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"Scholastique Mukasonga: Memória, Testemunho e Resistência no Ruanda"

Maria Helena Cabrita Borralho Borralho 2

Created on November 4, 2025

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Transcript

"Scholastique Mukasonga: Memória, Testemunho e Resistência no Ruanda"

20 de dezembro de 1956

Percurso de Vida e Resistência: Da Infância Ruandesa ao Exílio Literário na França

Scholastique Mukasonga é uma aclamada escritora franco-ruandesa, cuja obra literária serve como um poderoso testemunho e memorial do genocídio de 1994 em Ruanda contra a minoria Tutsi. Ela é considerada uma guardiã da memória do seu povo, utilizando a escrita para preservar a história e as experiências vividas durante esse período traumático.A Scholastique Mukasonga nasceu em 1956, na província de Gikongoro, no sudoeste do Ruanda, próxima da floresta de Nyungwe. Filha de uma família tutsi, desde muito cedo sentiu o peso da perseguição no seu país. Com apenas três anos, presencia os primeiros massacres contra os tutsis e, em 1960, a sua família — como tantas outras — é deportada para Nyamata, uma região marcada pelo exílio interno e por condições de extrema privação. Durante a juventude, apesar das cotas discriminatórias que limitavam o acesso dos tutsis à educação (apenas 10% das vagas eram reservadas para esta minoria), Mukasonga frequentou tanto o Liceu de Kigali como uma escola para Assistentes Sociais em Butare. Em 1973, os tutsis seriam definitivamente banidos das escolas do Ruanda. Determinados a garantir que pelo menos uma filha sobrevivesse, os pais criaram Mukasonga a fugir para o Burundi. A jovem atravessou a fronteira a pé, durante a noite, conseguindo concluir aí os seus estudos como assistente social. Exerceu funções junto de comunidades rurais e refugiados no Burundi e, posteriormente, no Djibuti, antes de se fixar em França, em 1992. No novo país, revalidou o diploma e recomeçou a vida enquanto refugiado, marcado pela memória de uma família quase totalmente exterminada no genocídio de 1994. O exílio em França e a perda de quase toda a família no genocídio tutsi marcaram profundamente o seu percurso. Mukasonga transformou essa experiência de dor, exilío e resiliência em literatura de testemunho e de memória, tornando-se uma das vozes mais importantes para a compreensão da história ruandesa contemporânea

Memória Ferida: O Genocídio de 1994 na Vida e Escrita de Scholastique Mukasonga

O genocídio de 1994 teve um impacto devastador na vida da Scholastique Mukasonga e de sua família. Durante pouco mais de três meses, entre abril e julho, cerca de 800.000 a 1.000.000 de tutsis foram assassinados em Ruanda num dos maiores massacres do século XX. Nessa tragédia, Mukasonga perdeu praticamente toda a família: pais, irmãos, sobrinhos e muitos outros familiares. Sobreviveram apenas ela e um irmão, já exilados fora do país.Viver na França, distante da terra natal e assolado pela dor da memória, transformou-se num enorme desafio emocional. Mukasonga passou a velar os “seus mortos” através da escrita, nomeando cada familiar perdido, tentando reconstituir rostos e memórias apesar de não ter nem sequer uma sepultura onde os prantear. Como confessa nos seus livros, o genocídio tornou-se um fantasma diário: "Fecho os olhos, será mais uma noite sem dormir. Tenho tantos mortos a velar".​ A literatura de Mukasonga nasce desse trauma, marcada pelo dever da memória e pelo compromisso de manter viva a história da família e do povo tutsi. Ao transformar a dor em testemunho literário, ela faz das suas obras um exercício de resistência ao apagamento e ao esquecimento coletivo — tornando-se, assim, uma das principais vozes para a compreensão do genocídio ruandês e da experiência do exílio.

"Não me resta nada a não ser a lancinante recriminação de estar viva em meio a todos os meus mortos."

