"Conheço o silêncio colorido das alucinações da madrugada e um dia quis descansar, procurei o que era real à minha volta e arrependi-me. "Al Berto
AL Berto
1948 - 1997
"Al Berto: Retratos de um Poeta entre Sines e o Mundo"
"Estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido" é extraída do poema "É tarde, meu amor"
Al Berto, um dos maiores poetas e uma das figuras mais influentes da literatura portuguesa da segunda metade do século XX, encontrou em Sines a sua casa. Nascido Alberto Raposo Pidwell Tavares em Coimbra, a 11 de janeiro de 1948, mudou-se para Sines com apenas um ano de idade. Esta vila alentejana à beira-mar tornou-se fundamental na sua formação e inspiração literária. A influência de Sines na obra de Al Berto é evidente em trabalhos como "Mar-de-leva / Sete textos dedicados à vila de Sines" (1980). Após o seu falecimento em 1997, a vila prestou-lhe homenagem, atribuindo o seu nome à Escola Secundária Poeta Al Berto, reconhecendo assim o seu contributo inestimável para a cultura portuguesa e para a própria localidade.
O artista de rua Skran, cujo nome verdadeiro é Ricardo Delaunay, criou um mural com o rosto de Al Berto na Rua Teófilo Braga, em Sines. A obra foi realizada nos dias 24 e 25 de abril de 2015, como parte de uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Sines.
Este mural homenageia o poeta Al Berto e celebra o Dia Mundial do Livro e o 25 de Abril. O retrato de Al Berto é o elemento central da fachada do edifício anexo ao Centro de Artes de Sines, conhecido como "Casa Preta". A obra inclui uma citação do poeta: "...Quantas vezes me traiu, e amou, esta vila? Quantas vezes, com amargura, fugi dela?".
"É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo." Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"
Al Berto, teve uma formação artística rica e diversificada. Frequentou a Escola Artística António Arroio em Lisboa, conhecida por sua especialização em artes e design, onde obteve uma sólida base em pintura. Exilou-se em Bruxelas em 1967 para evitar o serviço militar, fugindo assim da Guerra Colonial em Portugal, onde se matriculou na École Nationale Supérieure d'Architecture et des Arts Visuels (La Chambre), focando em pintura monumental. Em 1969, ele co-fundou a Montfaucon Research Center, uma associação internacional que reunia artistas plásticos, escritores e fotógrafos. Este espaço tornou-se um centro de criatividade e experimentação, promovendo uma vivência artística coletiva e a fusão entre desenho e escrita. No mesmo ano, Al Berto realizou sua primeira exposição de trabalhos de pintura na Galeria Fitzroy em Bruxelas e publicou em 1970, o livro de desenhos "Projects 69", que documentava as atividades do Montfaucon Research Center
Al Berto, durante o seu tempo em Bruxelas, integrou uma comunidade artística vibrante no Montfaucon Research Center, onde conheceu a artista Sophie Podolski, cuja influência foi significativa na sua vida e obra. Neste ambiente efervescente, Al Berto destacou-se também por suas atividades políticas, criando cartazes contra a expulsão de trabalhadores e estudantes estrangeiros. Em 1970, decidiu abandonar a pintura definitivamente, redirecionando a sua carreira artística para outras formas de expressão, como ele mesmo explicou: "Como a pintura é muito demorada de executar... à escrita basta o papel e caneta."
“Fui amada e odiada – mas, sobretudo, viajei. Viajei até se me esgotarem as forças, e a distância que me separava de Deus perder sentido.”
― Al Berto, O Anjo Mudo
Em 1972, Al Berto realizou um estágio como animador sócio-cultural no Centre Culturel du Hainaut, na Bélgica, onde teve a oportunidade de dirigir a Secção de Artes Plásticas para crianças em Vaux, perto de Tournai. Essa experiência foi fundamental para o seu desenvolvimento artístico e pessoal, permitindo-lhe explorar novas formas de expressão e interação com o público jovem. Durante o verão desse mesmo ano, Al Berto deslocou-se para Málaga, onde começou a redigir duas obras importantes: Pages de l'astronaute halluciné e L'engoulevent. Estas criações refletem a transição do autor da pintura para a literatura, marcando um período significativo na sua carreira. Em 17 de novembro de 1974, Al Berto regressou a Portugal após uma longa estadia no exterior, estabelecendo-se em Sines. Este retorno ocorreu sete meses após a Revolução dos Cravos, num período de grande transformação política e social no país. Em Sines, Al Berto escreveu o seu primeiro livro inteiramente em português, intitulado À Procura do Vento Num Jardim d'Agosto, que foi publicado em 1977.
“Sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade" extraído do poema "Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida"
Em 1976, publicou "Mar-de-Leva/Sete Textos Dedicados à Vila de Sines", uma obra que reflete sua ligação com a cidade de Sines, onde viveu sua infância e adolescência. O poema "Chegaram as máquinas para talhar a cidade que vem das águas" é o primeiro poema da obra "Mar-de-Leva". Neste trabalho, Al Berto aborda a transformação da vila de Sines, refletindo sobre a industrialização e suas consequências na paisagem e na memória coletiva. Durante a década de 1980, Al Berto atuou como animador cultural na Câmara Municipal de Sines (1981-1985), enquanto sua participação em revistas literárias se intensificou a partir de 1979. Ele alternou sua vida entre Lisboa e Sines, influenciado por sua atividade literária e pela transformação industrial que afetou Sines após a instalação de um grande complexo industrial na década de 1970."Meu Fruto de Morder, Todas as Horas" é um livro de poesia publicado por Al Berto em 1980. Esta obra destaca-se pela sua escrita e pela exploração de temas como a identidade, a solidão e a busca por sentido na vida.
O livro Trabalhos do Olhar, publicado em 1982, reflete seu estilo característico e suas preocupações temáticas, que incluem a memória, a identidade e a busca por significado em um mundo repleto de incertezas. Em 1983, é publicado o livro O Último Habitante.
“Continuo a procurar o silêncio e a paz. Mas o amor não passa de inquietação, e a beleza dos seres é efémera.”
― Al Berto, O Anjo Mudo
Salsugem é uma obra de Al Berto, publicada em 1984. Este livro é considerado um dos melhores de sua produção poética, destacando-se pela profundidade temática e pela exploração de elementos como o mar, a errância, a memória e a melancolia. A poesia de Salsugem reflete uma escrita que aborda questões contemporâneas, como a precariedade da vida e a angústia do tempo que passa. Através de imagens vívidas e metáforas ricas, Al Berto evoca sentimentos de solidão e desassossego, criando uma atmosfera onde a melancolia permeia cada verso.
"Uma Existência de Papel" é um livro de poesia publicado por Al Berto em 1985. Esta obra faz parte da vasta bibliografia do poeta português e reflete temas recorrentes em sua escrita, como a solidão, a melancolia e a relação íntima entre a vida e a escrita. O título do livro é emblemático da visão poética de Al Berto, para quem escrever era uma forma de viver. A metáfora da "existência de papel" sugere que a vida do poeta se materializa através das palavras escritas, condensando suas experiências, memórias e sensações na página.
Três Cartas da Memória das Índias, publicado em 1985, é uma obra poética de Al Berto que reflete a sua característica fusão entre o real e o imaginário, além de explorar temas como a melancolia e a ambiguidade. A obra é composta por três cartas que evocam memórias e experiências pessoais, situadas num contexto de introspecção e distanciamento emocional.
"Lunário" (1988) é uma obra publicada pela editora Contexto. Este livro é notável por sua mistura de poesia e prosa, refletindo a experiência pessoal e as vivências do autor em um estilo que combina lirismo e narrativa.
“Continuo a procurar o silêncio e a paz. Mas o amor não passa de inquietação, e a beleza dos seres é efémera.”
― Al Berto, O Anjo Mudo
O livro "O Medo" de Al Berto é uma obra poética de grande relevo que compila toda a produção do autor. Lançado originalmente em 1987, o livro foi galardoado com o Prémio Pen Club de Poesia em 1988. A obra debruça-se sobre temas como a solidão, a melancolia e a relação íntima entre a vida e a escrita, sendo o medo um elemento fulcral e estruturante da práxis poética de Al Berto. Esta antologia abarca poemas desde "À Procura do vento num jardim d'Agosto" (1974/75) até "Poeira de Lume" (1997), distribuídos por 15 livros ou secções. A edição mais recente, a 5ª, foi publicada em 2017 pela Assírio & Alvim, contando com 704 páginas. A obra inclui elementos complementares como notas, bibliografia e índices, tendo sido organizada por Luís Manuel Gaspar e Manuel de Freitas. "O Medo" consolidou a reputação de Al Berto como uma das vozes mais originais e marcantes da poesia portuguesa contemporânea. "O Medo (Trabalho Poético 1974-1990)", publicado em 1991. É uma versão expandida da antologia original "O Medo", publicada inicialmente em 1987. Esta edição reúne toda a obra poética de Al Berto escrita entre 1974 e 1990. "O Medo" (1998) é, de facto, uma edição póstuma e mais completa da obra poética de Al Berto. É uma versão expandida das edições anteriores de "O Medo", incluindo a de 1991 que abrangia o trabalho poético de 1974 a 1990. inclui poemas que não estavam presentes nas versões anteriores, abrangendo toda a produção poética de Al Berto até à sua morte em 1997.
