Ungulani Ba Ka Khosa: Voz da Memória, Narrador de Moçambique
1 de agosto de 1957
Raízes Culturais e Origens de Ungulani Ba Ka Khosa: A Influência Tsonga e Bantu na Sua Formação e Obra
Ungulani Ba Ka Khosa, cujo nome verdadeiro é Francisco Esaú Cossa, nasceu a 1 de agosto de 1957 em Inhaminga, uma localidade na província de Sofala, Moçambique. O seu nome literário tem origem tsonga, um grupo étnico do sul de Moçambique. Esta conexão com a etnia tsonga e as raízes culturais bantu influenciam profundamente a sua obra literária.Cresceu em um ambiente familiar de pais assimilados, ambos enfermeiros, o que lhe proporcionou contato precoce com a língua portuguesa e a literatura clássica mundial, incluindo autores como Hemingway, Sartre, Dostoievsky e Gogol. Frequentou em Sofala o ensino primário, fez parte do ensino secundário em Lourenço Marques e na Zambézia, e posteriormente em Maputo concluiu o bacharelato em História e Geografia na Universidade Eduardo Mondlane. Sua formação académica e cultural aliada à vivência em diferentes regiões de Moçambique refletiram-se em sua escrita, que é marcada pela interseção entre memória histórica, tradição oral e crítica social, explorando as raízes culturais bantu, especialmente as influências tsonga e sena.
Ungulani Ba Ka Khosa tem um importante papel não só como escritor, mas também como ativista cultural e membro da Associação dos Escritores Moçambicanos, tendo contribuído para o desenvolvimento da literatura moçambicana contemporânea.
“Minhas raízes tsonga são a fonte onde a minha escrita nasce, entre a memória do passado e a luta do presente.”
Formação Académica e Trajetória Profissional de Ungulani Ba Ka Khosa: Entre a Educação, a Cultura e a Literatura
Ungulani Ba Ka Khosa formou-se na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, onde concluiu o bacharelato em História e Geografia na Faculdade de Educação. Após a formação, exerceu a profissão de professor do ensino secundário, tendo lecionado em diversas regiões do país.Sua trajetória profissional inclui ainda o trabalho no Ministério da Educação em 1982 e, posteriormente, uma longa carreira ligada à cultura, onde ocupou cargos importantes como diretor do Instituto Nacional do Livro e do Disco e diretor-adjunto do Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual de Moçambique. Além disso, teve uma participação ativa na Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), da qual é membro, e foi um dos fundadores da revista literária "Charrua" que contribuiu para o fomento da literatura moçambicana contemporânea. Esta carreira diversificada e seu compromisso com a cultura e a literatura refletem-se na sua produção literária, marcada pelo compromisso com questões sociais, históricas e políticas.
“Estes homens cor de cabrito esfolado que hoje aplaudis entrarão nas vossas aldeias com o barulho das suas armas e o chicote do comprimento da jibóia. (…) O papel com rabiscos norteará a vossa vida e a vossa morte, filhos das trevas.” (de Ualalapi)
Início Literário e Consolidação de Ungulani Ba Ka Khosa: Dos Primeiros Contos a Ualalapi e o Reconhecimento Nacional
Ungulani Ba Ka Khosa, pseudónimo de Francisco Esaú Cossa, iniciou a sua carreira literária no início da década de 1980 com a publicação de vários contos em jornais moçambicanos. Um destaque deste período é o conto “Dirce, minha deusa, nossa deusa”, publicado em 1982 no Diário de Moçambique, que lhe abriu caminho no panorama literário nacional.Em 1984, Ungulani foi cofundador da revista literária Charrua, associada à Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Esta revista foi uma importante plataforma para o desenvolvimento e divulgação da literatura contemporânea moçambicana, proporcionando voz a novos autores e fomentando debates culturais relevantes. Lançamento e Impacto de Ualalapi (1987): Em 1987, Ungulani Ba Ka Khosa lançou o seu primeiro romance, Ualalapi, que rapidamente se tornou uma obra de referência na literatura moçambicana e africana. O livro retrata a figura histórica do imperador Ngungunhane, último soberano do império de Gaza, com um olhar crítico, que mistura história, mito e oralidade. Ualalapi foi alvo de reconhecimento imediato, recebendo o Prémio Gazeta de Ficção Narrativa em 1988 e o Prémio Nacional de Literatura em 1991 (ex-aequo com Mia Couto). O romance também foi incluído na lista dos cem melhores romances africanos do século XX, partilhando destaque com obras de autores como Mia Couto e Luís Bernardo Honwana. Prémios e Reconhecimento Inicial: O sucesso de Ualalapi lançou Ungulani Ba Ka Khosa definitivamente no panorama literário, abrindo caminho para uma carreira marcada por um compromisso profundo com a literatura, a cultura e a crítica social moçambicana. Entre os seus prémios mais importantes destacam-se: Prémio Gazeta de Ficção Narrativa (1988); Prémio Nacional de Literatura (1991) e Inclusão de Ualalapi na lista dos cem melhores romances africanos do século XX.
Reconhecimento e Prémios de Ungulani Ba Ka Khosa
Ungulani Ba Ka Khosa é reconhecido como uma das vozes literárias mais importantes de Moçambique e da literatura africana de língua portuguesa. Ao longo da sua carreira, tem sido distinguido com diversos prémios que ressaltam a sua relevância cultural e literária.
Em 1988, recebeu o Prémio Gazeta de Ficção Narrativa pelo impacto do seu romance Ualalapi, obra que revolucionou a representação histórica moçambicana na literatura. Este reconhecimento inicial abriu caminho para consagrar-se como um dos principais escritores do país.
Em 1991, foi distinguido com o Prémio Nacional de Literatura, que reforçou a sua posição como figura central na literatura moçambicana.
O seu livro Os Sobreviventes da Noite valeu-lhe o prestigiado Prémio José Craveirinha de Literatura em 2007, considerado o mais importante galardão literário de Moçambique, dada a força da sua narrativa sobre a infância em contexto de guerra civil.
“O tempo pareceu suspender-se, como se a guerra tivesse criado um silêncio grosso e cortante, onde cada criança aprendia a sobreviver com olhos tristes e a esperança cautelosa. No escuro das noites, as histórias sussurradas eram o alimento da alma e a memória do que se devia recordar para não morrer dentro de si.”