O Túmulo de Papel: A Escrita como Ativação da Memória e Resistência ao Esquecimento

A decisão da Scholastique Mukasonga escreveu como um verdadeiro ato de sobrevivência, memória e homenagem aos que desapareceram no genocídio ruandês. Para a autora, a escrita é um “túmulo de papel”: um espaço simbólico onde pode velar, nomear e dar existência familiares a cujos corpos jamais poderão sepultar.Nos seus livros, como Inyenzi ou as Baratas, ela regista nomes e memórias dos parentes perdidos, afirmando: "Fecho os olhos, será mais uma noite sem dormir. Tenho tantos mortos a velar". Mukasonga confessa o peso de viver com a dor de uma perda irreparável — dor que é, ao mesmo tempo, pessoal e coletivo, pois partilhado por todos os sobreviventes do genocídio tutsi. A sua escrita nasce do trauma e da necessidade de resistir ao esquecimento: "Nunca teria sido escritora se não tivesse acontecido o genocídio dos tutsis em Ruanda. Esse acontecimento fez de mim uma escritora. Eu tinha um dever de memória a transmitir". Assim, os seus livros funcionam como um legado e um ritual: nela, cada nome escrito é uma afirmação da existência, uma recusa a esquecer e um apelo para que as futuras gerações se tornem também guardiãs desta memória

“Choro enquanto copio e torno a copiar os nomes de todos os familiares mortos num caderno, os muitos mortos que tenho de velar e que, mesmo que os desejavam visitar, não conseguiria encontrar.”

Memória, Identidade e Resistência: Temas Fundamentais na Literatura de Scholastique Mukasonga

A escrita de Scholastique Mukasonga é profundamente marcada por um compromisso com a memória e o testemunho da história do povo tutsi e do genocídio que devastou Ruanda em 1994. O primeiro tema central é o Testemunho e a Memória , que se manifesta na preservação das histórias de famílias e comunidades destruídas, combatendo o esquecimento através da palavra escrita. Mukasonga edifica, com as suas obras, um "túmulo de papel", um espaço simbólico de homenagem a quem não teve sepultura física.Outro tema fundamental é a Identidade Cultural Ruandesa , que a autora valoriza com destaque para as tradições, rituais, objetos e a vida cotidiana tutsi. A sua escrita recupera e preserva esse património cultural num quadro de destruição e ruptura causada pelo genocídio. O Trauma e a Perda atravessam toda a sua obra, trazendo uma reflexão íntima e dolorosa sobre a ausência dos entes queridos, o impacto do exílio e o luto sem lugar de descanso para os mortos. Mukasonga trabalha não apenas a experiência pessoal, mas o sofrimento coletivo que marca Ruanda e a diáspora tutsi. Por fim, a obra destaca a Condição Feminina , sobretudo pela figura materna, símbolo de resistência, cuidado e transmissão intergeracional. As mulheres são retratadas como pilares da sobrevivência cultural e afetiva, suportando o peso da violência e da sobrevivência da memória. Esses temas, articulados de forma sensível e intensa, fazem de Scholastique Mukasonga uma voz literária essencial no panorama da literatura africana contemporânea e da preservação da memória histórica de Ruanda.

“Os assassinos quiseram apagar até suas lembranças, mas no caderno escolar que nunca me deixa, registrar seus nomes, e não tenho pelos meus e por todos aqueles que pereceram nada além desse túmulo de papel”.

