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Dina Salústio: Voz Pioneira da Literatura Cabo-Verdiana e Africana

Helena Borralho

Created on August 5, 2025

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Dina Salústio: Voz Pioneira da Literatura Cabo-Verdiana e Africana

27 de março de 1941,

Dina Salústio: Vida, Legado e Influências na Literatura Cabo-Verdiana e Africana

Dina Salústio, pseudónimo de Bernardina Oliveira, nasceu em 27 de março de 1941 na ilha de Santo Antão, Cabo Verde. É uma das mais emblemáticas escritoras cabo-verdianas, sendo reconhecida como a primeira mulher a publicar um romance no país e membro-fundadora da Academia Cabo-verdiana de Letras. A sua vida atravessa várias funções importantes: foi professora, jornalista, assistente social e produtora de rádio, tendo exercido estas atividades não só em Cabo Verde, mas também em Portugal e Angola. Trabalhou no Ministério dos Negócios Estrangeiros de Cabo Verde, dirigiu programas educativos na rádio e foi uma das fundadoras da Associação dos Escritores Cabo-verdianos, além de ter colaborado com várias publicações literárias e jornais. Dina Salústio construiu a sua obra literária num contexto cabo-verdiano marcado por profundas transformações políticas e sociais, desde o colonialismo à independência em 1975. Cresceu inserida em ambientes de forte insularidade, pobreza, migração e exclusão social, elementos que se refletem nas suas narrativas e poesia. O seu olhar é crítico e denuncia desigualdades sociais, com destaque para as dificuldades vividas pelas mulheres em Cabo Verde e no espaço africano. As suas personagens femininas de diferentes classes e idades simbolizam a luta pela afirmação, resistência e emancipação, fruto de um ambiente social ainda impactado pela violência de género e pela herança colonial.

Dina Salústio: Vida, Legado e Influências na Literatura Cabo-Verdiana e Africana

Na escrita de Dina Salústio observa-se também a influência do pensamento feminista e da literatura de resistência, sobretudo após a independência de Cabo Verde, altura em que novas vozes começam a emergir na literatura africana. O seu trabalho destaca-se ainda pela valorização da cultura crioula, das tradições orais, das memórias de infância e das experiências de isolamento e diáspora. Ao longo da carreira, Salústio foi premiada em Cabo Verde e internacionalmente, sendo distinguida com vários prémios literários e reconhecida pelo contributo no combate à violência de género e pela promoção da literatura e cultura cabo-verdianas. Atualmente, é tida como referência da literatura africana lusófona, sendo a sua obra estudada e celebrada por abordar, com sensibilidade, coragem e humanidade, temas tão caros ao arquipélago e ao continente africano.

“À borda do barranco, com a lata de água à cabeça e a saia batida pelo vento, pensou nos filhos e levou as mãos ao peito. O que tinha a ver os filhos com o coração? Os filhos… Como ela os amava, Nossenhor!”

Dina Salústio: Pioneira e Voz Transformadora da Literatura Cabo-Verdiana

Dina Salústio ocupa um lugar central e inovador na literatura cabo-verdiana e africana. É amplamente reconhecida como a primeira mulher a publicar um romance em Cabo Verde, com a obra “A Louca de Serrano” (1998), num universo literário marcadamente masculino e ainda pouco aberto à expressão feminina. Esse feito não representa apenas o início de uma nova etapa na literatura do país, mas também um avanço simbólico na representação da mulher africana como sujeito literário, voz reflexiva e criadora. A sua escrita destaca-se por romper silêncios em torno das experiências, dores e resistências vividas pelas mulheres cabo-verdianas, tornando-se uma literatura de força e denúncia social, com temas que expõem a marginalização, a pobreza e as dinâmicas de género no contexto insular e africano. Dina Salústio é também conhecida por explorar, com sensibilidade, questões como a violência de género, a construção da identidade feminina e os efeitos persistentes do colonialismo, conferindo às suas personagens uma singularidade e profundidade rara.

Dina Salústio: Pioneira e Voz Transformadora da Literatura Cabo-Verdiana

Além do pioneirismo, o seu papel inovador manifesta-se na linguagem, na diversidade de géneros (prosa, poesia, literatura infantojuvenil, ensaio) e na autenticidade com que retrata a sociedade cabo-verdiana. Fundadora e membro ativo de instituições literárias, como a Academia Cabo-verdiana de Letras, Salústio influenciou diretamente a valorização da produção literária feminina no arquipélago e inspirou toda uma geração de escritoras africanas de língua portuguesa. A sua obra, traduzida e estudada internacionalmente, tornou-se referência para a afirmação de uma literatura escrita por mulheres em Cabo Verde e no continente africano, ajudando a transformar as narrativas, a memória e a identidade cultural das ilhas – um legado de resistência, emancipação e renovação literária.

"Em Cabo Verde, quando nasce uma menina, ela já é uma mulher."

