"Arménio Vieira: Voz Poética e Jornalística da Identidade Cabo-Verdiana"
29 de janeiro de 1941
"Arménio Vieira: Um Poeta na Encruzilhada da História Cabo-Verdiana"
Arménio Vieira é um dos mais destacados poetas e escritores de Cabo Verde, nascido em 1941 na cidade da Praia, Ilha de Santiago. Figura de referência da literatura cabo-verdiana moderna, Vieira marcou o seu percurso com uma escrita inovadora, crítica e profundamente ligada à experiência insular e à construção da identidade pós-colonial do arquipélago.O contexto histórico-cultural da sua obra insere-se nas lutas de afirmação de Cabo Verde como nação após a independência de Portugal em 1975. A literatura cabo-verdiana deste período reflete não só os desafios do colonialismo e da diáspora, mas também as transformações sociais, políticas e linguísticas de um país insular em busca de voz própria. As obras de Arménio Vieira abordam temas como as cicatrizes do colonialismo, o desencanto, a vida urbana e as inquietações existenciais do sujeito cabo-verdiano, utilizando um estilo original que combina crítica irónica, reflexão filosófica e lirismo profundo.
Quiproquó
Há uma torneira sempre a dar horas
há um relógio a pingar no lavabos
há um candelabro que morde na isca
há um descalabro de peixe no tecto
Há um boticário pronto para a guerra
há um soldado vendendo remédios
há um veneno (tão mau) que não mata
há um antídoto para o suicído de um poeta
Senhor, Senhor, que digo eu (?)
que ando vestido pelo avesso
e furto chapéu e roubo sapatos
e sigo descalço e vou descoberto.
o poema é uma reflexão crítica e irónica sobre a condição humana, marcada por contradições, desafios e incertezas, utilizando imagens impactantes para transmitir sensações de desconcerto e fragilidade
"Infância e Juventude: As Raízes da Sensibilidade Literária de Arménio Vieira"
Arménio Vieira cresceu na cidade da Praia, em Cabo Verde, numa época marcada pela presença colonial portuguesa e pelas transformações sociais decorrentes dessa realidade. Sua infância e adolescência foram vivenciadas num ambiente cultural e social em que as tradições locais se misturavam com influências externas, principalmente portuguesas.Desde cedo demonstrou interesse pela literatura, tendo acesso à cultura através da leitura, o que influenciou profundamente sua formação intelectual e resposta crítica ao mundo que o cercava. A experiência de viver num arquipélago insular, com sua complexa identidade cultural e desafios sociais, marcou o seu olhar poético e literário, consolidando-se como tema central em sua obra. Sua educação formal levou-o a Lisboa para estudar Direito, onde entrou em contato com movimentos culturais e políticos que ampliaram sua visão crítica, sobretudo no contexto das lutas de libertação africanas e das transformações históricas da época. Esses anos de formação na juventude foram fundamentais para consolidar seu compromisso com a literatura de resistência e reflexão sobre a identidade africana de língua portuguesa
“A Morte é apenas uma consequência de coisas que a precedem – plantas e animais. Sendo assim, em tal peleja, entre o antecedente e o consequente, não existe um vencedor, mas sim um perdedor, cujo nome é a Vida.”
"Infância e Juventude: As Raízes da Sensibilidade Literária de Arménio Vieira"
Formou-se em Direito na Universidade de Lisboa e teve uma extensa carreira como jornalista, professor universitário, editor e escritor, destacando-se na literatura cabo-verdiana contemporânea. Além da poesia, Vieira também produziu crónicas e ensaios que exploram questões culturais, históricas e sociais de Cabo Verde e do universo lusófono.Sua obra reflete uma profunda ligação com a realidade social e política da sua terra natal, especialmente no contexto pós-colonial, enfatizando temas como a identidade, a diáspora, a resistência e a transformação cultural. Arménio Vieira é considerado uma das vozes mais importantes da literatura africana de expressão portuguesa, tendo recebido vários prémios literários ao longo da carreira, incluindo o Prémio Camões em 2020, o maior reconhecimento da língua portuguesa. Além da criação literária, teve papel ativo em instituições culturais e educacionais, contribuindo para a formação de novas gerações e a valorização da cultura cabo-verdiana.
