"Jaime Cortesão: Um Homem de Letras e de Luta"
1884 - 1960
Jaime Cortesão (1884-1960) foi um destacado intelectual, historiador e escritor português, nascido em Ançã, Cantanhede. Formou-se em Medicina, mas tornou-se mais conhecido pelo seu contributo para a historiografia e cultura portuguesas. Republicano convicto, participou ativamente na vida política, tendo sido deputado e defensor da intervenção de Portugal na Primeira Guerra Mundial, onde serviu como capitão-médico voluntário.
Diretor da Biblioteca Nacional entre 1919 e 1927, foi também um dos principais dinamizadores das revistas A Águia e Seara Nova, influenciando decisivamente o pensamento progressista do seu tempo. Perseguido pelo regime ditatorial, viveu longos anos no exílio, sobretudo no Brasil, onde aprofundou os seus estudos sobre a história dos Descobrimentos e do Brasil. Regressou a Portugal em 1957 e manteve-se até ao fim da vida como símbolo da resistência democrática e da liberdade
Raízes e Primeiros Anos: A Infância de Jaime Cortesão
Jaime Cortesão teve uma infância tranquila e desafogada, marcada pelo ambiente familiar culto e estimulante. Nasceu a 29 de abril de 1884 em Ançã, no concelho de Cantanhede, filho de António Augusto Cortesão, médico e filólogo, e de Norberta Cândida Zuzarte, proprietária com sensibilidade poética. Aos seis anos, mudou-se com a família para São João do Campo, perto de Coimbra, onde iniciou os estudos liceais. Este ambiente familiar, aliado à influência intelectual dos pais, proporcionou-lhe uma base sólida para o desenvolvimento do seu percurso académico e cívico
Direi apenas o que vi e ouvi. Sofri demasiado para poder mentir.» in das Memórias da Grande Guerra — 1914-1916)
Primeiros Passos e Inquietações: A Adolescência de Jaime Cortesão
Durante a adolescência, Jaime Cortesão viveu em São João do Campo, perto de Coimbra, para onde se mudou com a família aos seis anos. Frequentou o liceu nesta região, num ambiente familiar marcado pela cultura e pelo estímulo intelectual proporcionado pelos pais. Terminados os estudos secundários, iniciou um percurso académico diversificado, inscrevendo-se primeiro no curso de Grego na Universidade de Coimbra, depois em Direito e, mais tarde, em Medicina, já revelando inquietação intelectual e múltiplos interesses.
A sua juventude foi marcada não só pela busca de formação académica, mas também pelo despertar do espírito crítico e de intervenção cívica, que se manifestaria plenamente nos anos universitários, nomeadamente na participação ativa em movimentos estudantis e, mais tarde, na vida política e cultural portuguesa
«Se és ambicioso, podes ganhar glória, dinheiro ou poderio com pequeno custo [...] mas degradas-te à condição repugnante de certos animais inferiores. O Homem superior é aquele que mais desinteressadamente serve a comunidade.» in Cartas à Mocidade)
Jaime Cortesão na Faculdade: Ativismo, Escrita e Formação
Jaime Cortesão ingressou na Universidade de Coimbra em 1901, iniciando um percurso académico que viria a ser decisivo para a sua formação intelectual e cívica. Embora tenha começado por frequentar os cursos de Grego e de Direito, foi em Medicina que se licenciou, concluindo o curso em 1909. Este período foi marcado não só pelo estudo, mas também por intensa participação na vida académica, política e literária.
Ativismo e Vida Académica
Durante os anos de faculdade, Cortesão envolveu-se profundamente no movimento estudantil e nas lutas políticas da época. Destacou-se como um dos líderes da Greve Académica de 1907, um protesto nacional de estudantes universitários contra a repressão e as limitações à liberdade de expressão impostas pelo regime monárquico. Esta greve teve grande impacto político e social, e Cortesão ganhou notoriedade como jovem intelectual comprometido com a causa republicana.
Além do ativismo político, participou em tertúlias, associações académicas e círculos culturais, convivendo com outros estudantes que viriam a ser figuras de relevo na cultura portuguesa, como Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Raúl Proença e António Sérgio.
«Mais vale morrer com honra, / Do que vida desonrada!» no poema O Jaime Rebelo, sobre a oposição a Salazar
Jaime Cortesão na Faculdade: Ativismo, Escrita e Formação
Foi neste ambiente efervescente que Jaime Cortesão começou a escrever e a publicar. Durante a faculdade, colaborou em jornais e revistas académicas como O Instituto e A República, onde publicou poemas, ensaios e textos de intervenção política. Em 1907, publicou poemas na revista Nova Silva, revelando já uma poesia de tom romântico, heroico e espiritual, próxima do Saudosismo, mas com uma marca própria de intervenção e reflexão nacionalista.
Os seus textos deste período abordavam temas como a identidade nacional, a necessidade de renovação cultural e social, e a exaltação dos valores republicanos. Estas primeiras experiências literárias e jornalísticas foram fundamentais para o desenvolvimento do seu pensamento e estilo.
Tese de Licenciatura
Em 1909, ao concluir o curso de Medicina, Jaime Cortesão apresentou a tese A Arte e a Medicina -Antero de Quental e Sousa Martins. Nesta obra, Cortesão contesta, no essencial, a teoria de Sousa Martins sobre Antero de Quental e desenvolve uma reflexão crítica sobre o cientismo naturalista, o determinismo dos fenómenos sociais e humanos, o materialismo, o determinismo fatalista e o positivismo. Em contrapartida, expressa a sua empatia e admiração pelo “divino Antero”, valorizando a elevação vitalista e heroica da Arte, sobretudo da Poesia, e defendendo o idealismo, a “livre metafísica” e uma “vasta e individualizada religiosidade”
Jaime Cortesão na Faculdade: Ativismo, Escrita e Formação
Cortesão exerceu Medicina durante muito pouco tempo, pois, como confidenciaria a Teixeira de Pascoaes em 1913, o exercício da clínica significaria para si uma “morte moral” e a anulação das suas mais íntimas ambições de artista. O sentimento poético e a vocação para a escrita emergiram já durante os anos de estudante em Coimbra e no Porto, tendo publicado composições poéticas em periódicos como a Nova Silva (1907), revista que fundou com Leonardo Coimbra, Álvaro Pinto e Cláudio Basto. Estas poesias, influenciadas pelo Saudosismo, destacam-se pelo panteísmo, romantismo, religiosidade, misticismo naturalista e espiritualismo, mas também por um impulso heroico e dinâmico que lhes é próprio.
Assim, a tese de licenciatura marca o início da abordagem multidisciplinar e humanista que caracterizaria toda a carreira de Jaime Cortesão, refletindo as suas preocupações filosóficas, literárias e cívicas, e antecipando o seu afastamento da prática médica em favor da dedicação à literatura, à história e à intervenção cultural e política.
irei apenas o que vi e ouvi. Sofri demasiado para poder mentir.”
Jaime Cortesão: Renovação Intelectual e Cultura
Jaime Cortesão foi uma figura central na renovação intelectual portuguesa do início do século XX, desempenhando um papel decisivo como fundador, colaborador e dinamizador de várias revistas culturais de referência. O seu percurso iniciou-se com a fundação da revista Nova Silva em 1907, juntamente com Leonardo Coimbra e outros jovens intelectuais, marcando o início da sua intervenção cultural e literária. Esta publicação coletiva foi um espaço de experimentação e debate, onde Cortesão publicou os seus primeiros poemas e textos de reflexão.
Em 1910, Cortesão colaborou na fundação de A Águia, ao lado de Teixeira de Pascoaes e outros nomes relevantes como Leonardo Coimbra, António Sérgio, Raul Proença, Augusto Casimiro e Mário Beirão. Esta revista tornou-se o principal órgão do Saudosismo e da Renascença Portuguesa, promovendo debates sobre identidade nacional, literatura e a necessidade de uma renovação cultural profunda em Portugal.
Jaime Cortesão: Renovação Intelectual e Cultura
Dois anos depois, em 1912, esteve envolvido no lançamento do movimento e revista Renascença Portuguesa, dinamizando projetos como o boletim A Vida Portuguesa e as Universidades Populares. Estes projetos tinham como objetivo “despertar a vontade adormecida” do país e dar novo conteúdo à revolução republicana, apostando na educação popular e na formação de uma consciência cívica e cultural.
Em 1921, Jaime Cortesão foi um dos fundadores da revista Seara Nova, juntamente com Raul Proença, António Sérgio, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão. Esta publicação tornou-se o principal fórum de intervenção cultural, política e cívica da geração republicana, defendendo a reforma do ensino, a democratização da cultura e a renovação da vida pública portuguesa. A Seara Nova destacou-se pelo seu espírito crítico, doutrinário e pedagógico, aproximando a elite intelectual da realidade social do país.
O papel de Jaime Cortesão nestas revistas foi fundamental: além de fundador e colaborador, assumiu funções de direção, dinamizou projetos pedagógicos e promoveu debates que influenciaram profundamente a cultura e a sociedade portuguesas do seu tempo. Cortesão colaborou ainda em diversas outras revistas, como Atlantida, Homens Livres, Ilustração e Serões, consolidando a sua influência no panorama cultural nacional.
Jaime Cortesão e a Biblioteca Nacional: Reformador, Agregador e Motor da Cultura Portuguesa
Jaime Cortesão foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Portugal em 1919, num período de grande efervescência cultural e política no país. A sua liderança ficou marcada por uma profunda reforma da instituição, que visava não só a conservação e valorização do património literário e científico nacional, mas também a modernização dos serviços e a definição de uma missão pública para a Biblioteca. Cortesão acreditava que a Biblioteca Nacional deveria ser um espaço aberto à sociedade, dedicado à transmissão do conhecimento e à formação cultural das novas gerações.
Durante o seu mandato, foi aprovada uma nova Lei Orgânica e respetiva regulamentação, que permitiu reorganizar os serviços e criar condições para uma gestão mais eficiente e moderna. A Biblioteca Nacional tornou-se, assim, um verdadeiro centro de dinamização cultural, reunindo à sua volta um grupo de intelectuais de grande prestígio, como Raul Proença, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes. A ação de Jaime Cortesão ultrapassou largamente o âmbito institucional. Para além do seu trabalho como diretor, foi um dos principais animadores do chamado "Grupo da Biblioteca Nacional", que impulsionou debates, publicações e iniciativas culturais fundamentais para a modernização da sociedade portuguesa. O seu legado inclui uma vasta obra literária, histórica e de intervenção cívica, reconhecida tanto em Portugal como no Brasil, onde viveu parte da sua vida em exílio devido à sua oposição ao regime do Estado Novo.
O Envolvimento Político de Jaime Cortesão: Resistência e Exílio
Jaime Cortesão destacou-se como uma das figuras mais marcantes da resistência ao autoritarismo em Portugal ao longo do século XX. Republicano convicto desde jovem, envolveu-se em movimentos de contestação ao regime, começando pela participação na greve académica de 1907 e, mais tarde, integrando-se em ações revolucionárias contra as ditaduras que marcaram a história portuguesa. Foi eleito deputado durante a Primeira República, defendeu a intervenção de Portugal na Primeira Guerra Mundial e serviu como capitão-médico voluntário no Corpo Expedicionário Português, onde foi gaseado e regressou ferido a Portugal.
Durante os anos 1920, Cortesão foi diretor da Biblioteca Nacional e membro ativo do grupo da Seara Nova, tornando-se uma referência intelectual e cívica. A sua oposição à Ditadura Militar e, posteriormente, ao Estado Novo de Salazar levou-o a participar em tentativas revolucionárias, como o golpe falhado de 1927, o que resultou na sua demissão e forçou-o ao exílio, primeiro em Espanha e França, e, mais tarde, no Brasil.O exílio de Jaime Cortesão foi marcado por uma intensa atividade política e cultural. Em França e Espanha, integrou redes de emigrados republicanos opositores e participou em congressos internacionais antifascistas, sendo vigiado e perseguido pela polícia política portuguesa (PIDE/DGS), que o acusava de traição à pátria devido ao seu ativismo antifascista transnacional.