Identidade, Condição Feminina e Diáspora na Obra de Dina Salústio

A obra de Dina Salústio centra-se em temas essenciais como a construção da identidade, a condição feminina e a experiência da diáspora, assuntos que atravessam a realidade cabo-verdiana. A autora valoriza a cultura crioula e as raízes africanas, refletindo uma identidade plural que liga o indivíduo ao coletivo nacional. A sua escrita está profundamente enraizada no quotidiano das ilhas, onde tradições e desafios contemporâneos se entrelaçam. As mulheres são protagonistas da sua narrativa e são retratadas com toda a complexidade das suas vidas: mães, filhas, amigas, a enfrentar preconceitos, violência e exclusão social. Dina Salústio denuncia a opressão patriarcal e os silêncios históricos, associando a escrita a um ato de resistência e uma forma de reivindicar voz e valorização das mulheres. Entre a tradição e a modernidade, a autora revela os conflitos e as mudanças sociais que marcam a sociedade cabo-verdiana, mostrando a contínua luta pela emancipação feminina num mundo em transformação. A diáspora é outro tema fundamental, refletindo a vivência da migração, o sentimento de “sodade” e a busca de pertença, elementos que extravasam o contexto insular para se tornarem símbolos da experiência humana ampliada. Assim, Dina Salústio constrói uma literatura de denúncia social e valorização, que instiga à reflexão sobre os direitos, a identidade e a dignidade das mulheres e dos emigrantes no arquipélago e na diáspora cabo-verdiana.

“Há amigos que tenho prazer em oferecer um copo. Não pelo facto de só beberem água mas também porque entre um gole e outro contam estórias que me cativam.”

Mornas Eram as Noites: A Condição Feminina e a Identidade Cabo-Verdiana nos Contos de Dina Salústio

Mornas Eram as Noites” é uma colectânea de 35 contos de Dina Salústio, publicada em 1994, e considerada uma das obras mais marcantes da literatura cabo-verdiana. Através de narrativas curtas, a autora apresenta um retrato delicado e crítico da condição humana, com particular enfoque sobre o quotidiano feminino nas ilhas de Cabo Verde. A escrita da autora recorre frequentemente à primeira pessoa e aproxima o leitor da intimidade das protagonistas, muitas delas mulheres de diferentes idades e classes sociais. Os temas principais incluem a condição feminina, as relações familiares, a pobreza, a migração, a memória e a violência, seja ela doméstica, social ou simbólica. A obra opõe-se à cultura patriarcal tradicional, dando voz a mulheres que lutam contra o silenciamento, o preconceito e a marginalização. O simbolismo da “morna” – género musical cabo-verdiano carregado de emoção e nostalgia – e da noite está presente ao longo do livro, representando transformação, desejo de liberdade e resistência. Nos contos, a viagem torna-se uma metáfora da vida: deslocamento interior, partida e regresso, adaptação e aprendizagem. Entre a tristeza, o sonho, o sofrimento e a esperança, Dina Salústio universaliza a experiência da mulher crioula e transforma o local cabo-verdiano num espelho das angústias e desejos de todas as mulheres.

“Toda a gente tem a tendência a apreciar a poesia porque é um dos elementos que fortalece a nossa terra, esta poesia das rochas, do mar, do vento, essa imaginação que nos provoca. Tudo isto faz-nos ver Cabo Verde com um olhar poético e isto também é um bocado de força para nós porque é um lugar tão fraco em recursos que temos muitas vezes de nos socorrer do lado poético, da imaginação, da fantasia para sobrevivermos”

A Estrelinha Tlim Tlim: Magia e Cultura na Literatura Infantojuvenil de Dina Salústio

A Estrelinha Tlim Tlim (1998) é um livro infantojuvenil de Dina Salústio, ilustrado por Júlio Resende. A obra narra, de forma sensível e imaginativa, a história de uma pequena estrela muito bonita, semelhante a um candeeirinho que Deus colocou no céu para iluminar aquele espaço. Ao longo da narrativa, as crianças são convidadas a conhecer esse universo encantado, onde valores como amizade, sonho e esperança ganham destaque. O livro destaca-se pela linguagem poética e pelo tom de fantasia, aproximando os pequenos leitores do universo das fábulas e das tradições orais cabo-verdianas. Além disso, aborda de forma subtil temas ligados à lusofonia e à diversidade das antigas colónias portuguesas, cultivando um olhar curioso e aberto sobre o mundo. É uma obra que alia imaginação, delicadeza e um sentido de pertença à cultura de Cabo Verde, proporcionando uma leitura inspiradora e educativa.

