Tony Tcheka: voz crioula da memória e da resistência
21 de dezembro de 1951
Homi Grandi e Tem-Tem: Retratos da Diáspora em Tony Tcheka
Tony Tcheka, pseudónimo de António Soares Lopes Júnior, nasceu em Bissau, Guiné-Bissau, a 21 de dezembro de 1951. Jornalista desde 1975, foi diretor da Rádio Nacional da Guiné-Bissau (RDN), chefe de redação do jornal Nô Pintcha e colaborou com BBC, Voz da América, RTP África e outros media internacionais.Poeta de referência na literatura guineense contemporânea, fundou a União Nacional de Artistas e Escritores da Guiné-Bissau (UNAE), presidiu a Associação de Jornalistas da Guiné-Bissau (AJGB) e integrou a Cooperativa Corubal para edição cultural. Publicou antologias como "Mantenhas para quem Luta" (1977) e originais como "Noites de Insónia na Terra Adormecida" (1996), "Guiné – Sabura que Doi" (2008) e "GUINEA" (trilingue, Hochroth Verlag, 2020), focando diáspora, identidade crioula e exclusão social.
Vive entre Bissau e Lisboa, retratando emigrantes como Zé e Tchico com oralidade kriol, crítica pós-colonial e esperança resiliente. Traduzido para alemão por Niki Graça, é vice-presidente da Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI). Figura cimeira da 'Geração da Independência', Tcheka é hoje um mediador cultural essencial entre a África e a Europa. A sua obra, ao ser traduzida para alemão por Niki Graça e apresentada em palcos internacionais, prova que a vivência de Bissau e a resistência da diáspora no Rossio são temas universais que elevam o Kriol a língua de cultura e de reflexão global.
"Guiné-Bissau continua a ser um país adiado."
De Bissau a 1951: Raízes Familiares e Formação de Tony Tcheka
António Soares Lopes Júnior nasceu a 21 de dezembro de 1951, no coração de Bissau. O seu nascimento ocorre num período em que a Guiné-Bissau (então colónia portuguesa) fervilhava com as primeiras sementes do nacionalismo. Crescer na capital permitiu-lhe observar de perto a estratificação social da época, que mais tarde alimentaria personagens como o sapateiro Zé.A sua família pertencia a uma camada social urbana que valorizava a instrução e o trabalho. O pseudónimo "Tcheka" é, em si mesmo, uma homenagem e uma afirmação de identidade. Tony Tcheka cresceu num ambiente onde o Crioulo (Kriol) era a língua dos afetos e da rua, enquanto o Português era a língua da escola e da administração. Esta dualidade familiar foi crucial para a sua futura capacidade de transitar entre registos linguísticos e culturais.
Realizou os seus estudos primários e secundários em Bissau, num sistema de ensino colonial que, apesar de restritivo, lhe forneceu as ferramentas da "lusa língua" que ele mais tarde viria a "subverter" poeticamente.
A sua formação académica e técnica consolidou-se na área da Comunicação Social e Jornalismo. Foi nesta área que encontrou a sua vocação para o testemunho direto da realidade social, o que explica o carácter "documental" e atento dos seus poemas.
Como muitos da sua geração, formou-se também através da leitura clandestina de autores africanos e da literatura de resistência, o que moldou a sua consciência crítica.
Tony Tcheka: Sentinela da Memória e da Identidade
Tony Tcheka, nascido em 1951 em Bissau, viveu a guerra de libertação nacional (1963-1974) como jovem na capital, sob o colonialismo português, e testemunhou a independência unilateral proclamada pelo PAIGC a 24 de setembro de 1973. Com 12 anos no início do conflito armado liderado por Amílcar Cabral, cresceu num ambiente urbano marcado por atentados, repressão e mobilização independentista, o que impregnou a sua poesia com memórias de "terra adormecida" e exclusão social. Iniciou o jornalismo em 1975, pós-independência, refletindo o otimismo inicial do PAIGC, mas também as frustrações subsequentes em obras como "Noites de Insónia na Terra Adormecida" (1996).
"Quem defende o líder africano [Amílcar Cabral] na Guiné-Bissau de hoje é, muitas vezes, um alvo a abater."
Tony Tcheka: Sentinela da Memória e da Identidade
Critica a deserção dos ideais revolucionários: "indicadores que mostram que a luta, o sonho dos combatentes da liberdade da pátria está cada vez mais longe", lamentando a descredibilização, o narcotráfico e a fome persistente décadas após Cabral. Ativista cultural, fundou entidades como a UNAE, processando o trauma da guerra na diáspora e na identidade guineense através de figuras como Zé da Tugalândia e Tchico Tem-Tem.Hoje, em 2025, Tony Tcheka permanece como uma "sentinela da memória". Cinquenta anos após a independência, a sua voz não se cala perante a degradação política; pelo contrário, utiliza o trauma da guerra e a desilusão do presente para reivindicar uma Guiné-Bissau digna do sacrifício de Cabral. Através das suas personagens, ele recorda-nos que a verdadeira libertação ainda se faz pela cultura e pela ética.
"Até agora o povo não beneficia da independência."
"Tony Tcheka: Sentinela da Memória e Arquiteto da Alma Guineense na Diáspora"
Tony Tcheka viveu períodos de exílio e residência em Portugal (a "Tugalândia"), especialmente durante os ciclos de instabilidade política e militar na Guiné-Bissau (como a guerra civil de 1998-1999). No exílio, o autor não se isolou; tornou-se um embaixador cultural, utilizando Lisboa como plataforma para denunciar a situação do seu país e para dar voz à vasta comunidade guineense na Europa. É nesta vivência que nascem figuras como Zé e Tchico — reflexos de um exílio que é tanto físico como emocional.Diferente de muitos intelectuais que permaneceram definitivamente no estrangeiro, Tcheka manteve sempre uma relação de regresso e permanência em Bissau. Em 2025, ele é visto como uma figura que "escolheu ficar" ou "escolheu voltar" para participar na reconstrução cívica. O seu regresso não é passivo; é um ato de resistência contra o esquecimento e a degradação das instituições nacionais.
"O autor sempre tem o que escrever, tanto pelo bem quanto pelo mal, sendo a tragédia e as dificuldades também fontes de inspiração e sofrimento."
"Tony Tcheka: Sentinela da Memória e Arquiteto da Alma Guineense na Diáspora"
Este compromisso com o país reflete-se no seu papel central no associativismo cultural. Tony Tcheka não se limitou à escrita; foi um dos pilares da AEGUI (Associação de Escritores da Guiné-Bissau), onde em 2025 continua a exercer uma liderança ativa na promoção de novas vozes literárias. Além disso, através da Cooperativa Corubal, tem combatido a escassez editorial na Guiné-Bissau, garantindo que o livro e a leitura cheguem às novas gerações. O seu ativismo estende-se ao jornalismo ético, servindo como mentor para jovens profissionais e mantendo viva a ligação entre a CPLP e os movimentos culturais locais. Assim, a sua trajetória entre Lisboa e Bissau não é apenas geográfica, mas uma ponte de resistência que utiliza a cultura como ferramenta de reconstrução nacional.
"O sonho dos combatentes da liberdade da pátria está cada vez mais longe."
"Tony Tcheka: Sentinela da Memória e Arquiteto da Cultura Guineense"
Tony Tcheka destaca-se no jornalismo guineense pós-independência como diretor da Rádio Nacional da Guiné-Bissau (RDN) e chefe de redação/diretor do jornal Nô Pintcha, criando suplementos culturais como Bambaram e Barkafon di Poesia em Kriol para promover a literatura crioula. Fundou a União Nacional de Artistas e Escritores da Guiné-Bissau (UNAE), presidiu a Associação de Jornalistas (AJGB) e o Sindicato de Jornalistas, co-criou o GREC-Traços no Tempo com a revista Tcholona, e organizou antologias juvenis como Traços no Tempo (2009), fomentando vozes emergentes na oralidade e identidade pós-colonial.Co-fundador da Cooperativa Corubal (2019) para produção e divulgação cultural, editou obras como Mantenhas para quem Luta (1977), Poesia Moderna Guineense (1990) e Os Media na Guiné-Bissau (trilingue, 2020), atuando como editor de África Lusófona e Lusografia em Portugal, e consultor UE/UNESCO em media comunitária.
"A cultura é secundarizada por quem está no poder, o que fragiliza o desenvolvimento humano."
"Tony Tcheka: Sentinela da Memória e Arquiteto da Cultura Guineense"
Em 2025, este percurso culmina na sua afirmação como mentor e "sentinela cultural". Atualmente, como vice-presidente da Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI), Tcheka continua a liderar a renovação das letras guineenses, assegurando que a edição independente — exemplificada pela sua recente projeção na editora alemã Hochroth Verlag — seja o veículo de uma Guiné-Bissau moderna, trilingue e globalizada. O seu ativismo hoje prova que a cultura e a ética são as ferramentas definitivas para a reconstrução nacional.
"Não se pode silenciar os órgãos de comunicação sem silenciar a própria democracia."
"Tony Tcheka: O Arquiteto do Kriol como Língua Literária e Global"
Tony Tcheka destaca-se como pioneiro na promoção do Kriol (Crioulo Guineense) como língua literária na Guiné-Bissau, legitimando-a como veículo poético e de memória cultural ao lado do português. Através de projetos fundacionais como o suplemento Barkafon di Poesia na Kriol (ou Kebur), criado no jornal Nô Pintcha, reuniu poemas em crioulo de vários autores, transformando a língua oral quotidiana num registo literário escrito, erudito e acessível. Nas suas obras, como Guiné: Sabura que Dói e a antologia trilingue GUINEA (Hochroth Verlag, 2020), Tcheka integra o Kriol em diálogos profundos com o português, levando-o a circuitos internacionais na Alemanha e em Portugal. Este feito editorial permitiu que a língua de Bissau fosse analisada em estudos académicos europeus sobre identidade e pós-colonialismo. Ao apoiar antologias juvenis como Bambaram, o autor fomenta vozes emergentes e preserva o património linguístico como uma ferramenta de soberania.
"O português é a minha língua de trabalho, mas o Kriol é a minha língua de afetos e de identidade profunda."
"Tony Tcheka: O Arquiteto do Kriol como Língua Literária e Global"
Esta militância simbólica, desenvolvida ao lado de figuras como Abdulai Silá, resiste ao monolinguismo português, elevando o Kriol a instrumento de resistência cultural e ponte entre as raízes de Bissau-Velho e a diáspora lisboeta. Em 2025, este esforço culmina numa influência geracional sem precedentes. Ao elevar o Kriol ao estatuto de língua trilingue, Tony Tcheka não só preserva o património linguístico, como cumpre o ideal de Amílcar Cabral de uma cultura plenamente soberana.Através da sua liderança na Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI), Tcheka assegura hoje que o Kriol continue a ser, mais do que uma língua de afetos, uma língua de pensamento, crítica social e liberdade global.
"Publicar em Kriol na Alemanha [referindo-se à obra GUINEA] prova que a nossa língua de Bissau-Velho pode dialogar com o mundo em pé de igualdade."
Tony Tcheka: Liderança Literária e Prémio Guerra Junqueiro da Lusofonia
Tony Tcheka exerceu papéis de liderança fundamentais em associações literárias guineenses, consolidando o seu ativismo cultural como um pilar da identidade nacional pós-independência. Desde janeiro de 2019, preside à Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI), instituição da qual é fundador (2013). O seu percurso associativo inclui ainda o cargo de secretário-executivo da União Nacional de Artistas e Escritores (UNAE) e a participação na equipa fundadora do Centro PEN Guiné-Bissau em 2018.O reconhecimento do seu mérito literário e cívico atingiu o auge em 2020, quando foi distinguido com o Prémio de Literatura Guerra Junqueiro – Lusofonia, um galardão que celebrou a sua capacidade de unir as margens da língua portuguesa através da excelência poética. Este prestígio internacional conferiu-lhe um papel central na governação cultural da CPLP: integrou o júri do Prémio Camões 2020 — o mais alto reconhecimento da língua portuguesa — e colabora ativamente no Conselho Consultivo do Observatório da Língua Portuguesa.
"Escrevo na lusa língua, mas sinto e sonho em crioulo."
Tony Tcheka: Liderança Literária e Prémio Guerra Junqueiro da Lusofonia
Hoje, em 2025, a sua presidência na AEGUI e o seu assento no Conselho de Administração dos Prémios da Lusofonia são garantias de que a Guiné-Bissau participa ativamente na definição das políticas literárias globais. Ao partilhar o legado de Amílcar Cabral com instituições como a UCCLA e a UNESCO, Tony Tcheka prova que o "operário da cultura" de Bissau-Velho transformou-se num dos guardiões mais influentes e respeitados do património literário comum da lusofonia.
"Escrever em crioulo é manter viva a resistência cultural de um povo que recusa ser silenciado."
"Tony Tcheka: A Poética da 'Sabura que Dói' e a Estética da Resistência"
Tony Tcheka constrói uma obra poética marcada pela denúncia social, pela memória traumática e pela afirmação da identidade guineense, com um foco incisivo na exclusão, na diáspora e nas contradições do pós-colonialismo. A sua escrita explora a dualidade do que define como a "sabura que dói": a celebração da cultura crioula em contraponto com a dor da fome, das injustiças e da instabilidade política, como retratado em Noites de Insónia na Terra Adormecida (1996) e Guiné – Sabura que Dói (2008).A experiência da diáspora lisboeta é um dos pilares da sua obra, imortalizada na antologia trilingue GUINEA (2020). Através de figuras como Zé da Tugalândia e Tchico Tem-Tem, Tcheka reflete sobre a ilusão migratória, o "encalhe" urbano no Rossio e o duplo pertencimento de quem vive entre dois mundos. O seu estilo adota uma oralidade vibrante, com ritmos repetitivos e o uso magistral do Kriol integrado na "lusa língua", criando uma "poesia brava" que funde o lírico ao político.
"Eu não nego o português, eu subverto-o com o sal e o ritmo do meu Kriol."
