Lília Momplé: Vozes do Colonialismo e da Memória Moçambicana.
19 de março de 1935
“Compilação de memórias: colonialismo e pós-independência na Antologia de contos (2013), de Lília Momplé”
Lília Momplé (n. 1935, Ilha de Moçambique) é uma das principais escritoras moçambicanas contemporâneas, descendente de famílias de origem francesa, indiana e africana, com formação em História pela Universidade Eduardo Mondlane. Trabalhou como professora secundária em Moçambique e Angola, experiência que influenciou a sua escrita centrada em personagens marginais, sobretudo mulheres, em contextos de colonialismo, independência e guerra civil.Momplé destaca-se por fundir história e ficção em narrativas curtas que denunciam violências coloniais, racismo e desigualdades de género, como em Ninguém matou Suhura (1988), Neighbours (1995) e Os olhos da cobra verde (1997). A sua obra preenche lacunas na literatura pós-independência moçambicana, dando voz a subalternos (mulheres rurais, pobres urbanas) e articulando pós-colonialismo com feminismo africano, o que a torna essencial para estudos sobre identidade nacional e memória coletiva. Traduzida para inglês (No One Killed Suhura, Neighbours), Momplé amplia o cânone lusófono africano para além de Mia Couto ou Ungulani Ba Ka Khosa, influenciando análises sobre género e trauma na lusofonia.
O reconhecimento da sua mestria narrativa foi sublinhado pelo prestigiado Prémio Caine para Escrita Africana, que lhe foi atribuído em 2001 pelo conto "O Baile de Celina" (incluído em Os olhos da cobra verde).
Aos 90 anos (2025), continua referência em antologias e programas educativos, promovendo diálogos entre Moçambique, Angola e Brasil sobre heranças coloniais.
“Entre o colonialismo e a guerra civil: o contexto histórico-social de Moçambique na obra de Lília Momplé”
A escrita de Lília Momplé nasce diretamente da experiência histórica de Moçambique sob o colonialismo português, da luta de libertação e do conturbado pós-independência, com guerra civil e interferências externas.Moçambique esteve sob dominação portuguesa por cerca de quatro séculos, com colonização efetiva intensificada a partir do final do século XIX, baseada em exploração de recursos, trabalho forçado, racismo institucional e um sistema de assimilação que marginalizava a maioria africana. A resistência moçambicana assumiu várias formas, culminando na guerra de libertação liderada pela FRELIMO entre 1964 e 1974, enquadrada na Guerra Colonial Portuguesa; a independência foi proclamada a 25 de junho de 1975, vista como triunfo sobre a opressão colonial.
Nas obras de Momplé, especialmente em Ninguém matou Suhura, surgem a violência sexual, o abuso de poder de administradores coloniais e o silenciamento de vítimas africanas, que espelham práticas coloniais de dominação e racismo. O espaço da Ilha de Moçambique, por exemplo, aparece como cenário onde a autoridade colonial se exerce sobre corpos e vidas de mulheres pobres, transformando factos históricos de opressão em ficção crítica. Após 1975, o novo Estado moçambicano, governado pela FRELIMO com orientação socialista, enfrentou graves desafios: nacionalizações, reformulação das estruturas sociais e forte oposição armada da RENAMO, apoiada por regimes vizinhos da Rodésia e da África do Sul do apartheid. A guerra civil (1977–1992) devastou o país, provocando deslocamentos massivos, destruição económica e milhões de vítimas, até ao Acordo Geral de Paz de Roma, em 1992.
“Entre o colonialismo e a guerra civil: o contexto histórico-social de Moçambique na obra de Lília Momplé”
Este contexto atravessa livros como Os olhos da cobra verde e Neighbours: a autora mostra deslocados de guerra, bairros periféricos de Maputo, pobreza extrema, corrupção e violência quotidiana num país formalmente independente mas ainda marcado por guerras e ingerências externas (como a ação clandestina do apartheid em Neighbours). Nos contos pós-guerra, a paz jurídica não elimina o trauma: ex-combatentes, mulheres viúvas ou abandonadas e crianças sobrevivem entre ruínas materiais e simbólicas, revelando continuidades de opressão.
Crítica e ensaio sobre Momplé sublinham que a autora trabalha a “memória do colonialismo” e das guerras como forma de dar voz a sujeitos apagados pela história oficial, principalmente mulheres pobres e camponeses. Ao situar personagens em momentos-chave (colonialismo tardio, luta de libertação, guerra civil, interferência do apartheid), a sua ficção funciona como contranarrativa, revisitando a história de Moçambique a partir de baixo, em diálogo com o espaço mais amplo da literatura pós-colonial lusófona.
“Das origens multirraciais à formação historiadora: biografia inicial de Lília Momplé”
Lília Momplé nasceu em 1935, na Ilha de Moçambique, província de Nampula, então importante centro administrativo e comercial do colonialismo português no norte do país. A própria autora refere ter uma origem familiar multicultural, combinando raízes macua (africanas), francesas e indianas, o que a colocou desde cedo num cruzamento de línguas, religiões e costumes.Frequentou escolas locais na Ilha de Moçambique e estudou História na Universidade Eduardo Mondlane, em Lourenço Marques (atual Maputo), onde se formou. Posteriormente, lecionou História no ensino secundário em Moçambique e Angola, experiência que moldou o seu olhar sobre personagens marginais e contextos de opressão colonial. Cresceu num ambiente cosmopolita marcado pela diversidade étnica da Ilha de Moçambique, absorvendo tradições macua e oralidade africana, além de influências europeias via família francesa. A vivência do colonialismo tardio – racismo, trabalho forçado e silenciamentos – e o contacto com a luta de libertação da FRELIMO inspiraram as suas narrativas de denúncia, fundindo memória pessoal com história coletiva moçambicana.
“Entre o quadro de aula e o Serviço Social: o percurso profissional de Lília Momplé ao serviço da escrita.”
Lília Momplé combinou uma carreira profissional diversificada com a escrita, usando experiências reais como base para as suas narrativas sobre marginalidade e violência.Após formar-se em História pela Universidade Eduardo Mondlane, lecionou no ensino secundário em Moçambique e Angola durante o período colonial tardio, contactando diretamente com desigualdades sociais e raciais que inspiraram os seus contos. Posteriormente, trabalhou no Serviço Social do Ministério da Justiça em Maputo, lidando com casos de pobreza, violência doméstica e injustiça judicial – temas centrais em Stress e Os olhos da cobra verde. Momplé também ocupou o cargo de Secretária-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEM), uma posição que lhe permitiu influenciar ativamente o panorama literário e cultural do país. Viajou para a Europa (Suécia, França) e Brasil, onde contactou com diáspora africana e literatura pós-colonial, ampliando a sua visão cosmopolita e facilitando traduções para inglês. Estas vivências no exterior reforçaram a fusão entre história pessoal e coletiva nas suas obras, transformando o Serviço Social e o ensino em “arquivo vivo” para denúncias de opressão colonial e pós-independência.
