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António Feliciano de Castilho - Biografia

Helena Borralho

Created on January 8, 2025

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Transcript

"Parece o mundo um túmulo / Sob estrelado manto!" extraído do poema "Cântico da Noite"

António Feliciano de Castilho

1800 - 1875

"António Feliciano de Castilho: Do Arcadismo ao Romantismo Português"

“As recordações são os únicos belos astros que adornam a noite da velhice.”

António Feliciano de Castilho nasceu em 28 de janeiro de 1800 em Lisboa, numa casa da velha rua da Torre de S. Roque (atual rua de S. Pedro de Alcântara). Ele era o segundo filho e primeiro varão do médico José Feliciano de Castilho, que servia a Corte como inspetor de hospitais militares e era também professor da Universidade de Coimbra, e de Domicilia M. Doroteia e Silva Castilho. A família era, de facto, de orientação tradicionalista, devota e monárquica. Aos 6 anos de idade, António Feliciano iniciou a sua instrução primária na "escola de meninos" do mestre Eusébio. No entanto, o seu percurso educacional seria drasticamente alterado no inverno de 1806-1807. Nesse período, o jovem Castilho contraiu um violento caso de sarampo que resultou na perda irreparável da sua visão.Apesar deste revés trágico, Castilho não permitiu que a cegueira o impedisse de prosseguir os seus estudos e ambições literárias. Adaptou-se à sua nova condição, desenvolvendo métodos alternativos de aprendizagem, como estudar ouvindo a leitura de textos. Esta resiliência e determinação viriam a definir a sua carreira futura como escritor, pedagogo e figura proeminente da literatura portuguesa.

Domicília Máxima da Silva (mãe de A. F. de Castilho)

"Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento."

Entre 1810 e 1815, António Feliciano de Castilho frequentou a Real Escola Literária do Bairro Alto com seus irmãos. Nesta instituição, aprofundou seus estudos de latim e retórica, concentrando-se especialmente nos poetas latinos, que se tornaram seus estudos prediletos1. A partir de 1816, António Castilho passou a frequentar o Mosteiro de Jesus, onde assistiu a aulas de filosofia racional e moral. Foi neste período que seus primeiros impulsos poéticos começaram a se manifestar. António Feliciano de Castilho tinha apenas 16 anos quando escreveu e publicou o "Epicédio na morte da augustíssima senhora D. Maria I, rainha fidelíssima" em 1816. Esta obra poética, dedicada à memória da rainha D. Maria I, foi recebida com grande surpresa e admiração, não apenas pela maturidade literária demonstrada por um autor tão jovem, mas também pelo facto de António Castilho ser cego desde os 6 anos de idade devido a um episódio de sarampo. O reconhecimento imediato da qualidade do poema resultou na concessão de uma pequena pensão como incentivo ao jovem escritor, um gesto que sublinhava a sua promessa como figura literária emergente. Este evento marcou o início do seu percurso público enquanto poeta e abriu portas para outras oportunidades, como a publicação de novos trabalhos e o reconhecimento no meio literário português. António Feliciano de Castilho, publicou em 1818 um poemeto intitulado "À faustíssima aclamação de s. m. o sr. D. João VI ao trono". Esta obra, juntamente com um "Epicédio na morte da augustíssima senhora D. Maria I, rainha fidelíssima", que escrevera anteriormente aos 16 anos, rendeu-lhe um reconhecimento significativo

"Hora dos melancólicos, / Saudosos devaneios! / Hora que aos gostos íntimos / Abres os castos seios!"

O ano de 1820 marcou um período de intensa produção criativa para o jovem Castilho. Num contexto de profundas transformações políticas em Portugal, ele publicou obras que revelavam sensibilidade política e artística. Nesse ano, publicou a "Ode à morte de Gomes Freire e seus sócios", num contexto político marcado pela memória da execução de Gomes Freire de Andrade. A obra, publicada anonimamente, traduzia o sentimento de profunda injustiça que pairava entre os intelectuais portugueses da época. A composição de Castilho sobre Gomes Freire - executado em 1817 sob acusações de conspiração - representava mais do que um mero exercício poético. Era um ato de resistência cultural, uma forma de manter viva a memória de um mártir liberal num período de significativas transformações políticas. "A Liberdade" foi um elogio dramático publicado anonimamente por António Feliciano de Castilho em 1820. A obra tinha como destino ser representada num teatro particular, inserindo-se num contexto de efervescência política marcado pela Revolução Liberal do Porto.