"Tony Tcheka: A Poética da 'Sabura que Dói' e a Estética da Resistência"
Tony Tcheka constrói uma obra poética marcada pela denúncia social, pela memória traumática e pela afirmação da identidade guineense, com um foco incisivo na exclusão, na diáspora e nas contradições do pós-colonialismo. A sua escrita explora a dualidade do que define como a "sabura que dói": a celebração da cultura crioula em contraponto com a dor da fome, das injustiças e da instabilidade política, como retratado em Noites de Insónia na Terra Adormecida (1996) e Guiné – Sabura que Dói (2008).A experiência da diáspora lisboeta é um dos pilares da sua obra, imortalizada na antologia trilingue GUINEA (2020). Através de figuras como Zé da Tugalândia e Tchico Tem-Tem, Tcheka reflete sobre a ilusão migratória, o "encalhe" urbano no Rossio e o duplo pertencimento de quem vive entre dois mundos. O seu estilo adota uma oralidade vibrante, com ritmos repetitivos e o uso magistral do Kriol integrado na "lusa língua", criando uma "poesia brava" que funde o lírico ao político.
"O Kriol é o cordão umbilical que me liga à terra, esteja eu em Bissau ou na Tugalândia." [
Noites de Insónia: Poética da Dor-Esperança de Tony Tcheka
Publicado em 1996 pelo INEP (Bissau), "Noites de Insónia na Terra Adormecida" marca a estreia individual de Tony Tcheka (António Soares Lopes) e estabelece um divisor de águas na literatura guineense. A obra opera uma transição dolorosa da euforia independentista para o lamento lúcido da Guiné pós-colonial, funcionando como uma "poética da dor-esperança".O livro mapeia as patologias de uma nação estagnada. Tcheka denuncia a apatia coletiva de um "Povo Adormecido" e a indiferença de uma Bissau noturna ("Batucada na Noite") que ignora as suas feridas abertas. Através de poemas como "Refrão da Fome" e "Mininu di Kriason", o autor dá rosto ao abandono infantil e à precariedade das bideras, cujas filas de insónia contrastam com a esterilidade das bolanhas e a inércia política. O estilo de Tcheka é definido por uma simbiose linguística única: o "português crioulizado". Ao fundir a oralidade balanta e mandinga com a denúncia urbana, o poeta resgata a memória do massacre de Pidjiguiti, transformando-o numa metáfora viva contra os silêncios opressores. A sua escrita incorpora o ritmo do tambor e o lamento do korá penitencial ("Perdão do Poeta"), elevando o grito camponês a uma categoria de resistência cultural.
Noites de Insónia: Poética da Dor-Esperança de Tony Tcheka
Recusando a amnésia coletiva, Tcheka retira das margens figuras como o soldado combatente e a vendedora ambulante, tornando-os protagonistas de um trauma partilhado. Esta perspetiva de "testemunha ativa" — alimentada pela sua carreira no jornalismo — confere aos poemas uma precisão quase documental sobre a degradação urbana e a "matchundade" (abuso de poder) dos governantes.
Ícone da poesia guineense, esta obra inaugurou uma linhagem de ecopoética social que continuaria em títulos posteriores como Guiné: Sabura que Dói (2008). É hoje um recurso essencial para compreender a desilusão pós-1974 na lusofonia africana, sendo amplamente estudada pela sua capacidade de transmutar a desolação histórica em arte de intervenção.
Povo Adormecido Há chuvas
que o meu povo não canta
Há chuvas
que o meu povo não ri
Perdeu a alma
na parede alta do macaréu
Fala calado
e canta magoado
Vinga-se no tambor
na palma e no caju
mas o ritmo não sai
obra-se sob o sikó
como o guerreiro vergado
cala o sofrimento no peito
O meu povo
chora no canto
canta no choro
e fala na garganta do bombolon
Grei silêncio
quebrado
nas gargalhadas de Kussilintra
em quedas de água
moldando pedras
esfriando corpos
esculpidos
no corpo do bissilão
Povo Adormecido: Silêncio Grei de Tony Tcheka
0"Povo Adormecido" é um poema visual e sonoro onde Tony Tcheka lamenta a apatia e o sofrimento silencioso do povo guineense perante chuvas estéreis e a opressão histórica. O autor descreve um povo que perdeu a sua alegria ritual — que já não canta nem ri com a chegada das águas —, encontrando-se aprisionado na "parede alta do macaréu". Este fenómeno natural de águas revoltas serve aqui como metáfora para um trauma coletivo ou uma barreira intransponível que retém a alma da nação.Neste estado de suspensão, o povo "fala calado", tentando uma vingança rítmica no tambor, na palma e no caju, mas o ritmo verdadeiro não emerge, sufocado pelo peso do sikó (ritmo e dança fúnebre), que simboliza um luto perpétuo que verga até o mais forte guerreiro. A resiliência manifesta-se numa dualidade trágica: o povo chora no canto e canta no choro, encontrando a sua única voz na "garganta do bombolon" (o tambor de fenda ancestral), que comunica a dor que a boca não ousa pronunciar.
Povo Adormecido Há chuvas
que o meu povo não canta
Há chuvas
que o meu povo não ri
Perdeu a alma
na parede alta do macaréu
Fala calado
e canta magoado
Vinga-se no tambor
na palma e no caju
mas o ritmo não sai
obra-se sob o sikó
como o guerreiro vergado
cala o sofrimento no peito
O meu povo
chora no canto
canta no choro
e fala na garganta do bombolon
Grei silêncio
quebrado
nas gargalhadas de Kussilintra
em quedas de água
moldando pedras
esfriando corpos
esculpidos
no corpo do bissilão
Povo Adormecido: Silêncio Grei de Tony Tcheka
O "grei silêncio" (o silêncio do rebanho ou da coletividade passiva) só é desafiado pela vitalidade da natureza em Kussilintra. As gargalhadas das suas cascatas e as quedas de água funcionam como uma força ativa que molda as pedras e refresca os corpos, que o autor descreve como esculpidos no bissilão. Ao evocar esta árvore sagrada e nobre, Tcheka sugere que, embora o povo esteja estático e "adormecido", possui uma essência de resistência e dignidade profundas.
Em suma, Tony Tcheka critica a imobilidade de um povo vergado por crises pós-coloniais, utilizando elementos da tradição oral para criar um retrato de uma resiliência cultural frágil, mas ainda latente, à espera de um verdadeiro despertar.
Perdão do poeta
Aqui das cordas
do meu korá
peço perdão
a quem o meu canto
fere
Acolá
jaz a esperança
do hino adiado
da palavra amansada
de vozes emudecidas
Além Pindjiguiti
Virou lagoa
com cisnes imaculados,
nenúfares e gente-bem
que vem
e se instala
sob o plasma
do meu sofrimento
e
Morés
espreitando
nas persianas do silêncio
Perdão do Poeta: Korá, Pidjiguiti e Silêncios da Guiné
"Perdão do Poeta" é um lamento penitencial de Tony Tcheka, onde o korá (instrumento sagrado da tradição mandinga) serve de veículo para um pedido de desculpas àqueles que o seu canto "fere" ao desenterrar memórias recalcadas. O poeta descreve um cenário de "esperança adiada", onde a palavra outrora revolucionária parece agora "amansada" perante vozes emudecidas.
A crítica social torna-se mordaz ao evocar Pindjiguiti, local do massacre de 1959. Tcheka ironiza a sua transformação numa "lagoa com cisnes imaculados" e "gente-bem", denunciando uma elite que se instalou sobre o "plasma do sofrimento" histórico, ignorando o sangue que fundou a nação. Enquanto isso, o espírito de Morés — bastião da resistência armada — observa silenciosamente por entre as persianas, simbolizando uma memória de luta que ainda vigia o presente, apesar do silêncio imposto ou da censura moral.
Canto à Guiné: Somos Todos Depois da Esperança
Canto à Guiné
Guiné
sou eu
até depois da esperança
Guiné
és tu
camponês de Bedanda teimosamente
procurando a bianda na bolanha
que só encontra água na mágoa da tua
lágrima
Guiné
és tu
criança sem tempo de ser menino
Guiné
és tu
mulher-bidera
em filas de insónia
noites di kumpra pon
(mafé di aos)
Guiné
é um grito
saído de mil ais
que se acolhe n calcanhar
da terra adormecida
Mas
Guiné somos todos mesmo depois da
esperança
"Canto à Guiné" é um hino coral de Tony Tcheka à identidade coletiva guineense, onde o "eu lírico" se funde com as figuras arquetípicas da nação numa luta quotidiana pela sobrevivência. O poema personifica a Guiné no camponês de Bedanda, cuja busca teimosa pela bianda na bolanha (alimento no arrozal) resulta apenas em lágrimas, fundindo o ciclo da água com a mágoa da terra.O autor traça um retrato cru da sobrevivência pós-colonial ao evocar a criança sem infância e a mulher-bidera. Estas figuras enfrentam "filas de insónia" e as noites de kumpra pon (espera pelo pão) com o parco mafé di aos (refeição de alho), simbolizando a resiliência feminina que sustenta o país. A Guiné é aqui definida como um "grito saído de mil ais" que se instala na base da "terra adormecida". Ao culminar na afirmação "Guiné somos todos mesmo depois da esperança", Tcheka resgata o conceito de "Povo Adormecido" para o transformar em unidade. A identidade nacional é apresentada como algo inquebrável, que transcende a desilusão política e se firma na solidariedade mútua de quem, apesar de tudo, permanece e resiste.
Poemar
Fui à escrita
poemar
um flirt com a poesia
uma paixão gerada em sílabas
prenhes de ternura
o corpo não cede ao fogo
resta a poesia
e sou mais eu em ti
No presságio a palavra
palavra, que lavra
em safras de ardoamor
apocalipse de corpos
em procissão de amor
No lusco-fusco do crepúsculo
me encontro
vejo o fogo
nascer do iceberg
do teu corpo-mármore
A poesia ocorre
em plasmas de amor
vem com o calor-vermelho
que invade o corpo
em cortinas de suor
E fleuma do teu corpo-rosa
libertando ternura sonegada
em suspiros de madrugada morena
que pétalas de feitiço-crioulo
acalentam em seivas de amor.
Flirt com a Poesia: Ardoamor de Tony Tcheka
"Poemar" é um poema de uma sensualidade vibrante onde Tony Tcheka transforma a escrita poética num ato de amor carnal. O autor descreve um "flirt com a poesia" que gera "safras de ardoamor", culminando num apocalipse de corpos em procissão onde a criação literária e o desejo físico se fundem.
Na sua Paixão Silábica, as sílabas "prenhes de ternura" lavram o corpo resistente ao fogo, revelando que o poeta se encontra plenamente no outro ("sou mais eu em ti"). A palavra atua aqui como um arado que prepara o corpo para a entrega. No Fogo Crepuscular, ocorre uma transformação alquímica: o fogo nasce do "iceberg" do corpo-mármore, invadindo o espaço com um "calor-vermelho" e "cortinas de suor", que libertam a ternura sonegada em suspiros de uma "madrugada morena".
O poema encerra com o Feitiço Crioulo, onde pétalas de feitiço e seivas de amor acalentam o ser amado. Tcheka consegue, assim, uma transição perfeita: da utopia linguística e social para o domínio do íntimo, reafirmando que o erotismo, tal como a língua, é um espaço de conquista e de identidade lusófona.
Zé da Tugalândia
chamavam-lhe Zé
Zé sapateiro
Zé tuga
por vezes sô Zé
homem da Tugalândia
nhu Zé de bissau-velho
homi grandi
Ih!!!
Garandi nan!!!
ninguém se lembra quando chegou
diz-se que veio num navio-motor
sobre ondas adamansadas
vinha só
maleta de cartão na mão
duas, ou três palavras
eram o seu discurso
uma era certamente “senhor”
senhor sem cor
sem temor
e sem idade
um gesto feito tique
- um leve inclinar da cabeça
dispensava palavras vãs
dimensionava a grandeza
de homem de trabalho
bissau velho acordava
chamado pelo seu toc-toc
calcando pregos
cozendo rijos nós
fechando jambutas famintas
para basófias caminhadas na praça
ou bailes suarentos de fins de semana
"Sô Zé de Bissau-Velho: Homi Grandi na Tugalândia"
O poema "Zé da Tugalândia", da autoria do prestigiado escritor e jornalista guineense Tony Tcheka, é um retrato profundo da vida humilde e digna de Zé, um sapateiro de Bissau emigrado em Portugal. Através de uma linguagem que funde a "lusa língua" com a alma do crioulo, Tcheka personifica na figura de Zé a experiência de milhares de guineenses na diáspora.Conhecido por vários nomes que misturam as suas origens com o novo contexto — Zé sapateiro, Zé tuga, sô Zé ou nhu Zé de Bissau-Velho — a personagem representa o duplo pertencimento pós-colonial. Ninguém recorda com precisão a sua chegada, ocorrida num navio-motor sobre "ondas adamastoradas", imagem que evoca a herança épica camoniana, mas aqui protagonizada por um homem comum munido apenas de uma maleta de cartão e de um discurso escasso, dominado pelo respeito e por um leve inclinar de cabeça. Em Bissau-Velho, o seu martelar rítmico era o despertador da vizinhança. Zé não apenas reparava calçado; ele "cosia" a dignidade, fechando "jambutas famintas" para as caminhadas de domingo ou para os bailes suarentos. A escolha da profissão de sapateiro por Tony Tcheka é altamente metafórica: Zé é a base invisível que sustenta o caminhar dos outros, o operário que, no silêncio da sua oficina, sustenta a memória coletiva de um povo.
Zé da Tugalândia
chamavam-lhe Zé
Zé sapateiro
Zé tuga
por vezes sô Zé
homem da Tugalândia
nhu Zé de bissau-velho
homi grandi
Ih!!!
Garandi nan!!!
ninguém se lembra quando chegou
diz-se que veio num navio-motor
sobre ondas adamansadas
vinha só
maleta de cartão na mão
duas, ou três palavras
eram o seu discurso
uma era certamente “senhor”
senhor sem cor
sem temor
e sem idade
um gesto feito tique
- um leve inclinar da cabeça
dispensava palavras vãs
dimensionava a grandeza
de homem de trabalho
bissau velho acordava
chamado pelo seu toc-toc
calcando pregos
cozendo rijos nós
fechando jambutas famintas
para basófias caminhadas na praça
ou bailes suarentos de fins de semana
"Sô Zé de Bissau-Velho: Homi Grandi na Tugalândia"
O texto exalta-o como um "homi grandi", um gigante anónimo que atravessou as agruras do exílio sem queixas, enfrentando sargentos ingratos e a solidão da doença. Zé nutria dois amores profundos e paradoxais: a Guiné, uma paixão sentida "a dez dedos", e a Tugalândia, a metrópole madrasta que o acolheu mas o manteve na margem.Esta obra de Tony Tcheka, autor de referência que pode ser acompanhado através da União dos Escritores Guineenses, permanece como um dos tributos mais comoventes à resiliência africana. Zé da Tugalândia termina a sua jornada sem medalhas ou diplomas oficiais, mas com a imortalidade garantida no coração de Bissau e na história da literatura lusófona, representando a "sabura que dói" de quem vive entre dois mundos.
