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"Corpo e Palavra: A Poética da Presença em Gisela Casimiro"

Helena Borralho

Created on December 24, 2025

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Transcript

"Corpo e Palavra: A Poética da Presença em Gisela Casimiro"
nasceu em 1984

Gisela Casimiro: Voz Lusófona Pós-Colonial na Literatura Contemporânea

Gisela Casimiro (Guiné-Bissau, 1984; radicada em Portugal desde a infância) é uma das vozes mais vibrantes da literatura lusófona contemporânea, emergindo como autora, poeta, tradutora, curadora e performer que tece identidades negras, migração e resistência num tecido híbrido e interseccional. Licenciada em Línguas, Literaturas e Culturas pela FCSH-UNL, a sua formação académica cruza com o activismo em colectivos como INMUNE e UNA – União Negra das Artes, fundindo escrita com praxis antirracista e feminista. No contexto lusófono, Gisela insere-se na vaga pós-2010 que reconfigura o cânone português com contributos africanos e diaspóricos — ao lado de Luís Carlos Patraquim (Moçambique), Yara Nakahanda Monteiro (Angola) ou Jéssica Alves Direito —, diversificando-o para além do eurocentrismo. Obras como Erosão (2018), Giz (2023) e Estendais (2023) mapeiam o quotidiano racializado em Portugal, dialogando com tradições orais guineenses e pan-africanismo, enquanto a tradução de Audre Lorde (Irmã Marginal) e contribuições em antologias como Reconstituição Portuguesa (2022) amplificam vozes marginais na rede lusófona.

Gisela Casimiro: Voz Lusófona Pós-Colonial na Literatura Contemporânea

A relevância pós-colonial reside na capacidade de "ler o racismo de dentro": corpos negros como arquivo vivo de trauma colonial (A Casa com Árvores Dentro, 2022), migração como varal colectivo (Estendais), heranças salazarentas reescritas em liberdade (Reconstituição Portuguesa). A sua escrita — coloquial, entre humor cortante e afeto combativo — inova o hibridismo pós-moderno, transformando o banal em manifesto: o giz efémero que risca e reescreve histórias, os pulmões de Abril que medem liberdades por quem falta libertar. Num lusofonia ainda marcada por assimetrias (Portugal como "centro"), Gisela ocupa espaços públicos — exposições, performances, RTP — para um "fazer de vida" que descoloniza o sentir, tornando-a referência essencial para estudos pós-coloniais e literatura negra contemporânea.

"Gostaria que o 25 de Abril deixasse de ter uma forte mutação política... as pessoas fossem para a rua em clima de festa popular celebrar o dia da Liberdade."

Entre Margens e Raízes: O Itinerário de Gisela Casimiro

Gisela Casimiro nasceu em Bissau, em 1984, mas a sua cartografia pessoal desenha-se no movimento entre a Guiné-Bissau e Portugal. Tendo chegado a solo português com apenas três anos, a sua infância e juventude foram moldadas pela vivência nos subúrbios de Lisboa, nomeadamente em Alverca do Ribatejo. Esta dupla pertença geográfica e cultural é o alicerce da sua identidade: uma "mulher de várias latitudes" que utiliza a língua portuguesa para mapear as memórias de um país de origem que ficou na retina da infância e um país de acolhimento onde construiu a sua voz. A sua formação académica em Línguas, Literaturas e Culturas pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa conferiu-lhe as ferramentas críticas para dissecar as estruturas do poder e da linguagem. No entanto, é nos laços familiares que reside a matéria-prima da sua sensibilidade. A figura materna e o universo doméstico surgem frequentemente na sua obra como símbolos de resistência e cuidado. Através de gestos quotidianos — como o ato de estender a roupa, que dá título a um dos seus livros — Gisela resgata uma linhagem de mulheres que, na diáspora, mantiveram vivas as raízes guineenses enquanto navegavam as complexidades da vida urbana em Portugal.

Entre Margens e Raízes: O Itinerário de Gisela Casimiro

Estes laços familiares não são apenas biográficos, são políticos e artísticos. A ligação à Guiné-Bissau manifesta-se numa memória que se recusa a ser apagada, surgindo na sua escrita como um espaço de herança e indagação. Em Portugal, a família expande-se para uma comunidade de afetos e de luta, onde a colaboração com figuras como a sua irmã, a artista Kátia Casimiro, reforça a ideia de que a criação é um ato coletivo. Para Gisela, a "casa" e a família são conceitos fluídos, construídos entre a saudade do que ficou em Bissau e a urgência de afirmar uma existência negra e plena no Portugal contemporâneo.

Em "Erosão" (2018), a sua obra de estreia na poesia, estes laços familiares e geográficos deixam de ser apenas biografia para se tornarem substância lírica. O livro funciona como um inventário de perdas e permanências, onde o corpo da autora aparece como o território onde a Guiné e Portugal se cruzam e, por vezes, colidem. Em poemas como "O Meu Pai", a figura paterna é evocada através de uma distância que é tanto física quanto emocional, servindo de metáfora para a própria fragmentação da identidade na diáspora. A escrita de Gisela em Erosão não procura uma reconciliação fácil com o passado; pelo contrário, expõe as fendas e o "desgaste" (a erosão do título) que o tempo e a migração impõem aos afetos. Ao escrever sobre a herança dos antepassados ou sobre a pele que carrega a história de Bissau, a autora transforma o poema num espaço de cura e de afirmação, onde a fragilidade dos laços familiares se converte na força política de quem sabe de onde vem.

Principais Obras: O Hibridismo Criativo de Gisela Casimiro

Gisela Casimiro constrói um corpus literário e artístico marcado pelo hibridismo, onde poesia, prosa, teatro e performance se entrelaçam para mapear corpos negros, memória diaspórica e resistência quotidiana. A sua obra não se confina a géneros rígidos, mas transborda em "fazer de vida", transformando o efémero em manifesto vivo — do giz que risca histórias ao estendais que expõe afectos. Na poesia, destaca-se Erosão (2018, Urutau Edições), estreia que disseca a erosão identitária de corpos negros sob racismo estrutural, com linguagem sensorial e crua que prenuncia o tom combativo posterior. Giz (2023, Urutau), o segundo livro, eleva o hibridismo: reúne poemas, diário de sonhos, notas íntimas e traumas, usando o "giz" como metáfora ambígua de efemeridade e reinvenção corporal. Poemas como Profecia — "o amor chegará na bicicleta / em que nunca ninguém / te ensinou a andar" — e Abril – o cravo vem, que mede liberdades inconclusas, mesclam humor cortante, ferida e revolução, com prefácio de Emicida a evocá-la como guerreira afro-dahomiana.

Principais Obras: O Hibridismo Criativo de Gisela Casimiro

A prosa e crónica ganham fôlego em Estendais (2023, Editorial Caminho), coletânea de cerca de oitenta textos curtos — muitos oriundos de jornais —, que pendura o quotidiano diaspórico como varal colectivo: reencontros com o irmão após separações, micro-agressões racistas nos transportes, solidariedade negra nos mercados. Prefaciada por Lia Pereira, a escrita oral e conversacional aproxima o leitor do banal transformado em espelho político, trocando a fragilidade do giz pela durabilidade do tecido estendido ao sol. Nos outros trabalhos artísticos, A Casa com Árvores Dentro (2022) irrompe como peça de teatro encenada por Cláudia Semedo na Companhia de Actores (Algés), metaforizando corpos confinados onde raízes brotam contra luto e opressão doméstica. Complementam-na traduções como Irmã Marginal de Audre Lorde (Orfeu Negro), participações em antologias (Reconstituição Portuguesa, 2022; Rio das Pérolas, 2020), curadorias (Viagem a Cabo Verde), exposições (Em memória de mim, 2022) e performances áudio-visuais. Este arquipélago interdisciplinar reafirma Gisela como voz lusófona que ocupa página, palco e galeria, unindo trauma em seiva e palavra em ignição constante.

Eixos Temáticos: Identidade, Racismo, Feminismo e Memória

A obra de Gisela Casimiro tece uma poética densa e interseccional, onde temas como identidade, racismo, feminismo e memória se entrelaçam num manifesto vivo que lê o mundo "de dentro" — do corpo negro, da diáspora e do quotidiano resistente. Cada motivo ganha corpo no hibridismo da sua escrita, transformando feridas em seiva e silêncios em voz coletiva.A identidade emerge como cartografia fragmentada, entre Bissau e Alverca, infância guineense e subúrbios lisboetas. Em Estendais, a autora é "mulher de várias latitudes", pendurando vivências transnacionais que questionam a pertença: "perguntas sobre África ou Portugal" respondidas com "Sobre o mundo". Giz aprofunda esta busca no efémero do "giz" — riscar e reescrever o corpo como ato de reinvenção —, enquanto Profecia evoca liberdades adiadas: o amor na bicicleta "em que nunca ninguém te ensinou a andar". A pertença não é fixa, mas fluida: raízes brotando em solo hostil, como as árvores na Casa com Árvores Dentro. O racismo é lido "de dentro", como violência somática e quotidiana: micro-agressões nos transportes, olhares nos mercados, heranças coloniais que pesam no corpo negro. Erosão disseca esta erosão identitária; Giz denuncia-a em gestos banais virados manifesto; Estendais expõe a solidariedade negra como antídoto à desigualdade. A autora critica o Portugal contemporâneo — monoculturas modernistas, assimetrias lusófonas —, transformando o trauma em humor cortante e ignição coletiva, ecoando Emicida no prefácio: certeira como guerreira afro-dahomiana.

