"Entre Mito e Realidade: A Obra de Ruy Duarte de Carvalho"
1941-2010
"Ruy Duarte de Carvalho: Vida, Formação e Influências Culturais"
Ruy Duarte de Carvalho nasceu em Santarém, Portugal, a 22 de abril de 1941, e passou a infância em Moçâmedes, Angola. Após curso técnico em regência agrícola, trabalhou em Moçâmedes na agricultura e pecuária, antes de se mudar para Lourenço Marques (atual Maputo) em 1971, onde foi chefe de produção numa fábrica de cerveja. Em 1972 partiu para Londres para estudar realização de cinema, voltando depois para Angola para trabalhar na Televisão Popular de Angola como realizador. Em 1983 adquiriu nacionalidade angolana.Do ponto de vista académico, doutorou-se em Antropologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Conciliou cinema, escrita e ensino universitário, tendo lecionado na Universidade de Luanda, além de períodos como professor convidado na Universidade de Coimbra e Universidade de São Paulo, também tendo sido investigador convidado em Berkeley.
"Sei o que se passa na cabeça de um animal." — frase que mostra sua sensibilidade para os modos de ser e sentir dos povos e animais com quem conviveu, especialmente os pastores kuvale.
"Ruy Duarte de Carvalho: Vida, Formação e Influências Culturais"
Culturalmente, foi influenciado pela realidade angolana, especialmente do sul do país e dos povos pastorais, como os Kuvale, tema central da sua etnografia e cinema etnográfico. Essa ligação ao espaço e às culturas locais evocou tradições, nomadismos e uma reflexão interdisciplinar entre literatura, cinema e antropologia, influenciada pelo ambiente multicultural e pós-colonial africano. A sua obra reflete uma posição crítica, artística e científica, marcada pela experiência vivida entre Angola, Namíbia e outros contextos lusófonos e internacionais.
"Venho de um sul medido claramente em transparência de água fresca de amanhã. De um tempo circular liberto de estações. De uma nação de corpos transumantes..."
"Contexto Histórico e Geográfico de Angola e a Cultura Kuvale"
Durante a vida de Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010), Angola passou por um contexto histórico muito complexo, iniciando-se sob domínio colonial português até a independência em 1975, quando se iniciou uma longa guerra civil marcada por conflitos entre os principais movimentos políticos (MPLA, FNLA, UNITA) e a intervenção de potências estrangeiras. O país viveu profundos conflitos militares e sociais durante várias décadas, incluindo a luta contra o colonialismo, a independência e a posterior guerra civil.A região do Kuvale, no sul de Angola, é de grande importância cultural e histórica, sendo o território tradicional deste grupo étnico pastoril. Os Kuvale resistiram intensamente à dominação colonial portuguesa, sendo considerados insubmissos e rebeldes, com grande influência socioeconómica baseada na criação de gado. No século XX, foram o último reduto de povos livres no território sob domínio colonial, enfrentando campanhas de pacificação, guerras locais e repressão. A sua cultura pastoral e modos de vida tradicionais foram fortes elementos de resistência perante a colonização e as pressões externas. Ruy Duarte de Carvalho dedicou parte substancial do seu trabalho antropológico e etnográfico ao estudo dos Kuvale, refletindo a sua vida, cultura e os desafios pelos quais passaram historicamente dentro do contexto mais amplo da formação política e social de Angola no século XX.
"No meu caso, foi a poesia... uma 'alma' angolana, a tal que viria a ajudar a 'razão' angolana a vencer o colonialismo português." — sobre o poder da poesia na sua identidade e luta cultural.
"Ruy Duarte de Carvalho:A Trajetória entre Literatura e Antropologia"
Ruy Duarte de Carvalho iniciou sua carreira profissional em setores ligados à agricultura e pecuária em Angola, passando depois a estudar realização de cinema em Londres (1972). Após esse período, trabalhou como realizador na Televisão Popular de Angola e desenvolveu um importante percurso como cineasta com longas-metragens como "Nelisita: narrativas nyaneka" (1982). Paralelamente, aprofundou sua formação académica, obtendo o doutoramento em Antropologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris.A partir de 1976, conciliou a escrita, o cinema e o ensino na Universidade de Luanda, além de lecionar posteriormente em várias instituições internacionais. Publicou poesia, ficção, ensaios e obras etnográficas, sendo uma referência na literatura de língua portuguesa e antropologia africana.
"Os poderes actuais herdaram dos poderes coloniais não só o lugar de decisão mas também o ângulo da visão. E nem a cena podia ser outra, porque afinal os instrumentos cognitivos que uns e outros utilizaram e utilizam, independente da forma como o fizeram ou fazem, são os mesmos (as elites a quem foi transmitido o poder – de uma maneira ou de outra – foram, naturalmente, as mais ocidentalizadas. Como se o ocidente tivesse estendido um espelho à África no qual os africanos são hoje obrigados a ver-se)." Ruy Duarte de Carvalho, em "A câmara, a escrita e a coisa dita... fitas, textos e palestras"
"Ruy Duarte de Carvalho: Entre a Literatura, a Antropologia e o Cinema em Angola"
Ruy Duarte de Carvalho foi um autor multifacetado cuja obra abarca literatura, antropologia e cinema, refletindo a complexidade cultural e histórica de Angola. Na ficção, destacam-se os seus romances, contos e poemas, onde utiliza uma narrativa híbrida e não linear, atravessada por temas de identidade, memória, política e a ligação profunda ao espaço do sul angolano. Obras como "Os filhos de Próspero" exemplificam esta escrita fragmentada e simbólica, que rompe com convenções tradicionais para revelar a experiência angolana de forma inovadora e poética.A sua produção antropológica é igualmente fundamental, com ensaios e etnografias que exploram a cultura dos Kuvale, grupo pastoral do sul de Angola. Em trabalhos como "Vou lá visitar pastores", Carvalho documenta detalhadamente o quotidiano, as crenças e as relações sociais destes povos, fundindo um olhar crítico e filosófico com experiências pessoais e um compromisso ético para com as comunidades estudadas. Esta antropologia pós-colonial é marcada por uma recusa dos paradigmas oficiais ocidentais, dando voz às culturas e narrativas locais de forma sensível e rigorosa. No domínio do cinema, Carvalho produziu filmes que capturam a diversidade cultural angolana com um enfoque nas realidades periféricas, fora dos centros oficiais de poder. Filmes como "Presente Angolano" e "Nelisita" refletem um olhar poético e antropológico, valorizando a oralidade, as tradições e a vida quotidiana. Este cinema prova a sua capacidade de dialogar entre formas artísticas e científicas, expandindo o seu universo de intervenção para além da palavra escrita. A interseção destas linguagens — literária, antropológica e visual — faz da obra de Ruy Duarte de Carvalho um retrato multifacetado e profundo de Angola, onde se combinam criatividade artística e rigor académico para o conhecimento e a valorização cultural.
"[...] partindo da poesia e entrando pela antropologia adentro pela ponte do cinema, e deixando que a antropologia, por sua vez, me catapultasse para a ficção que ando finalmente a arriscar... Se foi a poesia, passando pela ponte do cinema, que me transportou à antropologia, à apreensão fundamentada no conhecimento dito objetivo disponível sobre a substância humana com que a vida me implicou, foi a antropologia – embora sem programa prévio mas sempre como via também de expressão e de intervenção – que me transportou à ficção…"
- Ruy Duarte de Carvalho, em "A câmara, a escrita e a coisa dita... fitas, textos e palestras"
Adoço-te as costas
com licor de acácia.
Espremo-te os rins:
um favo de dem-dém.
Vou fundo em ti
feroz
e oiço-te um ai:
faz eco em mim
a voz
do meu país in-tacto.
Ruy Duarte de Carvalho, em "Chão de oferta"
"Chão de Oferta (1972): O Início da Voz Poética de Ruy Duarte de Carvalho"
Chão de Oferta (1972) é o primeiro livro de poesia publicado por Ruy Duarte de Carvalho, em Luanda, pela Editorial Culturang. A obra valeu-lhe o Prémio Motta Veiga de Poesia e assinala o início da sua carreira literária. É um trabalho fundamental não só pela força poética, mas também pelo olhar atento às marcas da paisagem africana, à identidade e à memória histórica angolana.Esta coletânea revela já o traço do autor: imagens fortes da terra, da ancestralidade e da vida quotidiana, trabalhando temas como o exílio, a pertença e a transformação — tópicos recorrentes em toda a sua produção. Alguns poemas, como "A gravação do rosto" e "A terra que te ofereço", são hoje considerados marcas da modernidade poética angolana, pelo modo como dialogam com a paisagem física e emocional da Angola pós-colonial. Chão de Oferta é, por isso, um marco na poesia lusófona africana, inaugurando um percurso literário que cruza poesia, antropologia e cinema.