Tchico Tem-Tem
Tchico Tem-Tem
da Nha Tchibita da Tchada de Burro
Tchico Tem-Tem
na bola de trapos
vida tem-tem
que nada tem
Entre quedas
e cambalhotas
Tchico foi na onda
- chegou à terra-branco…
encalhou nos becos do Rossio
Montou bureau d`affaires de nada
… vende histórias passadas e inventadas
Sorrisos à borla
e receituários por haviar
são marcas da casa
As esquinas e as ruelas lisboetas
desembocam sempre no Tem-Tem
fundibulário
Veste a fadiga
de sossego
com histórias de manga curta
nada que faça suar
Tchico
brejeiro
cara erguida
mãos nos bolsos
vazios
assobiadelas marotas
Jeito cultivado
entre
quedas e cambalhotas
para espantar a fome
nos becos do rossio.
Tchico Tem-Tem: Brejeiro dos Becos do Rossio
Tchico, da 'Nha Tchibita da Tchada de Burro', chega à 'terra-branco' e encalha no Rossio, montando um 'bureau d'affaires de nada'. Através do simbolismo da 'bola de trapos', o autor sugere que a vida de Tchico é aleatória, construída com parcos recursos e sujeita ao capricho do destino ('vida tem-tem que nada tem').Em Lisboa, ele 'vende narrativas passadas ou forjadas, com 'sorrisos à borla' e 'receituários por haviar'. Esta descrição irónica do 'bureau d’affaires' funciona como uma crítica amarga à falta de oportunidades reais para o emigrante na metrópole. Tchico vê-se forçado a viver de expedientes e da sua própria criatividade.
Brejeiro de cara erguida, mãos nos bolsos vazios e assobiadelas marotas, veste 'fadiga de sossego' e cultiva um 'jeito' entre quedas. Esta atitude não é apenas uma característica pessoal, mas uma estratégia de resiliência cultural – a arte do 'desrasque' guineense. Ele usa a pose e o 'fundibulário criativo' (a arte de inventar e contar histórias) para 'espantar a escassez urbana', mantendo uma dignidade inabalável apesar da adversidade.
O poema contrasta constantemente o espaço físico de origem com o de exílio. Tchico está fisicamente em Lisboa, mas as 'esquinas e as ruelas lisboetas' desembocam sempre no seu eu original de 'Tem-Tem', mostrando que a sua identidade permanece ancorada em Bissau, apesar da travessia e do encalhe urbano.
Refrão da fome
Esse som
que chega
e me nega o sono
Não é choro
não é chuva
Mimoseando a terra ressequida
Não é pranto
nem sorriso incontido
É um gemido perdido
um choro sentido
mas não chorado Choro…
Sufoco de menino
fere o conto de N’Gumbé
em refrão amargo
de fome.
"O Silêncio que Devora o Gumbé"
"Refrão da Fome" é um lamento visceral de Tony Tcheka sobre a fome infantil que, qual ruído ensurdecedor, nega o sono e a paz. O poeta descreve um "gemido perdido", um choro "sentido mas não chorado", que representa o estágio último da privação, onde a dor já não tem forças para se manifestar em pranto ou chuva mimoseadora.O impacto deste sofrimento é de tal ordem que chega a ferir o conto de N’Gumbé. Ao profanar este ritmo tradicional de celebração e transmissão oral, Tcheka denuncia que a fome não devasta apenas o corpo, mas asfixia a própria alma cultural da nação. O "refrão amargo" da desnutrição substitui os cantos ancestrais, transformando a infância guineense num sufoco contínuo.
Com este poema, Tcheka encerra um testemunho brutal sobre as crises pós-coloniais. Do korá penitencial ao gemido do menino, o autor reafirma que, enquanto houver fome, a cultura (o Gumbé) e a esperança cultural permanecerão feridas, ecoando a aridez de uma "terra tísica" que ainda luta para alimentar os seus filhos.
NOSTALGIA
Cinzento nicotina
serpenteia o meu quarto
argola o tempo que não passa
Tu não apareces
nada acontece….
O som sobe em 33 rotações
a voz sofrida de Ottis Reding
sustenta o calor de um canto soul Emerges de uma nota de piano
por momentos bailas
na circunferência de uma bola de fumo
que se esquiva pela persiana
Fica o som dilatado do sax
a dar passagem a Ottis
a sentenciar “time is over”
Nada acontece…
Nicotino o espaço que se fecha
sobre mim sem ti
Nostalgia: Cinzento Nicotina de Tony Tcheka
"Nostalgia" é um poema intimista de Tony Tcheka que evoca o peso da ausência amorosa num quarto sufocado pelo fumo e pelo som do vinil. O "cinzento nicotina" serpenteia como uma argola temporal estagnada — "Tu não apareces / nada acontece" —, simbolizando a paralisia de quem espera.A banda sonora de Otis Redding em 33 rotações sustenta o calor de um canto soul que preenche o vazio emocional. A amada surge como uma miragem sensorial, emergindo de uma nota de piano e bailando fugazmente numa circunferência de fumo antes de se dissipar pela persiana. O som dilatado do saxofone antecipa o fim, culminando na sentença "time is over". Este poema marca um contraste nítido com a poética saheliana de Tcheka: aqui, o cenário não é a tabanca ou o deserto, mas o exílio emocional de um ambiente citadino. É a fusão da saudade lusófona com a melancolia do blues e da soul, onde o poeta "nicotina" o espaço numa tentativa vã de suportar a solidão de um mundo que se fecha sobre si mesmo.
"Sabura que Dói: Metáforas do Corpo e o Perdão na Poesia Pós-Traumática de Tony Tcheka"
Lançado originalmente no Brasil em 2008 e relançado em Lisboa em 2009 pela Editorial Novembro, "Guiné: Sabura que Dói" é o segundo marco na bibliografia individual de Tony Tcheka. A obra aprofunda a desilusão pós-colonial iniciada em 1996, mas desloca o foco para a ferida aberta da Guerra Civil de 1998-99, consolidando a "estética do desencanto" na literatura guineense.O título utiliza um oximoro potente: "Sabura que dói" (do crioulo: prazer/doçura que dói). Esta metáfora captura a dualidade da Guiné-Bissau contemporânea, onde a vibrante identidade cultural e a alegria de viver (a sabura) colidem frontalmente com a violência gratuita, a "matchundade" (autoritarismo/machismo) governamental e a precariedade do "chão de trabalho". A obra retrata uma terra onde a pólvora insuflou o ódio, transformando o sonho da independência num ciclo de luto e instabilidade.
"Sabura que Dói: Metáforas do Corpo e o Perdão na Poesia Pós-Traumática de Tony Tcheka"
Tcheka utiliza a sua acuidade jornalística para captar "flashs" do conflito armado, recusando a amnésia coletiva. A poesia torna-se um arquivo de memórias traumáticas: as mortes cruéis, o êxodo urbano e a diáspora forçada de uma geração que se viu obrigada a procurar refúgio fora do "chão de medo". A obra expande os temas de Noites de Insónia, elevando antigos figurantes — como o andarilho e o refugiado — a protagonistas de uma tragédia nacional.
No centro desta "ecopoética social", surgem as mulheres com os seus balaios de mágoas. Perante a falência das instituições e a violência dos homens de armas, a bidera (vendedora ambulante) é apresentada como a força que sustenta a nação. O seu balaio não carrega apenas mercadoria, mas a dignidade e a sobrevivência de um povo, representando o último reduto da "dor-esperança".
Como segunda parte da trilogia que culminaria em 2016, este livro é essencial para compreender a identidade guineense contemporânea.
TERRA TÍSICA
terra sahel
vento
cinzento
esboçando
voos amargos
movediços
esperança a esvaiar
das alturas do futa djalon
-o bombolom
lamina ventos
anuncia eventos
repica forte
e geme
no corpo
do vento saheliano
dores saheis
em contravento
a seca
é um gemido ululante
sublimado
nas cordas adelgaçadas
do nhanhero griot
a chuva
que o vento
levou
mora no imaginário
sumido
de um choro
sem tambores
sem cana sem
lágrimas
o vento
deixou-nos
a ânsia gotejando
no pulmão da terra tísica
Terra Tísica: Elegia Saheliana de Tony Tcheka
Este poema é uma meditação poderosa sobre a devastação ambiental e cultural do Sahel, utilizando a metáfora da tísica (tuberculose) para descrever a terra como um corpo doente, consumido pela seca e pelo "vento cinzento".O vento saheliano, personificado pelo bombolom que "geme" dores, contrasta ironicamente com o Futa Djalon, fonte vital distante; o griot, no nhanhero de cordas adelgaçadas, lamenta a chuva ausente e o choro "sem tambores nem lágrimas", simbolizando esgotamento ritual. A "ânsia gotejante" final evoca resiliência frágil perante crises políticas e ambientais da Guiné-Bissau, transformando tradições orais em elegia pós-colonial pela sobrevivência cultural.
Lusa Língua: Sonho Crioulizado de Tony Tcheka
Lusa língua
língua lusa minha
não sei se sonhas ó língua! sei, sim que deixas sonhar.
língua! lusa língua minha companheira é amiga, fraterna, e arauto.
rejeita espaços herméticos, fechados, limitados por falsas fronteiras. veste-se
literariamente de tendências universalistas.
e quando um dia transportada em caravelas foi impelida a sonhar com “novos mundos”
deixou-se conquistar. conquistámo-la! é ternuramente nossa.
anichou-se nos meus sonhos. sonha comigo e alimenta o calcanhar da minha terra
vermelha vestindo musas e amantes de muitos amores.
na sua mágica andança pelas novas “moranças” africanas aonde se instala, ora é ponte,
ora é chave para ganhar espaços dantes negados...
e ajuda o sonhar e falar e encantar e ser e ter.
lusa língua, minha ferramenta operária é o meu baú de sentimentos, enciclopédia viva
de tolerância. algures na costa ocidental da áfrica, mostra-se solidária, tolerante.
interpreta camões na lírica dança multirracial ritmada pelo som mediático do compasso
ancestral do bombolom. coabita criolizada e criadora e abecedária ao lado de mais de
duas dezenas de outras línguas, ali nascidas mas feitas almas gémeas ante a iminência
da construção de uma terra nova.
nas águas serenas do corubal a lusa língua sobe rio acima... e na parede alta do macaréu
sonha com o meu país que um dia será nação. ali, a lusa língua sonha com noites sem
insónias e sem bastões analfabetos molestando gente e abafando mentes ávidas de saber.
afinal língua, tu sonhas, interpretando sonhos que não dormem!
"Lusa Língua" é um hino apaixonado de Tony Tcheka à língua portuguesa, vista como uma ponte universalista e uma "enciclopédia viva de tolerância". O autor subverte a lógica colonial ao afirmar que a língua se deixou conquistar — "conquistámo-la!" —, tornando-a africana, fraterna e "ternamente nossa".
Rejeitando espaços herméticos, a língua anicha-se na "terra vermelha" da Guiné-Bissau, onde coabita com mais de duas dezenas de línguas locais como "almas gémeas". Nesta simbiose, Camões é interpretado ao ritmo ancestral do bombolom, provando que a lusofonia é uma dança multirracial e crioulizada.
Mais do que estética, a língua é uma "ferramenta operária". Nas águas do Corubal e perante a "parede alta do macaréu", ela sonha com a transição de país a nação, combatendo os "bastões analfabetos" que asfixiam o saber. Ao contrário de "Povo Adormecido", aqui Tcheka projeta uma visão utópica e ativa, onde a língua interpreta "sonhos que não dormem" para construir uma terra nova e livre de insónias políticas.
Desesperança no Chão de Medo e Dor: Poética do Desalento Pós-Golpe em Tony Tcheka
Desesperança no Chão de Medo e Dor (2015) é o terceiro livro individual de Tony Tcheka, publicado pela Corubal, completando a trilogia poética guineense iniciada com Noites de Insónia (1996) e continuada em Guiné: Sabura que Dói (2008). Esta obra encerra um arco de décadas onde o autor assume o papel de "guardião da memória", transformando o trauma histórico em testemunho estético.Surgiu após o golpe de Estado de 2012 na Guiné-Bissau, que paralisou o país por dois anos com má administração e desbarate de recursos. Tcheka, como poeta e jornalista, testemunha o trauma diário, exorcizando medos pessoais através de gritos, clamores e protestos contra a crise social e política. A obra vai além da crónica política ao denunciar a "matchundade" — uma masculinidade tóxica e autoritária que alimenta o ciclo de violência no poder.
Desesperança no Chão de Medo e Dor: Poética do Desalento Pós-Golpe em Tony Tcheka
O livro reúne 50 poemas em cinco capítulos, misturando poesia e ensaios reflexivos. A utilização do Crioulo (num dos capítulos e em expressões chave) não é apenas um recurso linguístico, mas um ato de resistência cultural que ancora a dor no vocabulário mais íntimo do povo. Foca o "chão de medo e dor" da identidade guineense: a indignação pela sociedade em colapso e o desalento africano, sintetizado no conceito de "amargas mistidas" (misturas amargas), que reflete a desilusão face ao projeto de Estado-nação falhado.
Fecha a sequência pedagógica: da apatia pós-1974, ao trauma da guerra civil de 1998, culminando na desesperança pós-golpe — posicionando-se como uma leitura essencial para compreender a função da literatura como espaço de denúncia e resistência ética na lusofonia contemporânea. Lançado em fóruns internacionais, como o XI Congresso Alemão de Lusitanistas, o livro reafirma Tony Tcheka como a voz que dá contornos ao "indizível" da realidade guineense.
E não te chamas Cristo
Tens o crucifixo de muitas chuvas
cravado na palma da mão
com que matizas a terra
em tempos de kebur
Tempo finado
tempo fincado no peito da dor
disputando a sobra do cuntango
Tempo enlutado
tempo anoitecido
no entardecer da esperança
Na curvatura
do tambor onde expias o desespero
fizeram do teu corpo sepultura do medo
Negam-te o pedaço da tua tabanca
dão-te uma vida assalariada
taxam-te uns tantos por cento
para a sobrevivência autorizada
E não te chamas Cristo
e só pregas com o arado.
