Want to create interactive content? It’s easy in Genially!

Reuse this genially

"Ruy Belo: A Margem da Alegria e a Palavra Eterna"

teachers

Created on February 26, 2025

Start designing with a free template

Discover more than 1500 professional designs like these:

Higher Education Presentation

Psychedelic Presentation

Vaporwave presentation

Geniaflix Presentation

Vintage Mosaic Presentation

Modern Zen Presentation

Newspaper Presentation

Transcript

"Ruy Belo: A Margem da Alegria e a Palavra Eterna"

1933 - 1978

"Mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar"

"Este céu passará e então teu riso descerá dos montes pelos rios até desaguar no nosso coração"

Ruy Belo, nascido a 27 de fevereiro de 1933 em São João da Ribeira, concelho de Rio Maior, viveu os seus primeiros 24 anos numa época de profundas transformações em Portugal. Filho de uma família modesta do Ribatejo, o jovem Ruy cedo demonstrou uma apetência para as letras que viria a marcar toda a sua vida. O seu percurso académico iniciou-se no liceu de Santarém, onde se destacou como aluno brilhante. Posteriormente, rumou a Coimbra para iniciar os estudos em Direito, uma escolha comum entre os jovens intelectuais da época. Contudo, a sua passagem pela cidade dos estudantes foi breve, tendo-se transferido para Lisboa, onde concluiu a licenciatura em Direito. Não satisfeito com uma única formação, Ruy Belo empreendeu também os estudos em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (concluiu em 1967).

Esta dupla formação académica viria a revelar-se fundamental para o seu futuro como poeta e ensaísta.Durante este período, Ruy Belo aderiu à Opus Dei, uma decisão que refletia a sua busca espiritual e intelectual. Embora tenha posteriormente abandonado a organização, esta experiência deixou marcas indeléveis na sua visão do mundo e na sua obra futura.

Ruy Belo fez o doutoramento em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana de Roma com a tese intitulada "Ficção Literária e Censura Eclesiástica". Este doutoramento foi concluído em 1958. A tese de Ruy Belo abordava um tema que refletia sua preocupação com a intersecção entre literatura e religião, algo que viria a influenciar significativamente sua obra poética posterior. Os anos de formação de Ruy Belo coincidiram com um período de forte repressão política em Portugal, sob o regime do Estado Novo. Este contexto sociopolítico viria a influenciar profundamente o seu pensamento e a sua poesia, embora a sua voz literária só se tenha manifestado plenamente após 1957.

"Os pássaros nascem na ponta das árvores As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros" Ruy Belo in “Homem de Palavra(s)”

Em 1961, Ruy Belo abandonou o Opus Dei e ingressou na Faculdade de Letras, onde viria a vivenciar a crise académica de 1962. Esta mudança coincidiu com a publicação do seu primeiro livro de poesia, "Aquele Grande Rio Eufrates", que assinalou o início da sua carreira literária. O poema que dá título ao livro é uma obra extensa e complexa, que utiliza imagens bíblicas e referências ao Apocalipse para refletir sobre a condição humana, a fé e a relação entre o homem e Deus. O rio Eufrates, mencionado no título, é uma referência ao texto bíblico e serve como metáfora para explorar questões espirituais e filosóficas. A sua atividade literária intensificou-se com a publicação de "O Problema da Habitação" em 1962 e com o início de uma intensa atividade como tradutor. Ruy Belo tornou-se uma voz ativa na cena cultural portuguesa, colaborando em revistas como "O Tempo e o Modo" e nas publicações da Juventude Universitária Católica. O seu compromisso social e político culminou em 1965 com a assinatura do manifesto dos 101 católicos em apoio ao Manifesto da Oposição Democrática.

Entre 1957 e 1966, Ruy Belo desempenhou várias funções profissionais que contribuíram para a sua formação intelectual e literária. Começou por dirigir a Editorial Aster e chefiou a redação da revista Rumo. No Ministério da Educação Nacional, ocupou cargos de relevo, nomeadamente como adjunto do Diretor do Serviço de Escolha de Livros e, por um breve período, como diretor-adjunto. A partir de 1961, dedicou-se à investigação na Faculdade de Letras de Lisboa, beneficiando de uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian.

