"Todas as casas onde há livros e quadros e discos são bonitas. E são feias todas as casas, por mais luxuosas, onde faltem essas coisas"
Eugénio de Andrade
1923 - 2005
"Eugénio de Andrade: O Artesão das Palavras"
“O amor é uma ave a tremer nas mãos duma criança. Serve-se de palavras por ignorar que as manhãs mais limpas não têm voz.” extraída do poema "Quase nada" de Eugénio de Andrade
José Fontinhas, conhecido pelo pseudónimo Eugénio de Andrade, nasceu a 19 de janeiro de 1923 em Póvoa de Atalaia, uma pequena aldeia da Beira Baixa entre o Fundão e Castelo Branco. Filho de uma família de camponeses, cresceu principalmente com a mãe, que se tornou uma figura central na sua vida e poesia. Seu pai, proveniente de uma família de camponeses abastados, teve pouca presença na sua vida devido a um casamento breve.
Entrou para a escola da sua aldeia natal, Póvoa de Atalaia, aos 6 anos. Um ano depois, mudou-se com a mãe para Castelo Branco. Em 1932, aos 9 anos, estabeleceu-se em Lisboa, onde seu pai se havia fixado, permanecendo na cidade durante 11 anos.
Durante este período, concluiu a instrução primária e continuou os seus estudos. Em 1935, aos 12 anos, despertou um profundo interesse pela leitura, passando horas em bibliotecas públicas. Foi também nesta fase que começou a escrever os seus primeiros poemas, dando início à sua carreira literária e cimentando as bases para se tornar um dos poetas mais influentes de Portugal.
A relação com a mãe foi fundamental para o desenvolvimento do poeta. Eugénio de Andrade afirmou: "A minha ligação à infância é, sobretudo, uma ligação à minha mãe e à minha terra, porque, no fundo, vivemos um para o outro". Esta ligação profunda com a mãe e com as suas raízes rurais viria a influenciar significativamente a sua obra poética.
"A poesia não faz falta a ninguém: nem a mim escrevê-la nem aos outros lê-la."
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, começou a escrever os seus primeiros versos em 1936. Em 1938, enviou alguns poemas ao poeta António Botto, que se interessou em conhecê-lo. No ano seguinte, em 1939, publicou o seu primeiro poema intitulado "Narciso". Esta obra marca o início da sua carreira literária e, pouco tempo depois, Andrade adotou o seu nome artístico.
Em 1941, fez-se a primeira referência pública à poesia de Eugénio de Andrade durante uma conferência proferida por Joel Serrão, seu amigo, na Faculdade de Letras de Lisboa, com o tema “A Nova Humanidade da Poesia Nova”.
Passa a assinar
Eugénio de Andrade logo nos livros que se seguiram àquela primeira
publicação, Adolescente (1942) e Pureza (1945). Mais tarde renegados, e dos quais Eugénio de Andrade recupera apenas poucos poemas, «Canção» e «Acorde» do primeiro e seis do segundo que incluirá, em 1977, no volume intitulado Primeiros Poemas.
"Procura a maravilha. Onde um beijo sabe a barcos e bruma." é parte do poema "Procura a maravilha"
Em 1943, Eugénio de Andrade instalou-se na cidade de Coimbra, onde formou amizades com figuras literárias como Afonso Duarte, Carlos de Oliveira, Eduardo Lourenço e Miguel Torga. Em 1946, publicou uma Antologia Poética de García Lorca e, no final desse ano, regressou a Lisboa. Em 1947, ingressou no funcionalismo público e, em 1948, lançou "As Mãos e os Frutos", que se tornaria o seu livro de consagração e o mais reeditado da sua obra.
Durante este período, Andrade também conviveu com outros poetas notáveis, como Mário Cesariny e Sophia de Mello Breyner Andresen. A sua obra é marcada por uma sensibilidade lírica profunda e uma exploração intensa dos temas da identidade, amor e natureza. "As Mãos e os Frutos" é frequentemente considerado um marco na poesia portuguesa do século XX.
