Want to create interactive content? It’s easy in Genially!

Get started free

"A Cidade Que Tudo Devorou: A Vida e Obra de Amadú Dafé"

Maria Helena Cabrita Borralho Borralho 2

Created on September 26, 2025

Start designing with a free template

Discover more than 1500 professional designs like these:

Smart Presentation

Practical Presentation

Essential Presentation

Akihabara Presentation

Flow Presentation

Dynamic Visual Presentation

Pastel Color Presentation

Transcript

"A Cidade Que Tudo Devorou: A Vida e Obra de Amadú Dafé"

1986

"Raízes e Formação: A Infância em Ingoré e o Caminho Literário de Amadú Dafé"

Amadú Dafé nasceu em Ingoré, uma localidade no norte da Guiné-Bissau, onde passou a infância imerso nas tradições culturais, espirituais e orais do seu povo. A vivência em Ingoré marcou profundamente a sua formação, tendo frequentado uma escola corânica desde cedo, o que influenciou a sua visão religiosa e moral nos primeiros anos de vida. A comunidade, fortemente ligada às práticas islâmicas e às crenças tradicionais, serviu como cenário para muitas das experiências que mais tarde viriam a inspirar a sua escrita.A infância em Ingoré foi marcada pela simplicidade, pela oralidade e pela forte ligação à natureza e à espiritualidade, elementos que se refletem em obras como "Jasmim" e "Magarias". Segundo o próprio autor, foi apenas após sair de Ingoré que aprendeu a ler e a escrever em português, o que lhe permitiu, com o tempo, reinterpretar as suas memórias com novas lentes, influenciadas por outras culturas, filosofias e religiões, especialmente durante a sua vida em Bissau e mais tarde em Portugal. Essa experiência de deslocamento — do rural para o urbano, do tradicional para o moderno — tornou-se um eixo central na sua obra, onde a busca de identidade, a crítica social e a valorização da memória coletiva se entrelaçam. Ingoré permanece, assim, não apenas como lugar de origem, mas como símbolo de raízes, espiritualidade e resistência cultural

“Um dia, percebi que contar histórias não bastava. Até porque não se pode ser guineense e ser indiferente ao estado em que o país está”, manifesta Amadú Dafé.

"Formação, Trajetória e Contributos de Amadú Dafé para a Cultura e Literatura Lusófona"

Amadú Dafé completou a Licenciatura e o Mestrado em Direito na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Além disso, possui formação em Contabilidade pela Escola Nacional de Administração da Guiné-Bissau.No plano profissional, Amadú Dafé tem uma carreira marcada pela ligação entre a Guiné-Bissau e Portugal, vivendo e trabalhando em ambos os países. Em Portugal, exerce funções técnicas superiores na Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), desempenhando um papel na gestão do Serviço Nacional de Saúde. Paralelamente, destaca-se na promoção cultural e literária, sendo cofundador da Casa da Cultura da Guiné-Bissau em Lisboa e apresentador do programa literário "Mar de Letras" na RTP África. Esta dupla formação académica e percurso profissional permitem-lhe uma experiência única que alia o direito, a gestão pública e a criação literária, contribuindo de forma significativa para o campo cultural da Guiné-Bissau e fortalecendo a literatura lusófona contemporânea.

“Um dia, percebi que contar histórias não bastava. Até porque não se pode ser guineense e ser indiferente ao estado em que o país está”, manifesta Amadú Dafé.

Carreira Literária de Amadú Dafé: Tradição Oral e Temas da Identidade e Resistência

Amadú Dafé é um escritor natural de Ingoré, no norte da Guiné-Bissau, cuja obra se destaca pela fusão da tradição oral guineense com uma abordagem literária contemporânea. O seu percurso começa com a influência das histórias tradicionais que ouvia na infância — relatos de feiticeiros, espíritos e costumes ancestrais — que o inspiraram a escrever os seus primeiros contos, patenteando a riqueza cultural e simbólica do seu povo.

