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"Olinda Beja: Voz e Alma de São Tomé e Príncipe na Literatura Lusófona"

Helena Borralho

Created on August 13, 2025

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Transcript

"Olinda Beja:Voz e Alma de São Tomé e Príncipe na Literatura Lusófona"

12 de fevereiro de 1946

"Olinda Beja – Voz e Alma de São Tomé no Universo Lusófono"

Olinda Beja é uma escritora, poeta e promotora cultural natural de São Tomé e Príncipe, reconhecida como uma das vozes mais autênticas e significativas na literatura lusófona contemporânea. A sua obra abrange poesia, prosa e literatura infantojuvenil, marcando-se pela valorização profunda da identidade cultural, da memória e das raízes africanas, especialmente as de São Tomé e Príncipe. A relevância de Olinda Beja na literatura lusófona está ligada à sua capacidade de integrar a tradição oral africana com a escrita moderna, criando uma linguagem sensível e evocativa que aproxima o leitor das suas origens e da cultura santomense. Ela destaca temas como a ligação à terra natal, a ancestralidade, o papel da mulher, a preservação da memória coletiva e o amor pela natureza.

"Por ti espero naquela roça grande no perfume do izaquente, no sopro do vento irrequieto, no riso da montanha misteriosa. Por ti espero junto ao secador."

"Olinda Beja – Voz e Alma de São Tomé no Universo Lusófono"

Além da escrita, Olinda Beja tem contribuído para a difusão da literatura africana de língua portuguesa através de recitais, em que declama e canta os seus poemas acompanhada por músicos, fortalecendo o caráter vivo e performático da sua produção. O seu trabalho tem sido premiado e reconhecido internacionalmente, nascendo como uma ponte entre as culturas africanas e o mundo lusófono, fazendo com que a sua voz seja referência para a valorização e promoção da cultura santomense e da literatura africana em geral. Sua importância vai além do texto escrito, pois também atua como embaixadora cultural que inspira novas gerações de escritores e leitores.

"Na minha terra há um rio que nunca vai ter ao mar, trago-o eu dentro do peito e o meu corpo é o seu leito onde ele se pode espraiar."

"Raízes e Infância de Olinda Beja em São Tomé e Príncipe"

Olinda Beja nasceu em São Tomé e Príncipe, na cidade de Guadalupe, a 12 de fevereiro de 1946. Filha de pai português e mãe santomense, passou os primeiros anos da vida na sua terra natal até aos quase 3 anos de idade, quando foi enviada para Portugal pelo pai, vivendo inicialmente em Mangualde, na região da Beira Alta. Essa mudança precoce não foi uma escolha sua, tendo ocorrido sem que ela tivesse responsabilidade nesse processo ou na história que se lhe foi tirada. Mesmo vivendo grande parte da sua vida fora de São Tomé, Olinda Beja mantém uma profunda ligação afetiva e cultural às suas origens. Em 1985, ao regressar ao seu país natal, reencontrou a paisagem luxuriante, o povo acolhedor e a família materna, o que reforçou ainda mais o seu compromisso literário de divulgar a identidade e cultura de São Tomé e Príncipe através da sua obra. A sua família materna é profundamente enraizada naquelas terras, sendo ali que nasceram e viveram as gerações anteriores. Atualmente, Olinda Beja divide o seu tempo entre Portugal, Suíça e São Tomé, preservando a casa materna em Batepá, onde encontra inspiração para a sua escrita. Esta origem e primeiros anos em São Tomé constituem uma base essencial para a sua lírica, marcada pela valorização da memória, da identidade, da terra e da cultura santomenses, apesar da experiência de diáspora e deslocamento na sua infância.

"Formação e Trajetória de Vida de Olinda Beja"

Olinda Beja, nascida em Guadalupe, São Tomé e Príncipe, em 12 de fevereiro de 1946, iniciou sua formação académica em Portugal, onde foi enviada ainda criança. Estudou e obteve o Diploma Superior dos Altos Estudos Franceses pela Alliance Française. Posteriormente, concluiu a Licenciatura em Línguas e Literaturas Modernas (Português e Francês) na Universidade do Porto. Para além desses cursos, frequentou o Curso de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa (LALP) pela Universidade Aberta e realizou outros cursos relacionados à sua atividade profissional e literária enquanto viveu na Suíça, onde também desempenhou a função de professora do ensino secundário. Entre 2005 e 2014, lecionou Língua e Cultura Portuguesas na Suíça.Sua trajetória pessoal é marcada por uma forte ligação às suas raízes santomenses, mesmo tendo passado grande parte da infância e vida adulta fora de São Tomé e Príncipe. Durante a infância, enfrentou a experiência do deslocamento precoce, que influenciou sua escrita e sua busca pela identidade cultural. Seu amor pelo livro e pela escrita nasceu num contexto familiar ligado à educação, já que vários membros da família paterna eram professores e amantes da leitura.

Aos 37 anos, Olinda Beja voltou a São Tomé e Príncipe, reencontrando as paisagens e a cultura da sua terra natal, o que a motivou a dedicar suas obras à divulgação da identidade e da cultura santomense. Desde então, tem dividido seu tempo entre Portugal, Suíça e São Tomé, preservando a casa materna em Batepá, local que continua a ser fonte de inspiração para sua escrita. Entre os marcos principais da sua vida, destacam-se: o início precoce na literatura, o reconhecimento internacional pela qualidade da sua obra, que inclui mais de 20 livros entre poemas, contos, romances e literatura infantojuvenil, e o papel que assumiu como embaixadora da cultura santomense pelo mundo. Em 2013, foi laureada com o Prémio Literário Francisco José Tenreiro, o maior reconhecimento literário de São Tomé e Príncipe.Olinda Beja também é reconhecida por unir tradição oral africana à literatura escrita contemporânea e por sua atuação como contadora de histórias e promotora cultural em diversos países, reforçando o valor da cultura africana de língua portuguesa a partir da sua voz e experiência pessoal.

