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Carolina Beatriz Ângelo

Francisco Cruz

Created on November 3, 2025

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Geografia e Género num Contexto Global

Carolina Beatriz Ângelo

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Porquê o lilás?

Curiosidade: A cor lilás está associada à luta das mulheres pela igualdade e pelo direito ao voto, simbolizando dignidade, coragem e justiça. A suavidade do tom esconde uma força profunda, a mesma que moveu tantas mulheres a erguerem a voz contra a desigualdade. Em Portugal, esta força encontra expressão em Carolina Beatriz Ângelo que se tornou a primeira mulher a votar no país. A determinação, a inteligência e o espírito de mudança que caracterizaram a sua vida refletem os valores representados pelo lilás.

Jane 's Walk

O presente trabalho aborda a Jane’s Walk, um movimento global de passeios urbanos gratuitos realizados anualmente no primeiro fim de semana de maio, desde 2007. Criada em homenagem a Jane Jacobs (1916–2006), a iniciativa promove caminhadas que vão além do simples passeio: são momentos de diálogo, partilha e descoberta das dinâmicas sociais dos bairros, fortalecendo laços comunitários e incentivando uma cidade mais humana e participativa. A inspiração vem da obra The Death and Life of Great American Cities (1961), na qual Jacobs criticou os modelos de renovação urbana centrados no automóvel, defendendo uma visão inclusiva da cidade, baseada na diversidade de usos, na mistura social e na vitalidade das ruas. O movimento nasceu em Toronto, onde Jacobs viveu a partir de 1968, e expandiu-se rapidamente para mais de 500 cidades em cerca de 40 países. As caminhadas, conduzidas por voluntários — moradores, arquitetos, ativistas, artistas ou estudantes — promovem a observação crítica do território, a partilha de histórias locais e a reflexão sobre a forma como se habita e transforma a cidade. Em Lisboa, as Jane’s Walk têm ganho destaque como espaços de cidadania e reflexão urbana, organizadas por várias entidades, incluindo a associação Mulheres na Arquitetura (MA), que aborda temas como equidade de género, gentrificação, acessibilidade e participação comunitária.

A evolução do papel da mulher na política: da exclusão à participaçãoO papel da mulher na política na Antiguidade

Na Grécia Antiga, particularmente em Atenas, considerada o berço da democracia, a participação política era privilégio de uma minoria: homens adultos, atenienses de nascimento e proprietários de terras. Mulheres, escravos e estrangeiros estavam totalmente excluídos da pólis e das decisões públicas (Katz, 2003; Franklin, 2023). As mulheres gregas viviam confinadas ao espaço doméstico (oikos), dedicadas à educação dos filhos e à gestão da casa. Eram vistas como seres inferiores, incapazes de razão política. Filósofos como Aristóteles defendiam que a mulher tinha uma natureza subordinada, destinada a ser governada e não a governar. Essa visão refletia-se nas leis e costumes que sustentavam o poder masculino, especialmente em Atenas, onde o kyrios (chefe de família) detinha autoridade total sobre as mulheres, tanto na vida privada como na pública. (Katz, 2003; Franklin, 2023).

Apesar dessas limitações, algumas mulheres conseguiram destacar-se e exercer influência política, ainda que de forma indireta. Diotima de Mantineia, sacerdotisa respeitada por Sócrates, e Aspásia de Mileto, companheira de Péricles, demonstraram que, mesmo num mundo dominado pelos homens, havia mulheres com voz e capacidade de intervenção (Franklin, 2023). Assim, embora a mulher na Grécia Antiga fosse excluída da vida política formal e tratada como um ser inferior, a sua presença, discreta, simbólica e por vezes subversiva, revela tentativas de participação e resistência num sistema que lhe negava cidadania e voz (Franklin, 2023).

A evolução do papel da mulher na política: da exclusão à participaçãoO papel da mulher na política na Antiguidade

Na Roma Antiga, a situação era semelhante. As mulheres não eram consideradas cidadãs plenas e, por isso, não podiam votar, ser eleitas ou exercer cargos públicos. A sua posição social estava sempre vinculada à figura masculina (pai, marido ou tutor) no âmbito do sistema do pater familias. Ainda assim, algumas mulheres da elite romana, como Lívia Drusa, esposa do imperador Augusto, ou Cornélia, mãe dos irmãos Graco, exerceram influência política indireta, sobretudo através dos homens da sua família. Essa influência, no entanto, não lhes concedia poder institucional, apenas prestígio e capacidade de aconselhar ou interceder nos bastidores da vida pública (Sousa, 2012). Em síntese, tanto na Grécia como em Roma, a mulher foi mantida à margem da política formal. A sua atuação limitava-se à esfera privada e ao papel social definido pelos homens, mas, através da inteligência, da retórica e das relações familiares, algumas conseguiram deixar marcas subtis na história política da Antiguidade.