O poema utiliza imagens tanto sensuais como telúricas, cruzando o corpo e a terra – “Adoço-te as costas / com licor de acácia” –, para explorar temas de amor, pertença e identidade nacional. No verso “faz eco em mim / a voz / do meu país in-tacto”, revela-se a íntima ligação entre o eu poético e Angola, realçando que, através da experiência física e afetiva, ecoa também a história e a memória do país.
Chagas de salitre
Olha-me este país a esboroar-se
em chagas de salitre
e os muros, negros, dos fortes
roídos pelo vegetar
da urina e do suor
da carne virgem mandada
cavar glórias e grandeza
do outro lado do mar.
Olha-me a história de um país perdido:
marés vazantes de gente amordaçada,
a ingénua tolerância aproveitada
em carne. Pergunta ao mar,
que é manso e afaga ainda
a mesma velha costa erosionada.
Olha-me as brutas construções quadradas:
embarcadouros, depósitos de gente.
Olha-me os rios renovados de cadáveres,
os rios turvos do espesso deslizar
dos braços e das mães do meu país.
Olha-me as igrejas restauradas
sobre ruínas de propalada fé:
paredes brancas de um urgente brio
escondendo ferros de educar gentio.
Olha-me a noite herdada, nestes olhos
de um povo condenado a amassar-te o pão.
Olha-me amor, atenta podes ver
uma história de pedra a construir-se
sobre uma história morta a esboroar-se
em chagas de salitre.
- Ruy Duarte de Carvalho, em "A decisão da idade"
"A Decisão da Idade: Reflexões Poéticas de Ruy Duarte de Carvalho"
A Decisão da Idade é um livro de poemas publicado por Ruy Duarte de Carvalho em 1976 pela União dos Escritores Angolanos. Este conjunto de poemas é caracterizado por uma reflexão sobre o amadurecimento, a experiência vivida e a consciência política e existencial. A obra é uma continuidade da sua produção poética que alia elementos líricos a uma profunda análise da história, cultura e identidade angolanas.Entre os poemas presentes, destaca-se um trabalho que explora a passagem do tempo, as transformações pessoais e sociais, muitas vezes fundindo prosa e verso para ampliar a expressividade e intensidade lírica. O livro tem um caráter meditativo, em que o sujeito poético busca no percurso da vida e nas decisões tomadas o sentido da sua existência e das suas raízes.
O poema "Chagas de salitre" de Ruy Duarte de Carvalho é uma denúncia poética que retrata a degradação e o sofrimento do país (Angola), utilizando a imagem das “chagas de salitre” para simbolizar as feridas abertas na terra e na história. O poema fala da destruição, da exploração e da opressão, evocando uma paisagem marcada por muros corroídos, rios renovados de cadáveres e uma fé dilacerada, representando o peso da colonização e da guerra. É um texto forte que associa a história e o presente da nação a imagens de dor e esperança.
A explicação do cacto
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Um cacto reservado
acrescenta lateral o seu crescer
como se fora um cancro
em feminino sexo.
Emite um espinho novo que anuncia
O altear suave da excrescência-mãe.
Impele o corpo à volta, a modelar-se em bordos.
Depois adere à pele e funde-lhe os contornos.
Promove inchaços para expandir raízes.
Da inocência vegetal da posse
medida em seus segredos de expansão
um cacto aufere a graça
de acrescentar-se em escamas de silêncio.
Conquista assim
razões para a vocação que o determina.
A vocação do cacto:
fundir-se em carne e prosperar em gomos.
A explicação do cacto:
a mineral tendência para sentir-se imóvel.
O fascínio do cacto:
a carne imóvel exposta aos apetites.
A imobilidade do cacto enfrenta o quanto sabe
da curva das pressões e da língua dos ventos
quando encrespa as águas.
"Exercícios de Crueldade: A Poética da Dor e da Resistência"
Exercícios de Crueldade é um livro de poemas publicado por Ruy Duarte de Carvalho em 1978, pela editora & Etc., em Lisboa. Com 65 páginas, esta obra prossegue a trajetória poética do autor marcada por lirismo, reflexão profunda e crítica social, centrando-se na memória da guerra, dor e dureza do destino. Segundo análises, o livro destaca a crueldade como tema, manifestada tanto em conflitos exteriores quanto nas lutas internas do sujeito poético, envolvendo uma busca constante pela palavra e expressão capaz de incomodar e refletir sobre o mundo.
O poema "A explicação do cacto" de Ruy Duarte de Carvalho é um texto emblemático que usa a figura do cacto para explorar temas de resistência, imobilidade e adaptação, numa metáfora densa sobre a vida, a dureza e a persistência diante das adversidades. Ele faz parte da coleção poética de Carvalho, comummente associada ao livro Exercícios de Crueldade (1978), onde o autor explora a crueldade da guerra e da existência com metáforas poderosas e imagens precisas. O poema foca no crescimento discreto, porém inevitável, do cacto, sua vocação para estar imóvel mas ao mesmo tempo resistir e prosperar, contrapondo a dureza mineral à vitalidade da carne.
Sinais Misteriosos... Já se Vê...: A Experiência Poética e Visual de Ruy Duarte de Carvalho"
A obra Sinais Misteriosos... Já se Vê... (1980) de Ruy Duarte de Carvalho é uma peça literária e artística singular que encontra sua força na convergência da poesia, do texto experimental e da estética visual. Este livro dialoga intimamente com as culturas e tradições da etnia Mumuíla, do sul de Angola, refletindo a profunda imersão do autor em contextos antropológicos e cinematográficos.A obra é marcada por um forte componente gráfico, com desenhos e signos que acompanham o texto, promovendo uma leitura que ultrapassa as fronteiras da escrita tradicional para incluir o campo da imagem e do símbolo. Boa parte dela nasce da experiência cinematográfica de Carvalho, refletindo os “sinais misteriosos” da vida, da história e da memória, que começam a se revelar (“já se vê...” no título) através de uma escrita quase ritualística e visual.
Esse livro situa-se num ponto de intersecção da literatura, da etnografia e da arte visual, sendo uma manifestação da poética interdisciplinar de Ruy Duarte de Carvalho, na qual se valoriza o olhar sensível e crítico sobre a cultura angolana, o passado e os processos de transformação social. Além disso, a obra recebeu reconhecimento internacional, destacando-se pela inovação estética numa altura em que a literatura africana de língua portuguesa também buscava se reinventar.
"Sinais misteriosos... já se vê...
a palavra que se forma,
o traço que se desenha,
o corpo que se revela."
"Ondula, Savana Branca: Vozes e Memórias da África Oral"
Profecia de Nakulenga
(Origem Kwanyama)
Algo de estranho se agita nas águas
algo de estranho se arrasta na terra.
Era longe, ficou perto, agora é cá.
E o povo já foge.
Talvez até caia
um pau de omuhama
na estrada a indicar que para o rei
a morte vai chegar
a vida é breve.
Eles vêm de um país muito distante
e trazem para dizer coisas diferentes
que é preciso avaliar com atenção.
Cruzava o país e dos nobres eu via
os ricos currais.
Renovo a viagem
e que vejo agora?
Dos nobres agora não vejo os currais
mas vejo dos brancos
suas construções.
Ruy Duarte de Carvalho, em "Ondula, savana branca".
O livro Ondula, Savana Branca (1982) de Ruy Duarte de Carvalho é uma obra que reúne versões, derivações e reconversões de expressões orais africanas, especialmente da cultura do sul de Angola, onde o autor viveu e pesquisou profundamente. A obra é marcada pela transposição poética de cantos, rituais e tradições dos povos pastorais, como os Kuvale, com foco nas vozes, histórias e imagens do cotidiano desses grupos.Este trabalho é considerado um clássico da literatura angolana e da poesia africana de língua portuguesa. O autor traduziu e reelaborou de forma poética manifestações orais para a língua portuguesa, preservando a força expressiva e simbólica dos originais. A obra dialoga com temas de guerra, ancestralidade, memória e pertencimento à terra, refletindo a experiência pessoal e antropológica de Carvalho.