Memória, Identidade e Resistência: Os Temas Fundamentais da Trilogia do Genocídio de Ruanda

A Trilogia do Genocídio de Ruanda, escrita por Scholastique Mukasonga, reúne três das suas principais obras publicadas pela Editora Nós: Baratas, A Mulher de Pés Descalçose Nossa Senhora do Nilo.Esses livros são representativos de um conjunto literário que testemunha o genocídio tutsi de 1994 e seus efeitos devastadores na vida do autor, de sua família e do povo ruandês. A trilogia aborda a memória coletiva, a identidade cultural, o trauma, a perda e a condição feminina durante e após o genocídio, funcionando como um "túmulo de papel" que guarda a história daqueles que foram assassinados. Mukasonga usa a escrita para preservar a memória, resistir à desumanização e afirmar a dignidade dos seus semelhantes. A autora expõe a desumanização sofrida pelo povo tutsi, reforça a importância da preservação da cultura e da história do seu povo, e aborda a dor pessoal e coletiva atravessada pelo exílio, pela ausência de túmulos físicos, e pelo indiretamente luto. A figura feminina surge como símbolo de resistência, cuidado e transmissão da memória e valores culturais, especialmente através da homenagem à mãe e às mulheres de sua comunidade. A trilogia é, assim, um conjunto literário que transcende o relato histórico para se tornar um espaço de resistência cultural e política contra o esquecimento.

“O que aconteceu no Ruanda foi um genocídio entre vizinhos”

Inyenzi ou as Baratas: Um Túmulo de Papel contra a Desumanização e o Esquecimento

Inyenzi ou as Baratas é o primeiro livro publicado por Scholastique Mukasonga, em 2006, e uma das obras mais cruas e importantes do seu ciclo de testemunho sobre o genocídio de 1994 no Ruanda.O título é profundamente simbólico e doloroso. "Inyenzi" é o termo pejorativo e desumanizante ("baratas" ou "ratazanas") usado pelos Hutus extremistas para se referirem aos Tutsis, um passo crucial na retórica de ódio que facilitou o genocídio. Ao usar este termo no título, a autora confronta diretamente essa desumanização. Nesta obra, Mukasonga faz um relato autobiográfico de sua infância e juventude em Ruanda, descrevendo a escalada da violência, o exílio, a perda quase total de sua família e a luta pela sobrevivência física e cultural. "Inyenzi ou as Baratas" representa uma carta de amor ferida, um memorial literário e um testemunho feroz contra o esquecimento. A autora usa a escrita para proteger e nomear aqueles que foram assassinados, resistindo à destruição de sua identidade e história.

"Fecho os olhos, será mais uma noite sem dormir. Tenho tantos mortos a velar."

A Mulher de Pés Descalços: Memória, Resistência e Legado Feminino em Ruanda

A Mulher de Pés Descalços (La Femme aux pieds nus, no original em francês) é um livro de memórias comovente e poderoso da escritora franco-ruandesa Scholastique Mukasonga, publicado em 2008 e traduzido para português em 2017. Neste livro, a autora presta homenagem à mãe, Stefania, uma mulher tutsi cuja vida foi marcada pela resiliência, pelo cuidado familiar e pela luta silenciosa diante da violência e da pobreza causadas pela discriminação em Ruanda. A narrativa mistura memórias pessoais, retratos da infância, proteção de objetos — como colheres, tecidos e utensílios domésticos — e cenas da vida cotidiana, elevando cada gesto quotidiano a símbolo de resistência, memória e dignidade. Mukasonga construiu, através da literatura, um “túmulo de papel” para a mãe e todos os familiares mortos, já que não poderia velá-los no espaço físico, e reflexões sobre a experiência do exílio, o trauma do genocídio e o papel da mulher ruandesa na transmissão cultural. “A Mulher de Pés Descalços” é reconhecida como um testemunho profundo sobre o sofrimento, a força e a herança feminina, sendo considerada uma referência da literatura sobre o genocídio tutsi e a história ruandesa contemporânea.

"Não tenho túmulo algum onde depositar uma flor para minha mãe. O único túmulo que posso lhe oferecer é este livro."