A evolução do papel da mulher na política: da exclusão à participaçãoO Papel da Mulher na Política Medieval

Durante a Idade Média, o poder político estava fortemente associado à Igreja e à nobreza. A sociedade feudal era patriarcal e marcada por discursos misóginos que consideravam a mulher inferior e pecadora. A doutrina cristã reforçava a ideia de que a mulher devia ser submissa e recatada, dedicada à vida familiar ou religiosa, mantendo o espaço público e político amplamente monopolizado pelos homens (Nascimento, 1997). Neste contexto, o papel da mulher na política era muito limitado. Apenas algumas mulheres nobres, como rainhas, senhoras feudais e abadessas (freiras ou mulheres que viviam em mosteiros), conseguiam intervir indiretamente na gestão do poder, sobretudo na ausência dos maridos/reis ou em períodos de crise. Através do casamento, asseguravam alianças estratégicas entre reinos e famílias, desempenhando funções importantes na manutenção e consolidação do poder. Além disso, quando os maridos partiam para a guerra ou para as cruzadas, as mulheres nobres eram frequentemente quem governava os feudos, cobravam impostos, resolviam disputas e comandavam servos, demonstrando grande capacidade de liderança (Nascimento, 1997). Paralelamente, nos séculos XII e XIII, nos reinos de Leão e Castela, muitas mulheres da nobreza fundaram mosteiros cistercienses femininos que se tornaram centros de poder e autonomia. Neles, as abadessas exerciam autoridade feudal, administravam terras, realizavam transações económicas e participavam na vida social, mantendo contacto com o mundo exterior e resistindo à clausura total. (Nascimento, 1997).

Assim, apesar das limitações impostas pela sociedade patriarcal e pelas doutrinas religiosas, muitas mulheres conseguiram agir e intervir na sua época. A Idade Média não deve ser vista apenas como um período de submissão feminina, mas também como uma época em que algumas mulheres se afirmaram como protagonistas da história, exercendo influência económica, social e política (Nascimento, 1997).

A evolução do papel da mulher na política: da exclusão à participaçãoA Idade Moderna: os primeiros sinais de mudança

Os primeiros sinais de mudança no papel da mulher na política surgem durante o Renascimento e o Iluminismo, a Europa atravessou uma profunda transformação intelectual, valorizando a razão, a ciência e a liberdade individual. Estes movimentos fomentaram debates sobre direitos humanos, igualdade e justiça social, dando origem na Revolução Francesa de 1789, cujo lema era “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Contudo, apesar desses ideais, as mulheres foram explicitamente afastadas da cidadania e dos direitos políticos, o que gerou grande descontentamento entre pensadoras e ativistas da época (BBC News Brasil, 2022). Foi neste contexto que surgiu Olympe de Gouges, uma das primeiras vozes feministas modernas. Em 1791, ela escreveu a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, respondendo diretamente à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. No texto, Olympe denunciava a hipocrisia revolucionária, que proclamava a igualdade enquanto mantinha as mulheres subordinadas, e reivindicava direitos fundamentais, como o voto, a educação, o trabalho, a propriedade e a participação política (BBC News Brasil, 2022).

A evolução do papel da mulher na política: da exclusão à participaçãoA Idade Moderna: os primeiros sinais de mudança

Alguns dos artigos mais significativos da sua declaração incluem: Artigo 4°: “A liberdade e a justiça consistem em devolver tudo o que pertence ao outro; assim, o exercício dos direitos naturais da mulher somente é limitado pela tirania perpétua imposta pelo homem. Esses limites devem ser reformados pelas leis da natureza e da razão.” (Gouges, 1791, p. 3) Artigo 6°: “[...] todas as cidadãs e todos os cidadãos, por serem iguais aos seus olhos [da lei], devem ser igualmente admissíveis em todas as funções honoríficas, cargos e empregos públicos, segundo suas capacidades e sem outras distinções além das suas virtudes e talentos.” (Gouges, 1791, p. 3) Artigo 10°: “Ninguém deve ser penalizado pelas suas opiniões, incluindo as fundamentais. Se a mulher tem o direito de subir ao cadafalso, ela deve ter também o direito de subir à tribuna, desde que suas manifestações não alterem a ordem estabelecida por lei.” (Gouges, 1791, p. 3) A coragem de Olympe de Gouges custou-lhe a vida: foi executada na guilhotina em 1793, mas o seu legado permanece como um símbolo duradouro do feminismo moderno e da luta pela igualdade de género (BBC News Brasil, 2022).