“Não é bem assim, nós estamos vivos. – Provavelmente a sonhar. Uma vez que estão vivos, para quê um caixão? (...) Aplaudir também é linguagem, com uma grande vantagem – não cansa a cachimónia nem as cordas vocais.”
"A Geração de 1960 em Cabo Verde: Intelectuais, Luta Anticolonial e Formação da Identidade Nacional"
Regresso
Mamãe Velha, venha ouvir comigo
o bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
que vibra dentro do meu coração.
A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
que há tanto tempo não batia assim...
Ouvi dizer que a Cidade-Velha,
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim...
Dizem que o campo se cobriu de verde,
da cor mais bela, porque é a cor da esperança.
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança...
Venha comigo, Mamãe Velha, venha
recobre a força e chegue-se ao portão.
A chuva amiga já falou mantenha
e bate dentro do meu coração! Amílcar Cabral
A geração de 1960 em Cabo Verde, que participou ativamente na luta anticolonial contra o domínio português, é um marco importante para entender o contexto histórico e cultural que influenciou intelectuais e escritores, como Arménio Vieira. Esta geração esteve imersa num ambiente de contestação política e busca pela independência, liderada em grande parte pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), fundado por Amílcar Cabral, que articulava esforços para libertar tanto a Guiné-Bissau quanto Cabo Verde.Arménio Vieira, nascido em 1941, cresceu num contexto de efervescência política e social, e sua obra literária reflete o impacto dessa luta pela identidade e liberdade. Embora não fosse um combatente direto nas frentes de batalha, Vieira incorporou em sua poética a experiência da diáspora, o desencanto colonial e a resistência cultural, dando voz às gerações que viveram o colonialismo e a transição para a independência. Sua poesia dialoga com o contexto da geração de 1960, mostrando o sofrimento, a esperança e a complexidade do processo de descolonização e construção da identidade cabo-verdiana pós-independência. Além disso, Vieira contribuiu para preservar a memória e os valores culturais dessa época nas suas crónicas e na sua participação em atividades culturais e educativas após a independência. Ele é uma referência para compreender o papel da literatura como instrumento de resistência e afirmação cultural em Cabo Verde, representando o espírito crítico e a profundidade reflexiva da geração que enfrentou o colonialismo.
"A Influência de Arménio Vieira no Jornalismo Cabo-Verdiano: Voz Crítica e Cultural"
Arménio Vieira teve uma carreira jornalística significativa que complementou sua trajetória literária e cultural em Cabo Verde. Atuou como jornalista em diversos meios de comunicação, contribuindo para a difusão cultural, crítica social e promoção da identidade cabo-verdiana.Sua atuação no jornalismo foi marcada por um compromisso com a denúncia das injustiças sociais, a valorização da cultura local e o aprofundamento do debate político, especialmente durante o período pós-independência. Vieira usou o jornalismo como espaço para ampliar a voz dos movimentos culturais e sociais, tornando-se uma figura influente na construção da narrativa nacional. Além disso, participou ativamente de revistas e jornais importantes em Cabo Verde, onde suas colunas e artigos discutiam temas variados, desde política até literatura, reforçando seu papel como um formador de opinião e intelectual público. Essa experiência jornalística teve impacto duradouro no jornalismo cabo-verdiano, ajudando a moldar uma imprensa comprometida com a justiça social e a identidade cultural do arquipélago.
"Um poema é uma casa que o vento não derruba, mas o silêncio pode fazer ruir."