Reconhecimento e Prémios de Ungulani Ba Ka Khosa
Em 2003 foi homenageado pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), reconhecendo a sua contribuição para a literatura em português e o papel destacado que desempenha na cultura moçambicana.Além destes, foi laureado com o Prémio BCI Literatura em 2013 pelo livro Entre as Memórias Silenciadas, considerado o melhor livro editado em Moçambique naquele ano. Também recebeu o Prémio Literário Guerra Junqueiro em Portugal em 2024, uma distinção importante a autores de países africanos de língua portuguesa. A sua obra e influência foram ainda reconhecidas internacionalmente com a condecoração pela Ordem do Rio Branco, atribuída pelo Governo do Brasil, valorizando o seu papel na promoção da cultura lusófona. Estes prémios e homenagens refletem a importância de Ungulani Ba Ka Khosa como um dos escritores mais influentes e respeitados da literatura moçambicana contemporânea e um símbolo da literatura africana em português.
“Poesia! Poesia é uma arte maior. O problema é que muita gente, e eu critico, pensa que poesia é cortar palavras e arrumá-las.”
Contribuições de Ungulani Ba Ka Khosa para a Cultura e Literatura Moçambicana: Ativismo, Memória e Diálogo Lusófono
Ungulani Ba Ka Khosa tem um papel fundamental como agente cultural e literário em Moçambique. Como membro ativo da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e cofundador da revista literária Charrua, tem promovido o surgimento de novos autores, fortalecendo o panorama literário do país.A sua obra reflete um compromisso firme com o ativismo cultural, utilizando a literatura como instrumento de denúncia social e de preservação da memória coletiva moçambicana. Ungulani trabalha para manter viva a história do país, sobretudo a das vozes marginalizadas pelo colonialismo e pela instabilidade política pós-independência. Além do contexto nacional, mantém uma estreita relação com a cultura brasileira e estabelece diálogos literários com outras literaturas de língua portuguesa. Esta conexão intercultural amplia o alcance da literatura moçambicana e promove o intercâmbio entre países lusófonos, contribuindo para a valorização da diversidade cultural dentro da língua portuguesa. A escrita de Ungulani Ba Ka Khosa é um espaço de resistência e reflexão, onde a história, a cultura e a política do seu país se entrelaçam, criando uma narrativa plural e multifacetada que enriquece a literatura africana e lusófona contemporânea.
Ualalapi: O Império, a Memória e a Desconstrução do Herói em Moçambique
Ualalapi é um romance marcante do escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, publicado em 1987. Esta obra ganhou o Grande Prémio de Ficção Moçambicana em 1990 e é considerada uma das mais importantes da literatura africana de língua portuguesa.
O livro narra a história do império de Gaza e da figura histórica do último imperador, Ngungunhane, mostrando-o simultaneamente como herói e tirano. A história decorre no final do século XIX, numa altura em que o colonialismo português iniciava a sua expansão para o interior de Moçambique. Em seis episódios, o romance descreve a ascensão de Ngungunhane ao poder após a morte do irmão Mafemane, a violência do seu governo, a resistência ao colonialismo e o conflito entre a identidade tradicional africana e as influências europeias.
Ao amanhecer começou a cair uma chuva amarela, forte, de gotas grossas e pegajosas como baba de caracol [...]. Na aldeia real havia sol e vento calmo. Nos primeiros dias era normal ver Ngungunhane dirigir-se aos arredores, acompanhado pelos maiores do reino, e contemplar aquela chuva azeda, apelando para a calma [...]. Ao quarto dia os homens da corte refugiaram-se nas casas e deixaram de aparecer à rua. Um fenómeno estranho passava-se nos arredores: cadáveres sem nome e rosto apareceram à superfície das águas lodosas, se é que era água aquele líquido pastoso e espesso. Os feiticeiros da aldeia concluíram que os cadáveres eram de outros tempos e apareceram porque 'vieram chamar a atenção àquele povo que nada respeitava'."
Ualalapi: O Império, a Memória e a Desconstrução do Herói em Moçambique
A narrativa mistura o épico, o histórico e o mítico, utilizando elementos da tradição oral e da cosmovisão africana. A obra também questiona os discursos oficiais sobre a história moçambicana, subvertendo mitos e apresentando uma visão plural e crítica do passado.
“O último discurso de Ngungunhane”, capítulo final do romance, retrata a captura do imperador pelos portugueses e o fim do império, simbolizando a transição para o domínio colonial.
Ualalapi é leitura fundamental para entender a história, a memória e os desafios da identidade moçambicana pós-colonial, conciliando ficção literária, crítica social e resgate cultural.
“Ngungunhane não sabia ao certo onde estava o início do seu poder. Não sabia se fora ele a construir o império ou se herdara apenas as ruínas do que tinha sido. Sentia, como um peso antigo, a obrigação de não desiludir os antepassados. E, cada vez que punha o olhar na terra vermelha, sentia que o mundo lhe pertencia e que, mesmo no silêncio, reinaria sobre os homens, as árvores e os animais.”
Orgia dos Loucos: Retratos da Crise e da Resistência em Moçambique Pós-Independência
Orgia dos Loucos (1990) é uma coletânea de nove contos escritos por Ungulani Ba Ka Khosa que retratam diferentes aspectos da realidade moçambicana no período pós-independência. Através de histórias marcadas por sofrimento, fome, guerra e um forte sentimento de distopia, a obra oferece um olhar crítico e poético sobre as dificuldades sociais e culturais enfrentadas por Moçambique.
Os contos expõem a violência, a pobreza extrema e o impacto da guerra civil no tecido social, revelando personagens que vivem num ambiente caótico, onde o limite entre a loucura e a sanidade se torna tênue. A escrita de Khosa destaca-se pela forma como combina uma narrativa intensa, realista e, por vezes, irônica, que torna a leitura potente e profunda.
Este livro é essencial para compreender os desafios de Moçambique numa fase difícil da sua história recente, abordando temas como a desestruturação social, a memória coletiva e o papel da cultura num contexto de crise.
“A fome não escolhe quem deixa morrer. Mata velhos, crianças, quem está no meio e também quem tenta resistir. No meio do silêncio dos mortos, os vivos gritam com vozes que ninguém ouve, porque o mundo parece ter se esquecido daquele pedaço de terra onde ninguém tem direito a ser feliz.”