A evolução do papel da mulher na política: da exclusão à participaçãoA Idade Moderna: os primeiros sinais de mudança

A luta pelo direito ao voto e pela igualdade jurídica foi uma constante na história do feminismo, estendendo-se ao longo dos séculos. Essa luta deu origem à primeira onda do feminismo, desenvolvida entre o final do século XIX e meados do século XX, cujo principal foco era garantir o direito ao voto e a igualdade jurídica. Nessa época, a política era vista como racional, objetiva e pública valores considerados incompatíveis com o papel tradicional atribuído à mulher, entendido como emocional, doméstico e privado. No início do século XIX, pensadoras como Mary Wollstonecraft destacaram-se ao questionar esta subordinação. Em sua obra Uma Reivindicação dos Direitos da Mulher, argumentava que a educação deficiente e a exclusão social mantinham as mulheres subordinadas, defendendo o seu acesso à educação, aos direitos civis e à participação política. Para Wollstonecraft, a emancipação feminina era um pré-requisito para a igualdade social e política (Evans, 2006). Paralelamente, Jane Austen explorava estas questões através da ficção. Em obras como Mansfield Park, mostrava, de forma indireta, como as mulheres eram afetadas pelas restrições sociais e políticas do patriarcado. Por meio das suas personagens, Austen criticava a desigualdade de género e demonstrava que, mesmo em contextos limitados, as mulheres podiam exercer autonomia moral, intelectual e, de certo modo, política, questionando as normas sociais e os papéis que lhes eram impostos (Evans, 2006).

A evolução do papel da mulher na política: da exclusão à participaçãoA Idade Moderna: os primeiros sinais de mudança

Estas ideias prepararam o caminho para a ação concreta das sufragistas, que lutaram pelo reconhecimento da mulher como cidadã plena. Em Portugal, figuras como Carolina Beatriz Ângelo, a primeira mulher a votar em 1911, e Ana de Castro Osório, fundadora da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, abriram caminho para a participação política feminina. Nesta primeira onda do feminismo, o objetivo principal era a inclusão da mulher na política já existente, sem, contudo, questionar profundamente as estruturas de poder vigentes. Com a segunda onda, a partir da década de 1960, o feminismo dá um salto qualitativo e a questão já não é apenas ter direito a votar, mas transformar o próprio significado da política. As mulheres começam a denunciar que a desigualdade não se limita às leis ou ao parlamento, mas está presente dentro das casas, dos casamentos e dos corpos. Surge então o lema “o pessoal é político”, que amplia radicalmente o campo da política para incluir a vida privada e as relações de poder quotidianas. É neste contexto que se formam grupos de consciência e movimentos de libertação das mulheres, que passam a influenciar a legislação laboral, os direitos reprodutivos e o debate académico. Em Portugal, a ditadura do Estado Novo reprimiu o feminismo, contudo a partir do 25 de Abril de 1974, a igualdade entre homens e mulheres passa finalmente a estar consagrada na Constituição.

Papel da mulher na medicina

Historicamente, a medicina não foi sempre uma atividade dominada por homens. Em diversas civilizações antigas, as mulheres eram reconhecidas como figuras centrais no cuidado da saúde. No Egito, por exemplo, Isis era venerada como deusa da medicina, e na Grécia Antiga Hygeia e Panacea eram consideradas santas mortais, provavelmente atuando como médicas independentes. Nessa época, as mulheres eram aceites como médicas e cirurgiãs (Joseph et al., 2021). Na Roma Antiga, o papel feminino na prática clínica também foi relevante: médicas exerciam diferentes especialidades, como demonstra o caso de Aspasia, uma figura de destaque na medicina romana (Steiner-Hofbauer et al., 2022). Durante a Idade Média e até ao período da América Colonial, as mulheres assumiam grande parte dos cuidados médicos domésticos (Joseph et al., 2021). Os mosteiros constituíam importantes centros de prática médica e centenas de mulheres atuaram como curandeiras e especialistas em medicina herbal, sendo Hildegarda de Bingen um dos casos mais famosos. A obstetrícia era uma área atribuída quase exclusivamente às mulheres e os partos eram normalmente conduzidos por parteiras. Com o tempo, este papel foi progressivamente substituído por médicos obstetras do sexo masculino, levando à perda de séculos de conhecimento acumulado pelas parteiras (Steiner-Hofbauer et al., 2022).