Temas Principais na Obra Literária de Arménio Vieira
Arménio Vieira é um dos maiores poetas e escritores de Cabo Verde, cuja obra literária é marcada por uma profunda reflexão sobre a identidade cabo-verdiana e a experiência da diáspora. Um dos temas mais recorrentes na sua escrita é a busca pelas raízes culturais e a complexidade da vivência em territórios colonizados e pós-coloniais. A sua poesia frequentemente explora a sensação de deslocamento, o confronto entre culturas e a tentativa de resgatar tradições esquecidas, realçando a riqueza e a diversidade do legado cabo-verdiano.Outro eixo central na obra de Vieira é a luta contra o colonialismo e o seu legado de exclusão e opressão. A crítica social e política está presente em muitos dos seus textos, onde expõe as injustiças históricas e as contradições do processo de libertação e construção nacional. Esta dimensão reforça o compromisso do autor com a memória coletiva e a resistência cultural, valorizando a narrativa dos subalternos e dos marginalizados. Além disso, Vieira investiga a condição humana numa perspetiva existencial e filosófica, abordando temas como a vida, a morte, o amor e a criação artística. A sua poética recorre a símbolos poderosos e a figuras mitológicas para criar um espaço onde o real e o fantástico se cruzam, refletindo as tensões entre luz e sombra, ordem e caos. Imagens como o xadrez, labirintos e personagens monstruosas são usadas para explorar dualidades e metamorfoses, estabelecendo uma intertextualidade rica que dialoga com autores clássicos e contemporâneos. Por fim, a obra de Arménio Vieira é um exemplo de literatura-mundo, que ultrapassa fronteiras locais para integrar uma poética universal. O seu trabalho é considerado uma “alquimia poética do infernal”, onde o insólito e o terrífico coexistem com uma profunda crítica social, contribuindo para a humanização do mundo através da arte literária. Este conjunto de temas faz de Arménio Vieira um autor singular da literatura africana de expressão portuguesa, cuja obra permanece atual e essencial para compreender a dinâmica cultural, histórica e social de Cabo Verde e da lusofonia em geral
"Bibliografia Selecta: Livros Publicados de Arménio Vieira"
"Obra Literária de Arménio Vieira:Livros Publicados e Contribuições"
Ser tigre
O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.
Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.
Ele busca a fêmea
como quem procura comida.
Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.
Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.
Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.
Não soa,
porque não respira.
É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.
Não tem forma,
é quase nada, parece morto. Porém existe, por isso espera.
Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,
Ele será
quando for tempo disso.
Arménio Vieira é o primeiro escritor cabo-verdiano a receber o Prémio Camões, o mais prestigioso galardão da literatura em língua portuguesa, que lhe foi atribuído em 2009. Este prémio reconhece a importância da sua obra poética e literária, destacando sua capacidade de dialogar com os clássicos e inserir-se na modernidade. A comissão julgadora salientou a sua visão humanista e o universo simbólico presente na sua poética, onde o particular cabo-verdiano se funde com um carácter universal.lém do Prémio Camões, Arménio Vieira é amplamente reconhecido como uma voz essencial na literatura africana de expressão portuguesa, contribuindo também como jornalista e ensaísta. Sua obra inclui livros importantes como “Poemas” (1981), “O Eleito do Sol” (1989), “No Inferno” (1999), “MITOgrafias” (2006) e “O Poema, a Viagem, o Sonho” (2009). O reconhecimento do Prémio Camões não apenas exaltou Arménio Vieira como indivíduo, mas também destacou a riqueza e a qualidade da literatura cabo-verdiana, abrindo portas para maior divulgação internacional da produção literária do arquipélago. O prémio é uma homenagem à literatura em língua portuguesa, reajustando sua universalidade e diversidade cultural em contextos africanos, brasileiros e portugueses.
"Arménio Vieira: Vida, Obra e Poesia do Conde da Sátira Crioula"
Isto é que fazem de nós
E perguntam-nos:
- sois homens?
Respondemos:
- animais de capoeira.
Dizem-nos:
- bom dia.
Pensamos:
lá fora...
Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
- estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
- dormimos.
Este poema utiliza a metáfora dos "animais de capoeira" e a resposta das "galinhas" para expressar uma crítica profunda à condição humana marcada por opressão, alienação e sobrevivência resignada.