Eixos Temáticos: Identidade, Racismo, Feminismo e Memória

Feminismo interseccional — negro, lusófono, diaspórico — pulsa na resgate de linhagens femininas: mãe e estendais como símbolos de cuidado e resistência. Colaboração com a irmã Kátia Casimiro reforça o coletivo feminino; tradução de Audre Lorde (Irmã Marginal) liga-a ao feminismo negro global. Em Giz, o empoderamento é reescrita corporal — apagar e riscar histórias impostas —, enquanto Abril – o cravo vem mede liberdade pelo que "ainda falta libertar", entre riso camarada e prazer como armas de resistência.Memória é pessoal e coletiva: retina da infância bissauense, separações familiares em Estendais, Constituição salazarenta "limpa" em Reconstituição Portuguesa. Herança guineense — oralidade, pan-africanismo (Sankara) — cruza com lusofonia, transformando saudade em indagação política. A "casa" de A Casa com Árvores Dentro arquiva luto e raízes; o giz de Giz marca efemeridades indeléveis. Gisela resgata heranças negadas, brotando seiva do sangue — poesia como ignição constante para liberdade concreta.

Estilo e Linguagem: Crueza, Brevidade e Estética do Quotidiano

O estilo de Gisela Casimiro distingue-se pela crueza direta e despojada, que recusa floreados modernistas para abraçar uma linguagem viva, quase oral — como conversas de mercado ou autocarro, capturando o pulsar do real sem mediações. Em Giz e Estendais, a brevidade é arma poética: versos curtos (Profecia: três linhas para um oráculo de amor), crónicas fragmentárias (80 textos em poucas páginas), tudo destilado em economia verbal que amplifica o impacto emocional e crítico. A estética do quotidiano é o cerne: gestos banais — estender roupa, rabiscar na mesa de voto, pedalar bicicleta não ensinada — viram metáforas potentes de resistência e reinvenção. O "giz" efémero risca corpos e histórias; o varal de Estendais expõe afectos ao sol; os pulmões de Abril – o cravo vem faiscam ignição revolucionária. Humor cortante irrompe entre feridas ("piadas" em Giz), equilibrando lamento e riso camarada, enquanto o hibridismo formal — poema-diário-nota — funde intimismo e manifesto. Esta escrita coloquial aproxima o leitor comum, sem diminuir a força interseccional: racismo "lido de dentro", trauma virado seiva. Gisela inova o cânone lusófono ao fazer da linguagem um "fazer de vida" — crua como corpo negro no quotidiano, breve como faísca, quotidiana como acto de combate e cuidado.

Erosão, corpo e cicatrizes da memória: a experiência guineense‑portuguesa na poesia de Gisela Casimiro”

Erosão é o primeiro livro de poesia de Gisela Casimiro, publicado pela Urutau em 2018, e organiza-se em poemas breves que exploram o desgaste do corpo, das relações e da memória, num registo melancólico mas atravessado por lampejos de cura e esperança. O título anuncia esse movimento: não se trata apenas da destruição lenta provocada pela vida, pelo tempo e pela violência, mas também da transformação que a erosão torna possível, como se do desgaste nascessem novas formas de sentir e de existir. O livro acompanha deslocações físicas e emocionais, ecos da experiência guineense‑portuguesa da autora, que atravessou a migração e a vida em Portugal enquanto mulher negra, artista e ativista. Ao longo do livro, o corpo aparece como campo de batalha e arquivo de cicatrizes, condensando tanto dores íntimas como traumas coletivos. Em poemas como “O meu corpo”, o eu lírico insiste que o corpo foi, já não é e ainda poderá vir a ser outro, sugerindo uma identidade em permanente reconstrução, instável, marcada por violência simbólica, doença e memória familiar. Noutros textos, a figura da avó, os gestos domésticos, o doce de tomate da mãe ou pequenas cenas de cuidado mostram como a herança geracional — especialmente feminina — é ao mesmo tempo lugar de dor e de colo, um espaço onde o sujeito tenta recompor-se. O corpo, assim, é o lugar em que se inscrevem as marcas do racismo, da precariedade, da migração e das perdas, mas também o lugar onde a autora procura estratégias de sobrevivência.

"Escrevo para não ter de bater em ninguém.”

Erosão, corpo e cicatrizes da memória: a experiência guineense‑portuguesa na poesia de Gisela Casimiro”

O quotidiano urbano surge como cenário recorrente, revelando um olhar atento às margens da cidade. Estações de comboio, metros, semáforos, farmácias, ruas sob chuva e encontros fortuitos com pessoas em situação de vulnerabilidade compõem um mapa de Lisboa (e de outras cidades) visto a partir de quem vive num corpo racializado e precário. A poeta observa figuras como a mulher que pede esmola, a criança que toca acordeão no metro, o homem “em desuso” ferido na estrada, e transforma essas presenças invisibilizadas em matéria poética, questionando a indiferença e a desigualdade social. O poema torna-se, assim, um lugar de denúncia discreta, mas cortante, onde se reconhecem as fissuras do Portugal pós colonial. Outro eixo forte de Erosão é a relação com a morte, o luto e a persistência do afeto. Poemas que evocam a morte de Leonard Cohen, a fragilidade da avó ou a consciência de que certos sentimentos “se recusam a morrer” mostram como a perda não apaga o vínculo, antes o torna ainda mais insistente. O tom é frequentemente melancólico, mas nunca completamente desesperado; há sempre uma “luzinha” que permanece, seja num gesto de cozinha, numa recordação, numa piada, num resto de fé. A erosão, aqui, é também o processo pelo qual a dor vai sendo trabalhada até se tornar suportável, permitindo algum tipo de reconfiguração interior.

"O poema é o verbo salvar."

Erosão, corpo e cicatrizes da memória: a experiência guineense‑portuguesa na poesia de Gisela Casimiro”

A dimensão espiritual atravessa o livro de forma muito particular: Deus e Cristo surgem em imagens íntimas, por vezes irónicas, quase quotidianas, aproximadas de uma relação humana cheia de falhas, silêncio e tentativas de comunicação. Em “O poema é um campo de batalha”, a própria poesia é descrita como forma de oração e de companhia para um Deus solitário, e o poema acaba por ser apresentado como o verbo “salvar”. Esta espiritualidade é menos dogmática e mais existencial, ligada à necessidade de dar sentido ao sofrimento e de encontrar, na palavra, uma espécie de salvação imperfeita. Por fim, Erosão pode ser lido como um conjunto de “pequenas receitas para a sobrevivência”, expressão usada numa apresentação crítica da obra. Entre a ironia, a ternura, a memória dos sabores da infância, os laços familiares e uma atenção radical às pessoas que o sistema deixa para trás, Gisela Casimiro constrói uma poética da resistência suave mas firme. Os poemas testemunham “movimentações físicas e emocionais” — da Guiné Bissau a Portugal, da infância à idade adulta, da fé à dúvida, da ferida à cicatriz — e sugerem que, apesar do desgaste, há sempre a promessa de uma “forma futura” para os corpos e para as comunidades marcadas por traumas geracionais

"O que perdi em estômago, ganhei em coração."

"A Memória no Chão: Identidade e Resistência"

O poema constrói uma memória de violência íntima e “tortura” sofisticada, centrada no corpo e no cabelo, mostrando como o controlo familiar sobre a aparência se transforma em ferida psicológica e em silêncio. A imagem da alopecia e da tesoura nas mãos do pai condensa a experiência de perda de identidade, de autonomia e de voz da filha. A voz do poema fala em “formas de tortura tão sofisticadas” que, à primeira vista, poderiam ser lidas como exagero, mas que, na verdade, descrevem gestos banais de manipulação e humilhação que se acumulam ao longo do tempo. A perda de cabelo (alopecia) e as mãos que se lançam sobre a cabeça da narradora estão ligadas a comentários agressivos e à desvalorização do seu corpo e da sua forma de ser. A experiência é contada num tom confessional, em que a narradora reconhece que tudo o que tinha “era realmente seu, sobretudo o cabelo”, sublinhando como esse cabelo era o último espaço de identidade e pertença que lhe restava. O verso em que a narradora afirma que tece a sua vida “entre a alopecia e a tesoura nas mãos do meu pai” foi citado em estudos sobre literatura negra contemporânea em Portugal, justamente como exemplo de como o corpo e o cabelo se tornam lugar de violência e disputa simbólica. Alopecia remete a uma fragilidade real do corpo, uma perda involuntária, enquanto a tesoura do pai representa o corte imposto, o controlo externo, quase uma punição. Entre uma e outra, a vida da filha é “tecida”, ou seja, construída numa tensão constante entre aquilo que o corpo sofre sozinho e aquilo que lhe é feito pelos outros. O facto de o cabelo ser apresentado como aquilo que era verdadeiramente seu sublinha o peso desta violência: mexer no cabelo, cortá‑lo, rapá‑lo, é tocar no coração da sua autoimage

"Poderia falar-te de formas de tortura tão sofisticadas que julgarias serem demasiado para mim, como aquelas mãos lançadas sobre a minha cabeça. 'Vamos ver se é real.' 'Pareço um rapazinho.' 'Isso é dos nervos.' Tudo o que tive era realmente meu, sobretudo o cabelo. Teço a minha vida entre a alopecia e a tesoura nas mãos do meu pai. O homem fala, a mãe desbasta, a filha cala. Foi no tempo em que já não chorava o que só lhes afiava a raiva. 'Pode rapar tudo.' 'O teu pai põe-te fora de casa.' 'Não quero saber.' E a lentidão amontoada como o cabelo no chão era como se sangrasse, porém às vezes havia tranças e parece que voltava a sorrir." Gisela Casimiro Erosão [2022]
"Poderia falar-te de formas de tortura tão sofisticadas que julgarias serem demasiado para mim, como aquelas mãos lançadas sobre a minha cabeça. 'Vamos ver se é real.' 'Pareço um rapazinho.' 'Isso é dos nervos.' Tudo o que tive era realmente meu, sobretudo o cabelo. Teço a minha vida entre a alopecia e a tesoura nas mãos do meu pai. O homem fala, a mãe desbasta, a filha cala. Foi no tempo em que já não chorava o que só lhes afiava a raiva. 'Pode rapar tudo.' 'O teu pai põe-te fora de casa.' 'Não quero saber.' E a lentidão amontoada como o cabelo no chão era como se sangrasse, porém às vezes havia tranças e parece que voltava a sorrir." Gisela Casimiro Erosão [2022]