A obra revela uma forte tendência autobiográfica, onde Al Berto utiliza suas vivências pessoais como pano de fundo para suas reflexões poéticas. O medo torna-se um veículo para discutir questões de identidade, vulnerabilidade e as complexidades das relações interpessoais. Finalmente, "O Medo" é fundamental para entender o legado de Al Berto na literatura portuguesa. O livro não só consolidou sua posição como um dos grandes poetas do século XX em Portugal, mas também continua a ressoar com novas gerações de leitores que se identificam com os temas universais abordados em sua obra.
"fugir tornou-se uma obsessão, ou então é a melhor maneira de encenar o desespero" é uma citação do livro O Medo,
O Livro dos Regressos é uma obra de Al Berto, publicada em 1989, que marca seu retorno à poesia após a publicação de sua prosa Lunário. Este livro é caracterizado por um tom mais contido e reflete sobre temas da infância, onde o autor explora a ideia do "rebeldia" que se forma nesse período da vida.
"A Secreta Vida das Imagens" é uma obra de Al Berto, publicada em 1991, que explora a intersecção entre a literatura e as artes visuais. O livro é uma coletânea de poemas inspirados em obras de artistas clássicos e contemporâneos (Giotto, Van Gogh, Chagall, Andy Warhol, Mário Cesariny, Cabrita Reis, Ilda David, entre outros), refletindo a profunda influência que essas obras tiveram sobre o autor. "A Secreta Vida das Imagens" não é apenas uma coletânea de poemas, é uma reflexão sobre a arte e a existência, mostrando como as imagens moldam nossa percepção da realidade.
"Canto do Amigo Morto" é uma obra poética de Al Berto publicada em 1991. Este livro faz parte da coleção "Livro de Artistas", lançada no âmbito da Europália. A obra é um álbum que combina poesias em português e francês de Al Berto com desenhos do artista Pedro Croft.
O livro tem 38 páginas. É uma edição bilíngue, apresentando os poemas em português e inglês.
"Luminoso Afogado" é um livro de poesia publicado em 1995. Esta obra é conhecida pela sua profundidade e pela forma como aborda temas como a melancolia, a morte e a busca por identidade. O livro apresenta um longo poema que começa com a pergunta "E se a morte te esquecesse?". Esta introdução dá o tom à obra, que explora as emoções e os pensamentos do eu lírico. Além do texto poético, "Luminoso Afogado" inclui 17 desenhos a carvão da artista Rosa Carvalho, que complementam visualmente as palavras de Al Berto.
"No dia em que fiquei cego, decidi ser fotógrafo" é uma citação de Al Berto,
" "O Anjo Mudo," publicado em 1993, é uma obra que reúne uma coleção de textos do autor. O livro compila quase todos os textos que Al Berto publicou em revistas e catálogos de exposições de pintura e fotografia, além de incluir alguns inéditos. Muitos desses textos foram lidos em público antes de serem publicados. Os textos exploram temas como a solidão, a passagem do tempo e a busca por sentido na vida.Horto de Incêndio é a última obra de poesia publicada por Al Berto, lançada em 1997. Este livro é considerado um trabalho de profunda maturidade e introspeção, explorando temas como a solidão, a dor e a busca por significado em um mundo marcado pela ausência e pela memória. A obra é amplamente autobiográfica, refletindo as experiências e emoções do autor, que viveu entre 1948 e 1997. Degredo no Sul é uma coletânea de poemas publicada em 2007 pela editora Assírio & Alvim. Esta obra é uma homenagem ao poeta, celebrando sua vida e obra, especialmente no contexto do Alentejo. O livro reúne textos que refletem a sensibilidade e a poética de Al Berto, abordando temas como a saudade, a solidão e as paisagens do sul de Portugal.
"Apresentação da Noite," publicado em 2006, é uma obra poética de Al Berto que surge como uma montagem de excertos gravados entre 1981 e 1983. Este livro é uma coletânea que reflete a busca do autor por dar voz ao silêncio que muitas vezes envolve o ato de escrever. A obra é composta por excertos de livros anteriores, como "À Procura do Vento num Jardim d'Agosto" (1977), "Meu Fruto de Morder" (1980) e "Trabalhos do Olhar" (1982), além de incluir textos inéditos. Os "Diários" de Al Berto, publicados em 2012 pela editora Assírio & Alvim, são uma coletânea de anotações e reflexões do poeta, abrangendo o período de 1982 a 1997.