"Arménio Vieira: Vida, Obra e Poesia do Conde da Sátira Crioula"
Isto é que fazem de nós
E perguntam-nos:
- sois homens?
Respondemos:
- animais de capoeira.
Dizem-nos:
- bom dia.
Pensamos:
lá fora...
Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
- estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
- dormimos.
Este poema utiliza a metáfora dos "animais de capoeira" e a resposta das "galinhas" para expressar uma crítica profunda à condição humana marcada por opressão, alienação e sobrevivência resignada.
"Canto Final Final ou Agonia duma Noite Infecunda" Como a flor cortada rente e desfolhada
ou os olhos vazados da criança
e o seu fio de pranto tênue e impotente
assim a noite caminha com os astros todos em vertigem
até que se atinge o ponto da mudez
a pesada mó triturando a sílaba
a garganta com as cordas dilaceradas
e uma lâmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida
Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro
tanto assim que a flor desfeita
não embala o coração do poeta
oh não
porque a flor defunta
se voa
não sobe nunca
e só dura
o espaço breve duma nota
Assim o canto se detém imóvel
como se da flauta
falhando súbito
na boca do poeta
ficasse o hiato
ou a saliva
de um tempo devassado por insectos cor de cinza
A voz suspensa e negada
cede a vez à letra amorfa
inscrita no silêncio
com seu peso
de chumbo e olvido
acaba o poema
e um ponto final selando tudo.
"Canto Final Final ou Agonia duma Noite Infecunda: Poema de Arménio Vieira"
O poema "Canto Final Final ou Agonia duma Noite Infecunda" é uma obra de Arménio Vieira e trata-se de um texto intenso que reflete temas como o sofrimento, o silêncio, a morte simbólica e a luta pela expressão poética, com imagens fortes e referências ao desgaste interior e exterior.
Este poema é parte do conjunto da sua obra poética, e aparece citado em várias antologias e análises da sua produção.
"Construção na Vertical: O Poema-arquitetura de Arménio Vieira"
Construção na Vertical Com pauzinhos de fósforo
podes construir um poema.
Mas atenção: o uso da cola
estragaria o teu poema.
Não tremas: o teu coração,
ainda mais que a tua mão,
pode trair-te. Cuidado!
Um poema assim é árduo.
Sem cola e na vertical, pode levar uma eternidade.
Quando estiver concluído,
não assines, o poema não é teu.
Este poema é uma metáfora sobre a fragilidade e a complexidade da construção poética, destacando a delicadeza necessária no processo criativo, onde a emoção pode trair o gesto da mão. Também sugere que a criação poética é algo coletivo ou maior do que o próprio autor.
Lisboa – 1971
A Ovídio Martins e Oswaldo Osório
Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela
Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d'onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.
Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.
E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno.
"Lisboa – 1971: Vozes e Desencantos na Poesia de Arménio Vieira"
Oswaldo Osório
Ovídio Martins
O poema é "Lisboa – 1971", uma homenagem de Arménio Vieira a Ovídio Martins e Oswaldo Osório. Este poema reflete a experiência dos africanos deslocados em Lisboa no contexto colonial, marcado pela exclusão, pela sensação de não pertença e pelo desencanto com o "coração do Império". A narrativa poética usa imagens fortes para expressar a condição dos migrantes e enfatiza a esperança que o tempo pode trazer para transformar essa realidade.
"A linguagem é um campo de batalha onde o presente se discute e o futuro se decide."