"Desde cedo me encontrei desinteressado de coisas que interessavam à maioria. Na adolescência, tive duas fascinações: a santidade e a poesia. A santidade, adeus, aos catorze anos isso estava arrumado. Ficou a poesia" palavras de Eugénio de Andrade
Em 1956, a morte da mãe de Eugénio de Andrade teve um impacto profundo em sua obra, levando-o a publicar, em 1958, o livro Coração do Dia, que é considerado uma homenagem à sua memória. Neste trabalho, Eugénio de Andrade expressa a dor da perda e a saudade, utilizando a poesia como um meio para explorar e transmitir seus sentimentos mais íntimos sobre a relação com sua mãe. Eugénio de Andrade dedicou vários poemas à sua mãe, sendo o mais notável o "Poema à Mãe", que reflete a complexidade da relação entre mãe e filho. Neste poema, ele expressa sentimentos de amor, saudade e a dor da separação, ao mesmo tempo em que aborda as mudanças que ocorrem na vida. "As Mães" de Eugénio de Andrade é um ensaio que reflete sobre a figura materna, onde Andrade explora a complexidade e a importância das mães na vida dos filhos e na sociedade.
"No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos." Uma citação impactante sobre o amor pela mãe de Eugénio de Andrade.
Durante os anos 50, Eugénio de Andrade também estabeleceu contatos com poetas espanhóis da Geração de 27 e cultivou amizades com figuras como Teixeira de Pascoaes e Jorge de Sena. Além de Coração do Dia, ele publicou outros títulos importantes, como As Palavras Interditas (1951), Até Amanhã (1956) e Mar de Setembro (1961).
"Os amigos amei despido de ternura fatigada; uns iam, outros vinham, a nenhum perguntava porque partia, porque ficava; era pouco o que tinha, pouco o que dava, mas também só queria partilhar a sede de alegria por mais amarga."
— Este trecho do poema "Os Amigos" reflete a simplicidade e a profundidade das relações de amizade.
"Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil." é tirada do poema "Para um Amigo" de Eugénio de Andrade.
Eugénio de Andrade, experimentou uma evolução significativa em sua obra, marcada por um interregno na produção poética após a publicação de Ostinato Rigore em 1964. Somente em 1971, ele lançou Obscuro Domínio, um volume que representa uma viragem na sua trajetória literária. Obscuro Domínio representa uma fase crucial na obra de Eugénio de Andrade, onde ele se distancia de suas influências anteriores para desenvolver um estilo mais pessoal e introspetivo. Através de seus poemas, ele convida os leitores a refletirem sobre o amor, a natureza e as complexidades da existência humana.
Entre 1972 e 1980, Eugénio de Andrade continuou a sua prolífica carreira literária, publicando várias obras importantes e recebendo reconhecimento pelo seu trabalho. Em 1972, Eugénio de Andrade organizou e publicou "Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões". Em 1973, lançou o livro de poesia "Véspera da Água". No ano de 1974, publicou duas obras: "Escrita da Terra" e "Homenagens e outros Epitáfios". Em 1976, lançou "Limiar dos pássaros", um livro considerado um ponto de viragem na sua obra, onde se entrelaçam os principais núcleos de ressonância autobiográfica. O ano de 1978 foi marcado pela publicação de "Memória Doutro Rio", um livro que apresenta uma experiência dos poemas em prosa. Em 1979, Eugénio de Andrade revelou-se como prosador notável com a publicação de "Rosto Precário" e em 1980, publicou "Matéria Solar", um livro caracterizado por seu metaforismo fulgurante.
"Hoje roubei todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias" do "Poema para o meu amor doente"
Durante 1982 e 1995, Eugénio de Andrade publicou obras importantes como O Peso da Sombra (1982), Branco no Branco (1984), Aquela Nuvem e Outras (1986), e O Outro Nome da Terra (1988), que exploram temas como a passagem do tempo, a natureza, a memória e a identidade. O Sal da Língua é uma obra publicada por Eugénio de Andrade em 1995, que faz parte da sua última fase literária.