"São Tomé e Príncipe – Relevância Lusófona e Influência na Obra de Olinda Beja"

São Tomé e Príncipe tem uma importância singular no espaço lusófono, apesar das suas dimensões geográficas reduzidas. O arquipélago é um símbolo cultural e histórico, representando um legado identitário que mescla influências africanas, europeias e sul-americanas, refletidas, por exemplo, nas roças, que são assentamentos rurais com arquiteturas únicas e um património identitário fundamental para a cultura lusófona. Este país insular mantém uma relevância política e económica crescente no contexto da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), promovendo a cooperação bilateral e destacando-se em setores como turismo, telecomunicações e agricultura, além de ser um ponte cultural entre África e o mundo lusófono.No que toca à obra de Olinda Beja, as influências culturais e sociais são profundamente enraizadas na identidade são-tomense e na memória coletiva do seu povo. A sua literatura revê e celebra as tradições, a oralidade e os costumes, sendo a escritora uma figura central na promoção da cultura santomense através da palavra escrita e performativa. Ela incorpora elementos das línguas crioulas como o forro em suas obras, reforçando a singularidade da sua identidade cultural num contexto pós-colonial.~ Temas como a condição feminina, a identidade cultural, a resistência pós-colonial e o resgate das práticas tradicionais (como a dança kilêlê) estão presentes na sua poesia, que também desmonta narrativas coloniais e valoriza a presença da mulher negra como sujeito ativo e agente de resistência cultural. Olinda Beja usa a literatura como meio para reafirmar a memória ancestral, o valor da cultura africana de expressão portuguesa, e promove uma reconstrução identitária que enfrenta os desafios históricos e sociais de São Tomé e Príncipe no espaço lusófono. Desta forma, São Tomé e Príncipe oferece o pano de fundo essencial para a obra de Olinda Beja, que por sua vez representa a cultura, a história e os desafios sociais do país no universo literário de língua portuguesa. A sua produção é uma ponte que aproxima o arquipélago ao mundo, valorizando a riqueza cultural da lusofonia e dando voz às experiências singulares do seu povo.

"Reconhecimento e Projeção Internacional de Olinda Beja"

Olinda Beja tem mais de 20 livros publicados, abrangendo poesia, romance, contos e literatura infantojuvenil, e muitas das suas obras são usadas em escolas e universidades a nível internacional. A sua escrita combina o português com expressões das línguas crioulas de São Tomé e Príncipe, reforçando uma identidade literária única. Além da sua produção escrita, tem uma presença ativa internacional como contadora de histórias e promotora cultural, participando em festivais e encontros literários em países como Brasil, Alemanha, França, Suíça e Portugal. Em 2013, foi distinguida com o Prémio Literário Francisco José Tenreiro, o maior galardão literário de São Tomé e Príncipe, pelo livro À Sombra do Oká. A sua obra já foi traduzida para espanhol, francês, inglês, mandarim, árabe e esperanto, o que evidencia a projeção global da sua voz no panorama literário.

"Trago-te aromas de água, frutos, gentes, pele escura, gotículas de seiva, vidas capinadas, oquês barrentos emprenhados de pau-canela e cajamanga."

"Poesia de Olinda Beja – Voz e Identidade"

"Bô Tendê?" (1992) é uma coletânea de poemas da escritora santomense Olinda Beja, publicada pela Câmara Municipal de Aveiro. Esta obra marca um dos seus primeiros livros e já revela a sensibilidade e a preocupação da autora em celebrar a cultura, a identidade e as raízes de São Tomé e Príncipe através da poesia. O livro destaca-se por uma linguagem emotiva e evocativa que entrelaça elementos da tradição oral africana com a escrita contemporânea, reforçando a presença da cultura santomense no universo lusófono. Os poemas exploram temas centrais como a ancestralidade, a ligação à terra, o papel da mulher, a memória coletiva e a natureza, aspectos recorrentes na obra de Olinda Beja. "Bô Tendê?" é uma obra significativa que apresenta a voz poética da autora afirmando a identidade cultural e o resgate das raízes em um contexto que transcende o local para dialogar com questões universais.

"Por ti espero naquela roça grande no perfume do izaquente no sopro do vento irrequieto no riso da montanha misteriosa."

Leve, Leve – Versos de Memória, Identidade e Esperança de Olinda Beja

Ilha Tenho uma ilha por dentro de mim cheia de corais e praias sem fim que chora e repete na longa distância os dias e as horas que me deu na infância tenho as canoas correndo na alma e bebo em orgias vinho de palma na roça à noite varrendo o terreiro eu falo e discuto com piadô feiticeiro santo é o seu nome e santa é a gente que as ilhas povoam bendito o seu ventre tenho uma ilha por dentro de mim cheia de floresta de mato capim que chora e repete no porto de abrigo os dias e as horas que eu trouxe comigo Olinda Beja, Leve leve

O livro de poemas "Leve, Leve" (1993), de Olinda Beja, é uma coletânea que aprofunda os temas característicos da sua poesia: a ligação íntima à terra natal de São Tomé e Príncipe, a memória ancestral, a identidade cultural e a valorização das tradições africanas. A expressão "leve, leve" traduz um sentimento de calma, suavidade e esperança que perpassa os versos da autora, conferindo um ritmo sereno e uma atmosfera de leveza mesmo diante das dificuldades da vida e do exílio. Nesta obra, Olinda Beja utiliza uma linguagem delicada e evocativa para explorar os laços com a natureza, a ancestralidade e as raízes culturais, refletindo também sobre a saudade e o desejo de reencontro com a terra e as suas gentes. Os poemas evocam a riqueza da paisagem, a resistência cultural e a comunhão permanente entre o ser humano e o meio que o envolve, num cenário marcadamente africano e insular. "Leve, Leve" é um convite à reflexão sobre o sentido de pertença, o fluxo da vida e a busca de equilíbrio entre o passado e o presente. A autora mantém o seu compromisso com a preservação da identidade são-tomense, fundindo a tradição oral com a poesia escrita, e destaca o papel da memória e da resistência cultural em tempos contemporâneos.

"No País do Tchiloli – Poesia e Cultura de São Tomé e Príncipe"

Balada África vivia do mar e da terra sem medo e sem guerra e sem tirania seus cabelos crepos ao vento oferecia livre forte bela nos rios lavava nos rios cantava... e África corria pelo oceano corria e dançava com frutos maduros colhidos dos ramos que por ela havia e em África crescia como espigas de oiro a nossa origem mas quis o destino que com lágrimas choradas se fizesse a nossa História nos rostos decepados de risos e de abraços contornámos o tempo contornámos a História calcorreámos a Europa e mais longe até.. América do Sul ... América do Norte mas foi o mar só o mar que engoliu o nosso grito imenso: KIDALÊ...Ô!!!! Olinda Beja, No País do Tchiloli" (1996)

No País do Tchiloli é uma coleção de poemas na qual Olinda Beja mergulha profundamente na identidade cultural, histórica e social de São Tomé e Príncipe. O título faz referência direta ao "Tchiloli", uma tradicional peça teatral são-tomense com raízes no século XVI e cujo espetáculo conserva um valor simbólico importante, associado à resistência cultural durante a colonização portuguesa. Nos poemas desta obra, Olinda Beja constrói uma linguagem sensível e evocativa que entrelaça a tradição oral africana e as línguas crioulas locais com a poesia escrita contemporânea. Os versos exploram temas como a ancestralidade, a ligação indissociável à terra natal, as dificuldades enfrentadas pelo povo santomense, as suas esperanças e resistências culturais, e a celebração da natureza exuberante da ilha. A poesia deste livro é marcada por imagens fortes da paisagem, do mar, do sol e da chuva que moldam a vida dos são-tomenses. Olinda Beja dá voz ao quotidiano, às histórias, às dores e às alegrias do seu povo, valorizando a memória coletiva e os rituais que sustentam a identidade cultural. É uma obra que, segundo a sua autora, pretende reivindicar o conhecimento e o orgulho pela história e pelas tradições locais menos reconhecidas fora do arquipélago. No País do Tchiloli reafirma a importância de São Tomé e Príncipe no espaço da lusofonia, não só pela sua riqueza cultural e histórica, mas também pela capacidade de sua literatura expressar a complexidade de um povo que resiste e se reinventa, mantendo vivas as suas raízes e a sua voz no mundo contemporâneo.