"Gerou-te, lentamente, com revolta e dor, / a consciência dos escravos" in Ode à Liberdade
O Envolvimento Político de Jaime Cortesão: Resistência e Exílio
Em 1940, após breve regresso a Portugal e nova prisão, foi banido e fixou-se no Brasil, onde permaneceu até 1957. No Brasil, Cortesão continuou a luta pela democracia portuguesa, colaborando com periódicos da resistência, organizando conferências e cursos universitários, e denunciando internacionalmente a repressão do Estado Novo, inclusive em eventos patrocinados pela UNESCO. Tornou-se figura central numa rede de exilados e opositores, apoiando a vinda de outros republicanos portugueses e mantendo-se ativo na “imprensa militante” contra o regime salazarista.
Mesmo no exílio, nunca abandonou a sua responsabilidade cívica e intelectual, sendo permanentemente vigiado pela PIDE devido à sua influência e atividade política. O seu regresso definitivo a Portugal, em 1957, não significou o fim do seu envolvimento político: participou na campanha de Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958, foi novamente preso e eleito presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, mantendo-se sempre fiel à luta pela liberdade e pela democracia. A trajetória de Jaime Cortesão é um exemplo de resistência persistente, marcada pelo compromisso com os valores republicanos, pela defesa da cultura e da memória histórica, e pela recusa em pactuar com o obscurantismo e a repressão, tanto em Portugal como no exílio.
«Os dirigentes republicanos merecem isto e muito mais. O diabo é que às vezes paga o justo pelo pecador...» em carta ao irmão Armando, 1933)
A Obra Literária de Jaime Cortesão: Poesia, Teatro e Ensaios"
A poesia de Jaime Cortesão destaca-se pelo seu tom épico, cívico e simbólico, frequentemente associada aos ideais de renovação nacional e liberdade. O seu primeiro grande livro, A Morte da Águia (1910), é considerado um marco da poesia portuguesa moderna, com uma linguagem inovadora e um forte simbolismo patriótico. Seguiram-se obras como Glória Humilde (1914), de tom mais elegíaco, e Divina Voluptuosidade (1923), onde se nota uma lírica de ressonâncias heroicas e místicas. A sua poesia, muitas vezes publicada em revistas como A Águia, reflete a ligação à terra natal, à família e ao ideal republicano, sendo também marcada pela experiência do exílio e pelo compromisso com a liberdade.No teatro, Cortesão foi responsável por três peças de destaque, todas encenadas em Lisboa: O Infante de Sagres (1916), Egas Moniz (1919) e Adão e Eva (1921). As duas primeiras são dramas históricos, centrados em figuras e lendas nacionais, e visam reanimar o sentido cívico e pedagógico do teatro, com uma visão progressista da história portuguesa. O Infante de Sagres destaca-se pela investigação rigorosa sobre a época dos Descobrimentos e pelo elogio unânime da crítica. Egas Moniz aprofunda o ideal do sacrifício e da honra. Já Adão e Eva marca uma viragem temática, abordando a crise social e espiritual do pós-guerra, com uma mensagem de esperança e renovação, aproximando-se de um teatro de ideias e de situações existenciais. A produção ensaística de Jaime Cortesão é vasta e abrange temas de história, cultura, crítica literária e intervenção cívica. Destacam-se os ensaios sobre a história dos Descobrimentos Portugueses, a influência de Portugal na civilização mundial e a análise da formação territorial do Brasil, temas que aprofundou especialmente durante o exílio. Escreveu ainda sobre figuras centrais da cultura portuguesa, como Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes, e participou ativamente em revistas como A Águia e Seara Nova, defendendo a renovação cultural e o progresso social. Muitos dos seus textos de intervenção e ensaios encontram-se reunidos em volumes como Cartas à Mocidade e Outros Textos e Eça de Queiroz e a Questão Social
«Tu choras, minha Mãe, e a Terra chora. / A graça do teu rosto é já do Céu, / Participa de Deus, de Eternidade.» no poema À Minha Mãe e à Minha Terra
Prémios e Condecorações de Jaime Cortesão
Jaime Cortesão foi distinguido ao longo da sua vida com várias condecorações, tanto pelo seu papel cívico e intelectual como pelo seu serviço militar. O reconhecimento oficial, contudo, foi limitado durante o Estado Novo devido à sua oposição ao regime e ao longo exílio, sendo que muitas homenagens e distinções só lhe foram atribuídas postumamente.
Durante a Primeira Guerra Mundial, Cortesão serviu como médico miliciano voluntário na frente de batalha em França. Pelo seu desempenho e bravura, foi condecorado com a Cruz de Guerra e recebeu um louvor militar, distinções que evidenciam o seu contributo e sacrifício em contexto de guerra.
No plano civil, Cortesão foi eleito membro da Academia de Ciências de Lisboa em 1921, reconhecimento do seu valor intelectual e científico. Após o seu regresso do exílio, foi eleito presidente da Direção da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1958, sucedendo a Aquilino Ribeiro, o que demonstra o prestígio de que gozava no meio literário e cultural português.
Entre as condecorações honoríficas, destaca-se a atribuição, a título póstumo, da Medalha de Honra – Ouro pela Câmara Municipal do Porto, reconhecendo o seu contributo como médico e historiador. Foi também homenageado com medalhas comemorativas, como a medalha do centenário do seu nascimento.
Apesar de não ter recebido um grande número de prémios literários formais em vida, o verdadeiro reconhecimento de Jaime Cortesão reside na influência duradoura da sua obra e na memória cívica e cultural que deixou em Portugal e no Brasil. O seu nome continua associado à defesa da liberdade, à renovação do pensamento histórico e à valorização da identidade nacional.
«O Homem superior é aquele que mais desinteressadamente serve a comunidade» em Cartas à Mocidade)
Livros de Poesia de Jaime Cortesão
O seu primeiro e mais emblemático livro de poesia é A Morte da Águia (1910), um poema heroico em sete cantos, símbolo do idealismo republicano e do desejo de renovação nacional. Esta obra, publicada em Lisboa, tornou-se uma referência do modernismo português e do espírito da Renascença Portuguesa.
Em 1914, publica Glória Humilde, um livro de tom mais intimista e elegíaco, onde predomina a homenagem à mãe e à terra natal, revelando uma faceta mais pessoal e lírica do autor. Estes dois títulos são os principais livros de poesia publicados autonomamente por Jaime Cortesão em vida.
Além destes, a sua produção poética dispersa foi posteriormente reunida em volumes como Poesias Escolhidas e em compilações integradas nas suas Obras Completas, editadas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Nestas edições encontram-se também ciclos poéticos, poemas inéditos e textos publicados em revistas como A Águia.
Portanto, os principais livros de poesia de Jaime Cortesão são A Morte da Águia e Glória Humilde, aos quais se juntam compilações póstumas e antologias que reúnem a totalidade da sua obra poética.
«A graça do teu rosto é já do Céu, / Participa de Deus, de Eternidade» no poema À Minha Mãe e à Minha Terra
À Minha Mãe e à Minha Terra
Só tu podias ser a minha Mãe,
Só tu e mais ninguém
Trazer-me ao peito
É dar-me um leite em lágrimas banhado;
E que a estes meus olhos fosse dado
Só há no mundo este lugar eleito.
Graças, ó minha Mãe!, te venho dar
E a ti, boa Paisagem, também dou...
Por meu divino gosto de cantar,
Pela parte mais santa do que sou!
É por amor das lágrimas ardentes,
Que te cavaram sulcos pelo rosto,
É por amor do céu e do Sol-posto,
Do Mar... de ti, Paisagem, que me abraças,
Que eu sou Poeta e canto e choro e rezo
E que vos dou esta oração de graças.
E assim, ó minha Mãe, minha Paisagem,
Ensinai-me a criar como as mulheres
E como a Terra generosa e ruda:
Que sofras , ó minha Alma, as dores do Parto,
Que dês o sangue aos versos que fizeres
Que o sol te queime e o Vento te sacuda!
Minha Mãe, Minha Mãe, ó Minha Santa,
E vós, sagradas Águas e ramagens,
Bendita sejas tu entre as Mulheres,
Bendita seja tu entre as Paisagens!
À Ti, minha Mãe que tens o rosto
Dorido e iluminado duma santa,
Todo embebido em lágrimas de Amor,
É que a minha Alma, de joelhos, canta!
A Ti, e à minha Terra, as duas Mães,
Que me criaram juntas num abraço,...
Pois ambas me trouxeram no seu ventre,
Ambas me adormeceram no regaço.
E tu, vento de orgulho, que em mim passas
Rugindo a toda hora,
Une-te ao pó:
E agora
Que de toda a minha Alma fique só
A trêmula inocência dum menino
Para que eu reze uma oração de Graças!
Como és, ó mãe!, irmã desta Paisagem
Tão doce, religiosa e comovida,
Com uma parte viva neste mundo
E outra maior que é para além da Vida!
Já, por amor de mim, desses teus olhos,
Postos num rosto triste e macerado,
Como uma fonte prestes a nascer,
Muita lágrima em fio tens chorado
E muitas inda estão para correr.
Também a Terra sofre das raízes,
Que a penetram na ânsia de sugar;
Das Águas que a retalham pra correr,
Das humildes sementes a acordar;
Sofrem os Rios concebendo a Névoa
As Árvores no esforço de se erguer,
E Árvores, Rios, Névoas, tudo sofre
Quando lhes bate o láteo do Vento...
Ou se o Sol as devora, calcinante:
E é todo esse profundo Sofrimento
Para que eu num delírio ria e cante!
O vento, em fúria, passa sobre a Terra:
Talvez tu chores minha Mãe agora,
E quando eu canto, para ser Poeta,
Tu choras minha Mãe e a Terra chora.
A graça do teu rosto é já do Céu
Participa de Deus, de Eternidade,
E não se vê melhor estando ao perto:
Mas no vidente enlevo da Saudade,
Olhos fechados, coração aberto...
Tu ensinaste-me a rezar, ó Mãe!
E a minha Terra...: é só olhá-la bem,
Longe até às encostas,
Vêem-se choupos sempre até além...:
É a Paisagem toda de mãos postas!
poema de Jaime Cortesão, retirado da sua obra Glória Humilde (1914), que expressa a sua ligação profunda à mãe e à terra natal:
“Romance do Homem da Boca Fechada”
- Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
- Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.
Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.
Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade,
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia...
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.
Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
- Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
- Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
- Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
- Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!
- A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
- Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!
Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
- Antes que fale emudeça! -
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.
A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!
Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!
Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar.
No poema “Romance do Homem da Boca Fechada”, de Jaime Cortesão, Jaime Rebelo é apresentado como um pescador, homem do mar, símbolo da resistência e coragem frente à repressão do regime de Salazar. Rebelo é retratado como alguém que, mesmo sob tortura, prefere mutilar-se a trair os seus princípios ou denunciar os companheiros: corta a própria língua para não falar, tornando-se um exemplo extremo de dignidade e sacrifício pela liberdade.
Este poema de Jaime Cortesão circulou clandestinamente nos anos trinta e foi publicado no Avante em 1937 . A publicação de um poema de um republicano sobre um anarquista no jornal comunista inseria-se nos esforços de Francisco Paula de Oliveira /"Pavel" para reforçar uma política de frente popular em Portugal
O Teatro de Jaime Cortesão: Obras e Significado
A produção dramática de Jaime Cortesão, embora breve, ocupa um lugar relevante na sua obra literária e na história do teatro português do início do século XX. Entre 1916 e 1921, Cortesão escreveu três peças fundamentais: O Infante de Sagres, Egas Moniz e Adão e Eva. Estas obras refletem a preocupação do autor com a identidade nacional, os valores éticos e a pedagogia cívica, temas centrais em toda a sua carreira.
O Infante de Sagres (1916) é um drama histórico que tem como figura central o Infante D. Henrique, símbolo do espírito aventureiro e inovador dos Descobrimentos Portugueses. A peça exalta o génio visionário do Infante e o papel de Portugal na expansão marítima, sendo uma homenagem ao passado glorioso da nação. Esta obra foi escrita num contexto de renovação cultural e patriótica, próprio do movimento da Renascença Portuguesa, do qual Cortesão foi um dos grandes dinamizadores.
O Teatro de Jaime Cortesão: Obras e Significado
Egas Moniz (1918) é um drama em quatro atos que revisita a lenda do aio de D. Afonso Henriques, figura histórica que personifica a lealdade, a honra e o sacrifício pelo bem comum. A peça foi representada pela primeira vez no Teatro São Luiz, em Lisboa, e publicada pela Renascença Portuguesa. Em “Egas Moniz”, Cortesão explora os valores fundadores da nacionalidade portuguesa, usando o teatro como veículo de transmissão de ideais cívicos e morais.