“A poesia é uma linguagem fina! Felizmente, Cabo Verde tem muitos poetas e cada vez temos mais poesias a serem publicadas”

Dina Salústio: Obras e Contribuições para a Literatura Cabo-Verdiana e Infantojuvenil

Que os Olhos Não Vêem (2002) é um livro infantojuvenil escrito em co-autoria por Dina Salústio e Marilene Pereira. A obra aborda temas sensíveis e educativos para o público jovem, explorando os desafios e as descobertas da infância e da adolescência. Com uma linguagem acessível e sensível, o livro incentiva a reflexão sobre valores como a amizade, o respeito, a diversidade e a descoberta do mundo ao redor, aproximando os leitores jovens das suas próprias emoções e da experiência coletiva cabo-verdiana. A colaboração entre as autoras enriquece o texto, unindo vozes femininas comprometidas com a literatura e a educação infantil, e incorporando elementos culturais e sociais de Cabo Verde. Este livro reforça o papel de Dina Salústio não só como escritora para adultos, mas também como uma autora atenta às necessidades da literatura infantojuvenil no arquipélago, procurando promover a identidade cultural e os valores sociais entre as novas gerações.

“A poesia é uma linguagem fina! Felizmente, Cabo Verde tem muitos poetas e cada vez temos mais poesias a serem publicadas”

A Identidade, a Condição Feminina e a Diáspora na Obra de Dina Salústio

A escrita de Dina Salústio destaca-se por dar centralidade à identidade cabo-verdiana, explorando as tensões entre cultura, tradição e modernidade. As suas personagens e cenários refletem o mosaico social da sociedade crioula, onde coexistem valores herdados e novos anseios de afirmação. Salústio valoriza a oralidade, a memória coletiva e a ligação à terra, criando narrativas que espelham a complexidade de ser cabo-verdiano num mundo em constante transformação. A condição feminina está no cerne da sua literatura. Dina Salústio confronta as estruturas patriarcais e dá voz a figuras femininas marcadas pela resistência, pela luta pela autonomia e pelo desejo de emancipação. As suas protagonistas enfrentam violência, discriminação e silêncios impostos, mas também manifestam uma força invisível, alimentada pela solidariedade e pela persistência. Os seus textos rejeitam estereótipos, promovendo o reconhecimento da pluralidade das experiências das mulheres cabo-verdianas. O tema da diáspora e da emigração é recorrente na obra de Salústio, refletindo a importância histórica da mobilidade nas ilhas. A autora aborda a migração não só como uma condição geográfica, mas também como um processo emocional e identitário. O sentimento de saudade, o desenraizamento e a ausência convivem com a vontade de reconstrução, de adaptação e de criação de novos laços em terras distantes. Assim, Dina Salústio sublinha a universalidade da experiência migratória cabo-verdiana e enaltece a capacidade de reacção e reinvenção das suas personagens frente à adversidade.

"Devemos ler muita poesia para desenvolver o gosto pela poesia, compreender a essência da poesia, recitá-la e aprender a escrevê-la"

Dina Salústio: Voz Pioneira e Transformadora da Literatura Cabo-Verdiana

Mornas Eram as Noites (1994) é uma colectânea de 35 contos da escritora cabo-verdiana Dina Salústio, considerada um marco na literatura do arquipélago. A obra destaca-se pela abordagem da condição feminina, dando voz a mulheres de distintas idades, origens e classes sociais, centrando-se nas suas vivências, lutas, medos, sonhos e resistências. O quotidiano cabo-verdiano serve de pano de fundo para histórias que abordam temas universais, como a família, a pobreza, a violência — tanto doméstica como social —, a migração, a memória e o desejo de mudança. A morna, género musical típico de Cabo Verde, funciona como símbolo recorrente no livro: tal como a música, os contos transportam sentimentos de dor, saudade, esperança, e apresentam-se como crónicas vivas da existência cabo-verdiana, especialmente da mulher. O título sugere a associação entre a noite, espaço do inconsciente, da introspeção e da transformação, e a morna, enquanto expressão artística identitária. Narrados frequentemente na primeira pessoa, os contos criam grande cumplicidade com o leitor, partilhando experiências íntimas e colectivas. Dina Salústio utiliza uma linguagem rica, poética e introspectiva, explorando epifanias do feminino e grandes contradições humanas. O livro destaca-se pela sensibilidade, pelo olhar crítico social e pela profundidade emocional, tornando-se fundamental para compreender a literatura cabo-verdiana contemporânea e a pluralidade das vozes femininas no arquipélago.

“Queria vê-la com raiva (...) Mas, por Deus, aos dezasseis anos quem pode ter essa força toda? (...)