A publicação ocorreu num momento crucial da história portuguesa, logo após a Revolução de 1820, quando os ideais liberais começavam a desafiar o poder estabelecido. Castilho, então um jovem poeta cego de aproximadamente 20 anos, utilizava a literatura como instrumento de expressão política. Nos dias 21 e 22 de novembro de 1820, Castilho protagonizou um momento memorável na Sala dos Capelos da Universidade de Coimbra. Recitou diversas composições que seriam posteriormente compiladas numa coletânea, demonstrando o seu virtuosismo literário perante a comunidade académica (As composições recitadas por Castilho foram reunidas e publicadas na Colecção de Poemas de Coimbra). Em 1821, Castilho publicou "Cartas de Eco e Narciso", um poema pseudoclássico dedicado à mocidade académica. A obra revelava a sua formação literária eclética, transitando entre as tradições clássicas e as emergentes correntes românticas.

As "Cartas de Echo e Narciso" e a História Romântica com Maria Isabel

A publicação das "Cartas de Echo e Narciso" em 1821 teve um impacto literário e pessoal significativo na vida de António Feliciano de Castilho. A obra não apenas conquistou imediatamente o público leitor, especialmente o feminino, como também desencadeou uma surpreendente história romântica. Uma jovem religiosa do convento de Vairão, D. Maria Isabel de Baena Coimbra Portugal, inspirou-se profundamente na obra. Usando o pseudônimo Maria da Expectação Silva e Carvalho, ela iniciou uma correspondência com Castilho, identificando-se como uma "nova Eco" e desafiando-o a responder como Narciso.A troca de correspondências tornou-se intensa, com mais de 700 cartas trocadas. A intriga romântica culminou numa série de quadras publicadas no livro "Amor e Melancolia", lançado em Coimbra em 1828. Curiosamente, o casal se casou em 29 de novembro de 1834, após a extinção das ordens religiosas, sem sequer ter se conhecido pessoalmente antes. Contudo, o casamento foi breve, com Maria Isabel falecendo a 1 de fevereiro de 1837, aos 40 anos.O ano de 1840 foi particularmente difícil para António Feliciano de Castilho. Acompanhou seu irmão Augusto à ilha da Madeira numa tentativa de recuperação da saúde, mas assistiu ao seu falecimento no último dia do ano, a 31 de dezembro. Neste período conturbado, Castilho não deixou de produzir. Publicou em 1839, os "Quadros Históricos de Portugal", uma obra destinada a vulgarizar a história portuguesa. A Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis editou oito fascículos, contando com a colaboração de Alexandre Herculano, que escreveu o último quadro. No mesmo ano de 1839, Castilho contraiu segundas núpcias com D. Ana Carlota Xavier Vidal, natural da Madeira. Ela viria a falecer em 1871. Após sua estadia na Madeira, Castilho voltou a Lisboa e, em 1841, fundou a Revista Universal Lisbonense, que se destacou por sua contribuição à agricultura, indústria, artes e letras. Além disso, ele fundou a Sociedade dos Amigos das Letras e Artes e promoveu a criação de escolas gratuitas na Madeira. Castilho também se dedicou à luta pela adoção do seu Método Português de leitura, publicando diversas obras pedagógicas e enfrentando controvérsias sobre suas propostas educacionais.

"Já tenho treze anos, / Que os fiz por Janeiro: / Madrinha, casai-me / Com Pedro gaiteiro."

"Escavações Poéticas" é uma obra poética de António Feliciano de Castilho, publicada em 1844 em Lisboa. Esta coletânea de 294 páginas incorpora muitos versos que Castilho escreveu durante sua estadia em Castanheira do Vouga, onde se dedicou ao estudo dos clássicos e à produção literária. Um exemplo do estilo poético presente em "Escavações Poéticas" pode ser visto no poema "Os Sonhos". A Noite do Castelo" é uma obra poética publicada em 1836. Esta obra é o elemento central de uma coletânea intitulada "A Noite do Castelo e Os Ciúmes do Bardo", que inclui outros textos em prosa e verso. "Mil e Um Mistérios: Romance dos Romances" é uma obra pouco conhecida de Castilho publicada originalmente em 1845. "Crónica Certa e Muito Verdadeira de Maria da Fonte" é uma obra publicada originalmente em 1846. Esta obra é um relato da revolta popular conhecida como Maria da Fonte, que ocorreu em Portugal em 1846. O livro mistura factos históricos com elementos ficcionais, apresentando uma narrativa vívida e, por vezes, humorística dos eventos. "O Presbitério da Montanha" é uma obra publicada originalmente em 1846. O livro foi escrito durante o período em que Castilho residiu em Castanheira do Vouga. "Felicidade pela Agricultura" é uma obra significativa de António Feliciano de Castilho, publicada em 1848 após uma estadia do autor em Ponta Delgada. Este livro apresenta uma visão utópica e romântica da vida rural, propondo a agricultura como base para a felicidade e o desenvolvimento social. A obra reflete uma resistência ao processo de industrialização, visto como uma ameaça ao modo de vida rural tradicional1. Castilho apresenta a agricultura como solução para os males do século, numa tentativa de superar a antinomia entre campo e cidade. "Felicidade pela Agricultura" teve um impacto significativo no pensamento da época, influenciando figuras como Alexandre Herculano. António Feliciano de Castilho publicou "Estreias Poético-Musicais para o ano LIII" em 1853.