Quebra-Mar (2001) – Poesia de Identidade e Resistência de Olinda Beja

Quebra-Mar é uma coletânea de poemas da escritora são-tomense Olinda Beja, publicada em 2001. A obra mantém a ligação forte da autora à sua terra natal, São Tomé e Príncipe, explorando temas como a memória, a ancestralidade, a identidade cultural e a resistência frente às adversidades históricas e sociais.O título simboliza a ideia de proteção e preservação, como uma barreira contra as dificuldades, algo que se reflete na poesia que evoca a natureza exuberante da ilha, o mar, as paisagens, e sobretudo a força do povo são-tomense. A linguagem da autora põe em diálogo a tradição oral africana, a expressão das línguas crioulas e a escrita contemporânea em português, criando uma voz poética sensível e forte. Neste livro, Olinda Beja reforça a celebração da cultura e da história do seu povo, dando voz a vivências marcadas pela luta, pela esperança e pelo amor à terra natal. Quebra-Mar posiciona-se assim como um importante contributo para a literatura africana de língua portuguesa, destacando o poder da poesia como forma de afirmação cultural e memória coletiva.

"Trago-te aromas de água, frutos, gentes, pele escura, gotículas de seiva, vidas capinadas, oquês barrentos emprenhados de pau-canela e cajamanga..."

Água Crioula – Poesia da Identidade e Memória de Olinda Beja

Água Crioula é uma coletânea de poemas em que Olinda Beja aprofunda a sua relação com a identidade cultural e as raízes de São Tomé e Príncipe. Nesta obra, a autora evoca com sensibilidade e lirismo a natureza exuberante da ilha, os sons e cheiros da cultura crioula, e as histórias do seu povo, entrelaçando a tradição oral africana com a escrita contemporânea em português.O título simboliza a fluidez da cultura e das memórias que atravessam gerações santomenses, onde a "água" assume papel central como fonte de vida e elemento de ligação entre o passado e o presente. A poesia do livro explora temas como a ancestralidade, a pertença, a resistência cultural e a esperança, destacando a força da memória coletiva e o valor da tradição. Através de imagens vívidas e uma linguagem sensorial, Água Crioula reafirma o compromisso de Olinda Beja com a preservação e promoção da cultura são-tomense no espaço lusófono, marcando-a como uma voz essencial na literatura africana de língua portuguesa.

"Trago-te aromas de água, frutos, gentes, pele escura, gotículas de seiva, vidas capinadas, oquês barrentos emprenhados de pau-canela e cajamanga..."

"Aromas de Cajamanga – Poesia de Memória e Identidade de Olinda Beja"

"Aromas de Cajamanga" é uma coletânea de poemas da escritora são-tomense Olinda Beja, publicada em 2009 pela editora Escrituras, na coleção Ponte Velha. Com 174 páginas, o livro reforça a forte ligação da autora à sua terra natal, São Tomé e Príncipe, e à sua cultura tão rica e única. A obra explora profundamente a identidade cultural santomense, entrelaçada com a memória, ancestralidade e as tradições africanas e crioulas. O título remete à cajamanga (fruto da cajamangueira), conhecido pelo seu aroma intenso e marcante — uma metáfora para o cheiro e a presença viva da terra que a autora traz nos seus versos. Os poemas evocam imagens da natureza exuberante do arquipélago, os ritmos, cheiros e sabores da cultura crioula, além de refletirem a experiência da dupla identidade de Olinda Beja: a mestiçagem cultural que carrega, sendo filha de pai português e mãe santomense, uma voz que transita entre o local e o universal. Os seus versos são repletos de lirismo sensível, marcados pela valorização da memória coletiva, resistência cultural e esperança. Em "Aromas de Cajamanga", Olinda Beja afirma a sua voz como poeta e promotora cultural, convidando o leitor a sentir a essência da sua terra, evocando também a saudade, o amor e o orgulho pela matriz africana apesar das distâncias e do tempo vividos fora do arquipélago. Destacam-se poemas que falam do reencontro com a "mãe-África", da mestiçagem, da dor e da beleza da identidade negra e branca, e da importância da história e da cultura que não podem ser esquecidas. A autora incorpora também elementos da tradição oral e a música dos tambores, fortalecendo o vínculo afetivo e cultural com São Tomé e Príncipe.

"Trago-te aromas de água, frutos, gentes, pele escura, gotículas de seiva, vidas capinadas, oquês barrentos emprenhados de pau-canela e cajamanga, trago-te aromas de corpo-alma, rituais de puíta e Danço-Congo, insónias tropicais, melodias de portos inéditos, palavras de gengibre repartido por bocas onde escorre abacaxi selvagem, trago-te trilhos de matos ainda não descobertos, especiarias ondas de poemas, trago-te o que a minha ilha oferece."

"O Cruzeiro do Sul – Identidade e Memória na Poesia de Olinda Beja"

Fragilidade Frágil o mar o sonho a utopia A nossa emergência transparente de viver Frágil a sombra do ôká A fiá gleza As plantações Café cacau Frágil o caminho que leva à verde casa Frágil a mãe que ergue o dumo da coragem E ergue o rio em sua voz magoada E ergue a encosta crivada de matabala E desce a foz de seus passos E enlaça o corpo todo No sangue rubro das acácias Frágil o som da nossa voz O ténue abraço que nos separa do amanhã A hibridez de nossa pele nossos costumes Frágil a enseada onde aportam As jangadas de todas as raças Olinda Beja, in “O Cruzeiro do Sul”

