Want to create interactive content? It’s easy in Genially!

Reuse this genially

"Nuno Júdice: Entre a Memória e o Silêncio, um Atlas da Alma Portugues

teachers

Created on April 8, 2025

Start designing with a free template

Discover more than 1500 professional designs like these:

Higher Education Presentation

Psychedelic Presentation

Vaporwave presentation

Geniaflix Presentation

Vintage Mosaic Presentation

Modern Zen Presentation

Newspaper Presentation

Transcript

"Nuno Júdice: Entre a Memória e o Silêncio, um Atlas da Alma Portuguesa"

1949 - 2024

"Raízes Algarvias e Descobertas Literárias: A Formação de Nuno Júdice"

Nuno Júdice nasceu a 29 de abril de 1949 na Mexilhoeira Grande, no Algarve, região que marcou profundamente a sua identidade e obra. A paisagem algarvia, com os seus contrastes entre o rural e o litoral, tornou-se uma referência constante na sua poesia, e ele próprio confessou que era ali que se sentia verdadeiramente em casa, longe do ambiente urbano de Lisboa. Durante a infância e adolescência, estudou no Liceu Camões, em Lisboa, onde conheceu o ator e encenador Luís Miguel Cintra, com quem partilhou a descoberta da arte e da literatura. Em 1965, ainda adolescentes, viajaram juntos para Paris, onde frequentaram um curso de história da arte no Louvre. Essa experiência foi marcante para ambos: Júdice descobriu a poesia francesa (de Verlaine a Prévert) e o teatro, assistindo a peças como Huis Clos, de Sartre, e espetáculos no Moulin Rouge, muitas vezes por influência de Cintra, que já demonstrava inclinação para as artes cénicas. A cumplicidade entre os dois prolongou-se para além da juventude. Cintra, que se tornou um dos mais destacados atores e encenadores portugueses, manteve laços com Júdice, que o recordou em entrevistas como companheiro de descobertas culturais e de "gritos" de mudança durante o período pré-Revolução. Antes de ingressar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se licenciaria em Filologia Românica, já demonstrava uma paixão precoce pela escrita. No liceu, criou com um colega um jornal manuscrito chamado Fédon, aproveitando o "tédio das aulas" para exercitar a criatividade.

O que brilha no vazio dura sob o olhar divino, Gárgulas de luz, derramando a voz do rio.

"Nuno Júdice (1972-1980): A Construção de uma Poética entre Tradição e Vanguarda"

Nuno Júdice licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde estudou sob a orientação de Luís Filipe Lindley Cintra, figura central dos estudos literários portugueses. Durante este período, em plena década de 1970, Portugal vivia sob a ditadura do Estado Novo, contexto que influenciou indirectamente a produção cultural da época. Foi neste ambiente que Júdice publicou o seu primeiro livro de poesia, A Noção de Poema em 1972, ano em que também casou com Manuela e lhe nasceu a primeira filha.

"O poema é o lugar da crise não só do verso, mas da própria ideia da poesia, espaço textual onde o ‘eu’ é palavra pensada duplamente: ela revela o ‘continente fulgurativo’ e é ‘flor exótica’ subitamente escrita e reescrita."

"Nuno Júdice (1972-1980): A Construção de uma Poética entre Tradição e Vanguarda"

Entre 1972 e 1980, Nuno Júdice consolidou-se como uma das vozes mais originais da poesia portuguesa contemporânea, num período marcado pela experimentação linguística e por uma profunda reflexão sobre a natureza da escrita poética. Licenciado em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, onde estudou com Luís Filipe Lindley Cintra, Júdice iniciou uma trajetória que conjugava rigor académico e liberdade criativa, dialogando com tanto com a tradição literária portuguesa como com as correntes modernistas e pós-modernistas europeias. Nesta fase inicial, publicou obras fundamentais como O Pavão Sonoro (1972) e Crítica Doméstica dos Paralelepípedos (1973), onde explorou um imaginário marítimo e urbano, repleto de simbolismo e metáforas labirínticas. As Inumeráveis Águas (1974) aprofundou essa linguagem vibrante, enquanto O Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975) e Nos Braços da Exígua Luz (1976) demonstraram a sua capacidade de transformar a tradição literária em matéria poética contemporânea.