Adão e Eva (1921) marca o culminar da incursão de Cortesão no teatro. Nesta peça, o autor parte do mito bíblico para refletir sobre temas universais da condição humana, como a inocência, a queda, o conhecimento e a responsabilidade. A abordagem de Cortesão é original, cruzando tradição e modernidade, e revelando uma preocupação com questões filosóficas e existenciais.
Estas três peças, reunidas em edições modernas sob o título Teatro, inserem-se nas Obras Completas de Jaime Cortesão, publicadas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Apesar de o teatro ter sido apenas uma etapa na sua vasta produção, estas obras são valorizadas pelo seu conteúdo literário, histórico e simbólico, e refletem o compromisso do autor com a educação cívica, a memória coletiva e a construção da identidade nacional.
Obras de Ficção (Contos e Narrativa) de Jaime Cortesão
Jaime Cortesão, embora mais conhecido como poeta, historiador e ensaísta, também se destacou na ficção, especialmente no conto e na narrativa curta. Eis as suas principais obras neste domínio:
…Daquém e Dalém Morte (1913)
Este livro de contos, publicado no Porto, é considerado a principal incursão de Jaime Cortesão na ficção narrativa. A obra reúne textos que exploram temas existenciais, sociais e filosóficos, refletindo sobre a condição humana, a morte, o destino e a transcendência. O estilo cruza simbolismo, espiritualismo e crítica social, marcando a sua contribuição para o conto português do início do século XX. Itália Azul (1922), publicado após o seu regresso da guerra, Itália Azul é um livro de viagens e impressões, com elementos de descrição literária e narrativa. A obra resulta de uma viagem a Itália e conjuga observação, sensibilidade artística e reflexão cultural, oferecendo ao leitor um retrato vivo do país e das suas gentes. Embora não seja ficção no sentido estrito, integra-se na tradição da literatura de viagens, com uma forte dimensão narrativa e estilística e Memórias da Grande Guerra (1916-1919).
Temas Principais nas Memórias de Jaime Cortesão sobre a Primeira Guerra Mundial
Nas suas Memórias da Grande Guerra (1916-1919), Jaime Cortesão oferece um testemunho profundo e multifacetado da experiência portuguesa na Primeira Guerra Mundial, abordando temas que vão muito além da simples narrativa militar. O autor, que participou como capitão-médico voluntário no Corpo Expedicionário Português, descreve de forma vívida o quotidiano dos soldados nas trincheiras da Flandres, evidenciando o sofrimento, a coragem, a camaradagem e o impacto psicológico da guerra. As privações, o medo constante, a convivência com a morte e a loucura são apresentados de forma realista, transmitindo ao leitor a dureza da vida no campo de batalha.
Outro tema central das memórias é a análise política da participação de Portugal no conflito. Cortesão reflete sobre as motivações políticas que levaram o país à guerra, as divisões internas da sociedade portuguesa e as crises governativas que marcaram o período. O autor critica a falta de preparação, as dificuldades logísticas e a desorganização que afetaram o esforço de guerra, responsabilizando também as elites políticas e militares pelas adversidades enfrentadas pelos soldados.A consciência cívica e o sentido de responsabilidade nacional atravessam toda a obra. Cortesão sublinha a importância da verdade, da coragem moral e do compromisso com a justiça, afirmando que sofreu demasiado para agora poder mentir. As memórias tornam-se, assim, um apelo à honestidade e à reflexão sobre o papel do indivíduo e da comunidade em tempos de crise.
A Recolha e Valorização da Tradição Popular por Jaime Cortesão
Jaime Cortesão desempenhou um papel de destaque na recolha, estudo e divulgação da poesia e música popular portuguesa, especialmente no início do século XX. Entre as suas contribuições mais relevantes neste domínio encontram-se as obras Cancioneiro Popular. Antologia (1914) e Cantigas do Povo para as Escolas (1914), ambas publicadas no Porto e integradas no movimento de renovação cultural da Primeira República.
O Cancioneiro Popular. Antologia é uma recolha criteriosa de poesia popular portuguesa, acompanhada de um estudo introdutório onde Cortesão analisa a importância da tradição oral na formação da identidade nacional. O autor selecionou e organizou centenas de quadras, trovas e cantigas, destacando a riqueza expressiva, a pureza e a originalidade da poesia popular. Esta obra não só preserva um património imaterial em risco de desaparecimento, como também o valoriza enquanto fonte de inspiração e de conhecimento profundo do povo português.
Cantigas do Povo para as Escolas destina-se a um público escolar e tem um claro propósito pedagógico. Cortesão recolheu e adaptou cantigas tradicionais para serem utilizadas no ensino, promovendo o contacto das crianças com a tradição oral e musical portuguesa. O livro foi pensado como instrumento de educação cívica e cultural, integrando a herança popular no currículo escolar e contribuindo para a formação de cidadãos mais conscientes das suas raízes e valores.Estas obras refletem o compromisso de Jaime Cortesão com a preservação da memória coletiva, a valorização da cultura popular e a promoção de uma pedagogia ativa e nacional. O seu trabalho neste campo permanece uma referência fundamental para o estudo e a divulgação do património imaterial português.
«Liberdade, flor do mundo, / Que o sol beija e o vento ama! / Nas tuas asas me confundo / E na tua luz me inflama.» in Da Ode à Liberdade
Jaime Cortesão: Historiador e Ensaísta
Jaime Cortesão é reconhecido como um dos grandes historiadores portugueses do século XX, destacando-se pela abordagem inovadora e literária da história da expansão marítima portuguesa, da formação territorial do Brasil e das relações luso-brasileiras. A sua produção historiográfica alia rigor científico, análise crítica e sensibilidade literária, tornando as suas obras acessíveis e envolventes para um público alargado. Eis algumas das principais obras neste domínio:
Os Descobrimentos Portugueses -
Considerada a obra cimeira de Cortesão, esta série em vários volumes apresenta uma análise profunda e abrangente da expansão marítima portuguesa, abordando os fatores políticos, económicos, sociais e culturais que estiveram na génese dos Descobrimentos e o seu impacto na história mundial e na identidade nacional portuguesa.Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid - Obra em vários volumes dedicada à análise diplomática e histórica do Tratado de Madrid de 1750, que redefiniu as fronteiras do Brasil colonial. Cortesão explora o contexto internacional, as estratégias diplomáticas e as consequências territoriais do acordo, centrando-se na figura de Alexandre de Gusmão, diplomata luso-brasileiro.
Jaime Cortesão: Historiador e Ensaísta
Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil - Estudo sobre a ação dos bandeirantes, em particular de Raposo Tavares, e o processo de expansão territorial do Brasil para além dos limites do Tratado de Tordesilhas. A obra detalha expedições, conflitos e a integração dos novos territórios, sendo fundamental para a compreensão da formação do Brasil moderno.História do Brasil nos Velhos Mapas - Dividida em dois volumes, esta obra cruza história e cartografia, analisando mapas antigos para reconstituir a evolução territorial do Brasil desde o período colonial. Cortesão demonstra a importância dos mapas na construção do conhecimento geográfico e na definição das fronteiras. A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil - Estudo dedicado à viagem de Cabral e ao contexto das navegações portuguesas do início do século XVI, combinando investigação documental com reflexão sobre o significado histórico do achamento do Brasil. Os Descobrimentos Pré-Colombianos dos Portugueses - Investigação sobre possíveis explorações portuguesas anteriores a Colombo, discutindo hipóteses e fontes sobre a presença lusa em terras desconhecidas antes de 1492. Portugal – A Terra e o Homem - Livro póstumo que reúne crónicas, ensaios e descrições de viagens por Portugal, cruzando a observação do território com a análise da história, da cultura e da identidade do povo português. Estas obras, disponíveis na coleção das Obras Completas de Jaime Cortesão editada pela Imprensa Nacional, refletem a abordagem multidisciplinar do autor, que alia o rigor historiográfico à dimensão ensaística e literária, tornando o seu legado fundamental para o estudo da história portuguesa e luso-brasileira.
Jaime Cortesão: Ensaios sobre História, Cultura e Sociedade
Jaime Cortesão destacou-se não só como historiador, mas também como ensaísta e pensador, produzindo uma vasta obra de reflexão cívica, pedagógica, literária e histórica. Os seus ensaios abordam temas centrais da cultura portuguesa, do humanismo, da educação e das grandes questões sociais e políticas do seu tempo, sempre com uma perspetiva crítica e integradora. Cartas à Mocidade e Outros Textos - Reúne ensaios de intervenção cívica, pedagógica e cultural, dirigidos sobretudo às gerações mais jovens, onde Cortesão defende valores como o civismo, a liberdade, a responsabilidade e o papel da educação na formação do caráter nacional. Eça de Queiroz e a Questão Social - Neste ensaio, Cortesão analisa a obra de Eça de Queiroz à luz das problemáticas sociais do século XIX, destacando o modo como o escritor abordou temas como a justiça social, o papel da religião, o socialismo e a transformação da sociedade portuguesa. O autor valoriza aspetos menos convencionais da produção queirosiana, como o fradiquismo e a influência do franciscanismo, revelando a atualidade e profundidade do pensamento de Eça.
«A Liberdade não se herda — conquista-se todos os dias» (em discursos republicanos)
Jaime Cortesão: Ensaios sobre História, Cultura e Sociedade
A Arte e a Medicina: Antero de Quental e Sousa Martins (1910) - Ensaio dedicado a duas figuras marcantes do pensamento português, onde Cortesão cruza literatura, filosofia e ciência, refletindo sobre o papel do humanismo, da ética e da intervenção social na cultura portuguesa. Influência dos Descobrimentos Portugueses na História da Civilização -
Neste texto, Cortesão reflete sobre o impacto global dos Descobrimentos, analisando as consequências culturais, científicas e económicas da expansão marítima portuguesa na história da humanidade. A Carta de Pero Vaz de Caminha -
Estudo histórico-literário sobre o documento fundador do Brasil, onde Cortesão analisa a dimensão simbólica, política e cultural da carta escrita por Pero Vaz de Caminha aquando da chegada de Cabral ao Brasil, sublinhando o seu valor como testemunho e mito de fundação. Os Factores Democráticos na Formação de Portugal - Ensaio histórico em que Cortesão discute os elementos democráticos presentes na génese e evolução do Estado português, defendendo a importância da participação popular e do espírito coletivo na construção da identidade nacional. O Humanismo Universalista dos Portugueses - Reflexão sobre o papel de Portugal na cultura universal, onde o autor sublinha o contributo português para o diálogo intercultural, a tolerância e o espírito de abertura ao mundo, características do humanismo luso. A Política de Sigilo nos Descobrimentos - Estudo sobre a estratégia portuguesa de manter segredo em relação às rotas, descobertas e conhecimentos náuticos durante a expansão marítima, analisando as razões políticas, económicas e militares desta política e o seu impacto na história global
"A interpretação do passado [...] supõe uma filosofia subjacente. Negar a parte das aspirações espirituais e da criação individual na história é reduzi-la a um arremedo inumano de ciência."
Descobrindo Jaime Cortesão: Trajetória e Pensamento em Vídeo
Humanismo Universalista: Conceito e Influência em Jaime Cortesão
O conceito de humanismo universalista ocupa um lugar central no pensamento e na obra de Jaime Cortesão, sendo desenvolvido de forma sistemática na sua obra O Humanismo Universalista dos Portugueses, publicada em 1965 como parte das suas Obras Completas. Nesta obra, Cortesão defende que o espírito português, especialmente manifestado durante a época dos Descobrimentos, se caracteriza por uma abertura ao mundo e por uma vocação para o encontro e a síntese entre diferentes culturas, religiões e civilizações.
Para Cortesão, o humanismo universalista português não se limita à curiosidade geográfica ou ao impulso comercial. Trata-se de uma atitude ética e cultural, marcada pela tolerância, pelo respeito pela diversidade e pela valorização da dignidade humana. Este humanismo manifesta-se tanto nas grandes figuras literárias e científicas portuguesas, como na ação concreta dos navegadores, missionários e diplomatas, que promoveram o diálogo e a convivência entre povos distintos.