Nossa Senhora do Nilo: Identidade, Violência e Resistência no Pré-Genocídio Ruandês

Nossa Senhora do Nilo (Notre-Dame du Nil no título original francês) é um romance aclamado de Scholastique Mukasonga, publicado em 2012, que lhe valeu o prestigiado Prémio Renaudot e o Prémio Ahmadou-Kourouma no mesmo ano.O livro Nossa Senhora do Nilo é um romance de Scholastique Mukasonga que se passa num liceu para meninas situadas nas montanhas da bacia do Congo e do Nilo, em Ruanda. A narrativa aborda a vida das internacionais num contexto marcado por minorias étnicas e sociais anteriores ao genocídio de 1994. A escola tem uma política de cotas que restringe vagas para alunas tutsis, evidenciando o preconceito institucional. No internacional, os jovens lidam com conflitos entre valores tradicionais ruandeses e a moral “civilizada” imposta pelas missões europeias, numa época em que a história africana é quase apagada ou reescrita por uma perspectiva eurocêntrica. O romance é visto como uma ficção baseada em episódios reais, sendo uma crítica à colonização, às divisões raciais e à construção do ódio que preparou o genocídio. Mukasonga analisa os impactos dessas forças sobre a identidade cultural, das mulheres e da juventude ruandesa, oferecendo um retrato profundo dos dilemas e desafios desse período histórico.

"Construí um túmulo de papel. As palavras me permitiram dar uma sepultura aos meus mortos."

"L'Iguifou: Fome, Resistência e Memória da Mulher Tutsi no Cerco do Genocídio"

L'Iguifou é um livro de contos (ou "nouvelles rwandaises", como referido no subtítulo original) de Scholastique Mukasonga, publicado em 2010, é uma obra que retrata o sofrimento dos refugiados tutsis na região de Nyamata, em Ruanda, enfrentando fome e condições extremas durante o cerco militar antes do genocídio. Uma narrativa centrada nas estratégias de sobrevivência da mãe da autora, Stefania, e sua família, descrevendo a luta pela preservação da cultura, dos costumes e da dignidade em meio à perseguição, ao exílio imposto e à desestruturação social causada pela colonização e pelo genocídio.A obra, cujo título se refere a uma palavra em Kinyarwanda (igifu) que pode significar tanto "fome" quanto "útero", é uma coletânea de histórias que continuam a explorar os temas centrais da autora: a memória do Ruanda pré e pós-genocídio, o exílio, a perda e a resiliência do povo Tutsi. L'Iguifou complementa as memórias e o romance anteriores da autora (Baratas e A Mulher de Pés Descalços), aprofundando o testemunho da experiência ruandesa através de narrativas curtas e impactantes. A obra foi galardoada com o Prémio Renaissance de la Nouvelle em 2011.

“O espelho, quase ausente daquele universo, era lembrado como um objeto de desejo e gravação, símbolo das pequenas ausências quotidianas: 'Mas como é que a gente fazia para saber se era bonita sem um espelho?'

Vozes das Colinas: Tradição, Memória e Identidade na Literatura Ruandesa de Scholastique Mukasonga

Ce que murmurent les collinesé um livro de 2014 da Scholastique Mukasonga. Trata-se de um conjunto de seis novas ruandesas que exploram as tradições orais, a cultura e o cotidiano da Ruanda pré-colonial e colonial, tendo como pano de fundo a história e as pesadas do país. A obra é a primeira da autora que não aborda diretamente o genocídio de 1994, mas esse evento permanece presente em segundo plano, principalmente na questão da busca da identidade perdida e da memória cultural. Mukasonga resgata vislumbres da sua infância e juventude, utilizando histórias aparentemente simples para pintar um quadro complexo da sociedade ruandesa antes do seu colapso. Vários contos abordam a forma como as potências coloniais e os missionários impuseram a sua visão do mundo, desrespeitando e, por vezes, destruindo tradições locais vitais. Mukasonga utiliza uma linguagem delicada e evocativa para descrever a beleza dos costumes e das paisagens, criando um contraste doloroso com a inevitável destruição que se abateu sobre o seu povo. O livro foi premiado pela Société des gens de lettres em 2015 e recebeu críticas positivas pela profundidade temática e riqueza estilística, destacando o papel das mulheres na transmissão da cultura ruandesa.