O poema Profecia de Nakulenga de Ruy Duarte de Carvalho, originário do povo Kwanyama, é um texto que traz uma forte carga simbólica e profética. Ele fala de sinais estranhos que agitam a terra e as águas, aponta para uma morte iminente do rei, e descreve uma realidade em transformação, com críticas à mudança no poder e às construções dos colonizadores. O poema reflete um cenário de tensão e deslocamento, onde o povo foge e as tradições são abaladas, destacando a brevidade da vida e a necessidade de prestar atenção às mensagens recebidas.
Noção geográfica
A esses que me perguntam
donde lhes vem a direcção escolhida
e são apenas a direcção lançada
ao centro indefinido da razão;
e que empunham as armas sem saber
razão fundamental para o seu uso;
e que indecisos se erguem para indagar
a que futuro apontam
elevo a voz para dizer
das múltiplas razões para uma entrega
ao tempo de partir e edificar
as naves de arremesso
e construir uma nação sem muros
onde se expanda o eco da alegria
cavada em vossos peitos
pelo resgatar dos corpos e da cor
de encontro à bruma que ficou contida
entre os dois tempos de uma manhã morta
adonde nos jazia a decisão
e atônitos olhávamos os dias
perdidos entre a noite e sem saber-lhe o fim.
- Ruy Duarte de Carvalho, em "Lavra: poesia reunida 1970-2000"
"Lavra: Poética e Memória na Poesia Reunida de Ruy Duarte de Carvalho"
O livro Lavra (poesia reunida 1972-2000) de Ruy Duarte de Carvalho foi publicado em 2005 pela editora Cotovia, em Lisboa. Esta coletânea reúne a produção poética do autor ao longo de quase três décadas, contemplando obras e poemas dos seus primeiros livros até o ano 2000.A obra é uma síntese do percurso lírico e temático de Carvalho, incluindo seus principais temas como a ligação profunda com a terra angolana, a memória, a identidade, a oralidade e a escrita, além dos conflitos históricos e sociais que marcaram o país. Essa reunião permite ver a evolução da voz poética do autor e suas experimentações estéticas, incluindo a integração de elementos visuais e tipográficos.
Por reunir um vasto conjunto de seu trabalho poético, Lavra é essencial para quem deseja compreender o universo literário e cultural do autor em sua amplitude e profundidade.
O poema Noção Geográfica de Ruy Duarte de Carvalho aborda o espaço e o sentido da direção, ligando o olhar poético à experiência da terra e aos “corpos transumantes” de Angola, especialmente do sul, região que marcou profundamente sua obra. O poema fala da percepção justa do espaço, das forças que o sustentam, como o norte, o mar e o sul magnético, que representam experiências simbólicas, culturais e históricas.Nessa obra, Ruy Duarte articula geografia e identidade, mostrando o espaço não apenas como um local físico, mas como território cheio de significado, memória e culturalidade. Ele utiliza a poesia como instrumento de travessias e atravessamentos culturais, linguísticos e espaciais, reforçando a ideia da poesia como um tempo e espaço em permanente renovação, marcado pelo eterno retorno e pela construção contínua do sujeito e do mundo.
"Obras Literárias de Ruy Duarte de Carvalho: Poesia, Ficção e Narrativa"
"Obras Literárias de Ruy Duarte de Carvalho: Poesia, Ficção e Narrativa"
“Chegámos à Pedra do Tambor, onde pernoitaríamos antes de atravessar o Kuroka e entrar no parque na manhã seguinte, já a noite vinha vindo. Com ela a aragem fria de uma brisa rasteira. É aquela hora que arrepanha a alma e é sempre breve, mas bastante, assim. É a hora que estrangula a digestão das horas, o programa das rotas, a ordem das tarefas, o compromisso, a lei. A incidência derradeira daquela luz directa recolhia-a de costas para o poente, a ver estender-se a sombra da pedra a que encostava, a da margem de espinheiras que acompanhava o curso de um declive que de outra forma não se anunciava, o reflexo àquela hora, do ocre dessas ilhas, cónicos puzzles de blocos de granito, acumulados juntos e a formar alturas, a emergir do mar dos pastos, vastos, vastos, do lençol do chão, e a púrpura difusa de uma curva escarpa, muito mais ao longe, a leste, altitude de platôs, matriz de migrações. E vinha também a lua. É disto que se faz a emoção.”
excerto do livro "Os Papéis do Inglês" (2000) de Ruy Duarte de Carvalho
"Ruy Duarte de Carvalho: Entre o Cinema e a Antropologia na Construção da Cultura Angolana"
O livro Os Papéis do Inglês de Ruy Duarte de Carvalho foi escrito entre 1999 e 2000 e publicado em 2000 pela editora Cotovia. Trata-se de uma narrativa breve, mas de grande impacto, que inventa completamente a história de um inglês, Archibald Perkins, que em 1923 se suicidou no Kwando, depois de matar tudo à sua volta, conforme uma crónica sucinta de Henrique Galvão.Esta obra insere-se num registo híbrido entre o epistolar, o historiográfico e o memorialista. A narrativa é contada na primeira pessoa e dirigida a uma mulher interlocutora, na qual o narrador-investigador vai atrás do rasto do inglês, numa incursão pela Angola profunda e pela Namíbia, tentando desvendar o mistério dos papéis deixados por este personagem. O romance destaca-se como um dos maiores exemplares do romance colonial, propondo uma nova visão sobre a história de Angola e questionando o imaginário viciado sobre o continente africano. Neste livro, Carvalho mistura elementos literários, filosóficos, etnográficos e poéticos, dialogando com a memória coletiva, o poder, a identidade e a complexidade das relações coloniais. Foi o primeiro volume da trilogia literária Os Filhos de Próspero, que inclui também As Paisagens Propícias (2005) e A Terceira Metade (2009). O livro serviu de base para a adaptação cinematográfica homónima, dirigida por Sérgio Graciano e estreada em 2024.
"Eu ando a ler os papéis do inglês como quem tenta compor um mapa de um território que não existe mais, um lugar feito de perdas e mistérios, onde o passado e o presente se confundem."
"Ruy Duarte de Carvalho: Trilhos de Luz e Memória"
Venho de um sul
Eu vim ao leste
dimensionar a noite
em gestos largos
que inventei no sul
pastoreando mulolas e anharas
claras
como coxas recordadas em maio.
Venho de um sul
medido claramente
em transparência de água fresca de amanhã.
De um tempo circular
liberto de estações.
De uma nação de corpos transumantes
confundidos
na cor da crosta acúlea
de um negro chão elaborado em brasa.
Ruy Duarte de Carvalho, em "Chão de oferta"
"Vou caminhar em frente até que atinja o mar. Não este mar que vejo à retaguarda, donde nos vem a brisa laminar das tardes de setembro, mentor do céu de bruma que nos maninha o chão. Eu vou seguir em frente e ultrapassar o paredão das serras, a cortina das águas que na distância acende a redobrada angústia de uma possível esperança."
Cinema e Antropologia: O Legado Visual de Ruy Duarte de Carvalho
Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010) foi um dos maiores cineastas e antropólogos angolanos, cuja obra no cinema é marcada pela profunda ligação entre a representação visual e a pesquisa antropológica. Ao longo da sua carreira, Carvalho desenvolveu um conjunto de documentários e filmes que retratam com sensibilidade e rigor as culturas, tradições e modos de vida das comunidades do sul de Angola, destacando os povos pastorais e as suas relações com a terra, o tempo e a memória.Sua abordagem cinematográfica vai além do filme etnográfico tradicional, investindo numa estética poética e experimental que valoriza a oralidade, o mito e a dimensão simbólica das comunidades retratadas. Obras como a série documental Presente Angolano, Tempo Mumuíla (1977-1979) apresentam temas como rituais, festividades, crenças e conflitos, oferecendo uma reflexão sobre a tensão entre o tempo mítico dos povos locais e o tempo histórico contemporâneo. Esta série é composta por episódios que exploram desde cerimónias sagradas até o impacto das transformações sociais na região. No campo do cinema de ficção, diligenciou obras fundamentais como Nelisita (1982), filme falado em língua local nyaneka, que mescla a mitologia local com narrativas de resistência e sobrevivência, destacando-se pela sua originalidade e importância no cinema angolano. Outro destaque é o filme Moia: O Recado das Ilhas (1989), que aborda a questão da identidade cultural e da diáspora, com uma narrativa que integra as conexões entre Angola, Portugal e Cabo Verde. Mais recentemente, o projeto A Terceira Metade (livro de 2009 e adaptação cinematográfica em desenvolvimento) reflete a última grande obra de Carvalho, que articula literatura, antropologia e cinema para questionar paradigmas culturais e históricos, explorando o nomadismo e a memória como elementos centrais.