A influência deste conceito na ação política e cultural de Cortesão é notória. Ele via no passado português um exemplo de abertura e de integração, defendendo que Portugal, pela sua experiência histórica, tem uma responsabilidade especial na promoção da paz, da compreensão e da solidariedade entre os povos. Esta perspetiva orientou não só a sua produção historiográfica, mas também o seu compromisso com a democracia, a educação e a defesa dos direitos humanos.
Em síntese, o humanismo universalista, segundo Jaime Cortesão, é uma herança e uma missão de Portugal: contribuir para a construção de uma civilização global baseada na fraternidade, na justiça e na valorização da humanidade como um todo
Jaime Cortesão: Entre a Medicina, a Ciência e o Humanismo
Jaime Cortesão formou-se em Medicina e exerceu a profissão apenas durante um curto período, pois rapidamente percebeu que a sua verdadeira vocação era a intervenção cultural, literária e cívica. No entanto, o seu percurso na ciência e na medicina não se limitou à prática clínica: destacou-se como capitão-médico voluntário no Corpo Expedicionário Português durante a Primeira Guerra Mundial, onde prestou assistência a soldados feridos e foi gaseado na frente de combate.
Além disso, a sua tese de licenciatura, “A Arte e a Medicina: Antero de Quental e Sousa Martins” (1910), constitui uma reflexão crítica sobre a relação entre ciência, medicina e cultura. Nesta obra, Cortesão questiona o cientificismo determinista e materialista dominante na medicina da época, defendendo uma visão mais humanista e idealista da arte e da vida. Este pensamento marcou toda a sua abordagem intelectual, promovendo sempre o diálogo entre diferentes áreas do saber e valorizando a dimensão ética e espiritual da ciência.
A sua ligação à história da ciência manifesta-se ainda nos seus estudos sobre a navegação, a cartografia e a geografia dos Descobrimentos, onde procurou compreender a evolução dos instrumentos científicos e o papel do conhecimento técnico na expansão portuguesa. Assim, mesmo tendo abandonado a medicina como profissão, Cortesão manteve uma ligação constante à ciência, integrando-a numa visão multidisciplinar e humanista da história e da cultura portuguesas.
O Papel de Jaime Cortesão na Formação de Novas Gerações de Intelectuais
A influência de Jaime Cortesão sobre gerações posteriores de historiadores e escritores foi profunda e multifacetada. Como diretor da Biblioteca Nacional e figura central em revistas como A Águia e Seara Nova, Cortesão ajudou a criar uma verdadeira escola de intelectuais e investigadores em Portugal, promovendo uma renovação dos estudos históricos e do pensamento crítico nacional. Entre os nomes que conviveram e trabalharam com ele destacam-se Raul Proença, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Teixeira de Pascoaes, Raul Brandão e Leite de Vasconcelos, todos eles figuras de referência na cultura portuguesa do século XX.
O seu método de investigação histórica, que combinava rigor documental, análise crítica e uma visão humanista e universalista, marcou a historiografia portuguesa e brasileira. Cortesão foi pioneiro na valorização da cartografia, da geografia histórica e da análise das fontes primárias, influenciando estudos sobre os Descobrimentos, a formação territorial do Brasil e a história colonial, áreas em que o seu trabalho é ainda hoje referência obrigatória. A sua abordagem interdisciplinar e a preocupação com a ligação entre passado e presente abriram caminho a novas perspetivas e metodologias na investigação histórica.
Além disso, a sua escrita – que abrange poesia, teatro, ensaio, crítica literária e memórias – inspirou escritores e intelectuais a cruzar fronteiras entre géneros e a assumir um papel ativo na vida pública e cultural. O seu exemplo de compromisso cívico, resistência democrática e defesa de valores universais continua a ser citado como modelo por investigadores, professores e escritores contemporâneos.
Jaime Cortesão deixou uma marca duradoura na cultura portuguesa e luso-brasileira, não só pelo seu vasto legado literário e historiográfico, mas também pelo impulso que deu à renovação intelectual, à abertura de horizontes e à valorização do papel do historiador como agente de transformação social.
O Exílio de Jaime Cortesão: Enriquecimento Intelectual e Pontes com a Cultura Brasileira
O exílio de Jaime Cortesão no Brasil constituiu uma das fases mais produtivas e marcantes da sua vida intelectual. Forçado a abandonar Portugal devido à perseguição política do Estado Novo, Cortesão encontrou no Brasil não só refúgio, mas também um ambiente propício ao desenvolvimento das suas investigações históricas e ao aprofundamento do diálogo entre as culturas portuguesa e brasileira. Durante cerca de 17 anos em terras brasileiras, Cortesão publicou algumas das suas obras mais relevantes, sobretudo dedicadas à história do Brasil colonial, à cartografia e à expansão portuguesa. O acesso direto a arquivos, mapas e fontes locais permitiu-lhe uma abordagem inovadora e rigorosa da história luso-brasileira, contrariando visões nacionalistas e promovendo uma perspetiva de diálogo e partilha entre os dois países. Títulos como Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil e Os Descobrimentos Portugueses tornaram-se referências incontornáveis na historiografia. O contacto com figuras de destaque da cultura brasileira, como Cecília Meireles, Oswaldo Aranha e Sérgio Buarque de Holanda, enriqueceu ainda mais o seu pensamento e permitiu-lhe participar ativamente na vida académica e cultural do Brasil. Cortesão envolveu-se em conferências, exposições e debates, sendo reconhecido como uma voz de autoridade e de prestígio tanto pelas instituições brasileiras como pela comunidade intelectual.
«Mais vale morrer com honra, / Do que vida desonrada!» do poema Romance do Homem de Boca Fechada
As ligações de Jaime Cortesão com o Brasil: exílio e família
O exílio, longe de significar isolamento ou afastamento, foi para Jaime Cortesão uma oportunidade de crescimento, de diálogo intercultural e de afirmação do seu universalismo. O seu legado reflete esta experiência única, consolidando-o como uma ponte viva entre Portugal e o Brasil e como um dos grandes construtores do entendimento entre as duas culturas.A ligação familiar ao Brasil foi reforçada pelas suas filhas, que ali criaram raízes e deixaram marcas significativas. Maria Judith Zuzarte Cortesão, médica, escritora e ambientalista, viveu grande parte da sua vida no Brasil, onde se destacou no ensino universitário e na defesa do património natural, nomeadamente da Mata Atlântica. Casou-se com o filósofo português Agostinho da Silva. Por sua vez, Maria da Saudade Cortesão Mendes, poetisa e tradutora, casou-se com o poeta brasileiro Murilo Mendes, com quem viveu no Brasil durante vários anos, participando ativamente na vida cultural do país. Mesmo após se fixar na Europa, manteve laços estreitos com o Brasil, nomeadamente através da doação do espólio literário do marido a uma universidade brasileira.
“Os escritores têm também hoje a sua trincheira e serão traidores os que a não ocupem com disciplina.”
MALDIÇÃO (poema a Salazar)
Por ti, pelo teu ódio à Liberdade à Razão e à Verdade,
a tudo o que é viril, Humano e moço,
a fome e o luto apagaram os lares
e os homens agonizam aos milhares
no exílio, no hospital, no calabouço.
Por ti raivoso abutre
cujo apetite sôfrego se nutre
de lágrimas, de gritos, de aflições
gemem nas aspas da tortura
ou baixam em segredo à sepultura
os mártires que atiras às prisões.
A este claro Povo, herói dos povos,
que deu ao Mundo mundos novos,
mais estrelas ao Céu, mais luz ao dia;
a este livre e luminoso Apolo
atas as mãos, os pés e o colo,
e encerras numa lôbrega enxovia.
Falas do céu, como um doutor no templo
mas tu encarnação e vivo exemplo
da hipocrisia vil dos fariseus,
pelos sagrados laços que desunes,
pelos teus crimes, até hoje impunes
roubas ao mesmo crente a fé em Deus.
Passas... e mirra a erva nos caminhos,
as aves, com terror, fogem aos ninhos,
e ao ver-te o vulto gélido e felino,
mulheres e mães, lembrando os lastimosos
casos de irmãos, de filhos ou de esposos,
bradam crispadas as mãos: Assassino! Assassino!
Passas... e até os velhos, cujos anos
têm costumado a monstros e tiranos
dizem, com a boca cheia de ira e asco:
- Sobre esta Pátria mísera que oprimes,
jamais alguém foi réu de tantos crimes.
Vai-te! Basta de vítimas! Carrasco!
Passas... e ergue-se, vai de vale a cerro
dos hospitais, do fundo das masmorras
às inóspitas plagas do desterro,
um coro de ais, de imprecações, de morras.
São multidões que rugem num só brado:
- Maldita a hora em que tu foste nado!
- Que se malogre tudo quanto almejas;
- Conturbem-se os teus dias de aflição;
- Neguem-te as fontes água, a terra pão
e as estrelas a luz - Maldito sejas!
Poema "Maldição" de Jaime Cortesão, com referências a Salazar e publicado na imprensa clandestina.
Jaime Cortesão foi um dos grandes construtores do pensamento e da cultura portuguesa do século XX. Médico de formação, mas sobretudo poeta, historiador, ensaísta e resistente político, deixou uma marca indelével na vida cultural, académica e cívica do país. O seu percurso, marcado pelo ideal republicano, pela luta pela liberdade e pela modernização cultural, continua a inspirar gerações. O exílio não o afastou do compromisso com Portugal, antes ampliou o seu horizonte intelectual e o seu papel como ponte entre culturas. O seu legado permanece vivo na memória coletiva e nas instituições que ajudou a transformar.
Fernando Pessoa, numa carta dirigida a Jaime Cortesão em 1913, incluiu-o entre os grandes “Homens da Renascença” e destacou a sua capacidade construtiva, apelidando o seu género poético de “dinamismo heroico”. Pessoa reconhecia ainda que o maior talento de Cortesão se revelava na História, onde o impulso heroico da sua poesia encontrava expressão máxima.
Jaime Cortesão faleceu em Lisboa, a 14 de agosto de 1960, com 76 anos, deixando um legado intelectual e cívico de enorme relevância para a cultura portuguesa
Referências/Bibliografia
Obras de Jaime Cortesão
Cortesão, Jaime. Os Factores Democráticos na Formação de Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1930.
Cortesão, Jaime. O Humanismo Universalista dos Portugueses. Lisboa: Portugália Editora, 1965.
Cortesão, Jaime. A Política de Sigilo nos Descobrimentos. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1945.
Cortesão, Jaime. Os Descobrimentos Portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional, 1941.
Cortesão, Jaime. A Arte e a Medicina: Antero de Quental e Sousa Martins. Lisboa, 1910 (tese de licenciatura).
Estudos e Análises sobre Jaime Cortesão
Marques, A. H. de Oliveira. História de Portugal. Lisboa: Palas Editores, 1986. (Capítulos sobre Jaime Cortesão e a historiografia do século XX)
Santos, Maria Helena da Cruz Coelho. Jaime Cortesão: Vida e Obra. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1998.
Silva, Rui. “Jaime Cortesão e o Humanismo Português”. Revista de História, vol. 45, 2005, pp. 123-145.