“Entre a AEMO e a UNESCO: o papel institucional de Lília Momplé na promoção da literatura moçambicana.”
Lília Momplé teve um papel central na Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), articulando a sua intervenção literária com trabalho institucional na defesa da cultura. Entre as décadas de 1990 e 2000, desempenhou cargos de liderança, nomeadamente como secretária-geral e presidente da Mesa da Assembleia-Geral, sendo hoje frequentemente referida como antiga dirigente e membro de referência da associação.No âmbito da AEMO, Momplé defendeu uma visão de ativismo literário em que os escritores se aproximassem das escolas e dos jovens, promovendo encontros, debates e circulação do livro moçambicano. Foi sob a chancela da AEMO, na coleção Karingana, que foram publicadas as suas primeiras obras e as de muitos outros autores, que hoje constituem o cânone da literatura moçambicana pós-independência. A sua atuação coincidiu com a fase de consolidação da literatura pós-independência, ajudando a dar visibilidade a autoras e autores moçambicanos no espaço lusófono. Paralelamente, exerceu funções na área cultural do Estado moçambicano, como dirigente do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural (FUNDAC), e representou Moçambique no Conselho Executivo da UNESCO entre 2001 e 2005. Esta combinação de cargos na AEMO e em organismos públicos reforçou o seu papel como mediadora entre criação literária, políticas culturais e reconhecimento internacional da literatura moçambicana.
“Entre o colonialismo e a guerra civil: temas e estilo na obra literária de Lília Momplé.”
A obra literária de Lília Momplé é relativamente curta em número de livros, mas muito coesa em termos de temas e de posição crítica, articulando colonialismo, guerra, pobreza e género a partir de Moçambique. Publicou sobretudo contos e um romance: Ninguém matou Suhura (1988), sobre violência colonial; Neighbours: The Story of a Murder (1995/1996), romance passado em Maputo em 1985, sob a sombra do apartheid; Os olhos da cobra verde (1997), com contos situados na guerra civil e no pós-Acordo de Paz; e a Antologia de contos (2013), que reúne textos de várias fases da sua escrita.Tematicamente, Momplé centra-se na denúncia da violência colonial (racismo, abuso de poder, exploração sexual), na devastação provocada pela guerra civil e pela ingerência do apartheid sul-africano, e na persistência da pobreza e da injustiça no pós-independência. As protagonistas são frequentemente mulheres pobres, analfabetas ou semi-alfabetizadas, deslocadas ou habitando bairros periféricos, que sofrem violência doméstica, sexual e económica, mas também revelam estratégias de resistência e sobrevivência. A autora trabalha sempre a relação entre história e memória, descrevendo as suas narrativas como “estórias que ilustram a História”, baseadas em factos reais transformados em ficção. Do ponto de vista estilístico, a sua escrita combina um realismo crítico muito forte – cenas de violência, miséria, burocracia, guerra – com elementos simbólicos e poéticos, como a cobra verde, sonhos, presságios e imagens ligadas à tradição e à oralidade africana. O quotidiano (cozinha, quintal, bairro, sala de aula) é o espaço preferencial onde se inscrevem as grandes forças históricas, mostrando como o político invade a vida doméstica. A crítica destaca ainda a multiplicidade de vozes, o uso de narradores próximos das personagens e uma escrita “no feminino”, em que o corpo das mulheres se torna lugar de inscrição da violência, mas também da memória e da resistência na história moçambicana e lusófona.
Lília Momplé no Cânone Lusófono: Paralelos com Noémia de Sousa e Paulina Chiziane
Lília Momplé inscreve-se hoje como figura central do cânone moçambicano e lusófono, frequentemente pensada em diálogo com Noémia de Sousa e Paulina Chiziane.
Críticos apontam Momplé como uma das vozes que consolidam a escrita feminina em Moçambique, a par de Noémia de Sousa (poesia de resistência anticolonial) e Paulina Chiziane (romance pós-independência e crítica ao patriarcado). A sua obra em prosa, focada na história recente e em personagens subalternas, permite lê-la como ponte entre a geração de luta anticolonial e a geração de revisão crítica do projeto nacional.Tal como Noémia de Sousa, cuja poesia afirma identidade africana e denuncia o racismo colonial, Momplé expõe violência e humilhação sob o colonialismo, mas em registo narrativo (contos e romance). Ambas trabalham a memória da opressão como instrumento de afirmação coletiva, centrando o olhar em sujeitos negros marginalizados e em experiências de dor e resistência. Com Paulina Chiziane, Momplé partilha a atenção à condição feminina moçambicana, à poligamia, à violência doméstica e à tensão entre tradição e modernidade. Enquanto Chiziane explora sobretudo o romance, com narrativas mais extensas e marcadamente orais, Momplé concentra-se no conto e no romance curto, mantendo um forte vínculo com factos reais e com a guerra civil, o apartheid e o pós-guerra.
As três autoras figuram hoje em estudos de literatura africana de língua portuguesa como referências incontornáveis para pensar colonialismo, nacionalismo, género e pós-colonialidade. Em conjunto, contribuem para deslocar o centro do cânone lusófono, trazendo para o primeiro plano vozes femininas africanas que reescrevem a história oficial a partir da experiência negra, popular e feminina.
“Violência e silenciamento em ‘Ninguém matou Suhura’, de Lília Momplé”
Ninguém Matou Suhura (1988) é a primeira obra de Lília Momplé, uma coletânea de cinco contos que funcionam como “estórias que ilustram a História” do colonialismo português em Moçambique e Angola, entre 1935 e 1974.O livro é composto por cinco contos que se passam na Ilha de Moçambique e em Angola, num período que vai da década de 1930 até à véspera da independência. Cada história articula o colonialismo com violência, exploração do trabalho, segregação racial e opressão do corpo feminino, mostrando como o poder colonial destrói vidas e dignidade. A autora utiliza a literatura como uma ferramenta crítica para reavivar a memória social e denunciar as arbitrariedades colonialistas. Este conto-título é passado na Ilha de Moçambique e centra-se na história de Suhura, uma jovem moçambicana de 15 anos, órfã, analfabeta e extremamente pobre. Ela é forçada a ir à casa do Senhor Administrador (representante do poder colonial português), onde é violentada sexualmente e acaba por morrer durante a agressão.