"Cristo Falso no Chão de Medo"
"E não te chamas Cristo" denuncia ironicamente líderes guineenses pós-golpe de 2012 que fingem sofrimento ("crucifixo de muitas chuvas cravado na palma") mas exploram o povo, matizando a terra em tempos de kebur (fome seca). Tony Tcheka subverte o Cristo bíblico em explorador rural que "prega com o arado" em vez de carpinteiro salvador.
O tempo "finado no peito da dor" disputa sobras de cuntango (arroz racionado), enlutado no "entardecer da esperança", enquanto o tambor curvo vira "sepultura do medo". A anáfora "E não te chamas Cristo" martela negação profética, com ritmo oral guineense evocando korá partido.
Exploração económica culmina: negam "pedaço da tabanca" (aldeia crioula), dão "vida assalariada" taxada para "sobrevivência autorizada". Fecha trilogia tchekana — apatia (Noites, 1996), guerra (Sabura, 2008), sepultura neoliberal (Desesperança, 2015)
Quando os Cravos Vermelhos Cruzaram o Geba:Utopia Traída no Rio da Memória
Quando os Cravos Vermelhos Cruzaram o Geba (Editorial Novembro, Vila Nova de Famalicão, 2020) é um livro de ficções curtas de Tony Tcheka que resgata o impacto da Revolução dos Cravos (25 de Abril de 1974) na Guiné-Bissau, centrando narrativas no rio Geba — artéria simbólica da nação onde "cravos vermelhos" representam a esperança revolucionária cruzando águas ancestrais.Os contos — Pekadur di Sambasabi , Manito o Patriota , Camarada Melhor Amanhã e Excisadas na Flor da Idade — fundem história, oralidade crioula e crítica social. Pekadur di Sambasabi: resgata a figura trágica do soldado africano, abandonado num limbo identitário e político após o fim do império colonial; Manito o Patriota e Camarada Melhor Amanhã: funcionam como exercícios de desmistificação dos messianismos políticos, questionando as promessas de libertação que se converteram em novas formas de opressão e Excisadas na Flor da Idade: uma denúncia contundente da mutilação genital feminina (o "fanado"), onde o autor opõe a urgência dos direitos humanos à "matchundade" tóxica enraizada na tradição.
Quando os Cravos Vermelhos Cruzaram o Geba:Utopia Traída no Rio da Memória
Tcheka, dos "Meninos da Hora da Libertação" (Mantenhas para quem Luta, 1977), evoca a euforia inicial do PAIGC e Pidjiguiti contra desilusões — ponte entre trilogia poética (Noites de Insónia, 1996; Sabura que Dói, 2008; Desesperança no Chão de Medo e Dor, 2015) e prosa histórica. Lançado em Bissau (4/5/2022, Camões CCP), alerta para reconciliação falhada e diáspora guineense em Portugal. Em 2025, este livro é lido como um manifesto contra a amnésia histórica. Ao fundir a fúria jornalística com a sensibilidade do conto, Tony Tcheka demonstra que a verdadeira independência só se completa quando a nação enfrenta as suas próprias feridas — sejam elas os traumas da guerra ou as injustiças da tradição.
Os Media na Guiné-Bissau: Da Imprensa Colonial ao Silêncio Pós-Golpe
Os Media na Guiné-Bissau é um estudo de referência da autoria de Tony Tcheka (António Soares Lopes), publicado pelas Edições Corubal em 2015 e apresentado em 2016 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. A obra oferece uma análise exaustiva da história dos meios de comunicação de massa no país num arco temporal que se estende de 1879 a 2013, documentando o percurso desde a imprensa oficial colonial até à rádio nacional, à imprensa partidária e à emergência das rádios comunitárias e dos media independentes.O livro resulta da vasta experiência de Tcheka como jornalista e perito em projetos da União Europeia, tendo sido desenvolvido no âmbito do PAANE (Programa de Apoio a Atores Não Estatais), implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF). A obra cruza o rigor da análise histórica com uma profunda preocupação cívica, destacando o papel fundamental da comunicação na construção da identidade nacional e na promoção da democracia. Devido à sua abrangência, o estudo é frequentemente citado em investigações sobre a participação civil, a circulação de notícias no espaço lusófono e a sociogénese da comunicação na Guiné-Bissau. Em 2025, a obra mantém uma atualidade premente, servindo de base para compreender os desafios contemporâneos da liberdade de imprensa no país, num período marcado por novos constrangimentos e pela necessidade contínua de reformas legislativas e éticas no setor.
Mantenhas para quem Luta: Euforia dos Meninos do Pindjiguiti (1977)
Mantenhas para quem Luta (Conselho Nacional de Cultura, Bissau, 1977) é a primeira antologia poética da Guiné-Bissau independente, reunindo os "Meninos da Hora do Pindjiguiti" — jovens poetas como Tony Tcheka que celebram a vitória anticolonial e a reconstrução nacional.
Publicada dois anos após 1974, homenageia combatentes do PAIGC com "mantenhas" (saudações crioulas). Inclui 51 poemas de euforia revolucionária, transformando Pidjiguiti em hino vivo — estreia de Tcheka na literatura, fundindo oralidade (korá, bombolom) com denúncia colonial como "Abusivamente".
Na antologia "Mantenhas para quem Luta!" (1977), os poemas de Tony Tcheka (António Soares Lopes Júnior) caracterizam-se pela exaltação da liberdade e pela homenagem ao esforço coletivo da nação. O poema mais emblemático de sua autoria nesta obra intitula-se "Mantenhas" (ou por vezes referido pelo seu verso inicial "Mantenhas para quem luta"). Nele, o autor utiliza a "mantenha" (saudação típica guineense) como um símbolo de solidariedade e reconhecimento ao povo e aos combatentes.
Mantenhas
Mantenhas da luta tenho!...
Mantenhas, para quem luta!...
E não só...
Mantenhas... são mantenhas
Tenhas ou não participado...
Mantenhas trago para ti
Mantenhas de quem o povo serviu
Mantenhas de quem, sendo simples
Grandemente o povo serviu.
Mantenhas daquele que sucumbindo
Com o próprio sangue o inimigo acertou
(A Lua é assim exige Sacrifícios)
Por isso mantenhas...
Mantenhas para os que merecem
O merecimento do Pindjiguiti
O merecimento do Como
O merecimento de Cassaká
O merecimento de Guiledje
O merecimento de Cabral
O merecimento da Luta
O merecimento das mantenhas
A mantenha Combatente!!!
A mantenha para aqueles
Que engajados continuam
Mantenhas para que não mais haja
Botas estrangeiras espezinhando o nosso sentimento...
A nossa cultura...
A nossa razão...
Por isso mantenhas... Mantenho
Decididamente, mantenhas!!!
Mantenhas de firmeza
Mantenhas militantes
Mantenhas na certeza
De que nada será, como ontem
Jamais as nossas crianças
Matarão a sede
Com as lágrimas da fome
Por isso e por tudo isto
Mantenhas, mantenho nas mantenhas.
"Mantenhas": O Hino Inclusivo de Tony Tcheka na Madrugada da Independência
"Mantenhas" é o hino inclusivo de Tony Tcheka na antologia Mantenhas para quem Luta (1977), a primeira coletânea poética da Guiné-Bissau independente. O poema estende a saudação crioula a todos os que serviram o povo — simples ou sucumbidos —, elevando Pidjiguiti, Como, Cassaká, Guiledje e Cabral ao estatuto de marcos sagrados da luta anticolonial.A anáfora martelante "Mantenhas... Mantenhas para quem luta!" evoca o fôlego de um griot revolucionário, crescendo do sacrifício sangrento à utopia nacional de que "nada será como ontem". Através de enumerações de batalhas e aliterações como "mantenhas militantes", o autor funde a oralidade ancestral com a euforia política pós-25 de Abril de 1974.
O texto democratiza o heroísmo ("tenhas ou não participado"), contrastando a opressão das "botas estrangeiras" com a promessa de crianças livres das "lágrimas da fome" — um tema que prefigura a desilusão de Noites de Insónia na Terra Adormecida (1987). Ao fechar com "mantenhas de firmeza", Tcheka encerra o arco da celebração e inicia a sua jornada como a consciência crítica da nação guineense.
"Do Ferro à Terra Batida: A Estética da Reconstrução na Poesia de 1978"
Antologia dos Jovens Poetas / Momentos Primeiros da Construção (Conselho Nacional de Cultura, Bissau, 1978) é a segunda coletânea poética da Guiné-Bissau independente, reunindo 35 poemas de 12 jovens autores dos "Meninos do Pindjiguiti". Publicada um ano após Mantenhas para quem Luta (1977), a obra prolonga a euforia revolucionária, deslocando o foco da vitória militar para a reconstrução nacional feita com "ferro e terra batida".A antologia estrutura-se em capítulos temáticos, com especial relevo para o "Espaço Crioulo", que integra 21 poemas em crioulo guineense, fundindo a oralidade ancestral balanta e mandinga com os hinos ao PAIGC. Autores como Tony Tcheka, Hélder Proença e Agnelo Regalla celebram aqui uma juventude forjada para um futuro glorioso, liberta das "botas estrangeiras".
Esta obra marca a transição da celebração anticolonial para a utopia construtiva, servindo de elo fundamental entre o entusiasmo inicial e as reflexões críticas que marcariam a trilogia tchekana posterior. É uma peça essencial para os estudos lusófonos sobre a poesia de intervenção e a sociogénese da literatura guineense moderna.
"Tecto do Silêncio" (excerto)
Ergo a minha voz
e firo o teto do silêncio
Nego a morte de crianças
porque há míngua de medicamentos.
Na angústia
liberto o verbo
mordo o pólen da desgraça
que graça
nesta África desventurada
em obra
e graça
subdesenvolvendo-se.
............
Exorcizo o paludismo
apeio a poliomielite
amputo a desgraça
encho a taça de ternura
e fica a graça da criança
florescendo a vida.
In O Eco do Pranto:
A criança na poesia moderna guineense, Tony Tcheca
“Tony Tcheka: da criança guineense ao grito contra o silêncio”
Tony Tcheka contribui com o poema "Tecto do Silêncio" para O Eco do Pranto (1992), denunciando condições degradantes da infância guineense — falta de medicamentos, paludismo, poliomielite — como "subdesenvolvimento" que amordaça o futuro.
Tony Tcheka: Vozes da Guiné entre Bissau e o Mundo
Tony Tcheka e a Constelação Literária Guineense: Diálogos e Convergências
Tony Tcheka inscreve a sua obra num diálogo contínuo com Abdulai Silá, Odete Semedo e outros autores que formam o núcleo central da literatura guineense contemporânea. Em comum, partilham a missão de construir uma "guineidade" autêntica, recuperando memórias silenciadas pelo colonialismo e denunciando as desilusões do pós-independência. Este grupo interroga, de forma persistente, o lugar do povo e da cultura na construção de uma nação soberana. Enquanto Abdulai Silá utiliza o romance — exemplificado na trilogia Mistida — para dissecar o abuso de poder e as contradições das elites, Tony Tcheka fá-lo através de uma "poesia brava", transformando a dor coletiva em "dor-esperança", ancorada na oralidade e no Kriol. Por sua vez, Odete Semedo aproxima-se de Tcheka ao articular a tradição oral com a escrita, fazendo da memória da infância e da voz feminina pilares narrativos que complementam a visão urbana e diaspórica de Tcheka.
Tony Tcheka e a Constelação Literária Guineense: Diálogos e Convergências
A crítica académica em 2025 identifica Tcheka, Silá e Semedo como os vértices do "Triângulo de Bissau", um sistema literário onde as obras comunicam entre si através de prefácios, antologias e debates públicos. Este diálogo é cimentado por reconhecimentos partilhados, como o Prémio Guerra Junqueiro da Lusofonia (2020), atribuído simultaneamente a Tcheka e Silá, consolidando uma constelação de vozes que reescreve a história simbólica do país.Hoje, este intercâmbio transcende as páginas dos livros para se consolidar em estruturas como a Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI) e a Cooperativa Corubal. Sob a liderança de Tony Tcheka, este projeto coletivo garante que a literatura guineense não seja apenas um conjunto de vozes isoladas, mas um baluarte de soberania cultural que projeta a Guiné-Bissau no centro dos debates literários da CPLP e do mundo.
Tony Tcheka no Cânone Guineense e na Poesia Africana Lusófona
Tony Tcheka é hoje reconhecido como uma das vozes centrais do cânone literário da Guiné-Bissau, ao lado de autores como Abdulai Silá, Odete Semedo ou Vasco Cabral. A sua poesia contribui para fixar uma memória coletiva da guerra de libertação, das frustrações do pós-independência e da diáspora, transformando o quotidiano guineense em matéria de reflexão estética e política. O autor foi fundamental na transição da "poesia de combate" para uma poética de vigilância ética, desmitificando o romantismo revolucionário para denunciar as injustiças sociais do presente. As obras Noites de Insónia na Terra Adormecida (1996) e Guiné – Sabura que Dói (2008) são frequentemente estudadas como textos-chave na definição da "guineidade", pela forma como articulam exclusão social, a nação (tchon) e a deslocação migrante. Além disso, Tcheka atua como um pilar estruturante do sistema literário guineense, organizando antologias como O Eco do Pranto e dinamizando suplementos que deram visibilidade a novas vozes poéticas, combatendo o isolamento editorial do país através da Cooperativa Corubal.
Tony Tcheka no Cânone Guineense e na Poesia Africana Lusófona
No espaço africano lusófono mais amplo, o seu contributo passa pela experimentação linguística radical: a combinação do português com o Kriol, em livros como a antologia trilingue GUINEA (2020), reforça a ideia de que as literaturas africanas são plurilíngues e soberanas. A circulação internacional da sua obra — com traduções, edições na Alemanha e presença em festivais globais — faz de Tcheka uma referência obrigatória quando se mapeia o cânone poético da África contemporânea.Em 2025, o legado de Tony Tcheka é indissociável da sua missão de "arquiteto da memória". Ao elevar o crioulo ao estatuto de língua literária global e ao colocar o emigrante anónimo no centro da epopeia lusófona, Tcheka descolonizou o cânone a partir de dentro. Através da sua liderança na Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI), a sua obra permanece como a sentinela mais lúcida da Guiné-Bissau, provando que a literatura é a ferramenta definitiva para transformar o trauma histórico num projeto de futuro soberano e universal.