O livro "O Cruzeiro do Sul" (2011) de Olinda Beja é uma coletânea de poemas que reflete a forte ligação da autora à sua terra natal, São Tomé e Príncipe, e aos temas centrais da sua obra, como identidade cultural, memória ancestral, natureza e resistência. Esta obra foi publicada numa edição bilingue em português e espanhol pela editora El Taller del Poeta, em Pontevedra. O título faz referência à constelação do Cruzeiro do Sul, um símbolo muito presente na cultura dos países do hemisfério sul, evocando sentido de orientação e identidade para os povos africanos e, no contexto da poesia de Olinda Beja, reforçando a conexão com as suas raízes e o posicionamento cultural na diáspora lusófona. Em "O Cruzeiro do Sul", os poemas trazem uma linguagem sensível e evocativa, onde a autora entrelaça a tradição oral africana com a escrita contemporânea, destacando a ancestralidade, a natureza e as vivências do povo santomense. Além disso, a obra destaca-se por sua capacidade de unir temas universais e locais, valorizando a memória, as raízes culturais e a força da mulher africana, que são traços recorrentes em toda a produção literária de Olinda Beja. O livro contribui para a projeção da poesia de São Tomé e Príncipe no panorama internacional, sendo a autora uma importante embaixadora cultural que divulga a rica tradição literária do arquipélago por diversas regiões do mundo.

À Sombra do Oká – Poesia da Memória e Identidade de Olinda Beja

À Sombra do Oká é uma coletânea de poemas que reflete a profunda ligação da autora à terra natal de São Tomé e Príncipe e à sua história cultural e social. Publicada em 2015, esta obra recebeu o Prémio Literário Francisco José Tenreiro, reconhecendo-a como uma contribuição relevante para a literatura africana de língua portuguesa.O título evoca a imagem do "oká", uma árvore típica da ilha que simboliza proteção, memória e a ligação à terra — elementos que permeiam toda a poesia do livro. Os poemas exploram temas como a ancestralidade, a identidade mestiça, a resistência cultural e as experiências coletivas do povo são-tomense, utilizando imagens da natureza, tradições orais e símbolos locais para construir uma narrativa poética forte e sensível. A linguagem de Olinda Beja funde a tradição oral africana com a escrita contemporânea em português, convidando o leitor a uma reflexão profunda sobre o passado e o presente das ilhas, bem como as esperanças para o futuro. A obra destaca igualmente o papel da mulher africana, a valorização da memória cultural e a preservação da identidade num contexto de pluralidade e mestiçagem. À Sombra do Oká é, assim, um marco na produção literária de Olinda Beja, consolidando-a como uma voz essencial na literatura lusófona e na cultura de São Tomé e Príncipe.

"Sob a sombra do oká, caminhamos entre raízes e histórias, entre vozes que resistem, entre sementes de esperança, plantadas no solo fértil das ilhas."

Kilêlê – A Dança Sagrada do Falcão: Poesia de Resistência, Identidade Feminina e Cultura de Olinda Beja

Kilêlê – A Dança Sagrada do Falcão (2021), de Olinda Beja, é uma coletânea de poemas que representa uma importante contribuição à literatura de São Tomé e Príncipe, centrada na condição feminina e na identidade cultural do país. A obra aborda a construção da identidade da mulher são-tomense num contexto marcado pelo patriarcado e pelo legado colonial, colocando a sensualidade e o corpo feminino no centro da sua poética. O título remete à dança tradicional kilêlê, que foi proibida pelas autoridades coloniais em 1925, e ao falcão, símbolo cultural do arquipélago. Nesta obra, Olinda Beja busca resgatar essa dança como forma de resistência e afirmação cultural, celebrando o corpo da mulher enquanto espaço de liberdade e expressão, rompendo com a marginalização histórica das mulheres na literatura e na sociedade. Os poemas destacam a sensibilidade, a beleza e a força da mulher africana, manifestas através da dança, do desejo e da corporeidade, numa linguagem que funde a tradição oral africana e a escrita contemporânea em português. A autora usa ainda termos do forro, língua criola são-tomense, para valorizar a cultura local e reforçar a identidade insular. Além da dimensão cultural, a poesia de Kilêlê faz uma crítica à repressão colonial e patriarcal, propondo uma reflexão sobre a liberdade da mulher e o poder de afirmação de sua identidade através da dança e do corpo. Olinda Beja amplia, assim, o cânone literário santomense, trazendo uma voz feminina, erótica e de resistência à cena poética contemporânea. Kilêlê – A Dança Sagrada do Falcão é uma obra que celebra a liberdade, a sensualidade e a força da mulher são-tomense, recuperando uma prática cultural banida e transformando-a numa poderosa metáfora de resistência identitária e cultural.

"Na dança do falcão, movem-se ancestrais, corpos livres em aliança, ritmo que reclama a lembrança, a força da mulher que não se cala, que resiste em cada passo, em cada gesto, em cada fala. Kilêlê sagrado, ritual de fogo e de alma, pulsar antigo, semente viva, libertação do corpo, eco da história que não se esquece."

"15 Dias de Regresso – Identidade, Memória e Pertença na Obra de Olinda Beja"

15 Dias de Regresso (1994), de Olinda Beja, é um romance que conta a história de Xininha, uma menina crioula de São Tomé e Príncipe, trazida ainda criança para viver na fria região da Beira Alta, em Portugal. A narrativa centra-se no seu percurso de retorno à terra natal, explorando temas de identidade, pertença, memória e os conflitos da diáspora lusófona. O livro retrata as dificuldades de adaptação da protagonista em contextos culturais distintos e o impacto da distância da família e da cultura de origem. A autora aborda a mestiçagem e a complexidade da construção identitária, cruzando lembranças, afetos e a busca por raízes num processo de autoentendimento e reconciliação. Considerada uma obra autobiográfica em várias dimensões, 15 Dias de Regresso tem sido objeto de estudo em universidades internacionais, destacando-se por sua riqueza cultural e social, assim como pela forma sensível com que Olinda Beja expõe a experiência das comunidades africanas lusófonas na Europa e a reconexão com suas origens

"Abri a janela e deixei o ar da manhã entrar, com aquele cheiro a cacau e maresia que só a minha ilha tem. Estava de volta. Quinze dias apenas para matar a saudade, para reencontrar rostos e vozes que o tempo tinha guardado no fundo da memória. Caminhei pela rua de terra batida, cada passo um pedaço de infância recuperada."

"A Pedra de Villa Nova – Tradição, Memória e Cultura na Obra de Olinda Beja"

A Pedra de Villa Nova (1999) é um romance de Olinda Beja publicado pela editora Palimage. Com cerca de 176 páginas, a obra destaca-se pelo uso da linguagem rica e colorida, fazendo uma viagem aos finais do século, explorando desde os salões da nobreza até ao ambiente das tardes campesinas em São Tomé e Príncipe. O romance concentra-se em temas históricos e sociais, mostrando a complexidade das relações entre diferentes classes e realidades culturais no arquipélago, enquanto aborda a identidade e as tradições locais. A história transpõe também as transformações sociais do período, revelando um olhar detalhado e sensível sobre a cultura santomense. Este livro insere-se na produção literária de Olinda Beja que valoriza a memória cultural, a ancestralidade e as vivências do seu povo, conjugando uma escrita lírica com uma forte componente narrativa.