“Violência e silenciamento em ‘Ninguém matou Suhura’, de Lília Momplé”
O título é irónico: o Senhor Administrador e o sistema colonial fingem que “ninguém matou Suhura”, mas a narrativa mostra que foi a violência colonial, racista e patriarcal que a matou. A morte de Suhura simboliza a morte física e simbólica do povo colonizado, cuja vida e direitos são sistematicamente negados pelo colonialismo. O conto expõe a "cultura do silêncio" que vigorava sob o regime, onde a impunidade do opressor era garantida.A obra teve um impacto significativo na literatura moçambicana e pós-colonial lusófona, sendo frequentemente estudada como um importante testemunho ficcional da história moçambicana recente.
A mestria narrativa de Momplé valeu-lhe o Prémio Caine para Escritores Africanos em 2001 com o conto "O baile de Celina", também incluído nesta coleção. Além disso, o conto "Caniço" (igualmente parte desta obra) recebeu o 1º Prémio de Novelística no Concurso Literário do Centenário da Cidade de Maputo. As análises académicas destacam como a obra dialoga com a realidade e a ficção, oferecendo uma perspetiva única sobre as relações de poder e resistência no contexto colonial.
“Vizinhança sob ameaça: apartheid e violência em Neighbours, de Lília Momplé”.
Neighbours: The Story of a Murder, de Lília Momplé, publicado em 1995 (com edição em inglês em 1996), é um romance curto ambientado numa única noite de abril de 1985, em Maputo, Moçambique. A narrativa entrelaça as vidas de três famílias vizinhas, cujas rotinas domésticas são abruptamente atravessadas por uma conspiração política ligada ao regime do apartheid sul-africano.o primeiro lar vive Narguiss com as filhas, preparando o Eid em meio a preocupações familiares quotidianas. Ao lado, Leia e Januário, com a filha pequena, celebram finalmente a conquista de um apartamento após anos de burocracia e esforço. Na casa ao lado, Mena sofre violência conjugal e desconfia dos encontros secretos e do dinheiro do marido Dupont, que acumula dívidas e ressentimentos. As histórias aparentemente independentes convergem num plano de assassínio: agentes do apartheid e colaboradores moçambicanos preparam um atentado contra vizinhos de refugiados do ANC (Congresso Nacional Africano), visando desestabilizar o jovem Moçambique pós-independência. Momplé expõe assim a intrusão do geopolítico no íntimo, mostrando como o terrorismo sul-africano explora divisões locais de classe, raça e oportunismo.
“Vizinhança sob ameaça: apartheid e violência em Neighbours, de Lília Momplé”.
O romance critica a continuidade da opressão sobre as mulheres – Narguiss, Leia e Mena enfrentam pobreza, racismo e patriarcado –, enquanto denuncia as alianças traiçoeiras que sustentam o apartheid na região. Compacto e tenso, o livro ilustra a fragilidade da vizinhança e da nação perante forças externas e internas de destruição.Momplé emprega uma prosa direta, quase jornalística, mas carregada de tensão psicológica, utilizando a técnica de múltiplos pontos de vista para construir um retrato multifacetado da sociedade moçambicana sob pressão. A narrativa, embora curta, é densa e culmina num clímax trágico que sublinha a arbitrariedade da violência política.A obra foi aclamada pela crítica pela sua abordagem corajosa de um período histórico sensível e pela sua capacidade de humanizar o conflito regional. É considerada uma das obras-chave da literatura moçambicana pós-independência, notável pela sua relevância política e pela mestria da autora em criar personagens complexas num espaço narrativo limitado.
“Memória, guerra e vozes femininas em Os olhos da cobra verde, de Lília Momplé”
Os olhos da cobra verde (1997), de Lília Momplé, é uma coletânea de contos que decorrem em Moçambique entre o período imediatamente posterior à independência, a guerra civil e o tempo após o Acordo Geral de Paz de 1992. A autora parte de situações inspiradas em factos verídicos para mostrar como a violência política, a pobreza e as heranças coloniais atravessam a vida quotidiana de pessoas comuns, sobretudo mulheres.No conto que dá título ao livro, “Os olhos da cobra verde”, acompanhamos Vovó Facache, uma mulher idosa que recorda as deslocações forçadas e a precariedade da vida na Mafalala, em Maputo, enquanto a presença simbólica da cobra anuncia mudança e o fim da guerra. A memória individual torna-se um lugar de leitura da história recente de Moçambique, ligando a experiência da velhice, da pobreza e do medo à esperança de paz. Outros contos retomam essa articulação entre intimidade e violência estrutural. Em “Stress”, duas trajetórias cruzam-se de forma trágica: a de uma mulher ligada às elites e a de um professor pobre, expondo desigualdade, injustiça policial e corrupção. Já em “O sonho de Alima”, a protagonista luta pela alfabetização na idade adulta, enfrentando o machismo do marido e de uma comunidade que tenta controlar o corpo e o desejo feminino.
“Memória, guerra e vozes femininas em Os olhos da cobra verde, de Lília Momplé”
Em “Xirove”, um ex-guerrilheiro ligado à RENAMO procura reintegrar-se na aldeia, carregando traumas de guerra e um amor impossível, o que evidencia o difícil retorno à “normalidade” no pós-conflito. Contos como “O baile de Celina” e “Um canto para morrer” abordam racismo, humilhação e desigualdade, muitas vezes a partir do ponto de vista de raparigas e mulheres que experimentam o peso simultâneo de classe, género e herança colonial.Ao longo do livro, Momplé constrói um retrato crítico de um país em reconstrução, onde paz formal não significa fim da violência, mas abertura de um novo espaço de luta por dignidade e direitos. A escrita combina realismo duro com elementos simbólicos (como a cobra, os sonhos, os presságios), reforçando a importância da memória, da oralidade e das vozes femininas na reinterpretação da história moçambicana.
A obra é amplamente reconhecida pela crítica pela sua profundidade sociológica e mestria narrativa. Notavelmente, o conto “O baile de Celina”, incluído nesta coletânea, viria a ser o vencedor do prestigiado Prémio Caine para a Escrita Africana em 2001, sublinhando o impacto internacional e a relevância literária de Os olhos da cobra verde.
“Vozes silenciadas: violência e resistência na Antologia de contos (2013), de Lília Moplé”.