"Nelisita: A Ficção e a Tradição Oral no Cinema de Ruy Duarte de Carvalho"
O filme Nelisita (1982) é uma longa-metragem dirigida por Ruy Duarte de Carvalho. Filmado em preto e branco e falado na língua nyaneka, uma língua local do sul de Angola, o filme é baseado em duas narrativas orais ovamwila (um grupo agro-pastor da região). Ele traz uma história situada em meio à fome e guerra, onde apenas duas famílias sobrevivem. Um dos homens descobre que os alimentos são escondidos por espíritos e furtivamente os leva para sua família, mas acaba sendo descoberto, e os espíritos aprisionam todos, exceto uma mulher grávida que dará à luz Nelisita.Nelisita, o personagem-título, é aquele que se gerou a si mesmo, símbolo de resiliência e resistência. Ele enfrenta os espíritos, é submetido a provas e vence com o auxílio dos animais da criação, salvando sua gente e reconduzindo-a para casa. O filme reflete os conflitos, tradições e mitologias das populações locais e foi rodado em agosto de 1981 durante a invasão sul-africana, em meio à guerra civil angolana. Nelisita é considerado um dos trabalhos mais originais e emblemáticos do cinema angolano, reconhecido em vários festivais internacionais, e destaca-se por ser uma ficção filmada integralmente numa língua local, misturando elementos de documentário, ficção, mito e história.
"Contra o mal e os maus e os desconcertos do mundo, Nambalisita faz apelo aos animais todos da criação, seus irmãos, os seus rapazes, e até mesmo à criação inteira."
"Moia: O Recado das Ilhas – Identidade e Crioulidade no Cinema de Ruy Duarte de Carvalho"
O filme Moia: O Recado das Ilhas (1989) é uma coprodução entre Angola, França e Portugal, dirigido e escrito por Ruy Duarte de Carvalho e produzido por Paulo Branco. O filme, com cerca de 90 minutos, é falado em português e estreou mundialmente no Festival de Veneza em 1989.A narrativa gira em torno da experiência de uma jovem angolana que, durante uma viagem de regresso a Luanda desde Lisboa, faz uma parada nas ilhas de Cabo Verde, país de origem de sua mãe, em busca de suas raízes e identidade crioula. O filme explora a complexidade da identidade e das múltiplas ligações históricas, culturais e afetivas entre Angola, Portugal e Cabo Verde, incorporando elementos poéticos e dramáticos, assim como um interlúdio onírico com a encenação do conflito entre Próspero e Calibã da peça "A Tempestade" de Shakespeare. Moia é reconhecido pela sua profundidade cultural e estética, através de uma reflexão sobre a identidade crioula, o colonialismo e a diáspora, entrelaçando passado e presente, lugares e histórias.
"Somos todos filhos do vento, levados de uma ilha para outra, buscando raízes em terras que não nos pertencem."
"Percursos de Identidade e Memória: Mito, Realidade e Espaço nas Narrativas de Ruy Duarte de Carvalho"
Ruy Duarte de Carvalho explora profundamente temas como a identidade cultural e a memória histórica em Angola, especialmente em suas obras voltadas para as comunidades rurais e os povos pastorais do sul do país. Ele trabalha a relação entre mito e realidade, mostrando como as tradições orais, as histórias culturais e os mitos locais fazem parte integrada da identidade coletiva e da forma como as comunidades se percebem no tempo e no espaço.A representação do espaço rural em sua obra é marcada pela atenção às particularidades das paisagens, modos de vida e cosmovisões indígenas, principalmente dos Kuvale, refletindo a complexidade e diversidade cultural de Angola para além dos centros urbanos. A guerra e o impacto social também são temas recorrentes, onde Carvalho analisa tanto as consequências das guerras coloniais e civis, quanto a forma como estas afetam a memória, a identidade e as relações sociais das comunidades locais. Nas suas narrativas, ele desconstrói narrativas oficiais e oferece uma visão crítica e reflexiva que integra história, cultura e política, constituindo um poderoso conjunto para entender Angola a partir das vozes e experiências dos seus povos tradicionais e das suas terras.
"não há tempo sem espaço e sem movimento,
é essa a condição de todas as percepções
e de todas as relatividades."
- Ruy Duarte de Carvalho, em "Vou lá visitar pastores".
"Ruy Duarte de Carvalho: Legado, Reconhecimentos e Influência Cultural"
Ruy Duarte de Carvalho teve um impacto notável na literatura angolana e africana, sendo considerado um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa. Recebeu reconhecimentos importantes, como o Prémio Literário Casino da Póvoa em 2008 pelo seu livro Desmedida - Luanda, São Paulo, São Francisco e volta. A sua obra multifacetada abarca poesia, ficção, antropologia e cinema, trazendo contribuições valiosas para os estudos culturais e antropológicos, especialmente na reflexão sobre identidades africanas, memória histórica, e o impacto da colonização e guerra.Seu trabalho teórico e prático em antropologia foi pioneiro em Portugal e Angola, sendo reconhecido pela originalidade e rigor científico, e influenciando a produção académica e cultural sobre Angola e a África contemporânea. Promoveu uma antropologia pós-moderna e pós-colonial, integrando múltiplos saberes e mostrando a riqueza das culturas locais sem cair em reducionismos. Sua influência atravessa gerações de investigadores, escritores e cineastas, consolidando um legado cultural e intelectual essencial para a compreensão da África lusófona
Num mapa
desdobrado para ti,
eu marcarei
as rotas
que sei já
e quero dar-te:
o deslizar de um gesto,
a esteira fumegante
de um archote
aceso,
um tracejar
vermelho
de pés nus,
um corredor aberto
na savana,
um navegável
mar de plasma
quente. (A decisão da idade)
"A Gravação do Rosto: Poema de Ruy Duarte de Carvalho"
A gravação do rosto
Na superfícia branca do deserto
na atmosfera ocre das distâncias
no verde breve da chuva de Novembro
deixei gravado meu rosto
minha mão
minha vontade e meu esperma;
prendi aos montes os gestos de entrega
cumpri as trajectórias do encontro
gravei nas águas a fúria da conquista
da devolução do amor.
Os calcários e os granitos desta terra
foram por mim pesados.
Dei-lhes afagos
leves olhares
insónias longas
impacientes esperas.
- Ruy Duarte de Carvalho, em "Chão de oferta"
O poema "A gravação do rosto" de Ruy Duarte de Carvalho, presente na coletânea Chão de Oferta (1972), é um dos seus textos mais emblemáticos e representa uma profunda ligação entre o eu poético, a terra e a identidade angolana. O poeta fala da sua marca deixada na paisagem, como se tivesse gravado o seu rosto, mãos, vontade e esperma em elementos da natureza, simbolizando a sua entrega total à terra, à cultura e à memória do país.Este poema traduz a conexão íntima e indissociável entre o sujeito e a sua terra natal, manifestando nas suas imagens poéticas a força da história, da conquista, do amor e da pertença. O uso de elementos naturais como o deserto, as águas e as pedras reforça o simbolismo da terra e da geografia enquanto partes vivas da identidade do poeta e do seu povo. "A gravação do rosto" é um poema que une dimensão pessoal, histórica e política, revelando a poética inovadora de Ruy Duarte de Carvalho, que atravessa a poesia, a antropologia e o cinema, oferecendo um olhar sensível e crítico sobre Angola.
Canção de guerra - Origem Kwanyama O covarde ficou
voltou para trás
agiu de acordo com a mãe.
De nós porém
bravos homens
muitos morreram
porque lutaram.
(chora a hiena chora a hiena chora)
O nosso camarada jaz no chão
não dormirá conosco.
Ali o deixamos
pernas e pés na berma da estrada
a cabeça tombada
no meio da rama.
Soldados de Nekanda
conquistadores de gado para Hayvinga
filho de Nasitai:
somos rivais em casa
pelas mulheres.