“onde te vi despir regresso agora para adormecer ou chorar...”
― Al Berto, O Anjo Mudo
"A Alma Poética de Al Berto: Uma Viagem pelos Seus Poemas"
Al Berto - "Escrevo-te a sentir tudo isto..."
"Há-De Flutuar Uma Cidade No Crepúsculo Da Vida". Os Poetas – Entre Nós E As Palavras.Poema de Al Berto (dito pelo próprio)
Al Berto - "Os amigos"
Programa "Voz" - poema de Al Berto dito pela atriz Maria João Luís
"Se um dia a juventude voltasse" - Poeta Al Berto
"Pernoitas em mim" - Al Berto
Al Berto - "o sono retirou se dele com o avançar da idade"
Acordar Tarde - Al Berto / Jorge Palma
"Al Berto: Da Vida à Imortalidade Literária"
“sossega, sossega porque o mundo está täo cheio de indiferenca”
― Al Berto, Lunário
O espetáculo "Os Filhos de Rimbaud" foi um evento significativo na carreira de Al Berto, realizado no Coliseu dos Recreios em novembro de 1996, apenas um ano antes de sua morte em 1997. Este espetáculo reuniu vários artistas portugueses, incluindo Jorge Palma, Sérgio Godinho, João Peste e Rui Reininho, além do próprio Al Berto.
Durante o evento, Al Berto leu um poema que, retrospetivamente, ele interpretou como um anúncio premonitório de sua própria morte. Suas palavras sobre essa experiência são profundamente comoventes e reveladoras:
"Quando li o poema, no Coliseu, em Novembro de 1996, estive a anunciar a minha morte sem que as pessoas o soubessem. Talvez seja um privilégio um poeta anunciar a sua morte." Al Berto refletiu sobre a natureza da morte e a experiência de morrer, observando:
"Durante 15 dias vivi nessa expectativa do fim. Todos os dias morremos muitas vezes: as perdas, os erros, aquilo que arrumamos dentro de nós… Seria ideal atingir o momento da morte com uma grande serenidade." Ele expressou um desejo semelhante ao da escritora Marguerite Yourcenar, afirmando: "Yourcenar disse que queria morrer de olhos abertos e atenta. O mesmo digo eu." Estas reflexões de Al Berto sobre "Os Filhos de Rimbaud" e sua própria mortalidade foram posteriormente incluídas em sua biografia "Eis-me Acordado Muito Tempo depois de Mim", escrita por Golgona Anghel e publicada em 2006. O título desta biografia é, por si só, um verso emblemático que captura a essência da poética de Al Berto, refletindo temas recorrentes em sua obra como a passagem do tempo e a busca existencial.
“"A escrita é a minha primeira morada de silêncio" é extraída do poema "A escrita é a minha primeira morada de silêncio", presente na obra "O Medo" de Al Berto
O filme sobre Al Berto retrata a vida de um poeta português carismático que se rebelou contra as normas sociais da sua época, buscando viver de maneira livre e autêntica. Ele é apresentado como um "poeta maldito", semelhante a figuras como Baudelaire, que, apesar de se inserir nos discursos revolucionários do pós-25 de Abril, se distanciava deles por sua abordagem libertária excessiva. O filme explora a busca de Al Berto por liberdade em um ambiente conservador, onde ele critica as regras sociais e vive intensamente com amigos e amantes. A narrativa aborda as complexidades do amor e da traição, questionando o conceito de traição em um contexto libertário e "hippie". Al Berto tenta trazer para Sines as ideias que aprendeu em Bruxelas, mas enfrenta resistência. A vida íntima do poeta é censurada pela comunidade de Sines, refletindo a luta contra preconceitos. O filme destaca a tensão entre os jovens que desejam mudança e uma sociedade que resiste a essa transformação. Ele representa não apenas a figura do poeta, mas também a luta por liberdade e aceitação em uma sociedade conservadora. O filme ilustra uma Sines em transformação, que ainda não acompanhava o espírito libertário prometido pela Revolução dos Cravos.