"Há chuvas que o meu povo não canta. Há chuvas que o meu povo não ri. Perdeu a alma na parede alta do macaréu. Fala calado e canta magoado." ("Povo Adormecido")
Tony Tcheka: voz crioula da memória e da resistência
Helena Borralho
Created on December 16, 2025
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Tony Tcheka: voz crioula da memória e da resistência
21 de dezembro de 1951
Homi Grandi e Tem-Tem: Retratos da Diáspora em Tony Tcheka
Tony Tcheka, pseudónimo de António Soares Lopes Júnior, nasceu em Bissau, Guiné-Bissau, a 21 de dezembro de 1951. Jornalista desde 1975, foi diretor da Rádio Nacional da Guiné-Bissau (RDN), chefe de redação do jornal Nô Pintcha e colaborou com BBC, Voz da América, RTP África e outros media internacionais.Poeta de referência na literatura guineense contemporânea, fundou a União Nacional de Artistas e Escritores da Guiné-Bissau (UNAE), presidiu a Associação de Jornalistas da Guiné-Bissau (AJGB) e integrou a Cooperativa Corubal para edição cultural. Publicou antologias como "Mantenhas para quem Luta" (1977) e originais como "Noites de Insónia na Terra Adormecida" (1996), "Guiné – Sabura que Doi" (2008) e "GUINEA" (trilingue, Hochroth Verlag, 2020), focando diáspora, identidade crioula e exclusão social.
Vive entre Bissau e Lisboa, retratando emigrantes como Zé e Tchico com oralidade kriol, crítica pós-colonial e esperança resiliente. Traduzido para alemão por Niki Graça, é vice-presidente da Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI). Figura cimeira da 'Geração da Independência', Tcheka é hoje um mediador cultural essencial entre a África e a Europa. A sua obra, ao ser traduzida para alemão por Niki Graça e apresentada em palcos internacionais, prova que a vivência de Bissau e a resistência da diáspora no Rossio são temas universais que elevam o Kriol a língua de cultura e de reflexão global.
"Guiné-Bissau continua a ser um país adiado."
De Bissau a 1951: Raízes Familiares e Formação de Tony Tcheka
António Soares Lopes Júnior nasceu a 21 de dezembro de 1951, no coração de Bissau. O seu nascimento ocorre num período em que a Guiné-Bissau (então colónia portuguesa) fervilhava com as primeiras sementes do nacionalismo. Crescer na capital permitiu-lhe observar de perto a estratificação social da época, que mais tarde alimentaria personagens como o sapateiro Zé.A sua família pertencia a uma camada social urbana que valorizava a instrução e o trabalho. O pseudónimo "Tcheka" é, em si mesmo, uma homenagem e uma afirmação de identidade. Tony Tcheka cresceu num ambiente onde o Crioulo (Kriol) era a língua dos afetos e da rua, enquanto o Português era a língua da escola e da administração. Esta dualidade familiar foi crucial para a sua futura capacidade de transitar entre registos linguísticos e culturais.
Realizou os seus estudos primários e secundários em Bissau, num sistema de ensino colonial que, apesar de restritivo, lhe forneceu as ferramentas da "lusa língua" que ele mais tarde viria a "subverter" poeticamente. A sua formação académica e técnica consolidou-se na área da Comunicação Social e Jornalismo. Foi nesta área que encontrou a sua vocação para o testemunho direto da realidade social, o que explica o carácter "documental" e atento dos seus poemas. Como muitos da sua geração, formou-se também através da leitura clandestina de autores africanos e da literatura de resistência, o que moldou a sua consciência crítica.
Tony Tcheka: Sentinela da Memória e da Identidade
Tony Tcheka, nascido em 1951 em Bissau, viveu a guerra de libertação nacional (1963-1974) como jovem na capital, sob o colonialismo português, e testemunhou a independência unilateral proclamada pelo PAIGC a 24 de setembro de 1973. Com 12 anos no início do conflito armado liderado por Amílcar Cabral, cresceu num ambiente urbano marcado por atentados, repressão e mobilização independentista, o que impregnou a sua poesia com memórias de "terra adormecida" e exclusão social. Iniciou o jornalismo em 1975, pós-independência, refletindo o otimismo inicial do PAIGC, mas também as frustrações subsequentes em obras como "Noites de Insónia na Terra Adormecida" (1996).
"Quem defende o líder africano [Amílcar Cabral] na Guiné-Bissau de hoje é, muitas vezes, um alvo a abater."
Tony Tcheka: Sentinela da Memória e da Identidade
Critica a deserção dos ideais revolucionários: "indicadores que mostram que a luta, o sonho dos combatentes da liberdade da pátria está cada vez mais longe", lamentando a descredibilização, o narcotráfico e a fome persistente décadas após Cabral. Ativista cultural, fundou entidades como a UNAE, processando o trauma da guerra na diáspora e na identidade guineense através de figuras como Zé da Tugalândia e Tchico Tem-Tem.Hoje, em 2025, Tony Tcheka permanece como uma "sentinela da memória". Cinquenta anos após a independência, a sua voz não se cala perante a degradação política; pelo contrário, utiliza o trauma da guerra e a desilusão do presente para reivindicar uma Guiné-Bissau digna do sacrifício de Cabral. Através das suas personagens, ele recorda-nos que a verdadeira libertação ainda se faz pela cultura e pela ética.
"Até agora o povo não beneficia da independência."
"Tony Tcheka: Sentinela da Memória e Arquiteto da Alma Guineense na Diáspora"
Tony Tcheka viveu períodos de exílio e residência em Portugal (a "Tugalândia"), especialmente durante os ciclos de instabilidade política e militar na Guiné-Bissau (como a guerra civil de 1998-1999). No exílio, o autor não se isolou; tornou-se um embaixador cultural, utilizando Lisboa como plataforma para denunciar a situação do seu país e para dar voz à vasta comunidade guineense na Europa. É nesta vivência que nascem figuras como Zé e Tchico — reflexos de um exílio que é tanto físico como emocional.Diferente de muitos intelectuais que permaneceram definitivamente no estrangeiro, Tcheka manteve sempre uma relação de regresso e permanência em Bissau. Em 2025, ele é visto como uma figura que "escolheu ficar" ou "escolheu voltar" para participar na reconstrução cívica. O seu regresso não é passivo; é um ato de resistência contra o esquecimento e a degradação das instituições nacionais.
"O autor sempre tem o que escrever, tanto pelo bem quanto pelo mal, sendo a tragédia e as dificuldades também fontes de inspiração e sofrimento."
"Tony Tcheka: Sentinela da Memória e Arquiteto da Alma Guineense na Diáspora"
Este compromisso com o país reflete-se no seu papel central no associativismo cultural. Tony Tcheka não se limitou à escrita; foi um dos pilares da AEGUI (Associação de Escritores da Guiné-Bissau), onde em 2025 continua a exercer uma liderança ativa na promoção de novas vozes literárias. Além disso, através da Cooperativa Corubal, tem combatido a escassez editorial na Guiné-Bissau, garantindo que o livro e a leitura cheguem às novas gerações. O seu ativismo estende-se ao jornalismo ético, servindo como mentor para jovens profissionais e mantendo viva a ligação entre a CPLP e os movimentos culturais locais. Assim, a sua trajetória entre Lisboa e Bissau não é apenas geográfica, mas uma ponte de resistência que utiliza a cultura como ferramenta de reconstrução nacional.
"O sonho dos combatentes da liberdade da pátria está cada vez mais longe."
"Tony Tcheka: Sentinela da Memória e Arquiteto da Cultura Guineense"
Tony Tcheka destaca-se no jornalismo guineense pós-independência como diretor da Rádio Nacional da Guiné-Bissau (RDN) e chefe de redação/diretor do jornal Nô Pintcha, criando suplementos culturais como Bambaram e Barkafon di Poesia em Kriol para promover a literatura crioula. Fundou a União Nacional de Artistas e Escritores da Guiné-Bissau (UNAE), presidiu a Associação de Jornalistas (AJGB) e o Sindicato de Jornalistas, co-criou o GREC-Traços no Tempo com a revista Tcholona, e organizou antologias juvenis como Traços no Tempo (2009), fomentando vozes emergentes na oralidade e identidade pós-colonial.Co-fundador da Cooperativa Corubal (2019) para produção e divulgação cultural, editou obras como Mantenhas para quem Luta (1977), Poesia Moderna Guineense (1990) e Os Media na Guiné-Bissau (trilingue, 2020), atuando como editor de África Lusófona e Lusografia em Portugal, e consultor UE/UNESCO em media comunitária.
"A cultura é secundarizada por quem está no poder, o que fragiliza o desenvolvimento humano."
"Tony Tcheka: Sentinela da Memória e Arquiteto da Cultura Guineense"
Em 2025, este percurso culmina na sua afirmação como mentor e "sentinela cultural". Atualmente, como vice-presidente da Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI), Tcheka continua a liderar a renovação das letras guineenses, assegurando que a edição independente — exemplificada pela sua recente projeção na editora alemã Hochroth Verlag — seja o veículo de uma Guiné-Bissau moderna, trilingue e globalizada. O seu ativismo hoje prova que a cultura e a ética são as ferramentas definitivas para a reconstrução nacional.
"Não se pode silenciar os órgãos de comunicação sem silenciar a própria democracia."
"Tony Tcheka: O Arquiteto do Kriol como Língua Literária e Global"
Tony Tcheka destaca-se como pioneiro na promoção do Kriol (Crioulo Guineense) como língua literária na Guiné-Bissau, legitimando-a como veículo poético e de memória cultural ao lado do português. Através de projetos fundacionais como o suplemento Barkafon di Poesia na Kriol (ou Kebur), criado no jornal Nô Pintcha, reuniu poemas em crioulo de vários autores, transformando a língua oral quotidiana num registo literário escrito, erudito e acessível. Nas suas obras, como Guiné: Sabura que Dói e a antologia trilingue GUINEA (Hochroth Verlag, 2020), Tcheka integra o Kriol em diálogos profundos com o português, levando-o a circuitos internacionais na Alemanha e em Portugal. Este feito editorial permitiu que a língua de Bissau fosse analisada em estudos académicos europeus sobre identidade e pós-colonialismo. Ao apoiar antologias juvenis como Bambaram, o autor fomenta vozes emergentes e preserva o património linguístico como uma ferramenta de soberania.
"O português é a minha língua de trabalho, mas o Kriol é a minha língua de afetos e de identidade profunda."
"Tony Tcheka: O Arquiteto do Kriol como Língua Literária e Global"
Esta militância simbólica, desenvolvida ao lado de figuras como Abdulai Silá, resiste ao monolinguismo português, elevando o Kriol a instrumento de resistência cultural e ponte entre as raízes de Bissau-Velho e a diáspora lisboeta. Em 2025, este esforço culmina numa influência geracional sem precedentes. Ao elevar o Kriol ao estatuto de língua trilingue, Tony Tcheka não só preserva o património linguístico, como cumpre o ideal de Amílcar Cabral de uma cultura plenamente soberana.Através da sua liderança na Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI), Tcheka assegura hoje que o Kriol continue a ser, mais do que uma língua de afetos, uma língua de pensamento, crítica social e liberdade global.
"Publicar em Kriol na Alemanha [referindo-se à obra GUINEA] prova que a nossa língua de Bissau-Velho pode dialogar com o mundo em pé de igualdade."
Tony Tcheka: Liderança Literária e Prémio Guerra Junqueiro da Lusofonia
Tony Tcheka exerceu papéis de liderança fundamentais em associações literárias guineenses, consolidando o seu ativismo cultural como um pilar da identidade nacional pós-independência. Desde janeiro de 2019, preside à Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI), instituição da qual é fundador (2013). O seu percurso associativo inclui ainda o cargo de secretário-executivo da União Nacional de Artistas e Escritores (UNAE) e a participação na equipa fundadora do Centro PEN Guiné-Bissau em 2018.O reconhecimento do seu mérito literário e cívico atingiu o auge em 2020, quando foi distinguido com o Prémio de Literatura Guerra Junqueiro – Lusofonia, um galardão que celebrou a sua capacidade de unir as margens da língua portuguesa através da excelência poética. Este prestígio internacional conferiu-lhe um papel central na governação cultural da CPLP: integrou o júri do Prémio Camões 2020 — o mais alto reconhecimento da língua portuguesa — e colabora ativamente no Conselho Consultivo do Observatório da Língua Portuguesa.
"Escrevo na lusa língua, mas sinto e sonho em crioulo."
Tony Tcheka: Liderança Literária e Prémio Guerra Junqueiro da Lusofonia
Hoje, em 2025, a sua presidência na AEGUI e o seu assento no Conselho de Administração dos Prémios da Lusofonia são garantias de que a Guiné-Bissau participa ativamente na definição das políticas literárias globais. Ao partilhar o legado de Amílcar Cabral com instituições como a UCCLA e a UNESCO, Tony Tcheka prova que o "operário da cultura" de Bissau-Velho transformou-se num dos guardiões mais influentes e respeitados do património literário comum da lusofonia.
"Escrever em crioulo é manter viva a resistência cultural de um povo que recusa ser silenciado."
"Tony Tcheka: A Poética da 'Sabura que Dói' e a Estética da Resistência"
Tony Tcheka constrói uma obra poética marcada pela denúncia social, pela memória traumática e pela afirmação da identidade guineense, com um foco incisivo na exclusão, na diáspora e nas contradições do pós-colonialismo. A sua escrita explora a dualidade do que define como a "sabura que dói": a celebração da cultura crioula em contraponto com a dor da fome, das injustiças e da instabilidade política, como retratado em Noites de Insónia na Terra Adormecida (1996) e Guiné – Sabura que Dói (2008).A experiência da diáspora lisboeta é um dos pilares da sua obra, imortalizada na antologia trilingue GUINEA (2020). Através de figuras como Zé da Tugalândia e Tchico Tem-Tem, Tcheka reflete sobre a ilusão migratória, o "encalhe" urbano no Rossio e o duplo pertencimento de quem vive entre dois mundos. O seu estilo adota uma oralidade vibrante, com ritmos repetitivos e o uso magistral do Kriol integrado na "lusa língua", criando uma "poesia brava" que funde o lírico ao político.