"A Memória no Chão: Identidade e Resistência"

O poema estabelece com muita força a distribuição de papéis: o pai fala, a mãe executa (desbasta, rapa), a filha cala. A figura paterna surge como autoridade que ameaça expulsar a filha de casa, enquanto a mãe, mesmo também oprimida, participa no gesto de cortar, tornando se braço prolongado desse poder. A filha, por sua vez, é quem não tem voz: não é ouvida, não é respeitada, e a sua resistência aparece apenas na frase “Não quero saber”, que é ao mesmo tempo desafio e desespero. A imagem do cabelo amontoado no chão como se fosse sangue reforça a dimensão de violência, dando a ver o corte como uma espécie de ferida aberta, uma mutilação simbólica ligada a género, obediência e controlo do corpo feminino. Apesar do tom de dor e humilhação, o poema deixa entrever, em certos momentos, pequenas brechas de alegria, como as tranças que, “às vezes”, fazem a narradora voltar a sorrir. Essas tranças funcionam como momentos em que o cabelo volta a ser cuidado de forma menos violenta, permitindo uma reconciliação provisória com o espelho e com o próprio corpo. Essa alternância entre sofrimento e cuidado, entre dor e beleza, mostra como a relação com a família e com o próprio corpo não é linear: é feita de gestos que ferem e de gestos que consolam, todos misturados. Esta visão do corpo e do cabelo como campo de batalha encaixa nos temas recorrentes da obra de Gisela Casimiro, onde o corpo é frequentemente apresentado como arquivo de cicatrizes, traumas pessoais e históricos. Em Erosão e noutros textos, a autora explora a forma como a violência — familiar, social, racista, de género — se inscreve no corpo e o fragmenta, enquanto procura, na linguagem, uma possibilidade de reconstrução. Este poema participa dessa poética: transforma uma experiência íntima de humilhação em discurso crítico, revelando como a chamada “tortura sofisticada” pode estar escondida em gestos cotidianos aparentemente normais, mas devastadores

"Erosão por Dentro: Leituras sobre o Enraizamento e a Memória"

TANTO SANGUE Tanto sangue derramado, mas ainda tarda a remissão do pecado.
LEONARD COHEN MORREU Leonard Cohen morreu. Pelo menos tenho o doce de tomate da minha mãe.
RAÍZES Tens a altura das raízes que prendem a terra ao seu eixo.

Ao afirmar “Leonard Cohen morreu”, o poema inscreve‑se num luto colectivo por um artista que marcou gerações, conhecido pela sua escrita sobre amor, perda, solidão e fé. A segunda frase, porém, desloca o foco da grande figura pública para o universo familiar: o doce de tomate da mãe funciona como âncora afetiva que suaviza a dor, lembrando que, mesmo quando perdemos ícones distantes, ainda temos os pequenos gestos de cuidado que estruturam a nossa vida. Há um contraste irónico entre a morte de um “gigante” e algo tão humilde e concreto como um doce caseiro. O poema mostra também como o luto tem escalas: a morte de Cohen, embora importante, é mediada pela relação com a mãe, que é anterior, mais fundadora, mais quotidiana. O doce de tomate simboliza memória, infância, casa, e sugere que a verdadeira resistência à perda está nesses vínculos mínimos, culinários, sensoriais. Em duas linhas, Gisela Casimiro condensa a poética que atravessa Erosão: a articulação entre referências culturais globais e afetos domésticos, entre a melancolia do mundo e a doçura persistente dos laços familiares.

Esse micro-poema condensa numa imagem muito simples a ideia de enraizamento, força e centralidade afetiva. É um bom exemplo da forma como a Gisela Casimiro trabalha o mínimo de palavras para produzir uma grande densidade simbólica. Ao dizer “Tens a altura das raízes / que prendem a terra ao seu eixo”, o eu poético compara a pessoa a quem se dirige não a uma árvore visível, mas às raízes invisíveis que a sustentam. As raízes são aquilo que não se vê, mas que mantém a terra no seu lugar, impede o desmoronar, garante equilíbrio. A “altura” das raízes é paradoxal, porque raízes não “sobem”, mas aprofundam-se; a expressão sugere que a verdadeira grandeza dessa pessoa está na profundidade, na capacidade de manter o mundo (ou pelo menos o mundo da voz poética) firme.

Ao dizer “Tanto sangue derramado, / mas ainda tarda / a remissão do pecado”, o eu poético sugere que já houve sofrimento demais — físico, histórico, talvez até sacrificial — e, no entanto, o perdão, a reparação ou a justiça continuam adiados. O contraste entre “tanto sangue” e “ainda tarda” produz um efeito de indignação contida: como é possível que, depois de tanta dor, o “pecado” (que podemos ler como culpa, injustiça, violência estrutural) não esteja ainda perdoado nem corrigido? A expressão “remissão do pecado” traz um eco forte da teologia cristã, segundo a qual o sangue derramado (de sacrifícios antigos, culminando em Jesus) garante perdão. No poema, esse eco ganha um tom crítico ou pelo menos melancólico: parece haver uma distância entre a promessa de redenção e a realidade.

"Entre a Culpa e o Sagrado: Uma Leitura de 'Confissão'"

O poema trabalha a relação com Cristo como uma relação de distância, culpa e mal‑entendidos dentro de um espaço íntimo: a casa. É um exemplo claro da forma como Gisela Casimiro faz dialogar espiritualidade e quotidiano em Erosão. Cristo “está em minha casa, / mas recusa-se a sair do quarto”: a figura divina habita o espaço do eu lírico, mas permanece confinada, inacessível, quase encerrada numa espécie de clausura interior. A casa pode ser lida como metáfora da própria pessoa ou da vida do sujeito; Cristo está “dentro”, mas não participa plenamente. Todos os dias, o eu deixa “um prato cheio de arrependimento” à porta: em vez de alimento, oferece culpa, remorso, como se a relação com o sagrado estivesse reduzida a autoacusação e penitência. O detalhe final — “e me esqueço de bater à porta” — sugere que o próprio sujeito impede o encontro; prepara o ritual, mas não cria a possibilidade real de diálogo. Há aqui uma crítica subtil a uma religiosidade baseada apenas no arrependimento mecânico, sem verdadeira comunicação. O eu lírico repete o gesto (o prato de arrependimento), mas não faz o mínimo necessário para que a relação se concretize (bater à porta). A recusa de Cristo pode ser lida de duas formas: ou é uma projeção do próprio sentimento de indignidade (“Ele não sai porque eu não mereço”), ou é um modo de dizer que, se o sujeito não se abre de facto ao encontro, a presença divina permanece apenas potencial. O poema joga com a ideia tradicional de Cristo como hóspede da alma, mas inverte-a: aqui, Ele está trancado, quase sequestrado pela culpa e pela incapacidade de relação. No contexto de Erosão, este texto dialoga com outros em que o corpo, a casa e a fé aparecem atravessados por trauma, silêncio e tentativas falhadas de salvação. Tal como noutros poemas onde Deus surge como o ser mais solitário do universo, a espiritualidade de Gisela Casimiro é ambivalente: não oferece respostas fáceis, mas expõe a distância entre a promessa religiosa de consolo e a experiência concreta de solidão, culpa e dificuldade em se aproximar de Deus.

CONFISSÃO Cristo está em minha casa, mas recusa-se a sair do quarto. Todos os dias lhe deixo um prato cheio de arrependimento e me esqueço de bater à porta.
SÁBADO Estamos hoje aqui reunidos em nome da poesia. Demasiados cálices para tão pouca santidade. A salvação, uma pele que o corpo se esquece de mudar, e a alma que vai ficando mais e mais encardida, mais e mais esquecida à espera que algo se lhe junte para justificar a lavagem, mesmo em modo ecológico — mas talvez fosse já isso a felicidade. Somos os que falam demasiado e demasiado depressa na esperança de desafiarmos a Física e finalmente provarmos que a luz é mais rápida do que o silêncio, mas falhamos. Ela andou no colégio de freiras e usa sempre batom vermelho. Ele tem uma janela para outro lugar, mas preferia não ser pai. Ela tem um braço onde apoiar-se, mas tropeça constantemente. A mãe faz anos amanhã, mas nada adoça a morte do pai e ainda assim o filho insiste para que eu sorria sempre. Ela tem o tipo de cabelo com que se lavam os pés no Livro, mas deixou de acreditar. Somos os que dançam demasiado e demasiado depressa, os que riem muito e riem demasiado alto, os que escrevem e escrevem demasiado sobre o que os desassossega porque, se pararmos, a vida pode estar à espera.

“Sábado: o excesso como resistência à vida à espera”

O poema “Sábado”, de Gisela Casimiro, apresenta-nos um grupo reunido “em nome da poesia”, mas que se revela profundamente desajustado ao próprio nome que invoca. Há um contraste imediato entre a solenidade pretendida e a realidade humana: “demasiados cálices para tão pouca santidade”. A espiritualidade é aqui trazida para o plano do doméstico e do prosaico; a salvação é uma “pele” que o corpo esquece de mudar e a alma assemelha-se a uma peça de roupa “encardida” que aguarda uma lavagem, nem que seja em “modo ecológico”. Esta metáfora sugere que a felicidade talvez não seja um êxtase místico, mas uma manutenção simples e funcional do quotidiano. Os sujeitos do poema definem-se pelo excesso. São seres que falam e dançam “demasiado e demasiado depressa”, numa tentativa desesperada de desafiar as leis da Física. Querem provar que a luz é mais rápida do que o silêncio, mas falham. Nesta luta, o silêncio surge como a força absoluta que a palavra não consegue vencer; por mais que se acelere o discurso, o vazio persiste.