As suas obras são um retrato vívido da diversidade cultural e dos desafios socioeconómicos da Guiné-Bissau. Entre os títulos principais contam-se "Magarias" (2017), uma coleção de contos que mergulham no imaginário popular e espiritual; "Ussu de Bissau" (2019), romance finalista de prestigiados prémios literários, que denuncia a realidade das crianças talibé; "A Cidade Que Tudo Devorou" (2022), narrativa que aborda, através do realismo mágico, as contradições pós-independência do país; e o conto "Jasmim" (2023), que trata da memória, espiritualidade e identidade num contexto nacional e migratório.Os temas recorrentes na obra de Amadú Dafé exploram a identidade cultural, a memória coletiva, a denúncia social, o sofrimento e a resistência do povo guineense. A sua literatura é não só um instrumento de preservação cultural mas também um veículo para o debate sobre as problemáticas sociais, políticas e históricas, assumindo assim um papel socialmente comprometido no panorama literário lusófono contemporâneo.

"Magarias: Narrativas Orales e Tradições na Literatura Contemporânea da Guiné-Bissau"

Magarias" é um livro de contos publicado por Amadú Dafé em 2017, que rapidamente se tornou uma referência da nova literatura guineense. A obra apresenta pequenas histórias que mergulham no imaginário tradicional da Guiné-Bissau, evocando temas como a infância, a oralidade, a família, as tradições, a espiritualidade e a convivência comunitária.Narrado com sensibilidade e autenticidade, "Magarias" trabalha sobre os rituais, crenças e episódios quotidianos do povo guineense, valorizando a memória coletiva e transmitindo o universo oral para a escrita, como forma de preservar e dignificar identidades. Cada conto funciona como um retrato breve mas intenso das vivências em diferentes comunidades, resultando num livro que equilibra humor, nostalgia, crítica social e afetos. Esta obra está considerada um marco no panorama literário de língua portuguesa por dar voz às realidades marginais e invisibilizadas da Guiné-Bissau, ao mesmo tempo que oferece um testemunho de resistência cultural e homenagem às raízes africanas.

“A escrita, no meu caso, é um ato de denúncia, sim, mas é também um gesto de esperança. Um lugar onde posso reorganizar o Mundo à luz da justiça, nem que seja na ficção”, expressa Amadú Dafé.

"Fora de Jogo: Tramas e Vozes da Literatura Guineense Contemporânea"

"Fora de Jogo" é uma antologia de contos publicada em 2019 que reúne obras de vários escritores guineenses contemporâneos ( como Claudiany Pereira, Edson Incopté, Marinho de Pina e Waldir Araújo), incluindo Amadú Dafé. Esta coletânea apresenta uma diversidade de narrativas que exploram diferentes facetas da vida na Guiné-Bissau, desde desafios sociais, culturais e políticos até histórias íntimas que refletem o quotidiano e a alma do povo guineense.Os contos abordam temas como a identidade, a resistência, a pobreza, a infância, o conflito, a espiritualidade e as complexas relações entre tradição e modernidade. Com estilos variados, a coletânea reflete o vigor da literatura guineense, que combina a oralidade, a mitologia e a modernidade literária. Cada autor aporta uma perspetiva única, enriquecendo a coletânea e contribuindo para um panorama plural e vivo da produção literária guineense. "Fora de Jogo" é, assim, uma obra que mostra o potencial da literatura como meio de denúncia, memória e expressão cultural no contexto da Guiné-Bissau contemporânea.

Para Amadú Dafé, a “questão da língua, sobretudo num país como a Guiné-Bissau, não pode ser abordada sem a consciência histórica, sem olhar para as raízes, para os contextos, para os corpos que falam e os corpos que são calados”

"Ussu de Bissau: A Voz Silenciada das Crianças Talibé na Literatura Guineense"

O livro "Ussu de Bissau" é uma obra de Amadú Dafé que foi publicada em 2019 pela Manufactura Editora. Este livro foi finalista do Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz e Fundação Millennium BCP em 2021."Ussu de Bissau" retrata a história ficcionada de uma criança talibé, que simboliza a dura realidade de milhares de crianças expostas à mendicidade, maus-tratos e privação na Guiné-Bissau. A narrativa mistura dor, fé e abandono, mostrando a difícil vida dessas crianças e os desafios sociais que enfrentam no país. Para Amadú Dafé, a escrita deste livro foi um ato de coragem, uma urgência para não esquecer e para dar voz a quem sofre em silêncio. A obra destaca-se pelo apelo à consciência social e pela denúncia das injustiças que perpetuam essas condições. Ao mesmo tempo, é uma reflexão sensível e comovente sobre a infância perdida e a esperança residual em meio à adversidade.

