Rondas de leitura
08.01.2025
transladação Panteão Nacional
Com
Eça de Queirós
Paula Sousa | 2025
Ronda de leitura
Textos lidos durante a cerimónia da transladação de Eça de Queirós para o Panteão Nacional. Celebrar Eça de Queirós é viver a nossa Literatura.
Eça de Queirós
O Primo Basílio
Os Maias
Aspetos literários
A cidade e as Serras
As Farpas
Fundo Documental
Video e Galeria
O crime do Padre Amaro
Down with boring content in your presentation: make it entertaining
Eça de Queirós
Biografia
José Maria Eça de Queirós, nascido em 25 de novembro de 1845, na Póvoa de Varzim, é considerado um dos maiores romancistas portugueses e um dos principais escritores realistas de Portugal. Além de romancista, foi também advogado e diplomata. Faleceu em 16 de agosto de 1900, em Neuilly-sur-Seine, França.
- Estudou Direito em Coimbra, onde conheceu figuras como Antero de Quental e Teófilo Braga.
- Iniciou sua carreira diplomática em 1872, sendo cônsul em Havana, Newcastle e Paris.
- Casou-se com Emília de Castro em 1886 e teve quatro filhos.
- Foi também jornalista e colaborador de diversos jornais e revistas, como o Diário de Notícias.
Aspetos literários
É conhecido por seu estilo realista, com obras que criticam a sociedade portuguesa do século XIX. Entre suas obras mais famosas estão: O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias e A Cidade e as Serras. Os seus romances são marcados por uma linguagem rica, personagens complexos e uma crítica social perspicaz, por vezes até mordaz. Foi um dos principais representantes do Realismo em Portugal e assuas obras foram traduzidas para diversas línguas.
Fundação Eça de Queirós Caldas de Aregos
Info
Fundo Documental
A Biblioteca Escolar tem ao dispor uma vasta coleção das obras de Eça de Queirós. Basta pesquisar no catálogo coletivo da RBESMF (Nyron) ou pedir diretamente na BE.
Info
‘Os maias’
Excertos
Capítulo 1:
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas,com um renquede estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete prvinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do escudo de armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letrase números de uma data.
QUEIRÓS, Eça de - Os Maias, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.5
‘Os maias’
Excertos
Capítulo 4
Por aquele sol macio e morno de um fim de Outono português. o Ega, o antigo boémio de batina esfarrapada, trazia uma peliça, uma sumptuosa peliça de príncipe russo, agasalhado de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados à Brandeburgo, e pondo-lheem torno do pescoço esganizado e dos pulsos de tísico uma rica e fofa espessura de peles de marta.-É uma boa peliça, hem? - disse ele logo, erguendo-se, abrindo-a, exibindo a opulência do forro. - Mandei-a vir pelo Stauss... Benefícios da epidemia. (...) Tornou a recostar-se no sofá, adiantando o sapato de verniz muito bicudo, e, de monóculo no olho, examinou o gabinete. - E tu que fazes? conta-me lá... Tens andado esplêndido! Carlos falou dos seus planos, de altas ideias de trabalho, das obras do laboratório... (...) E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da peliça, inventariando o gabinete, fazia considerações: - O veludo dá seriedade... E o verde-escuro é a cor suprema, é a corestética...tem a sua expressãoprópria, enternece e faz pensar... Gosto deste divã. Móvel de amor... Foi entrando para a sala dos doentes, devagar, de luneta no olho, estufdando os ornatos. -Tu és o grandiosos Salomão, Carlos!
QUEIRÓS, Eça de - Os Maias, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.105-106
‘Os maias’
Excertos
Capítulo 18
A um bico da gás tirou o relógio. Eram seis e um quarto!- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança, pontualmente, às seis! Não aparecer por aí uma tipóia!... -Espera! - exclamou Ega. - Lá vem um americano, ainda o apanhamos. - Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos,que arrojara um charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhe cortava a face: - Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma... Ega, ao seu lado ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras - Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
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‘Os maias’
Excertos
Capítulo 18 (cont.)