Dina Salústio: Voz Pioneira e Transformadora da Literatura Cabo-Verdiana

A Louca de Serrano (1998), de Dina Salústio, é o primeiro romance cabo-verdiano escrito por uma mulher, sendo considerado um marco fundamental na literatura pós-colonial do arquipélago. O enredo decorre na aldeia fictícia de Serrano, um espaço afastado da civilização, onde se desenrolam histórias de mulheres marginais, resistentes e ousadas. O romance centra-se na figura da Louca de Serrano, uma mulher à margem, entregue a sucessivas reencarnações e marcada pela dor, solidão e rebeldia. A sua loucura, metáfora de liberdade e transgressão, serve de contraponto às normas sociais opressoras, sendo vista pela comunidade como algo ameaçador, mas profundamente humano. A personagem partilha o protagonismo com outras mulheres como Filipa, que se insurge através do silêncio, e Gremiana, que rejeita os destinos tradicionais impostos às mulheres. Neste contexto, a obra retrata a marginalização feminina, a questão da identidade, o peso da tradição e o confronto entre ruralidade e modernidade. A Louca de Serrano desvela, através da oralidade recriada e do discurso irónico e poético, um universo rico em vozes femininas, desafios e rupturas, promovendo uma intensa reflexão sobre as formas de resistência, liberdade e afirmação da mulher cabo-verdiana.

"Liberdade é ser louco o suficiente para abandonar a prisão das convenções e viver o seu próprio crime."

Dina Salústio: Voz Pioneira e Transformadora da Literatura Cabo-Verdiana

Violência Contra as Mulheres (2001) é uma obra de Dina Salústio que analisa e denuncia as várias formas de violência que afetam as mulheres, tanto em Cabo Verde como em comunidades de matriz africana e lusófona. O livro explora, com rigor e sensibilidade, a violência física, psicológica e simbólica, mostrando como estas agressões estão enraizadas num sistema patriarcal, em práticas culturais discriminatórias e numa longa tradição de desigualdade. A autora dá voz a relatos de dor, medo e solidão, mas também à esperança, à resistência e à luta pela dignidade feminina. Salústio sublinha que a violência contra as mulheres não é apenas um problema privado, mas uma questão estrutural, que exige ação coletiva, mudança educativa e institucional, e envolvimento da sociedade para garantir justiça e respeito pelos direitos humanos. Obra de referência em Cabo Verde e no mundo lusófono, o livro de Dina Salústio é fundamental para a reflexão sobre a condição feminina e a necessidade urgente de combater a violência de género e promover a emancipação das mulheres

“Não matei o meu marido. Eu o amava. Por que matá-lo? Foram as dores do meu corpo que o condenaram. Foi o sangue pisado, o ventre moído, as feridas em pus. Foram as pancadas de ontem, as de hoje e, sobretudo, as pancadas de amanhã que o mataram. Eu amava-o. Por que matá-lo?”

Dina Salústio: Voz Pioneira e Transformadora da Literatura Cabo-Verdiana

Filhas do Vento (2009), de Dina Salústio, é um romance que explora a relação profunda entre uma menina, Susane, e a sua avó, que surge como um fantasma habitando dentro de um livro. A avó, atormentada por um crime do passado, pede à neta que a liberte de uma maldição para que toda a sua família e a terra de origem não se percam num tempo suspenso e sombrio — “um tempo sem dia nem filhos ou noite: sem riso, ódio, vento ou mulher; sem carnaval nem homem; sem emoção e amigos ou o mar de uma baía clara”. Para salvar a ancestral e desfazer a maldição, Susane vai ter de abdicar da sua própria história, aceitando cumprir um destino que remonta a gerações anteriores. Este enredo, de atmosfera mágica e simbólica, convoca temas ligados à herança familiar, à identidade, à transmissão das memórias e ao poder feminino, misturando realismo e elementos fantásticos com sensibilidade poética. Através de uma escrita delicada e profunda, Dina Salústio propõe uma reflexão sobre a ligação entre as gerações, a importância do passado e o papel das mulheres como guardiãs da memória e do destino colectivo.

“Um tempo sem dia nem filhos ou noite: sem riso, ódio, vento ou mulher; sem carnaval nem homem; sem emoção e amigos ou o mar de uma baía clara. Para a salvar, a neta terá que abandonar a própria história para cumprir o destino que a avó negara, milhares de gerações atrás.”

Dina Salústio: Voz Pioneira e Transformadora da Literatura Cabo-Verdiana

Filhos de Deus: Contos e Monólogos (2018), de Dina Salústio, é uma coletânea composta por 35 textos que se dividem entre contos, crónicas e monólogos. A obra retrata com sensibilidade e profundidade diversas situações do quotidiano cabo-verdiano, abordando temas como identidade, condição feminina, relações familiares, abandono, emigração, sonhos, lutas e resistências. As personagens, sobretudo mulheres, enfrentam desafios diários e expressam a força e a coragem necessárias para sobreviver, muitas vezes sozinhas, diante da adversidade e da marginalização. A autora utiliza uma escrita crítica, intimista e de denúncia, dando voz àqueles que normalmente são ignorados ou silenciados. Destacam-se protagonistas como mães batalhadoras, mulheres abandonadas, jovens em busca de futuro e famílias separadas pelo fenómeno migratório. Os monólogos e reflexões presentes nas narrativas proporcionam um olhar atento sobre as dores, sonhos e inquietações destas personagens, expondo tanto o sofrimento como a esperança de mudança e emancipação social. O título remete a histórias de mulheres e de famílias resilientes, para quem, perante a ausência do apoio paterno, “Deus é o único pai dos filhos órfãos”.