“Dei-me de frente, numa certa tarde, com a outra infância, aquela que nos apaga o riso. Saía de um supermercado em Bissau quando uma criança talibé, de mão estendida, me abordou. O gesto era pequeno, quase automático, mas o que me atravessou foi o peso de uma história antiga. Porque eu sabia o que aquilo significava. Eu próprio andei em escolas corânicas durante a minha infância. Conhecia os calos daquele chão, o silêncio das madrugadas, o frio das chibatadas e o peso da vergonha. O Ussu, esse menino que eu inventei, é feito de muitos meninos reais.”

"Florbela Espanca: A Alma Sonhadora e o Diálogo Poético com Fernando Pessoa"

O livro "Florbela Espanca – Alma Sonhadora, Irmã Gémea de Fernando Pessoa" é uma edição organizada e editada por Amadú Dafé, publicada em 2021 pela Manufactura. Esta obra reúne os contos completos de Florbela Espanca e inclui toda a poesia publicada em vida ou revista pela poetisa.Com apenas 36 anos de vida, Florbela Espanca revelou, através do seu estilo lacónico e dramático, um espírito panteísta e feminista, que dialoga obstinadamente com a tradição cultural e poética masculina. O livro apresenta um legado literário que transcende o tempo, oferecendo uma visão profunda da alma da poetisa portuguesa, sempre em busca do mistério da sua própria existência. Este volume destaca-se como uma homenagem ao talento e à força expressiva de Florbela, sublinhando a sua importância na literatura portuguesa e celebrando a sua capacidade única de expressar emoções intensas e universais através da poesia e da prosa.

“Se escrevo – e escrevo cada vez mais – é porque acredito que há perguntas que já não cabem nos discursos formais, nem nas arengas políticas, nem sequer nos manuais de Filosofia”, sublinha Amadú Dafé

"A Cidade Que Tudo Devorou: Retrato Poético e Crítico da Guiné-Bissau Contemporânea"

"A Cidade Que Tudo Devorou" ( 2022) é uma obra literária do escritor guineense Amadú Dafé que mergulha no drama social, político e humano da Guiné-Bissau, tendo como protagonista a própria cidade capital, Bissau. A narrativa desenrola-se em duas narrações alternadas entre N’sunha, uma escritora que retorna à Guiné-Bissau para tentar salvar o país através da sua obra, e Sprança, uma voz fictícia criada por N’sunha que retrata as consequências de um livro seu sobre a sociedade e política guineenses.O livro expõe a realidade caótica do país onde o tempo parece suspenso num sonho interminável, marcado pela corrupção, narcotráfico, violência, desigualdade, e pela luta incessante entre forças que se disputam o poder, num ambiente de impunidade e tragédias. A narrativa não se limita a contar um roteiro linear; antes, apresenta uma complexidade e caos que refletem a intrincada situação sociopolítica do país. Ao longo da obra, são descritos locais emblemáticos da cidade como o Quartel de Mansôa, o Hotel Malaika e o Ministério do Interior, que surgem como palco das intrigas, confrontos e tragédias que definem o quotidiano de Bissau. A personagem Sónya (que mais tarde aceita o nome N’sunha) encarna a esperança e o esforço pela mudança, enfrentando uma cidade que, paradoxalmente, devora e é devorada pelas tragédias que a perfazem.

"A Cidade Que Tudo Devorou: Retrato Poético e Crítico da Guiné-Bissau Contemporânea"

Um dos aspetos mais fortes do livro é a crítica social e política acompanhada de uma escrita fluída, envolvente e rica em imagens e metáforas, captando a essência do sofrimento e da resistência do povo guineense. A história culmina numa pergunta que ressoa após a narrativa: “Quem nos irá salvar?” — resposta que é também um chamado à esperança, que nunca se extingue mesmo em meio ao caos e à devastação. Esta obra é uma viagem literária pelo inconsciente coletivo de uma nação marcada pela adversidade, e um convite ao leitor para refletir sobre a memória, a identidade e as possibilidades de um futuro onde o povo possa finalmente libertar-se das feridas do passado e do presente.