"Eu não nego o português, eu subverto-o com o sal e o ritmo do meu Kriol."
"Tony Tcheka: A Poética da 'Sabura que Dói' e a Estética da Resistência"
Tony Tcheka constrói uma obra poética marcada pela denúncia social, pela memória traumática e pela afirmação da identidade guineense, com um foco incisivo na exclusão, na diáspora e nas contradições do pós-colonialismo. A sua escrita explora a dualidade do que define como a "sabura que dói": a celebração da cultura crioula em contraponto com a dor da fome, das injustiças e da instabilidade política, como retratado em Noites de Insónia na Terra Adormecida (1996) e Guiné – Sabura que Dói (2008).A experiência da diáspora lisboeta é um dos pilares da sua obra, imortalizada na antologia trilingue GUINEA (2020). Através de figuras como Zé da Tugalândia e Tchico Tem-Tem, Tcheka reflete sobre a ilusão migratória, o "encalhe" urbano no Rossio e o duplo pertencimento de quem vive entre dois mundos. O seu estilo adota uma oralidade vibrante, com ritmos repetitivos e o uso magistral do Kriol integrado na "lusa língua", criando uma "poesia brava" que funde o lírico ao político.
"O Kriol é o cordão umbilical que me liga à terra, esteja eu em Bissau ou na Tugalândia." [
Noites de Insónia: Poética da Dor-Esperança de Tony Tcheka
Publicado em 1996 pelo INEP (Bissau), "Noites de Insónia na Terra Adormecida" marca a estreia individual de Tony Tcheka (António Soares Lopes) e estabelece um divisor de águas na literatura guineense. A obra opera uma transição dolorosa da euforia independentista para o lamento lúcido da Guiné pós-colonial, funcionando como uma "poética da dor-esperança".O livro mapeia as patologias de uma nação estagnada. Tcheka denuncia a apatia coletiva de um "Povo Adormecido" e a indiferença de uma Bissau noturna ("Batucada na Noite") que ignora as suas feridas abertas. Através de poemas como "Refrão da Fome" e "Mininu di Kriason", o autor dá rosto ao abandono infantil e à precariedade das bideras, cujas filas de insónia contrastam com a esterilidade das bolanhas e a inércia política. O estilo de Tcheka é definido por uma simbiose linguística única: o "português crioulizado". Ao fundir a oralidade balanta e mandinga com a denúncia urbana, o poeta resgata a memória do massacre de Pidjiguiti, transformando-o numa metáfora viva contra os silêncios opressores. A sua escrita incorpora o ritmo do tambor e o lamento do korá penitencial ("Perdão do Poeta"), elevando o grito camponês a uma categoria de resistência cultural.
Noites de Insónia: Poética da Dor-Esperança de Tony Tcheka
Recusando a amnésia coletiva, Tcheka retira das margens figuras como o soldado combatente e a vendedora ambulante, tornando-os protagonistas de um trauma partilhado. Esta perspetiva de "testemunha ativa" — alimentada pela sua carreira no jornalismo — confere aos poemas uma precisão quase documental sobre a degradação urbana e a "matchundade" (abuso de poder) dos governantes. Ícone da poesia guineense, esta obra inaugurou uma linhagem de ecopoética social que continuaria em títulos posteriores como Guiné: Sabura que Dói (2008). É hoje um recurso essencial para compreender a desilusão pós-1974 na lusofonia africana, sendo amplamente estudada pela sua capacidade de transmutar a desolação histórica em arte de intervenção.
Povo Adormecido Há chuvas que o meu povo não canta Há chuvas que o meu povo não ri Perdeu a alma na parede alta do macaréu Fala calado e canta magoado Vinga-se no tambor na palma e no caju mas o ritmo não sai obra-se sob o sikó como o guerreiro vergado cala o sofrimento no peito O meu povo chora no canto canta no choro e fala na garganta do bombolon Grei silêncio quebrado nas gargalhadas de Kussilintra em quedas de água moldando pedras esfriando corpos esculpidos no corpo do bissilão
Povo Adormecido: Silêncio Grei de Tony Tcheka
0"Povo Adormecido" é um poema visual e sonoro onde Tony Tcheka lamenta a apatia e o sofrimento silencioso do povo guineense perante chuvas estéreis e a opressão histórica. O autor descreve um povo que perdeu a sua alegria ritual — que já não canta nem ri com a chegada das águas —, encontrando-se aprisionado na "parede alta do macaréu". Este fenómeno natural de águas revoltas serve aqui como metáfora para um trauma coletivo ou uma barreira intransponível que retém a alma da nação.Neste estado de suspensão, o povo "fala calado", tentando uma vingança rítmica no tambor, na palma e no caju, mas o ritmo verdadeiro não emerge, sufocado pelo peso do sikó (ritmo e dança fúnebre), que simboliza um luto perpétuo que verga até o mais forte guerreiro. A resiliência manifesta-se numa dualidade trágica: o povo chora no canto e canta no choro, encontrando a sua única voz na "garganta do bombolon" (o tambor de fenda ancestral), que comunica a dor que a boca não ousa pronunciar.
Povo Adormecido Há chuvas que o meu povo não canta Há chuvas que o meu povo não ri Perdeu a alma na parede alta do macaréu Fala calado e canta magoado Vinga-se no tambor na palma e no caju mas o ritmo não sai obra-se sob o sikó como o guerreiro vergado cala o sofrimento no peito O meu povo chora no canto canta no choro e fala na garganta do bombolon Grei silêncio quebrado nas gargalhadas de Kussilintra em quedas de água moldando pedras esfriando corpos esculpidos no corpo do bissilão
Povo Adormecido: Silêncio Grei de Tony Tcheka
O "grei silêncio" (o silêncio do rebanho ou da coletividade passiva) só é desafiado pela vitalidade da natureza em Kussilintra. As gargalhadas das suas cascatas e as quedas de água funcionam como uma força ativa que molda as pedras e refresca os corpos, que o autor descreve como esculpidos no bissilão. Ao evocar esta árvore sagrada e nobre, Tcheka sugere que, embora o povo esteja estático e "adormecido", possui uma essência de resistência e dignidade profundas. Em suma, Tony Tcheka critica a imobilidade de um povo vergado por crises pós-coloniais, utilizando elementos da tradição oral para criar um retrato de uma resiliência cultural frágil, mas ainda latente, à espera de um verdadeiro despertar.
Perdão do poeta Aqui das cordas do meu korá peço perdão a quem o meu canto fere Acolá jaz a esperança do hino adiado da palavra amansada de vozes emudecidas Além Pindjiguiti Virou lagoa com cisnes imaculados, nenúfares e gente-bem que vem e se instala sob o plasma do meu sofrimento e Morés espreitando nas persianas do silêncio
Perdão do Poeta: Korá, Pidjiguiti e Silêncios da Guiné
"Perdão do Poeta" é um lamento penitencial de Tony Tcheka, onde o korá (instrumento sagrado da tradição mandinga) serve de veículo para um pedido de desculpas àqueles que o seu canto "fere" ao desenterrar memórias recalcadas. O poeta descreve um cenário de "esperança adiada", onde a palavra outrora revolucionária parece agora "amansada" perante vozes emudecidas. A crítica social torna-se mordaz ao evocar Pindjiguiti, local do massacre de 1959. Tcheka ironiza a sua transformação numa "lagoa com cisnes imaculados" e "gente-bem", denunciando uma elite que se instalou sobre o "plasma do sofrimento" histórico, ignorando o sangue que fundou a nação. Enquanto isso, o espírito de Morés — bastião da resistência armada — observa silenciosamente por entre as persianas, simbolizando uma memória de luta que ainda vigia o presente, apesar do silêncio imposto ou da censura moral.
Canto à Guiné: Somos Todos Depois da Esperança
Canto à Guiné Guiné sou eu até depois da esperança Guiné és tu camponês de Bedanda teimosamente procurando a bianda na bolanha que só encontra água na mágoa da tua lágrima Guiné és tu criança sem tempo de ser menino Guiné és tu mulher-bidera em filas de insónia noites di kumpra pon (mafé di aos) Guiné é um grito saído de mil ais que se acolhe n calcanhar da terra adormecida Mas Guiné somos todos mesmo depois da esperança
"Canto à Guiné" é um hino coral de Tony Tcheka à identidade coletiva guineense, onde o "eu lírico" se funde com as figuras arquetípicas da nação numa luta quotidiana pela sobrevivência. O poema personifica a Guiné no camponês de Bedanda, cuja busca teimosa pela bianda na bolanha (alimento no arrozal) resulta apenas em lágrimas, fundindo o ciclo da água com a mágoa da terra.O autor traça um retrato cru da sobrevivência pós-colonial ao evocar a criança sem infância e a mulher-bidera. Estas figuras enfrentam "filas de insónia" e as noites de kumpra pon (espera pelo pão) com o parco mafé di aos (refeição de alho), simbolizando a resiliência feminina que sustenta o país. A Guiné é aqui definida como um "grito saído de mil ais" que se instala na base da "terra adormecida". Ao culminar na afirmação "Guiné somos todos mesmo depois da esperança", Tcheka resgata o conceito de "Povo Adormecido" para o transformar em unidade. A identidade nacional é apresentada como algo inquebrável, que transcende a desilusão política e se firma na solidariedade mútua de quem, apesar de tudo, permanece e resiste.
Poemar Fui à escrita poemar um flirt com a poesia uma paixão gerada em sílabas prenhes de ternura o corpo não cede ao fogo resta a poesia e sou mais eu em ti No presságio a palavra palavra, que lavra em safras de ardoamor apocalipse de corpos em procissão de amor No lusco-fusco do crepúsculo me encontro vejo o fogo nascer do iceberg do teu corpo-mármore A poesia ocorre em plasmas de amor vem com o calor-vermelho que invade o corpo em cortinas de suor E fleuma do teu corpo-rosa libertando ternura sonegada em suspiros de madrugada morena que pétalas de feitiço-crioulo acalentam em seivas de amor.
Flirt com a Poesia: Ardoamor de Tony Tcheka
"Poemar" é um poema de uma sensualidade vibrante onde Tony Tcheka transforma a escrita poética num ato de amor carnal. O autor descreve um "flirt com a poesia" que gera "safras de ardoamor", culminando num apocalipse de corpos em procissão onde a criação literária e o desejo físico se fundem. Na sua Paixão Silábica, as sílabas "prenhes de ternura" lavram o corpo resistente ao fogo, revelando que o poeta se encontra plenamente no outro ("sou mais eu em ti"). A palavra atua aqui como um arado que prepara o corpo para a entrega. No Fogo Crepuscular, ocorre uma transformação alquímica: o fogo nasce do "iceberg" do corpo-mármore, invadindo o espaço com um "calor-vermelho" e "cortinas de suor", que libertam a ternura sonegada em suspiros de uma "madrugada morena". O poema encerra com o Feitiço Crioulo, onde pétalas de feitiço e seivas de amor acalentam o ser amado. Tcheka consegue, assim, uma transição perfeita: da utopia linguística e social para o domínio do íntimo, reafirmando que o erotismo, tal como a língua, é um espaço de conquista e de identidade lusófona.
Zé da Tugalândia chamavam-lhe Zé Zé sapateiro Zé tuga por vezes sô Zé homem da Tugalândia nhu Zé de bissau-velho homi grandi Ih!!! Garandi nan!!! ninguém se lembra quando chegou diz-se que veio num navio-motor sobre ondas adamansadas vinha só maleta de cartão na mão duas, ou três palavras eram o seu discurso uma era certamente “senhor” senhor sem cor sem temor e sem idade um gesto feito tique - um leve inclinar da cabeça dispensava palavras vãs dimensionava a grandeza de homem de trabalho bissau velho acordava chamado pelo seu toc-toc calcando pregos cozendo rijos nós fechando jambutas famintas para basófias caminhadas na praça ou bailes suarentos de fins de semana
"Sô Zé de Bissau-Velho: Homi Grandi na Tugalândia"
O poema "Zé da Tugalândia", da autoria do prestigiado escritor e jornalista guineense Tony Tcheka, é um retrato profundo da vida humilde e digna de Zé, um sapateiro de Bissau emigrado em Portugal. Através de uma linguagem que funde a "lusa língua" com a alma do crioulo, Tcheka personifica na figura de Zé a experiência de milhares de guineenses na diáspora.Conhecido por vários nomes que misturam as suas origens com o novo contexto — Zé sapateiro, Zé tuga, sô Zé ou nhu Zé de Bissau-Velho — a personagem representa o duplo pertencimento pós-colonial. Ninguém recorda com precisão a sua chegada, ocorrida num navio-motor sobre "ondas adamastoradas", imagem que evoca a herança épica camoniana, mas aqui protagonizada por um homem comum munido apenas de uma maleta de cartão e de um discurso escasso, dominado pelo respeito e por um leve inclinar de cabeça. Em Bissau-Velho, o seu martelar rítmico era o despertador da vizinhança. Zé não apenas reparava calçado; ele "cosia" a dignidade, fechando "jambutas famintas" para as caminhadas de domingo ou para os bailes suarentos. A escolha da profissão de sapateiro por Tony Tcheka é altamente metafórica: Zé é a base invisível que sustenta o caminhar dos outros, o operário que, no silêncio da sua oficina, sustenta a memória coletiva de um povo.
Zé da Tugalândia chamavam-lhe Zé Zé sapateiro Zé tuga por vezes sô Zé homem da Tugalândia nhu Zé de bissau-velho homi grandi Ih!!! Garandi nan!!! ninguém se lembra quando chegou diz-se que veio num navio-motor sobre ondas adamansadas vinha só maleta de cartão na mão duas, ou três palavras eram o seu discurso uma era certamente “senhor” senhor sem cor sem temor e sem idade um gesto feito tique - um leve inclinar da cabeça dispensava palavras vãs dimensionava a grandeza de homem de trabalho bissau velho acordava chamado pelo seu toc-toc calcando pregos cozendo rijos nós fechando jambutas famintas para basófias caminhadas na praça ou bailes suarentos de fins de semana
"Sô Zé de Bissau-Velho: Homi Grandi na Tugalândia"
O texto exalta-o como um "homi grandi", um gigante anónimo que atravessou as agruras do exílio sem queixas, enfrentando sargentos ingratos e a solidão da doença. Zé nutria dois amores profundos e paradoxais: a Guiné, uma paixão sentida "a dez dedos", e a Tugalândia, a metrópole madrasta que o acolheu mas o manteve na margem.Esta obra de Tony Tcheka, autor de referência que pode ser acompanhado através da União dos Escritores Guineenses, permanece como um dos tributos mais comoventes à resiliência africana. Zé da Tugalândia termina a sua jornada sem medalhas ou diplomas oficiais, mas com a imortalidade garantida no coração de Bissau e na história da literatura lusófona, representando a "sabura que dói" de quem vive entre dois mundos.