SÁBADO Estamos hoje aqui reunidos em nome da poesia. Demasiados cálices para tão pouca santidade. A salvação, uma pele que o corpo se esquece de mudar, e a alma que vai ficando mais e mais encardida, mais e mais esquecida à espera que algo se lhe junte para justificar a lavagem, mesmo em modo ecológico — mas talvez fosse já isso a felicidade. Somos os que falam demasiado e demasiado depressa na esperança de desafiarmos a Física e finalmente provarmos que a luz é mais rápida do que o silêncio, mas falhamos. Ela andou no colégio de freiras e usa sempre batom vermelho. Ele tem uma janela para outro lugar, mas preferia não ser pai. Ela tem um braço onde apoiar-se, mas tropeça constantemente. A mãe faz anos amanhã, mas nada adoça a morte do pai e ainda assim o filho insiste para que eu sorria sempre. Ela tem o tipo de cabelo com que se lavam os pés no Livro, mas deixou de acreditar. Somos os que dançam demasiado e demasiado depressa, os que riem muito e riem demasiado alto, os que escrevem e escrevem demasiado sobre o que os desassossega porque, se pararmos, a vida pode estar à espera.

“Sábado: o excesso como resistência à vida à espera”

Assim, o poema desfila então uma galeria de retratos individuais marcados pela contradição e pelo luto: a mulher do colégio de freiras que afirma a sua presença através do batom vermelho; o homem que, tendo uma “janela para outro lugar”, rejeita a continuidade da paternidade; a mãe cujo luto pelo pai nada consegue adoçar, apesar da exigência de felicidade imposta pelo sorriso que o filho reclama. Há uma tensão entre a dor real e a ditadura da positividade que o grupo tenta encenar. Por fim, a escrita e o riso alto surgem como estratégias de adiamento. Escreve-se “demasiado sobre o que os desassossega” não para resolver o trauma, mas para manter o movimento. O excesso de ruído funciona como uma cortina de fumo: se a música parar, se o riso cessar e a caneta poisar, “a vida pode estar à espera”. O “Sábado” de Casimiro é, assim, uma superfície vibrante e barulhenta construída para disfarçar o medo profundo de encarar o que resta quando o movimento acaba.

“Assistolia: o amor que insiste em pulsar após a partida”

O poema “Assistolia” constrói uma sequência temporal muito curta mas intensa: começa no “choque” e avança para a “assistolia”, isto é, a ausência de batimento cardíaco, numa imagem que une trauma emocional e paragem física. A partir daí, o sujeito poético desloca‑se do choque físico para o choque afetivo: a vida revela‑se, então, uma “desilusão” não porque tudo acaba, mas porque há coisas que se recusam a morrer mesmo depois da partida de alguém. O núcleo do poema está no paradoxo expresso em “Depois do amor, mais amor ainda”. Em vez de um esvaziamento, sucede‑se um excesso de memória: o amor persiste, sobrevive, talvez se torne mais pesado e mais presente. A “desilusão da vida” não é que a vida seja traiçoeira, mas que ela não obedece ao ritmo que se deseja — não permite que o desejo de esquecer ou de terminar coincida com o fim real da experiência. As coisas, os afetos, os traços de quem se foi recusam morrer e continuam a bater, como um eco cardíaco fantasma, muito depois da partida. O título “Assistolia” funciona, assim, como uma metáfora central: há um coração que não bate, mas há um outro coração — emocional, literário, simbólico — que insiste em continuar a palpitar. O poema, brevíssimo, condensa a resistência do amor à morte e a dor de uma desilusão que não é a ausência, mas a presença insistente do que já se foi.

ASSISTOLIA Depois do choque, a assistolia. Depois do amor, mais amor ainda. Que desilusão a vida: haver coisas que se recusam a morrer muito após a tua partida.

“O meu corpo: entre o que já foi e o que ainda terá de ser”

O poema “O meu corpo” radica‑se numa experiência de desconforto e estranheza em relação ao próprio corpo. A repetição insistente de “Este é o meu corpo / mas ainda não é o meu corpo” revela uma tensão entre identidade e sensação: o sujeito reconhece o corpo como seu, mas sente que não lhe pertence plenamente, como se estivesse em processo de construção ou em transição. Uma segunda tensão surge na frase “Este já não é o meu corpo / e nunca voltará a ser o meu corpo”. Aqui o poema toca na ideia de perda e mudança irrecuperável: o corpo de antes foi deixado para trás, e o sujeito reconhece que não há regresso possível à versão anterior de si próprio. Ao mesmo tempo, a frase “Mas este já foi o meu corpo / e ainda virá a ser o meu corpo” introduz uma perspectiva cíclica ou processual: o corpo é simultaneamente passado, presente e futuro, sempre em devir. O poema termina numa dúvida profunda: “eu não sei se o meu corpo ainda se lembra do meu corpo / ou se terá de esculpir outro”. A metáfora da escultura sugere um trabalho de reapropriação — o corpo não vem pronto, tem de ser moldado, refeito, refeito continuamente. A separação entre o “eu” e o “corpo” amplia‑se até ao limite: o corpo parece ter memória própria, e o sujeito não sabe se continua a habitá‑lo plenamente ou se terá de construir, a partir dele, um corpo novo.

O MEU CORPO Este é o meu corpo, mas ainda não é o meu corpo. Este já não é o meu corpo e nunca voltará a ser o meu corpo. Mas este já foi o meu corpo e ainda virá a ser o meu corpo. Este já parece o meu corpo, mas eu não sei se o meu corpo ainda se lembra do meu corpo ou se terá de esculpir outro
CHOVE SOBRE COISAS Chove sobre coisas que não servem para nada: a luz verde do semáforo combina com o letreiro da farmácia fechada. A luminosidade inútil de uma hora uma temperatura um sinal positivo e alguém que escorrega e cai e fica por momentos na estrada a sangrar transparências. Eis um homem em desuso porque o amor está fora de serviço e ele não fala a língua nem se apercebe de que existem farmácias permanentes. Se soubesse, rasgaria a lista. A nada deveríamos permitir mais do que o amor algum dia será.

“Chove sobre coisas: o amor ausente e o mundo que não serve”

O poema “Chove sobre coisas” instala uma atmosfera de inutilidade e desencontro: a chuva cai sobre elementos que “não servem para nada”, como uma luz verde de semáforo que combina com o letreiro de uma farmácia fechada. Essa combinação quase surreal sublinha a arbitrariedade do mundo quotidiano, onde signos e objetos se alinham sem sentido prático, apenas como testemunhos de um tempo vazio. A imagem do “homem em desuso” surge como a figura central do poema: ele é alguém cujo amor está “fora de serviço”, e que não domina a língua nem se apercebe de que existem “farmácias permanentes” — isto é, lugares de cura ou de cuidado que permanecem abertos. A frase “se soubesse, rasgaria a lista” sugere que, se tivesse acesso a esse saber, romperia com uma ordem de prioridades erradas, com uma lista de tarefas ou valores que não vale a pena cumprir. O poema encerra com uma espécie de princípio ético e emocional: “A nada deveríamos permitir / mais do que o amor algum dia será.” A chuva, o letreiro, o semáforo, o sangue na estrada — tudo aquilo que é supérfluo ou deslocado — deve ceder lugar a um único critério fundamental: o amor, concebido não como sentimentalismo, mas como medida última do que vale a pena. A chuva, então, cai sobre coisas inúteis, mas o poema quer que o leitor olhe além delas, para o que o amor poderia ser se lhe déssemos o lugar que lhe pertence.

“O poema como campo de batalha e verbo de salvação”

Neste texto, Gisela Casimiro despe a poesia de qualquer decorativismo para a definir como um “campo de batalha”. O poema deixa de ser uma construção estética para se tornar um espaço de confronto ético e de reconhecimento da própria falibilidade. Ele é o “corvo” que observa a nossa indiferença perante a miséria — personificada na senhora que pede esmola na estação — e é, simultaneamente, a nobreza que o eu‑lírico admite não possuir. A poesia surge aqui como uma ‘esmola pura’, algo recebido sem mérito, um dom de visão que não se conquista, mas que se aceita. A autora expande a definição do fazer poético para o plano do sagrado e do invisível. O poema é o “verbo salvar”, o caminho penoso para um amor destinado que habita um “país distante”, inalcançável por um mero fechar de olhos e inscrito num tempo de espera e promessa.

o poema é um campo de batalha O poema é um campo de batalha, é um corvo. É a senhora que pede esmola sentada à beira das escadas rolantes na estação de comboios e que eu ignoro de cada vez que por ela passo. O poema é a nobreza que essa senhora terá a mais do que eu, é a esmola pura que eu não mereço, sequer, pedir-lhe. O poema é a árvore do cimo da qual eu aprendo que o meu coração tem fundo. Em algumas manhãs, talvez por os anjos se demorarem mais à minha volta, vejo-a da janela do meu quarto e sei: o poema é este comover contínuo. O poema é o caminho que ainda me falta percorrer para o amor que me foi destinado e que se apresenta sob8 a forma de imagens esbatidas, difusas de quem sei que espera por mim nalgum país distante e que se distingue do que eu habito agora por não bastar um abrir ou fechar de olhos para lá chegar. O poema é o verbo salvar. O poema é a criança que no metro toca acordeão com um cachorro ao ombro, é um quadro. É o pé da minha avó, amputado, é uma nuvem. O poema é o meu silêncio para com o mundo. O poema é como sei que Deus é o ser mais solitário do Universo; é a minha oração, a minha forma desajeitada de fazer-lhe companhia. Gisela Casimiro Erosão, Editora Urutau, 2018