““prometo-te que uma noite voltarei, sem bússola, regressarei com o lume do rio a guiar-me” (O Medo)
"A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite… Avancei sempre, sem destino certo. (…) E quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante dentro de mim. (O Anjo Mudo, “Aprendiz de viajante”)
Três pinturas de Al Berto
Al Berto
Helena Borralho
Created on January 8, 2025
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"Conheço o silêncio colorido das alucinações da madrugada e um dia quis descansar, procurei o que era real à minha volta e arrependi-me. "Al Berto
AL Berto
1948 - 1997
"Al Berto: Retratos de um Poeta entre Sines e o Mundo"
"Estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva de meu corpo sofrido" é extraída do poema "É tarde, meu amor"
Al Berto, um dos maiores poetas e uma das figuras mais influentes da literatura portuguesa da segunda metade do século XX, encontrou em Sines a sua casa. Nascido Alberto Raposo Pidwell Tavares em Coimbra, a 11 de janeiro de 1948, mudou-se para Sines com apenas um ano de idade. Esta vila alentejana à beira-mar tornou-se fundamental na sua formação e inspiração literária. A influência de Sines na obra de Al Berto é evidente em trabalhos como "Mar-de-leva / Sete textos dedicados à vila de Sines" (1980). Após o seu falecimento em 1997, a vila prestou-lhe homenagem, atribuindo o seu nome à Escola Secundária Poeta Al Berto, reconhecendo assim o seu contributo inestimável para a cultura portuguesa e para a própria localidade.
O artista de rua Skran, cujo nome verdadeiro é Ricardo Delaunay, criou um mural com o rosto de Al Berto na Rua Teófilo Braga, em Sines. A obra foi realizada nos dias 24 e 25 de abril de 2015, como parte de uma iniciativa da Biblioteca Municipal de Sines.
Este mural homenageia o poeta Al Berto e celebra o Dia Mundial do Livro e o 25 de Abril. O retrato de Al Berto é o elemento central da fachada do edifício anexo ao Centro de Artes de Sines, conhecido como "Casa Preta". A obra inclui uma citação do poeta: "...Quantas vezes me traiu, e amou, esta vila? Quantas vezes, com amargura, fugi dela?".
"É preciso repensar a nossa vida. Repensar a cafeteira do café, de que nos servimos de manhã, e repensar uma grande parte do nosso lugar no universo." Al Berto, in "Entrevista à revista Ler (1989)"
Al Berto, teve uma formação artística rica e diversificada. Frequentou a Escola Artística António Arroio em Lisboa, conhecida por sua especialização em artes e design, onde obteve uma sólida base em pintura. Exilou-se em Bruxelas em 1967 para evitar o serviço militar, fugindo assim da Guerra Colonial em Portugal, onde se matriculou na École Nationale Supérieure d'Architecture et des Arts Visuels (La Chambre), focando em pintura monumental. Em 1969, ele co-fundou a Montfaucon Research Center, uma associação internacional que reunia artistas plásticos, escritores e fotógrafos. Este espaço tornou-se um centro de criatividade e experimentação, promovendo uma vivência artística coletiva e a fusão entre desenho e escrita. No mesmo ano, Al Berto realizou sua primeira exposição de trabalhos de pintura na Galeria Fitzroy em Bruxelas e publicou em 1970, o livro de desenhos "Projects 69", que documentava as atividades do Montfaucon Research Center
Al Berto, durante o seu tempo em Bruxelas, integrou uma comunidade artística vibrante no Montfaucon Research Center, onde conheceu a artista Sophie Podolski, cuja influência foi significativa na sua vida e obra. Neste ambiente efervescente, Al Berto destacou-se também por suas atividades políticas, criando cartazes contra a expulsão de trabalhadores e estudantes estrangeiros. Em 1970, decidiu abandonar a pintura definitivamente, redirecionando a sua carreira artística para outras formas de expressão, como ele mesmo explicou: "Como a pintura é muito demorada de executar... à escrita basta o papel e caneta."
“Fui amada e odiada – mas, sobretudo, viajei. Viajei até se me esgotarem as forças, e a distância que me separava de Deus perder sentido.” ― Al Berto, O Anjo Mudo
Em 1972, Al Berto realizou um estágio como animador sócio-cultural no Centre Culturel du Hainaut, na Bélgica, onde teve a oportunidade de dirigir a Secção de Artes Plásticas para crianças em Vaux, perto de Tournai. Essa experiência foi fundamental para o seu desenvolvimento artístico e pessoal, permitindo-lhe explorar novas formas de expressão e interação com o público jovem. Durante o verão desse mesmo ano, Al Berto deslocou-se para Málaga, onde começou a redigir duas obras importantes: Pages de l'astronaute halluciné e L'engoulevent. Estas criações refletem a transição do autor da pintura para a literatura, marcando um período significativo na sua carreira. Em 17 de novembro de 1974, Al Berto regressou a Portugal após uma longa estadia no exterior, estabelecendo-se em Sines. Este retorno ocorreu sete meses após a Revolução dos Cravos, num período de grande transformação política e social no país. Em Sines, Al Berto escreveu o seu primeiro livro inteiramente em português, intitulado À Procura do Vento Num Jardim d'Agosto, que foi publicado em 1977.
“Sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade" extraído do poema "Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida"
Em 1976, publicou "Mar-de-Leva/Sete Textos Dedicados à Vila de Sines", uma obra que reflete sua ligação com a cidade de Sines, onde viveu sua infância e adolescência. O poema "Chegaram as máquinas para talhar a cidade que vem das águas" é o primeiro poema da obra "Mar-de-Leva". Neste trabalho, Al Berto aborda a transformação da vila de Sines, refletindo sobre a industrialização e suas consequências na paisagem e na memória coletiva. Durante a década de 1980, Al Berto atuou como animador cultural na Câmara Municipal de Sines (1981-1985), enquanto sua participação em revistas literárias se intensificou a partir de 1979. Ele alternou sua vida entre Lisboa e Sines, influenciado por sua atividade literária e pela transformação industrial que afetou Sines após a instalação de um grande complexo industrial na década de 1970."Meu Fruto de Morder, Todas as Horas" é um livro de poesia publicado por Al Berto em 1980. Esta obra destaca-se pela sua escrita e pela exploração de temas como a identidade, a solidão e a busca por sentido na vida.
O livro Trabalhos do Olhar, publicado em 1982, reflete seu estilo característico e suas preocupações temáticas, que incluem a memória, a identidade e a busca por significado em um mundo repleto de incertezas. Em 1983, é publicado o livro O Último Habitante.
“Continuo a procurar o silêncio e a paz. Mas o amor não passa de inquietação, e a beleza dos seres é efémera.” ― Al Berto, O Anjo Mudo
Salsugem é uma obra de Al Berto, publicada em 1984. Este livro é considerado um dos melhores de sua produção poética, destacando-se pela profundidade temática e pela exploração de elementos como o mar, a errância, a memória e a melancolia. A poesia de Salsugem reflete uma escrita que aborda questões contemporâneas, como a precariedade da vida e a angústia do tempo que passa. Através de imagens vívidas e metáforas ricas, Al Berto evoca sentimentos de solidão e desassossego, criando uma atmosfera onde a melancolia permeia cada verso.
"Uma Existência de Papel" é um livro de poesia publicado por Al Berto em 1985. Esta obra faz parte da vasta bibliografia do poeta português e reflete temas recorrentes em sua escrita, como a solidão, a melancolia e a relação íntima entre a vida e a escrita. O título do livro é emblemático da visão poética de Al Berto, para quem escrever era uma forma de viver. A metáfora da "existência de papel" sugere que a vida do poeta se materializa através das palavras escritas, condensando suas experiências, memórias e sensações na página.
Três Cartas da Memória das Índias, publicado em 1985, é uma obra poética de Al Berto que reflete a sua característica fusão entre o real e o imaginário, além de explorar temas como a melancolia e a ambiguidade. A obra é composta por três cartas que evocam memórias e experiências pessoais, situadas num contexto de introspecção e distanciamento emocional.
"Lunário" (1988) é uma obra publicada pela editora Contexto. Este livro é notável por sua mistura de poesia e prosa, refletindo a experiência pessoal e as vivências do autor em um estilo que combina lirismo e narrativa.
“Continuo a procurar o silêncio e a paz. Mas o amor não passa de inquietação, e a beleza dos seres é efémera.” ― Al Berto, O Anjo Mudo
O livro "O Medo" de Al Berto é uma obra poética de grande relevo que compila toda a produção do autor. Lançado originalmente em 1987, o livro foi galardoado com o Prémio Pen Club de Poesia em 1988. A obra debruça-se sobre temas como a solidão, a melancolia e a relação íntima entre a vida e a escrita, sendo o medo um elemento fulcral e estruturante da práxis poética de Al Berto. Esta antologia abarca poemas desde "À Procura do vento num jardim d'Agosto" (1974/75) até "Poeira de Lume" (1997), distribuídos por 15 livros ou secções. A edição mais recente, a 5ª, foi publicada em 2017 pela Assírio & Alvim, contando com 704 páginas. A obra inclui elementos complementares como notas, bibliografia e índices, tendo sido organizada por Luís Manuel Gaspar e Manuel de Freitas. "O Medo" consolidou a reputação de Al Berto como uma das vozes mais originais e marcantes da poesia portuguesa contemporânea. "O Medo (Trabalho Poético 1974-1990)", publicado em 1991. É uma versão expandida da antologia original "O Medo", publicada inicialmente em 1987. Esta edição reúne toda a obra poética de Al Berto escrita entre 1974 e 1990. "O Medo" (1998) é, de facto, uma edição póstuma e mais completa da obra poética de Al Berto. É uma versão expandida das edições anteriores de "O Medo", incluindo a de 1991 que abrangia o trabalho poético de 1974 a 1990. inclui poemas que não estavam presentes nas versões anteriores, abrangendo toda a produção poética de Al Berto até à sua morte em 1997.