“Enrosca-se em mim, como uma chapa de zinco ondulada nas coberturas das casas da capital. Levanta a cabeça e olha de mansinho para mim. A sua cara expressa alguma aflição e eu prontifico-me para uma operação de salvamento, levando-o ao colo.”

"Jasmim: Memória, Espiritualidade e Identidade nas Margens da Guiné-Bissau"

“Jasmim” é um conto literário de Amadú Dafé (2023) que mergulha profundamente nas tradições culturais do povo de Ingoré, norte da Guiné-Bissau, e dialoga com as crenças espirituais, as relações familiares e a procura da identidade. Narrado com sensibilidade, o texto segue o percurso de uma personagem marcada por vivências intensas entre a infância muçulmana, a descoberta da pluralidade cultural e a influência das diferentes filosofias de vida absorvidas em Bissau e em Portugal. Refletindo uma escrita de intensa carga emotiva e simbólica, “Jasmim” transforma o quotidiano em motivo de valorização da memória coletiva e de crítica social, perpetuando na palavra escrita a riqueza oral do seu povo. O conto revela ainda a busca identitária como processo de construção e reconstrução de si, simbolizada na procura pela mãe como metáfora do regresso às origens e do encontro com o sentido da existência. Frase representativa da obra

"Queria dar ao mundo a oportunidade de conhecer um bocadinho dessas tradições no meio das quais eu cresci. [...] Quando transformamos a realidade do dia a dia em escrita, a experiência ganha uma outra dimensão: perpetua-se no tempo aquilo que se viveu e que se vive naquela sociedade."

"A Selva Mágica das Sarnadas de Ródão: Imaginação e Memória na Literatura Infantojuvenil de Amadú Dafé"

O livro "A Selva Mágica das Sarnadas de Ródão" de Amadú Dafé, publicado em 2023 pela Editorial Novembro, é uma história fascinante que se situa entre o universo infantil e juvenil. A narrativa combina elementos da lenda, fábula e mito, explorando a magia do imaginário próprio da criança.A história acompanha as protagonistas Leonor e Joana, ao longo de aventuras marcadas pela amizade, ternura, curiosidade, medo e deslumbramento. O enredo evoca memórias de brincadeiras e expressões de outros tempos, utilizando a metáfora da selva mágica para simbolizar a capacidade regeneradora da imaginação infantil. Inspirado em clássicos como "Alice no País das Maravilhas", o livro valoriza a cumplicidade entre pais e filhos, e a figura do professor como depositário das aventuras sonhadas pelas crianças. Este livro reflete a importância da fantasia e da imaginação no processo de crescimento e no contato com o mundo, tornando-se uma obra relevante na literatura infantojuvenil contemporânea.

No entender do escritor Amadú Dafé, o “respeito pela multiculturalidade nasce do reconhecimento dos outros como legítimos”. Assim, “as línguas são, talvez, o campo mais fértil para esse reconhecimento”.

Amadú Dafé: Promotor da Cultura e Literatura Guineense no Espaço Lusófono

Amadú Dafé é cofundador da Casa da Cultura da Guiné-Bissau em Lisboa, uma instituição criada para preservar, valorizar e promover a riqueza cultural da Guiné-Bissau junto da diáspora e do público português. Este espaço cultural funciona como uma verdadeira embaixada afetiva da cultura guineense, promovendo atividades que vão desde a literatura, música, gastronomia até debates políticos, contribuindo para a afirmação da identidade guineense no estrangeiro. A Casa tem um papel fundamental na divulgação das tradições, rituais e expressões culturais do país, apresentando-as como formas legítimas de filosofia e pensamento.

Além disso, Amadú Dafé é membro efetivo da Associação de Escritores da Guiné-Bissau (AEGUI) e do Centro PEN Guiné-Bissau, organizações que atuam de forma semelhante na promoção da literatura e cultura guineense e na defesa da liberdade de expressão literária. Como apresentador do programa literário “Mar de Letras” na RTP África, Amadú Dafé tem uma ampla visibilidade no espaço lusófono, onde divulga obras literárias e promove autores africanos de expressão portuguesa, contribuindo para a expansão e reconhecimento da literatura guineense no mundo. Este conjunto de ações artísticas, culturais e mediáticas faz de Amadú Dafé uma figura central na projeção e fortalecimento da identidade cultural guineense junto das novas gerações, tanto na Guiné-Bissau como na diáspora portuguesa.