A lanterna vermelha do Americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:- Ainda o apanhamos! - Ainda o apanhamos! De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
QUEIRÓS, Eça de - Os Maias, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.716
‘O Primo bazílio
Excertos
Capítulo 1
Tinham dado onze horas no "cuco"da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha Voltaire de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: - Tu não te vais vestir, Luiza? - Logo Ficara sentada à mesa, a ler o "Diário de Notícias". Roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soutache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois aneis de rubis miudinhos davam cintilações escarlates
QUEIRÓS, Eça de - O Primo Bazílio, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.11
"O Primo Bazílio"
Capítulo 4
Excertos
Podiam ir às Alegrias, à quinta de um amigo dele que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos Olivais, era lindo! Belas ruas de loureiros, sombras adoráveis. Podiam levar gelo, champanhe... - Vem! - disse bruscamente, tomando-lhe as mãos. Ela corou. - Talvez. No domingo veria. Bazílio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, humedeceram-se. Ela sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mãos; foi abrir as vidraças ambas, dar à sala uma claridade larga como uma publicidade; sentou-se numa cadeira ao pé do piano, receando a penumbra, o sofá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma coisa, porque já temia as palavras, tanto como os silêncios. Bazílio cantou a "Medjé", a melodia de Gounod, tão sensual e perturbadora. Aquelas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos de uma noite eléctrica. E quando Bazílio saiu, ficou sentada, quebrada, como depois de um excesso.
QUEIRÓS, Eça de - O Primo Bazílio, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.131-132
‘'O Crime do Padre aMARO''
Excertos
Capítulo 1
Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o páraco da Sé, José Miguéis, tinham morrido de madrugada com uma apoplexia. O páraco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo "comilão dos comilões". Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica - que o detestava - costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afgueada de sangue, muito enfartado: - Lá vai a jobóiaesmoer. Um dia estoura. Com efeito, estourou, depois de uma ceia de peixe - à hora em que defronte, na casa do Dr. Godinho, que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.
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‘O Crime do Padre aMARO'
Excertos
Capítulo 1 (cont.)
Nunca fora querido das devotas: arrotava no confessionário e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera ppor isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia! E, quando as beatas que lhe eram fiéis lhe iam falar de escrúpulos, de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando: - Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus. Mais miolo na bola!
QUEIRÓS, Eça de - O Crime do Padre Amaro, Publicações Europa- América, Mem Martins, p.15
‘'O Crime do Padre aMARO''
Excertos
Capítulo 3
Teresa ergueu-se, arrastando a sua soberba cauda, sentou-se ao piano. - Sabe música? - prguntou, voltando-se para Amaro. - A gente aprende no seminário, minha senhora. Ela correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas e tocou a frase de Rigoleto, parecida com o Minuete de Mozart, que diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro acto, da Senhora de Crécy - e cujo ritmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que findam e de braços que se desenlaçam em despedidas supremas. Amaro estava enlevado. Aquela sala rica, com as suas lavura de nuvem, o piano apaixonado, o colo de Teresa, que ele via sob a negra transparência da gaze, as suas tranças de deusa, os
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"O Crime do Padre aMARO"
Excertos
Capítulo 3 (cont.)
tranquilos arvoredos de jardim fidalgo, davam-lhe vagamente a ideia de uma existência superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em cupés acolchoados, com árias de óperas, melancolias de bom gosto e amores de um gozo raro. Enterrado na elasticidade da causeuse, sentindo a música chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu cheiro a refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino e, assustado, demora o seu prazer- pensando que vai voltar à dureza das côdeas secas e à poeira dos aminhos. No entanto, Teresa, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga ária inglesa de Haydn que diz tão finamente as melodias da separação: The village seems dead and asleep When Lubin is away! ...
QUEIRÓS, Eça de - O Crime do Padre Amaro, Publicações Europa- América, Mem Martins, p.44-45
"a cidade e as serras"
Excertos
Capítulo 1
O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava o grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tuae o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Agra até ao mar de Âncora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, eonde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº 202.
QUEIRÓS, Eça de - A cidade e as serras, Publicações Europa- América, Mem Martins, p. 35
"a cidade e as serras"
Excertos
Capítulo 8
- Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado? - Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral? - Não sei. Não sabíamos. Eu por causa da espessa crosta de ignorância com que sai do ventre de Coimbra, minha Mãe Espiritual. Ele, porque na sua biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sirio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos obra da mesma Vontade. E todos, Úranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituimos modos diversos de um Ser único, e as nossas diversidades esparsas governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem à flor
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"a cidade e as serras"
Excertos
Capítulo 8 (cont.)
do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro - tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum frémito de vida, por menor, passa numa fibra desse sublime Corpo, que se reprecuta em todas, até às mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. Quando um Sol que não avisto, nunca avistei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, em baixo da horta, sente um secreto arrepio de morte: - e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei: - Acredita! ... O Sol tremeu.