“O poema como campo de batalha e verbo de salvação”

o poema é um campo de batalha O poema é um campo de batalha, é um corvo. É a senhora que pede esmola sentada à beira das escadas rolantes na estação de comboios e que eu ignoro de cada vez que por ela passo. O poema é a nobreza que essa senhora terá a mais do que eu, é a esmola pura que eu não mereço, sequer, pedir-lhe. O poema é a árvore do cimo da qual eu aprendo que o meu coração tem fundo. Em algumas manhãs, talvez por os anjos se demorarem mais à minha volta, vejo-a da janela do meu quarto e sei: o poema é este comover contínuo. O poema é o caminho que ainda me falta percorrer para o amor que me foi destinado e que se apresenta sob8 a forma de imagens esbatidas, difusas de quem sei que espera por mim nalgum país distante e que se distingue do que eu habito agora por não bastar um abrir ou fechar de olhos para lá chegar. O poema é o verbo salvar. O poema é a criança que no metro toca acordeão com um cachorro ao ombro, é um quadro. É o pé da minha avó, amputado, é uma nuvem. O poema é o meu silêncio para com o mundo. O poema é como sei que Deus é o ser mais solitário do Universo; é a minha oração, a minha forma desajeitada de fazer-lhe companhia. Gisela Casimiro Erosão, Editora Urutau, 2018

Há uma dimensão de ascese: a escrita é o que permite descobrir que o “coração tem fundo” e é o “comover contínuo” que humaniza o olhar sobre o mundo — seja no pé amputado da avó, seja na criança que toca acordeão no metro, transformando o marginal em quadro, o esquecido em testemunho. A imagem final é de uma beleza desoladora: o poema como uma oração para fazer companhia à solidão de Deus, o “ser mais solitário do Universo”. Escrever deixa de ser um ruído para evitar a vida (como sugeria o poema ‘Sábado’) e passa a ser uma “forma desajeitada” de preencher o vazio cósmico. O poema é, em última análise, o silêncio do poeta perante o mundo, transformado em voz para que nem Deus, nem o Homem, fiquem totalmente sós.

“Quando for grande: a violência policial ensinada em casa”

O poema “Quando for grande” apresenta‑se como a fala de uma criança que anuncia o seu desejo de futuro: “Quero ser polícia / para bater nos pais de outros meninos / em frente aos outros meninos.” A escolha da polícia como profissão aparece não como vocação civilizatória, mas como forma de exercer violência pública, encenada perante os outros, como se fosse um espetáculo de poder. A partir da frase “O meu pai sempre me disse: / cuidado a quem dás bastonadas”, o texto desloca‑se da violência física para a violência simbólica e racial. O pai ensina ao filho uma verdade pervertida: se bater em alguém preto, será visto como racista; se bater em alguém branco, estará apenas a “ser polícia”. Essa distinção coloca a violência policial como prática neutra quando incide sobre corpos brancos, enquanto criminaliza explicitamente a agressão racializada. O poema culmina numa ironia amarga: “Ainda bem que não somos pretos. / Imaginem se fôssemos pretos. / Já não podia ser polícia.” Aqui, a criança revela inconscientemente o fundo racista desse sistema: a possibilidade de exercer violência depende de quem é o sujeito e de quem é o alvo. O desejo de ser polícia só faz sentido se o sujeito não pertencer ao grupo que é visto como alvo, evidenciando como o racismo institucional se transmite desde a infância, sob a forma de conselhos familiares e de normalização da violência seletiva.

Quando for grande Quando for grande quero ser polícia para bater nos pais de outros meninos em frente aos outros meninos. O meu pai sempre me disse: cuidado a quem dás bastonadas. Nunca dês bastonadas a um preto senão vão achar que és racista. Se deres bastonadas a um branco estarás apenas a ser polícia. Ainda bem que não somos pretos. Imaginem se fôssemos pretos. Já não podia ser polícia.

“Cicatrizes: marcas que resistem e que se tornam voz”

O poema “Cicatrizes” parte de uma premissa simples: as cicatrizes não desaparecem. A primeira frase, “Nada as fará desaparecer”, reconhece a permanência do que foi ferido, quer no corpo quer na memória. Em vez de propor apagar essas marcas, o poema convida a chorar “o que quiseres sobre as tuas cicatrizes”, legitimando o luto, a dor e a saudade como reações possíveis perante o que não se pode apagar. A segunda parte do poema desloca‑se da dor para o ato de escrita: as cicatrizes “limitam a tua invisibilidade”, o que significa que marcam o corpo e a identidade, tornando‑o visível, não apagado. Em vez de esconder o que dói, o poema sugere escrever “o que puderes sobre as tuas cicatrizes”. A escrita surge, assim, como uma forma de reapropriar a dor: as cicatrizes deixam de ser apenas sinais de violência, e tornam‑se o material de uma narrativa, de um testemunho. Em conjunto, o poema constrói uma ética da visibilidade e da palavra: reconhecer a dor, aceitar que as marcas ficam, e transformar esse reconhecimento em escrita. As cicatrizes, então, são simultaneamente memória, resistência e matéria‑prima da poesia — aquilo que não se apaga, mas que se pode contar, repetir, reinventar.

Cicatrizes Nada as fará desaparecer por isso chora o que quiseres sobre as tuas cicatrizes. Elas limitam a tua invisibilidade por isso escreve o que puderes sobre as tuas cicatrizes.

“Quarto escuro: tactear o futuro entre o tempo roubado e a guarda do coração”

O poema “Quarto escuro” condensa uma experiência de intimidade e incerteza no espaço do tempo conversível. A frase “Tacteamos o futuro em cinco minutos / ou duas, três horas roubadas à realidade” sugere que o futuro não se alcança por grandes planos, mas por pequenos momentos de proximidade, arrancados ao quotidiano. Esses minutos ou horas são “tacteados”, como se o futuro se fosse aprendendo ao toque, pela experiência sensível, e não por um calendário ou por uma previsão racional. A imagem do “cão de guarda ao coração” na porta do quarto reforça a ideia de proteção e vulnerabilidade simultâneas. O coração, lugar da emoção e da esperança, é vigiado, mas também exposto: o quarto escuro é um espaço onde se pode arriscar falar, tocar, imaginar, enquanto o “cão” mantém uma fronteira entre a intimidade e o mundo exterior. O poema, assim, constrói o quarto como um refúgio temporal e afetivo, onde o futuro, ainda escuro, é explorado devagar, com mãos prudentes, e com o coração protegido, mas não fechado.

Quarto escuro Tacteamos o futuro em cinco minutos ou duas, três horas roubadas à realidade. À porta, um cão de guarda ao coração. (inédito, outono de 2022)

“Giz, de Gisela Casimiro: um livro de poesia entre identidade e racismo”

Giz, publicado em 2023 pela editora Urutau, é o segundo livro de poesia de Gisela Casimiro, que se insere num percurso de escrita fortemente marcado por questões de identidade racial, quotidiano, memória e cuidado. O livro reúne não apenas poemas, mas também pequenas notas, diário de sonhos, falhas, traumas e preocupações com o mundo, o que lhe confere um carácter híbrido, entre diário íntimo e manifesto poético. A poesia de Giz fala de corpos negros, de raças, de violência racista, mas também de gestos quotidianos, de relações afetivas, de sonhos e de humores. A escrita de Gisela Casimiro é direta e, muitas vezes, quase coloquial, o que aproxima a poesia do leitor comum, sem diminuir a sua força crítica e emocional. O “giz” funciona como metáfora ambígua: o caráter efêmero do que se escreve, mas também a possibilidade de riscar, apagar e reescrever o próprio corpo e a própria história. O livro trava uma relação intensa com a memória — pessoal e coletiva —, misturando recordações íntimas com referências políticas e históricas, como o racismo estrutural, a violência policial e as marcas deixadas pela colonização e pela migração. Ao mesmo tempo, a voz da autora insere o humor, as “piadas” e o afeto, evitando cair num tom unicamente lúgubre, e reforçando a ideia de que a resistência negra também se constrói pelo riso, pela camaradagem e pelo prazer.

“Giz, de Gisela Casimiro: um livro de poesia entre identidade e racismo”

Profecia O amor chegará na bicicleta em que nunca ninguém te ensinou a andar Gisela Casimiro, Giz.

Em termos de disposição formal, Giz é um objeto híbrido: não se limita ao poema “puro”, mas inclui fragmentos de diário, breves reflexões, listas, sonhos e até pequenas observações sobre pessoas conhecidas, o que reforça a ideia de que a poesia de Gisela Casimiro é um fazer de vida, e não apenas um fazer de palavras. O prefácio de Emicida evoca a autora como “certeira como Seh-Dong-Hong-Beh”, invocando uma guerreira afro-dahomiana e inscrevendo o livro num imaginário de luta e resistência. Em síntese, Giz oferece-nos um conjunto de vozes entrelaçadas onde se misturam ferida, indignação, humor e afeto; é um livro que não só fala de racismo, mas o lê de dentro, como quem o carrega no corpo, na memória e nas palavras, e o transforma em poesia de combate e de cuidado.

Num tom oracular e íntimo, o poema profetiza o amor como chegada inesperada: "na bicicleta / em que nunca ninguém / te ensinou a andar". A imagem central — a bicicleta intocada, símbolo de liberdade negada ou adiada — evoca ausências formativas, mas também promessa de movimento autónomo. Com economia verbal, Casimiro entrelaça quotidiano doméstico e desejo negro, transformando o não-aprendido em portal de redenção afetiva. Ecoa o hibridismo de Giz: ferida pessoal vira manifiesto poético, leve e cortante.