“Em vez de valorizarmos a pluralidade linguística da Guiné-Bissau, optámos por fingir que ela não existe. E é esse fingimento que está a matar a educação, a matar o gosto pela leitura, a matar o próprio Português, que poderia ser uma ponte, mas é tratado como um muro”, considera o escritor Amadú Dafé

Reconhecimento e Prémios Literários de Amadú Dafé

Amadú Dafé é uma das vozes literárias mais reconhecidas da Guiné-Bissau, tendo conquistado vários prémios que atestam a qualidade e o impacto do seu trabalho literário no espaço lusófono. Em 2012, recebeu o Concurso Lusófono da Trofa – Prémio Matilde Rosa Araújo, um prémio de prestígio dedicado à literatura infantil, que reconheceu a excelência da sua escrita voltada para o público jovem.Em 2015 e novamente em 2017, Amadú Dafé foi agraciado com o Prémio Literário José Carlos Schwarz, concedido pelo Centro Cultural Brasil-Guiné-Bissau, um dos mais importantes galardões para escritores guineenses. Este prémio valoriza autoras e autores que se destacam na produção literária contemporânea do país. No ano de 2021, o seu livro "Ussu de Bissau" esteve entre os finalistas do Prémio Literário Fundação Eça de Queiroz e Fundação Millennium BCP, evidenciando a receção positiva da sua obra no panorama literário português e reforçando a sua relevância na literatura de língua portuguesa contemporânea. Estes reconhecimentos refletem não só o mérito artístico das obras de Amadú Dafé, mas também o seu compromisso na denúncia social, no resgate da memória cultural da Guiné-Bissau e na promoção da literatura africana de expressão portuguesa. A sua escrita revela um profundo olhar crítico sobre os desafios do seu país, fazendo dele um autor imprescindível para a compreensão cultural e social da Guiné-Bissau através da literatura.

Impacto e Contribuição de Amadú Dafé para a Cultura e Literatura Lusófona

Amadú Dafé exerce um papel fundamental na valorização da cultura e literatura guineense no espaço lusófono. A sua obra literária é marcada por um diálogo profundo entre as tradições africanas e a modernidade, refletindo a multipolaridade cultural da Guiné-Bissau e as complexas dinâmicas sociais do país. A sua escrita recupera narrativas orais ancestrais, tais como histórias de feiticeiros, rituais, mitos e crenças espirituais, inserindo-as num universo literário que serve tanto à afirmação cultural como à crítica social.O autor é um importante promotor da língua portuguesa e das literaturas africanas de expressão portuguesa, contribuindo para expandir o alcance da literatura guineense no cenário internacional. Amadú Dafé vê a língua portuguesa como um instrumento multifacetado que, embora seja herança do colonialismo, se tornou veículo central para a afirmação da identidade guineense e para o diálogo intercultural. A sua participação em associações culturais, como a Casa da Cultura da Guiné-Bissau em Lisboa e a Associação de Escritores da Guiné-Bissau, reforça o seu compromisso em promover e preservar as tradições e a diversidade cultural guineense, principalmente junto da diáspora. Para ele, essas instituições funcionam como espaços de resistência simbólica, onde a cultura guineense é apresentada não como algo do passado, mas como um paradigma vivo e atual, capaz de inspirar e transformar. Além disso, através do seu programa literário “Mar de Letras” na RTP África, Amadú Dafé contribui para a visibilidade da literatura africana de língua portuguesa, fomentando o debate e o intercâmbio cultural em toda a comunidade lusófona.

“Fazer da escrita um espelho, ainda que baço, onde cada um possa reconhecer qualquer coisa de si e se atrever a perguntar-se: ‘Porque sou assim?’ Viver, nos dias que correm, e nos que já correram antes, não é apenas uma sucessão de noites e de dias; é uma sucessão de equívocos, de medos camuflados, de desejos inconfessáveis e, sobretudo, de fugas. Fugimos da responsabilidade, da memória, da lucidez. Fugimos de nós.”