Na guerra, na floresta
somos da mesma mãe
Canção de guerra - Origem Kwanyama
A Canção de Guerra - Origem Kwanyama de Ruy Duarte de Carvalho é um poema que fala da coragem e do sacrifício dos guerreiros Kwanyama, descrevendo a tensão e o conflito entre os combatentes. Ele aborda o tema da bravura, lembrando os camaradas que caíram na luta, e destaca a rivalidade entre grupos dentro do mesmo povo, reforçando a complexidade das relações humanas em tempos de guerra.Este poema está incluído no livro Ondula, Savana Branca (1982), uma obra em que Carvalho reúne versões, derivações e reconversões de expressões orais africanas, especialmente das culturas do sul de Angola, que traduziu poeticamente para a língua portuguesa. O livro é um clássico da literatura angolana e um exemplo da valorização da oralidade e da cultura local na
"Entre Mito e Realidade: A Obra de Ruy Duarte de Carvalho"
Helena Borralho
Created on August 20, 2025
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"Entre Mito e Realidade: A Obra de Ruy Duarte de Carvalho"
1941-2010
"Ruy Duarte de Carvalho: Vida, Formação e Influências Culturais"
Ruy Duarte de Carvalho nasceu em Santarém, Portugal, a 22 de abril de 1941, e passou a infância em Moçâmedes, Angola. Após curso técnico em regência agrícola, trabalhou em Moçâmedes na agricultura e pecuária, antes de se mudar para Lourenço Marques (atual Maputo) em 1971, onde foi chefe de produção numa fábrica de cerveja. Em 1972 partiu para Londres para estudar realização de cinema, voltando depois para Angola para trabalhar na Televisão Popular de Angola como realizador. Em 1983 adquiriu nacionalidade angolana.Do ponto de vista académico, doutorou-se em Antropologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris. Conciliou cinema, escrita e ensino universitário, tendo lecionado na Universidade de Luanda, além de períodos como professor convidado na Universidade de Coimbra e Universidade de São Paulo, também tendo sido investigador convidado em Berkeley.
"Sei o que se passa na cabeça de um animal." — frase que mostra sua sensibilidade para os modos de ser e sentir dos povos e animais com quem conviveu, especialmente os pastores kuvale.
"Ruy Duarte de Carvalho: Vida, Formação e Influências Culturais"
Culturalmente, foi influenciado pela realidade angolana, especialmente do sul do país e dos povos pastorais, como os Kuvale, tema central da sua etnografia e cinema etnográfico. Essa ligação ao espaço e às culturas locais evocou tradições, nomadismos e uma reflexão interdisciplinar entre literatura, cinema e antropologia, influenciada pelo ambiente multicultural e pós-colonial africano. A sua obra reflete uma posição crítica, artística e científica, marcada pela experiência vivida entre Angola, Namíbia e outros contextos lusófonos e internacionais.
"Venho de um sul medido claramente em transparência de água fresca de amanhã. De um tempo circular liberto de estações. De uma nação de corpos transumantes..."
"Contexto Histórico e Geográfico de Angola e a Cultura Kuvale"
Durante a vida de Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010), Angola passou por um contexto histórico muito complexo, iniciando-se sob domínio colonial português até a independência em 1975, quando se iniciou uma longa guerra civil marcada por conflitos entre os principais movimentos políticos (MPLA, FNLA, UNITA) e a intervenção de potências estrangeiras. O país viveu profundos conflitos militares e sociais durante várias décadas, incluindo a luta contra o colonialismo, a independência e a posterior guerra civil.A região do Kuvale, no sul de Angola, é de grande importância cultural e histórica, sendo o território tradicional deste grupo étnico pastoril. Os Kuvale resistiram intensamente à dominação colonial portuguesa, sendo considerados insubmissos e rebeldes, com grande influência socioeconómica baseada na criação de gado. No século XX, foram o último reduto de povos livres no território sob domínio colonial, enfrentando campanhas de pacificação, guerras locais e repressão. A sua cultura pastoral e modos de vida tradicionais foram fortes elementos de resistência perante a colonização e as pressões externas. Ruy Duarte de Carvalho dedicou parte substancial do seu trabalho antropológico e etnográfico ao estudo dos Kuvale, refletindo a sua vida, cultura e os desafios pelos quais passaram historicamente dentro do contexto mais amplo da formação política e social de Angola no século XX.
"No meu caso, foi a poesia... uma 'alma' angolana, a tal que viria a ajudar a 'razão' angolana a vencer o colonialismo português." — sobre o poder da poesia na sua identidade e luta cultural.
"Ruy Duarte de Carvalho:A Trajetória entre Literatura e Antropologia"
Ruy Duarte de Carvalho iniciou sua carreira profissional em setores ligados à agricultura e pecuária em Angola, passando depois a estudar realização de cinema em Londres (1972). Após esse período, trabalhou como realizador na Televisão Popular de Angola e desenvolveu um importante percurso como cineasta com longas-metragens como "Nelisita: narrativas nyaneka" (1982). Paralelamente, aprofundou sua formação académica, obtendo o doutoramento em Antropologia na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em Paris.A partir de 1976, conciliou a escrita, o cinema e o ensino na Universidade de Luanda, além de lecionar posteriormente em várias instituições internacionais. Publicou poesia, ficção, ensaios e obras etnográficas, sendo uma referência na literatura de língua portuguesa e antropologia africana.
"Os poderes actuais herdaram dos poderes coloniais não só o lugar de decisão mas também o ângulo da visão. E nem a cena podia ser outra, porque afinal os instrumentos cognitivos que uns e outros utilizaram e utilizam, independente da forma como o fizeram ou fazem, são os mesmos (as elites a quem foi transmitido o poder – de uma maneira ou de outra – foram, naturalmente, as mais ocidentalizadas. Como se o ocidente tivesse estendido um espelho à África no qual os africanos são hoje obrigados a ver-se)." Ruy Duarte de Carvalho, em "A câmara, a escrita e a coisa dita... fitas, textos e palestras"
"Ruy Duarte de Carvalho: Entre a Literatura, a Antropologia e o Cinema em Angola"
Ruy Duarte de Carvalho foi um autor multifacetado cuja obra abarca literatura, antropologia e cinema, refletindo a complexidade cultural e histórica de Angola. Na ficção, destacam-se os seus romances, contos e poemas, onde utiliza uma narrativa híbrida e não linear, atravessada por temas de identidade, memória, política e a ligação profunda ao espaço do sul angolano. Obras como "Os filhos de Próspero" exemplificam esta escrita fragmentada e simbólica, que rompe com convenções tradicionais para revelar a experiência angolana de forma inovadora e poética.A sua produção antropológica é igualmente fundamental, com ensaios e etnografias que exploram a cultura dos Kuvale, grupo pastoral do sul de Angola. Em trabalhos como "Vou lá visitar pastores", Carvalho documenta detalhadamente o quotidiano, as crenças e as relações sociais destes povos, fundindo um olhar crítico e filosófico com experiências pessoais e um compromisso ético para com as comunidades estudadas. Esta antropologia pós-colonial é marcada por uma recusa dos paradigmas oficiais ocidentais, dando voz às culturas e narrativas locais de forma sensível e rigorosa. No domínio do cinema, Carvalho produziu filmes que capturam a diversidade cultural angolana com um enfoque nas realidades periféricas, fora dos centros oficiais de poder. Filmes como "Presente Angolano" e "Nelisita" refletem um olhar poético e antropológico, valorizando a oralidade, as tradições e a vida quotidiana. Este cinema prova a sua capacidade de dialogar entre formas artísticas e científicas, expandindo o seu universo de intervenção para além da palavra escrita. A interseção destas linguagens — literária, antropológica e visual — faz da obra de Ruy Duarte de Carvalho um retrato multifacetado e profundo de Angola, onde se combinam criatividade artística e rigor académico para o conhecimento e a valorização cultural.
"[...] partindo da poesia e entrando pela antropologia adentro pela ponte do cinema, e deixando que a antropologia, por sua vez, me catapultasse para a ficção que ando finalmente a arriscar... Se foi a poesia, passando pela ponte do cinema, que me transportou à antropologia, à apreensão fundamentada no conhecimento dito objetivo disponível sobre a substância humana com que a vida me implicou, foi a antropologia – embora sem programa prévio mas sempre como via também de expressão e de intervenção – que me transportou à ficção…" - Ruy Duarte de Carvalho, em "A câmara, a escrita e a coisa dita... fitas, textos e palestras"
Adoço-te as costas com licor de acácia. Espremo-te os rins: um favo de dem-dém. Vou fundo em ti feroz e oiço-te um ai: faz eco em mim a voz do meu país in-tacto. Ruy Duarte de Carvalho, em "Chão de oferta"
"Chão de Oferta (1972): O Início da Voz Poética de Ruy Duarte de Carvalho"
Chão de Oferta (1972) é o primeiro livro de poesia publicado por Ruy Duarte de Carvalho, em Luanda, pela Editorial Culturang. A obra valeu-lhe o Prémio Motta Veiga de Poesia e assinala o início da sua carreira literária. É um trabalho fundamental não só pela força poética, mas também pelo olhar atento às marcas da paisagem africana, à identidade e à memória histórica angolana.Esta coletânea revela já o traço do autor: imagens fortes da terra, da ancestralidade e da vida quotidiana, trabalhando temas como o exílio, a pertença e a transformação — tópicos recorrentes em toda a sua produção. Alguns poemas, como "A gravação do rosto" e "A terra que te ofereço", são hoje considerados marcas da modernidade poética angolana, pelo modo como dialogam com a paisagem física e emocional da Angola pós-colonial. Chão de Oferta é, por isso, um marco na poesia lusófona africana, inaugurando um percurso literário que cruza poesia, antropologia e cinema.