Antologia de contos, de Lília Momplé, é uma reunião de narrativas curtas publicada em 2013, em edição da autora em Maputo, com 147 páginas e uma tiragem significativa de 4000 exemplares para o contexto moçambicano. A obra compila contos consagrados baseados em factos reais vivenciados pela autora ou por pessoas próximas. A obra inclui um conto inédito de abertura, “Uma Bala para Sharmilla”, e reúne textos de diferentes fases da carreira de Momplé, anteriormente publicados em livros como Ninguém matou Suhura e Os olhos da cobra verde.
Esta compilação abrange temas recorrentes e centrais na sua escrita: a violência colonial, as consequências da pós-independência e da guerra civil, as desigualdades de género e classe, e as estratégias de sobrevivência das mulheres moçambicanas. Os contos reforçam a fusão entre história e ficção, com foco em personagens marginais de Maputo e zonas rurais, denunciando opressões raciais, patriarcais e económicas num Moçambique em reconstrução. A autora usa as vozes femininas, muitas vezes silenciadas, como eixos centrais da narrativa histórica do país. Lançada em 2013, a antologia destaca-se não só pelo número elevado de exemplares, mas também por funcionar como uma obra de referência e divulgação da escrita de Momplé, tornando-a ideal para estudos sobre literatura lusófona africana e pós-colonialismo. A inclusão de material inédito garante a sua relevância tanto para novos leitores como para académicos interessados na evolução da obra da autora.
Influência em Estudos Pós-Coloniais e Prémios Internacionais
Lília Momplé tornou-se uma referência nos estudos pós-coloniais de língua portuguesa, sobretudo pela forma como articula colonialismo, guerra civil, género e memória em Moçambique.A crítica lê Momplé como autora-chave para pensar “memória colonial” e pós-colonialidade a partir de perspetivas femininas e subalternas, em diálogo com teorias de autores como Fanon, Said ou Spivak. Estudos sobre Ninguém matou Suhura, Neighbours e Os olhos da cobra verde analisam como as suas narrativas desmontam discursos oficiais, denunciam violência colonial e pós-independência e dão voz a mulheres pobres, deslocados e ex-combatentes. Por isso, é presença constante em programas universitários de literaturas africanas de língua portuguesa na Europa, nas Américas e no Brasil.
Embora não tenha um “grande prémio” internacional mediático (como um Camões), Momplé recebeu vários reconhecimentos importantes. Em 2001, o seu conto "O Baile de Celina" (integrado na coletânea Os olhos da cobra verde) venceu o prestigiado Prémio Caine para Escrita Africana (Caine Prize for African Writing), um dos mais importantes galardões para a literatura africana.Foi distinguida com outros prémios e homenagens em Moçambique pelo conjunto da obra e, em 2023, recebeu o “Prémio Carreira – Mulher Referência CBA”, em Portugal, pelo seu contributo para a literatura e para a memória histórica moçambicana. A circulação das traduções de Neighbours e de contos em antologias internacionais, reforçada pelo Prémio Caine, consolidou a sua visibilidade académica e crítica fora de Moçambique, tornando-a uma voz incontornável do cânone lusófono pós-colonial.
“Denúncia e memória: a atualidade da obra de Lília Momplé na literatura africana de expressão portuguesa.”
A obra de Lília Momplé tornou-se referência obrigatória na literatura africana de expressão portuguesa, sobretudo pela forma como expõe violência histórica e mazelas sociais a partir de Moçambique.
Contributo para a literatura africana em português
Momplé ajuda a completar o mapa da literatura moçambicana ao lado de nomes como Noémia de Sousa, Mia Couto e Paulina Chiziane, mas com um foco muito próprio: contos e um romance ancorados em factos verídicos sobre colonialismo, guerra civil e pós-independência. Em livros como Ninguém matou Suhura, Neighbours e Os olhos da cobra verde, dá voz a personagens quase ausentes da história oficial – mulheres pobres, deslocados, ex-combatentes, moradores de bairros periféricos – construindo uma verdadeira contramemória da nação moçambicana.
Embora escritas a partir de contextos específicos (colonialismo tardio, guerra civil, pós-acordo de paz), as histórias mantêm grande atualidade porque dialogam com problemas que continuam a marcar sociedades africanas e lusófonas: desigualdade social, violência contra mulheres, racismo e migrações internas. Por isso, a crítica e a academia continuam a ler Momplé em chave de estudos pós-coloniais e de género, e as suas obras permanecem presentes em currículos universitários e debates sobre memória e justiça social na lusofonia.
“Lília Momplé no audiovisual: de Comédia Infantil a Muhipiti-Alima.”
Lília Momplé participou no filme Comédia Infantil (1997), realizado por Solveig Nordlund. Interpretou Dona Esmeralda, uma personagem secundária num elenco maioritariamente moçambicano, numa produção luso-sueca rodada em Maputo.
O filme, baseado no romance sueco homónimo de Helena Nordlund, retrata a guerra civil moçambicana através da história de Nélio, um órfão que perde a família no conflito, misturando realismo duro com elementos mágicos. O filme ganhou prémios em festivais como Créteil e Rotterdam, ampliando a visibilidade de Momplé para além da literatura.
Muhipiti-Alima (1997) é um vídeo-drama curto escrito por Lília Momplé, editado pela PROMARTE em Moçambique. Baseado no conto “O sonho de Alima”, de Os olhos da cobra verde, o roteiro retrata uma mulher de 40 anos na Ilha de Moçambique que luta pelo direito à alfabetização, enfrentando o machismo do marido e da comunidade que tenta controlar o seu corpo e desejo. A narrativa denuncia barreiras à autonomia feminina no contexto pós-colonial, articulando género, educação e tradição.Trata-se de uma produção audiovisual própria da autora, não uma adaptação externa, que reflete o seu ativismo literário e pedagógico em favor da literacia e da voz das mulheres moçambicanas. O formato curto destinava-se provavelmente a circuitos educativos ou culturais locais, alinhando-se com o seu trabalho no Serviço Social e na Associação dos Escritores Moçambicanos.
“Sempre soube que um dia ia escrever, só não sabia quando. Escrevi o ´Ninguém Matou Suhura´ porque eu queria conversar com alguém sobre o que vi e vivi durante aquele tempo. Tinha de me revelar.” confessa Lília Momplé que, nestes tempos, olha para trás e conclui que “esse é um livro a que gostaria que todos, sobretudo os jovens, pudessem ter acesso e o lessem”.
Lília Momplé: Vozes do Colonialismo e da Memória Moçambicana.