Fontes Online
Fundação Jaime Cortesão – https://www.fundacaojaimecortesao.pt
Biblioteca Nacional Digital – Obras digitalizadas de Jaime Cortesão – http://purl.pt/index/geral/jaime-cortesao
"Jaime Cortesão: Um Homem de Letras e de Luta"
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"Jaime Cortesão: Um Homem de Letras e de Luta"
1884 - 1960
Jaime Cortesão (1884-1960) foi um destacado intelectual, historiador e escritor português, nascido em Ançã, Cantanhede. Formou-se em Medicina, mas tornou-se mais conhecido pelo seu contributo para a historiografia e cultura portuguesas. Republicano convicto, participou ativamente na vida política, tendo sido deputado e defensor da intervenção de Portugal na Primeira Guerra Mundial, onde serviu como capitão-médico voluntário. Diretor da Biblioteca Nacional entre 1919 e 1927, foi também um dos principais dinamizadores das revistas A Águia e Seara Nova, influenciando decisivamente o pensamento progressista do seu tempo. Perseguido pelo regime ditatorial, viveu longos anos no exílio, sobretudo no Brasil, onde aprofundou os seus estudos sobre a história dos Descobrimentos e do Brasil. Regressou a Portugal em 1957 e manteve-se até ao fim da vida como símbolo da resistência democrática e da liberdade
Raízes e Primeiros Anos: A Infância de Jaime Cortesão
Jaime Cortesão teve uma infância tranquila e desafogada, marcada pelo ambiente familiar culto e estimulante. Nasceu a 29 de abril de 1884 em Ançã, no concelho de Cantanhede, filho de António Augusto Cortesão, médico e filólogo, e de Norberta Cândida Zuzarte, proprietária com sensibilidade poética. Aos seis anos, mudou-se com a família para São João do Campo, perto de Coimbra, onde iniciou os estudos liceais. Este ambiente familiar, aliado à influência intelectual dos pais, proporcionou-lhe uma base sólida para o desenvolvimento do seu percurso académico e cívico
Direi apenas o que vi e ouvi. Sofri demasiado para poder mentir.» in das Memórias da Grande Guerra — 1914-1916)
Primeiros Passos e Inquietações: A Adolescência de Jaime Cortesão
Durante a adolescência, Jaime Cortesão viveu em São João do Campo, perto de Coimbra, para onde se mudou com a família aos seis anos. Frequentou o liceu nesta região, num ambiente familiar marcado pela cultura e pelo estímulo intelectual proporcionado pelos pais. Terminados os estudos secundários, iniciou um percurso académico diversificado, inscrevendo-se primeiro no curso de Grego na Universidade de Coimbra, depois em Direito e, mais tarde, em Medicina, já revelando inquietação intelectual e múltiplos interesses. A sua juventude foi marcada não só pela busca de formação académica, mas também pelo despertar do espírito crítico e de intervenção cívica, que se manifestaria plenamente nos anos universitários, nomeadamente na participação ativa em movimentos estudantis e, mais tarde, na vida política e cultural portuguesa
«Se és ambicioso, podes ganhar glória, dinheiro ou poderio com pequeno custo [...] mas degradas-te à condição repugnante de certos animais inferiores. O Homem superior é aquele que mais desinteressadamente serve a comunidade.» in Cartas à Mocidade)
Jaime Cortesão na Faculdade: Ativismo, Escrita e Formação
Jaime Cortesão ingressou na Universidade de Coimbra em 1901, iniciando um percurso académico que viria a ser decisivo para a sua formação intelectual e cívica. Embora tenha começado por frequentar os cursos de Grego e de Direito, foi em Medicina que se licenciou, concluindo o curso em 1909. Este período foi marcado não só pelo estudo, mas também por intensa participação na vida académica, política e literária. Ativismo e Vida Académica Durante os anos de faculdade, Cortesão envolveu-se profundamente no movimento estudantil e nas lutas políticas da época. Destacou-se como um dos líderes da Greve Académica de 1907, um protesto nacional de estudantes universitários contra a repressão e as limitações à liberdade de expressão impostas pelo regime monárquico. Esta greve teve grande impacto político e social, e Cortesão ganhou notoriedade como jovem intelectual comprometido com a causa republicana. Além do ativismo político, participou em tertúlias, associações académicas e círculos culturais, convivendo com outros estudantes que viriam a ser figuras de relevo na cultura portuguesa, como Teixeira de Pascoaes, Leonardo Coimbra, Raúl Proença e António Sérgio.
«Mais vale morrer com honra, / Do que vida desonrada!» no poema O Jaime Rebelo, sobre a oposição a Salazar
Jaime Cortesão na Faculdade: Ativismo, Escrita e Formação
Foi neste ambiente efervescente que Jaime Cortesão começou a escrever e a publicar. Durante a faculdade, colaborou em jornais e revistas académicas como O Instituto e A República, onde publicou poemas, ensaios e textos de intervenção política. Em 1907, publicou poemas na revista Nova Silva, revelando já uma poesia de tom romântico, heroico e espiritual, próxima do Saudosismo, mas com uma marca própria de intervenção e reflexão nacionalista. Os seus textos deste período abordavam temas como a identidade nacional, a necessidade de renovação cultural e social, e a exaltação dos valores republicanos. Estas primeiras experiências literárias e jornalísticas foram fundamentais para o desenvolvimento do seu pensamento e estilo. Tese de Licenciatura Em 1909, ao concluir o curso de Medicina, Jaime Cortesão apresentou a tese A Arte e a Medicina -Antero de Quental e Sousa Martins. Nesta obra, Cortesão contesta, no essencial, a teoria de Sousa Martins sobre Antero de Quental e desenvolve uma reflexão crítica sobre o cientismo naturalista, o determinismo dos fenómenos sociais e humanos, o materialismo, o determinismo fatalista e o positivismo. Em contrapartida, expressa a sua empatia e admiração pelo “divino Antero”, valorizando a elevação vitalista e heroica da Arte, sobretudo da Poesia, e defendendo o idealismo, a “livre metafísica” e uma “vasta e individualizada religiosidade”
Jaime Cortesão na Faculdade: Ativismo, Escrita e Formação
Cortesão exerceu Medicina durante muito pouco tempo, pois, como confidenciaria a Teixeira de Pascoaes em 1913, o exercício da clínica significaria para si uma “morte moral” e a anulação das suas mais íntimas ambições de artista. O sentimento poético e a vocação para a escrita emergiram já durante os anos de estudante em Coimbra e no Porto, tendo publicado composições poéticas em periódicos como a Nova Silva (1907), revista que fundou com Leonardo Coimbra, Álvaro Pinto e Cláudio Basto. Estas poesias, influenciadas pelo Saudosismo, destacam-se pelo panteísmo, romantismo, religiosidade, misticismo naturalista e espiritualismo, mas também por um impulso heroico e dinâmico que lhes é próprio. Assim, a tese de licenciatura marca o início da abordagem multidisciplinar e humanista que caracterizaria toda a carreira de Jaime Cortesão, refletindo as suas preocupações filosóficas, literárias e cívicas, e antecipando o seu afastamento da prática médica em favor da dedicação à literatura, à história e à intervenção cultural e política.
irei apenas o que vi e ouvi. Sofri demasiado para poder mentir.”
Jaime Cortesão: Renovação Intelectual e Cultura
Jaime Cortesão foi uma figura central na renovação intelectual portuguesa do início do século XX, desempenhando um papel decisivo como fundador, colaborador e dinamizador de várias revistas culturais de referência. O seu percurso iniciou-se com a fundação da revista Nova Silva em 1907, juntamente com Leonardo Coimbra e outros jovens intelectuais, marcando o início da sua intervenção cultural e literária. Esta publicação coletiva foi um espaço de experimentação e debate, onde Cortesão publicou os seus primeiros poemas e textos de reflexão. Em 1910, Cortesão colaborou na fundação de A Águia, ao lado de Teixeira de Pascoaes e outros nomes relevantes como Leonardo Coimbra, António Sérgio, Raul Proença, Augusto Casimiro e Mário Beirão. Esta revista tornou-se o principal órgão do Saudosismo e da Renascença Portuguesa, promovendo debates sobre identidade nacional, literatura e a necessidade de uma renovação cultural profunda em Portugal.
Jaime Cortesão: Renovação Intelectual e Cultura
Dois anos depois, em 1912, esteve envolvido no lançamento do movimento e revista Renascença Portuguesa, dinamizando projetos como o boletim A Vida Portuguesa e as Universidades Populares. Estes projetos tinham como objetivo “despertar a vontade adormecida” do país e dar novo conteúdo à revolução republicana, apostando na educação popular e na formação de uma consciência cívica e cultural. Em 1921, Jaime Cortesão foi um dos fundadores da revista Seara Nova, juntamente com Raul Proença, António Sérgio, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão. Esta publicação tornou-se o principal fórum de intervenção cultural, política e cívica da geração republicana, defendendo a reforma do ensino, a democratização da cultura e a renovação da vida pública portuguesa. A Seara Nova destacou-se pelo seu espírito crítico, doutrinário e pedagógico, aproximando a elite intelectual da realidade social do país. O papel de Jaime Cortesão nestas revistas foi fundamental: além de fundador e colaborador, assumiu funções de direção, dinamizou projetos pedagógicos e promoveu debates que influenciaram profundamente a cultura e a sociedade portuguesas do seu tempo. Cortesão colaborou ainda em diversas outras revistas, como Atlantida, Homens Livres, Ilustração e Serões, consolidando a sua influência no panorama cultural nacional.
Jaime Cortesão e a Biblioteca Nacional: Reformador, Agregador e Motor da Cultura Portuguesa
Jaime Cortesão foi nomeado diretor da Biblioteca Nacional de Portugal em 1919, num período de grande efervescência cultural e política no país. A sua liderança ficou marcada por uma profunda reforma da instituição, que visava não só a conservação e valorização do património literário e científico nacional, mas também a modernização dos serviços e a definição de uma missão pública para a Biblioteca. Cortesão acreditava que a Biblioteca Nacional deveria ser um espaço aberto à sociedade, dedicado à transmissão do conhecimento e à formação cultural das novas gerações. Durante o seu mandato, foi aprovada uma nova Lei Orgânica e respetiva regulamentação, que permitiu reorganizar os serviços e criar condições para uma gestão mais eficiente e moderna. A Biblioteca Nacional tornou-se, assim, um verdadeiro centro de dinamização cultural, reunindo à sua volta um grupo de intelectuais de grande prestígio, como Raul Proença, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Raul Brandão e Teixeira de Pascoaes. A ação de Jaime Cortesão ultrapassou largamente o âmbito institucional. Para além do seu trabalho como diretor, foi um dos principais animadores do chamado "Grupo da Biblioteca Nacional", que impulsionou debates, publicações e iniciativas culturais fundamentais para a modernização da sociedade portuguesa. O seu legado inclui uma vasta obra literária, histórica e de intervenção cívica, reconhecida tanto em Portugal como no Brasil, onde viveu parte da sua vida em exílio devido à sua oposição ao regime do Estado Novo.
O Envolvimento Político de Jaime Cortesão: Resistência e Exílio
Jaime Cortesão destacou-se como uma das figuras mais marcantes da resistência ao autoritarismo em Portugal ao longo do século XX. Republicano convicto desde jovem, envolveu-se em movimentos de contestação ao regime, começando pela participação na greve académica de 1907 e, mais tarde, integrando-se em ações revolucionárias contra as ditaduras que marcaram a história portuguesa. Foi eleito deputado durante a Primeira República, defendeu a intervenção de Portugal na Primeira Guerra Mundial e serviu como capitão-médico voluntário no Corpo Expedicionário Português, onde foi gaseado e regressou ferido a Portugal. Durante os anos 1920, Cortesão foi diretor da Biblioteca Nacional e membro ativo do grupo da Seara Nova, tornando-se uma referência intelectual e cívica. A sua oposição à Ditadura Militar e, posteriormente, ao Estado Novo de Salazar levou-o a participar em tentativas revolucionárias, como o golpe falhado de 1927, o que resultou na sua demissão e forçou-o ao exílio, primeiro em Espanha e França, e, mais tarde, no Brasil.O exílio de Jaime Cortesão foi marcado por uma intensa atividade política e cultural. Em França e Espanha, integrou redes de emigrados republicanos opositores e participou em congressos internacionais antifascistas, sendo vigiado e perseguido pela polícia política portuguesa (PIDE/DGS), que o acusava de traição à pátria devido ao seu ativismo antifascista transnacional.
"Gerou-te, lentamente, com revolta e dor, / a consciência dos escravos" in Ode à Liberdade
O Envolvimento Político de Jaime Cortesão: Resistência e Exílio
Em 1940, após breve regresso a Portugal e nova prisão, foi banido e fixou-se no Brasil, onde permaneceu até 1957. No Brasil, Cortesão continuou a luta pela democracia portuguesa, colaborando com periódicos da resistência, organizando conferências e cursos universitários, e denunciando internacionalmente a repressão do Estado Novo, inclusive em eventos patrocinados pela UNESCO. Tornou-se figura central numa rede de exilados e opositores, apoiando a vinda de outros republicanos portugueses e mantendo-se ativo na “imprensa militante” contra o regime salazarista. Mesmo no exílio, nunca abandonou a sua responsabilidade cívica e intelectual, sendo permanentemente vigiado pela PIDE devido à sua influência e atividade política. O seu regresso definitivo a Portugal, em 1957, não significou o fim do seu envolvimento político: participou na campanha de Humberto Delgado às eleições presidenciais de 1958, foi novamente preso e eleito presidente da Sociedade Portuguesa de Escritores, mantendo-se sempre fiel à luta pela liberdade e pela democracia. A trajetória de Jaime Cortesão é um exemplo de resistência persistente, marcada pelo compromisso com os valores republicanos, pela defesa da cultura e da memória histórica, e pela recusa em pactuar com o obscurantismo e a repressão, tanto em Portugal como no exílio.