Histórias de Amor e Espanto: Entre o Sobrenatural e o Quotidiano em Moçambique
A coletânea Histórias de Amor e Espanto (1999) reúne diversos contos em que Ungulani Ba Ka Khosa cruza habilmente o realismo social com elementos do fantástico, da tradição oral e da memória coletiva moçambicana. Através de narrativas curtas, o autor aborda as múltiplas dimensões da experiência humana num contexto marcado pelas heranças coloniais, pelos desafios sociais e pela riqueza cultural do país.Os contos exploram uma diversidade de temas, como o amor em suas várias formas — desde o romântico até o amor familiar e comunitário —, misturando-o com o “espanto”, que pode ser entendido como o mistério, o medo do desconhecido, o sobrenatural e a resiliência em face das adversidades. Através dessa dualidade, Khosa cria um espaço narrativo onde a realidade concreta do dia a dia convive com valores ancestrais, crenças populares e o sagrado. A coletânea revela também a capacidade do autor para dar voz às personagens marginalizadas e para mostrar conflitos internos, relações interpessoais complexas, e uma sensibilidade especial para os aspectos mais subtis da cultura moçambicana. Seja pela descrição de rituais, pela evocação do passado, ou pelas tensões entre tradição e mudança, a obra destaca-se pela musicalidade e pela força poética da linguagem.
“Na aldeia, as vozes contavam segredos antigos, histórias de amor que desafiavam o tempo e espantos que lembravam ao povo a fragilidade da vida. Entre sorrisos e lágrimas, a memória juntava os fragmentos de um passado que insistia em viver no presente, numa dança constante entre o real e o imaginário.”
Histórias de Amor e Espanto: Entre o Sobrenatural e o Quotidiano em Moçambique
"O Espanto" é um conto que traduz a complexidade da vida moçambicana, onde o real e o sobrenatural se entrelaçam para expressar a experiência humana diante do sofrimento e da resistência. A narrativa acompanha a trajetória de uma família marcada pelo destino, pelas forças da natureza e pelas crenças ancestrais, revelando como o medo, a perda e a esperança se cruzam nas histórias orais e no imaginário colectivo. Através de uma linguagem rica e simbólica, Khosa cria um ambiente onde o espanto é simultaneamente um sentimento de medo e reverência perante o desconhecido, refletindo a luta do indivíduo em se afirmar num mundo em constante transformação.
“A chuva caía forte naquela noite, misturando-se com o pranto silencioso de Luandle. O mar rugia ao longe, como se quisesse falar-lhe de segredos antigos e perigosos. Ele sentia no peito um peso estranho, que não sabia se era medo, saudade ou a presença do espanto que assombrava a alma do seu povo. Nas vozes da aldeia, o passado e o presente dançavam numa melodia dolorosa, onde o amor e o terror se confundiam sem nunca se apagarem.”
No Reino dos Abutres: Vozes e Desafios na Moçambique Pós-Independência
No Reino dos Abutres (2002), de Ungulani Ba Ka Khosa, é um romance que se insere na reflexão sobre a história recente de Moçambique, especialmente o período pós-independência e suas consequências sociais e políticas. A obra aborda a desestruturação das comunidades rurais, as dificuldades da vida nas zonas urbanas, o impacto da guerra civil e o desafio da reconstrução do país. O título evoca a imagem dos abutres, simbolizando tanto a violência e a exploração quanto a presença constante da morte e do sofrimento num contexto de crise profunda. A narrativa retrata personagens que lutam contra forças opressoras, sejam elas políticas, sociais ou culturais, mostrando as ambivalências do poder e o sofrimento dos mais vulneráveis. A escrita de Khosa em "No Reino dos Abutres" destaca-se por sua intensidade emocional, tom crítico e pela utilização de múltiplas vozes narrativas, que conferem à obra uma riqueza polifónica capaz de retratar a complexidade da realidade moçambicana.
“Vivia-se num tempo em que os abutres rondavam as aldeias, não só no céu, mas nos corações dos homens. A violência e a fome caminharam lado a lado, enquanto os sobreviventes tentavam encontrar sentido no caos e construir esperança onde apenas restava desolação.”
Os Sobreviventes da Noite: A Infância e a Guerra na Moçambique Contemporânea
Os Sobreviventes da Noite (2007) é um romance de Ungulani Ba Ka Khosa que centra a narrativa na experiência traumática de quatro jovens soldados durante a guerra civil moçambicana. A história revela as oscilações entre o desespero e a esperança, o sofrimento físico e psicológico, e a perda da inocência nessas condições brutais.Os protagonistas — Severino, Penete, António Boca e José Sabonete — são crianças recrutadas à força para lutar em conflito armado, entre abusos, fome e violência extrema. A guerra é descrita como uma presença orgânica e inevitável nas suas vidas, que molda os seus corpos, mentalidades e destinos. O livro destaca-se pelo estilo cru e realista, mas também pela forma poética de expressar as vozes dessas crianças, sublinhando que a guerra não tem lógica e é uma experiência que desumaniza e destrói, mas que também revela a capacidade de resistência humana.
“Na escuridão da noite, as vozes das crianças ecoavam entre as árvores; eram vozes marcadas pela fome, pelo medo e pela luta constante pela vida. O silêncio do mundo escondia os horrores que eles testemunhavam, mas no coração de cada um permanecia uma chama tênue de esperança, um desejo de sobreviver e de sonhar com dias melhores.”
Choriro: Resistência e Identidade no Vale do Zambeze
Choriro (2009) é um romance de Ungulani Ba Ka Khosa que narra a história do reino de um rei branco, Nhabezi (também conhecido como Luís António Gregódio), no vale do Zambeze, no século XIX. A obra é um retrato emotivo e orgulhoso de um tempo e de um povo, mostrando o choque entre as culturas nativas moçambicanas e o colonialismo mercantil que começava a despontar.
Khosa, com um profundo conhecimento histórico e etnográfico, constrói personagens complexos e sensíveis, como o rei Nhabezi, seus conselheiros, guerreiros e mulheres, que personificam as forças culturais em conflito e a formação da identidade moçambicana moderna. O livro destaca-se pela sua elaboração narrativa que reconstitui um passado valioso, resistindo aos discursos oficiais e resgatando a alma de uma época.
“Nhabezi, o rei branco, olhava para o rio Zambeze com olhos que conheciam a força da terra e o peso das histórias ancestrais. Naqueles dias, o valor de um homem não estava apenas nas suas batalhas, mas na capacidade de preservar a memória do seu povo diante das mudanças que chegavam com os ventos da colonização.”