Helena Borralho
Created on December 11, 2025
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Lília Momplé: Vozes do Colonialismo e da Memória Moçambicana.
19 de março de 1935
“Compilação de memórias: colonialismo e pós-independência na Antologia de contos (2013), de Lília Momplé”
Lília Momplé (n. 1935, Ilha de Moçambique) é uma das principais escritoras moçambicanas contemporâneas, descendente de famílias de origem francesa, indiana e africana, com formação em História pela Universidade Eduardo Mondlane. Trabalhou como professora secundária em Moçambique e Angola, experiência que influenciou a sua escrita centrada em personagens marginais, sobretudo mulheres, em contextos de colonialismo, independência e guerra civil.Momplé destaca-se por fundir história e ficção em narrativas curtas que denunciam violências coloniais, racismo e desigualdades de género, como em Ninguém matou Suhura (1988), Neighbours (1995) e Os olhos da cobra verde (1997). A sua obra preenche lacunas na literatura pós-independência moçambicana, dando voz a subalternos (mulheres rurais, pobres urbanas) e articulando pós-colonialismo com feminismo africano, o que a torna essencial para estudos sobre identidade nacional e memória coletiva. Traduzida para inglês (No One Killed Suhura, Neighbours), Momplé amplia o cânone lusófono africano para além de Mia Couto ou Ungulani Ba Ka Khosa, influenciando análises sobre género e trauma na lusofonia. O reconhecimento da sua mestria narrativa foi sublinhado pelo prestigiado Prémio Caine para Escrita Africana, que lhe foi atribuído em 2001 pelo conto "O Baile de Celina" (incluído em Os olhos da cobra verde). Aos 90 anos (2025), continua referência em antologias e programas educativos, promovendo diálogos entre Moçambique, Angola e Brasil sobre heranças coloniais.
“Entre o colonialismo e a guerra civil: o contexto histórico-social de Moçambique na obra de Lília Momplé”
A escrita de Lília Momplé nasce diretamente da experiência histórica de Moçambique sob o colonialismo português, da luta de libertação e do conturbado pós-independência, com guerra civil e interferências externas.Moçambique esteve sob dominação portuguesa por cerca de quatro séculos, com colonização efetiva intensificada a partir do final do século XIX, baseada em exploração de recursos, trabalho forçado, racismo institucional e um sistema de assimilação que marginalizava a maioria africana. A resistência moçambicana assumiu várias formas, culminando na guerra de libertação liderada pela FRELIMO entre 1964 e 1974, enquadrada na Guerra Colonial Portuguesa; a independência foi proclamada a 25 de junho de 1975, vista como triunfo sobre a opressão colonial. Nas obras de Momplé, especialmente em Ninguém matou Suhura, surgem a violência sexual, o abuso de poder de administradores coloniais e o silenciamento de vítimas africanas, que espelham práticas coloniais de dominação e racismo. O espaço da Ilha de Moçambique, por exemplo, aparece como cenário onde a autoridade colonial se exerce sobre corpos e vidas de mulheres pobres, transformando factos históricos de opressão em ficção crítica. Após 1975, o novo Estado moçambicano, governado pela FRELIMO com orientação socialista, enfrentou graves desafios: nacionalizações, reformulação das estruturas sociais e forte oposição armada da RENAMO, apoiada por regimes vizinhos da Rodésia e da África do Sul do apartheid. A guerra civil (1977–1992) devastou o país, provocando deslocamentos massivos, destruição económica e milhões de vítimas, até ao Acordo Geral de Paz de Roma, em 1992.
“Entre o colonialismo e a guerra civil: o contexto histórico-social de Moçambique na obra de Lília Momplé”
Este contexto atravessa livros como Os olhos da cobra verde e Neighbours: a autora mostra deslocados de guerra, bairros periféricos de Maputo, pobreza extrema, corrupção e violência quotidiana num país formalmente independente mas ainda marcado por guerras e ingerências externas (como a ação clandestina do apartheid em Neighbours). Nos contos pós-guerra, a paz jurídica não elimina o trauma: ex-combatentes, mulheres viúvas ou abandonadas e crianças sobrevivem entre ruínas materiais e simbólicas, revelando continuidades de opressão. Crítica e ensaio sobre Momplé sublinham que a autora trabalha a “memória do colonialismo” e das guerras como forma de dar voz a sujeitos apagados pela história oficial, principalmente mulheres pobres e camponeses. Ao situar personagens em momentos-chave (colonialismo tardio, luta de libertação, guerra civil, interferência do apartheid), a sua ficção funciona como contranarrativa, revisitando a história de Moçambique a partir de baixo, em diálogo com o espaço mais amplo da literatura pós-colonial lusófona.
“Das origens multirraciais à formação historiadora: biografia inicial de Lília Momplé”
Lília Momplé nasceu em 1935, na Ilha de Moçambique, província de Nampula, então importante centro administrativo e comercial do colonialismo português no norte do país. A própria autora refere ter uma origem familiar multicultural, combinando raízes macua (africanas), francesas e indianas, o que a colocou desde cedo num cruzamento de línguas, religiões e costumes.Frequentou escolas locais na Ilha de Moçambique e estudou História na Universidade Eduardo Mondlane, em Lourenço Marques (atual Maputo), onde se formou. Posteriormente, lecionou História no ensino secundário em Moçambique e Angola, experiência que moldou o seu olhar sobre personagens marginais e contextos de opressão colonial. Cresceu num ambiente cosmopolita marcado pela diversidade étnica da Ilha de Moçambique, absorvendo tradições macua e oralidade africana, além de influências europeias via família francesa. A vivência do colonialismo tardio – racismo, trabalho forçado e silenciamentos – e o contacto com a luta de libertação da FRELIMO inspiraram as suas narrativas de denúncia, fundindo memória pessoal com história coletiva moçambicana.
“Entre o quadro de aula e o Serviço Social: o percurso profissional de Lília Momplé ao serviço da escrita.”
Lília Momplé combinou uma carreira profissional diversificada com a escrita, usando experiências reais como base para as suas narrativas sobre marginalidade e violência.Após formar-se em História pela Universidade Eduardo Mondlane, lecionou no ensino secundário em Moçambique e Angola durante o período colonial tardio, contactando diretamente com desigualdades sociais e raciais que inspiraram os seus contos. Posteriormente, trabalhou no Serviço Social do Ministério da Justiça em Maputo, lidando com casos de pobreza, violência doméstica e injustiça judicial – temas centrais em Stress e Os olhos da cobra verde. Momplé também ocupou o cargo de Secretária-Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEM), uma posição que lhe permitiu influenciar ativamente o panorama literário e cultural do país. Viajou para a Europa (Suécia, França) e Brasil, onde contactou com diáspora africana e literatura pós-colonial, ampliando a sua visão cosmopolita e facilitando traduções para inglês. Estas vivências no exterior reforçaram a fusão entre história pessoal e coletiva nas suas obras, transformando o Serviço Social e o ensino em “arquivo vivo” para denúncias de opressão colonial e pós-independência.