«Os dirigentes republicanos merecem isto e muito mais. O diabo é que às vezes paga o justo pelo pecador...» em carta ao irmão Armando, 1933)
A Obra Literária de Jaime Cortesão: Poesia, Teatro e Ensaios"
A poesia de Jaime Cortesão destaca-se pelo seu tom épico, cívico e simbólico, frequentemente associada aos ideais de renovação nacional e liberdade. O seu primeiro grande livro, A Morte da Águia (1910), é considerado um marco da poesia portuguesa moderna, com uma linguagem inovadora e um forte simbolismo patriótico. Seguiram-se obras como Glória Humilde (1914), de tom mais elegíaco, e Divina Voluptuosidade (1923), onde se nota uma lírica de ressonâncias heroicas e místicas. A sua poesia, muitas vezes publicada em revistas como A Águia, reflete a ligação à terra natal, à família e ao ideal republicano, sendo também marcada pela experiência do exílio e pelo compromisso com a liberdade.No teatro, Cortesão foi responsável por três peças de destaque, todas encenadas em Lisboa: O Infante de Sagres (1916), Egas Moniz (1919) e Adão e Eva (1921). As duas primeiras são dramas históricos, centrados em figuras e lendas nacionais, e visam reanimar o sentido cívico e pedagógico do teatro, com uma visão progressista da história portuguesa. O Infante de Sagres destaca-se pela investigação rigorosa sobre a época dos Descobrimentos e pelo elogio unânime da crítica. Egas Moniz aprofunda o ideal do sacrifício e da honra. Já Adão e Eva marca uma viragem temática, abordando a crise social e espiritual do pós-guerra, com uma mensagem de esperança e renovação, aproximando-se de um teatro de ideias e de situações existenciais. A produção ensaística de Jaime Cortesão é vasta e abrange temas de história, cultura, crítica literária e intervenção cívica. Destacam-se os ensaios sobre a história dos Descobrimentos Portugueses, a influência de Portugal na civilização mundial e a análise da formação territorial do Brasil, temas que aprofundou especialmente durante o exílio. Escreveu ainda sobre figuras centrais da cultura portuguesa, como Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes, e participou ativamente em revistas como A Águia e Seara Nova, defendendo a renovação cultural e o progresso social. Muitos dos seus textos de intervenção e ensaios encontram-se reunidos em volumes como Cartas à Mocidade e Outros Textos e Eça de Queiroz e a Questão Social
«Tu choras, minha Mãe, e a Terra chora. / A graça do teu rosto é já do Céu, / Participa de Deus, de Eternidade.» no poema À Minha Mãe e à Minha Terra
Prémios e Condecorações de Jaime Cortesão
Jaime Cortesão foi distinguido ao longo da sua vida com várias condecorações, tanto pelo seu papel cívico e intelectual como pelo seu serviço militar. O reconhecimento oficial, contudo, foi limitado durante o Estado Novo devido à sua oposição ao regime e ao longo exílio, sendo que muitas homenagens e distinções só lhe foram atribuídas postumamente. Durante a Primeira Guerra Mundial, Cortesão serviu como médico miliciano voluntário na frente de batalha em França. Pelo seu desempenho e bravura, foi condecorado com a Cruz de Guerra e recebeu um louvor militar, distinções que evidenciam o seu contributo e sacrifício em contexto de guerra. No plano civil, Cortesão foi eleito membro da Academia de Ciências de Lisboa em 1921, reconhecimento do seu valor intelectual e científico. Após o seu regresso do exílio, foi eleito presidente da Direção da Sociedade Portuguesa de Escritores em 1958, sucedendo a Aquilino Ribeiro, o que demonstra o prestígio de que gozava no meio literário e cultural português. Entre as condecorações honoríficas, destaca-se a atribuição, a título póstumo, da Medalha de Honra – Ouro pela Câmara Municipal do Porto, reconhecendo o seu contributo como médico e historiador. Foi também homenageado com medalhas comemorativas, como a medalha do centenário do seu nascimento. Apesar de não ter recebido um grande número de prémios literários formais em vida, o verdadeiro reconhecimento de Jaime Cortesão reside na influência duradoura da sua obra e na memória cívica e cultural que deixou em Portugal e no Brasil. O seu nome continua associado à defesa da liberdade, à renovação do pensamento histórico e à valorização da identidade nacional.
«O Homem superior é aquele que mais desinteressadamente serve a comunidade» em Cartas à Mocidade)
Livros de Poesia de Jaime Cortesão
O seu primeiro e mais emblemático livro de poesia é A Morte da Águia (1910), um poema heroico em sete cantos, símbolo do idealismo republicano e do desejo de renovação nacional. Esta obra, publicada em Lisboa, tornou-se uma referência do modernismo português e do espírito da Renascença Portuguesa. Em 1914, publica Glória Humilde, um livro de tom mais intimista e elegíaco, onde predomina a homenagem à mãe e à terra natal, revelando uma faceta mais pessoal e lírica do autor. Estes dois títulos são os principais livros de poesia publicados autonomamente por Jaime Cortesão em vida. Além destes, a sua produção poética dispersa foi posteriormente reunida em volumes como Poesias Escolhidas e em compilações integradas nas suas Obras Completas, editadas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Nestas edições encontram-se também ciclos poéticos, poemas inéditos e textos publicados em revistas como A Águia. Portanto, os principais livros de poesia de Jaime Cortesão são A Morte da Águia e Glória Humilde, aos quais se juntam compilações póstumas e antologias que reúnem a totalidade da sua obra poética.
«A graça do teu rosto é já do Céu, / Participa de Deus, de Eternidade» no poema À Minha Mãe e à Minha Terra
À Minha Mãe e à Minha Terra
Só tu podias ser a minha Mãe, Só tu e mais ninguém Trazer-me ao peito É dar-me um leite em lágrimas banhado; E que a estes meus olhos fosse dado Só há no mundo este lugar eleito. Graças, ó minha Mãe!, te venho dar E a ti, boa Paisagem, também dou... Por meu divino gosto de cantar, Pela parte mais santa do que sou! É por amor das lágrimas ardentes, Que te cavaram sulcos pelo rosto, É por amor do céu e do Sol-posto, Do Mar... de ti, Paisagem, que me abraças, Que eu sou Poeta e canto e choro e rezo E que vos dou esta oração de graças. E assim, ó minha Mãe, minha Paisagem, Ensinai-me a criar como as mulheres E como a Terra generosa e ruda: Que sofras , ó minha Alma, as dores do Parto, Que dês o sangue aos versos que fizeres Que o sol te queime e o Vento te sacuda! Minha Mãe, Minha Mãe, ó Minha Santa, E vós, sagradas Águas e ramagens, Bendita sejas tu entre as Mulheres, Bendita seja tu entre as Paisagens!
À Ti, minha Mãe que tens o rosto Dorido e iluminado duma santa, Todo embebido em lágrimas de Amor, É que a minha Alma, de joelhos, canta! A Ti, e à minha Terra, as duas Mães, Que me criaram juntas num abraço,... Pois ambas me trouxeram no seu ventre, Ambas me adormeceram no regaço. E tu, vento de orgulho, que em mim passas Rugindo a toda hora, Une-te ao pó: E agora Que de toda a minha Alma fique só A trêmula inocência dum menino Para que eu reze uma oração de Graças! Como és, ó mãe!, irmã desta Paisagem Tão doce, religiosa e comovida, Com uma parte viva neste mundo E outra maior que é para além da Vida! Já, por amor de mim, desses teus olhos, Postos num rosto triste e macerado, Como uma fonte prestes a nascer, Muita lágrima em fio tens chorado E muitas inda estão para correr.
Também a Terra sofre das raízes, Que a penetram na ânsia de sugar; Das Águas que a retalham pra correr, Das humildes sementes a acordar; Sofrem os Rios concebendo a Névoa As Árvores no esforço de se erguer, E Árvores, Rios, Névoas, tudo sofre Quando lhes bate o láteo do Vento... Ou se o Sol as devora, calcinante: E é todo esse profundo Sofrimento Para que eu num delírio ria e cante! O vento, em fúria, passa sobre a Terra: Talvez tu chores minha Mãe agora, E quando eu canto, para ser Poeta, Tu choras minha Mãe e a Terra chora. A graça do teu rosto é já do Céu Participa de Deus, de Eternidade, E não se vê melhor estando ao perto: Mas no vidente enlevo da Saudade, Olhos fechados, coração aberto... Tu ensinaste-me a rezar, ó Mãe! E a minha Terra...: é só olhá-la bem, Longe até às encostas, Vêem-se choupos sempre até além...: É a Paisagem toda de mãos postas!
poema de Jaime Cortesão, retirado da sua obra Glória Humilde (1914), que expressa a sua ligação profunda à mãe e à terra natal:
“Romance do Homem da Boca Fechada”
- Quem é esse homem sombrio Duro rosto, claro olhar, Que cerra os dentes e a boca Como quem não quer falar? - Esse é o Jaime Rebelo, Pescador, homem do mar, Se quisesse abrir a boca, Tinha muito que contar. Ora ouvireis, camaradas, Uma história de pasmar. Passava já de ano e dia E outro vinha de passar, E o Rebelo não cansava De dar guerra ao Salazar. De dia tinha o mar alto, De noite, luta bravia, Pois só ama a Liberdade, Quem dá guerra à tirania. Passava já de ano e dia... Mas um dia, por traição, Caiu nas mãos dos esbirros E foi levado à prisão. Algemas de aço nos pulsos, Vá de insultos ao entrar, Palavra puxa palavra, Começaram de falar - Quanto sabes, seja a bem, Seja a mal, hás de contá-lo, - Não sou traidor, nem perjuro; Sou homem de fé: não falo! - Fala: ou terás o degredo, Ou morte a fio de espada. - Mais vale morrer com honra, Do que vida deshonrada!
- A ver se falas ou não, Quando posto na tortura. - Que importam duros tormentos, Quando a vontade é mais dura?! Geme o peso atado ao potro Já tinha o corpo a sangrar, Já tinha os membros torcidos E os tormentos a apertar, Então o Jaime Rebelo, Louco de dor, a arquejar, Juntou as últimas forças Para não ter que falar. - Antes que fale emudeça! - Pôs-se a gritar com voz rouca, E, cerce, duma dentada, Cortou a língua na boca. A turba vil dos esbirros Ficou na frente, assombrada, Já da boca não saia Mais que espuma ensanguentada!
Salazar, cuidas que o Povo Te suporta, quando cala? Ninguém te condena mais Que aquela boca sem fala! Fantasma da sua dor, Ainda hoje custa a vê-lo; A angústia daquelas horas Não deixa o Jaime Rebelo. Pescador que se fez homem Ao vento livre do Mar, Traz sempre aquela visão Na sombra dura do olhar, Sempre de boca apertada, Como quem não quer falar.
No poema “Romance do Homem da Boca Fechada”, de Jaime Cortesão, Jaime Rebelo é apresentado como um pescador, homem do mar, símbolo da resistência e coragem frente à repressão do regime de Salazar. Rebelo é retratado como alguém que, mesmo sob tortura, prefere mutilar-se a trair os seus princípios ou denunciar os companheiros: corta a própria língua para não falar, tornando-se um exemplo extremo de dignidade e sacrifício pela liberdade.
Este poema de Jaime Cortesão circulou clandestinamente nos anos trinta e foi publicado no Avante em 1937 . A publicação de um poema de um republicano sobre um anarquista no jornal comunista inseria-se nos esforços de Francisco Paula de Oliveira /"Pavel" para reforçar uma política de frente popular em Portugal
O Teatro de Jaime Cortesão: Obras e Significado
A produção dramática de Jaime Cortesão, embora breve, ocupa um lugar relevante na sua obra literária e na história do teatro português do início do século XX. Entre 1916 e 1921, Cortesão escreveu três peças fundamentais: O Infante de Sagres, Egas Moniz e Adão e Eva. Estas obras refletem a preocupação do autor com a identidade nacional, os valores éticos e a pedagogia cívica, temas centrais em toda a sua carreira. O Infante de Sagres (1916) é um drama histórico que tem como figura central o Infante D. Henrique, símbolo do espírito aventureiro e inovador dos Descobrimentos Portugueses. A peça exalta o génio visionário do Infante e o papel de Portugal na expansão marítima, sendo uma homenagem ao passado glorioso da nação. Esta obra foi escrita num contexto de renovação cultural e patriótica, próprio do movimento da Renascença Portuguesa, do qual Cortesão foi um dos grandes dinamizadores.