"Nas tardes douradas da roça, as sombras compridas dançavam entre as árvores, enquanto o cheiro do cacau maduro pairava no ar. Villa Nova era mais do que uma pedra — era o coração pulsante da nossa história, testemunha silenciosa dos risos e lágrimas que moldaram o destino desta terra. Sob a sua sombra, contavam-se segredos de antepassados e cantavam-se canções que o tempo não levou."

Pingos de Chuva – Contos de Memória, Natureza e Espírito de São Tomé

Pingos de Chuva (2000), de Olinda Beja, é um conto que integra a coleção "Tempo de África", publicado pela Palimage Editores. A obra expressa a espiritualidade e a riqueza sensorial profundamente ligadas às raízes africanas, em particular à cultura são-tomense, que a autora tão bem conhece e valoriza. O conto retrata as memórias, sensações e atmosferas da terra natal, permeadas de simbolismos e da ligação afetiva entre o indivíduo e a comunidade, representando a identidade cultural e o espírito do povo das ilhas. A escrita de Olinda Beja destaca-se pela sensibilidade poética, onde a natureza e a ancestralidade são protagonistas, revelando uma África íntima e vibrante.

"Pingos de Chuva tem em si os sentidos e a espiritualidade mágica que só África conserva no seu ser mais íntimo. E chegar a essa alma profunda, pela mão dos que escrevem com o coração, é uma viagem que este conto nos propõe."

A Ilha de Izunari – Memória, Cultura e Tradição na Prosa de Olinda Beja

O livro "A Ilha de Izunari" (2003), de Olinda Beja, é um conto publicado pela UNEAS (União Nacional dos Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe), com cerca de 77 páginas. Esta obra integra a vasta produção literária da autora, que reabre a ligação com a sua terra natal e suas raízes culturais, explorando temas relacionados à identidade, memória e à riqueza da cultura são-tomense. "A Ilha de Izunari" situa-se no contexto narrativo de São Tomé e Príncipe, oferecendo uma visão sensível e profunda da realidade da ilha, aliando a tradição oral e a escrita contemporânea numa linguagem acessível e evocativa. Como é comum na escrita de Olinda Beja, destaca-se o cuidado com a memória coletiva, a valorização das histórias do povo e o entrelaçamento do local com dimensões universais.

"Izunari ergue-se no horizonte como um silêncio antigo. A sua areia guarda as pegadas de quem partiu e as conchas que o mar deixou para contar histórias. Ali, cada pedra conhece o nome dos ventos e cada palmeira murmura segredos de antepassados. Quem chega à ilha regressa a si próprio, porque nela cabem todas as memórias que o mundo quis esquecer."

Pé-de-Perfume – Contos de Memória, Identidade e Cultura em São Tomé e Príncipe

Pé-de-Perfume (2004) é uma coletânea de 23 contos da escritora são-tomense Olinda Beja que nos transporta para o quotidiano, a cultura e as memórias do arquipélago de São Tomé e Príncipe. Publicado pela editora Escritor, o livro venceu a Bolsa de Criação Literária em 2004 e é frequentemente estudado como obra de referência da literatura santomense contemporânea. Os contos abordam temas como a identidade cultural, a tradição oral, a relação entre passado e presente, a vida nas ilhas e a mestiçagem. A autora utiliza uma linguagem rica, marcada por imagens sensoriais e elementos da cultura local, como aromas e sons, que enriquecem a narrativa e aproximam o leitor das vivências santomenses.

"O cheiro do pé-de-perfume invadia as ruas de Guadalupe, como uma promessa de encontros e histórias guardadas na brisa quente. Cada aroma era um convite a viajar pelo tempo, sentindo o pulsar de uma terra onde a natureza e as gentes se entrelaçavam na dança invisível da vida."

A Casa do Pastor – Memórias, Tradição e Sabedoria Rural na Ficção de Olinda Beja

A Casa do Pastor (2011), de Olinda Beja, é um livro publicado pela Chiado Editora, inserido na coleção "Viagens na Ficção". Com cerca de 147 páginas, esta obra reúne histórias contadas à autora pela sua avó e pelo velho pastor octogenário João Grilo, além de memórias da sua própria infância vivida na Beira Alta. O livro transporta o leitor para o interior rural português, explorando temas como as tradições, os afetos, a solidariedade comunitária e a simplicidade da vida camponesa. Cada conto é atravessado por um sentido profundo de nostalgia e ligação à terra, valorizando a cultura popular e a sabedoria herdada das gerações mais velhas. Olinda Beja constrói uma ponte entre São Tomé e Príncipe e Portugal, misturando experiências, recordações e culturas, numa escrita sensível, poética e marcada pela ternura, onde a figura do pastor assume papel central como guardião de histórias e valores que resistem ao tempo.

"A luz morna do entardecer entrava pela janela da casa do pastor, enchendo de dourado as paredes já gastas pelo tempo. Ali, sob o olhar atento de João Grilo, ouviam-se histórias de lobo e de neve, de gentes humildes e sonhos perdidos, contadas com a voz pausada de quem conhece o segredo da terra."

Histórias da Gravana – Memória, Identidade e Resistência nas Contos de São Tomé

Histórias da Gravana (2011), de Olinda Beja, é uma coletânea de contos que revisita memórias, tradições, paisagens e quotidianos de São Tomé e Príncipe. O livro centra-se especialmente na força da identidade santomense e na condição feminina, explorando a resistência cultural, o ambiente insular, e temas como pertença, afetos familiares e sobrevivência. Na obra, contos como “Lembranças de Ponta Figo” e “Homenagem” exemplificam a valorização da tradição oral, a memória dos antepassados e o papel da mulher na cultura local. A escrita de Olinda Beja, sensível e poética, transporta o leitor para a atmosfera da “gravana” — a época seca da ilha —, unindo o tempo natural ao tempo das histórias e lembranças.

"Quando o vento seco da gravana sibilava entre os coqueiros, a aldeia recolhia-se no silêncio das noites e cada casa se tornava guardiã das histórias que só a terra sabe contar. As mulheres, sentadas à porta, costuravam memórias e sorrisos, e da boca dos mais velhos vinham relatos de tempos de coragem, de saudade e de esperança, como quem acende a luz para que o passado nunca se apague."