“Entre a AEMO e a UNESCO: o papel institucional de Lília Momplé na promoção da literatura moçambicana.”
Lília Momplé teve um papel central na Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), articulando a sua intervenção literária com trabalho institucional na defesa da cultura. Entre as décadas de 1990 e 2000, desempenhou cargos de liderança, nomeadamente como secretária-geral e presidente da Mesa da Assembleia-Geral, sendo hoje frequentemente referida como antiga dirigente e membro de referência da associação.No âmbito da AEMO, Momplé defendeu uma visão de ativismo literário em que os escritores se aproximassem das escolas e dos jovens, promovendo encontros, debates e circulação do livro moçambicano. Foi sob a chancela da AEMO, na coleção Karingana, que foram publicadas as suas primeiras obras e as de muitos outros autores, que hoje constituem o cânone da literatura moçambicana pós-independência. A sua atuação coincidiu com a fase de consolidação da literatura pós-independência, ajudando a dar visibilidade a autoras e autores moçambicanos no espaço lusófono. Paralelamente, exerceu funções na área cultural do Estado moçambicano, como dirigente do Fundo para o Desenvolvimento Artístico e Cultural (FUNDAC), e representou Moçambique no Conselho Executivo da UNESCO entre 2001 e 2005. Esta combinação de cargos na AEMO e em organismos públicos reforçou o seu papel como mediadora entre criação literária, políticas culturais e reconhecimento internacional da literatura moçambicana.
“Entre o colonialismo e a guerra civil: temas e estilo na obra literária de Lília Momplé.”
A obra literária de Lília Momplé é relativamente curta em número de livros, mas muito coesa em termos de temas e de posição crítica, articulando colonialismo, guerra, pobreza e género a partir de Moçambique. Publicou sobretudo contos e um romance: Ninguém matou Suhura (1988), sobre violência colonial; Neighbours: The Story of a Murder (1995/1996), romance passado em Maputo em 1985, sob a sombra do apartheid; Os olhos da cobra verde (1997), com contos situados na guerra civil e no pós-Acordo de Paz; e a Antologia de contos (2013), que reúne textos de várias fases da sua escrita.Tematicamente, Momplé centra-se na denúncia da violência colonial (racismo, abuso de poder, exploração sexual), na devastação provocada pela guerra civil e pela ingerência do apartheid sul-africano, e na persistência da pobreza e da injustiça no pós-independência. As protagonistas são frequentemente mulheres pobres, analfabetas ou semi-alfabetizadas, deslocadas ou habitando bairros periféricos, que sofrem violência doméstica, sexual e económica, mas também revelam estratégias de resistência e sobrevivência. A autora trabalha sempre a relação entre história e memória, descrevendo as suas narrativas como “estórias que ilustram a História”, baseadas em factos reais transformados em ficção. Do ponto de vista estilístico, a sua escrita combina um realismo crítico muito forte – cenas de violência, miséria, burocracia, guerra – com elementos simbólicos e poéticos, como a cobra verde, sonhos, presságios e imagens ligadas à tradição e à oralidade africana. O quotidiano (cozinha, quintal, bairro, sala de aula) é o espaço preferencial onde se inscrevem as grandes forças históricas, mostrando como o político invade a vida doméstica. A crítica destaca ainda a multiplicidade de vozes, o uso de narradores próximos das personagens e uma escrita “no feminino”, em que o corpo das mulheres se torna lugar de inscrição da violência, mas também da memória e da resistência na história moçambicana e lusófona.
Lília Momplé no Cânone Lusófono: Paralelos com Noémia de Sousa e Paulina Chiziane
Lília Momplé inscreve-se hoje como figura central do cânone moçambicano e lusófono, frequentemente pensada em diálogo com Noémia de Sousa e Paulina Chiziane. Críticos apontam Momplé como uma das vozes que consolidam a escrita feminina em Moçambique, a par de Noémia de Sousa (poesia de resistência anticolonial) e Paulina Chiziane (romance pós-independência e crítica ao patriarcado). A sua obra em prosa, focada na história recente e em personagens subalternas, permite lê-la como ponte entre a geração de luta anticolonial e a geração de revisão crítica do projeto nacional.Tal como Noémia de Sousa, cuja poesia afirma identidade africana e denuncia o racismo colonial, Momplé expõe violência e humilhação sob o colonialismo, mas em registo narrativo (contos e romance). Ambas trabalham a memória da opressão como instrumento de afirmação coletiva, centrando o olhar em sujeitos negros marginalizados e em experiências de dor e resistência. Com Paulina Chiziane, Momplé partilha a atenção à condição feminina moçambicana, à poligamia, à violência doméstica e à tensão entre tradição e modernidade. Enquanto Chiziane explora sobretudo o romance, com narrativas mais extensas e marcadamente orais, Momplé concentra-se no conto e no romance curto, mantendo um forte vínculo com factos reais e com a guerra civil, o apartheid e o pós-guerra. As três autoras figuram hoje em estudos de literatura africana de língua portuguesa como referências incontornáveis para pensar colonialismo, nacionalismo, género e pós-colonialidade. Em conjunto, contribuem para deslocar o centro do cânone lusófono, trazendo para o primeiro plano vozes femininas africanas que reescrevem a história oficial a partir da experiência negra, popular e feminina.
“Violência e silenciamento em ‘Ninguém matou Suhura’, de Lília Momplé”
Ninguém Matou Suhura (1988) é a primeira obra de Lília Momplé, uma coletânea de cinco contos que funcionam como “estórias que ilustram a História” do colonialismo português em Moçambique e Angola, entre 1935 e 1974.O livro é composto por cinco contos que se passam na Ilha de Moçambique e em Angola, num período que vai da década de 1930 até à véspera da independência. Cada história articula o colonialismo com violência, exploração do trabalho, segregação racial e opressão do corpo feminino, mostrando como o poder colonial destrói vidas e dignidade. A autora utiliza a literatura como uma ferramenta crítica para reavivar a memória social e denunciar as arbitrariedades colonialistas. Este conto-título é passado na Ilha de Moçambique e centra-se na história de Suhura, uma jovem moçambicana de 15 anos, órfã, analfabeta e extremamente pobre. Ela é forçada a ir à casa do Senhor Administrador (representante do poder colonial português), onde é violentada sexualmente e acaba por morrer durante a agressão.