Entre as Memórias Silenciadas: Trauma, Resistência e Identidade em Moçambique
Entre as Memórias Silenciadas (2013) é um romance de Ungulani Ba Ka Khosa que aborda a história da família Chibindzi desde os tempos coloniais até os primeiros anos após a independência de Moçambique. A obra é estruturada em três núcleos que se intercalam ao longo da narrativa, evidenciando as violências e os traumas causados pelo colonialismo e pelo regime pós-independência no país.Um tema central do livro são os campos de reeducação, idealizados inicialmente como espaços para a formação do "homem novo" moçambicano. Porém, esses campos acabam por se tornar lugares de morte, sofrimento e esquecimento, onde dissidentes políticos, religiosos e outros segmentos da população são perseguidos e submetidos a trabalho forçado e repressão. A narrativa explora a tensão entre o discurso oficial e a realidade brutal vivida pelos personagens. O romance é também um projeto de memória coletiva, onde distintas vozes e versões confrontam-se, questionando verdades oficiais e denunciando os altos custos do processo de libertação e construção nacional. Khosa enfatiza a importância da memória para impedir que essas histórias sejam apagadas ou silenciadas.
“As vozes dos campos não se extinguem facilmente. Entre as paredes de silêncio, sobrevivia a memória dos que ali passaram, os sonhos desfeitos e a esperança adiada. No coração do país, a história consumia-se em segredo, alimentada pelo medo e pelo desejo de liberdade que nunca morria.”
O Rei Mocho: Mentira, Verdade e Poder na Literatura Infantil Moçambicana
O Rei Mocho (2016), de Ungulani Ba Ka Khosa, é o primeiro volume da série "Contos de Moçambique". Nesta fábula, um pai narra ao filho a origem das mentiras no mundo, usando a história do Rei Mocho, um mocho que foi escolhido pelos pássaros para governar por causa dos chifres que tinha na cabeça, que se revelaram ser apenas penas que pareciam chifres. A intervenção do homem desmascara a verdade escondida pelo Rei Mocho, causando uma revolta entre os pássaros. A narrativa explora como a mentira e a desordem surgiram por causa da intervenção humana, refletindo sobre temas de liderança, verdade e ilusão. O livro mistura tradição oral e reflexão social, para um público infantil, com uma mensagem que também se destina a um público adulto, incentivando uma reflexão sobre a responsabilidade e a convivência na sociedade.
“E foi assim que o Rei Mocho, com seus falsos chifres, enganou os outros pássaros e tomou o poder. Mas quando o homem chegou, a mentira foi descoberta, e o reino dos pássaros nunca mais foi o mesmo. Desde então, ninguém sabe ao certo o que é verdade e o que é mentira, e assim nasceu a confusão entre os homens.”
Cartas de Inhaminga: Crónicas da Resistência e Memória em Moçambique
Cartas de Inhaminga (2017) é uma coletânea de 19 crónicas escritas originalmente para um semanário, reunidas por Ungulani Ba Ka Khosa. Essas crónicas abordam temas diversos como a cultura, política, sociedade e memória moçambicana, com um tom crítico e reflexivo que convoca o leitor à dissensão e à intervenção ativa diante dos problemas do país.O livro destaca-se pela forma polifónica em que vozes múltiplas – reais ou fictícias – são convocadas para questionar o estado das coisas e denunciar a inércia e o conformismo social. Khosa usa a escrita como instrumento de resistência cultural, contestando o poder e valorizando as narrativas que frequentemente permanecem silenciadas na história oficial.
“Escrever é um acto de coragem num país onde as vozes são tantas vezes silenciadas ou ignoradas. Estas cartas são um grito, um convite à reflexão e à mudança, um apelo para que não nos resignemos ao silêncio diante da injustiça e do esquecimento.”
Gungunhana entre Mito e História: Identidade, Resistência e Cultura em Ungulani Ba Ka Khosa
Gungunhana (2018), de Ungulani Ba Ka Khosa, é um romance que revisita a figura histórica do último imperador do império de Gaza, Ngungunhane, conhecido na grafia portuguesa colonial como Gungunhana. O autor oferece uma visão multifacetada e crítica dessa figura, que para alguns é herói e para outros um tirano, explorando as contradições do poder, da memória e da identidade moçambicana.O romance distingue-se por incluir não só a perspectiva de Gungunhana, mas também a das mulheres do imperador, cujas histórias pessoais e trajetórias servem para ampliar o entendimento sobre a época e a sociedade em transformação. A obra explora a tensão entre o histórico e o mítico, o político e o pessoal, e busca desconstruir os mitos oficiais construídos em torno da resistência colonial.
Ungulani Ba Ka Khosa insere na narrativa elementos do realismo mágico, da tradição oral e um olhar crítico e inovador que convida o leitor a refletir sobre os processos de formação da história e da identidade de Moçambique.
“O mito de Gungunhana é também a história de um povo. Na sua queda, todos experimentaram o sabor amargo da derrota, mas nas vozes que ficaram ecoou o desejo de liberdade, a força da resistência e a busca de uma identidade renovada.”
Assim não, senhor Presidente!: Vozes, Memória e Crítica Social na Moçambique Contemporânea
"Assim não, senhor Presidente!" (2025) é um romance que nos conduz pela história de Moçambique desde a luta de libertação contra o domínio colonial até à sociedade contemporânea. Através das vozes variadas de personagens como guerrilheiros da luta armada, políticos, jornalistas, professores, estudantes e outros membros da sociedade moçambicana, o livro combina memórias, cartas, diálogos e documentos para oferecer um retrato sensível e crítico do país.A narrativa apresenta um olhar incisivo às desigualdades sociais, à militarização da sociedade e às frustrações da população, particularmente dos mais pobres, que continuam a viver em condições de precariedade apesar das mudanças políticas. Com descrições detalhadas do quotidiano, o livro desafia as narrativas oficiais e questiona os rumos da governação moçambicana, expondo as tensões entre idealismo revolucionário e a realidade dura vivida pelo povo. Ungulani Ba Ka Khosa usa a escrita como ferramenta para denunciar as contradições e incoerências da história recente de Moçambique, ao mesmo tempo que evoca a memória coletiva e o desejo de transformação social.
“No subúrbio, pós-independência, os pobres pretos de outrora continuavam pobres e comemoravam, à sua maneira, o ano prestes a findar, com o pouco que tinham na mesa de madeira coberta por uma toalha de plástico, e um candeeiro a petróleo no centro da mesma a enterrar-se, de forma desequilibrada, no chão de areia; sentados em pequenos bancos de madeira, passavam de mão em mão a caneca com a cerveja tradicional. Todos ansiavam pelo novo ano, na esperança de outras melhoras na crescente pauperização da sociedade a militarizar-se.”