“Não queremos uma escrita que multiplique estereótipos, ódios e indiferença, nem incentive desigualdades e injustiças. Estamos a desenterrar temas que incomodam e inquietam a sociedade e que levam as pessoas e os poderes a pensarem e a tomarem partido e a decidirem. Estamos a escrever para construir uma sociedade livre.” (SALÚSTIO, 2018, p.23)

Dina Salústio: Voz Pioneira e Transformadora da Literatura Cabo-Verdiana

Veromar (2019) é um romance de Dina Salústio, onde o espaço ficcional que dá nome ao livro — Veromar — surge como elemento central, funcionando tanto como cenário como verdadeira personagem. Inspirando-se no universo cabo-verdiano, mas conferindo-lhe traços de reinvenção e fantasia, a autora aprofunda temas como a insularidade, os efeitos do abandono, a violência social, os encontros e desencontros que marcam a vida das pessoas, e a busca por estabilidade emocional e pertença. A narrativa constrói-se através de várias histórias que se cruzam, explorando dramas humanos universais — como os conflitos familiares, o abandono paternal, a migração, e a vulnerabilidade das mulheres e crianças — em diálogo com a realidade cabo-verdiana contemporânea. Veromar representa uma comunidade, um lugar de desafios e reinvenções constantes, mas também de esperança perante as adversidades. No romance, Dina Salústio mantém uma escrita sensível, crítica e poética, propondo que “os lugares também podem ser protagonistas” e desafiando o leitor a repensar as fronteiras entre realidade e imaginação, tradição e modernidade. O livro reafirma o compromisso da autora com as questões sociais do seu país, sobretudo no que toca à condição feminina e às transições culturais vividas pelas ilhas.

“A vida, no fundo, é feita de encontros e desencontros; e eu, através deste livro, tentei que ele seja uma história de vida.”

Dina Salústio: Voz Pioneira e Transformadora da Literatura Cabo-Verdiana

Uma Menina de Cristal e Outras Crónicas (2023), de Dina Salústio, é uma colectânea de crónicas que entrelaçam o quotidiano cabo-verdiano com memórias da guerra pela independência, experiências da pandemia e profundas reflexões sobre a condição feminina. As narrativas focam-se na ambivalência dos sentimentos, nos desafios vividos por mulheres — não só de Cabo Verde, mas do continente africano em geral —, e homenageiam aquelas que, com esforço e sacrifício, sustentam o funcionamento da vida nas ilhas. A crónica que dá o título à obra conta a história de uma criança com ossos frágeis, a “menina de cristal”, cuja atitude resiliente inspira esperança nas adversidades. Dina Salústio procura sempre manter uma perspetiva positiva, mesmo em situações difíceis, evitando mergulhar na tristeza ou no negativismo. O livro também evidencia a resistência do povo cabo-verdiano, celebrando a força das mulheres, das mães e daqueles que, apesar dos reveses, mantêm a esperança e a vontade de transformar a realidade. Na última crónica, a autora sublinha: “Se o meu país não se chamasse Cabo Verde, seu nome seria Resistência”. As crónicas refletem igualmente sobre a maternidade, a sororidade e as desigualdades sociais, captando com simplicidade e consistência a essência da experiência humana nas ilhas e ligando-a a uma dimensão universal.

Inovação Narrativa e Pluralidade de Vozes na Literatura de Dina Salústio

A escrita de Dina Salústio caracteriza-se por uma forte inovação narrativa e uma pluralidade de vozes, refletidas na estrutura dos seus textos, na variedade da linguagem e na multiplicidade de perspetivas apresentadas. A autora recorre frequentemente a estruturas narrativas não-lineares, misturando géneros como o conto, o monólogo, a crónica e até fragmentos de poesia. Isto permite-lhe construir uma literatura polifónica, onde diferentes personagens, lugares e tempos se entrelaçam, trazendo à superfície experiências diversas e contraditórias. A oralidade surge como elemento fundamental, aproximando a narrativa do registo oral tradicional cabo-verdiano, mas também desafiando convenções literárias europeias, estabelecendo um híbrido que é profundamente identitário. A linguagem de Dina Salústio é marcada por recursos poéticos, ritmo, metáforas com raízes na paisagem e imaginário das ilhas, além de uma constante experimentação estilística. O uso de vozes femininas múltiplas, de diferentes gerações, estratos sociais e contextos, assegura a riqueza de perspetivas sobre temas como a memória, a resistência, o sofrimento, a esperança, a maternidade e a condição da mulher. A pluralidade de géneros e pontos de vista revela-se também na escolha de narradores não convencionais — por vezes anónimos, colectivos ou mesmo espirituais — e na inclinação para dar voz aos marginalizados e silenciados. Com isto, a autora desafia o leitor, convida-o a repensar fronteiras entre tradição e modernidade, narrativa e poesia, individualidade e colectividade, evidenciando uma obra literária inovadora e profundamente plural.