"Mitologias da Resistência: A Cultura Ruandesa em Kibogo de Scholastique Mukasonga"

Kibogo é um romance de Scholastique Mukasonga, publicado em 2020 (e já com edição em português do Brasil pela Editora Nós, sob o título Kibogo subiu ao céu).Diferente das suas obras mais diretamente autobiográficas sobre o genocídio de 1994, Kibogo recua no tempo, até às décadas de 1940 e 1950, para explorar as raízes históricas e culturais dos conflitos e da subjugação colonial no Ruanda. A narrativa centra-se no confronto entre as crenças ancestrais ruandesas e o catolicismo imposto pelos missionários europeus. O livro Kibogo de Scholastique Mukasonga é uma narrativa que mistura sátira, memória viva e folclore, explorando o confronto entre as antigas crenças ruandesas e o cristianismo trazido pelos missionários europeus. A história gira em torno de um padre rebelde que tenta fundir os evangelhos com o martírio de Kibogo, o que provoca uma disputa feroz entre crenças tradicionais e religiosas. A escrita do autor é marcada por uma linguagem elegante e por uma profundidade que revela uma complexa intersecção entre mito, fé e história, retratando a luta cultural das ruandeses frente à colonização e à imposição de novas doutrinas.

"Quando você esquece, está matando as vítimas uma segunda vez"

"Irmã Débora: Fé, Resistência e Identidade Feminina no Ruanda Colonial"

O livro Irmã Débora de Scholastique Mukasonga é uma novela que se passa na Ruanda dos anos 1930, durante o domínio colonial belga, quando um grupo de missões evangélicas afro-americanas chega ao país trazendo consigo a figura de Irmã Deborah, uma curandeira espiritual carismática e profética. A narrativa explora o choque entre as tradições religiosas africanas e a imposição do cristianismo colonial, destacando a influência e o poder da personagem central, que representa uma força feminina e espiritual poderosa.A obra aborda temas de sincretismo religioso, resistência cultural, e os impactos da colonização na sociedade ruandesa, com grande riqueza simbólica e crítica à dominação colonial e às normas patriarcais. A história é narrada em parte pela jovem Ikirezi, uma menina da aldeia que encontra inspiração na Irmã Débora, e em parte pela própria Irmã Débora, que mais tarde se transforma numa curandeira tradicional no Quénia. "Sister Deborah" é reconhecida pela sua complexidade, misturando o mítico, o histórico e o espiritual, e foi recebida com elogios por sua escrita envolvente e sua maneira de dar voz às mulheres africanas num período tumultuado.O romance Sister Deborah, foi publicado pela primeira vez em francês em 2022 e a edição em inglês foi lançada em 2024.

Um belo diploma: Educação, Memória e Resistência na Trajetória de Scholastique Mukasonga

O livro Um belo diploma de Scholastique Mukasonga foi publicado originalmente em francês em 2019, com o título Un beau diplôme que reflete sobre o poder transformador da educação e a busca por um futuro seguro face à ameaça do genocídio ruandês. É um livro autobiográfico da Scholastique Mukasonga. Nele, o autor narra sua própria trajetória marcada pelo exílio devido às repressões étnicas em Ruanda e sua luta determinada para conseguir obter um diploma, que se torna símbolo de esperança e sobrevivência em meio à adversidade. A obra é contada com estilo fluido, carregada de humor e fantasia, e reflete a importância da educação como uma luz que guia o autor diante do sofrimento, da perda e da inclinação forçada. É um relato íntimo e inspirador sobre resistência, família e a busca por um futuro melhor.