O poema utiliza imagens tanto sensuais como telúricas, cruzando o corpo e a terra – “Adoço-te as costas / com licor de acácia” –, para explorar temas de amor, pertença e identidade nacional. No verso “faz eco em mim / a voz / do meu país in-tacto”, revela-se a íntima ligação entre o eu poético e Angola, realçando que, através da experiência física e afetiva, ecoa também a história e a memória do país.
Chagas de salitre Olha-me este país a esboroar-se em chagas de salitre e os muros, negros, dos fortes roídos pelo vegetar da urina e do suor da carne virgem mandada cavar glórias e grandeza do outro lado do mar. Olha-me a história de um país perdido: marés vazantes de gente amordaçada, a ingénua tolerância aproveitada em carne. Pergunta ao mar, que é manso e afaga ainda a mesma velha costa erosionada. Olha-me as brutas construções quadradas: embarcadouros, depósitos de gente. Olha-me os rios renovados de cadáveres, os rios turvos do espesso deslizar dos braços e das mães do meu país. Olha-me as igrejas restauradas sobre ruínas de propalada fé: paredes brancas de um urgente brio escondendo ferros de educar gentio. Olha-me a noite herdada, nestes olhos de um povo condenado a amassar-te o pão. Olha-me amor, atenta podes ver uma história de pedra a construir-se sobre uma história morta a esboroar-se em chagas de salitre. - Ruy Duarte de Carvalho, em "A decisão da idade"
"A Decisão da Idade: Reflexões Poéticas de Ruy Duarte de Carvalho"
A Decisão da Idade é um livro de poemas publicado por Ruy Duarte de Carvalho em 1976 pela União dos Escritores Angolanos. Este conjunto de poemas é caracterizado por uma reflexão sobre o amadurecimento, a experiência vivida e a consciência política e existencial. A obra é uma continuidade da sua produção poética que alia elementos líricos a uma profunda análise da história, cultura e identidade angolanas.Entre os poemas presentes, destaca-se um trabalho que explora a passagem do tempo, as transformações pessoais e sociais, muitas vezes fundindo prosa e verso para ampliar a expressividade e intensidade lírica. O livro tem um caráter meditativo, em que o sujeito poético busca no percurso da vida e nas decisões tomadas o sentido da sua existência e das suas raízes.
O poema "Chagas de salitre" de Ruy Duarte de Carvalho é uma denúncia poética que retrata a degradação e o sofrimento do país (Angola), utilizando a imagem das “chagas de salitre” para simbolizar as feridas abertas na terra e na história. O poema fala da destruição, da exploração e da opressão, evocando uma paisagem marcada por muros corroídos, rios renovados de cadáveres e uma fé dilacerada, representando o peso da colonização e da guerra. É um texto forte que associa a história e o presente da nação a imagens de dor e esperança.
A explicação do cacto . Um cacto reservado acrescenta lateral o seu crescer como se fora um cancro em feminino sexo. Emite um espinho novo que anuncia O altear suave da excrescência-mãe. Impele o corpo à volta, a modelar-se em bordos. Depois adere à pele e funde-lhe os contornos. Promove inchaços para expandir raízes. Da inocência vegetal da posse medida em seus segredos de expansão um cacto aufere a graça de acrescentar-se em escamas de silêncio. Conquista assim razões para a vocação que o determina. A vocação do cacto: fundir-se em carne e prosperar em gomos. A explicação do cacto: a mineral tendência para sentir-se imóvel. O fascínio do cacto: a carne imóvel exposta aos apetites. A imobilidade do cacto enfrenta o quanto sabe da curva das pressões e da língua dos ventos quando encrespa as águas.
"Exercícios de Crueldade: A Poética da Dor e da Resistência"
Exercícios de Crueldade é um livro de poemas publicado por Ruy Duarte de Carvalho em 1978, pela editora & Etc., em Lisboa. Com 65 páginas, esta obra prossegue a trajetória poética do autor marcada por lirismo, reflexão profunda e crítica social, centrando-se na memória da guerra, dor e dureza do destino. Segundo análises, o livro destaca a crueldade como tema, manifestada tanto em conflitos exteriores quanto nas lutas internas do sujeito poético, envolvendo uma busca constante pela palavra e expressão capaz de incomodar e refletir sobre o mundo.
O poema "A explicação do cacto" de Ruy Duarte de Carvalho é um texto emblemático que usa a figura do cacto para explorar temas de resistência, imobilidade e adaptação, numa metáfora densa sobre a vida, a dureza e a persistência diante das adversidades. Ele faz parte da coleção poética de Carvalho, comummente associada ao livro Exercícios de Crueldade (1978), onde o autor explora a crueldade da guerra e da existência com metáforas poderosas e imagens precisas. O poema foca no crescimento discreto, porém inevitável, do cacto, sua vocação para estar imóvel mas ao mesmo tempo resistir e prosperar, contrapondo a dureza mineral à vitalidade da carne.
Sinais Misteriosos... Já se Vê...: A Experiência Poética e Visual de Ruy Duarte de Carvalho"
A obra Sinais Misteriosos... Já se Vê... (1980) de Ruy Duarte de Carvalho é uma peça literária e artística singular que encontra sua força na convergência da poesia, do texto experimental e da estética visual. Este livro dialoga intimamente com as culturas e tradições da etnia Mumuíla, do sul de Angola, refletindo a profunda imersão do autor em contextos antropológicos e cinematográficos.A obra é marcada por um forte componente gráfico, com desenhos e signos que acompanham o texto, promovendo uma leitura que ultrapassa as fronteiras da escrita tradicional para incluir o campo da imagem e do símbolo. Boa parte dela nasce da experiência cinematográfica de Carvalho, refletindo os “sinais misteriosos” da vida, da história e da memória, que começam a se revelar (“já se vê...” no título) através de uma escrita quase ritualística e visual. Esse livro situa-se num ponto de intersecção da literatura, da etnografia e da arte visual, sendo uma manifestação da poética interdisciplinar de Ruy Duarte de Carvalho, na qual se valoriza o olhar sensível e crítico sobre a cultura angolana, o passado e os processos de transformação social. Além disso, a obra recebeu reconhecimento internacional, destacando-se pela inovação estética numa altura em que a literatura africana de língua portuguesa também buscava se reinventar.
"Sinais misteriosos... já se vê... a palavra que se forma, o traço que se desenha, o corpo que se revela."
"Ondula, Savana Branca: Vozes e Memórias da África Oral"
Profecia de Nakulenga (Origem Kwanyama) Algo de estranho se agita nas águas algo de estranho se arrasta na terra. Era longe, ficou perto, agora é cá. E o povo já foge. Talvez até caia um pau de omuhama na estrada a indicar que para o rei a morte vai chegar a vida é breve. Eles vêm de um país muito distante e trazem para dizer coisas diferentes que é preciso avaliar com atenção. Cruzava o país e dos nobres eu via os ricos currais. Renovo a viagem e que vejo agora? Dos nobres agora não vejo os currais mas vejo dos brancos suas construções. Ruy Duarte de Carvalho, em "Ondula, savana branca".
O livro Ondula, Savana Branca (1982) de Ruy Duarte de Carvalho é uma obra que reúne versões, derivações e reconversões de expressões orais africanas, especialmente da cultura do sul de Angola, onde o autor viveu e pesquisou profundamente. A obra é marcada pela transposição poética de cantos, rituais e tradições dos povos pastorais, como os Kuvale, com foco nas vozes, histórias e imagens do cotidiano desses grupos.Este trabalho é considerado um clássico da literatura angolana e da poesia africana de língua portuguesa. O autor traduziu e reelaborou de forma poética manifestações orais para a língua portuguesa, preservando a força expressiva e simbólica dos originais. A obra dialoga com temas de guerra, ancestralidade, memória e pertencimento à terra, refletindo a experiência pessoal e antropológica de Carvalho.