"Podíamos saber um pouco mais da morte. Mas não seria isso que nos faria ter vontade de morrer mais depressa"

"Nuno Júdice (1972-1980): A Construção de uma Poética entre Tradição e Vanguarda"

O Corte na Ênfase (1978) marcou uma viragem para um tom mais contido e reflexivo, antecipando a maturidade da sua obra posterior. A poesia de Júdice neste período caracteriza-se por uma escrita que explora os fluxos da memória e da experiência, combinando influências do simbolismo francês (Mallarmé, Rimbaud) com uma abordagem inovadora da linguagem. Os seus versos, muitas vezes longos e de ritmo fluido, criam imagens poderosas que oscilam entre o concreto e o metafísico, como nas referências ao mar como "linguagem segunda" ou aos espaços urbanos como labirintos existenciais. Paralelamente à poesia, Júdice estreou-se na ficção com Última Palavra: «Sim» (1977), demonstrando a versatilidade que seria constante na sua carreira. Como professor, dividia-se entre o ensino secundário e a docência universitária, atividade que considerava indissociável da sua criação literária. Esta década foi fundamental para a sua consolidação como poeta, revelando uma voz que, embora dialogasse com a tradição (de Camões a Pessoa), se afirmou pela originalidade e pela capacidade de transformar a linguagem em matéria viva. A sua obra deste período antecipa a maturidade que viria a caracterizar a sua produção posterior, confirmando-o como um dos nomes essenciais da literatura portuguesa do século XX.

"Todo o poema começa de manhã, com o sol. Mesmo que o poema não esteja à vista [...] o poema é o que explica tudo, o que dá luz à terra"

Nuno Júdice nos Anos de Consolidação: Da Faculdade ao Reconhecimento Público

Após concluir a sua licenciatura em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa, Nuno Júdice iniciou, em 1972, uma década de intensa atividade que o viria a consagrar como um dos nomes fundamentais da cultura portuguesa contemporânea. Logo após a sua formação académica, Júdice abraçou a carreira docente, lecionando no ensino secundário na Escola Industrial Machado de Castro até 1977. Esta experiência no contacto direto com alunos revelar-se-ia fundamental para o desenvolvimento do seu pensamento pedagógico, que mais tarde aplicaria no ensino universitário. O ano de 1977 marcou a sua transição para a Universidade Nova de Lisboa, onde iniciou uma longa e profícua carreira como professor do ensino superior, paralelamente à sua atividade literária. Em 1972, ainda no rescaldo da conclusão do curso, integrou a direção da Associação Portuguesa de Escritores, destacando-se como um dos seus membros mais jovens. Esta posição permitiu-lhe participar ativamente na vida literária nacional durante os conturbados anos do Marcelismo e do processo revolucionário que se seguiu ao 25 de Abril. As suas colaborações na revista O Tempo e o Modo, um dos mais importantes órgãos de debate intelectual da época, revelaram o seu pensamento crítico e a sua capacidade de análise da realidade cultural portuguesa em transformação. O Café Monte Carlo, ponto de encontro da intelectualidade lisboeta, foi outro espaço onde a sua presença se tornou regular, convivendo com figuras como Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira. O reconhecimento do seu valor literário chegou em 1975 com a atribuição do Prémio de Poesia Pablo Neruda à obra O Mecanismo Romântico da Fragmentação, galardão que confirmou o seu lugar no panorama literário nacional.