A obra revela uma forte tendência autobiográfica, onde Al Berto utiliza suas vivências pessoais como pano de fundo para suas reflexões poéticas. O medo torna-se um veículo para discutir questões de identidade, vulnerabilidade e as complexidades das relações interpessoais. Finalmente, "O Medo" é fundamental para entender o legado de Al Berto na literatura portuguesa. O livro não só consolidou sua posição como um dos grandes poetas do século XX em Portugal, mas também continua a ressoar com novas gerações de leitores que se identificam com os temas universais abordados em sua obra.
"fugir tornou-se uma obsessão, ou então é a melhor maneira de encenar o desespero" é uma citação do livro O Medo,
O Livro dos Regressos é uma obra de Al Berto, publicada em 1989, que marca seu retorno à poesia após a publicação de sua prosa Lunário. Este livro é caracterizado por um tom mais contido e reflete sobre temas da infância, onde o autor explora a ideia do "rebeldia" que se forma nesse período da vida.
"A Secreta Vida das Imagens" é uma obra de Al Berto, publicada em 1991, que explora a intersecção entre a literatura e as artes visuais. O livro é uma coletânea de poemas inspirados em obras de artistas clássicos e contemporâneos (Giotto, Van Gogh, Chagall, Andy Warhol, Mário Cesariny, Cabrita Reis, Ilda David, entre outros), refletindo a profunda influência que essas obras tiveram sobre o autor. "A Secreta Vida das Imagens" não é apenas uma coletânea de poemas, é uma reflexão sobre a arte e a existência, mostrando como as imagens moldam nossa percepção da realidade.
"Canto do Amigo Morto" é uma obra poética de Al Berto publicada em 1991. Este livro faz parte da coleção "Livro de Artistas", lançada no âmbito da Europália. A obra é um álbum que combina poesias em português e francês de Al Berto com desenhos do artista Pedro Croft. O livro tem 38 páginas. É uma edição bilíngue, apresentando os poemas em português e inglês.
"Luminoso Afogado" é um livro de poesia publicado em 1995. Esta obra é conhecida pela sua profundidade e pela forma como aborda temas como a melancolia, a morte e a busca por identidade. O livro apresenta um longo poema que começa com a pergunta "E se a morte te esquecesse?". Esta introdução dá o tom à obra, que explora as emoções e os pensamentos do eu lírico. Além do texto poético, "Luminoso Afogado" inclui 17 desenhos a carvão da artista Rosa Carvalho, que complementam visualmente as palavras de Al Berto.
"No dia em que fiquei cego, decidi ser fotógrafo" é uma citação de Al Berto,
" "O Anjo Mudo," publicado em 1993, é uma obra que reúne uma coleção de textos do autor. O livro compila quase todos os textos que Al Berto publicou em revistas e catálogos de exposições de pintura e fotografia, além de incluir alguns inéditos. Muitos desses textos foram lidos em público antes de serem publicados. Os textos exploram temas como a solidão, a passagem do tempo e a busca por sentido na vida.Horto de Incêndio é a última obra de poesia publicada por Al Berto, lançada em 1997. Este livro é considerado um trabalho de profunda maturidade e introspeção, explorando temas como a solidão, a dor e a busca por significado em um mundo marcado pela ausência e pela memória. A obra é amplamente autobiográfica, refletindo as experiências e emoções do autor, que viveu entre 1948 e 1997. Degredo no Sul é uma coletânea de poemas publicada em 2007 pela editora Assírio & Alvim. Esta obra é uma homenagem ao poeta, celebrando sua vida e obra, especialmente no contexto do Alentejo. O livro reúne textos que refletem a sensibilidade e a poética de Al Berto, abordando temas como a saudade, a solidão e as paisagens do sul de Portugal.
"Apresentação da Noite," publicado em 2006, é uma obra poética de Al Berto que surge como uma montagem de excertos gravados entre 1981 e 1983. Este livro é uma coletânea que reflete a busca do autor por dar voz ao silêncio que muitas vezes envolve o ato de escrever. A obra é composta por excertos de livros anteriores, como "À Procura do Vento num Jardim d'Agosto" (1977), "Meu Fruto de Morder" (1980) e "Trabalhos do Olhar" (1982), além de incluir textos inéditos. Os "Diários" de Al Berto, publicados em 2012 pela editora Assírio & Alvim, são uma coletânea de anotações e reflexões do poeta, abrangendo o período de 1982 a 1997.