Árvores Quando enforcavam negros eles baloiçavam nos ramos do carvalho ― os pés não tocavam o chão. Quando eu era criança baloiçava nos ramos do salgueiro ― os pés não tocavam o chão. Quando escolhiam árvores elas nunca podiam decidir ― os negros também não. Quando eu era criança coleccionava espanta-espíritos e Deus falava no vento. Quando leio Alice Walker a música é prece e mapa ― Deus fala no livro. Quando leio Toni Morrison sou a voz e não o boneco do ventríloquo.
Quando afago as rastas de Alice Walker o chicote não quebra a costela. Ao espírito também não. Quando voo nas rastas de Toni Morrison elas não tocam o chão. A dignidade também não. Agora já não enforcam negros porém só às árvores deixaram em paz. A paz de não reparar só é comparável à de nunca ter sabido. Mas eu prefiro saber e prefiro ter sido. Agora só colecciono pessoas, mas ainda sou negra. Da campa fiz a casa. Das mãos, páginas. A Deus, perdoo. Aos negros, sorrio. Às árvores, subo-as.

“Árvores: entre linchagem, memória e dignidade”

O poema “Árvores” constrói uma ponte entre a violência histórica do racismo e a experiência pessoal da criança negra. A abertura, evocando negros enforcados nos ramos do carvalho, introduz a árvore como palco de linchagem e de morte, marcando‑a com uma memória de horror. Em contraste, a imagem do eu‑lírico a baloiçar nos ramos do salgueiro recupera a árvore como espaço de brincadeira e leveza, mas sem apagar o eco da violência passada: o gesto da criança lembra, de forma invertida, o balanço dos corpos enforcados. Ao longo do poema, a árvore surge como testemunha passiva e impotente: quando “escolhiam árvores”, estas “nunca podiam decidir”, assim como os negros também não tinham escolha. A semelhança entre árvore e corpo negro insiste na ideia de que a Natureza pode ser usada como suporte de violência, mas também como lugar de proteção e memória. A relação com a leitura de Alice Walker e Toni Morrison reforça essa dialética: a música é “prece e mapa”, e o livro torna‑se lugar onde Deus fala, e onde o sujeito negro deixa de ser “o boneco do ventríloquo” e se torna voz própria. Na parte final, o poema trabalha a ideia de superação sem esquecimento: “Agora já não enforcam negros / porém só às árvores deixaram em paz.” A “paz” de não reparar nas marcas do passado é criticada como uma forma de ignorância, e a voz poética afirma preferir “saber e ter sido” — assumir a história, por mais dolorosa que seja. A criança que colecionava espanta‑espíritos transforma‑se numa adulta que “coleciona pessoas”: a fé, o cuidado e a dignidade passam a habitar não na árvore suspensa, mas na casa construída “da campa”, nas “mãos” convertidas em “páginas” e no perdão. A árvore, por fim, deixa de ser um suporte de morte e torna‑se um lugar de ascensão: “Às árvores, subo‑as”, como se a dignidade, como as raízes, se afirmasse desde baixo, mas a voz buscasse sempre o alto.

Estendais: Um Varal de Histórias Vivas e Diárias

Estendais (Editorial Caminho, 2023), o debut de Gisela Casimiro na não-ficção, reúne cerca de oitenta crónicas curtas, muitas delas já publicadas em jornais e plataformas digitais, sob a forma de um mosaico íntimo e colectivo que capta o pulsar do quotidiano como acto de resistência e memória. Prefaciado por Lia Pereira, o livro posiciona-se como "uma garimpagem de histórias do quotidiano, como ela própria descreve o seu olhar atento à vida dos outros” onde a autora, guineense radicada em Portugal, tece fragmentos de vida — dos transportes públicos aos mercados, das ruas às conversas de elevador — transformando o banal em espelho de identidades plurais, racismo subtil e laços afetivos.A prosa de Casimiro é direta, oral e coloquial, quase conversacional, aproximando o leitor de episódios que misturam dor e humor: o reencontro com o irmão após anos de separação familiar; as perguntas insistentes sobre África ou Portugal, respondidas com um lapidar "Sobre o mundo"; "o racismo subtil do dia a dia"; a solidariedade entre negros em contextos improváveis; e os sonhos que irrompem como seiva de uma história não contada. Sem um tema unificador rígido, Estendais evoca a imagem de um varal de vivências expostas ao sol — efémeras, mas indeléveis —, entrelaçando o pessoal (traumas migratórios, afetos familiares) com o político (violência estrutural, heranças coloniais).

Estendais: Um Varal de Histórias Vivas e Diárias

Esta hibridez formal — crónica, ensaio breve, quase diário — alinha-se ao espírito de Giz (2023), mas troca a metáfora do giz frágil pela durabilidade do tecido estendido: aqui, a escrita não apaga, mas seca, ganha corpo e resiste ao vento. Gisela insere piadas cortantes, ternura irónica e uma inconformidade alegre, medindo a liberdade pelo que ainda falta libertar, ecoando os pulmões faiscantes de Abril – o cravo vem. É um livro que lê o racismo de dentro, como quem o carrega no corpo e nas palavras, mas o transforma em comunhão: um convite a pendurar as próprias histórias no mesmo estendais colectivo. Em síntese, Estendais oferece uma escrita de combate e cuidado, onde o quotidiano se faz manifesto poético-prosaico, celebrando a vida negra lusófona como teia de feridas curadas em voz alta — perfeito complemento à poesia de Casimiro, para quem a literatura é, acima de tudo, um fazer de vida.

“As pequenas e fundamentais coisas simples de todos os dias, as que mudam alguma coisa. As que nos movem, as delicadas e duras coisas simples de todos os dias. As que fazem o dia e o coração avançar.”

Estendais: Um Varal de Histórias Vivas e Diárias

Esta hibridez formal — crónica, ensaio breve, quase diário — alinha-se ao espírito de Giz (2023), mas troca a metáfora do giz frágil pela durabilidade do tecido estendido: aqui, a escrita não apaga, mas seca, ganha corpo e resiste ao vento. Gisela insere piadas cortantes, ternura irónica e uma inconformidade alegre, medindo a liberdade pelo que ainda falta libertar, ecoando os pulmões faiscantes de Abril – o cravo vem. É um livro que lê o racismo de dentro, como quem o carrega no corpo e nas palavras, mas o transforma em comunhão: um convite a pendurar as próprias histórias no mesmo estendais colectivo. Em síntese, Estendais oferece uma escrita de combate e cuidado, onde o quotidiano se faz manifesto poético-prosaico, celebrando a vida negra lusófona como teia de feridas curadas em voz alta — perfeito complemento à poesia de Casimiro, para quem a literatura é, acima de tudo, um fazer de vida.

“As pequenas e fundamentais coisas simples de todos os dias, as que mudam alguma coisa. As que nos movem, as delicadas e duras coisas simples de todos os dias. As que fazem o dia e o coração avançar.”

Abril – o cravo vem Abril – o cravo vem chamar a liberdade para brincar Na mesa de voto escrevi o poema a revolução Uns pulmões que faísquem na voz – a ignição da revolução Meço a minha liberdade por quantas pessoas ainda falta libertar Do sangue feito seiva brota a flor da marcha concreta da liberdade publicado in Jornal Público

A Medida da Liberdade

Neste poema, Gisela Casimiro retira o 25 de Abril do feriado estático e devolve-o ao corpo e à ação. A "ignição da revolução" não é um evento do passado, mas um estado de alerta que começa nos pulmões e termina na mão que vota. O momento mais alto do texto reside na desconstrução do conceito liberal de liberdade: para a autora, ninguém é verdadeiramente livre enquanto houver quem não o seja. Ao afirmar que mede a sua liberdade por "quantas pessoas ainda falta libertar", Gisela alinha-se com o pensamento de figuras como Angela Davis, transformando o cravo — símbolo da memória portuguesa — numa "seiva" que alimenta uma "marcha concreta". É uma poesia que não se limita a contemplar a democracia; ela convoca-a para a rua, para a mesa de voto e para a luta contínua contra a exclusão.

"Arquiteturas do Cuidado: O Corpo como Casa e Floresta"

A Casa com Árvores Dentro (teatro, 2022) é a peça de Gisela Casimiro encenada por Cláudia Semedo, que cruza poesia performativa com dramaturgia íntima sobre corpos negros em espaços confinados. A "casa" — metáfora de prisão doméstica, memória e refúgio — abriga árvores como símbolos de raízes vivas e resistência orgânica, entrelaçando migração guineense, afectos familiares e violência invisível do quotidiano. A escrita mantém o hibridismo de Giz e Estendais: diálogos coloquiais irrompem em monólogos líricos, com humor cortante e silêncios que pesam como herança colonial. As árvores "dentro" evocam o impossível — natureza domada, mas indomável —, questionando: como brotar em solo hostil? Estreia em contexto de programação cultural negra lusófona, reforçando Gisela como voz de combate e cuidado espacial.

Participações em Antologias e Coletâneas: O Arquipélago Coletivo de Gisela Casimiro

Gisela Casimiro amplia o seu universo poético através de participações em antologias que cruzam poesia individual com coros coletivos, reforçando temas de identidade racial, memória pós-colonial e liberdade inconclusa. Em Reconstituição Portuguesa (2022, org. Viton Araújo e Diego Tórgo, Abysmo), projeto premiado, "limpa" a Constituição do Estado Novo para extrair palavras que poetas contemporâneos reescrevem em versos de resistência — Gisela transforma o texto salazarento em manifesto sobre corpos negros e heranças coloniais, ecoando o hibridismo de Giz. Rio das Pérolas (2020, org. António Martins, Ipsis Verbis) reúne vozes lusófonas emergentes, onde os seus textos iniciais exploram o quotidiano racializado, prenunciando Erosão. Outras contribuições incluem Venceremos! Discursos escolhidos de Thomas Sankara (tradução/prefácio, ligando pan-africanismo à lusofonia), As Penélopes (antologia feminista com poemas sobre linhagem negra) e Trás los Claveles (hispano-lusófona sobre revoluções ibéricas, dialogando com Abril – o cravo vem). Gisela Casimiro não limita a sua intervenção à página impressa; a sua obra expande-se num arquipélago interdisciplinar onde a escrita, as artes visuais e a performance se alimentam mutuamente. Esta hibridez é a prova final de que a sua poesia é um "fazer de vida": seja a "limpar" a Constituição em Reconstituição Portuguesa, a estender a intimidade em Estendais ou a plantar árvores dentro do luto, a sua voz é o fio condutor que une estas ilhas de memória. O seu percurso demonstra que a literatura contemporânea, para ser plena, tem de ser como os seus pulmões de Abril: uma ignição constante que transforma o trauma em seiva e a palavra em liberdade concreta.