"Arménio Vieira: Voz Poética e Jornalística da Identidade Cabo-Verdiana"
Helena Borralho
Created on August 16, 2025
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"Arménio Vieira: Voz Poética e Jornalística da Identidade Cabo-Verdiana"
29 de janeiro de 1941
"Arménio Vieira: Um Poeta na Encruzilhada da História Cabo-Verdiana"
Arménio Vieira é um dos mais destacados poetas e escritores de Cabo Verde, nascido em 1941 na cidade da Praia, Ilha de Santiago. Figura de referência da literatura cabo-verdiana moderna, Vieira marcou o seu percurso com uma escrita inovadora, crítica e profundamente ligada à experiência insular e à construção da identidade pós-colonial do arquipélago.O contexto histórico-cultural da sua obra insere-se nas lutas de afirmação de Cabo Verde como nação após a independência de Portugal em 1975. A literatura cabo-verdiana deste período reflete não só os desafios do colonialismo e da diáspora, mas também as transformações sociais, políticas e linguísticas de um país insular em busca de voz própria. As obras de Arménio Vieira abordam temas como as cicatrizes do colonialismo, o desencanto, a vida urbana e as inquietações existenciais do sujeito cabo-verdiano, utilizando um estilo original que combina crítica irónica, reflexão filosófica e lirismo profundo.
Quiproquó Há uma torneira sempre a dar horas há um relógio a pingar no lavabos há um candelabro que morde na isca há um descalabro de peixe no tecto Há um boticário pronto para a guerra há um soldado vendendo remédios há um veneno (tão mau) que não mata há um antídoto para o suicído de um poeta Senhor, Senhor, que digo eu (?) que ando vestido pelo avesso e furto chapéu e roubo sapatos e sigo descalço e vou descoberto.
o poema é uma reflexão crítica e irónica sobre a condição humana, marcada por contradições, desafios e incertezas, utilizando imagens impactantes para transmitir sensações de desconcerto e fragilidade
"Infância e Juventude: As Raízes da Sensibilidade Literária de Arménio Vieira"
Arménio Vieira cresceu na cidade da Praia, em Cabo Verde, numa época marcada pela presença colonial portuguesa e pelas transformações sociais decorrentes dessa realidade. Sua infância e adolescência foram vivenciadas num ambiente cultural e social em que as tradições locais se misturavam com influências externas, principalmente portuguesas.Desde cedo demonstrou interesse pela literatura, tendo acesso à cultura através da leitura, o que influenciou profundamente sua formação intelectual e resposta crítica ao mundo que o cercava. A experiência de viver num arquipélago insular, com sua complexa identidade cultural e desafios sociais, marcou o seu olhar poético e literário, consolidando-se como tema central em sua obra. Sua educação formal levou-o a Lisboa para estudar Direito, onde entrou em contato com movimentos culturais e políticos que ampliaram sua visão crítica, sobretudo no contexto das lutas de libertação africanas e das transformações históricas da época. Esses anos de formação na juventude foram fundamentais para consolidar seu compromisso com a literatura de resistência e reflexão sobre a identidade africana de língua portuguesa
“A Morte é apenas uma consequência de coisas que a precedem – plantas e animais. Sendo assim, em tal peleja, entre o antecedente e o consequente, não existe um vencedor, mas sim um perdedor, cujo nome é a Vida.”
"Infância e Juventude: As Raízes da Sensibilidade Literária de Arménio Vieira"
Formou-se em Direito na Universidade de Lisboa e teve uma extensa carreira como jornalista, professor universitário, editor e escritor, destacando-se na literatura cabo-verdiana contemporânea. Além da poesia, Vieira também produziu crónicas e ensaios que exploram questões culturais, históricas e sociais de Cabo Verde e do universo lusófono.Sua obra reflete uma profunda ligação com a realidade social e política da sua terra natal, especialmente no contexto pós-colonial, enfatizando temas como a identidade, a diáspora, a resistência e a transformação cultural. Arménio Vieira é considerado uma das vozes mais importantes da literatura africana de expressão portuguesa, tendo recebido vários prémios literários ao longo da carreira, incluindo o Prémio Camões em 2020, o maior reconhecimento da língua portuguesa. Além da criação literária, teve papel ativo em instituições culturais e educacionais, contribuindo para a formação de novas gerações e a valorização da cultura cabo-verdiana.
“Não é bem assim, nós estamos vivos. – Provavelmente a sonhar. Uma vez que estão vivos, para quê um caixão? (...) Aplaudir também é linguagem, com uma grande vantagem – não cansa a cachimónia nem as cordas vocais.”