Ungulani Ba Ka Khosa em Imagens: Vida, Obra e Testemunhos em Vídeo
Ungulani Ba Ka Khosa: Voz da Memória, Narrador de Moçambique
Helena Borralho
Created on August 15, 2025
Start designing with a free template
Discover more than 1500 professional designs like these:
View
Terrazzo Presentation
View
Visual Presentation
View
Relaxing Presentation
View
Modern Presentation
View
Colorful Presentation
View
Modular Structure Presentation
View
Chromatic Presentation
Explore all templates
Transcript
Ungulani Ba Ka Khosa: Voz da Memória, Narrador de Moçambique
1 de agosto de 1957
Raízes Culturais e Origens de Ungulani Ba Ka Khosa: A Influência Tsonga e Bantu na Sua Formação e Obra
Ungulani Ba Ka Khosa, cujo nome verdadeiro é Francisco Esaú Cossa, nasceu a 1 de agosto de 1957 em Inhaminga, uma localidade na província de Sofala, Moçambique. O seu nome literário tem origem tsonga, um grupo étnico do sul de Moçambique. Esta conexão com a etnia tsonga e as raízes culturais bantu influenciam profundamente a sua obra literária.Cresceu em um ambiente familiar de pais assimilados, ambos enfermeiros, o que lhe proporcionou contato precoce com a língua portuguesa e a literatura clássica mundial, incluindo autores como Hemingway, Sartre, Dostoievsky e Gogol. Frequentou em Sofala o ensino primário, fez parte do ensino secundário em Lourenço Marques e na Zambézia, e posteriormente em Maputo concluiu o bacharelato em História e Geografia na Universidade Eduardo Mondlane. Sua formação académica e cultural aliada à vivência em diferentes regiões de Moçambique refletiram-se em sua escrita, que é marcada pela interseção entre memória histórica, tradição oral e crítica social, explorando as raízes culturais bantu, especialmente as influências tsonga e sena. Ungulani Ba Ka Khosa tem um importante papel não só como escritor, mas também como ativista cultural e membro da Associação dos Escritores Moçambicanos, tendo contribuído para o desenvolvimento da literatura moçambicana contemporânea.
“Minhas raízes tsonga são a fonte onde a minha escrita nasce, entre a memória do passado e a luta do presente.”
Formação Académica e Trajetória Profissional de Ungulani Ba Ka Khosa: Entre a Educação, a Cultura e a Literatura
Ungulani Ba Ka Khosa formou-se na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, onde concluiu o bacharelato em História e Geografia na Faculdade de Educação. Após a formação, exerceu a profissão de professor do ensino secundário, tendo lecionado em diversas regiões do país.Sua trajetória profissional inclui ainda o trabalho no Ministério da Educação em 1982 e, posteriormente, uma longa carreira ligada à cultura, onde ocupou cargos importantes como diretor do Instituto Nacional do Livro e do Disco e diretor-adjunto do Instituto Nacional de Cinema e Audiovisual de Moçambique. Além disso, teve uma participação ativa na Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), da qual é membro, e foi um dos fundadores da revista literária "Charrua" que contribuiu para o fomento da literatura moçambicana contemporânea. Esta carreira diversificada e seu compromisso com a cultura e a literatura refletem-se na sua produção literária, marcada pelo compromisso com questões sociais, históricas e políticas.
“Estes homens cor de cabrito esfolado que hoje aplaudis entrarão nas vossas aldeias com o barulho das suas armas e o chicote do comprimento da jibóia. (…) O papel com rabiscos norteará a vossa vida e a vossa morte, filhos das trevas.” (de Ualalapi)
Início Literário e Consolidação de Ungulani Ba Ka Khosa: Dos Primeiros Contos a Ualalapi e o Reconhecimento Nacional
Ungulani Ba Ka Khosa, pseudónimo de Francisco Esaú Cossa, iniciou a sua carreira literária no início da década de 1980 com a publicação de vários contos em jornais moçambicanos. Um destaque deste período é o conto “Dirce, minha deusa, nossa deusa”, publicado em 1982 no Diário de Moçambique, que lhe abriu caminho no panorama literário nacional.Em 1984, Ungulani foi cofundador da revista literária Charrua, associada à Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). Esta revista foi uma importante plataforma para o desenvolvimento e divulgação da literatura contemporânea moçambicana, proporcionando voz a novos autores e fomentando debates culturais relevantes. Lançamento e Impacto de Ualalapi (1987): Em 1987, Ungulani Ba Ka Khosa lançou o seu primeiro romance, Ualalapi, que rapidamente se tornou uma obra de referência na literatura moçambicana e africana. O livro retrata a figura histórica do imperador Ngungunhane, último soberano do império de Gaza, com um olhar crítico, que mistura história, mito e oralidade. Ualalapi foi alvo de reconhecimento imediato, recebendo o Prémio Gazeta de Ficção Narrativa em 1988 e o Prémio Nacional de Literatura em 1991 (ex-aequo com Mia Couto). O romance também foi incluído na lista dos cem melhores romances africanos do século XX, partilhando destaque com obras de autores como Mia Couto e Luís Bernardo Honwana. Prémios e Reconhecimento Inicial: O sucesso de Ualalapi lançou Ungulani Ba Ka Khosa definitivamente no panorama literário, abrindo caminho para uma carreira marcada por um compromisso profundo com a literatura, a cultura e a crítica social moçambicana. Entre os seus prémios mais importantes destacam-se: Prémio Gazeta de Ficção Narrativa (1988); Prémio Nacional de Literatura (1991) e Inclusão de Ualalapi na lista dos cem melhores romances africanos do século XX.
Reconhecimento e Prémios de Ungulani Ba Ka Khosa
Ungulani Ba Ka Khosa é reconhecido como uma das vozes literárias mais importantes de Moçambique e da literatura africana de língua portuguesa. Ao longo da sua carreira, tem sido distinguido com diversos prémios que ressaltam a sua relevância cultural e literária. Em 1988, recebeu o Prémio Gazeta de Ficção Narrativa pelo impacto do seu romance Ualalapi, obra que revolucionou a representação histórica moçambicana na literatura. Este reconhecimento inicial abriu caminho para consagrar-se como um dos principais escritores do país. Em 1991, foi distinguido com o Prémio Nacional de Literatura, que reforçou a sua posição como figura central na literatura moçambicana. O seu livro Os Sobreviventes da Noite valeu-lhe o prestigiado Prémio José Craveirinha de Literatura em 2007, considerado o mais importante galardão literário de Moçambique, dada a força da sua narrativa sobre a infância em contexto de guerra civil.
“O tempo pareceu suspender-se, como se a guerra tivesse criado um silêncio grosso e cortante, onde cada criança aprendia a sobreviver com olhos tristes e a esperança cautelosa. No escuro das noites, as histórias sussurradas eram o alimento da alma e a memória do que se devia recordar para não morrer dentro de si.”