A Mulher como Voz de Resistência e Crítica Social na Literatura de Dina Salústio

Na obra de Dina Salústio, a figura feminina apresenta-se como núcleo central e símbolo de resistência, expressando uma profunda crítica social. As personagens femininas — mães, filhas, avós, mulheres marginalizadas ou silenciosas — são representadas em toda a sua complexidade, lutando contra preconceitos, discriminação e violência, tanto no espaço doméstico como na sociedade mais alargada. Salústio recorre à narração polifónica e à oralidade para dar voz a mulheres anónimas, explorando a intimidade, os medos, os sonhos e os sacrifícios que marcam as suas vidas. A denúncia da opressão é um dos aspetos mais marcantes da sua escrita. A autora expõe, sem evasivas, as múltiplas formas de violência de género, a subjugação às normas patriarcais, a invisibilidade social e o silenciamento a que as mulheres são sujeitas. Estes retratos realistas não deixam de evidenciar também a força interior, a solidariedade e a capacidade de reerguer-se diante das adversidades. Nas palavras e nos gestos das suas personagens, Dina Salústio reivindica a necessidade urgente de mudança, justiça e emancipação feminina. Ao dar protagonismo às mulheres, a autora oferece um espelho crítico da sociedade cabo-verdiana, pondo a nu desigualdades históricas, tabus e a necessidade de maior igualdade e respeito pelos direitos humanos. A sua obra literária torna-se, assim, um espaço de denúncia, mas também de esperança e transformação social, valorizando a pluralidade das experiências femininas e afirmando o papel central da mulher na construção da identidade coletiva e no futuro das ilhas.

“Não queremos mais silêncios impostos, nem vidas apagadas; queremos que cada mulher tenha voz, visibilidade e o direito de existir plenamente, livre das correntes da opressão.”

Reconhecimento e Impacto Internacional da Obra de Dina Salústio

Dina Salústio é uma das escritoras cabo-verdianas com maior projeção internacional, tanto pela sua produção inovadora como pelo reconhecimento além-fronteiras. As suas obras têm sido traduzidas para várias línguas, incluindo inglês (por exemplo, “A Louca de Serrano” foi publicada em inglês como “The Madwoman of Serrano”) e castelhano, estando programadas novas traduções para o italiano. No que toca a prémios e distinções, Dina Salústio foi galardoada com o Prémio de Literatura Infantil de Cabo Verde (1994), o Prémio de Literatura Infantil dos PALOP (1999), o Prémio Rosalía de Castro do Centro Pen Galiza (2016) e o Prémio PEN Tradução no Reino Unido (2018), pelo romance “A Louca de Serrano”. Foi também distinguida em Cabo Verde com a Medalha de Mérito Cultural e a Primeira Classe da Medalha do Vulcão, e recebeu o Prémio Literário Guerra Junqueiro Lusofonia (2022), atribuído no Freixo Festival Internacional de Literatura em Portugal. O reconhecimento e impacto ultrapassam a premiação: Dina Salústio tem a sua obra analisada em estudos académicos no Brasil, Portugal, Itália e Cabo Verde, e é regularmente convidada para festivais literários e eventos internacionais ligados à literatura, igualdade de género e cultura africana. A sua presença em antologias e coletâneas do espaço lusófono reforça a importância da sua voz na literatura africana contemporânea de expressão portuguesa.

“Escrevo sobre as situações que mais me incomodam enquanto cidadã e tornam menor a sociedade e o mundo, de forma visível ou não, como a violência sobre as mulheres.”

A Influência de Dina Salústio na Literatura Africana Contemporânea e o Diálogo com a Tradição Cabo-Verdiana

Dina Salústio exerce uma influência notável na literatura contemporânea africana, especialmente no contexto de Cabo Verde e no diálogo com outras autoras do continente. A sua escrita introduz questões essenciais da condição feminina, da violência de género e da luta por emancipação, sendo vista como uma das vozes mais conhecidas e inovadoras da literatura cabo-verdiana atual. A autora articula temas locais e universais, trazendo para o centro da narrativa experiências de mulheres cabo-verdianas que, devido ao patriarcado e ao machismo, vivem em situações de exclusão, sofrimento e resistência. O seu trabalho não só denuncia injustiças, mas também serve de porta-voz para gerações de mulheres historicamente silenciadas, desempenhando um papel fundamental na construção de uma nova referência identitária e literária no espaço africano de língua portuguesa. A produção literária de Dina Salústio dialoga com outras grandes escritoras africanas, como Paulina Chiziane (Moçambique) e Rosária da Silva (Angola), partilhando o olhar crítico sobre a condição feminina, a denúncia da violência e a afirmação de um pensamento libertário. O seu contributo é ainda pioneiro ao ser a primeira mulher a publicar um romance em Cabo Verde, abrindo caminho a uma nova geração de autoras e promovendo o reconhecimento do feminino como categoria literária e política. Além disso, Salústio retoma e reinventa a tradição oral cabo-verdiana, trazendo para os seus textos uma expressão híbrida entre poesia, crónica e conto, o que reforça a ligação entre literatura e cultura das ilhas, e aproxima a literatura africana contemporânea das experiências quotidianas do povo. Dina Salústio, assim, não só projeta a literatura de Cabo Verde no panorama internacional, como também contribui decisivamente para a renovação da tradição literária africana, criando pontes com outras autoras e tornando-se referência de resistência, inovação e representatividade feminina.