Papel da mulher na medicina

Enquanto lhes era negado o acesso à educação formal em medicina, muitas mulheres continuaram a atuar como curandeiras, especialmente em zonas rurais, desenvolvendo uma medicina informal fundamental para as comunidades (Steiner-Hofbauer et al., 2022). Apenas a partir de meados do século XIX começaram a conquistar acesso ao ensino superior (Barroso, 2016), inserido-se Beatriz Ângelo nesse movimento. Em 1849, nos Estados Unidos da América, Elizabeth Blackwell tornou-se a primeira mulher a concluir um curso de medicina, tendo sido admitida na escola médica do Geneva College, em Nova Iorque, como uma piada por parte dos estudantes, mas acabando por se formar em 1849 no topo da sua turma (Joseph et al., 2021; Barroso, 2016). A abertura de portas à formação feminina continuou a expandir-se noutros países: em França, em 1863, e na Suíça e Suécia, em 1870 (Barroso, 2016). A Universidade de Zurique teve, também, um papel crucial neste avanço, sendo onde Emilie Lehmus e Franziska Tiburtius (as primeiras médicas alemãs se formaram). Em 1877, ambas abriram uma clínica em Berlim focada em intervenções cirúrgicas para doenças femininas, tratando todas as pacientes independentemente da capacidade financeira. Por ainda não ser permitido às mulheres frequentar Medicina na Prússia, foram denunciadas por prática ilegal, conseguindo defender-se apresentando os seus diplomas obtidos na Suíça (Barroso, 2016). Outro marco relevante foi protagonizado por Maxy Dixon James, a primeira mulher a realizar uma histerectomia total, em 1888, destacando-se na cirurgia ginecológica (Barroso, 2016).

Papel da mulher na medicina

Contudo, o progresso não foi linear. A publicação do Flexner Report em 1910 provocou um retrocesso significativo na participação feminina na medicina nos Estados Unidos, defendendo uma profissão mais homogénea socialmente. Como consequência, no final de 1910, apenas 6% dos profissionais médicos eram mulheres, percentagem que permaneceu praticamente inalterada durante cinquenta anos (Joseph et al., 2021). Apenas com o crescimento do movimento feminista dos anos 1970 nos Estados Unidos surgiu nova atenção para a inclusão das mulheres na medicina e para a crítica da cultura paternalista que reservava às mulheres papéis de enfermeiras ou de pacientes, mas não de decisoras médicas. Houve, então, um aumento expressivo no número de estudantes de medicina do sexo feminino, ultrapassando os 25% no final da década (Joseph et al., 2021). Apesar dos avanços, a discriminação baseada no género persiste (Joseph et al., 2021). Bullying e assédio sexual continuam presentes no ambiente médico; nos Estados Unidos, pelo menos 10% das médicas com mais de 60 anos relatam ter sofrido assédio, sendo o cenário ainda mais agravado para mulheres pertencentes a minorias raciais, por combinarem discriminação de género com discriminação racial (Joseph et al., 2021). As médicas também apresentam maior prevalência de burnout, resultado do preconceito, do assédio, da desigualdade salarial, da lenta progressão na carreira e da falta de políticas adequadas de licença familiar ao longo de todo o percurso profissional (Joseph et al., 2021). A gestão familiar continua a ser socialmente atribuída às mulheres, contribuindo para desigualdades no progresso profissional (Steiner-Hofbauer et al., 2022).

Papel da mulher na medicina

Atualmente, embora mais mulheres ingressem nas faculdades de medicina do que homens, persistem desigualdades estruturais. Em 2025, na Europa e nos Estados Unidos, o número de homens em cargos académicos de alto nível e em posições de liderança em sociedades médicas continua a superar o número de mulheres (Menezes et al., 2025). Existem subespecialidades em que as mulheres representam apenas 16% ou menos da força de trabalho, sobretudo áreas mais orientadas para procedimentos — como cardiologia, neurocirurgia ou pneumologia (Menezes et al., 2025). Observa-se, assim, um modelo de “broken pipeline”: a proporção de mulheres diminui à medida que se ascende a cargos de maior poder e prestígio, mesmo em áreas maioritariamente femininas, como dermatologia, sendo frequente o preconceito que associa mulheres em posições de topo a más mães que abandonam o seu dever materno (Menezes et al., 2025). A falta de modelos femininos de referência dificulta a integração das mulheres nas práticas médicas e contribui para sentimentos de inadequação, mesmo quando possuem competência igual ou superior à dos seus pares masculinos (Steiner-Hofbauer et al., 2022).