Reconhecimento e Prémios de Ungulani Ba Ka Khosa
Em 2003 foi homenageado pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), reconhecendo a sua contribuição para a literatura em português e o papel destacado que desempenha na cultura moçambicana.Além destes, foi laureado com o Prémio BCI Literatura em 2013 pelo livro Entre as Memórias Silenciadas, considerado o melhor livro editado em Moçambique naquele ano. Também recebeu o Prémio Literário Guerra Junqueiro em Portugal em 2024, uma distinção importante a autores de países africanos de língua portuguesa. A sua obra e influência foram ainda reconhecidas internacionalmente com a condecoração pela Ordem do Rio Branco, atribuída pelo Governo do Brasil, valorizando o seu papel na promoção da cultura lusófona. Estes prémios e homenagens refletem a importância de Ungulani Ba Ka Khosa como um dos escritores mais influentes e respeitados da literatura moçambicana contemporânea e um símbolo da literatura africana em português.
“Poesia! Poesia é uma arte maior. O problema é que muita gente, e eu critico, pensa que poesia é cortar palavras e arrumá-las.”
Contribuições de Ungulani Ba Ka Khosa para a Cultura e Literatura Moçambicana: Ativismo, Memória e Diálogo Lusófono
Ungulani Ba Ka Khosa tem um papel fundamental como agente cultural e literário em Moçambique. Como membro ativo da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO) e cofundador da revista literária Charrua, tem promovido o surgimento de novos autores, fortalecendo o panorama literário do país.A sua obra reflete um compromisso firme com o ativismo cultural, utilizando a literatura como instrumento de denúncia social e de preservação da memória coletiva moçambicana. Ungulani trabalha para manter viva a história do país, sobretudo a das vozes marginalizadas pelo colonialismo e pela instabilidade política pós-independência. Além do contexto nacional, mantém uma estreita relação com a cultura brasileira e estabelece diálogos literários com outras literaturas de língua portuguesa. Esta conexão intercultural amplia o alcance da literatura moçambicana e promove o intercâmbio entre países lusófonos, contribuindo para a valorização da diversidade cultural dentro da língua portuguesa. A escrita de Ungulani Ba Ka Khosa é um espaço de resistência e reflexão, onde a história, a cultura e a política do seu país se entrelaçam, criando uma narrativa plural e multifacetada que enriquece a literatura africana e lusófona contemporânea.
Ualalapi: O Império, a Memória e a Desconstrução do Herói em Moçambique
Ualalapi é um romance marcante do escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa, publicado em 1987. Esta obra ganhou o Grande Prémio de Ficção Moçambicana em 1990 e é considerada uma das mais importantes da literatura africana de língua portuguesa. O livro narra a história do império de Gaza e da figura histórica do último imperador, Ngungunhane, mostrando-o simultaneamente como herói e tirano. A história decorre no final do século XIX, numa altura em que o colonialismo português iniciava a sua expansão para o interior de Moçambique. Em seis episódios, o romance descreve a ascensão de Ngungunhane ao poder após a morte do irmão Mafemane, a violência do seu governo, a resistência ao colonialismo e o conflito entre a identidade tradicional africana e as influências europeias.
Ao amanhecer começou a cair uma chuva amarela, forte, de gotas grossas e pegajosas como baba de caracol [...]. Na aldeia real havia sol e vento calmo. Nos primeiros dias era normal ver Ngungunhane dirigir-se aos arredores, acompanhado pelos maiores do reino, e contemplar aquela chuva azeda, apelando para a calma [...]. Ao quarto dia os homens da corte refugiaram-se nas casas e deixaram de aparecer à rua. Um fenómeno estranho passava-se nos arredores: cadáveres sem nome e rosto apareceram à superfície das águas lodosas, se é que era água aquele líquido pastoso e espesso. Os feiticeiros da aldeia concluíram que os cadáveres eram de outros tempos e apareceram porque 'vieram chamar a atenção àquele povo que nada respeitava'."
Ualalapi: O Império, a Memória e a Desconstrução do Herói em Moçambique
A narrativa mistura o épico, o histórico e o mítico, utilizando elementos da tradição oral e da cosmovisão africana. A obra também questiona os discursos oficiais sobre a história moçambicana, subvertendo mitos e apresentando uma visão plural e crítica do passado. “O último discurso de Ngungunhane”, capítulo final do romance, retrata a captura do imperador pelos portugueses e o fim do império, simbolizando a transição para o domínio colonial. Ualalapi é leitura fundamental para entender a história, a memória e os desafios da identidade moçambicana pós-colonial, conciliando ficção literária, crítica social e resgate cultural.
“Ngungunhane não sabia ao certo onde estava o início do seu poder. Não sabia se fora ele a construir o império ou se herdara apenas as ruínas do que tinha sido. Sentia, como um peso antigo, a obrigação de não desiludir os antepassados. E, cada vez que punha o olhar na terra vermelha, sentia que o mundo lhe pertencia e que, mesmo no silêncio, reinaria sobre os homens, as árvores e os animais.”
Orgia dos Loucos: Retratos da Crise e da Resistência em Moçambique Pós-Independência
Orgia dos Loucos (1990) é uma coletânea de nove contos escritos por Ungulani Ba Ka Khosa que retratam diferentes aspectos da realidade moçambicana no período pós-independência. Através de histórias marcadas por sofrimento, fome, guerra e um forte sentimento de distopia, a obra oferece um olhar crítico e poético sobre as dificuldades sociais e culturais enfrentadas por Moçambique. Os contos expõem a violência, a pobreza extrema e o impacto da guerra civil no tecido social, revelando personagens que vivem num ambiente caótico, onde o limite entre a loucura e a sanidade se torna tênue. A escrita de Khosa destaca-se pela forma como combina uma narrativa intensa, realista e, por vezes, irônica, que torna a leitura potente e profunda. Este livro é essencial para compreender os desafios de Moçambique numa fase difícil da sua história recente, abordando temas como a desestruturação social, a memória coletiva e o papel da cultura num contexto de crise.
“A fome não escolhe quem deixa morrer. Mata velhos, crianças, quem está no meio e também quem tenta resistir. No meio do silêncio dos mortos, os vivos gritam com vozes que ninguém ouve, porque o mundo parece ter se esquecido daquele pedaço de terra onde ninguém tem direito a ser feliz.”