“Violência e silenciamento em ‘Ninguém matou Suhura’, de Lília Momplé”
O título é irónico: o Senhor Administrador e o sistema colonial fingem que “ninguém matou Suhura”, mas a narrativa mostra que foi a violência colonial, racista e patriarcal que a matou. A morte de Suhura simboliza a morte física e simbólica do povo colonizado, cuja vida e direitos são sistematicamente negados pelo colonialismo. O conto expõe a "cultura do silêncio" que vigorava sob o regime, onde a impunidade do opressor era garantida.A obra teve um impacto significativo na literatura moçambicana e pós-colonial lusófona, sendo frequentemente estudada como um importante testemunho ficcional da história moçambicana recente. A mestria narrativa de Momplé valeu-lhe o Prémio Caine para Escritores Africanos em 2001 com o conto "O baile de Celina", também incluído nesta coleção. Além disso, o conto "Caniço" (igualmente parte desta obra) recebeu o 1º Prémio de Novelística no Concurso Literário do Centenário da Cidade de Maputo. As análises académicas destacam como a obra dialoga com a realidade e a ficção, oferecendo uma perspetiva única sobre as relações de poder e resistência no contexto colonial.
“Vizinhança sob ameaça: apartheid e violência em Neighbours, de Lília Momplé”.
Neighbours: The Story of a Murder, de Lília Momplé, publicado em 1995 (com edição em inglês em 1996), é um romance curto ambientado numa única noite de abril de 1985, em Maputo, Moçambique. A narrativa entrelaça as vidas de três famílias vizinhas, cujas rotinas domésticas são abruptamente atravessadas por uma conspiração política ligada ao regime do apartheid sul-africano.o primeiro lar vive Narguiss com as filhas, preparando o Eid em meio a preocupações familiares quotidianas. Ao lado, Leia e Januário, com a filha pequena, celebram finalmente a conquista de um apartamento após anos de burocracia e esforço. Na casa ao lado, Mena sofre violência conjugal e desconfia dos encontros secretos e do dinheiro do marido Dupont, que acumula dívidas e ressentimentos. As histórias aparentemente independentes convergem num plano de assassínio: agentes do apartheid e colaboradores moçambicanos preparam um atentado contra vizinhos de refugiados do ANC (Congresso Nacional Africano), visando desestabilizar o jovem Moçambique pós-independência. Momplé expõe assim a intrusão do geopolítico no íntimo, mostrando como o terrorismo sul-africano explora divisões locais de classe, raça e oportunismo.
“Vizinhança sob ameaça: apartheid e violência em Neighbours, de Lília Momplé”.
O romance critica a continuidade da opressão sobre as mulheres – Narguiss, Leia e Mena enfrentam pobreza, racismo e patriarcado –, enquanto denuncia as alianças traiçoeiras que sustentam o apartheid na região. Compacto e tenso, o livro ilustra a fragilidade da vizinhança e da nação perante forças externas e internas de destruição.Momplé emprega uma prosa direta, quase jornalística, mas carregada de tensão psicológica, utilizando a técnica de múltiplos pontos de vista para construir um retrato multifacetado da sociedade moçambicana sob pressão. A narrativa, embora curta, é densa e culmina num clímax trágico que sublinha a arbitrariedade da violência política.A obra foi aclamada pela crítica pela sua abordagem corajosa de um período histórico sensível e pela sua capacidade de humanizar o conflito regional. É considerada uma das obras-chave da literatura moçambicana pós-independência, notável pela sua relevância política e pela mestria da autora em criar personagens complexas num espaço narrativo limitado.
“Memória, guerra e vozes femininas em Os olhos da cobra verde, de Lília Momplé”
Os olhos da cobra verde (1997), de Lília Momplé, é uma coletânea de contos que decorrem em Moçambique entre o período imediatamente posterior à independência, a guerra civil e o tempo após o Acordo Geral de Paz de 1992. A autora parte de situações inspiradas em factos verídicos para mostrar como a violência política, a pobreza e as heranças coloniais atravessam a vida quotidiana de pessoas comuns, sobretudo mulheres.No conto que dá título ao livro, “Os olhos da cobra verde”, acompanhamos Vovó Facache, uma mulher idosa que recorda as deslocações forçadas e a precariedade da vida na Mafalala, em Maputo, enquanto a presença simbólica da cobra anuncia mudança e o fim da guerra. A memória individual torna-se um lugar de leitura da história recente de Moçambique, ligando a experiência da velhice, da pobreza e do medo à esperança de paz. Outros contos retomam essa articulação entre intimidade e violência estrutural. Em “Stress”, duas trajetórias cruzam-se de forma trágica: a de uma mulher ligada às elites e a de um professor pobre, expondo desigualdade, injustiça policial e corrupção. Já em “O sonho de Alima”, a protagonista luta pela alfabetização na idade adulta, enfrentando o machismo do marido e de uma comunidade que tenta controlar o corpo e o desejo feminino.
“Memória, guerra e vozes femininas em Os olhos da cobra verde, de Lília Momplé”
Em “Xirove”, um ex-guerrilheiro ligado à RENAMO procura reintegrar-se na aldeia, carregando traumas de guerra e um amor impossível, o que evidencia o difícil retorno à “normalidade” no pós-conflito. Contos como “O baile de Celina” e “Um canto para morrer” abordam racismo, humilhação e desigualdade, muitas vezes a partir do ponto de vista de raparigas e mulheres que experimentam o peso simultâneo de classe, género e herança colonial.Ao longo do livro, Momplé constrói um retrato crítico de um país em reconstrução, onde paz formal não significa fim da violência, mas abertura de um novo espaço de luta por dignidade e direitos. A escrita combina realismo duro com elementos simbólicos (como a cobra, os sonhos, os presságios), reforçando a importância da memória, da oralidade e das vozes femininas na reinterpretação da história moçambicana. A obra é amplamente reconhecida pela crítica pela sua profundidade sociológica e mestria narrativa. Notavelmente, o conto “O baile de Celina”, incluído nesta coletânea, viria a ser o vencedor do prestigiado Prémio Caine para a Escrita Africana em 2001, sublinhando o impacto internacional e a relevância literária de Os olhos da cobra verde.
