perante o "caos das vida".
O poema, dividido em três partes, exalta a mulher cabo-verdiana como força cósmica e vital — "Sol & semente: raiz & relâmpago" —, fundindo imagens telúricas (tambor que floresce, flor no dragoeiro, oásis na cratera da alma) e celestiais (aurora do carvão, arco-íris no sangue, Via Láctea nos seios, Estrela da Manhã na palma da mão).
Sinos de Silêncio: Haicais e Canções Póstumas de Fortes
Sinos de Silêncio: Canções e Haikais (2015), última obra póstuma de Corsino Fortes publicada pela Rosa de Porcelana (Lisboa), marca ruptura radical com a trilogia épica A Cabeça Calva de Deus, adotando haicais e canções curtas num formato de 128 páginas em capa dura. Composto principalmente por haicais — forma japonesa que Fortes cultivava há anos, partilhados no Facebook —, o livro reflete meditação íntima sobre silêncio, memória e finitude, contrastando com o épico nacionalista anterior. Os haicais condensam ilha, mar e azul ontológico em imagens mínimas (“sombrios e alegóricos, quais imperceptíveis, os sinos se diluem no semântico e morfológico azul”), explorando estados de alma com economia silábica e tensão entre luz/escuridão. Canções evocam “respingares de Hidra” e “mareações em viagem”, fundindo cosmovisão cabo-verdiana com destilações metafóricas que transcendem o cânone de Pão & Fonema. Sinos de Silêncio: Canções e Haikais foi publicado póstumamente, meses após a morte de Corsino Fortes.
“Hoje chovia a chuva que não chove.” (Árvore & Tambor)
Corsino Fortes: A Transfiguração do Mulato na Epopeia da Nação
Corsino Fortes (1933–2015) transcende a dicotomia clássica entre síntese crioula e negritude ao fundir a mestiçagem cultural num projeto de modernidade épica. Em obras como A Cabeça Calva de Deus, a sua poética afasta-se tanto da harmonia passiva dos Claridosos como da angústia racial de outros movimentos africanos, integrando a identidade cabo-verdiana num engajamento anticolonial que não necessita de centralizar o mulato como um protagonista trágico ou isolado. Fortes herda a crioulidade do movimento Claridade, mas eleva-a. Enquanto autores como Baltasar Lopes focavam numa síntese sociológica e harmoniosa, Fortes dinamiza o "mulato" através de metáforas telúricas. O protagonista não é apenas um produto biológico, mas um ser geológico: as ilhas surgem como "rosto de mulher" e o corpo como basalto. A mestiçagem, para Fortes, é a ferramenta que permite a resistência à seca e à fome, transformando o "pão e o fonema" num património de sobrevivência coletiva.
"Depois da hora zero / E da mensagem povo no tambor da ilha / Todas as coisas ficaram públicas na boca da república"
Corsino Fortes: A Transfiguração do Mulato na Epopeia da Nação
Embora evite o essencialismo racial, Fortes incorpora a dignidade da negritude através da reabilitação da memória do trabalho escravo e das roças de São Tomé. A sua "negritude" é política e rítmica: o uso de fonemas orais, do tambor e da morna funciona como uma forma de resistência cultural ao domínio colonial. O híbrido racial surge aqui como uma figura afirmativa — um "mestiço da alma" — que utiliza a língua portuguesa para expressar uma consciência africana profunda e inalienável. Diferente da literatura moçambicana ou angolana de meados do século XX, que muitas vezes focava no conflito identitário do mulato, Fortes opta por um epos coletivo. O mulato deixa de ser uma figura secundária ou um mediador entre mundos para se tornar a própria "substância" da nação. Através da dialética entre o "Cais de Partida" e o "Cais de Regresso", Fortes projeta uma nação em rede. Nela, a identidade cabo-verdiana é transfronteiriça: o mulato é aquele que, ao habitar a diáspora, universaliza a raiz africana. A sua poética termina por subsumir as distinções de cor numa "nação solar" utópica, onde o silêncio das montanhas e o som dos búzios ressoam uma identidade que já não precisa de escolher lados, pois ela própria é o ponto de encontro.
Linguagem Poética de Corsino Fortes: Crioulismos, Ritmo e Oralidade Mindelense
Corsino Fortes constrói uma linguagem poética que funde crioulismos mindelenses com ritmo musical e oralidade, renovando a tradição claridosa através de fonemas coletivos, mornas e mazurcas que ressoam a identidade insular cabo-verdiana. Fortes incorpora o crioulo de São Vicente (Mindelo) em poemas bilíngues, como "Tchon de pove tchon de pedra", demarcando secas, fome e labuta com termos locais que democratizam a língua portuguesa e evocam o "tambor de boca verde" do povo. Esses crioulismos — "pão & fonema", "barlavento" — criam hibridez linguística, ressignificando o português como veículo de resistência cultural anticolonial.