Histórias de Amor e Espanto: Entre o Sobrenatural e o Quotidiano em Moçambique
A coletânea Histórias de Amor e Espanto (1999) reúne diversos contos em que Ungulani Ba Ka Khosa cruza habilmente o realismo social com elementos do fantástico, da tradição oral e da memória coletiva moçambicana. Através de narrativas curtas, o autor aborda as múltiplas dimensões da experiência humana num contexto marcado pelas heranças coloniais, pelos desafios sociais e pela riqueza cultural do país.Os contos exploram uma diversidade de temas, como o amor em suas várias formas — desde o romântico até o amor familiar e comunitário —, misturando-o com o “espanto”, que pode ser entendido como o mistério, o medo do desconhecido, o sobrenatural e a resiliência em face das adversidades. Através dessa dualidade, Khosa cria um espaço narrativo onde a realidade concreta do dia a dia convive com valores ancestrais, crenças populares e o sagrado. A coletânea revela também a capacidade do autor para dar voz às personagens marginalizadas e para mostrar conflitos internos, relações interpessoais complexas, e uma sensibilidade especial para os aspectos mais subtis da cultura moçambicana. Seja pela descrição de rituais, pela evocação do passado, ou pelas tensões entre tradição e mudança, a obra destaca-se pela musicalidade e pela força poética da linguagem.
“Na aldeia, as vozes contavam segredos antigos, histórias de amor que desafiavam o tempo e espantos que lembravam ao povo a fragilidade da vida. Entre sorrisos e lágrimas, a memória juntava os fragmentos de um passado que insistia em viver no presente, numa dança constante entre o real e o imaginário.”
Histórias de Amor e Espanto: Entre o Sobrenatural e o Quotidiano em Moçambique
"O Espanto" é um conto que traduz a complexidade da vida moçambicana, onde o real e o sobrenatural se entrelaçam para expressar a experiência humana diante do sofrimento e da resistência. A narrativa acompanha a trajetória de uma família marcada pelo destino, pelas forças da natureza e pelas crenças ancestrais, revelando como o medo, a perda e a esperança se cruzam nas histórias orais e no imaginário colectivo. Através de uma linguagem rica e simbólica, Khosa cria um ambiente onde o espanto é simultaneamente um sentimento de medo e reverência perante o desconhecido, refletindo a luta do indivíduo em se afirmar num mundo em constante transformação.
“A chuva caía forte naquela noite, misturando-se com o pranto silencioso de Luandle. O mar rugia ao longe, como se quisesse falar-lhe de segredos antigos e perigosos. Ele sentia no peito um peso estranho, que não sabia se era medo, saudade ou a presença do espanto que assombrava a alma do seu povo. Nas vozes da aldeia, o passado e o presente dançavam numa melodia dolorosa, onde o amor e o terror se confundiam sem nunca se apagarem.”
No Reino dos Abutres: Vozes e Desafios na Moçambique Pós-Independência
No Reino dos Abutres (2002), de Ungulani Ba Ka Khosa, é um romance que se insere na reflexão sobre a história recente de Moçambique, especialmente o período pós-independência e suas consequências sociais e políticas. A obra aborda a desestruturação das comunidades rurais, as dificuldades da vida nas zonas urbanas, o impacto da guerra civil e o desafio da reconstrução do país. O título evoca a imagem dos abutres, simbolizando tanto a violência e a exploração quanto a presença constante da morte e do sofrimento num contexto de crise profunda. A narrativa retrata personagens que lutam contra forças opressoras, sejam elas políticas, sociais ou culturais, mostrando as ambivalências do poder e o sofrimento dos mais vulneráveis. A escrita de Khosa em "No Reino dos Abutres" destaca-se por sua intensidade emocional, tom crítico e pela utilização de múltiplas vozes narrativas, que conferem à obra uma riqueza polifónica capaz de retratar a complexidade da realidade moçambicana.
“Vivia-se num tempo em que os abutres rondavam as aldeias, não só no céu, mas nos corações dos homens. A violência e a fome caminharam lado a lado, enquanto os sobreviventes tentavam encontrar sentido no caos e construir esperança onde apenas restava desolação.”
Os Sobreviventes da Noite: A Infância e a Guerra na Moçambique Contemporânea
Os Sobreviventes da Noite (2007) é um romance de Ungulani Ba Ka Khosa que centra a narrativa na experiência traumática de quatro jovens soldados durante a guerra civil moçambicana. A história revela as oscilações entre o desespero e a esperança, o sofrimento físico e psicológico, e a perda da inocência nessas condições brutais.Os protagonistas — Severino, Penete, António Boca e José Sabonete — são crianças recrutadas à força para lutar em conflito armado, entre abusos, fome e violência extrema. A guerra é descrita como uma presença orgânica e inevitável nas suas vidas, que molda os seus corpos, mentalidades e destinos. O livro destaca-se pelo estilo cru e realista, mas também pela forma poética de expressar as vozes dessas crianças, sublinhando que a guerra não tem lógica e é uma experiência que desumaniza e destrói, mas que também revela a capacidade de resistência humana.
“Na escuridão da noite, as vozes das crianças ecoavam entre as árvores; eram vozes marcadas pela fome, pelo medo e pela luta constante pela vida. O silêncio do mundo escondia os horrores que eles testemunhavam, mas no coração de cada um permanecia uma chama tênue de esperança, um desejo de sobreviver e de sonhar com dias melhores.”
Choriro: Resistência e Identidade no Vale do Zambeze
Choriro (2009) é um romance de Ungulani Ba Ka Khosa que narra a história do reino de um rei branco, Nhabezi (também conhecido como Luís António Gregódio), no vale do Zambeze, no século XIX. A obra é um retrato emotivo e orgulhoso de um tempo e de um povo, mostrando o choque entre as culturas nativas moçambicanas e o colonialismo mercantil que começava a despontar. Khosa, com um profundo conhecimento histórico e etnográfico, constrói personagens complexos e sensíveis, como o rei Nhabezi, seus conselheiros, guerreiros e mulheres, que personificam as forças culturais em conflito e a formação da identidade moçambicana moderna. O livro destaca-se pela sua elaboração narrativa que reconstitui um passado valioso, resistindo aos discursos oficiais e resgatando a alma de uma época.
“Nhabezi, o rei branco, olhava para o rio Zambeze com olhos que conheciam a força da terra e o peso das histórias ancestrais. Naqueles dias, o valor de um homem não estava apenas nas suas batalhas, mas na capacidade de preservar a memória do seu povo diante das mudanças que chegavam com os ventos da colonização.”