QUEIRÓS, Eça de - A cidade e as serras, Publicações Europa- América, Mem Martins, p.155-156
"a cidade e as serras"
Excertos
Capítulo 16
Em fila começámos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidraças distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A Serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, de dentro do seu cesto, com a haste bem segura na mão. Era a "bandeira do Castelo", afirmava ele.
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"a cidade e as serras"
Excertos
Capítulo 16 (cont.)
E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da natreza campestre e mansa - o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da Serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu - tão longe da amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente, subíamos - para o Castelo da Grã-Ventura!
QUEIRÓS, Eça de - A cidade e as serras, Publicações Europa- América, Mem Martins, p. 245
ViDEO
Para rever as cerimónias que decorreram a 8 de janeiro de 2025. (Ver a partir dos 35 min.) (Contem publicidade)
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Paula Sousa | 2025
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08.01.2025
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Eça de Queirós
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Eça de Queirós
O Primo Basílio
Os Maias
Aspetos literários
A cidade e as Serras
As Farpas
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O crime do Padre Amaro
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Eça de Queirós
Biografia
José Maria Eça de Queirós, nascido em 25 de novembro de 1845, na Póvoa de Varzim, é considerado um dos maiores romancistas portugueses e um dos principais escritores realistas de Portugal. Além de romancista, foi também advogado e diplomata. Faleceu em 16 de agosto de 1900, em Neuilly-sur-Seine, França.
Aspetos literários
É conhecido por seu estilo realista, com obras que criticam a sociedade portuguesa do século XIX. Entre suas obras mais famosas estão: O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio, Os Maias e A Cidade e as Serras. Os seus romances são marcados por uma linguagem rica, personagens complexos e uma crítica social perspicaz, por vezes até mordaz. Foi um dos principais representantes do Realismo em Portugal e assuas obras foram traduzidas para diversas línguas.
Fundação Eça de Queirós Caldas de Aregos
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A Biblioteca Escolar tem ao dispor uma vasta coleção das obras de Eça de Queirós. Basta pesquisar no catálogo coletivo da RBESMF (Nyron) ou pedir diretamente na BE.
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‘Os maias’
Excertos
Capítulo 1:
A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no Outono de 1875, era conhecida na vizinhança da Rua de S. Francisco de Paula, e em todo o bairro das Janelas Verdes, pela Casa do Ramalhete, ou simplesmente o Ramalhete. Apesar deste fresco nome de vivenda campestre, o Ramalhete, sombrio casarão de paredes severas,com um renquede estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma tímida fila de janelinhas abrigadas à beira do telhado, tinha o aspecto tristonho de residência eclesiástica que competia a uma edificação do reinado da senhora D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo, assemelhar-se-ia a um colégio de Jesuítas. O nome de Ramalhete prvinha decerto de um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel no lugar heráldico do escudo de armas, que nunca chegara a ser colocado, e representando um grande ramo de girassóis atado por uma fita onde se distinguiam letrase números de uma data.
QUEIRÓS, Eça de - Os Maias, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.5
‘Os maias’
Excertos
Capítulo 4
Por aquele sol macio e morno de um fim de Outono português. o Ega, o antigo boémio de batina esfarrapada, trazia uma peliça, uma sumptuosa peliça de príncipe russo, agasalhado de trenó e de neve, ampla, longa, com alamares trespassados à Brandeburgo, e pondo-lheem torno do pescoço esganizado e dos pulsos de tísico uma rica e fofa espessura de peles de marta.-É uma boa peliça, hem? - disse ele logo, erguendo-se, abrindo-a, exibindo a opulência do forro. - Mandei-a vir pelo Stauss... Benefícios da epidemia. (...) Tornou a recostar-se no sofá, adiantando o sapato de verniz muito bicudo, e, de monóculo no olho, examinou o gabinete. - E tu que fazes? conta-me lá... Tens andado esplêndido! Carlos falou dos seus planos, de altas ideias de trabalho, das obras do laboratório... (...) E Ega, com as mãos enterradas nos vastos bolsos da peliça, inventariando o gabinete, fazia considerações: - O veludo dá seriedade... E o verde-escuro é a cor suprema, é a corestética...tem a sua expressãoprópria, enternece e faz pensar... Gosto deste divã. Móvel de amor... Foi entrando para a sala dos doentes, devagar, de luneta no olho, estufdando os ornatos. -Tu és o grandiosos Salomão, Carlos!