"A vida não se compadece com ideologias vãs / a vida pede pouco mais que vida / Para sabedoria não existe idade / mas a felicidade existe um só momento"

Em 1966, Ruy Belo publicou o livro de poesia "Boca Bilingue", uma obra que demonstra sua maturidade literária e explora temas como Deus, a existência, o quotidiano e a criação poética; começou a trabalhar na editora União Gráfica, de propriedade católica, onde permaneceu até à publicação do seu volume de ensaios "Na Senda da Poesia" em 1969 e casou-se com Maria Teresa Carriço Marques. Do casamento, nasceram três filhos. Ruy Belo lançou o livro de poesia "Homem de Palavra(s)" em 1970. Esta obra marca um momento importante na carreira do poeta, consolidando a sua voz poética e refletindo uma profunda consciência ética e social. O próprio Ruy Belo considerava que neste livro tinha introduzido novos processos e formas que nunca utilizara na sua escrita. "Homem de Palavra(s)" inclui poemas notáveis como "E Tudo Era Possível". Este poema explora temas como a juventude e a nostalgia, sendo frequentemente citado como um dos mais representativos do livro.

"Ruy Belo: Um Voz na Oposição"

O poeta teve uma participação ativa na vida política e social portuguesa. Em 1962, participou na greve académica, e em 1969, Ruy Belo deu um passo significativo na sua luta contra o regime ditatorial ao candidatar-se a deputado pela Comissão Eleitoral de Unidade Democrática (CEUD), uma lista da Oposição Democrática. O envolvimento político de Ruy Belo durante a ditadura do Estado Novo teve consequências significativas para a sua vida e carreira. Como resultado do seu ativismo, o poeta foi alvo de vigilância pela PIDE, a temida polícia política do regime, e viu as suas atividades condicionadas pelo governo. Além disso, foi-lhe negada a oportunidade de lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa, uma clara represália por sua postura crítica. Apesar dessas adversidades, Ruy Belo manteve-se firme no seu compromisso com a luta pela democracia em Portugal, refletindo nas suas obras uma profunda consciência ética e social. A sua poesia tornou-se um veículo para expressar o desencanto com a realidade política e social portuguesa, abordando temas como a censura, a alienação e a opressão, demonstrando assim a sua resistência através da arte. Após romper com o seu passado católico e criticar a aliança político-religiosa do regime, Belo viu-se privado de oportunidades profissionais. Esta situação levou-o a procurar novas perspetivas fora de Portugal, culminando na sua mudança para Madrid em 1971, onde assumiu o cargo de leitor de Português na Universidade Complutense. A decisão de partir para Espanha surgiu num contexto de crescente pressão política sobre Belo em Portugal, onde era vigiado pelo Estado Novo devido à sua participação ativa na resistência ao fascismo

"Ruy Belo em Madrid: O Exílio Poético na Terra da Alegria (1971-1977)"

Ruy Belo viveu um período de intensa atividade literária e académica entre 1971 e 1977. Durante estes anos, o poeta dividiu o seu tempo entre Portugal e Espanha, consolidando a sua posição como uma voz incontornável da poesia portuguesa contemporânea. Em 1971, Belo iniciou as suas funções como leitor de Português na Universidade de Madrid, cargo que ocupou até 1977. Esta estadia em Espanha proporcionou-lhe não só uma experiência académica enriquecedora, mas também uma perspetiva única sobre a cultura ibérica. Em janeiro de 1973, demonstrando o seu empenho no diálogo intercultural, organizou um colóquio que reuniu intelectuais portugueses e espanhóis em Madrid.Em 1973, Ruy Belo lançou "País Possível", um livro que analisa de forma crítica e atual a identidade e os problemas sociais e políticos de Portugal nos últimos anos da ditadura. "Transporte no Tempo" é publicado originalmente em 1973. Esta obra marca o início de uma nova fase na poesia do autor, escrita durante o período em que viveu em Madrid. Aqui é feito um elogio à liberdade e é manifestada uma preocupação pela frágil condição do Homem e do mundo. "A Margem da Alegria", publicado em 1974 por Ruy Belo, é um poema-livro de grande fôlego e complexidade, considerado uma das obras mais importantes do autor. "Toda a Terra" é um livro de poesia de Ruy Belo, publicado originalmente em 1976. Esta obra é considerada uma síntese magistral do percurso poético do autor, apresentando seus temas recorrentes como o sentimento de exílio, o mar e a experiência religiosa. Estas obras consolidaram a sua reputação como um dos mais importantes poetas da sua geração.