A Questão Coimbrã: Uma Revolução Literária em Portugal

Em 1850, após regressar a Lisboa, Castilho iniciou a defesa do seu controverso Método de Leitura Repentina, também conhecido como "método Castilho" ou "método Português". Este método visava ensinar a leitura de forma célere e eficaz, tendo Castilho chegado a promovê-lo pessoalmente no Brasil em 1855. O método de Castilho enfrentou diversas críticas, incluindo acusações de plágio, uso inadequado de figuras para representar letras, e a alegação de que sobrecarregava a memória das crianças com regras ortográficas em verso. Em resposta, Castilho publicou folhetos como "Tosquia de um camelo" (1853) e "Ajuste de contas com os adversários do método português" (1854). Em 1853, Castilho foi nomeado comissário da Instrução Primária em Portugal, um cargo que assumiu em meio a intensos debates sobre o seu método de ensino. Esta polémica tornou-se uma das mais longas e acirradas na história do ensino em Portugal.

Da esquerda para a direita: Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Antero de Quental, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro.

A controvérsia atingiu o seu auge em 1865, quando Castilho, então o último representante vivo da primeira geração romântica portuguesa, publicou a famosa "Carta ao Editor" no Poema da Mocidade de Pinheiro Chagas. Este texto desencadeou a célebre Questão Coimbrã, uma das mais importantes polémicas literárias portuguesas do século XIX. A Questão Coimbrã representou muito mais do que uma simples disputa literária: foi um movimento de rutura geracional que desafiou os estabelecidos cânones românticos. De um lado, estava António Feliciano de Castilho, representante máximo do romantismo oficial, defensor de uma literatura ornamental e profundamente sentimental. Do outro lado, um grupo de jovens estudantes da Universidade de Coimbra - Antero de Quental, Teófilo Braga e Vieira de Castro - que traziam consigo ventos de mudança.

"Recordas-te, ingrata, Quando eu te dizia, Que em sonhos Armia Cedia aos meus ais? Sorrias, coravas, Fugias, juravas Que nunca os meus sonhos Seriam leais."

Em 1862, publicou a tradução dos Fastos de Ovídeo em seis volumes, acompanhada de extensas notas escritas por diversos escritores portugueses. O Outono é uma coleção de poesias de António Feliciano de Castilho publicada em 1863. Em 1866, António Feliciano de Castilho viajou para Paris acompanhado de seu irmão José Feliciano de Castilho, onde foi apresentado a Alexandre Dumas, de quem era um apaixonado admirador. Nesse mesmo ano, Castilho publicou em Paris a obra A Lírica de Anacreonte. Publicou em 1867, em Paris, uma edição da tradução das Geórgicas de Virgílio. Em 1868, publicou Ciúmes do Bardo, com tradução em italiano feita pelo próprio autor.O título de Visconde de Castilho foi concedido a António Feliciano de Castilho por D. Luís I de Portugal, através de decreto de 25 de maio de 1870. António Feliciano de Castilho colaborou extensivamente em diversos jornais e periódicos ao longo de sua carreira. Sua participação na imprensa foi intensa e diversificada, abrangendo várias publicações importantes da época ( A Águia (seu primeiro periódico após a restauração da liberdade); A Águia do Ocidente; A Guarda Avançada; A Guarda Avançada dos Domingos; O Jornal dos Amigos das Letras; O Nacional (de Lisboa); O Patriota; A Revolução de Setembro; O Independente; A Restauração; O Jornal de Belas-Artes; O Panorama; O Diário do Governo). António Feliciano de Castilho faleceu em 18 de junho de 1875 em Lisboa, aos 75 anos de idade. Em 28 de janeiro de 1900, para marcar o centenário de seu nascimento, foi colocada uma lápide comemorativa no prédio da rua de São Pedro de Alcântara, local onde Castilho nasceu em 28 de janeiro de 1800.