"Gisela Casimiro: A Escrita como Ativismo no Feminismo Negro Português"

No teatro (A Casa com Árvores Dentro, 2022), o corpo feminino confinado brota raízes contra opressão, dialogando com violências invisíveis.No debate público, Gisela ocupa RTP (Mar de Letras), podcasts (Expresso), exposições (Em memória de mim) e antologias (Reconstituição Portuguesa), denunciando micro-agressões racistas e desigualdades de classe: "A escrita é uma questão de classe", afirma em entrevista ao Observador (2023). Como organizadora de exposições e performer, amplifica vozes marginais, medindo liberdades inconclusas (Abril – o cravo vem) e promovendo solidariedade negra feminina. O seu papel transcende a autoria: é ignição para um feminismo negro português que transforma ferida em seiva colectiva, ocupando espaços brancos com riso camarada e combate afectivo.

Gisela Casimiro posiciona-se como uma das vozes fundamentais do feminismo negro em Portugal, contribuindo para um debate público que ganha contornos visíveis pós-2015, entre o Black Lives Matter lusófono e o activismo interseccional de figuras como Joacine Katar Moreira. Através da escrita, performance e colectivos como INMUNE (co-fundado por Joacine) e UNA – União Negra das Artes, Gisela articula um feminismo que não separa raça, género e classe: corpos negros femininos como campo de batalha contra o racismo estrutural, capacitismo e heranças coloniais.No plano literário, Giz (2023) e Estendais (2023) resgatam linhagens de mulheres guineenses — mãe, irmã Kátia Casimiro —, transformando gestos domésticos (estender roupa) em actos de empoderamento colectivo. A tradução de Audre Lorde (Irmã Marginal, Orfeu Negro) introduz o feminismo negro americano na lusofonia, enquanto poemas como Profecia reescrevem narrativas afectivas negadas a mulheres negras.

Crónicas de memória e resistência: Gisela Casimiro entre o jornal Público e o projeto Setenta e Quatro

Gisela Casimiro integra hoje um lugar central na esfera pública portuguesa como escritora‑ativista cuja crónica de opinião se entrecruza com a literatura, a arte e a denúncia política. Nascida na Guiné‑Bissau e radicada em Portugal desde criança, a sua voz mobiliza uma perspetiva pós‑colonial, feminista e interseccional, desnaturalizando narrativas nacionais tidas por consensuais, sobretudo em torno do 25 de Abril e da memória colonial. É nesse contexto que a sua colaboração com o jornal Público e com o projeto Setenta e Quatro ganha especial relevância, funcionando como prolongamento de uma escrita que combina a forma da crónica com a densidade do ensaio político. No Público, Casimiro assume a função de cronista de opinião, abordando temáticas como racismo institucional e quotidiano, violência de género, precariedade socioeconómica e a interpelativa presença de corpos negros na sociedade portuguesa. As suas crónicas conjugam o registo autobiográfico com a análise social, deslocando o foco do anedótico individual para o estrutural, de modo a expor a rede de privilégios e discriminações que atravessa Portugal. Esses textos, depois reunidos no livro Estendais (Caminho, 2023), revelam‑se como um “baú de memórias” e um “elogio à beleza do mundano”, em que o quotidiano é um ponto de entrada para debates sobre identidade, classe e reparação histórica

Crónicas de memória e resistência: Gisela Casimiro entre o jornal Público e o projeto Setenta e Quatro

A colaboração com o Setenta e Quatro aproxima‑se de uma dimensão ainda mais ensaística e memorial, articulando‑se diretamente com a memória política do 25 de Abril e com a crítica à interpretação hegemónica desse acontecimento. O nome do projeto remete para o 4.º número de 1974, instante‑símbolo de viragem, mas Casimiro insiste em que “antes de Abril, veio Setembro”, ou seja, antecipa a independência da Guiné‑Bissau em 1973 como marco fundador da descolonização, muitas vezes eclipsado na narrativa oficial. Nesse espaço, a sua escrita dialoga com outras vozes ativistas e académicas, contribuindo para uma reinterpretação contranarrativa que desloca o centro da história do metrópole para o Atlântico pós‑colonial.Ambos os contextos — o espaço jornalístico do Público e o projeto memorial‑ensaístico do Setenta e Quatro — permitem observar a forma como Casimiro articula crónica e opinião política sem recorrer à retórica maniqueísta. A autora combina uma linguagem cuidada, com forte carga literária, com uma postura rigorosamente política, em que o humor, a ironia e a confessionalidade servem antes de mais como instrumentos de desconstrução de narrativas racistas e colonialistas. Ao mesmo tempo, a sua presença em múltiplos suportes (imprensa, revistas culturais, projetos editoriais e instalações artísticas) reforça a ideia de que a escrita de opinião de Casimiro não é apenas comentário mediático, mas prática de resistência e de reconfiguração do espaço público.

A voz negra na literatura lusófona atual: representatividade como resistência e reconfiguração do cânone

A representatividade da voz negra na literatura lusófona contemporânea não é apenas um tema de diversidade temática, mas uma questão política e epistemológica central no modo como se lê e se escreve Portugal, Brasil e África lusófona hoje. A presença crescente de escritoras e escritores negros em editoriais, prémios, currículos escolares e circuitos culturais evidencia uma transformação lenta, porém significativa, na paisagem literária lusófona, que se recusa a continuar a silenciar pessoas negras” que historicamente foram apenas “personagens” no lugar de autoras e autores. Em Portugal, a literatura de autoria negra colonial e pós‑colonial tem vindo a emergir como espaço de denúncia do racismo estrutural e de reposicionamento das memórias do império. Autores como Gisela Casimiro, Grada Kilomba, Sónia Vaz Borges e outros articulam a escrita poética, ensaística e ficcional com a crítica ao branqueamento da sociedade portuguesa, mostrando que a voz negra não entra na literatura como “aditivo” identitário, mas como necessidade de reformulação de narrativas nacionais. Esse processo atravessa também o espaço público, em que crónicas, textos de opinião e intervenções culturais ampliam a perceção de que a literatura negra é um terreno de disputa sobre quem conta a história e como se conta Portugal.

A voz negra na literatura lusófona atual: representatividade como resistência e reconfiguração do cânone

Na Lusofonia mais ampla, a representatividade negra recupera linhagens de escrita anticolonial, afro‑diaspórica e feminista, ligando autores contemporâneos a genealogias de negritude e contestação. Em países como o Brasil, Angola, Guiné‑Bissau ou Moçambique, a literatura escrita por pessoas negras tem sido palco de debates sobre raça, gênero, classe e memória, rompendo com a tradição de invisibilizar o sujeito negro numa literatura ainda assente em modelos de cânone europeu‑inspirado. Isso implica uma dupla importância: por um lado, a visibilidade de histórias, corpos e afetos que estavam ausentes; por outro, a criação de interlocuções transnacionais entre as várias línguas e contextos lusófonos, formando uma “mapa negro‑luso‑fónico” de resistência. A força da voz negra na literatura lusófona atual reside precisamente na interseção entre representatividade e responsabilidade crítica. Ao garantir que pessoas negras sejam quem fala de si, em vez de apenas serem descritas por outros, a escrita deixa de ser apenas arte para se tornar ato de reparação, memória e reconfiguração das relações raciais nos espaços lusófonos. Assim, representatividade não se esgota em “quantidade” de livros com autores negros, mas na forma como essas vozes desafiam imaginações raciais, problematizam o passado colonial e abrem a possibilidade de novos modos de ser, ler e conviver em sociedades ainda marcadas por racismo, mas sensíveis a um debate que já não pode ser adiado

Artes Visuais e Fotografia: a imagem como extensão da palavra em Gisela Casimiro

Ao reencenar esses códigos de imagem, ela introduz corpos negros onde não existiam, criticando a ausência de afro‑descendentes nos livros de arte, na moda e na televisão, e transformando o museu em um espaço de desafio simbólico. A imagem passa, então, a ser uma forma de escrever histórias diferentes, de repovoar a memória artística com queer‑idades, negritudes e resistências que a palavra sozinha, por si, não conseguiria ocupar com a mesma densidade visual. Nas suas exposições de fotografia, como a instalada na Appleton (In this new picture your smile has been to war), a imagem funciona como registro de luta, de gesto e de afeto, mantendo‑se inseparável de uma dimensão textual e narrativa. As fotografias recolhem anos de manifestações, gritos, abraços, cartazes e palavras nas ruas, fixando num plano sensível o que, noutras narrativas, é apagado ou instrumentalizado. A palavra, aqui, não desaparece: reaparece nos títulos, nas legendas, nas frases escritas nas paredes ou nas intervenções textuais que acompanham a imagem, criando um cruzamento entre fotografia e crónica, em que a visualidade é o prolongamento da sua escrita ativista

A prática artística de Gisela Casimiro situa‑se precisamente na zona de fronteira entre palavra escrita, oral e imagem, fazendo com que a arte plástica e a fotografia se tornem uma extensão natural da sua escrita. Não se trata apenas de ilustrar um poema ou uma crónica, mas de traduzir em imagem as mesmas preocupações políticas e afetivas que atravessam o seu texto: racismo, memória colonial, feminismo, interseccionalidade e representatividade do corpo negro. Desse modo, a fotografia e as artes visuais desdobram‑se em linguagem paralela, mantendo a coerência discursiva da palavra, mas alojando‑se num espaço de materialidade, ritual e presença física. Um dos pontos‑chave dessa extensão é o projeto Museu Pessoal, em que Casimiro assume simultaneamente os papéis de artista, curadora e sujeito da imagem, recriando quadros, esculturas e fotografias de referências como Frida Kahlo, Cindy Sherman, Edward Hopper ou Manet.