Um Grão de Café – Honestidade e Origem da Ilha do Príncipe

Um Grão de Café (2013), de Olinda Beja, é uma obra infantojuvenil que conta a história de Paguê, o menino que deu origem ao nome da ilha do Príncipe. No conto, o rei da ilha procura um herdeiro digno para o trono e entrega a cada criança um grão de café para cuidar durante um ano. No fim do prazo, todos apresentam um vaso com uma planta exceto Paguê, que traz somente um vaso vazio — pois, apesar de ter dedicado todo o seu esforço, o grão não germinou. A honestidade e sinceridade de Paguê revelam ser a verdadeira virtude que o rei procurava. Este livro é considerado a primeira obra para crianças escrita em São Tomé e Príncipe, destacando valores como a verdade, a humildade e a ligação à tradição local, sendo ideal para abordar temáticas de princípios, cultura e pertença insular junto dos mais jovens.

"Paguê olhou triste para o seu vaso vazio. Todo o ano cuidou daquele grão de café, com esperança no coração e olhos atentos à terra húmida. No dia marcado, caminhou até ao rei, trazendo apenas o silêncio do seu esforço. O velho monarca sorriu, pois via ali a verdade simples que vale mais que qualquer planta."

Tomé Bombom – Histórias, Sonhos e Raízes das Ilhas para Crianças e Curiosos

Tomé Bombom (2016), de Olinda Beja, é um livro infantojuvenil ilustrado por Teresa Bondoso, com 42 páginas, dedicado às crianças e “outros curiosos”. A obra destaca-se por inverter a tradição da contação de histórias: em vez de um adulto narrar para a criança, é Tomé, o menino das ilhas, que assume a voz do narrador e partilha histórias, segredos e costumes, agindo como um jovem "griot" da tradição oral africana. O livro aborda os dilemas dos meninos santomenses — o desejo de partir e o de permanecer —, transmitindo valores como a cultura, a família, os afetos e o equilíbrio entre o sonho e as raízes. Olinda Beja assume um compromisso forte com a história de São Tomé e Príncipe, tornando o livro acessível a todas as idades e promovendo o conhecimento das tradições locais.

"Um dia eu vai com grupo a Lisboa e volta mais não..." Oh Tomé... tu ias embora e deixavas a mãe, a avó, o irmão e a Tintina?! Não, não acredito. Tomé olhou longamente para mim e sorriu e, naquele sorriso, vi tristeza e alegria. Este é o destino dos meninos das ilhas. Querem sair, mas também querem ficar."

Chá do Príncipe – Contos de Resistência, Memória e Identidade de São Tomé

Chá do Príncipe (2017), de Olinda Beja, é uma coletânea de 22 contos onde a autora, inspirada na tradição oral africana, retrata as vivências humanas e naturais de São Tomé e Príncipe. Nos seus contos, Olinda Beja transforma a memória de traumas históricos e sociais—como a colonização, a escravidão e as dificuldades pós-independência—em poesia, esperança e afirmação de identidade. A obra dá voz a quotidianos, afetos, desafios e celebrações, ligando passado e presente com sensibilidade e crítica social. Sob a sombra do “velho oká” e pela força de tradições, cultos e linguagens, constrói-se um cenário de resistência, ternura e pertença, destacando sobretudo a importância de preservar raízes culturais, afetos familiares e memórias insulares.

"Nestes contos do Chá do Príncipe, à guisa de tradição oral africana, Olinda Beja poetiza agruras, pobreza, traumas do passado e do presente. Mas, assim, abre caminho ao sorriso de esperança nos olhos da liberdade, porque, afinal, a vida se impõe sobre a memória tenebrosa de séculos."

Simão Balalão – Viagem, Sonho e Raízes nas Ilhas para Jovens

Simão Balalão (2019), de Olinda Beja, é um conto infantojuvenil que narra a história de Simão, um menino ilhéu cheio de sonhos e vontade de partir para outros horizontes. Ao longo de algumas tentativas de aventura não bem sucedidas, é através dos conselhos da mãe que Simão aprende o verdadeiro significado de pertença e identidade. No final, descobre que "a nossa terra é a nossa terra" — ou, como se diz em santomé: tela non sa tela non. Este livro é uma celebração das raízes, da cultura local e dos afetos familiares, transmitindo aos leitores mais jovens a importância de valorizar o lugar de onde se vem e a sabedoria dos mais velhos.

"Simão olhou o mar, grande e azul, e pensou nas aventuras que lhe enchiam o peito de esperança. Mas quando o vento das partidas soprou forte, a voz da mãe agarrou-lhe o coração: 'Simão, filho, tela non sa tela non.' E Simão percebeu, no sorriso da mãe, que às vezes o maior horizonte é aquele que encontramos ao regressar a casa."

Temas Recorrentes na Obra de Olinda Beja: Identidade, Terra, História e Mulher

A produção literária de Olinda Beja distingue-se pela constância de temas que refletem a identidade e a experiência são-tomense, sempre com base em dados verdadeiros e reconhecidos pela crítica e investigação literária. Identidade Cultural e Memória: um dos eixos fundamentais da escrita de Olinda Beja é a valorização da identidade cultural africana, especialmente de São Tomé e Príncipe. As suas obras são atravessadas pelo resgate da memória coletiva — familiar, histórica e comunitária — através de personagens, paisagens e tradições que preservam as raízes do povo santomense. A autora utiliza a tradição oral e memórias de infância para transmitir o sentido de pertença e continuidade. Relação com a Terra Natal e Natureza: a ligação à terra natal e à natureza da ilha surge como cenário e protagonista das suas narrativas. Elementos como o clima tropical, as plantas típicas (cacau, palmeira, bambu), a estação das chuvas e o mar são constantes, revelando o contacto profundo entre o ser humano e o ambiente natural. Esta relação assume uma dimensão espiritual e afetiva nas suas histórias e poemas. Questões Sociais e Históricas: Olinda Beja aborda com sensibilidade as questões sociais e históricas relevantes para África e para a diáspora lusófona: colonização, escravatura, desigualdade, migração e exílio. A sua escrita denuncia injustiças, celebra a resistência cultural e procura dar voz aos silenciados pela história, sempre com um toque poético que transforma a denúncia em esperança. Valorização da Mulher e do Papel da Poesia: a autora destaca frequentemente o papel da mulher, seja enquanto mãe, guardiã de histórias, trabalhadora ou símbolo de sensualidade e resistência. As mulheres de Olinda Beja são centrais para a transmissão da cultura e para a reconstrução da memória. Paralelamente, a poesia tem um papel transversal na obra da autora, funcionando como forma de expressão, resistência e afirmação identitária.