"A Geração de 1960 em Cabo Verde: Intelectuais, Luta Anticolonial e Formação da Identidade Nacional"
Regresso Mamãe Velha, venha ouvir comigo o bater da chuva lá no seu portão. É um bater de amigo que vibra dentro do meu coração. A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva, que há tanto tempo não batia assim... Ouvi dizer que a Cidade-Velha, – a ilha toda – Em poucos dias já virou jardim... Dizem que o campo se cobriu de verde, da cor mais bela, porque é a cor da esperança. Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde. – É a tempestade que virou bonança... Venha comigo, Mamãe Velha, venha recobre a força e chegue-se ao portão. A chuva amiga já falou mantenha e bate dentro do meu coração! Amílcar Cabral
A geração de 1960 em Cabo Verde, que participou ativamente na luta anticolonial contra o domínio português, é um marco importante para entender o contexto histórico e cultural que influenciou intelectuais e escritores, como Arménio Vieira. Esta geração esteve imersa num ambiente de contestação política e busca pela independência, liderada em grande parte pelo PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), fundado por Amílcar Cabral, que articulava esforços para libertar tanto a Guiné-Bissau quanto Cabo Verde.Arménio Vieira, nascido em 1941, cresceu num contexto de efervescência política e social, e sua obra literária reflete o impacto dessa luta pela identidade e liberdade. Embora não fosse um combatente direto nas frentes de batalha, Vieira incorporou em sua poética a experiência da diáspora, o desencanto colonial e a resistência cultural, dando voz às gerações que viveram o colonialismo e a transição para a independência. Sua poesia dialoga com o contexto da geração de 1960, mostrando o sofrimento, a esperança e a complexidade do processo de descolonização e construção da identidade cabo-verdiana pós-independência. Além disso, Vieira contribuiu para preservar a memória e os valores culturais dessa época nas suas crónicas e na sua participação em atividades culturais e educativas após a independência. Ele é uma referência para compreender o papel da literatura como instrumento de resistência e afirmação cultural em Cabo Verde, representando o espírito crítico e a profundidade reflexiva da geração que enfrentou o colonialismo.
"A Influência de Arménio Vieira no Jornalismo Cabo-Verdiano: Voz Crítica e Cultural"
Arménio Vieira teve uma carreira jornalística significativa que complementou sua trajetória literária e cultural em Cabo Verde. Atuou como jornalista em diversos meios de comunicação, contribuindo para a difusão cultural, crítica social e promoção da identidade cabo-verdiana.Sua atuação no jornalismo foi marcada por um compromisso com a denúncia das injustiças sociais, a valorização da cultura local e o aprofundamento do debate político, especialmente durante o período pós-independência. Vieira usou o jornalismo como espaço para ampliar a voz dos movimentos culturais e sociais, tornando-se uma figura influente na construção da narrativa nacional. Além disso, participou ativamente de revistas e jornais importantes em Cabo Verde, onde suas colunas e artigos discutiam temas variados, desde política até literatura, reforçando seu papel como um formador de opinião e intelectual público. Essa experiência jornalística teve impacto duradouro no jornalismo cabo-verdiano, ajudando a moldar uma imprensa comprometida com a justiça social e a identidade cultural do arquipélago.
"Um poema é uma casa que o vento não derruba, mas o silêncio pode fazer ruir."