Entre as Memórias Silenciadas: Trauma, Resistência e Identidade em Moçambique
Entre as Memórias Silenciadas (2013) é um romance de Ungulani Ba Ka Khosa que aborda a história da família Chibindzi desde os tempos coloniais até os primeiros anos após a independência de Moçambique. A obra é estruturada em três núcleos que se intercalam ao longo da narrativa, evidenciando as violências e os traumas causados pelo colonialismo e pelo regime pós-independência no país.Um tema central do livro são os campos de reeducação, idealizados inicialmente como espaços para a formação do "homem novo" moçambicano. Porém, esses campos acabam por se tornar lugares de morte, sofrimento e esquecimento, onde dissidentes políticos, religiosos e outros segmentos da população são perseguidos e submetidos a trabalho forçado e repressão. A narrativa explora a tensão entre o discurso oficial e a realidade brutal vivida pelos personagens. O romance é também um projeto de memória coletiva, onde distintas vozes e versões confrontam-se, questionando verdades oficiais e denunciando os altos custos do processo de libertação e construção nacional. Khosa enfatiza a importância da memória para impedir que essas histórias sejam apagadas ou silenciadas.
“As vozes dos campos não se extinguem facilmente. Entre as paredes de silêncio, sobrevivia a memória dos que ali passaram, os sonhos desfeitos e a esperança adiada. No coração do país, a história consumia-se em segredo, alimentada pelo medo e pelo desejo de liberdade que nunca morria.”
O Rei Mocho: Mentira, Verdade e Poder na Literatura Infantil Moçambicana
O Rei Mocho (2016), de Ungulani Ba Ka Khosa, é o primeiro volume da série "Contos de Moçambique". Nesta fábula, um pai narra ao filho a origem das mentiras no mundo, usando a história do Rei Mocho, um mocho que foi escolhido pelos pássaros para governar por causa dos chifres que tinha na cabeça, que se revelaram ser apenas penas que pareciam chifres. A intervenção do homem desmascara a verdade escondida pelo Rei Mocho, causando uma revolta entre os pássaros. A narrativa explora como a mentira e a desordem surgiram por causa da intervenção humana, refletindo sobre temas de liderança, verdade e ilusão. O livro mistura tradição oral e reflexão social, para um público infantil, com uma mensagem que também se destina a um público adulto, incentivando uma reflexão sobre a responsabilidade e a convivência na sociedade.
“E foi assim que o Rei Mocho, com seus falsos chifres, enganou os outros pássaros e tomou o poder. Mas quando o homem chegou, a mentira foi descoberta, e o reino dos pássaros nunca mais foi o mesmo. Desde então, ninguém sabe ao certo o que é verdade e o que é mentira, e assim nasceu a confusão entre os homens.”
Cartas de Inhaminga: Crónicas da Resistência e Memória em Moçambique
Cartas de Inhaminga (2017) é uma coletânea de 19 crónicas escritas originalmente para um semanário, reunidas por Ungulani Ba Ka Khosa. Essas crónicas abordam temas diversos como a cultura, política, sociedade e memória moçambicana, com um tom crítico e reflexivo que convoca o leitor à dissensão e à intervenção ativa diante dos problemas do país.O livro destaca-se pela forma polifónica em que vozes múltiplas – reais ou fictícias – são convocadas para questionar o estado das coisas e denunciar a inércia e o conformismo social. Khosa usa a escrita como instrumento de resistência cultural, contestando o poder e valorizando as narrativas que frequentemente permanecem silenciadas na história oficial.
“Escrever é um acto de coragem num país onde as vozes são tantas vezes silenciadas ou ignoradas. Estas cartas são um grito, um convite à reflexão e à mudança, um apelo para que não nos resignemos ao silêncio diante da injustiça e do esquecimento.”
Gungunhana entre Mito e História: Identidade, Resistência e Cultura em Ungulani Ba Ka Khosa
Gungunhana (2018), de Ungulani Ba Ka Khosa, é um romance que revisita a figura histórica do último imperador do império de Gaza, Ngungunhane, conhecido na grafia portuguesa colonial como Gungunhana. O autor oferece uma visão multifacetada e crítica dessa figura, que para alguns é herói e para outros um tirano, explorando as contradições do poder, da memória e da identidade moçambicana.O romance distingue-se por incluir não só a perspectiva de Gungunhana, mas também a das mulheres do imperador, cujas histórias pessoais e trajetórias servem para ampliar o entendimento sobre a época e a sociedade em transformação. A obra explora a tensão entre o histórico e o mítico, o político e o pessoal, e busca desconstruir os mitos oficiais construídos em torno da resistência colonial. Ungulani Ba Ka Khosa insere na narrativa elementos do realismo mágico, da tradição oral e um olhar crítico e inovador que convida o leitor a refletir sobre os processos de formação da história e da identidade de Moçambique.
“O mito de Gungunhana é também a história de um povo. Na sua queda, todos experimentaram o sabor amargo da derrota, mas nas vozes que ficaram ecoou o desejo de liberdade, a força da resistência e a busca de uma identidade renovada.”
Assim não, senhor Presidente!: Vozes, Memória e Crítica Social na Moçambique Contemporânea
"Assim não, senhor Presidente!" (2025) é um romance que nos conduz pela história de Moçambique desde a luta de libertação contra o domínio colonial até à sociedade contemporânea. Através das vozes variadas de personagens como guerrilheiros da luta armada, políticos, jornalistas, professores, estudantes e outros membros da sociedade moçambicana, o livro combina memórias, cartas, diálogos e documentos para oferecer um retrato sensível e crítico do país.A narrativa apresenta um olhar incisivo às desigualdades sociais, à militarização da sociedade e às frustrações da população, particularmente dos mais pobres, que continuam a viver em condições de precariedade apesar das mudanças políticas. Com descrições detalhadas do quotidiano, o livro desafia as narrativas oficiais e questiona os rumos da governação moçambicana, expondo as tensões entre idealismo revolucionário e a realidade dura vivida pelo povo. Ungulani Ba Ka Khosa usa a escrita como ferramenta para denunciar as contradições e incoerências da história recente de Moçambique, ao mesmo tempo que evoca a memória coletiva e o desejo de transformação social.
“No subúrbio, pós-independência, os pobres pretos de outrora continuavam pobres e comemoravam, à sua maneira, o ano prestes a findar, com o pouco que tinham na mesa de madeira coberta por uma toalha de plástico, e um candeeiro a petróleo no centro da mesma a enterrar-se, de forma desequilibrada, no chão de areia; sentados em pequenos bancos de madeira, passavam de mão em mão a caneca com a cerveja tradicional. Todos ansiavam pelo novo ano, na esperança de outras melhoras na crescente pauperização da sociedade a militarizar-se.”
Ungulani Ba Ka Khosa em Imagens: Vida, Obra e Testemunhos em Vídeo