Estilo Literário e Influências na Obra de Olinda Beja: Poesia, Oralidade e Contribuição Lusófona

Olinda Beja possui um estilo literário marcadamente poético, sensorial e intimista. A sua escrita é rica em imagens, metáforas e sonoridades que evocam o ambiente natural e cultural de São Tomé e Príncipe. Os textos costuram oralidade, ritmo, afetos e a musicalidade própria das línguas africanas. A autora privilegia a simplicidade aparente, mas preenche-a de profundidade afetiva e filosófica, tornando cada conto ou poema numa experiência de memória e de pertença. Além disso, Beja mistura géneros — conto, romance, poesia — e utiliza expressões populares e termos em línguas locais (forro), conferindo autenticidade e identidade à sua produção.A sua obra é fortemente influenciada pela tradição oral africana, pela literatura de membros da geração da Casa dos Estudantes do Império, e pelas vozes femininas africanas que exploram temas da identidade, da mestiçagem e do exílio. Olinda Beja inspira-se também nos contos populares das ilhas, nas histórias familiares e nos acontecimentos do quotidiano santomense. Culturalmente, está enraizada na experiência insular e na riqueza das línguas locais, mantendo diálogo com autores como Conceição Lima, Alda Espírito Santo, Mia Couto e outras figuras da literatura africana. Olinda Beja é reconhecida como uma das mais importantes vozes da literatura africana de língua portuguesa, contribuindo decisivamente para a divulgação da cultura, da história e das preocupações sociais de São Tomé e Príncipe. Os seus livros são estudados internacionalmente, tanto em África como em Portugal e Brasil, influenciando novas gerações de autores e leitoras. Destacam-se a afirmação das mulheres, a denúncia poética das injustiças, a preservação da tradição oral e a abertura à mestiçagem cultural.

"No silêncio das manhãs tropicais, escuto o pulsar da ilha. Cada folha murmurando memórias, cada passo abrindo caminhos entre o cacau e o vento. Aqui, onde o tempo é feito de saudade e esperança, guardo nos olhos a cor do mar antigo e no peito a força dos que vieram antes de mim. É nestas histórias de terra e sonho que aprendo quem sou."

Reconhecimento e Prémios na Trajetória Literária de Olinda Beja

Olinda Beja é uma das vozes mais reconhecidas e premiadas da literatura de São Tomé e Príncipe. Ao longo da sua carreira, tem sido distinguida tanto no seu país natal como em Portugal e no espaço internacional, pela qualidade e relevância da sua obra literária. A autora recebeu por duas vezes a Bolsa de Criação Literária (2004 e 2008), e foi agraciada com o Grande Prémio Literário Francisco José Tenreiro em 2013, reconhecido como o mais importante prémio literário santomense. O seu livro “Histórias da Gravana” foi também finalista do Prémio PT Literatura no Brasil, em 2012, reforçando o impacto da sua escrita para além do espaço lusófono. Em 2005, Olinda Beja foi condecorada no Brasil com a Ordem da Comenda dos Países Irmãos, uma distinção atribuída na presença dos presidentes de Brasil e Portugal. Em 2020, recebeu o Prémio Lusofonia na área da literatura, atribuído por instituições culturais do universo da língua portuguesa. O reconhecimento institucional inclui ainda a adoção das suas obras em planos de leitura de vários países, incluindo Portugal, Brasil, Suíça e Alemanha, e a participação em festivais literários e conferências internacionais. Olinda Beja é estudada em universidades e traduzida em diversas línguas, sendo presença constante em eventos literários, recitais e encontros culturais em todo o mundo.

Olinda Beja: Guardiã da Cultura Santomense e Voz da Literatura Africana Lusófona

Olinda Beja tem desempenhado um papel fundamental na divulgação, afirmação e valorização da cultura de São Tomé e Príncipe, tanto no contexto africano como no universo da lusofonia. A sua obra dá voz às tradições, memórias, paisagens e mitos das ilhas, preservando a identidade santomense através da literatura. Beja investe na valorização da oralidade, dos costumes locais, dos sabores, cantos e danças tradicionais, promovendo o respeito e o conhecimento pelas raízes africanas. Nos seus poemas, contos e romances, é possível encontrar referências à história, mitologia, língua, dificuldades e sonhos do povo santomense, traduzindo para a palavra escrita aquilo que durante séculos foi transmitido oralmente.Além de ser reconhecida como uma das principais autoras da literatura de São Tomé e Príncipe, Olinda Beja influencia e inspira gerações de novos escritores africanos, sobretudo mulheres, incentivando o aparecimento de vozes que falam sobre identidade, memória, resistência e migração. O seu compromisso com temas sociais, históricos e culturais faz das suas obras referência obrigatória nos estudos literários africanos e na formação de professores e estudantes em países lusófonos. A autora contribui para o fortalecimento da literatura africana de língua portuguesa ao romper barreiras editoriais e educativas, sendo incluída em planos nacionais de leitura e estudada internacionalmente.

"Quem Conta um Conto… com Olinda Beja"

"Olinda Beja – Voz e Alma de São Tomé em Movimento"

"Ébano – Raiz e Essência Africana"

ÉBANO Noite sem lua no deserto que comprime a exatidão das coisas paradoxo ambíguo de solidão estática do astro inigualável noite de breu no areal sem fim do eterno além-fronteira onde o nada vive acorrentado à esfinge da nossa escuridão flutuam estrelas mas a lua não vem na mesma rota das quimeras escondeu o rosto na lagoa onde perpétuo repousa o despertar inviolável da nossa cor de ébano - Olinda Beja, no livro "Aromas de Cajamanga"

O poema "Ébano" é uma celebração da identidade africana, da força interior e do orgulho das raízes. O ébano, madeira nobre e resistente, é usado como metáfora para a pele negra, para a herança cultural e para a beleza que nasce da história e da terra africana. Através da sua escrita sensível e evocativa, Olinda Beja associa o ébano à memória ancestral, à ligação profunda com o continente africano e à dignidade que resiste ao tempo e às adversidades. O poema valoriza a ancestralidade, a natureza e o orgulho étnico, transformando a palavra “ébano” num símbolo de pertença, resistência e amor próprio. No conjunto, a obra transmite uma mensagem de respeito e exaltação das origens, ao mesmo tempo pessoal e universal, celebrando África como fonte de vida, cultura e poesia.