Artes Visuais e Fotografia: a imagem como extensão da palavra em Gisela Casimiro

Em instalações como Em memória de mim ou Priceless, a relação entre imagem e palavra adquire contornos rituais e políticos mais explícitos. Nesses espaços, objetos pessoais, velas, textos manuscritos, cartazes e fotografias convergem para articular memórias individuais e coletivas, mostrando como a imagem pode ser um dispositivo de memória e reparação. A palavra, por seu lado, estrutura esse percurso, explicando, ironizando, citando pensadoras como Audre Lorde ou frases que interrogam a cor da pele, digitalização representativa ou a apropriação nas artes. Assim, a imagem deixa de ser apenas “extensão da palavra” no sentido decorativo; torna‑se co‑protagonista do discurso, capaz de carregar tensões, afetos e críticas que a palavra não conseguiria mobilizar sozinha.

No conjunto da obra de Gisela Casimiro, a fotografia e as artes visuais não substituem a palavra, mas completam‑na: a imagem é palavra que se condensa em rosto, gesto, cor, texto‑grafo, objeto‑símbolo. Ao mesmo tempo, a palavra alimenta imagens, delimita enquadramentos, orienta a leitura daquilo que está exposto, devolvendo‑lhe significado político e histórico. É nesse jogo contínuo de desdobramento que a imagem se torna verdadeira extensão da palavra: não sua ilustração, mas sua tradução no plano do espaço, do corpo e da memória material.

Mediação e Criação Artística: Projetos e exposições onde a autora atua como mediadora cultural

Gisela Casimiro não se limita a participar em projetos artísticos; atua frequentemente como mediadora cultural, articulando mediação e criação artística que aproximam públicos de histórias, corpos e memórias marginalizados. Nesse papel, ela cruza escrita, imagem, música e corpo performático para criar espaços de escuta, confronto e cuidado, em que a arte deixa de ser um objeto contemplado para se tornar um dispositivo de relação e de reparação histórica.Um dos exemplos centrais dessa atuação é o projeto Museu Pessoal, que reúne fotografias em que Casimiro encena, simultaneamente, as figuras de artista, mediadora cultural e sujeito da imagem. Ao recriar quadros e fotografias de referências como Cindy Sherman, Frida Kahlo, Edward Hopper ou Manet, ela re‑popula esses códigos visuais com corpos negros, intervenções festivas e críticas, transformando o museu em um espaço de desafio à representatividade e de reescrita da história da arte. Nesse processo, a sua mediação e criação artística tornam‑se dispositivos entre o cânone canónico e novas narrativas, entre museu institucional e memórias afro‑descendentes que não foram historicamente visibilizadas. A exposição “O que perdi em estômago, ganhei em coração” — inspirada no livro‑poema Erosão — mostra como a mediação e a criação artística se fundem na prática de Gisela Casimiro. A exposição inicia‑se na rua, com cartazes inspirados nas campanhas de mulheres negras, e culmina num espaço expositivo onde fotografias, instalações e texto convivem, dando voz a histórias de discriminação racial, capacitismo, LGBTQfobia e outros regimes de opressão. A autora, aqui, funciona como mediadora que articula narrativas pessoais e coletivas, entre vítimas, aliadas e instituições culturais, fazendo da exposição um espaço de testemunho, debate e reconfiguração de memórias.

Mediação e Criação Artística: Projetos e exposições onde a autora atua como mediadora cultural

Em projetos como a instalação Priceless (com Rodrigo Ribeiro Saturnino, ROD), no Museu do Atlântico Sul das Galerias Municipais de Lisboa, a mediação e a criação artística dialogam diretamente com a crítica ao comércio de imagens e corpos, ligando‑se às políticas de representatividade. A obra interroga a lógica de “loja de presentes” dos museus, evidenciando como a redução de imagens a mercadoria é extensão de uma economia histórica que transformou corpos negros em objeto de troca. Nesse contexto, Casimiro desempenha um papel de mediadora que articula mediação e criação artística, performance e crítica política, convidando o público a pensar não apenas o que vê, mas também como é produzido o desejo, o consumo e o olhar sobre esses corpos.Por fim, nos espetáculos de teatro e performance em que colabora como dramaturga, narradora ou mediadora — como Casa com árvores dentro, peça de 2022 dirigida por Cláudia Semedo — Gisela Casimiro estende essa função de mediação e criação artística para o espaço cénico. Nesses projetos, conversas com educadores, assistentes sociais, mediadores culturais, sociólogos e performers constituem a base da escrita, de modo que a palavra, o corpo e o palco se tornam lugares de escuta organizada e de narrativa compartilhada. Assim, a sua mediação e criação artística articulam‑se na prática de mediar discriminações interligadas, oferecendo ao público não apenas uma obra, mas um processo de encontro com a complexidade das opressões que se sobrepõem no quotidiano afro‑descendente, queer, pós‑colonial.

Prémios e Reconhecimentos de Gisela Casimiro

Gisela Casimiro tem vindo a ser reconhecida tanto no campo literário como no artístico, o que reforça a centralidade da sua voz na cena cultural portuguesa contemporânea. Entre os prémios mais significativos, destaca‑se o Prémio Lopes‑Graça de Literatura, atribuído em 2023 pela SPAL (Sociedade Portuguesa de Autores) ao seu livro de poesia Erosão, distinção que valeu ao livro mais de 1000 exemplares vendidos em menos de um ano, um êxito impressionante para um título de poesia. Este prémio sublinha a força da sua escrita poética, bem como a atenção crítica e de leitura que o livro conquistou junto de diferentes públicos.Ainda em 2023, foi galardoada com o Prémio Futuro Ilustre – Literatura Portuguesa, no âmbito do Porto Cartaz (Festival de Literatura e Artes de Rua), reforçando o reconhecimento do seu impacto literário e a forma como a sua obra dialoga com o espaço público. Em 2024, recebeu o Prémio Autores – Poesia, confirmado nacionalmente, que consagra a relevância da sua poesia dentro do panorama literário português.

Prémios e Reconhecimentos de Gisela Casimiro

Mais recentemente, em 2026, foi distinguida com o Prémio António José de Oliveira Soares, na categoria de literatura, um dos prémios literários mais importantes de Portugal, vincado pela casa Guerra Junqueiro, reforçando a sua posição como voz capital na literatura contemporânea do país.Para além das distinções literárias, Gisela Casimiro é também reconhecida no campo do livro de autor e da intervenção artística, incluindo a fotografia. O livro de autor Cor de Qual Pele?, apresentado no CAM (Centro de Arte Moderna) da Fundação Calouste Gulbenkian, foi um dos vencedores do Prémio Nacional de Fotografia, confirmado pela Associação Portuguesa de Cidades Históricas, distinção que valoriza a sua capacidade de unir texto, imagem e memória numa obra que interroga profundamente o racismo e a representação dos corpos negros. Estes prémios e reconhecimentos não apenas consagram a sua obra individualmente, mas também abrem caminho a uma escrita negra, pós‑colonial e feminista no espaço simbólico e institucional da cultura portuguesa.

Impacto de Gisela Casimiro na Nova Geração de Escritores Portugueses

Gisela Casimiro tem exercido um impacto profundo na nova geração de escritores portugueses, sobretudo entre autores afro‑descendentes, feministas e de comunidades marginalizadas, por abrir caminho à inclusão de vozes negras, queer e pós‑coloniais no espaço literário nacional. A sua presença em editoras, livrarias, mídia e redes sociais demonstra que a escrita de autores negros pode alcançar alta visibilidade e sucesso comercial, desafiando o cânone tradicional e inspirando novos talentos que se reconhecem em suas narrativas. Esse exemplo concreto de que a literatura negra não é apenas um “nicho”, mas um espaço de grande relevância, encoraja jovens escritores a publicar suas próprias histórias, mesmo em contextos de racismo estrutural e misoginia.A força de sua obra reside na autenticidade com que partilha experiências pessoais, traumas raciais e memórias de efetiva diversidade, que ressoam profundamente com leitores que não se veem representados na literatura mainstream. Ao se tornar uma figura pública acessível, Casimiro participa em eventos literários, conversas, debates, workshops e entrevistas, oferecendo modelos de escrita, crítica e engajamento social que influenciam diretamente a forma como a nova geração aborda temas como identidade, género, classe e pós‑colonialismo.

Impacto de Gisela Casimiro na Nova Geração de Escritores Portugueses

Sua capacidade de tecer críticas suaves, porém incisivas, ao racismo e ao capacitismo inspira jovens autoras a transformar suas próprias experiências em narrativas que desafiam o status quo, promovendo a literatura como um espaço de resistência e conscientização. Além disso, a interação de Gisela Casimiro com públicos mais jovens, especialmente estudantes e ativistas, é mediada por redes sociais, onde compartilha trechos de seus livros, pensamentos críticos e reflexões sobre a importância da diversidade na cultura. Essa abordagem de “escritura compartilhada” fortalece a ligação entre escritores emergentes e leitores, criando um ambiente de diálogo e apoio mutuo. Através dessa presença constante, Casimiro ajuda a normalizar a presença de corpos negros, lgbtq e pós‑coloniais na literatura, encorajando a próxima geração de escritores portugueses a escrever não apenas sobre temas pessoais, mas também sobre a luta por justiça, igualdade e representatividade, tornando‑se assim uma referência essencial no desenvolvimento de uma nova narrativa literária inclusiva.

"Vozes e Letras"

“Acontecem‑me pessoas que se transformam em poemas. Mas a poesia surge quando consigo escrever sobre isso.”