Este céu passará e então/teu riso descerá dos montes pelos rios/até desaguar no nosso coração/Este céu passará de Ruy Belo in “Coisas de silêncio”

Em 1977, após sete anos como leitor de Português na Universidade Complutense de Madrid, Belo regressou a Portugal. A sua estadia em Espanha havia influenciado profundamente a sua poesia, como se pode constatar em obras como "Toda a Terra" (1976). Contudo, o seu regresso a Portugal não foi isento de contrariedades. Apesar do seu reconhecido mérito literário, foi-lhe negada a possibilidade de lecionar na Faculdade de Letras de Lisboa pelo regime democrático, uma decisão que o afetou profundamente. Como alternativa, passou a dar aulas no ensino noturno na Escola Secundária de Ferreira Dias, em Cacém. Durante este período, Belo manteve a sua atividade literária e o seu envolvimento nas questões sociais e políticas do país. Em janeiro de 1978, demonstrou o seu compromisso cívico ao assinar um manifesto intitulado "Ao Povo Português", que se opunha ao governo de coligação PS-CDS. Este ato refletia o seu contínuo engajamento com a realidade política e social portuguesa. No campo literário, "Despeço-me da Terra da Alegria", derradeira obra publicada em vida por Ruy Belo em 1977, ergue-se como um marco indelével na poesia portuguesa contemporânea. Este livro remata o percurso poético do autor com uma pujança e uma maturidade extraordinárias. Nele, Ruy Belo tece reflexões profundas acerca da existência, do amor e da morte, numa linguagem que se destaca pela inovação e pela aptidão em entrelaçar o quotidiano com o transcendente. A obra atinge o seu zénite numa secção constituída por um único e extenso poema, onde o poeta parece despedir-se não apenas da "Terra da Alegria", mas também da própria vida, pressentindo o seu fim iminente. Trata-se de um livro que, pela sua densidade filosófica e pelo seu primor formal, continua a interpelar leitores e críticos, cimentando o lugar de Ruy Belo como uma das vozes mais notáveis da poesia lusófona do século XX.

Em 1978, foi lançada a segunda edição de "Homem de Palavra(s)", reafirmando a importância e a relevância contínua da sua obra poética. Ruy Belo manteve também a sua colaboração com importantes revistas culturais. Continuou a escrever para "O Tempo e o Modo", uma publicação influente no panorama intelectual português e ocupou o cargo de chefe de redação na revista "Rumo". Infelizmente, a vida de Ruy Belo foi interrompida de forma abrupta. Faleceu em Queluz, Sintra, a 8 de agosto de 1978, aos 45 anos de idade, deixando um legado poético rico e influente que continua a ser estudado e admirado até aos dias de hoje. Após a morte de Ruy Belo em 1978, várias obras póstumas e reedições foram publicadas, enriquecendo o legado literário do poeta. Em 1981, a Editorial Presença lançou a "Obra Poética de Ruy Belo", uma compilação das suas obras completas. Três anos depois, em 1984, a mesma editora publicou "Na Senda da Poesia", uma edição mais abrangente dos seus ensaios críticos, resenhas e leituras. A Assírio & Alvim contribuiu significativamente para a divulgação da obra de Belo, publicando "Todos os Poemas" em três volumes, com textos fixados por Teresa Belo e Gastão Cruz. Em 2003, um texto inédito do poeta foi publicado em fac-símile na revista Inimigo Rumor. Mais recentemente, em 2023, a Assírio & Alvim reeditou "Toda a Terra" (originalmente de 1976) com um prefácio de Luís Adriano Carlos. Adicionalmente, o espólio de Ruy Belo foi doado à Biblioteca Nacional pelos seus filhos, abrindo a possibilidade de futuras descobertas e publicações de materiais inéditos.