"Parte da condição humana é sempre haver alguém para construir e um outro para destruir. Eu escrevo sobre coisas trágicas e terríveis. Mas são essas coisas que também podem servir para acordar as pessoas quando elas estão quase dormindo achando que está tudo bem."

"A construção da identidade e a memória do exílio em A Book of My Own, de Scholastique Mukasonga"

A Book of My Own é uma obra de Scholastique Mukasonga, publicada originalmente em 2023, que reflete sobre a experiência do exílio e a construção da identidade através da escrita.O livro trata da experiência do exílio, migração refletindo sobre a construção da identidade pessoal e cultural em meio à perda e ruptura. Mukasonga aborda a memória como instrumento de resistência e dignidade, enfatizando a importância de preservar as histórias e heranças daqueles que sofreram genocídio e deslocamentos provocados. A obra mistura prosa com poesia e reflexão conceitual, expondo as emoções complexas da autora diante das adversidades da vida, da esperança e do reencontro consigo mesma. Também articula a urgência da escrita como forma de manter viva a humanidade e a história do seu povo.

"Se calhar, no fundo, o que quero mesmo é um lugar onde nunca mais me sinta estrangeira."

A frase espelha a dor e a esperança de quem perdeu tudo e anseia, acima de tudo, por um porto seguro, seja ele físico ou metafórico.

"Mulher, Educação e Resiliência: A Luta dos Tutsis e o Protagonismo Feminino na Obra de Scholastique Mukasonga"

Scholastique Mukasonga, sobrevivente do genocídio de 1994, que dizimou a sua família, vive exilada em França desde 1992. O acesso à educação para os tutsis foi historicamente restringido por cotas discriminatórias, e a própria Mukasonga foi expulsa da universidade devido a essa perseguição étnica, tendo continuado os estudos no exílio.Nas suas obras, sobretudo em A Mulher de Pés Descalços, destaca o papel central da mulher como guardiã da memória e da resistência cultural ruandesa, tendo a sua mãe Stefania como figura emblemática dessa luta. A escrita de Mukasonga nasce da urgência de preservar a memória das vítimas do genocídio e de um povo quase apagado, usando a literatura como forma de ativismo social. Além disso, sua carreira como assistente social colocou em contato direto com comunidades traumatizadas, influenciando sua vocação literária. Para ela, a literatura é a extensão do seu trabalho social: dar voz aos silenciados, preservar histórias e lutar contra o esquecimento. Este prisma, que une mulher, educação e protagonismo social, é central para compreender sua vida e obra, pois a educação foi um meio de sobrevivência e resistência, as mulheres foram protagonistas na manutenção da identidade cultural, e a escrita tornou-se o seu palco de ativismo social.

"Scholastique Mukasonga: Prémios Literários, Memória Cultural e Voz de Ruanda no Mundo"

A obra de Scholastique Mukasonga transcendeu as fronteiras do testemunho pessoal para alcançar um reconhecimento global significativo, consolidando o seu papel como a principal "voz de Ruanda no mundo" na literatura contemporânea. Este protagonismo é sublinhado por diversos prémios literários e pela adaptação de um dos seus romances ao cinema. A qualidade literária e a importância histórica da escrita de Mukasonga foram reconhecidas com várias distinções importantes: Prémio Renaudot (2012): este foi um dos momentos cruciais da sua carreira. Mukasonga venceu o prestigiado prémio francês pelo seu romance Nossa Senhora do Nilo (Notre-Dame du Nil); Prémio Ahmadou-Kourouma (2012): também por Nossa Senhora do Nilo, um prémio que honra a literatura africana; National Book Award (EUA): várias das suas obras foram finalistas para o National Book Award for Translated Literature, como Kibogo (2022); Prémio Simone de Beauvoir para a Liberdade das Mulheres (2021): Um reconhecimento da forma como a sua escrita aborda a opressão e a resiliência das mulheres, especialmente no contexto ruandês; O Prémio Renaissance de la Nouvelle (2011), recebido por L'Iguifou, é mais uma das distinções que sublinham a importância e a qualidade da escrita de Scholastique Mukasonga.