O poema Profecia de Nakulenga de Ruy Duarte de Carvalho, originário do povo Kwanyama, é um texto que traz uma forte carga simbólica e profética. Ele fala de sinais estranhos que agitam a terra e as águas, aponta para uma morte iminente do rei, e descreve uma realidade em transformação, com críticas à mudança no poder e às construções dos colonizadores. O poema reflete um cenário de tensão e deslocamento, onde o povo foge e as tradições são abaladas, destacando a brevidade da vida e a necessidade de prestar atenção às mensagens recebidas.
Noção geográfica A esses que me perguntam donde lhes vem a direcção escolhida e são apenas a direcção lançada ao centro indefinido da razão; e que empunham as armas sem saber razão fundamental para o seu uso; e que indecisos se erguem para indagar a que futuro apontam elevo a voz para dizer das múltiplas razões para uma entrega ao tempo de partir e edificar as naves de arremesso e construir uma nação sem muros onde se expanda o eco da alegria cavada em vossos peitos pelo resgatar dos corpos e da cor de encontro à bruma que ficou contida entre os dois tempos de uma manhã morta adonde nos jazia a decisão e atônitos olhávamos os dias perdidos entre a noite e sem saber-lhe o fim. - Ruy Duarte de Carvalho, em "Lavra: poesia reunida 1970-2000"
"Lavra: Poética e Memória na Poesia Reunida de Ruy Duarte de Carvalho"
O livro Lavra (poesia reunida 1972-2000) de Ruy Duarte de Carvalho foi publicado em 2005 pela editora Cotovia, em Lisboa. Esta coletânea reúne a produção poética do autor ao longo de quase três décadas, contemplando obras e poemas dos seus primeiros livros até o ano 2000.A obra é uma síntese do percurso lírico e temático de Carvalho, incluindo seus principais temas como a ligação profunda com a terra angolana, a memória, a identidade, a oralidade e a escrita, além dos conflitos históricos e sociais que marcaram o país. Essa reunião permite ver a evolução da voz poética do autor e suas experimentações estéticas, incluindo a integração de elementos visuais e tipográficos. Por reunir um vasto conjunto de seu trabalho poético, Lavra é essencial para quem deseja compreender o universo literário e cultural do autor em sua amplitude e profundidade.
O poema Noção Geográfica de Ruy Duarte de Carvalho aborda o espaço e o sentido da direção, ligando o olhar poético à experiência da terra e aos “corpos transumantes” de Angola, especialmente do sul, região que marcou profundamente sua obra. O poema fala da percepção justa do espaço, das forças que o sustentam, como o norte, o mar e o sul magnético, que representam experiências simbólicas, culturais e históricas.Nessa obra, Ruy Duarte articula geografia e identidade, mostrando o espaço não apenas como um local físico, mas como território cheio de significado, memória e culturalidade. Ele utiliza a poesia como instrumento de travessias e atravessamentos culturais, linguísticos e espaciais, reforçando a ideia da poesia como um tempo e espaço em permanente renovação, marcado pelo eterno retorno e pela construção contínua do sujeito e do mundo.
"Obras Literárias de Ruy Duarte de Carvalho: Poesia, Ficção e Narrativa"
"Obras Literárias de Ruy Duarte de Carvalho: Poesia, Ficção e Narrativa"
“Chegámos à Pedra do Tambor, onde pernoitaríamos antes de atravessar o Kuroka e entrar no parque na manhã seguinte, já a noite vinha vindo. Com ela a aragem fria de uma brisa rasteira. É aquela hora que arrepanha a alma e é sempre breve, mas bastante, assim. É a hora que estrangula a digestão das horas, o programa das rotas, a ordem das tarefas, o compromisso, a lei. A incidência derradeira daquela luz directa recolhia-a de costas para o poente, a ver estender-se a sombra da pedra a que encostava, a da margem de espinheiras que acompanhava o curso de um declive que de outra forma não se anunciava, o reflexo àquela hora, do ocre dessas ilhas, cónicos puzzles de blocos de granito, acumulados juntos e a formar alturas, a emergir do mar dos pastos, vastos, vastos, do lençol do chão, e a púrpura difusa de uma curva escarpa, muito mais ao longe, a leste, altitude de platôs, matriz de migrações. E vinha também a lua. É disto que se faz a emoção.”
excerto do livro "Os Papéis do Inglês" (2000) de Ruy Duarte de Carvalho
"Ruy Duarte de Carvalho: Entre o Cinema e a Antropologia na Construção da Cultura Angolana"
O livro Os Papéis do Inglês de Ruy Duarte de Carvalho foi escrito entre 1999 e 2000 e publicado em 2000 pela editora Cotovia. Trata-se de uma narrativa breve, mas de grande impacto, que inventa completamente a história de um inglês, Archibald Perkins, que em 1923 se suicidou no Kwando, depois de matar tudo à sua volta, conforme uma crónica sucinta de Henrique Galvão.Esta obra insere-se num registo híbrido entre o epistolar, o historiográfico e o memorialista. A narrativa é contada na primeira pessoa e dirigida a uma mulher interlocutora, na qual o narrador-investigador vai atrás do rasto do inglês, numa incursão pela Angola profunda e pela Namíbia, tentando desvendar o mistério dos papéis deixados por este personagem. O romance destaca-se como um dos maiores exemplares do romance colonial, propondo uma nova visão sobre a história de Angola e questionando o imaginário viciado sobre o continente africano. Neste livro, Carvalho mistura elementos literários, filosóficos, etnográficos e poéticos, dialogando com a memória coletiva, o poder, a identidade e a complexidade das relações coloniais. Foi o primeiro volume da trilogia literária Os Filhos de Próspero, que inclui também As Paisagens Propícias (2005) e A Terceira Metade (2009). O livro serviu de base para a adaptação cinematográfica homónima, dirigida por Sérgio Graciano e estreada em 2024.
"Eu ando a ler os papéis do inglês como quem tenta compor um mapa de um território que não existe mais, um lugar feito de perdas e mistérios, onde o passado e o presente se confundem."
"Ruy Duarte de Carvalho: Trilhos de Luz e Memória"
Venho de um sul Eu vim ao leste dimensionar a noite em gestos largos que inventei no sul pastoreando mulolas e anharas claras como coxas recordadas em maio. Venho de um sul medido claramente em transparência de água fresca de amanhã. De um tempo circular liberto de estações. De uma nação de corpos transumantes confundidos na cor da crosta acúlea de um negro chão elaborado em brasa. Ruy Duarte de Carvalho, em "Chão de oferta"
"Vou caminhar em frente até que atinja o mar. Não este mar que vejo à retaguarda, donde nos vem a brisa laminar das tardes de setembro, mentor do céu de bruma que nos maninha o chão. Eu vou seguir em frente e ultrapassar o paredão das serras, a cortina das águas que na distância acende a redobrada angústia de uma possível esperança."
Cinema e Antropologia: O Legado Visual de Ruy Duarte de Carvalho
Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010) foi um dos maiores cineastas e antropólogos angolanos, cuja obra no cinema é marcada pela profunda ligação entre a representação visual e a pesquisa antropológica. Ao longo da sua carreira, Carvalho desenvolveu um conjunto de documentários e filmes que retratam com sensibilidade e rigor as culturas, tradições e modos de vida das comunidades do sul de Angola, destacando os povos pastorais e as suas relações com a terra, o tempo e a memória.Sua abordagem cinematográfica vai além do filme etnográfico tradicional, investindo numa estética poética e experimental que valoriza a oralidade, o mito e a dimensão simbólica das comunidades retratadas. Obras como a série documental Presente Angolano, Tempo Mumuíla (1977-1979) apresentam temas como rituais, festividades, crenças e conflitos, oferecendo uma reflexão sobre a tensão entre o tempo mítico dos povos locais e o tempo histórico contemporâneo. Esta série é composta por episódios que exploram desde cerimónias sagradas até o impacto das transformações sociais na região. No campo do cinema de ficção, diligenciou obras fundamentais como Nelisita (1982), filme falado em língua local nyaneka, que mescla a mitologia local com narrativas de resistência e sobrevivência, destacando-se pela sua originalidade e importância no cinema angolano. Outro destaque é o filme Moia: O Recado das Ilhas (1989), que aborda a questão da identidade cultural e da diáspora, com uma narrativa que integra as conexões entre Angola, Portugal e Cabo Verde. Mais recentemente, o projeto A Terceira Metade (livro de 2009 e adaptação cinematográfica em desenvolvimento) reflete a última grande obra de Carvalho, que articula literatura, antropologia e cinema para questionar paradigmas culturais e históricos, explorando o nomadismo e a memória como elementos centrais.