Ruy Belo "tinha que escrever fosse onde fosse, quando o verso lhe surgia", palavras de Maria Teresa Belo

"Odeio este Tempo Detergente: Uma Odisseia Poética de Ruy Belo no Palco"

O espetáculo "Odeio este tempo detergente" surgiu a partir de um desafio lançado por Teresa Belo, viúva do poeta Ruy Belo, à encenadora Ana Nave. O espetáculo apresenta uma seleção de 17 poemas de Ruy Belo, escolhidos pelo ex-jornalista Rui Lagartinho. Ana Nave descreve a produção como "uma viagem pelas ideias de Ruy Belo, onde está sempre presente a noção de morte e da vida a passar". A encenação conta com as atuações de Ana Nave e Maria João Luís, acompanhadas pelo músico José Peixoto no palco. As atrizes interpretam os poemas, acrescentando uma perspetiva contemporânea à obra de Ruy Belo. alguns dos poemas incluídos na seleção são: "Certas formas de nojo" . "Espaço preenchido" . "Povoamento" . "Elogio a Maria Teresa" . "Um dia não muito longe, não muito perto" O título da peça, "Odeio este Tempo Detergente", é também o título de um dos poemas de Ruy Belo.

Um Dia Uma Vida: A Poesia de Ruy Belo no Palco

"Ruy Belo: Memórias em Movimento"

"Palavras Ditas, Cantadas e Aprendidas: O Legado de Ruy Belo" I

Poema "Uma vez que já tudo se perdeu"

"Excerto de um poema sem título"

Poema “Um Dia Não Muito Longe Não Muito Perto”

"Um dia alguém numa cidade longínqua dirá que morri" é o primeiro verso de um poema sem título de Ruy Belo. O poema reflete sobre a morte e a memória, temas recorrentes na obra de Ruy Belo.

Este poema foi musicado por José Mário Branco e interpretado por Camané e por si. A sua melancolia e introspeção tornam-no ideal para discussões sobre temas como perda e reflexão pessoal.

O poema "Um Dia Não Muito Longe Não Muito Perto" de Ruy Belo é uma reflexão sobre a monotonia e o descontentamento com a vida quotidiana.

Poema "E Tudo Era Possível"

Este poema fala da juventude e das possibilidades, sendo perfeito para explorar temas como sonhos e ambições.

"Palavras Ditas, Cantadas e Aprendidas: O Legado de Ruy Belo" II

Poema "Algumas proposições com pássaros…"

Poema “O Portugal Futuro”

Poema “Morte ao meio-dia”

Neste poema, Ruy Belo apresenta uma visão idealizada e esperançosa do futuro de Portugal, contrastando com a realidade vivida durante o regime autoritário.

O poema oferece uma crítica contundente à situação sociopolítica de Portugal durante o regime autoritário.

O poema explora a relação entre pássaros e árvores de forma metafórica e imaginativa.

Poema "Uma vez que já tudo se perdeu"

O poema "Uma vez que já tudo se perdeu" transmite uma mensagem de superação e resiliência, encorajando o leitor a enfrentar as adversidades com dignidade e coragem.

Poema “"Tu estás aqui" ”

O poema "Tu estás aqui" reflete a presença constante da pessoa amada, mesmo quando fisicamente ausente, através da memória e do sentimento

"Entre Chuva e Vento: Alice Vieira e o Legado Poético de Ruy Belo"

Alice Vieira, uma renomada escritora portuguesa, participou na leitura do poema "O Valor do Vento" de Ruy Belo, um dos maiores nomes da poesia portuguesa da segunda metade do século XX. Esta leitura reflete a conexão pessoal e literária entre Alice Vieira e Ruy Belo, que se conheceram na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Alice Vieira descreve Ruy Belo como uma figura intimidante devido ao seu vasto conhecimento, mas também como alguém que inspirou sua própria obra. O título do seu livro de poesia "Olha-me Como Quem Chove" é inspirado num verso de Ruy Belo e serve de epígrafe ao livro, mostrando a influência que Belo teve na sua escrita. A leitura de "O Valor do Vento" por Alice Vieira destaca a importância da obra de Ruy Belo na literatura portuguesa e a conexão entre os dois escritores. O poema é característico da habilidade de Belo em combinar reflexões profundas com um toque de humor, e sua leitura por Alice Vieira ajuda a manter viva a memória e a influência de Ruy Belo na literatura contemporânea.

"Entre Versos e Lutas: O Legado de Ruy Belo"

O poema "Quasi flos" de Ruy Belo, publicado na obra "O Problema da Habitação" em 1962, é uma reflexão profunda sobre a vida, a morte e a verdade. Abrindo com o verso impactante "A morte é a verdade e a verdade é a morte", o poema tece uma tapeçaria de imagens naturais, como folhas e vento, para explorar a condição humana.