“onde te vi despir regresso agora para adormecer ou chorar...” ― Al Berto, O Anjo Mudo
"A Alma Poética de Al Berto: Uma Viagem pelos Seus Poemas"
Al Berto - "Escrevo-te a sentir tudo isto..."
"Há-De Flutuar Uma Cidade No Crepúsculo Da Vida". Os Poetas – Entre Nós E As Palavras.Poema de Al Berto (dito pelo próprio)
Al Berto - "Os amigos"
Programa "Voz" - poema de Al Berto dito pela atriz Maria João Luís
"Se um dia a juventude voltasse" - Poeta Al Berto
"Pernoitas em mim" - Al Berto
Al Berto - "o sono retirou se dele com o avançar da idade"
Acordar Tarde - Al Berto / Jorge Palma
"Al Berto: Da Vida à Imortalidade Literária"
“sossega, sossega porque o mundo está täo cheio de indiferenca” ― Al Berto, Lunário
O espetáculo "Os Filhos de Rimbaud" foi um evento significativo na carreira de Al Berto, realizado no Coliseu dos Recreios em novembro de 1996, apenas um ano antes de sua morte em 1997. Este espetáculo reuniu vários artistas portugueses, incluindo Jorge Palma, Sérgio Godinho, João Peste e Rui Reininho, além do próprio Al Berto. Durante o evento, Al Berto leu um poema que, retrospetivamente, ele interpretou como um anúncio premonitório de sua própria morte. Suas palavras sobre essa experiência são profundamente comoventes e reveladoras: "Quando li o poema, no Coliseu, em Novembro de 1996, estive a anunciar a minha morte sem que as pessoas o soubessem. Talvez seja um privilégio um poeta anunciar a sua morte." Al Berto refletiu sobre a natureza da morte e a experiência de morrer, observando: "Durante 15 dias vivi nessa expectativa do fim. Todos os dias morremos muitas vezes: as perdas, os erros, aquilo que arrumamos dentro de nós… Seria ideal atingir o momento da morte com uma grande serenidade." Ele expressou um desejo semelhante ao da escritora Marguerite Yourcenar, afirmando: "Yourcenar disse que queria morrer de olhos abertos e atenta. O mesmo digo eu." Estas reflexões de Al Berto sobre "Os Filhos de Rimbaud" e sua própria mortalidade foram posteriormente incluídas em sua biografia "Eis-me Acordado Muito Tempo depois de Mim", escrita por Golgona Anghel e publicada em 2006. O título desta biografia é, por si só, um verso emblemático que captura a essência da poética de Al Berto, refletindo temas recorrentes em sua obra como a passagem do tempo e a busca existencial.
“"A escrita é a minha primeira morada de silêncio" é extraída do poema "A escrita é a minha primeira morada de silêncio", presente na obra "O Medo" de Al Berto
O filme sobre Al Berto retrata a vida de um poeta português carismático que se rebelou contra as normas sociais da sua época, buscando viver de maneira livre e autêntica. Ele é apresentado como um "poeta maldito", semelhante a figuras como Baudelaire, que, apesar de se inserir nos discursos revolucionários do pós-25 de Abril, se distanciava deles por sua abordagem libertária excessiva. O filme explora a busca de Al Berto por liberdade em um ambiente conservador, onde ele critica as regras sociais e vive intensamente com amigos e amantes. A narrativa aborda as complexidades do amor e da traição, questionando o conceito de traição em um contexto libertário e "hippie". Al Berto tenta trazer para Sines as ideias que aprendeu em Bruxelas, mas enfrenta resistência. A vida íntima do poeta é censurada pela comunidade de Sines, refletindo a luta contra preconceitos. O filme destaca a tensão entre os jovens que desejam mudança e uma sociedade que resiste a essa transformação. Ele representa não apenas a figura do poeta, mas também a luta por liberdade e aceitação em uma sociedade conservadora. O filme ilustra uma Sines em transformação, que ainda não acompanhava o espírito libertário prometido pela Revolução dos Cravos.
““prometo-te que uma noite voltarei, sem bússola, regressarei com o lume do rio a guiar-me” (O Medo)
"A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar. Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos, mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite… Avancei sempre, sem destino certo. (…) E quando regressei, regressei com a ânsia do eterno viajante dentro de mim. (O Anjo Mudo, “Aprendiz de viajante”)
Três pinturas de Al Berto