"Vi as mulheres azuis do equinócio voarem como pássaros cegos; e os seus corpos sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos vulcânicos"

Nuno Júdice (1980-1990): A Consolidação de uma Voz Poética na Literatura Portuguesa

Nos anos 80, Júdice publicou alguns dos seus livros mais significativos, nos quais explorou temas como a linguagem, a memória e a própria condição da escrita. O Voo de Igitur num Copo de Dados (1981) revelou uma poética densa, onde o jogo metalinguístico e a intertextualidade dialogavam com referências literárias e filosóficas. Em Lira de Líquen (1985), obra galardoada com o Prémio de Poesia do PEN Clube Português, aprofundou uma escrita que equilibrava o lírico e o reflexivo, numa abordagem que oscilava entre a ironia e a melancolia. Já no final da década, publicou uma trilogia essencial: A Condescendência do Ser (1988), Enumeração de Sombras (1988) e As Regras da Perspectiva (1990), esta última premiada com o Prémio D. Dinis. Nestes livros, Júdice refletiu sobre a fragilidade da existência e as limitações da perceção humana, mantendo um estilo que conjugava rigor formal e profundidade conceptual. A sua poesia, embora influenciada pelo surrealismo e pela desconstrução pós-moderna, nunca se deixou enclausurar em correntes estéticas definidas, optando antes por uma voz singular e introspetiva.

"Por isso me perco. Por isso te encontro. E a noite que nos separa é o dia que nos reúne"

Além da poesia, Júdice dedicou-se à prosa, publicando romances como Plâncton (1981), A Manta Religiosa (1982) e O Tesouro da Rainha de Sabá (1984), obras em que a narrativa se aproximava, por vezes, de um tom alegórico e simbólico. No campo do ensaio, destacou-se com A Era de «Orpheu» (1986), um estudo fundamental sobre o modernismo português, demonstrando a sua capacidade de análise crítica e o seu profundo conhecimento da história literária. Em paralelo à sua produção literária, Júdice aprofundou os estudos académicos, doutorando-se em 1989 na Universidade Nova de Lisboa com uma tese intitulada O Espaço do Conto no Texto Medieval. Esta investigação refletia o seu interesse pelas estruturas narrativas e pela relação entre tradição e modernidade, temas que também ecoavam na sua própria escrita.

"A beleza não aparece todos os dias à vista do homem; a perfeição nem sempre parece uma coisa deste mundo." Do poema "Epitáfio",

Nuno Júdice (1990-2000): A Década da Consagração Literária e Internacionalização

Durante estes anos, Júdice publicou alguns dos seus livros mais emblemáticos. Em 1994, lançou Meditação sobre Ruínas, que lhe valeu o prestigiado Grande Prémio de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores no ano seguinte. Esta obra, tal como O Movimento do Mundo (1996) e A Fonte da Vida (1997), revelava uma escrita que conjugava o lirismo com uma intensa carga filosófica, explorando temas como a memória, a transitoriedade e o eterno diálogo entre o efémero e o perene. Em 1998, Raptos, uma antologia bilingue ilustrada por Jorge Martins, destacou-se pela sua dimensão plástica e pela forma como fundia palavra e imagem, contribuindo para a sua crescente projeção além-fronteiras.

"Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar"

Paralelamente à poesia, Júdice continuou a enriquecer o seu percurso na ficção, com romances e contos que mesclavam o realismo com elementos simbólicos e alegóricos. A Roseira de Espinho (1994), A Mulher Escarlate (1997) e Vésperas de Sombra (1998) são exemplos desta produção narrativa, onde o autor demonstrava a mesma mestria no domínio da prosa que já era reconhecida na sua poesia. Já no final da década, obras como Por Todos os Séculos (1999) e A Árvore dos Milagres (2000) confirmaram a sua versatilidade e capacidade para reinventar formas narrativas. O reconhecimento do seu trabalho materializou-se em vários prémios, entre os quais o Prémio D. Dinis (1990) e o Prémio Bordalo da Casa da Imprensa (1999). Além disso, a sua nomeação como Conselheiro Cultural em Paris (1997-2004) permitiu-lhe desempenhar um papel ativo na divulgação da literatura portuguesa no estrangeiro, consolidando a sua influência no meio cultural internacional.

"Posso beber o amor pelo copo dos teus lábios?"