“Vozes silenciadas: violência e resistência na Antologia de contos (2013), de Lília Moplé”.
Antologia de contos, de Lília Momplé, é uma reunião de narrativas curtas publicada em 2013, em edição da autora em Maputo, com 147 páginas e uma tiragem significativa de 4000 exemplares para o contexto moçambicano. A obra compila contos consagrados baseados em factos reais vivenciados pela autora ou por pessoas próximas. A obra inclui um conto inédito de abertura, “Uma Bala para Sharmilla”, e reúne textos de diferentes fases da carreira de Momplé, anteriormente publicados em livros como Ninguém matou Suhura e Os olhos da cobra verde. Esta compilação abrange temas recorrentes e centrais na sua escrita: a violência colonial, as consequências da pós-independência e da guerra civil, as desigualdades de género e classe, e as estratégias de sobrevivência das mulheres moçambicanas. Os contos reforçam a fusão entre história e ficção, com foco em personagens marginais de Maputo e zonas rurais, denunciando opressões raciais, patriarcais e económicas num Moçambique em reconstrução. A autora usa as vozes femininas, muitas vezes silenciadas, como eixos centrais da narrativa histórica do país. Lançada em 2013, a antologia destaca-se não só pelo número elevado de exemplares, mas também por funcionar como uma obra de referência e divulgação da escrita de Momplé, tornando-a ideal para estudos sobre literatura lusófona africana e pós-colonialismo. A inclusão de material inédito garante a sua relevância tanto para novos leitores como para académicos interessados na evolução da obra da autora.
Influência em Estudos Pós-Coloniais e Prémios Internacionais
Lília Momplé tornou-se uma referência nos estudos pós-coloniais de língua portuguesa, sobretudo pela forma como articula colonialismo, guerra civil, género e memória em Moçambique.A crítica lê Momplé como autora-chave para pensar “memória colonial” e pós-colonialidade a partir de perspetivas femininas e subalternas, em diálogo com teorias de autores como Fanon, Said ou Spivak. Estudos sobre Ninguém matou Suhura, Neighbours e Os olhos da cobra verde analisam como as suas narrativas desmontam discursos oficiais, denunciam violência colonial e pós-independência e dão voz a mulheres pobres, deslocados e ex-combatentes. Por isso, é presença constante em programas universitários de literaturas africanas de língua portuguesa na Europa, nas Américas e no Brasil.
Embora não tenha um “grande prémio” internacional mediático (como um Camões), Momplé recebeu vários reconhecimentos importantes. Em 2001, o seu conto "O Baile de Celina" (integrado na coletânea Os olhos da cobra verde) venceu o prestigiado Prémio Caine para Escrita Africana (Caine Prize for African Writing), um dos mais importantes galardões para a literatura africana.Foi distinguida com outros prémios e homenagens em Moçambique pelo conjunto da obra e, em 2023, recebeu o “Prémio Carreira – Mulher Referência CBA”, em Portugal, pelo seu contributo para a literatura e para a memória histórica moçambicana. A circulação das traduções de Neighbours e de contos em antologias internacionais, reforçada pelo Prémio Caine, consolidou a sua visibilidade académica e crítica fora de Moçambique, tornando-a uma voz incontornável do cânone lusófono pós-colonial.
“Denúncia e memória: a atualidade da obra de Lília Momplé na literatura africana de expressão portuguesa.”
A obra de Lília Momplé tornou-se referência obrigatória na literatura africana de expressão portuguesa, sobretudo pela forma como expõe violência histórica e mazelas sociais a partir de Moçambique. Contributo para a literatura africana em português Momplé ajuda a completar o mapa da literatura moçambicana ao lado de nomes como Noémia de Sousa, Mia Couto e Paulina Chiziane, mas com um foco muito próprio: contos e um romance ancorados em factos verídicos sobre colonialismo, guerra civil e pós-independência. Em livros como Ninguém matou Suhura, Neighbours e Os olhos da cobra verde, dá voz a personagens quase ausentes da história oficial – mulheres pobres, deslocados, ex-combatentes, moradores de bairros periféricos – construindo uma verdadeira contramemória da nação moçambicana.
Embora escritas a partir de contextos específicos (colonialismo tardio, guerra civil, pós-acordo de paz), as histórias mantêm grande atualidade porque dialogam com problemas que continuam a marcar sociedades africanas e lusófonas: desigualdade social, violência contra mulheres, racismo e migrações internas. Por isso, a crítica e a academia continuam a ler Momplé em chave de estudos pós-coloniais e de género, e as suas obras permanecem presentes em currículos universitários e debates sobre memória e justiça social na lusofonia.
“Lília Momplé no audiovisual: de Comédia Infantil a Muhipiti-Alima.”
Lília Momplé participou no filme Comédia Infantil (1997), realizado por Solveig Nordlund. Interpretou Dona Esmeralda, uma personagem secundária num elenco maioritariamente moçambicano, numa produção luso-sueca rodada em Maputo. O filme, baseado no romance sueco homónimo de Helena Nordlund, retrata a guerra civil moçambicana através da história de Nélio, um órfão que perde a família no conflito, misturando realismo duro com elementos mágicos. O filme ganhou prémios em festivais como Créteil e Rotterdam, ampliando a visibilidade de Momplé para além da literatura.
Muhipiti-Alima (1997) é um vídeo-drama curto escrito por Lília Momplé, editado pela PROMARTE em Moçambique. Baseado no conto “O sonho de Alima”, de Os olhos da cobra verde, o roteiro retrata uma mulher de 40 anos na Ilha de Moçambique que luta pelo direito à alfabetização, enfrentando o machismo do marido e da comunidade que tenta controlar o seu corpo e desejo. A narrativa denuncia barreiras à autonomia feminina no contexto pós-colonial, articulando género, educação e tradição.Trata-se de uma produção audiovisual própria da autora, não uma adaptação externa, que reflete o seu ativismo literário e pedagógico em favor da literacia e da voz das mulheres moçambicanas. O formato curto destinava-se provavelmente a circuitos educativos ou culturais locais, alinhando-se com o seu trabalho no Serviço Social e na Associação dos Escritores Moçambicanos.
“Sempre soube que um dia ia escrever, só não sabia quando. Escrevi o ´Ninguém Matou Suhura´ porque eu queria conversar com alguém sobre o que vi e vivi durante aquele tempo. Tinha de me revelar.” confessa Lília Momplé que, nestes tempos, olha para trás e conclui que “esse é um livro a que gostaria que todos, sobretudo os jovens, pudessem ter acesso e o lessem”.