"Fertilidade – Semente e Memória da Terra"

FERTILIDADE A nossa casa mãe é quali de goiabas a projectar-se na floresta azul onde o teu ventre se multiplica e se debate em palavras molhadas de imensidão tempos houve em que o teu rosto ausente se embrenhou no plasma vigoroso que deteve a morte inglória de teus frutos. Volto à nossa casa mãe e o quali de goiabas é o rosto de outras mães que saúdam as úluas sozinhas e distantes na savana inquieta das ilhas - Olinda Beja, no livro "Água Crioula"

O poema "Fertilidade" de Olinda Beja é uma celebração da força criadora da vida, associando a capacidade de gerar ao poder feminino, à natureza e à terra africana. A fertilidade é apresentada como uma semente que brota tanto do ventre da mulher como do próprio solo, unindo o ciclo humano ao ciclo natural. A autora utiliza imagens ricas e sensoriais para transmitir abundância, renovação e esperança, evocando o papel da mulher como guardiã e fonte de continuidade. O texto valoriza a ligação ancestral entre corpo, terra e memória, transformando a fertilidade num símbolo de prosperidade, identidade e pertença. No seu conjunto, o poema é um hino à vida, à criação e ao respeito pelas origens, oferecendo uma visão onde a fecundidade é tanto biológica quanto cultural e espiritual.

"Raízes – Memória e Sangue da Terra"

RAÍZES Há rumores de mil cores enfeitando o espaço de gorjeios infantis transportando aquele abraço de anãs juvenis árias que perduram na mensagem da nossa voz e da nossa imagem. São rumores de tambores repercutindo a esperança de olhares inquietos toada de lembranças liturgia de afectos. São rumores maternais presos à terra que nos diz que só o maior dos vendavais arranca da árvore a raiz. - Olinda Beja, no livro "Aromas de Cajamanga"

O poema "Raízes" é uma evocação profunda da origem e da ligação indissociável à terra natal. As raízes simbolizam não apenas o enraizamento físico na terra de São Tomé e Príncipe, mas também a herança cultural, a memória ancestral e os laços afetivos que unem a poeta à sua história. Olinda Beja recorre a imagens ligadas à natureza, à terra fértil e ao mar para transmitir a ideia de pertença e continuidade. As raízes são apresentadas como fonte de força, nutrindo a identidade e resistindo ao passar do tempo, mesmo perante a distância ou o exílio. No conjunto, o poema é um canto de identidade e gratidão, celebrando o vínculo entre passado e presente, entre corpo e terra, e afirmando que, tal como as árvores, também as pessoas vivem ancoradas na sua origem, alimentadas pelas memórias e pela cultura herdada.

Eis-me aqui Estou aqui a contar-te dos caminhos que percorro velhos estreitos esventrados caminhos de sulcos e de cabras onde nossos avós colheram pão de côdea dura estou aqui a contar-te dos cheiros doces e acres dos frutos tropicais cheiros que se foram confundindo no sangue que se afundou em docas e mares mas emergiu mais vermelho que o chão da nossa terra estou aqui inteira viva irrequieta como pássaro que acasala no equilíbrio de um ramo e como tu quero ferir meus pés no lençol de pedras que atapeta o ôbô inundar de algas azuis o corpo reflectido no espelho das calemas estou aqui para escutar o vento no zinco dos casebres e exorcisar os medos que vagueiam na linguagem do povo estou aqui como tu borboleta tricolor que pousa no eco das muralhas e morre a ouvir histórias de um país calcinado. Olinda Beja, Água Crioula

Eis-me Aqui – Poema de Regresso e Pertença

O poema "Eis-me Aqui" transmite uma forte mensagem de regresso e pertença. É uma afirmação de presença e identidade, expressando o reencontro da autora com as suas raízes, a terra natal e a memória. O tom é íntimo e confessional, típico na escrita de Olinda Beja, recorrendo a imagens ligadas à natureza, ao mar, à infância e à ancestralidade. A obra sugere também autoafirmação e reconciliação com o passado, abordando temas como a saudade, o exílio e o sentimento profundo de ligação ao lugar de origem. Inserido no contexto da literatura africana de língua portuguesa, o poema celebra a cultura santomense e valoriza o papel da mulher como guardiã da memória e da tradição.

Âncoras Âncoras de esperança. Prelúdio de árias inacabadas cantilena de mãe nos braços das úluas tambor no terreiro de San Kánina meu avô lusitano. Caravelas de mãos sangrando nos quatro cantos do mundo meu avô africano. Meu sangue mestiço angariando esmola meu batuque... minha viola

"Âncoras – Entre o Mar e a Terra Natal"

O poema "Âncoras" utiliza a imagem da âncora como símbolo de estabilidade, segurança e ligação ao lugar de origem. Representa tudo aquilo que mantém a poeta enraizada, mesmo quando o mar — metáfora de viagens, mudanças ou incertezas — a leva para longe. A âncora surge associada à terra natal e às memórias que a sustentam, evocando a proteção, a identidade e o sentido de pertença que evitam a deriva. É também um símbolo de resistência e de fidelidade às próprias raízes, à cultura e aos afetos que moldaram quem ela é. Com uma linguagem sensível e imagética, Olinda Beja entrelaça o mar, a terra e a âncora para transmitir a ideia de que, apesar das distâncias e das tempestades, existe sempre um ponto seguro que nos prende ao essencial — a origem, a história pessoal e a memória ancestral.

"Nos Velhos Caminhos da Roça"

XII perdi-te nos velhos caminhos da roça. Escuridão irreflectida nas inquietas folhas dos bambus sonhei-te em muitos longes e eras ave entretecida ao sonho teu rosto espelho onde se vislumbrava o horizonte teus pés dançarinos em jeito de onda naquele eterno vai-vem num chão atapetado de outras pátrias regado com vinho palma em cada mês da estação das chuvas teus folguedos, oh sim teus apetitosos folguedos, testemunhos fieis de todas as vidas que aqui floriram nas águas assombradas de gritos e de preces fica a embriaguez de braços e abraços e beijos frementes entre sorrisos entreabertos à exuberância das horas portal sagrado de enigmas e de rotas como fruto da distância inominada prantos se extinguiram quando as rosas de porcelana exalaram seus púdicos odores iguaria salteada de palavras verdes como a ilha onde repousam teus pés bailarinos foste moçu káta em tua desabrigada infrutescência em tuas veias onde se diluiu o som do pitu dôxi no acalento da partida e da chegada Do livro Kilêlê, a dança sagrada do falcão

Este excerto de Kilêlê – A Dança Sagrada do Falcão apresenta uma voz poética que fala de perda, memória e desejo, evocando um “tu” que pode ser tanto uma pessoa amada como a própria ilha de São Tomé. Através de imagens ricas e sensoriais — caminhos da roça, folhas de bambu, vinho palma, chuvas tropicais — a autora mistura elementos da natureza, do quotidiano e da cultura local, incluindo expressões em língua forro (moçu káta, pitu dôxi). O texto alterna entre a ternura e a sensualidade (“abraços e beijos frementes”, “folguedos”), e símbolos de sagrado e mistério, criando uma atmosfera de saudade e ligação profunda à terra e à identidade cultural. É um poema que funde amor, pertença e resistência cultural, celebrando a memória e a essência da ilha através da linguagem poética.