QUEIRÓS, Eça de - Os Maias, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.105-106
‘Os maias’
Excertos
Capítulo 18
A um bico da gás tirou o relógio. Eram seis e um quarto!- Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança, pontualmente, às seis! Não aparecer por aí uma tipóia!... -Espera! - exclamou Ega. - Lá vem um americano, ainda o apanhamos. - Ainda o apanhamos! Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos,que arrojara um charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhe cortava a face: - Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma... Ega, ao seu lado ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras - Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
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‘Os maias’
Excertos
Capítulo 18 (cont.)
A lanterna vermelha do Americano, ao longe, no escuro, parara. E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:- Ainda o apanhamos! - Ainda o apanhamos! De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
QUEIRÓS, Eça de - Os Maias, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.716
‘O Primo bazílio
Excertos
Capítulo 1
Tinham dado onze horas no "cuco"da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha Voltaire de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: - Tu não te vais vestir, Luiza? - Logo Ficara sentada à mesa, a ler o "Diário de Notícias". Roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soutache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras: com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois aneis de rubis miudinhos davam cintilações escarlates
QUEIRÓS, Eça de - O Primo Bazílio, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.11
"O Primo Bazílio"
Capítulo 4
Excertos
Podiam ir às Alegrias, à quinta de um amigo dele que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos Olivais, era lindo! Belas ruas de loureiros, sombras adoráveis. Podiam levar gelo, champanhe... - Vem! - disse bruscamente, tomando-lhe as mãos. Ela corou. - Talvez. No domingo veria. Bazílio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, humedeceram-se. Ela sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mãos; foi abrir as vidraças ambas, dar à sala uma claridade larga como uma publicidade; sentou-se numa cadeira ao pé do piano, receando a penumbra, o sofá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse alguma coisa, porque já temia as palavras, tanto como os silêncios. Bazílio cantou a "Medjé", a melodia de Gounod, tão sensual e perturbadora. Aquelas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos de uma noite eléctrica. E quando Bazílio saiu, ficou sentada, quebrada, como depois de um excesso.
QUEIRÓS, Eça de - O Primo Bazílio, Edição Livros do Brasil, Lisboa, p.131-132
‘'O Crime do Padre aMARO''
Excertos
Capítulo 1
Foi no Domingo de Páscoa que se soube em Leiria que o páraco da Sé, José Miguéis, tinham morrido de madrugada com uma apoplexia. O páraco era um homem sanguíneo e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo "comilão dos comilões". Contavam-se histórias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica - que o detestava - costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afgueada de sangue, muito enfartado: - Lá vai a jobóiaesmoer. Um dia estoura. Com efeito, estourou, depois de uma ceia de peixe - à hora em que defronte, na casa do Dr. Godinho, que fazia anos, se polcava com alarido. Ninguém o lamentou, e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral não era estimado. Era um aldeão; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras muito rudes.
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‘O Crime do Padre aMARO'
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Capítulo 1 (cont.)
Nunca fora querido das devotas: arrotava no confessionário e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, não compreendia certas sensibilidades requintadas da devoção: perdera ppor isso, logo ao princípio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmão, tão cheio de lábia! E, quando as beatas que lhe eram fiéis lhe iam falar de escrúpulos, de visões, José Miguéis escandalizava-as, rosnando: - Ora histórias, santinha! Peça juízo a Deus. Mais miolo na bola!
QUEIRÓS, Eça de - O Crime do Padre Amaro, Publicações Europa- América, Mem Martins, p.15
‘'O Crime do Padre aMARO''
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Capítulo 3
Teresa ergueu-se, arrastando a sua soberba cauda, sentou-se ao piano. - Sabe música? - prguntou, voltando-se para Amaro. - A gente aprende no seminário, minha senhora. Ela correu a mão, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas e tocou a frase de Rigoleto, parecida com o Minuete de Mozart, que diz Francisco I, despedindo-se, no sarau do primeiro acto, da Senhora de Crécy - e cujo ritmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que findam e de braços que se desenlaçam em despedidas supremas. Amaro estava enlevado. Aquela sala rica, com as suas lavura de nuvem, o piano apaixonado, o colo de Teresa, que ele via sob a negra transparência da gaze, as suas tranças de deusa, os
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Capítulo 3 (cont.)
tranquilos arvoredos de jardim fidalgo, davam-lhe vagamente a ideia de uma existência superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, em cupés acolchoados, com árias de óperas, melancolias de bom gosto e amores de um gozo raro. Enterrado na elasticidade da causeuse, sentindo a música chorar aristocraticamente, lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu cheiro a refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino e, assustado, demora o seu prazer- pensando que vai voltar à dureza das côdeas secas e à poeira dos aminhos. No entanto, Teresa, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga ária inglesa de Haydn que diz tão finamente as melodias da separação: The village seems dead and asleep When Lubin is away! ...