Nuno Júdice (2000-2010): O Apogeu de uma Carreira Literária

No domínio da poesia, Júdice publicou obras fundamentais que confirmaram a maturidade do seu estilo e o aprofundamento dos seus temas recorrentes. O Estado dos Campos (2003) destacou-se como um marco na sua produção, valendo-lhe dois prestigiados prémios: o Prémio Ana Hatherly e o Prémio Cesário Verde, ambos em 2005. Este livro, tal como Geometria Variável (2005) e A Matéria do Poema (2008), revelava uma escrita que conjugava o rigor formal com uma reflexão profunda sobre a linguagem poética e a relação do homem com o mundo. A publicação da sua Poesia Reunida (1967-2000) em 2000 permitiu aos leitores acompanhar a evolução de uma obra que já se afirmava como indispensável no panorama literário português. Publicado em 2001, Pedro, Lembrando Inês é uma obra poética onde Nuno Júdice reinterpreta o mito trágico de Pedro e Inês de Castro, afastando-se do dramatismo histórico para explorar uma dimensão íntima e lírica e também

no mesmo ano, publicou Cartografia de Emoções. Aqui, Nuno Júdice desenha um mapa poético onde as emoções humanas são exploradas com profundidade e subtileza.

"Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar"

A produção de ficção deste período demonstrou igualmente a versatilidade criativa de Júdice. O Anjo da Tempestade (2004), galardoado com o Prémio Fernando Namora em 2005, e O Enigma de Salomé (2007) confirmaram o seu talento como romancista, com narrativas que combinavam o realismo com elementos simbólicos e uma prosa densa e elaborada. A publicação de As Coisas Mais Simples (2007) revelou ainda a sua capacidade para captar o extraordinário no quotidiano, através de histórias que dialogavam com a tradição literária enquanto mantinham uma voz profundamente original. No campo do ensaio e da crítica literária, Júdice assumiu um papel cada vez mais ativo. A direção da revista Colóquio-Letras da Fundação Calouste Gulbenkian a partir de 2009 colocou-o no centro do debate literário em Portugal, enquanto obras como O Fenómeno Narrativo (2006) e ABC da Crítica (2010) demonstraram a sua capacidade de análise e reflexão sobre o fenómeno literário. Estes trabalhos confirmaram a sua dupla faceta de criador e teórico, numa síntese rara na literatura portuguesa contemporânea.

O reconhecimento do seu trabalho materializou-se em numerosos prémios e distinções, entre os quais se destacam o Prémio da Crítica (2001) e o já mencionado Prémio Fernando Namora (2005). A sua crescente projeção internacional manifestou-se através de traduções em vários países e da participação em eventos culturais de relevo, como a Feira do Livro de Frankfurt.

Nuno Júdice (2010-2020): O Canto do Cisne de um Mestre da Palavra

Na poesia, Júdice publicou obras fundamentais que revelaram a plenitude do seu estilo. "Guia de Conceitos Básicos" (2010) e "Fórmulas de uma Luz Inexplicável" (2012) destacaram-se pela sua reflexão metapoética e pelo domínio absoluto da linguagem. "Navegação de Acaso" (2013) e "O Fruto da Gramática" (2014) exploraram novos caminhos formais, enquanto "A Mais Frágil das Moradas" (2018), dedicado a Eduardo Lourenço, e "O Coro da Desordem" (2019) representaram o apogeu da sua escrita poética, combinando profundidade filosófica com uma rara beleza lírica. Publicado em 2015, A Convergência dos Ventos explora temas como o passado literário, a memória subjetiva e a resistência da poesia diante da aceleração do tempo moderno.

"O poema é o que explica tudo, o que dá luz à terra, ao céu" (de Génese),

No campo da ficção, Júdice demonstrou uma versatilidade admirável. "O Complexo de Sagitário" (2011) e "A Implosão" (2013) mesclaram narrativa e reflexão existencial, enquanto "A Conspiração Cellamare" (2016) e "O Café de Lenine" (2019) revelaram o seu talento para o romance histórico, mostrando uma notável capacidade de recriar épocas e personagens com rigor e imaginação. Como diretor da revista "Colóquio-Letras" da Fundação Calouste Gulbenkian, Júdice manteve-se no centro do debate literário português, enquanto os seus ensaios, como "ABC da Crítica" (2010), confirmaram o seu lugar como um dos grandes pensadores da literatura contemporânea.