Temas Principais na Obra Literária de Arménio Vieira
Arménio Vieira é um dos maiores poetas e escritores de Cabo Verde, cuja obra literária é marcada por uma profunda reflexão sobre a identidade cabo-verdiana e a experiência da diáspora. Um dos temas mais recorrentes na sua escrita é a busca pelas raízes culturais e a complexidade da vivência em territórios colonizados e pós-coloniais. A sua poesia frequentemente explora a sensação de deslocamento, o confronto entre culturas e a tentativa de resgatar tradições esquecidas, realçando a riqueza e a diversidade do legado cabo-verdiano.Outro eixo central na obra de Vieira é a luta contra o colonialismo e o seu legado de exclusão e opressão. A crítica social e política está presente em muitos dos seus textos, onde expõe as injustiças históricas e as contradições do processo de libertação e construção nacional. Esta dimensão reforça o compromisso do autor com a memória coletiva e a resistência cultural, valorizando a narrativa dos subalternos e dos marginalizados. Além disso, Vieira investiga a condição humana numa perspetiva existencial e filosófica, abordando temas como a vida, a morte, o amor e a criação artística. A sua poética recorre a símbolos poderosos e a figuras mitológicas para criar um espaço onde o real e o fantástico se cruzam, refletindo as tensões entre luz e sombra, ordem e caos. Imagens como o xadrez, labirintos e personagens monstruosas são usadas para explorar dualidades e metamorfoses, estabelecendo uma intertextualidade rica que dialoga com autores clássicos e contemporâneos. Por fim, a obra de Arménio Vieira é um exemplo de literatura-mundo, que ultrapassa fronteiras locais para integrar uma poética universal. O seu trabalho é considerado uma “alquimia poética do infernal”, onde o insólito e o terrífico coexistem com uma profunda crítica social, contribuindo para a humanização do mundo através da arte literária. Este conjunto de temas faz de Arménio Vieira um autor singular da literatura africana de expressão portuguesa, cuja obra permanece atual e essencial para compreender a dinâmica cultural, histórica e social de Cabo Verde e da lusofonia em geral
"Bibliografia Selecta: Livros Publicados de Arménio Vieira"
"Obra Literária de Arménio Vieira:Livros Publicados e Contribuições"
Ser tigre O tigre ignora a liberdade do salto é como se uma mola o compelisse a pular. Entre o cio e a cópula o tigre não ama. Ele busca a fêmea como quem procura comida. Sem tempo na alma, é no presente que o tigre existe. Nenhuma voz lhe fala da morte. O tigre, já velho, dorme e passa. Ele é esquivo, não há mãos que o tomem. Não soa, porque não respira. É menos que embrião abaixo do ovo, infra-sémen. Não tem forma, é quase nada, parece morto. Porém existe, por isso espera. Epopéia, canção de amor, epigrama, ode moderna, epitáfio, Ele será quando for tempo disso.
Arménio Vieira é o primeiro escritor cabo-verdiano a receber o Prémio Camões, o mais prestigioso galardão da literatura em língua portuguesa, que lhe foi atribuído em 2009. Este prémio reconhece a importância da sua obra poética e literária, destacando sua capacidade de dialogar com os clássicos e inserir-se na modernidade. A comissão julgadora salientou a sua visão humanista e o universo simbólico presente na sua poética, onde o particular cabo-verdiano se funde com um carácter universal.lém do Prémio Camões, Arménio Vieira é amplamente reconhecido como uma voz essencial na literatura africana de expressão portuguesa, contribuindo também como jornalista e ensaísta. Sua obra inclui livros importantes como “Poemas” (1981), “O Eleito do Sol” (1989), “No Inferno” (1999), “MITOgrafias” (2006) e “O Poema, a Viagem, o Sonho” (2009). O reconhecimento do Prémio Camões não apenas exaltou Arménio Vieira como indivíduo, mas também destacou a riqueza e a qualidade da literatura cabo-verdiana, abrindo portas para maior divulgação internacional da produção literária do arquipélago. O prémio é uma homenagem à literatura em língua portuguesa, reajustando sua universalidade e diversidade cultural em contextos africanos, brasileiros e portugueses.
"Arménio Vieira: Vida, Obra e Poesia do Conde da Sátira Crioula"
Isto é que fazem de nós E perguntam-nos: - sois homens? Respondemos: - animais de capoeira. Dizem-nos: - bom dia. Pensamos: lá fora... Isto é que fazem de nós quando nos inquirem: - estais vivos? E em nós as galinhas respondem: - dormimos.
Este poema utiliza a metáfora dos "animais de capoeira" e a resposta das "galinhas" para expressar uma crítica profunda à condição humana marcada por opressão, alienação e sobrevivência resignada.