“O drama de ter que partir e querer ficar ou de ter que ficar e querer partir.”

A Contribuição de Dina Salústio para a Valorização da Cultura e Identidade Cabo-Verdiana

Dina Salústio deu um contributo essencial para a valorização da cultura cabo-verdiana através da sua obra literária. As suas narrativas transportam o leitor para a realidade das ilhas, integrando o crioulo, as tradições, os hábitos e as paisagens naturais e humanas no centro do discurso literário. Da oralidade à musicalidade própria do quotidiano crioulo, passando pelas crenças, receitas tradicionais, histórias de família e descrições do mar e da terra seca, tudo ganha nova vida e reconhecimento nas suas páginas. A autora enaltece o papel das mulheres como transmissoras de costumes, tradições e saberes, mostrando como são elas que preservam a língua, ensinam as práticas comunitárias e criam laços familiares e sociais profundos que sustentam a cultura cabo-verdiana ao longo das gerações. Também dá visibilidade às paisagens únicas de Cabo Verde — a insularidade, o mar, a seca, as aldeias e cidades, os rituais do dia a dia —, fazendo dessas referências tanto cenário como elemento identitário das suas personagens e tramas. Além disso, Dina Salústio contribui para uma afirmação da literatura cabo-verdiana assente na valorização do pluralismo linguístico (português e crioulo), na defesa dos direitos das mulheres e no resgate dos modos de vida tradicionais das ilhas, ao mesmo tempo que questiona preconceitos e desigualdades sociais historicamente perpetuadas. A sua escrita, por isso, é instrumento de resistência, de preservação e de renovação da cultura de Cabo Verde, afirmando a importância da memória, da oralidade, da partilha intergeracional e de uma visão crítica sobre o presente e o futuro do arquipélago

Éramos Tu e Eu: O Parto como Metáfora de Vida e Dor

ÉRAMOS TU E EU Éramos eu e tu Dentro de mim Centenas de fantasmas compunham o espectáculo E o medo Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos. Mãos agarradas Pulsos acariciados Um afago nas faces. Éramos tu e eu Dentro de nós Suores inundavam os olhos Alagavam lençóis Corriam para o mar. As unhas revoltam-se e ferem a carne que as abriga. Éramos tu e eu Dentro de nós. As contracções cada vez mais rápidas O descontrolo
A emoção A ciência atenta O oxigénio A mão amiga De repente a grande urgência A Hora A Violência Éramos nós libertando-nos de nós. É nossa a dor. São nossos o sangue e as águas O grito é nosso A vida é tua O filho é meu. Os lábios esquecem o riso Os olhos a luz O corpo a dor. A exaustão total O correr do pano O fim do parto.

O poema “Éramos Tu e Eu” de Dina Salústio é uma poderosa metáfora do parto, da dor e da criação. Salústio utiliza uma linguagem sensível e evocativa para descrever a experiência íntima do nascimento, onde o “eu” e o “tu” se confundem e se entrelaçam, resultando numa diluição das fronteiras do ser individual. O texto destaca o medo, a tensão e os sentimentos contraditórios que invadem o corpo e a mente no momento do parto — “Todo o medo do mundo em câmara lenta nos meus olhos.” Há uma alternância entre ternura (mãos, afagos, suor partilhado) e violência (“unhas revoltam-se”, “a Violência”, “a dor”, “sangue e as águas”), reforçando o caráter ambivalente do nascimento: sofrimento e esperança, perda e criação, libertação e pertença.

O final é muito marcante: “A vida é tua / O filho é meu”, sugerindo os papéis sociais, afetivos e até culturais que se atribuem ao nascimento, bem como a dualidade de sentimentos que o acompanham — doação e separação, orgulho e dor. O parto é também apresentado como espetáculo, transformação e, metaforicamente, como uma forma de emancipação e redenção