O reconhecimento internacional atingiu o seu ponto mais alto nesta década. Em 2013, Júdice recebeu o prestigiado Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, considerado o Nobel da poesia em língua espanhola e portuguesa, seguido pelo Prémio Poetas del Mundo Latino (México, 2014) e pelo Prémio Argana (Marrocos, 2015). A sua obra foi traduzida para mais de vinte idiomas, incluindo chinês e persa, testemunhando a universalidade da sua escrita. Participou nos mais importantes eventos literários internacionais, desde a Feira do Livro de Guadalajara até ao Festival de Poesia de Medellín, tornando-se um embaixador da cultura portuguesa no mundo.

Nuno Júdice (2020-2024): O Último Voo de um Poeta Essencial

Nesta derradeira fase criativa, Júdice publicou obras poéticas fundamentais. Regresso a um Cenário Campestre (2020), galardoado com o Grande Prémio de Poesia Maria Amália Vaz de Carvalho em 2021, revelava uma escrita cada vez mais depurada, onde a paisagem rural se transformava em metáfora existencial. Em 2022, 50 Anos de Poesia ofereceu aos leitores uma visão panorâmica da sua trajetória, desde os primeiros versos até à maturidade. O seu último livro, Uma Colheita de Silêncios (2023), publicado poucos meses antes da sua morte, foi aclamado pela crítica como uma obra-prima, valendo-lhe postumamente o prestigiado Prémio Oceanos em 2024 - distinção que coroou cinco décadas de criação literária.

O poema é o que explica tudo, o que dá luz / à terra, ao céu, e com nuvens à mistura."

Paralelamente à poesia, Júdice manteve até ao fim uma intensa atividade como intelectual e divulgador cultural. Continuou a dirigir a revista Colóquio-Letras da Fundação Calouste Gulbenkian, espaço fundamental do debate literário em Portugal. Em 2022, fez uma descoberta académica relevante ao identificar um soneto inédito de Camões, "Cristo Atado à Coluna", num manuscrito do século XVII - contributo significativo para os estudos camonianos. O reconhecimento do seu trabalho atingiu o auge nestes anos finais. Além do Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho e do Prémio Oceanos, recebeu em 2021 o Prémio PEN Clube Galego Rosália de Castro, reforçando os laços literários ibéricos. Nuno Júdice faleceu em Lisboa a 17 de março de 2024, aos 74 anos, deixando uma obra que o situa entre os grandes poetas portugueses do século XX-XXI. O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, destacou a sua voz única na literatura nacional, enquanto a crítica internacional sublinhou a capacidade de transformar a melancolia em arte universal.

O manuscrito foi encontrado pelo investigador na Biblioteca Digital Hispânica, onde se encontram vários outros poetas “do barroco, que merecem ser melhor estudados”

Num comunicado oficial, Marcelo descreveu o poeta como "um autor decisivo numa época de transição da poesia portuguesa", situando-o entre as vanguardas experimentais dos anos 1960 e a linguagem mais quotidiana das décadas seguintes. Marcelo sublinhou o estilo único de Júdice: "Não se parecia com nenhum outro, com os seus versos por vezes longos, discursivos, meditativos, o tom tardo-romântico, as interrogações sobre a noção de poema". Referiu ainda a evolução da sua escrita para um registo "evocativo, melancólico ou irónico", que marcou gerações. O Presidente enalteceu também o seu papel multifacetado: professor universitário, ensaísta, ficcionista, diretor de revistas como Colóquio-Letras e Tabacaria, e conselheiro cultural em Paris, onde promoveu a literatura portuguesa

Nuno Júdice: Obra Premiada, Poesia Consagrada Um Itinerário de Distinções Literárias