QUEIRÓS, Eça de - O Crime do Padre Amaro, Publicações Europa- América, Mem Martins, p.44-45
"a cidade e as serras"
Excertos
Capítulo 1
O meu amigo Jacinto nasceu num palácio, com cento e nove contos de renda em terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival. No Alentejo, pela Estremadura, através das duas Beiras, densas sebes ondulando por colina e vale, muros altos de boa pedra, ribeiras, estradas, delimitavam os campos desta velha família agrícola que já entulhava o grão e plantava cepa em tempos de el-rei D. Dinis. A sua quinta e casa senhorial de Tormes, no Baixo Douro, cobriam uma serra. Entre o Tuae o Tinhela, por cinco fartas léguas, todo o torrão lhe pagava foro. E cerrados pinheirais seus negrejavam desde Agra até ao mar de Âncora. Mas o palácio onde Jacinto nascera, eonde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº 202.
QUEIRÓS, Eça de - A cidade e as serras, Publicações Europa- América, Mem Martins, p. 35
"a cidade e as serras"
Excertos
Capítulo 8
- Oh Jacinto, que estrela é esta, aqui, tão viva, sobre o beiral do telhado? - Não sei... E aquela, Zé Fernandes, além, por cima do pinheiral? - Não sei. Não sabíamos. Eu por causa da espessa crosta de ignorância com que sai do ventre de Coimbra, minha Mãe Espiritual. Ele, porque na sua biblioteca possuía trezentos e oito tratados sobre Astronomia, e o Saber, assim acumulado, forma um monte que nunca se transpõe nem se desbasta. Mas que nos importava que aquele astro além se chamasse Sirio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles tão imensos, nós tão pequeninos, somos obra da mesma Vontade. E todos, Úranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituimos modos diversos de um Ser único, e as nossas diversidades esparsas governadas pela mesma Lei, rolando para o mesmo Fim... Do astro ao homem, do homem à flor
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Excertos
Capítulo 8 (cont.)
do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro - tudo é o mesmo Corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum frémito de vida, por menor, passa numa fibra desse sublime Corpo, que se reprecuta em todas, até às mais humildes, até às que parecem inertes e invitais. Quando um Sol que não avisto, nunca avistei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, em baixo da horta, sente um secreto arrepio de morte: - e, quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece, e esse estremecimento percorre o inteiro Universo! Jacinto abateu rijamente a mão no rebordo da janela. Eu gritei: - Acredita! ... O Sol tremeu.
QUEIRÓS, Eça de - A cidade e as serras, Publicações Europa- América, Mem Martins, p.155-156
"a cidade e as serras"
Excertos
Capítulo 16
Em fila começámos a subir para a Serra. A tarde adoçava o seu esplendor de Estio. Uma aragem trazia, como ofertados, perfumes das flores silvestres. As ramagens moviam, com um aceno de doce acolhimento, as suas folhas vivas e reluzentes. Toda a passarinhada cantava, num alvoroço de alegria e de louvor. As águas correntes, saltantes, luzidias, despediam um brilho mais vivo, numa pressa mais animada. Vidraças distantes de casas amáveis flamejavam com um fulgor de ouro. A Serra toda se ofertava, na sua beleza eterna e verdadeira. E, sempre adiante da nossa fila, por entre a verdura, flutuava no ar a bandeira branca, que o Jacintinho não largava, de dentro do seu cesto, com a haste bem segura na mão. Era a "bandeira do Castelo", afirmava ele.
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"a cidade e as serras"
Excertos
Capítulo 16 (cont.)
E na verdade me parecia que, por aqueles caminhos, através da natreza campestre e mansa - o meu Príncipe, atrigueirado nas soalheiras e nos ventos da Serra, a minha prima Joaninha, tão doce e risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada tribo, e eu - tão longe da amarguradas ilusões e de falsas delícias, trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e Deus contente de nós, serenamente e seguramente, subíamos - para o Castelo da Grã-Ventura!
QUEIRÓS, Eça de - A cidade e as serras, Publicações Europa- América, Mem Martins, p. 245
ViDEO
Para rever as cerimónias que decorreram a 8 de janeiro de 2025. (Ver a partir dos 35 min.) (Contem publicidade)
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08.01.2025
transladação Panteão Nacional
Paula Sousa | 2025