"Scholastique Mukasonga: Prémios Literários, Memória Cultural e Voz de Ruanda no Mundo"

A adaptação cinematográfica do seu romance Nossa Senhora do Nilo (ainda recente) tem contribuído para aproximar um público mais vasto do contexto histórico de Ruanda, do genocídio e das questões sociais retratadas no livro, ampliando o impacto cultural e educacional de sua narrativa. Além da literatura e do cinema, Mukasonga exerce um papel crucial como porta-voz de Ruanda no mundo, utilizando a escrita e a palavra pública para preservar a memória do genocídio, dar visibilidade às vítimas e promover a reflexão sobre justiça, reconciliação e diversidade cultural. Sua voz literária representa a resistência e a resiliência de um povo, alicerçada na força da cultura oral e escrita, e num compromisso profundo com a dignidade humana e a justiça social.

"Éramos baratas e só tínhamos um direito, o de morrer."

"Scholastique Muk asonga: Entre Palcos Literários e Lutas pelos Direitos Humanos e Liberdade das Mulheres "

A Scholastique Mukasonga tem uma presença ativa em eventos literários internacionais, onde não só promove a sua obra, mas também participa em debates fundamentais sobre os direitos humanos e a liberdade das mulheres. Ela é frequentemente convidada para palestras, mesas redondas e festivais literários que abordam o genocídio, a memória histórica e a permanência social em Ruanda.A sua intervenção nestes eventos destaca a importância da literatura como ferramenta de denúncia, educação e transformação social, especialmente no que toca à luta por justiça e igualdade. Mukasonga defende a valorização do papel da mulher como agente de mudança, tanto nas comunidades ruandesas quanto no panorama global. Com o seu testemunho, ela contribui para amplificar a voz das vítimas do genocídio e das mulheres, promovendo a reflexão crítica sobre violência, direitos humanos e igualdade de género.Este compromisso com causas sociais está intrinsecamente ligado à sua produção literária e ao seu trabalho como ativista cultural, fazendo dela uma referência vital na contemporaneidade africana e mundial.

"Os livros eram as campas de papel que eu tinha de construir."

Memória e Resistência em Ruanda: Entrevistas, Cinema e Histórias do Genocídio

Uma das obras de Scholastique Mukasonga foi adaptada ao cinema: o romance Nossa Senhora do Nilo (Notre-Dame du Nil). O romance Nossa Senhora do Nilofoi adaptado para o filme homónimo dirigido por Atiq Rahimi, uma coprodução franco-belga-ruandesa. O filme aborda as origens do genocídio em Ruanda, retratando o ambiente tenso e as divisões étnicas numa escola para meninas na região das montanhas do Nilo durante os anos que antecederam o genocídio de 1994. A adaptação é bastante fiel ao livro, destacando questões de identidade, violência, colonização e resistência.

“Mãezinha, eu não estava lá para cobrir o seu corpo, e tenho apenas palavras – palavras de uma língua que você não entendia – para realizar aquilo que você me pediu. E estou sozinha com minhas pobres palavras e com minhas frases, na página do caderno, tecendo e retecendo a mortalha do seu corpo ausente.”, in livro A Mulher de Pés Descalços

“O genocídio é algo que se prepara a longo prazo. Por isso, eu não escrevo sobre o genocídio como um evento brutal que caiu do céu, mas sobre o longo prazo, durante mais de 30 anos”

Scholastique Mukasonga respondendo à pergunta do cientista político Sérgio Abranches durante a principal mesa do 13° FliAraxá, com o jornalista e escritor Jamil Jamil Chade

"Tinham-me envergonhado das cores da minha pele (não escura o suficiente para os gostos deles), do meu nariz (muito reto, diziam), e do meu cabelo (com muito volume)."