Linguagem Poética de Corsino Fortes: Crioulismos, Ritmo e Oralidade Mindelense
Influenciado pela morna e mazurca mindelenses, o ritmo poético simula danças e ventos: "Na morna! Na mazurca o trompete da evasão" transforma pedras em coreografias crioulas, com assonâncias e repetições que ecoam o funaná e o lamento oral. A economia verbal, inspirada em João Cabral e concretismo, gera "geometria de sangue & fonema", onde gotas de letras "gotejam" em sinestesia musical. A oralidade de trovadores e "meninas da vida" do Mindelo irrompe em haikais e canções como "De boca a barlavento", priorizando fonemas ritmados — grito, seiva, mar — que constroem epopeia coletiva, superando evasionismo para uma "cabeça calva de Deus" em rede diáspora-insular.
Corsino Fortes: Presidente da Associação e Guardião do Cânone Claridoso
Corsino Fortes presidiu a Associação dos Escritores Cabo-verdianos de 2003 a 2006, atuando como figura central na promoção da literatura nacional pós-independência. Nessa posição, elogiou publicamente Teixeira de Sousa como "um dos maiores nomes da literatura lusófona", destacando sua base científica e dimensão ensaística em obras que provam "que a morte não interrompe a vida". Sua liderança contribuiu para consolidar o cânone claridoso, ressignificando o anticolonialismo de Claridade em poéticas dinâmicas como Pão & Fonema, superando o estaticismo para uma cabo-verdianidade em rede. Fortes liderou a entidade durante um período de maturação literária, integrando gerações claridosas e pós-claridosas, e fundou a Academia Cabo-verdiana de Letras em 2013, estabelecendo critérios de relevância para canonização. Sua gestão reforçou a transição da luta anticolonial para identidade universalista, com colaborações em revistas como Claridade e antologias africanas.
Corsino Fortes: Presidente da Associação e Guardião do Cânone Claridoso
Ao falecimento de Sousa em 2006, Fortes lamentou a perda de projetos inconclusos, exaltando romances como Xicu Garcia pela profundidade humanista e científica, alinhados à ética claridosa de comunhão com a terra. Esse tributo reflete afinidade com ficcionistas que humanizam o mulato insular, ecoando temas de mestiçagem em sua própria épica. Fortes inovou o legado de Baltasar Lopes e Armindo Vieira, transformando a "proposta claridosa" em epopeia coletiva via fonemas orais, contra o evasionismo para uma "nova largada" dialética. Sua obra e liderança institucional afirmaram o claridoso como ética estética fundacional, contestando nacionalistas dos anos 50 e ampliando-o para diáspora global
Corsino Fortes: Prémios e Legado Pós-Colonial Lusófono
Corsino Fortes recebeu o Prémio Mário António em 1994 pela sua obra Pão & Fonema, distinção atribuída pela crítica portuguesa que reconheceu a inovação épica e ritmada da sua poética anticolonial. Outros prémios incluem o Prémio Pedro Cardoso (2009) em Cabo Verde e nomeações como Grande-Oficial do Infante D. Henrique, consolidando-o como referência lusófona. O seu impacto na nova geração lusófona manifesta-se em antologias e teses que o posicionam como ponte entre claridosos e pós-independência, influenciando autores como José Luís Tavares. Prémio Mário António de 1994 premiou a fusão de fonemas crioulos e rigor formal em Pão & Fonema, comparado a João Cabral por críticos como Carmen Secco. Fortes acumulou honrarias diplomáticas e literárias, incluindo presidência da Associação dos Escritores Cabo-verdianos (2003-2006) e fundação da Academia Cabo-verdiana de Letras.
Corsino Fortes: Prémios e Legado Pós-Colonial Lusófono
Fortes inspira poetas contemporâneos cabo-verdianos como João Vário e Arménio Vieira, que adotam sua "revolta do pão" em narrativas identitárias híbridas, ampliadas em encontros lusófonos como o da UCCLA (União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa). Sua poética ressignifica o claridoso para diáspora global, influenciando ficcionistas moçambicanos e guineenses em antologias africanas de língua portuguesa. No Encontro da Praia, a UCCLA dedicou sessão a Fortes sob o tema "Diásporas", com intervenções do Presidente Jorge Carlos Fonseca e lançamento de prémios em seu nome, como o Prémio Corsino Fortes – BCA de Literatura (criado postumamente). Essas ações consolidaram-no como ícone da lusofonia africana, integrando sua poética a diálogos interculturais. O Prémio Corsino Fortes, parceria Academia Cabo-verdiana de Letras e BCA, premiou obras inéditas em português/crioulo desde 2018, com Jornada de Ádvena de Domingos Landim como vencedor inicial, promovido em eventos UCCLA para fomentar nova geração.
"Sou um poeta que escreve com pedras."
"Ter saudade do futuro."