"Arménio Vieira: Vida, Obra e Poesia do Conde da Sátira Crioula"
Isto é que fazem de nós E perguntam-nos: - sois homens? Respondemos: - animais de capoeira. Dizem-nos: - bom dia. Pensamos: lá fora... Isto é que fazem de nós quando nos inquirem: - estais vivos? E em nós as galinhas respondem: - dormimos.
Este poema utiliza a metáfora dos "animais de capoeira" e a resposta das "galinhas" para expressar uma crítica profunda à condição humana marcada por opressão, alienação e sobrevivência resignada.
"Canto Final Final ou Agonia duma Noite Infecunda" Como a flor cortada rente e desfolhada ou os olhos vazados da criança e o seu fio de pranto tênue e impotente assim a noite caminha com os astros todos em vertigem até que se atinge o ponto da mudez a pesada mó triturando a sílaba a garganta com as cordas dilaceradas e uma lâmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro tanto assim que a flor desfeita não embala o coração do poeta oh não porque a flor defunta se voa não sobe nunca e só dura o espaço breve duma nota Assim o canto se detém imóvel como se da flauta falhando súbito na boca do poeta ficasse o hiato ou a saliva de um tempo devassado por insectos cor de cinza A voz suspensa e negada cede a vez à letra amorfa inscrita no silêncio com seu peso de chumbo e olvido acaba o poema e um ponto final selando tudo.
"Canto Final Final ou Agonia duma Noite Infecunda: Poema de Arménio Vieira"
O poema "Canto Final Final ou Agonia duma Noite Infecunda" é uma obra de Arménio Vieira e trata-se de um texto intenso que reflete temas como o sofrimento, o silêncio, a morte simbólica e a luta pela expressão poética, com imagens fortes e referências ao desgaste interior e exterior. Este poema é parte do conjunto da sua obra poética, e aparece citado em várias antologias e análises da sua produção.
"Construção na Vertical: O Poema-arquitetura de Arménio Vieira"
Construção na Vertical Com pauzinhos de fósforo podes construir um poema. Mas atenção: o uso da cola estragaria o teu poema. Não tremas: o teu coração, ainda mais que a tua mão, pode trair-te. Cuidado! Um poema assim é árduo. Sem cola e na vertical, pode levar uma eternidade. Quando estiver concluído, não assines, o poema não é teu.
Este poema é uma metáfora sobre a fragilidade e a complexidade da construção poética, destacando a delicadeza necessária no processo criativo, onde a emoção pode trair o gesto da mão. Também sugere que a criação poética é algo coletivo ou maior do que o próprio autor.
Lisboa – 1971 A Ovídio Martins e Oswaldo Osório Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar. Eis-nos enfim transidos e quase perdidos no meio de guardas e aviões da Portela Em verdade éramos o gado mais pobre d'África trazido àquele lugar e como folhas varridas pela vassoura do vento nossos paramentos de presunção e de casta. E quando mais tarde surpreendemos o espanto da mulher que vendia maçãs e queria saber d'onde… ao que vínhamos descobrimos o logro a circular no coração do Império. Porém o desencanto, que desce ao peito e trepa a montanha, necessita da levedura que o tempo fornece. E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera, fomos seguindo nosso destino naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno.
"Lisboa – 1971: Vozes e Desencantos na Poesia de Arménio Vieira"
Oswaldo Osório
Ovídio Martins
O poema é "Lisboa – 1971", uma homenagem de Arménio Vieira a Ovídio Martins e Oswaldo Osório. Este poema reflete a experiência dos africanos deslocados em Lisboa no contexto colonial, marcado pela exclusão, pela sensação de não pertença e pelo desencanto com o "coração do Império". A narrativa poética usa imagens fortes para expressar a condição dos migrantes e enfatiza a esperança que o tempo pode trazer para transformar essa realidade.
"A linguagem é um campo de batalha onde o presente se discute e o futuro se decide."