O Teatro de Jaime Cortesão: Obras e Significado
Egas Moniz (1918) é um drama em quatro atos que revisita a lenda do aio de D. Afonso Henriques, figura histórica que personifica a lealdade, a honra e o sacrifício pelo bem comum. A peça foi representada pela primeira vez no Teatro São Luiz, em Lisboa, e publicada pela Renascença Portuguesa. Em “Egas Moniz”, Cortesão explora os valores fundadores da nacionalidade portuguesa, usando o teatro como veículo de transmissão de ideais cívicos e morais. Adão e Eva (1921) marca o culminar da incursão de Cortesão no teatro. Nesta peça, o autor parte do mito bíblico para refletir sobre temas universais da condição humana, como a inocência, a queda, o conhecimento e a responsabilidade. A abordagem de Cortesão é original, cruzando tradição e modernidade, e revelando uma preocupação com questões filosóficas e existenciais. Estas três peças, reunidas em edições modernas sob o título Teatro, inserem-se nas Obras Completas de Jaime Cortesão, publicadas pela Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Apesar de o teatro ter sido apenas uma etapa na sua vasta produção, estas obras são valorizadas pelo seu conteúdo literário, histórico e simbólico, e refletem o compromisso do autor com a educação cívica, a memória coletiva e a construção da identidade nacional.
Obras de Ficção (Contos e Narrativa) de Jaime Cortesão
Jaime Cortesão, embora mais conhecido como poeta, historiador e ensaísta, também se destacou na ficção, especialmente no conto e na narrativa curta. Eis as suas principais obras neste domínio: …Daquém e Dalém Morte (1913) Este livro de contos, publicado no Porto, é considerado a principal incursão de Jaime Cortesão na ficção narrativa. A obra reúne textos que exploram temas existenciais, sociais e filosóficos, refletindo sobre a condição humana, a morte, o destino e a transcendência. O estilo cruza simbolismo, espiritualismo e crítica social, marcando a sua contribuição para o conto português do início do século XX. Itália Azul (1922), publicado após o seu regresso da guerra, Itália Azul é um livro de viagens e impressões, com elementos de descrição literária e narrativa. A obra resulta de uma viagem a Itália e conjuga observação, sensibilidade artística e reflexão cultural, oferecendo ao leitor um retrato vivo do país e das suas gentes. Embora não seja ficção no sentido estrito, integra-se na tradição da literatura de viagens, com uma forte dimensão narrativa e estilística e Memórias da Grande Guerra (1916-1919).
Temas Principais nas Memórias de Jaime Cortesão sobre a Primeira Guerra Mundial
Nas suas Memórias da Grande Guerra (1916-1919), Jaime Cortesão oferece um testemunho profundo e multifacetado da experiência portuguesa na Primeira Guerra Mundial, abordando temas que vão muito além da simples narrativa militar. O autor, que participou como capitão-médico voluntário no Corpo Expedicionário Português, descreve de forma vívida o quotidiano dos soldados nas trincheiras da Flandres, evidenciando o sofrimento, a coragem, a camaradagem e o impacto psicológico da guerra. As privações, o medo constante, a convivência com a morte e a loucura são apresentados de forma realista, transmitindo ao leitor a dureza da vida no campo de batalha.
Outro tema central das memórias é a análise política da participação de Portugal no conflito. Cortesão reflete sobre as motivações políticas que levaram o país à guerra, as divisões internas da sociedade portuguesa e as crises governativas que marcaram o período. O autor critica a falta de preparação, as dificuldades logísticas e a desorganização que afetaram o esforço de guerra, responsabilizando também as elites políticas e militares pelas adversidades enfrentadas pelos soldados.A consciência cívica e o sentido de responsabilidade nacional atravessam toda a obra. Cortesão sublinha a importância da verdade, da coragem moral e do compromisso com a justiça, afirmando que sofreu demasiado para agora poder mentir. As memórias tornam-se, assim, um apelo à honestidade e à reflexão sobre o papel do indivíduo e da comunidade em tempos de crise.
A Recolha e Valorização da Tradição Popular por Jaime Cortesão
Jaime Cortesão desempenhou um papel de destaque na recolha, estudo e divulgação da poesia e música popular portuguesa, especialmente no início do século XX. Entre as suas contribuições mais relevantes neste domínio encontram-se as obras Cancioneiro Popular. Antologia (1914) e Cantigas do Povo para as Escolas (1914), ambas publicadas no Porto e integradas no movimento de renovação cultural da Primeira República. O Cancioneiro Popular. Antologia é uma recolha criteriosa de poesia popular portuguesa, acompanhada de um estudo introdutório onde Cortesão analisa a importância da tradição oral na formação da identidade nacional. O autor selecionou e organizou centenas de quadras, trovas e cantigas, destacando a riqueza expressiva, a pureza e a originalidade da poesia popular. Esta obra não só preserva um património imaterial em risco de desaparecimento, como também o valoriza enquanto fonte de inspiração e de conhecimento profundo do povo português. Cantigas do Povo para as Escolas destina-se a um público escolar e tem um claro propósito pedagógico. Cortesão recolheu e adaptou cantigas tradicionais para serem utilizadas no ensino, promovendo o contacto das crianças com a tradição oral e musical portuguesa. O livro foi pensado como instrumento de educação cívica e cultural, integrando a herança popular no currículo escolar e contribuindo para a formação de cidadãos mais conscientes das suas raízes e valores.Estas obras refletem o compromisso de Jaime Cortesão com a preservação da memória coletiva, a valorização da cultura popular e a promoção de uma pedagogia ativa e nacional. O seu trabalho neste campo permanece uma referência fundamental para o estudo e a divulgação do património imaterial português.
«Liberdade, flor do mundo, / Que o sol beija e o vento ama! / Nas tuas asas me confundo / E na tua luz me inflama.» in Da Ode à Liberdade
Jaime Cortesão: Historiador e Ensaísta
Jaime Cortesão é reconhecido como um dos grandes historiadores portugueses do século XX, destacando-se pela abordagem inovadora e literária da história da expansão marítima portuguesa, da formação territorial do Brasil e das relações luso-brasileiras. A sua produção historiográfica alia rigor científico, análise crítica e sensibilidade literária, tornando as suas obras acessíveis e envolventes para um público alargado. Eis algumas das principais obras neste domínio: Os Descobrimentos Portugueses - Considerada a obra cimeira de Cortesão, esta série em vários volumes apresenta uma análise profunda e abrangente da expansão marítima portuguesa, abordando os fatores políticos, económicos, sociais e culturais que estiveram na génese dos Descobrimentos e o seu impacto na história mundial e na identidade nacional portuguesa.Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid - Obra em vários volumes dedicada à análise diplomática e histórica do Tratado de Madrid de 1750, que redefiniu as fronteiras do Brasil colonial. Cortesão explora o contexto internacional, as estratégias diplomáticas e as consequências territoriais do acordo, centrando-se na figura de Alexandre de Gusmão, diplomata luso-brasileiro.
Jaime Cortesão: Historiador e Ensaísta
Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil - Estudo sobre a ação dos bandeirantes, em particular de Raposo Tavares, e o processo de expansão territorial do Brasil para além dos limites do Tratado de Tordesilhas. A obra detalha expedições, conflitos e a integração dos novos territórios, sendo fundamental para a compreensão da formação do Brasil moderno.História do Brasil nos Velhos Mapas - Dividida em dois volumes, esta obra cruza história e cartografia, analisando mapas antigos para reconstituir a evolução territorial do Brasil desde o período colonial. Cortesão demonstra a importância dos mapas na construção do conhecimento geográfico e na definição das fronteiras. A Expedição de Pedro Álvares Cabral e o Descobrimento do Brasil - Estudo dedicado à viagem de Cabral e ao contexto das navegações portuguesas do início do século XVI, combinando investigação documental com reflexão sobre o significado histórico do achamento do Brasil. Os Descobrimentos Pré-Colombianos dos Portugueses - Investigação sobre possíveis explorações portuguesas anteriores a Colombo, discutindo hipóteses e fontes sobre a presença lusa em terras desconhecidas antes de 1492. Portugal – A Terra e o Homem - Livro póstumo que reúne crónicas, ensaios e descrições de viagens por Portugal, cruzando a observação do território com a análise da história, da cultura e da identidade do povo português. Estas obras, disponíveis na coleção das Obras Completas de Jaime Cortesão editada pela Imprensa Nacional, refletem a abordagem multidisciplinar do autor, que alia o rigor historiográfico à dimensão ensaística e literária, tornando o seu legado fundamental para o estudo da história portuguesa e luso-brasileira.
Jaime Cortesão: Ensaios sobre História, Cultura e Sociedade
Jaime Cortesão destacou-se não só como historiador, mas também como ensaísta e pensador, produzindo uma vasta obra de reflexão cívica, pedagógica, literária e histórica. Os seus ensaios abordam temas centrais da cultura portuguesa, do humanismo, da educação e das grandes questões sociais e políticas do seu tempo, sempre com uma perspetiva crítica e integradora. Cartas à Mocidade e Outros Textos - Reúne ensaios de intervenção cívica, pedagógica e cultural, dirigidos sobretudo às gerações mais jovens, onde Cortesão defende valores como o civismo, a liberdade, a responsabilidade e o papel da educação na formação do caráter nacional. Eça de Queiroz e a Questão Social - Neste ensaio, Cortesão analisa a obra de Eça de Queiroz à luz das problemáticas sociais do século XIX, destacando o modo como o escritor abordou temas como a justiça social, o papel da religião, o socialismo e a transformação da sociedade portuguesa. O autor valoriza aspetos menos convencionais da produção queirosiana, como o fradiquismo e a influência do franciscanismo, revelando a atualidade e profundidade do pensamento de Eça.
«A Liberdade não se herda — conquista-se todos os dias» (em discursos republicanos)
Jaime Cortesão: Ensaios sobre História, Cultura e Sociedade
A Arte e a Medicina: Antero de Quental e Sousa Martins (1910) - Ensaio dedicado a duas figuras marcantes do pensamento português, onde Cortesão cruza literatura, filosofia e ciência, refletindo sobre o papel do humanismo, da ética e da intervenção social na cultura portuguesa. Influência dos Descobrimentos Portugueses na História da Civilização - Neste texto, Cortesão reflete sobre o impacto global dos Descobrimentos, analisando as consequências culturais, científicas e económicas da expansão marítima portuguesa na história da humanidade. A Carta de Pero Vaz de Caminha - Estudo histórico-literário sobre o documento fundador do Brasil, onde Cortesão analisa a dimensão simbólica, política e cultural da carta escrita por Pero Vaz de Caminha aquando da chegada de Cabral ao Brasil, sublinhando o seu valor como testemunho e mito de fundação. Os Factores Democráticos na Formação de Portugal - Ensaio histórico em que Cortesão discute os elementos democráticos presentes na génese e evolução do Estado português, defendendo a importância da participação popular e do espírito coletivo na construção da identidade nacional. O Humanismo Universalista dos Portugueses - Reflexão sobre o papel de Portugal na cultura universal, onde o autor sublinha o contributo português para o diálogo intercultural, a tolerância e o espírito de abertura ao mundo, características do humanismo luso. A Política de Sigilo nos Descobrimentos - Estudo sobre a estratégia portuguesa de manter segredo em relação às rotas, descobertas e conhecimentos náuticos durante a expansão marítima, analisando as razões políticas, económicas e militares desta política e o seu impacto na história global
"A interpretação do passado [...] supõe uma filosofia subjacente. Negar a parte das aspirações espirituais e da criação individual na história é reduzi-la a um arremedo inumano de ciência."