Tchico Tem-Tem Tchico Tem-Tem da Nha Tchibita da Tchada de Burro Tchico Tem-Tem na bola de trapos vida tem-tem que nada tem Entre quedas e cambalhotas Tchico foi na onda - chegou à terra-branco… encalhou nos becos do Rossio Montou bureau d`affaires de nada … vende histórias passadas e inventadas Sorrisos à borla e receituários por haviar são marcas da casa As esquinas e as ruelas lisboetas desembocam sempre no Tem-Tem fundibulário Veste a fadiga de sossego com histórias de manga curta nada que faça suar Tchico brejeiro cara erguida mãos nos bolsos vazios assobiadelas marotas Jeito cultivado entre quedas e cambalhotas para espantar a fome nos becos do rossio.
Tchico Tem-Tem: Brejeiro dos Becos do Rossio
Tchico, da 'Nha Tchibita da Tchada de Burro', chega à 'terra-branco' e encalha no Rossio, montando um 'bureau d'affaires de nada'. Através do simbolismo da 'bola de trapos', o autor sugere que a vida de Tchico é aleatória, construída com parcos recursos e sujeita ao capricho do destino ('vida tem-tem que nada tem').Em Lisboa, ele 'vende narrativas passadas ou forjadas, com 'sorrisos à borla' e 'receituários por haviar'. Esta descrição irónica do 'bureau d’affaires' funciona como uma crítica amarga à falta de oportunidades reais para o emigrante na metrópole. Tchico vê-se forçado a viver de expedientes e da sua própria criatividade. Brejeiro de cara erguida, mãos nos bolsos vazios e assobiadelas marotas, veste 'fadiga de sossego' e cultiva um 'jeito' entre quedas. Esta atitude não é apenas uma característica pessoal, mas uma estratégia de resiliência cultural – a arte do 'desrasque' guineense. Ele usa a pose e o 'fundibulário criativo' (a arte de inventar e contar histórias) para 'espantar a escassez urbana', mantendo uma dignidade inabalável apesar da adversidade. O poema contrasta constantemente o espaço físico de origem com o de exílio. Tchico está fisicamente em Lisboa, mas as 'esquinas e as ruelas lisboetas' desembocam sempre no seu eu original de 'Tem-Tem', mostrando que a sua identidade permanece ancorada em Bissau, apesar da travessia e do encalhe urbano.
Refrão da fome Esse som que chega e me nega o sono Não é choro não é chuva Mimoseando a terra ressequida Não é pranto nem sorriso incontido É um gemido perdido um choro sentido mas não chorado Choro… Sufoco de menino fere o conto de N’Gumbé em refrão amargo de fome.
"O Silêncio que Devora o Gumbé"
"Refrão da Fome" é um lamento visceral de Tony Tcheka sobre a fome infantil que, qual ruído ensurdecedor, nega o sono e a paz. O poeta descreve um "gemido perdido", um choro "sentido mas não chorado", que representa o estágio último da privação, onde a dor já não tem forças para se manifestar em pranto ou chuva mimoseadora.O impacto deste sofrimento é de tal ordem que chega a ferir o conto de N’Gumbé. Ao profanar este ritmo tradicional de celebração e transmissão oral, Tcheka denuncia que a fome não devasta apenas o corpo, mas asfixia a própria alma cultural da nação. O "refrão amargo" da desnutrição substitui os cantos ancestrais, transformando a infância guineense num sufoco contínuo. Com este poema, Tcheka encerra um testemunho brutal sobre as crises pós-coloniais. Do korá penitencial ao gemido do menino, o autor reafirma que, enquanto houver fome, a cultura (o Gumbé) e a esperança cultural permanecerão feridas, ecoando a aridez de uma "terra tísica" que ainda luta para alimentar os seus filhos.
NOSTALGIA Cinzento nicotina serpenteia o meu quarto argola o tempo que não passa Tu não apareces nada acontece…. O som sobe em 33 rotações a voz sofrida de Ottis Reding sustenta o calor de um canto soul Emerges de uma nota de piano por momentos bailas na circunferência de uma bola de fumo que se esquiva pela persiana Fica o som dilatado do sax a dar passagem a Ottis a sentenciar “time is over” Nada acontece… Nicotino o espaço que se fecha sobre mim sem ti
Nostalgia: Cinzento Nicotina de Tony Tcheka
"Nostalgia" é um poema intimista de Tony Tcheka que evoca o peso da ausência amorosa num quarto sufocado pelo fumo e pelo som do vinil. O "cinzento nicotina" serpenteia como uma argola temporal estagnada — "Tu não apareces / nada acontece" —, simbolizando a paralisia de quem espera.A banda sonora de Otis Redding em 33 rotações sustenta o calor de um canto soul que preenche o vazio emocional. A amada surge como uma miragem sensorial, emergindo de uma nota de piano e bailando fugazmente numa circunferência de fumo antes de se dissipar pela persiana. O som dilatado do saxofone antecipa o fim, culminando na sentença "time is over". Este poema marca um contraste nítido com a poética saheliana de Tcheka: aqui, o cenário não é a tabanca ou o deserto, mas o exílio emocional de um ambiente citadino. É a fusão da saudade lusófona com a melancolia do blues e da soul, onde o poeta "nicotina" o espaço numa tentativa vã de suportar a solidão de um mundo que se fecha sobre si mesmo.
"Sabura que Dói: Metáforas do Corpo e o Perdão na Poesia Pós-Traumática de Tony Tcheka"
Lançado originalmente no Brasil em 2008 e relançado em Lisboa em 2009 pela Editorial Novembro, "Guiné: Sabura que Dói" é o segundo marco na bibliografia individual de Tony Tcheka. A obra aprofunda a desilusão pós-colonial iniciada em 1996, mas desloca o foco para a ferida aberta da Guerra Civil de 1998-99, consolidando a "estética do desencanto" na literatura guineense.O título utiliza um oximoro potente: "Sabura que dói" (do crioulo: prazer/doçura que dói). Esta metáfora captura a dualidade da Guiné-Bissau contemporânea, onde a vibrante identidade cultural e a alegria de viver (a sabura) colidem frontalmente com a violência gratuita, a "matchundade" (autoritarismo/machismo) governamental e a precariedade do "chão de trabalho". A obra retrata uma terra onde a pólvora insuflou o ódio, transformando o sonho da independência num ciclo de luto e instabilidade.
"Sabura que Dói: Metáforas do Corpo e o Perdão na Poesia Pós-Traumática de Tony Tcheka"
Tcheka utiliza a sua acuidade jornalística para captar "flashs" do conflito armado, recusando a amnésia coletiva. A poesia torna-se um arquivo de memórias traumáticas: as mortes cruéis, o êxodo urbano e a diáspora forçada de uma geração que se viu obrigada a procurar refúgio fora do "chão de medo". A obra expande os temas de Noites de Insónia, elevando antigos figurantes — como o andarilho e o refugiado — a protagonistas de uma tragédia nacional. No centro desta "ecopoética social", surgem as mulheres com os seus balaios de mágoas. Perante a falência das instituições e a violência dos homens de armas, a bidera (vendedora ambulante) é apresentada como a força que sustenta a nação. O seu balaio não carrega apenas mercadoria, mas a dignidade e a sobrevivência de um povo, representando o último reduto da "dor-esperança". Como segunda parte da trilogia que culminaria em 2016, este livro é essencial para compreender a identidade guineense contemporânea.
TERRA TÍSICA terra sahel vento cinzento esboçando voos amargos movediços esperança a esvaiar das alturas do futa djalon -o bombolom lamina ventos anuncia eventos repica forte e geme no corpo do vento saheliano dores saheis em contravento a seca é um gemido ululante sublimado nas cordas adelgaçadas do nhanhero griot a chuva que o vento levou mora no imaginário sumido de um choro sem tambores sem cana sem lágrimas o vento deixou-nos a ânsia gotejando no pulmão da terra tísica
Terra Tísica: Elegia Saheliana de Tony Tcheka
Este poema é uma meditação poderosa sobre a devastação ambiental e cultural do Sahel, utilizando a metáfora da tísica (tuberculose) para descrever a terra como um corpo doente, consumido pela seca e pelo "vento cinzento".O vento saheliano, personificado pelo bombolom que "geme" dores, contrasta ironicamente com o Futa Djalon, fonte vital distante; o griot, no nhanhero de cordas adelgaçadas, lamenta a chuva ausente e o choro "sem tambores nem lágrimas", simbolizando esgotamento ritual. A "ânsia gotejante" final evoca resiliência frágil perante crises políticas e ambientais da Guiné-Bissau, transformando tradições orais em elegia pós-colonial pela sobrevivência cultural.
Lusa Língua: Sonho Crioulizado de Tony Tcheka
Lusa língua língua lusa minha não sei se sonhas ó língua! sei, sim que deixas sonhar. língua! lusa língua minha companheira é amiga, fraterna, e arauto. rejeita espaços herméticos, fechados, limitados por falsas fronteiras. veste-se literariamente de tendências universalistas. e quando um dia transportada em caravelas foi impelida a sonhar com “novos mundos” deixou-se conquistar. conquistámo-la! é ternuramente nossa. anichou-se nos meus sonhos. sonha comigo e alimenta o calcanhar da minha terra vermelha vestindo musas e amantes de muitos amores. na sua mágica andança pelas novas “moranças” africanas aonde se instala, ora é ponte, ora é chave para ganhar espaços dantes negados... e ajuda o sonhar e falar e encantar e ser e ter. lusa língua, minha ferramenta operária é o meu baú de sentimentos, enciclopédia viva de tolerância. algures na costa ocidental da áfrica, mostra-se solidária, tolerante. interpreta camões na lírica dança multirracial ritmada pelo som mediático do compasso ancestral do bombolom. coabita criolizada e criadora e abecedária ao lado de mais de duas dezenas de outras línguas, ali nascidas mas feitas almas gémeas ante a iminência da construção de uma terra nova. nas águas serenas do corubal a lusa língua sobe rio acima... e na parede alta do macaréu sonha com o meu país que um dia será nação. ali, a lusa língua sonha com noites sem insónias e sem bastões analfabetos molestando gente e abafando mentes ávidas de saber. afinal língua, tu sonhas, interpretando sonhos que não dormem!
"Lusa Língua" é um hino apaixonado de Tony Tcheka à língua portuguesa, vista como uma ponte universalista e uma "enciclopédia viva de tolerância". O autor subverte a lógica colonial ao afirmar que a língua se deixou conquistar — "conquistámo-la!" —, tornando-a africana, fraterna e "ternamente nossa". Rejeitando espaços herméticos, a língua anicha-se na "terra vermelha" da Guiné-Bissau, onde coabita com mais de duas dezenas de línguas locais como "almas gémeas". Nesta simbiose, Camões é interpretado ao ritmo ancestral do bombolom, provando que a lusofonia é uma dança multirracial e crioulizada. Mais do que estética, a língua é uma "ferramenta operária". Nas águas do Corubal e perante a "parede alta do macaréu", ela sonha com a transição de país a nação, combatendo os "bastões analfabetos" que asfixiam o saber. Ao contrário de "Povo Adormecido", aqui Tcheka projeta uma visão utópica e ativa, onde a língua interpreta "sonhos que não dormem" para construir uma terra nova e livre de insónias políticas.
Desesperança no Chão de Medo e Dor: Poética do Desalento Pós-Golpe em Tony Tcheka
Desesperança no Chão de Medo e Dor (2015) é o terceiro livro individual de Tony Tcheka, publicado pela Corubal, completando a trilogia poética guineense iniciada com Noites de Insónia (1996) e continuada em Guiné: Sabura que Dói (2008). Esta obra encerra um arco de décadas onde o autor assume o papel de "guardião da memória", transformando o trauma histórico em testemunho estético.Surgiu após o golpe de Estado de 2012 na Guiné-Bissau, que paralisou o país por dois anos com má administração e desbarate de recursos. Tcheka, como poeta e jornalista, testemunha o trauma diário, exorcizando medos pessoais através de gritos, clamores e protestos contra a crise social e política. A obra vai além da crónica política ao denunciar a "matchundade" — uma masculinidade tóxica e autoritária que alimenta o ciclo de violência no poder.
Desesperança no Chão de Medo e Dor: Poética do Desalento Pós-Golpe em Tony Tcheka
O livro reúne 50 poemas em cinco capítulos, misturando poesia e ensaios reflexivos. A utilização do Crioulo (num dos capítulos e em expressões chave) não é apenas um recurso linguístico, mas um ato de resistência cultural que ancora a dor no vocabulário mais íntimo do povo. Foca o "chão de medo e dor" da identidade guineense: a indignação pela sociedade em colapso e o desalento africano, sintetizado no conceito de "amargas mistidas" (misturas amargas), que reflete a desilusão face ao projeto de Estado-nação falhado. Fecha a sequência pedagógica: da apatia pós-1974, ao trauma da guerra civil de 1998, culminando na desesperança pós-golpe — posicionando-se como uma leitura essencial para compreender a função da literatura como espaço de denúncia e resistência ética na lusofonia contemporânea. Lançado em fóruns internacionais, como o XI Congresso Alemão de Lusitanistas, o livro reafirma Tony Tcheka como a voz que dá contornos ao "indizível" da realidade guineense.
E não te chamas Cristo Tens o crucifixo de muitas chuvas cravado na palma da mão com que matizas a terra em tempos de kebur Tempo finado tempo fincado no peito da dor disputando a sobra do cuntango Tempo enlutado tempo anoitecido no entardecer da esperança Na curvatura do tambor onde expias o desespero fizeram do teu corpo sepultura do medo Negam-te o pedaço da tua tabanca dão-te uma vida assalariada taxam-te uns tantos por cento para a sobrevivência autorizada E não te chamas Cristo e só pregas com o arado.