Dina Salústio em Voz Própria: Entrevistas e Reflexões sobre a Sua Obra

Subtítulo

Barcos no Fundo: Memória e Dor na Poesia de Dina Salústio

O poema “Chegam notícias de barcos no fundo” retrata, com imagens impactantes e simbólicas, a tragédia das viagens marítimas marcadas pelo sofrimento, perda e abandono. A repetição da frase central enfatiza a ideia de naufrágios e das consequências devastadoras que atingem vidas humanas, resultando em corpos quebrados, vozes silenciadas e crianças perdidas. Através de imagens como “copos em cacos”, “brinquedos sem dono” e “meninos sem riso”, o poema constrói um quadro de desolação e desumanização. Mais do que um simples relato, o poema questiona a ausência de solidariedade e o silêncio perante o drama dessas vidas. A última linha, interrogativa, convida o leitor a refletir sobre a importância da amizade e da empatia num mundo onde tantas vozes são caladas. É uma obra que denuncia a violência simbólica e real, evocando o sofrimento dos migrantes e a complexidade das relações humanas diante das adversidades. Este poema destaca-se pela força da sua linguagem, pela densidade emocional e pela sua relevância para compreender aspetos históricos e sociais ligados à migração, identidade e memória coletiva em Cabo Verde e além.

Poema "Chegam notícias de barcos no fundo" Chegam notícias de barcos no fundo copos em cacos cacos em corpos papéis vazios bocas seladas crianças vendidas brinquedos sem dono ventos sem brisa violão sem cordas meninos sem riso braços sem abraços céus sem espaço Por que drama por uma amizade que morre? Dina Salústio, em "Mirabilis de veias ao sol: antologia dos novíssimos poetas caboverdianos"

Fragilidade e Encontro: A Intensidade do Momento no Poema de Dina Salústio

Por que havias de chegar... Por que havias de chegar num dia enevoado de bruma nessa manhã de vento forte que me roubou a (minha) máscara? Por que havias de entrar num dia de porta aberta e me surpreender nua a um canto tiritando procurando confusa os trapos para me tapar? Por que nesse maldito dia em que desprevenida lavava uma saudade e arrumava a um canto um tempo que me doía? Por que terias que me abraçar e me chamar mulher e abrir a janela e inventar um sol, sussurrar uma canção? Para quê? Se foi o tempo de um cigarro? Dina Salústio, em "Mirabilis de veias ao sol: antologia dos novíssimos poetas caboverdianos"

O poema expressa um encontro inesperado que ocorre num momento de extrema vulnerabilidade do eu lírico. A “máscara” perdida simboliza a proteção emocional que cai perante a chegada surpresa de alguém que vê a pessoa nua, exposta, em conflito com as suas próprias saudades e dores. A madrugada enevoada e o vento forte refletem o estado de confusão e fragilidade interior. O abraço recebido e o reconhecimento como “mulher”, junto com a imagem da janela aberta e do sol inventado, trazem uma luz simbólica de esperança, ternura e renovação, mesmo que efémera. O poema revela a profundidade de um momento de intimidade que, apesar de breve — “o tempo de um cigarro” —, é carregado de significado e emoção. Esta composição destaca-se pela linguagem delicada e imagens sensoriais que ilustram a complexidade das emoções ligadas à exposição, à surpresa e à fugacidade dos encontros humanos.

Silêncio e Inércia: A Ausência da Vida no Poema de Dina Salústio

"Estranha-me que aragens e arrepios não corram pelo bosque em propostas inquietantes de desassossego louco e ciclones rudes. E que sombras nubladas não passeiem pelos olhos em jogo e se desfaçam em raios brasa ao chegar ao fim Espanta-me que as areias não tomem vida e contem estórias agarradas ao corpo de outras horas que por lá passaram. E que gotas salgadas não se transformem num rio gritante de caudal azul e inundem o solo de fantasias brancas Admira-me que cicatrizes recusem novas dores promessas de vida para renascerem em chagas abertas fantasiadas de arlequim num dia negro solene e sério. E que as pernas não se tornem asas para com a brisa voarem o espaço de um sorriso Assombra-me que a ausência não provoque alucinações e não traga visões de deserto solidão e frio. Dói-me que a folha em branco não exija nada não grite palavras não risque a pele não acorde sentidos não rasgue a paz" Dina Salústio, em "Mirabilis de veias ao sol: antologia dos novíssimos poetas caboverdianos"!

O poema expressa um sentimento de estranheza e desconcerto perante a ausência de manifestações vitais e emocionais esperadas na natureza e no corpo. O eu lírico observa a falta de movimentos — as aragens, arrepios, sombras, cicatrizes e gotas que deveriam despertar vida, sensação e transformação — e fica perplexo com essa passividade. As imagens poéticas evocam uma natureza adormecida e um corpo que recusa sentir, como se a energia vital tivesse sido extinta ou silenciada. A folha em branco que "não exige nada" simboliza a paragem da criatividade, o silêncio da inspiração e a ausência de expressão, conferindo ao poema uma aura de vazio e solidão. Neste texto, Dina Salústio manifesta a dor da estagnação, da falta de estímulo ou de renovação, ao mesmo tempo em que revela a consciência da importância do desassossego e da dor como motores da vida e da criação artística. É um convite a reconhecer e enfrentar o vazio para que a vida renasça e a palavra possa voltar a vibrar intensamente.