Ruy Belo emprega metáforas poderosas, contrastando a inquietude da memória com a quietude da morte, e utiliza a imagem da casa em construção como símbolo da vida e das suas possibilidades. O verso "e uma casa é a coisa mais séria da vida" liga-se ao tema central do livro, enquanto a folha que cai representa a finitude. O poema culmina com "E a alegria é uma casa recém-construída", sugerindo uma nota de esperança e renovação. Através desta obra, Ruy Belo convida o leitor a contemplar a efemeridade da existência, a busca por um lugar no mundo e o significado da verdade, temas que permeiam a sua poesia de forma magistral.

Residência Literária Ruy Belo

Ruy Belo recebeu um reconhecimento importante após a sua morte. Em 1991, foi condecorado a título póstumo com o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'iago da Espada. Esta condecoração foi atribuída pelo Presidente Mário Soares3, cerca de 13 anos após o falecimento do poeta. A 27 de Agosto de 2005, foi inaugurada em Queluz a Biblioteca Ruy Belo, que se tornou a primeira biblioteca municipal da cidade. Esta homenagem ao poeta Ruy Belo, que viveu em Queluz durante mais de 30 anos, reflete o reconhecimento da sua importância na literatura portuguesa. Uma estátua no Parque dos Poetas em Oeiras e um busto em São João da Ribeira, perpetuando assim a memória e o legado deste importante poeta português.

Casa-Museu Poeta Ruy Belo

Biblioteca Nacional de Portugal - Espólio do escritor

À MEMÓRIA DE RUY BELO Provavelmente já te encontrarás à vontade entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância tomava sempre o comboio para as férias grandes, já terás feito amigos, sem saudades dos dias onde passaste quase anónimo e leve como o vento da praia e a rapariga de Cambridge, que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde. A morte como a sede sempre te foi próxima, sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso ela aí estava, um pouco distraída, é certo, mas estava, como estava o mar e a alegria ou a chuva nos versos da tua juventude. Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta página de um jornal trazido pelo vento, nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia, jornal onde em primeira página também vinha a promoção de um militar a general, ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei: isto de militares custa a distingui-los, feitos em forma como os galos de Barcelos, igualmente bravos, igualmente inúteis, passeando de cu melancólico pelas ruas a saudade e a sífilis do império, e tão inimigos todos daquela festa que em ti, em mim, e nas dunas principia. Consola-me ao menos a ideia de te haverem deixado em paz na morte; ninguém na assembleia da república fingiu que te lera os versos, ninguém, cheio de piedade por si próprio, propôs funerais nacionais ou, a título póstumo, te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador, qualquer coisa assim para estrumar os campos. Eles não deram por ti, e a culpa é tua, foste sempre discreto (até mesmo na morte), não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro, não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira, e foste a enterrar numa aldeia que não sei onde fica, ma seja onde for será a tua. Agrada-me que tudo assim fosse, e agora que começaste a fazer corpo com a terra a única evidência é crescer para o sol Poema de Eugénio de Andrade in Epitáfios de Agosto, 1978

Ruy Belo é, de facto, uma figura central na poesia portuguesa do século XX, cuja obra aborda temas universais e intemporais com uma sensibilidade única. A sua poesia é caracterizada por dualidades marcantes, como a nostalgia e a realidade presente, a fé e a dúvida, a alegria e a melancolia. A habilidade de Ruy Belo em transformar momentos quotidianos em reflexões profundas sobre a existência humana é uma das suas características mais notáveis. A sua formação em direito canónico e as suas experiências pessoais, incluindo a vivência sob o regime do Estado Novo, conferem à sua poesia uma dimensão ética e crítica. Belo não se limitou à contemplação poética, mas foi também um observador atento e crítico das injustiças sociais e políticas do seu tempo. A sua poesia serve como um meio de resistência e expressão das suas convicções, refletindo as tensões e desafios da vida moderna. A obra de Ruy Belo é marcada por uma profunda consciência da linguagem e do seu poder. Ele via a poesia como uma forma de "bilinguismo", um desvio da norma da linguagem falada. Esta consciência linguística, combinada com a sua capacidade de unificar as teorias do Génio e do Sublime, confere à sua poesia uma grande dimensão estética e emocional.