Homenagem

A desigualdade de género na atribuição de nomes às ruas é um fenómeno amplamente difundido na Europa. Um estudo que analisou 30 cidades de 17 países europeus, com base em mais de 52 mil ruas nomeadas em homenagem a pessoas, revelou que apenas 9% têm nomes femininos. Mais do que um simples dado estatístico, esta disparidade reflete as hierarquias sociais e culturais que, ao longo do tempo, valorizaram os contributos masculinos e invisibilizaram os femininos (Neves, P. 2023, 7 de março). Em Lisboa, esta realidade é particularmente evidente, das 1952 ruas dedicadas a pessoas, apenas 207 homenageiam mulheres. A maioria destes topónimos femininos está associada à religião (34,13%). Esta tendência confirma uma visão tradicional da mulher como símbolo de virtude e espiritualidade, em detrimento do reconhecimento por mérito intelectual, político ou científico.

Seguem-se, com valores muito inferiores, as esferas da monarquia (10,47%) e da pedagogia (2,7%), onde se destacam algumas rainhas e professoras (Marques Costa, R. 2018, 8 de março; Neves, P. 2023, 7 de março). Em contraste, os homens dominam praticamente todas as categorias, destacando-se nas áreas da religião (19,26%), monarquia (6,14%), militar (4,31%) e outros títulos (11,45%). Ao contrário do padrão feminino, a sua distribuição é mais diversificada, abrangendo santos, reis, militares, políticos, cientistas e artistas. Mesmo nos casos em que não há informação sobre o título ou profissão (43% nas mulheres e 55% nos homens) a disparidade mantém-se evidente, tanto no número total de topónimos como na variedade das esferas representadas (Marques Costa, R. 2018, 8 de março). Para além da dimensão simbólica, a própria distribuição espacial reflete uma hierarquia de poder: os homens dão nome a avenidas e praças principais, enquanto as mulheres surgem sobretudo em becos e pracetas. Assim, a desigualdade estende-se também à escala urbana, onde o reconhecimento masculino ocupa o centro e o feminino permanece nas margens (Marques Costa, R. 2018, 8 de março).

Figura - Toponímia de Lisboa Fonte - Marques Costa, R. (2018, 8 de março)

Homenagem

Esta desigualdade tem raízes históricas profundas, uma vez que foi apenas no século XIX que a Câmara Municipal de Lisboa começou a atribuir nomes às ruas de forma sistemática, seguindo uma lógica de homenagem a figuras públicas. Como refere o olisipógrafo José Sarmento de Matos, “os homens, como mandavam, festejavam-se uns aos outros”. Assim, o espaço público transformou-se num território de exaltação dos feitos masculinos, colocando as mulheres para um papel meramente simbólico ou secundário (Marques Costa, R. 2018, 8 de março). Esta desigualdade na atribuição de nomes a ruas e praças ultrapassa, portanto, a mera dimensão simbólica, materializando-se numa lógica de poder e de força que estrutura e reproduz hierarquias de género no território urbano. Nesse contexto, a geografia feminista, nomeadamente através do contributo de Gillian Rose, introduz o conceito de “espaço paradoxal”, que permite compreender as formas complexas pelas quais as mulheres e outros grupos subalternizados experienciam e produzem o espaço, marcado por práticas de exclusão e por estratégias de resistência e reapropriação (Silva, 2003). Contudo, mesmo num cenário historicamente dominado por lógicas masculinas, existem sinais de resistência e reconhecimento que desafiam essa hegemonia. Um caso emblemático é o de Carolina Beatriz Ângelo, onde o seu contributo para a emancipação feminina foi mais tarde homenageado com a atribuição do seu nome a várias instituições e espaços públicos, como o Hospital Beatriz Ângelo (Loures), a Associação Beatriz Ângelo (Porto), o Agrupamento de Escolas Carolina Beatriz Ângelo e a Unidade de Saúde Familiar Carolina Beatriz Ângelo (Guarda). Na área metropolitana de Lisboa, o seu nome está igualmente presente em várias ruas e pracetas (Amadora, Odivelas e Almada) constituindo um símbolo de progresso e de luta pela igualdade de género. Em síntese, a toponímia de Lisboa revela uma memória urbana profundamente desigual, marcada por séculos de invisibilidade feminina. Embora se observem avanços pontuais no reconhecimento de mulheres que se destacaram pela sua ação social, política ou científica, a cidade continua a ser um reflexo de uma história contada maioritariamente no masculino. Reverter esta tendência implica mais do que renomear ruas: exige repensar as narrativas sobre quem merece ser lembrado e celebrado no espaço público.

Referências bibliográficas

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