O primeiro reconhecimento importante veio em 1975 com o Prémio de Poesia Pablo Neruda para O Mecanismo Romântico da Fragmentação, obra inaugural onde já se delineavam os traços essenciais da sua poética: a reflexão metalinguística, o diálogo intertextual e a exploração dos limites entre forma e conteúdo. Nos anos 1980, a consolidação do seu estilo valeu-lhe o Prémio PEN Clube Português de Poesia por Lira de Líquen (1985), obra onde aprofundava a sua investigação sobre a relação entre palavra e silêncio. Esta fase culminaria com a atribuição do prestigiado Prémio D. Dinis da Casa de Mateus a As Regras da Perspetiva (1990), livro que marcou a transição para uma poesia mais contemplativa, onde a memória e o tempo se tornaram eixos estruturantes. A consagração definitiva no panorama nacional chegou em 1994 com o Grande Prémio de Poesia da APE para Meditação sobre Ruínas, obra-prima que sintetizava décadas de pesquisa poética. Já no novo século, O Anjo da Tempestade (2003) valeu-lhe o Prémio Fernando Namora, demonstrando a sua mestria igualmente no domínio da prosa ficcional, enquanto Geometria Variável (2007) receberia o Grande Prémio de Literatura dst por renovar radicalmente a sua linguagem poética. Nos últimos anos, Regresso a um Cenário Campestre (2021) confirmou a vitalidade criativa do autor ao conquistar novamente o Grande Prémio APE, enquanto Uma Colheita de Silêncios, publicado postumamente em 2024, receberia o Prémio Oceanos como testamento poético definitivo.

"Nuno Júdice e o Prémio Rainha Sofia: O Reconhecimento Ibero-americano da Poesia Portuguesa"

Nuno Júdice, um dos mais destacados poetas portugueses contemporâneos, foi galardoado em 2013 com o prestigiado Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana, tornando-se no segundo autor português a receber esta distinção, após Sophia de Mello Breyner Andresen em 2003. O prémio foi atribuído pelo conjunto da sua obra poética, desenvolvida ao longo de mais de três décadas, destacando especialmente títulos como A Matéria do Poema e Plural de Nuvem e que representa uma contribuição fundamental para o património cultural ibero-americano.

"Da Ditadura à Democracia: A Crítica Subtileza de Nuno Júdice"

A infância e juventude de Júdice decorreram num Portugal ainda fechado e conservador, mas a sua geração, que atingiu a maturidade nos anos 1970, começou a questionar o regime. O liceu em Lisboa e as viagens a Paris colocaram-no em contacto com ideias e correntes artísticas que contrastavam com o ambiente repressivo do país. Esta experiência influenciou a sua visão da cultura portuguesa, que mais tarde exploraria na sua obra. Na sua produção literária, Júdice não faz uma crítica directa ao Estado Novo, mas aborda temas como a decadência nacional e a memória colectiva, que ecoam o mal-estar desse período. Em livros como A Implosão (2013), cria uma narrativa que reflecte sobre as cicatrizes deixadas pelo autoritarismo, sugerindo que Portugal nunca superou completamente esse legado. A sua poesia e prosa dialogam com tradições literárias anteriores, como a de Guerra Junqueiro ou Fernando Pessoa, que também questionaram a identidade portuguesa em contextos de crise. Após o 25 de Abril de 1974, Júdice afastou-se do activismo político, optando por uma abordagem mais cultural e existencial. No entanto, a sua obra mantém traços de uma "hiperidentidade" portuguesa, herdada do Estado Novo mas reinterpretada de forma crítica. Em textos como Geografia do Caos, explora os contrastes entre o passado e o presente, mostrando como as marcas do regime persistem na sociedade contemporânea. Nuno Júdice não foi um autor de protesto aberto contra o Estado Novo, mas a sua obra incorpora uma reflexão subtil e melancólica sobre esse período. Através da literatura, oferece um retrato complexo de um país que ainda lida com as sombras do seu passado autoritário, revelando como o peso da história continua a moldar a identidade nacional.