"Cristo Falso no Chão de Medo"
"E não te chamas Cristo" denuncia ironicamente líderes guineenses pós-golpe de 2012 que fingem sofrimento ("crucifixo de muitas chuvas cravado na palma") mas exploram o povo, matizando a terra em tempos de kebur (fome seca). Tony Tcheka subverte o Cristo bíblico em explorador rural que "prega com o arado" em vez de carpinteiro salvador. O tempo "finado no peito da dor" disputa sobras de cuntango (arroz racionado), enlutado no "entardecer da esperança", enquanto o tambor curvo vira "sepultura do medo". A anáfora "E não te chamas Cristo" martela negação profética, com ritmo oral guineense evocando korá partido. Exploração económica culmina: negam "pedaço da tabanca" (aldeia crioula), dão "vida assalariada" taxada para "sobrevivência autorizada". Fecha trilogia tchekana — apatia (Noites, 1996), guerra (Sabura, 2008), sepultura neoliberal (Desesperança, 2015)
Quando os Cravos Vermelhos Cruzaram o Geba:Utopia Traída no Rio da Memória
Quando os Cravos Vermelhos Cruzaram o Geba (Editorial Novembro, Vila Nova de Famalicão, 2020) é um livro de ficções curtas de Tony Tcheka que resgata o impacto da Revolução dos Cravos (25 de Abril de 1974) na Guiné-Bissau, centrando narrativas no rio Geba — artéria simbólica da nação onde "cravos vermelhos" representam a esperança revolucionária cruzando águas ancestrais.Os contos — Pekadur di Sambasabi , Manito o Patriota , Camarada Melhor Amanhã e Excisadas na Flor da Idade — fundem história, oralidade crioula e crítica social. Pekadur di Sambasabi: resgata a figura trágica do soldado africano, abandonado num limbo identitário e político após o fim do império colonial; Manito o Patriota e Camarada Melhor Amanhã: funcionam como exercícios de desmistificação dos messianismos políticos, questionando as promessas de libertação que se converteram em novas formas de opressão e Excisadas na Flor da Idade: uma denúncia contundente da mutilação genital feminina (o "fanado"), onde o autor opõe a urgência dos direitos humanos à "matchundade" tóxica enraizada na tradição.
Quando os Cravos Vermelhos Cruzaram o Geba:Utopia Traída no Rio da Memória
Tcheka, dos "Meninos da Hora da Libertação" (Mantenhas para quem Luta, 1977), evoca a euforia inicial do PAIGC e Pidjiguiti contra desilusões — ponte entre trilogia poética (Noites de Insónia, 1996; Sabura que Dói, 2008; Desesperança no Chão de Medo e Dor, 2015) e prosa histórica. Lançado em Bissau (4/5/2022, Camões CCP), alerta para reconciliação falhada e diáspora guineense em Portugal. Em 2025, este livro é lido como um manifesto contra a amnésia histórica. Ao fundir a fúria jornalística com a sensibilidade do conto, Tony Tcheka demonstra que a verdadeira independência só se completa quando a nação enfrenta as suas próprias feridas — sejam elas os traumas da guerra ou as injustiças da tradição.
Os Media na Guiné-Bissau: Da Imprensa Colonial ao Silêncio Pós-Golpe
Os Media na Guiné-Bissau é um estudo de referência da autoria de Tony Tcheka (António Soares Lopes), publicado pelas Edições Corubal em 2015 e apresentado em 2016 na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. A obra oferece uma análise exaustiva da história dos meios de comunicação de massa no país num arco temporal que se estende de 1879 a 2013, documentando o percurso desde a imprensa oficial colonial até à rádio nacional, à imprensa partidária e à emergência das rádios comunitárias e dos media independentes.O livro resulta da vasta experiência de Tcheka como jornalista e perito em projetos da União Europeia, tendo sido desenvolvido no âmbito do PAANE (Programa de Apoio a Atores Não Estatais), implementado pelo Instituto Marquês de Valle Flôr (IMVF). A obra cruza o rigor da análise histórica com uma profunda preocupação cívica, destacando o papel fundamental da comunicação na construção da identidade nacional e na promoção da democracia. Devido à sua abrangência, o estudo é frequentemente citado em investigações sobre a participação civil, a circulação de notícias no espaço lusófono e a sociogénese da comunicação na Guiné-Bissau. Em 2025, a obra mantém uma atualidade premente, servindo de base para compreender os desafios contemporâneos da liberdade de imprensa no país, num período marcado por novos constrangimentos e pela necessidade contínua de reformas legislativas e éticas no setor.
Mantenhas para quem Luta: Euforia dos Meninos do Pindjiguiti (1977)
Mantenhas para quem Luta (Conselho Nacional de Cultura, Bissau, 1977) é a primeira antologia poética da Guiné-Bissau independente, reunindo os "Meninos da Hora do Pindjiguiti" — jovens poetas como Tony Tcheka que celebram a vitória anticolonial e a reconstrução nacional. Publicada dois anos após 1974, homenageia combatentes do PAIGC com "mantenhas" (saudações crioulas). Inclui 51 poemas de euforia revolucionária, transformando Pidjiguiti em hino vivo — estreia de Tcheka na literatura, fundindo oralidade (korá, bombolom) com denúncia colonial como "Abusivamente". Na antologia "Mantenhas para quem Luta!" (1977), os poemas de Tony Tcheka (António Soares Lopes Júnior) caracterizam-se pela exaltação da liberdade e pela homenagem ao esforço coletivo da nação. O poema mais emblemático de sua autoria nesta obra intitula-se "Mantenhas" (ou por vezes referido pelo seu verso inicial "Mantenhas para quem luta"). Nele, o autor utiliza a "mantenha" (saudação típica guineense) como um símbolo de solidariedade e reconhecimento ao povo e aos combatentes.
Mantenhas Mantenhas da luta tenho!... Mantenhas, para quem luta!... E não só... Mantenhas... são mantenhas Tenhas ou não participado... Mantenhas trago para ti Mantenhas de quem o povo serviu Mantenhas de quem, sendo simples Grandemente o povo serviu. Mantenhas daquele que sucumbindo Com o próprio sangue o inimigo acertou (A Lua é assim exige Sacrifícios) Por isso mantenhas... Mantenhas para os que merecem O merecimento do Pindjiguiti O merecimento do Como O merecimento de Cassaká O merecimento de Guiledje O merecimento de Cabral O merecimento da Luta O merecimento das mantenhas A mantenha Combatente!!! A mantenha para aqueles Que engajados continuam Mantenhas para que não mais haja Botas estrangeiras espezinhando o nosso sentimento... A nossa cultura... A nossa razão... Por isso mantenhas... Mantenho Decididamente, mantenhas!!! Mantenhas de firmeza Mantenhas militantes Mantenhas na certeza De que nada será, como ontem Jamais as nossas crianças Matarão a sede Com as lágrimas da fome Por isso e por tudo isto Mantenhas, mantenho nas mantenhas.
"Mantenhas": O Hino Inclusivo de Tony Tcheka na Madrugada da Independência
"Mantenhas" é o hino inclusivo de Tony Tcheka na antologia Mantenhas para quem Luta (1977), a primeira coletânea poética da Guiné-Bissau independente. O poema estende a saudação crioula a todos os que serviram o povo — simples ou sucumbidos —, elevando Pidjiguiti, Como, Cassaká, Guiledje e Cabral ao estatuto de marcos sagrados da luta anticolonial.A anáfora martelante "Mantenhas... Mantenhas para quem luta!" evoca o fôlego de um griot revolucionário, crescendo do sacrifício sangrento à utopia nacional de que "nada será como ontem". Através de enumerações de batalhas e aliterações como "mantenhas militantes", o autor funde a oralidade ancestral com a euforia política pós-25 de Abril de 1974. O texto democratiza o heroísmo ("tenhas ou não participado"), contrastando a opressão das "botas estrangeiras" com a promessa de crianças livres das "lágrimas da fome" — um tema que prefigura a desilusão de Noites de Insónia na Terra Adormecida (1987). Ao fechar com "mantenhas de firmeza", Tcheka encerra o arco da celebração e inicia a sua jornada como a consciência crítica da nação guineense.
"Do Ferro à Terra Batida: A Estética da Reconstrução na Poesia de 1978"
Antologia dos Jovens Poetas / Momentos Primeiros da Construção (Conselho Nacional de Cultura, Bissau, 1978) é a segunda coletânea poética da Guiné-Bissau independente, reunindo 35 poemas de 12 jovens autores dos "Meninos do Pindjiguiti". Publicada um ano após Mantenhas para quem Luta (1977), a obra prolonga a euforia revolucionária, deslocando o foco da vitória militar para a reconstrução nacional feita com "ferro e terra batida".A antologia estrutura-se em capítulos temáticos, com especial relevo para o "Espaço Crioulo", que integra 21 poemas em crioulo guineense, fundindo a oralidade ancestral balanta e mandinga com os hinos ao PAIGC. Autores como Tony Tcheka, Hélder Proença e Agnelo Regalla celebram aqui uma juventude forjada para um futuro glorioso, liberta das "botas estrangeiras". Esta obra marca a transição da celebração anticolonial para a utopia construtiva, servindo de elo fundamental entre o entusiasmo inicial e as reflexões críticas que marcariam a trilogia tchekana posterior. É uma peça essencial para os estudos lusófonos sobre a poesia de intervenção e a sociogénese da literatura guineense moderna.
"Tecto do Silêncio" (excerto) Ergo a minha voz e firo o teto do silêncio Nego a morte de crianças porque há míngua de medicamentos. Na angústia liberto o verbo mordo o pólen da desgraça que graça nesta África desventurada em obra e graça subdesenvolvendo-se. ............ Exorcizo o paludismo apeio a poliomielite amputo a desgraça encho a taça de ternura e fica a graça da criança florescendo a vida. In O Eco do Pranto: A criança na poesia moderna guineense, Tony Tcheca
“Tony Tcheka: da criança guineense ao grito contra o silêncio”
Tony Tcheka contribui com o poema "Tecto do Silêncio" para O Eco do Pranto (1992), denunciando condições degradantes da infância guineense — falta de medicamentos, paludismo, poliomielite — como "subdesenvolvimento" que amordaça o futuro.
Tony Tcheka: Vozes da Guiné entre Bissau e o Mundo
Tony Tcheka e a Constelação Literária Guineense: Diálogos e Convergências
Tony Tcheka inscreve a sua obra num diálogo contínuo com Abdulai Silá, Odete Semedo e outros autores que formam o núcleo central da literatura guineense contemporânea. Em comum, partilham a missão de construir uma "guineidade" autêntica, recuperando memórias silenciadas pelo colonialismo e denunciando as desilusões do pós-independência. Este grupo interroga, de forma persistente, o lugar do povo e da cultura na construção de uma nação soberana. Enquanto Abdulai Silá utiliza o romance — exemplificado na trilogia Mistida — para dissecar o abuso de poder e as contradições das elites, Tony Tcheka fá-lo através de uma "poesia brava", transformando a dor coletiva em "dor-esperança", ancorada na oralidade e no Kriol. Por sua vez, Odete Semedo aproxima-se de Tcheka ao articular a tradição oral com a escrita, fazendo da memória da infância e da voz feminina pilares narrativos que complementam a visão urbana e diaspórica de Tcheka.
Tony Tcheka e a Constelação Literária Guineense: Diálogos e Convergências
A crítica académica em 2025 identifica Tcheka, Silá e Semedo como os vértices do "Triângulo de Bissau", um sistema literário onde as obras comunicam entre si através de prefácios, antologias e debates públicos. Este diálogo é cimentado por reconhecimentos partilhados, como o Prémio Guerra Junqueiro da Lusofonia (2020), atribuído simultaneamente a Tcheka e Silá, consolidando uma constelação de vozes que reescreve a história simbólica do país.Hoje, este intercâmbio transcende as páginas dos livros para se consolidar em estruturas como a Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI) e a Cooperativa Corubal. Sob a liderança de Tony Tcheka, este projeto coletivo garante que a literatura guineense não seja apenas um conjunto de vozes isoladas, mas um baluarte de soberania cultural que projeta a Guiné-Bissau no centro dos debates literários da CPLP e do mundo.
Tony Tcheka no Cânone Guineense e na Poesia Africana Lusófona
Tony Tcheka é hoje reconhecido como uma das vozes centrais do cânone literário da Guiné-Bissau, ao lado de autores como Abdulai Silá, Odete Semedo ou Vasco Cabral. A sua poesia contribui para fixar uma memória coletiva da guerra de libertação, das frustrações do pós-independência e da diáspora, transformando o quotidiano guineense em matéria de reflexão estética e política. O autor foi fundamental na transição da "poesia de combate" para uma poética de vigilância ética, desmitificando o romantismo revolucionário para denunciar as injustiças sociais do presente. As obras Noites de Insónia na Terra Adormecida (1996) e Guiné – Sabura que Dói (2008) são frequentemente estudadas como textos-chave na definição da "guineidade", pela forma como articulam exclusão social, a nação (tchon) e a deslocação migrante. Além disso, Tcheka atua como um pilar estruturante do sistema literário guineense, organizando antologias como O Eco do Pranto e dinamizando suplementos que deram visibilidade a novas vozes poéticas, combatendo o isolamento editorial do país através da Cooperativa Corubal.
Tony Tcheka no Cânone Guineense e na Poesia Africana Lusófona
No espaço africano lusófono mais amplo, o seu contributo passa pela experimentação linguística radical: a combinação do português com o Kriol, em livros como a antologia trilingue GUINEA (2020), reforça a ideia de que as literaturas africanas são plurilíngues e soberanas. A circulação internacional da sua obra — com traduções, edições na Alemanha e presença em festivais globais — faz de Tcheka uma referência obrigatória quando se mapeia o cânone poético da África contemporânea.Em 2025, o legado de Tony Tcheka é indissociável da sua missão de "arquiteto da memória". Ao elevar o crioulo ao estatuto de língua literária global e ao colocar o emigrante anónimo no centro da epopeia lusófona, Tcheka descolonizou o cânone a partir de dentro. Através da sua liderança na Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI), a sua obra permanece como a sentinela mais lúcida da Guiné-Bissau, provando que a literatura é a ferramenta definitiva para transformar o trauma histórico num projeto de futuro soberano e universal.
"Há chuvas que o meu povo não canta. Há chuvas que o meu povo não ri. Perdeu a alma na parede alta do macaréu. Fala calado e canta magoado." ("Povo Adormecido")