"Nelisita: A Ficção e a Tradição Oral no Cinema de Ruy Duarte de Carvalho"
O filme Nelisita (1982) é uma longa-metragem dirigida por Ruy Duarte de Carvalho. Filmado em preto e branco e falado na língua nyaneka, uma língua local do sul de Angola, o filme é baseado em duas narrativas orais ovamwila (um grupo agro-pastor da região). Ele traz uma história situada em meio à fome e guerra, onde apenas duas famílias sobrevivem. Um dos homens descobre que os alimentos são escondidos por espíritos e furtivamente os leva para sua família, mas acaba sendo descoberto, e os espíritos aprisionam todos, exceto uma mulher grávida que dará à luz Nelisita.Nelisita, o personagem-título, é aquele que se gerou a si mesmo, símbolo de resiliência e resistência. Ele enfrenta os espíritos, é submetido a provas e vence com o auxílio dos animais da criação, salvando sua gente e reconduzindo-a para casa. O filme reflete os conflitos, tradições e mitologias das populações locais e foi rodado em agosto de 1981 durante a invasão sul-africana, em meio à guerra civil angolana. Nelisita é considerado um dos trabalhos mais originais e emblemáticos do cinema angolano, reconhecido em vários festivais internacionais, e destaca-se por ser uma ficção filmada integralmente numa língua local, misturando elementos de documentário, ficção, mito e história.
"Contra o mal e os maus e os desconcertos do mundo, Nambalisita faz apelo aos animais todos da criação, seus irmãos, os seus rapazes, e até mesmo à criação inteira."
"Moia: O Recado das Ilhas – Identidade e Crioulidade no Cinema de Ruy Duarte de Carvalho"
O filme Moia: O Recado das Ilhas (1989) é uma coprodução entre Angola, França e Portugal, dirigido e escrito por Ruy Duarte de Carvalho e produzido por Paulo Branco. O filme, com cerca de 90 minutos, é falado em português e estreou mundialmente no Festival de Veneza em 1989.A narrativa gira em torno da experiência de uma jovem angolana que, durante uma viagem de regresso a Luanda desde Lisboa, faz uma parada nas ilhas de Cabo Verde, país de origem de sua mãe, em busca de suas raízes e identidade crioula. O filme explora a complexidade da identidade e das múltiplas ligações históricas, culturais e afetivas entre Angola, Portugal e Cabo Verde, incorporando elementos poéticos e dramáticos, assim como um interlúdio onírico com a encenação do conflito entre Próspero e Calibã da peça "A Tempestade" de Shakespeare. Moia é reconhecido pela sua profundidade cultural e estética, através de uma reflexão sobre a identidade crioula, o colonialismo e a diáspora, entrelaçando passado e presente, lugares e histórias.
"Somos todos filhos do vento, levados de uma ilha para outra, buscando raízes em terras que não nos pertencem."
"Percursos de Identidade e Memória: Mito, Realidade e Espaço nas Narrativas de Ruy Duarte de Carvalho"
Ruy Duarte de Carvalho explora profundamente temas como a identidade cultural e a memória histórica em Angola, especialmente em suas obras voltadas para as comunidades rurais e os povos pastorais do sul do país. Ele trabalha a relação entre mito e realidade, mostrando como as tradições orais, as histórias culturais e os mitos locais fazem parte integrada da identidade coletiva e da forma como as comunidades se percebem no tempo e no espaço.A representação do espaço rural em sua obra é marcada pela atenção às particularidades das paisagens, modos de vida e cosmovisões indígenas, principalmente dos Kuvale, refletindo a complexidade e diversidade cultural de Angola para além dos centros urbanos. A guerra e o impacto social também são temas recorrentes, onde Carvalho analisa tanto as consequências das guerras coloniais e civis, quanto a forma como estas afetam a memória, a identidade e as relações sociais das comunidades locais. Nas suas narrativas, ele desconstrói narrativas oficiais e oferece uma visão crítica e reflexiva que integra história, cultura e política, constituindo um poderoso conjunto para entender Angola a partir das vozes e experiências dos seus povos tradicionais e das suas terras.
"não há tempo sem espaço e sem movimento, é essa a condição de todas as percepções e de todas as relatividades." - Ruy Duarte de Carvalho, em "Vou lá visitar pastores".
"Ruy Duarte de Carvalho: Legado, Reconhecimentos e Influência Cultural"
Ruy Duarte de Carvalho teve um impacto notável na literatura angolana e africana, sendo considerado um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa. Recebeu reconhecimentos importantes, como o Prémio Literário Casino da Póvoa em 2008 pelo seu livro Desmedida - Luanda, São Paulo, São Francisco e volta. A sua obra multifacetada abarca poesia, ficção, antropologia e cinema, trazendo contribuições valiosas para os estudos culturais e antropológicos, especialmente na reflexão sobre identidades africanas, memória histórica, e o impacto da colonização e guerra.Seu trabalho teórico e prático em antropologia foi pioneiro em Portugal e Angola, sendo reconhecido pela originalidade e rigor científico, e influenciando a produção académica e cultural sobre Angola e a África contemporânea. Promoveu uma antropologia pós-moderna e pós-colonial, integrando múltiplos saberes e mostrando a riqueza das culturas locais sem cair em reducionismos. Sua influência atravessa gerações de investigadores, escritores e cineastas, consolidando um legado cultural e intelectual essencial para a compreensão da África lusófona
Num mapa desdobrado para ti, eu marcarei as rotas que sei já e quero dar-te: o deslizar de um gesto, a esteira fumegante de um archote aceso, um tracejar vermelho de pés nus, um corredor aberto na savana, um navegável mar de plasma quente. (A decisão da idade)
"A Gravação do Rosto: Poema de Ruy Duarte de Carvalho"
A gravação do rosto Na superfícia branca do deserto na atmosfera ocre das distâncias no verde breve da chuva de Novembro deixei gravado meu rosto minha mão minha vontade e meu esperma; prendi aos montes os gestos de entrega cumpri as trajectórias do encontro gravei nas águas a fúria da conquista da devolução do amor. Os calcários e os granitos desta terra foram por mim pesados. Dei-lhes afagos leves olhares insónias longas impacientes esperas. - Ruy Duarte de Carvalho, em "Chão de oferta"
O poema "A gravação do rosto" de Ruy Duarte de Carvalho, presente na coletânea Chão de Oferta (1972), é um dos seus textos mais emblemáticos e representa uma profunda ligação entre o eu poético, a terra e a identidade angolana. O poeta fala da sua marca deixada na paisagem, como se tivesse gravado o seu rosto, mãos, vontade e esperma em elementos da natureza, simbolizando a sua entrega total à terra, à cultura e à memória do país.Este poema traduz a conexão íntima e indissociável entre o sujeito e a sua terra natal, manifestando nas suas imagens poéticas a força da história, da conquista, do amor e da pertença. O uso de elementos naturais como o deserto, as águas e as pedras reforça o simbolismo da terra e da geografia enquanto partes vivas da identidade do poeta e do seu povo. "A gravação do rosto" é um poema que une dimensão pessoal, histórica e política, revelando a poética inovadora de Ruy Duarte de Carvalho, que atravessa a poesia, a antropologia e o cinema, oferecendo um olhar sensível e crítico sobre Angola.
Canção de guerra - Origem Kwanyama O covarde ficou voltou para trás agiu de acordo com a mãe. De nós porém bravos homens muitos morreram porque lutaram. (chora a hiena chora a hiena chora) O nosso camarada jaz no chão não dormirá conosco. Ali o deixamos pernas e pés na berma da estrada a cabeça tombada no meio da rama. Soldados de Nekanda conquistadores de gado para Hayvinga filho de Nasitai: somos rivais em casa pelas mulheres. Na guerra, na floresta somos da mesma mãe
Canção de guerra - Origem Kwanyama
A Canção de Guerra - Origem Kwanyama de Ruy Duarte de Carvalho é um poema que fala da coragem e do sacrifício dos guerreiros Kwanyama, descrevendo a tensão e o conflito entre os combatentes. Ele aborda o tema da bravura, lembrando os camaradas que caíram na luta, e destaca a rivalidade entre grupos dentro do mesmo povo, reforçando a complexidade das relações humanas em tempos de guerra.Este poema está incluído no livro Ondula, Savana Branca (1982), uma obra em que Carvalho reúne versões, derivações e reconversões de expressões orais africanas, especialmente das culturas do sul de Angola, que traduziu poeticamente para a língua portuguesa. O livro é um clássico da literatura angolana e um exemplo da valorização da oralidade e da cultura local na