"Rostos e Versos: A Vida e Obra de Nuno Júdice"

"Nunca são as coisas mais simples que aparecem quando as esperamos"

"Palavras que Cantam"

A vida rompeu A vida rompeu Onde tudo era breu E embora fosse morrer A morte começou a reverdecer A morte começou a reverdecer Eram dois mendigos E amavam-se de amor Demorou Deus a olhá-los (Demorou Deus a olhá-los) Demoraram Os carrascos A levá-los A levá-los A vida rompeu Onde tudo era breu Toda a terra fomentou (e embora fosse morrer) Vozes, ventos e murmúrios (a morte) Eram dois mendigos E amavam-se de amor Deu água a fonte que secou (demorou Deus) Vozes, ventos e murmúrios (a olhá-los, a morte) Passou a noite absorto No negrume opaco da noite Sóis, nuvens, aves, um deus morto No negrume opaco da noite
Requiem por Muitos Mais Conheci tipos que viveram muito. Estão mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço. de álcool, da obrigação de viver que os consumia. Que ficou das suas vidas? Que mulheres os lembram com a nostalgia de um abraço? Que amigos falam ainda, por vezes, para o lado, como se eles estivessem à sua beira? No entanto, invejo-os. Acompanhei-os em noites de bares e insónia até ao fundo da madrugada; despejei o fundo dos seus copos, onde só os restos de vinho manchavam o vidro; respirei o fumo dessas salas onde as suas vozes se amontoavam como cadeiras num fim de festa. Vi-os partir, um a um, na secura das despedidas. E ouvi os queixumes dessas a quem roubaram a vida. Recolhi as suas palavras em versos feitos de lágrimas e silêncios. Encostei-me à palidez dos seus rostos, perguntando por eles - os amantes luminosos da noite. O sol limpava-lhes as olheiras; uma saudade marítima caía-lhes dos ombros nus. Amei-as sem nada lhes dizer - nem do amor, nem do destino desses que elas amaram. Conheci tipos que viveram muito - os que nunca souberam nada da própria vida. Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"

"A Vida Rompeu" Música por José Mário Branco (2004), incluída no álbum Resistir é Vencer e Autoria da letra: Nuno Júdice

Hugo Vieira Costa diz "Requiem por Muitos Mais" do poeta português Nuno Júdice, ao som de "Opus 5" de Julia Czechenyi

"A loucura é a grandeza dos simples: assim são eles mais do que eles"

Vozes que Dão Vida à Poesia de Nuno Júdice

Nuno Júdice: “Pedro, lembrando Inês”, por João Meireles e “Sul”, dito por Lia Gama

Nuno Júdice com “Até ao Fim”, por Lia Gama, “A Casa da Poesia”, por Rúben Gomes

“Novo quotidiano” e “Ciclos”, de Nuno Júdice, por Jorge Silva Melo e Luís Lucas

“Emma e Matilde”, de Nuno Júdice, por Lia Gama

Sara Loureiro lê Nuno Júdice, "Para escrever o poema"

“Para resumir o teu corpo”, por Manuel Wiborg; “Nova Teoria da Literatura”, por Jorge Silva Melo e “Poética (variante com construção civil)”, por João Meireles de Nuno Júdice

Nuno Júdice Epitáfio para uma Europa por Nuno Júdice

Nuno Júdice escolheu o livro 𝘜𝘭𝘪𝘴𝘴𝘦𝘴, de James Joyce, que pertenceu a Fernando Pessoa.

"Por isso me perco. Por isso te encontro. E a noite que nos separa é o dia que nos reúne"