Descobrindo Jaime Cortesão: Trajetória e Pensamento em Vídeo
Humanismo Universalista: Conceito e Influência em Jaime Cortesão
O conceito de humanismo universalista ocupa um lugar central no pensamento e na obra de Jaime Cortesão, sendo desenvolvido de forma sistemática na sua obra O Humanismo Universalista dos Portugueses, publicada em 1965 como parte das suas Obras Completas. Nesta obra, Cortesão defende que o espírito português, especialmente manifestado durante a época dos Descobrimentos, se caracteriza por uma abertura ao mundo e por uma vocação para o encontro e a síntese entre diferentes culturas, religiões e civilizações. Para Cortesão, o humanismo universalista português não se limita à curiosidade geográfica ou ao impulso comercial. Trata-se de uma atitude ética e cultural, marcada pela tolerância, pelo respeito pela diversidade e pela valorização da dignidade humana. Este humanismo manifesta-se tanto nas grandes figuras literárias e científicas portuguesas, como na ação concreta dos navegadores, missionários e diplomatas, que promoveram o diálogo e a convivência entre povos distintos. A influência deste conceito na ação política e cultural de Cortesão é notória. Ele via no passado português um exemplo de abertura e de integração, defendendo que Portugal, pela sua experiência histórica, tem uma responsabilidade especial na promoção da paz, da compreensão e da solidariedade entre os povos. Esta perspetiva orientou não só a sua produção historiográfica, mas também o seu compromisso com a democracia, a educação e a defesa dos direitos humanos. Em síntese, o humanismo universalista, segundo Jaime Cortesão, é uma herança e uma missão de Portugal: contribuir para a construção de uma civilização global baseada na fraternidade, na justiça e na valorização da humanidade como um todo
Jaime Cortesão: Entre a Medicina, a Ciência e o Humanismo
Jaime Cortesão formou-se em Medicina e exerceu a profissão apenas durante um curto período, pois rapidamente percebeu que a sua verdadeira vocação era a intervenção cultural, literária e cívica. No entanto, o seu percurso na ciência e na medicina não se limitou à prática clínica: destacou-se como capitão-médico voluntário no Corpo Expedicionário Português durante a Primeira Guerra Mundial, onde prestou assistência a soldados feridos e foi gaseado na frente de combate. Além disso, a sua tese de licenciatura, “A Arte e a Medicina: Antero de Quental e Sousa Martins” (1910), constitui uma reflexão crítica sobre a relação entre ciência, medicina e cultura. Nesta obra, Cortesão questiona o cientificismo determinista e materialista dominante na medicina da época, defendendo uma visão mais humanista e idealista da arte e da vida. Este pensamento marcou toda a sua abordagem intelectual, promovendo sempre o diálogo entre diferentes áreas do saber e valorizando a dimensão ética e espiritual da ciência. A sua ligação à história da ciência manifesta-se ainda nos seus estudos sobre a navegação, a cartografia e a geografia dos Descobrimentos, onde procurou compreender a evolução dos instrumentos científicos e o papel do conhecimento técnico na expansão portuguesa. Assim, mesmo tendo abandonado a medicina como profissão, Cortesão manteve uma ligação constante à ciência, integrando-a numa visão multidisciplinar e humanista da história e da cultura portuguesas.
O Papel de Jaime Cortesão na Formação de Novas Gerações de Intelectuais
A influência de Jaime Cortesão sobre gerações posteriores de historiadores e escritores foi profunda e multifacetada. Como diretor da Biblioteca Nacional e figura central em revistas como A Águia e Seara Nova, Cortesão ajudou a criar uma verdadeira escola de intelectuais e investigadores em Portugal, promovendo uma renovação dos estudos históricos e do pensamento crítico nacional. Entre os nomes que conviveram e trabalharam com ele destacam-se Raul Proença, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Teixeira de Pascoaes, Raul Brandão e Leite de Vasconcelos, todos eles figuras de referência na cultura portuguesa do século XX. O seu método de investigação histórica, que combinava rigor documental, análise crítica e uma visão humanista e universalista, marcou a historiografia portuguesa e brasileira. Cortesão foi pioneiro na valorização da cartografia, da geografia histórica e da análise das fontes primárias, influenciando estudos sobre os Descobrimentos, a formação territorial do Brasil e a história colonial, áreas em que o seu trabalho é ainda hoje referência obrigatória. A sua abordagem interdisciplinar e a preocupação com a ligação entre passado e presente abriram caminho a novas perspetivas e metodologias na investigação histórica. Além disso, a sua escrita – que abrange poesia, teatro, ensaio, crítica literária e memórias – inspirou escritores e intelectuais a cruzar fronteiras entre géneros e a assumir um papel ativo na vida pública e cultural. O seu exemplo de compromisso cívico, resistência democrática e defesa de valores universais continua a ser citado como modelo por investigadores, professores e escritores contemporâneos. Jaime Cortesão deixou uma marca duradoura na cultura portuguesa e luso-brasileira, não só pelo seu vasto legado literário e historiográfico, mas também pelo impulso que deu à renovação intelectual, à abertura de horizontes e à valorização do papel do historiador como agente de transformação social.
O Exílio de Jaime Cortesão: Enriquecimento Intelectual e Pontes com a Cultura Brasileira
O exílio de Jaime Cortesão no Brasil constituiu uma das fases mais produtivas e marcantes da sua vida intelectual. Forçado a abandonar Portugal devido à perseguição política do Estado Novo, Cortesão encontrou no Brasil não só refúgio, mas também um ambiente propício ao desenvolvimento das suas investigações históricas e ao aprofundamento do diálogo entre as culturas portuguesa e brasileira. Durante cerca de 17 anos em terras brasileiras, Cortesão publicou algumas das suas obras mais relevantes, sobretudo dedicadas à história do Brasil colonial, à cartografia e à expansão portuguesa. O acesso direto a arquivos, mapas e fontes locais permitiu-lhe uma abordagem inovadora e rigorosa da história luso-brasileira, contrariando visões nacionalistas e promovendo uma perspetiva de diálogo e partilha entre os dois países. Títulos como Alexandre de Gusmão e o Tratado de Madrid, Raposo Tavares e a Formação Territorial do Brasil e Os Descobrimentos Portugueses tornaram-se referências incontornáveis na historiografia. O contacto com figuras de destaque da cultura brasileira, como Cecília Meireles, Oswaldo Aranha e Sérgio Buarque de Holanda, enriqueceu ainda mais o seu pensamento e permitiu-lhe participar ativamente na vida académica e cultural do Brasil. Cortesão envolveu-se em conferências, exposições e debates, sendo reconhecido como uma voz de autoridade e de prestígio tanto pelas instituições brasileiras como pela comunidade intelectual.
«Mais vale morrer com honra, / Do que vida desonrada!» do poema Romance do Homem de Boca Fechada
As ligações de Jaime Cortesão com o Brasil: exílio e família
O exílio, longe de significar isolamento ou afastamento, foi para Jaime Cortesão uma oportunidade de crescimento, de diálogo intercultural e de afirmação do seu universalismo. O seu legado reflete esta experiência única, consolidando-o como uma ponte viva entre Portugal e o Brasil e como um dos grandes construtores do entendimento entre as duas culturas.A ligação familiar ao Brasil foi reforçada pelas suas filhas, que ali criaram raízes e deixaram marcas significativas. Maria Judith Zuzarte Cortesão, médica, escritora e ambientalista, viveu grande parte da sua vida no Brasil, onde se destacou no ensino universitário e na defesa do património natural, nomeadamente da Mata Atlântica. Casou-se com o filósofo português Agostinho da Silva. Por sua vez, Maria da Saudade Cortesão Mendes, poetisa e tradutora, casou-se com o poeta brasileiro Murilo Mendes, com quem viveu no Brasil durante vários anos, participando ativamente na vida cultural do país. Mesmo após se fixar na Europa, manteve laços estreitos com o Brasil, nomeadamente através da doação do espólio literário do marido a uma universidade brasileira.
“Os escritores têm também hoje a sua trincheira e serão traidores os que a não ocupem com disciplina.”
MALDIÇÃO (poema a Salazar)
Por ti, pelo teu ódio à Liberdade à Razão e à Verdade, a tudo o que é viril, Humano e moço, a fome e o luto apagaram os lares e os homens agonizam aos milhares no exílio, no hospital, no calabouço. Por ti raivoso abutre cujo apetite sôfrego se nutre de lágrimas, de gritos, de aflições gemem nas aspas da tortura ou baixam em segredo à sepultura os mártires que atiras às prisões. A este claro Povo, herói dos povos, que deu ao Mundo mundos novos, mais estrelas ao Céu, mais luz ao dia; a este livre e luminoso Apolo atas as mãos, os pés e o colo, e encerras numa lôbrega enxovia. Falas do céu, como um doutor no templo mas tu encarnação e vivo exemplo da hipocrisia vil dos fariseus, pelos sagrados laços que desunes, pelos teus crimes, até hoje impunes roubas ao mesmo crente a fé em Deus.
Passas... e mirra a erva nos caminhos, as aves, com terror, fogem aos ninhos, e ao ver-te o vulto gélido e felino, mulheres e mães, lembrando os lastimosos casos de irmãos, de filhos ou de esposos, bradam crispadas as mãos: Assassino! Assassino! Passas... e até os velhos, cujos anos têm costumado a monstros e tiranos dizem, com a boca cheia de ira e asco: - Sobre esta Pátria mísera que oprimes, jamais alguém foi réu de tantos crimes. Vai-te! Basta de vítimas! Carrasco! Passas... e ergue-se, vai de vale a cerro dos hospitais, do fundo das masmorras às inóspitas plagas do desterro, um coro de ais, de imprecações, de morras. São multidões que rugem num só brado: - Maldita a hora em que tu foste nado! - Que se malogre tudo quanto almejas; - Conturbem-se os teus dias de aflição; - Neguem-te as fontes água, a terra pão e as estrelas a luz - Maldito sejas!
Poema "Maldição" de Jaime Cortesão, com referências a Salazar e publicado na imprensa clandestina.
Jaime Cortesão foi um dos grandes construtores do pensamento e da cultura portuguesa do século XX. Médico de formação, mas sobretudo poeta, historiador, ensaísta e resistente político, deixou uma marca indelével na vida cultural, académica e cívica do país. O seu percurso, marcado pelo ideal republicano, pela luta pela liberdade e pela modernização cultural, continua a inspirar gerações. O exílio não o afastou do compromisso com Portugal, antes ampliou o seu horizonte intelectual e o seu papel como ponte entre culturas. O seu legado permanece vivo na memória coletiva e nas instituições que ajudou a transformar.
Fernando Pessoa, numa carta dirigida a Jaime Cortesão em 1913, incluiu-o entre os grandes “Homens da Renascença” e destacou a sua capacidade construtiva, apelidando o seu género poético de “dinamismo heroico”. Pessoa reconhecia ainda que o maior talento de Cortesão se revelava na História, onde o impulso heroico da sua poesia encontrava expressão máxima.
Jaime Cortesão faleceu em Lisboa, a 14 de agosto de 1960, com 76 anos, deixando um legado intelectual e cívico de enorme relevância para a cultura portuguesa
Referências/Bibliografia
Obras de Jaime Cortesão Cortesão, Jaime. Os Factores Democráticos na Formação de Portugal. Lisboa: Imprensa Nacional, 1930. Cortesão, Jaime. O Humanismo Universalista dos Portugueses. Lisboa: Portugália Editora, 1965. Cortesão, Jaime. A Política de Sigilo nos Descobrimentos. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1945. Cortesão, Jaime. Os Descobrimentos Portugueses. Lisboa: Imprensa Nacional, 1941. Cortesão, Jaime. A Arte e a Medicina: Antero de Quental e Sousa Martins. Lisboa, 1910 (tese de licenciatura). Estudos e Análises sobre Jaime Cortesão Marques, A. H. de Oliveira. História de Portugal. Lisboa: Palas Editores, 1986. (Capítulos sobre Jaime Cortesão e a historiografia do século XX) Santos, Maria Helena da Cruz Coelho. Jaime Cortesão: Vida e Obra. Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 1998. Silva, Rui. “Jaime Cortesão e o Humanismo Português”. Revista de História, vol. 45, 2005, pp. 123-145. Fontes Online Fundação Jaime Cortesão – https://www.fundacaojaimecortesao.pt Biblioteca Nacional Digital – Obras digitalizadas de Jaime Cortesão – http://purl.pt/index/geral/jaime-cortesao