Nuno Júdice sobre Al Berto: A Poesia como Corpo e Fractura Existencial

Nuno Júdice viu em Al Berto um caso especial na poesia portuguesa moderna. Para ele, Al Berto não usava a poesia apenas para escrever versos – a sua vida e a sua obra misturavam-se de forma radical. Quando o poeta escolheu o nome "Al Berto" (encurtando o seu nome completo, Alberto Raposo Pidwell Todi), não foi só para parecer diferente. Essa mudança representava uma rutura profunda – como se dividisse a sua própria identidade ao meio. Júdice chamou a isto uma "fratura do sujeito", mostrando como Al Berto vivia a poesia como um projeto de vida, não apenas como escrita. Júdice considerava Al Berto o "último grande poeta do século XX", colocando-o ao lado de autores como Baudelaire e Rimbaud, que também desafiaram as regras da sociedade e da literatura. A sua poesia não seguia padrões tradicionais: era autobiográfica, cheia de confissões e experiências pessoais, muitas vezes marcadas pela homossexualidade, o desejo e a doença. Um dos pontos mais importantes da análise de Júdice é a forma como Al Berto tratava o corpo na sua poesia. Para ele, o corpo não era só um tema – era como se o próprio corpo se tornasse o papel onde escrevia. Júdice usou a expressão "caderno-corpo" para descrever esta ideia: a poesia de Al Berto era feita de carne, sangue e emoções, sem separação entre o que vivia e o que escrevia. Desta forma, Al Berto criou uma obra única, onde a vida e a arte se confundiam, fazendo da sua poesia algo tão vivo e real como o próprio corpo.

É Isto o Amor Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo esse que mal corria quando por ele passámos, subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: a primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste. Nuno Júdice, in 'Pedro, Lembrando Inês'
O silêncio Pego num pedaço de silêncio. Parto-o ao meio, e vejo saírem de dentro dele as palavras que ficaram por dizer. Umas, meto-as num frasco com o álcool da memória, para que se transformem num licor de remorso; outras, guardo-as na cabeça para as dizer, um dia, a quem me perguntar o que significam. Mas o silêncio de onde as palavras saíram volta a espalhar-se sobre elas. Bebo o licor do remorso; e tiro da cabeça as outras palavras que lá ficaram, até o ruído desaparecer, e só o silêncio ficar, inteiro, sem nada por dentro. Nuno Júdice, in A matéria do poema

A Fundação Calouste Gulbenkian celebrou-o como «um dos maiores poetas portugueses», cuja obra «transcendeu a finitude».

Volta até mim no silêncio da noite Volta até mim no silêncio da noite a tua voz que eu amo, e as tuas palavras que eu não esqueço. Volta até mim para que a tua ausência não embacie o vidro da memória, nem o transforme no espelho baço dos meus olhos. Volta com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário vestido com a mortalha da névoa; e traz contigo a maré cheia da manhã com que todos os náufragos sonharam. Nuno Júdice in "O movimento do Mundo"

O poema é um apelo emocionado dirigido a alguém ausente, cuja voz e palavras permanecem vivas na memória do eu lírico. A noite, silenciosa e introspetiva, serve de cenário para este pedido de regresso, quase como um ritual íntimo. O temor de que a ausência desfoque as recordações—transformando-as num "espelho baço"—revela o medo do esquecimento e da perda definitiva. Júdice usa imagens de água e nevoeiro—como um "beijo sonhado num rio" ou a "maré alta da manhã"—para mostrar um amor que vive entre o real e o sonho. O poema tem uma tristeza suave, mas também uma certa esperança: parece que o regresso da pessoa amada traria de volta a luz e a nitidez ao mundo.

Confissão De um e outro lado do que sou, da luz e da obscuridade, do ouro e do pó, ouço pedirem-me que escolha; e deixe para trás a inquietação, a dor, um peso de não sei que ansiedade. Mas levo comigo tudo o que recuso. Sinto colar-se-me às costas um resto de noite; e não sei voltar-me para a frente, onde amanhece. Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"

O poema "De um e outro lado do que sou" (ou "Confissão"), de Nuno Júdice, explora a dualidade da existência humana através de contrastes como luz e escuridão, ouro e pó, e verdade e ilusão. O eu lírico recusa-se a escolher entre os opostos, optando antes por carregar consigo tudo aquilo que, aparentemente, rejeita—incluindo as suas dores e inquietações. O verso final—"Mas levo comigo tudo / o que recuso"—sugere uma aceitação paradoxal daquilo que se nega, revelando uma profunda consciência da ambiguidade do ser.