Entre 1996 e 2005, Eugénio de Andrade publicou várias obras significativas que refletem sua profundidade poética e sensibilidade. Aqui estão as principais publicações desse período: Pequeno Formato, publicado em 1997, Os Lugares do Lume, publicado em 1998, é uma obra poética de Eugénio de Andrade que reúne trinta e seis poemas. "Os Sulcos da Sede" (2001) é o último livro publicado por Eugénio de Andrade. Esta obra é uma variação sobre o tema do homem velho, explorando questões de envelhecimento, sede e busca poética. Apesar do envelhecimento do poeta, os poemas mantêm sua força e não perdem faculdades. "Eugénio de Andrade recupera aquela sensação que todos temos, a partir de uma certa idade, a sensação de que somos mais novos do que aquilo que somos.» [do prefácio de Pedro Mexia].
"Devias estar aqui rente aos meus lábios para dividir contigo esta amargura dos meus dias partidos um a um."Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa, 1987,
Eugénio de Andrade, escreveu vários poemas emblemáticos que abordam o tema da infância e a figura materna. Alguns dos mais notáveis incluem:
Estes poemas ( e outros como por exemplo "Infância") refletem a importância da infância e da figura materna na obra de Eugénio de Andrade, frequentemente associadas a uma visão idílica do passado e à natureza. Estas memórias servem como um refúgio contra o envelhecimento e a passagem do tempo, temas que o poeta aborda com crescente melancolia em suas obras posteriores.
"Não sei nunca o que me trazem as palavras, elas gostam tanto de me surpreender." do livro "Memória doutro Rio" de Eugénio de Andrade
Em 2002, organizou a antologia "Poemas Portugueses para a Juventude". No prefácio, Eugénio de Andrade fala de sua própria experiência literária, mencionando como aos seis anos leu o "Hino do Amor" de João de Deus e, aos doze, descobriu "o Junqueiro mais incendiário".O poeta faleceu em 13 de junho de 2005, aos 82 anos, na Casa Serrúbia, no Porto.
Último Poema
"É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia."
Eugénio de Andrade, um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa, deixou como legado uma vasta obra poética marcada pela sensibilidade e pela profundidade emocional. As suas últimas palavras, que podem ser consideradas seu último poema, encontram-se no texto intitulado "Último Poema". Neste poema, Andrade reflete sobre a solidão e a melancolia que o acompanhavam, especialmente durante o Natal.
"A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável." citação de Eugénio de Andrade
“Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida.”
Eugénio de Andrade é conhecido não apenas pela sua poesia para adultos, mas também por obras voltadas para crianças e jovens. No contexto do programa "Ler +" do Ministério da Educação Português, as suas obras mais recomendadas para este público incluem: - "História da Égua Branca" (1977) - Uma narrativa que combina elementos de fantasia e moralidade, ideal para introduzir os jovens à literatura. - "Aquela Nuvem e Outras" (1986) - Uma coletânea de poemas que encantam as crianças, abordando temas simples e universais com uma linguagem acessível e musicalidade. Essas obras são frequentemente utilizadas em atividades educativas, como as promovidas por bibliotecas e escolas, para estimular o gosto pela leitura e a apreciação da poesia desde cedo. Além disso, a antologia "Poemas Portugueses para a Juventude", organizada por Eugénio de Andrade, também pode incluir poemas que são adequados para jovens leitores.
Essas publicações refletem a sensibilidade poética de Andrade e sua capacidade de se conectar com o universo infantil, transmitindo mensagens significativas através de uma linguagem lúdica e envolvente.
"Eugénio de Andrade: Poemas que Cantam"
"O mal é a ausência do homem no homem." do livro "Rosto Precário".
Eugénio de Andrade tem diversos poemas que foram musicados e se tornaram canções. Aqui estão alguns deles:
O Lagarto - Musicado por Manuela Encarnação, este poema é parte do livro Aquela Nuvem e Outras.
Adivinha - musicado por Manuela Encarnação, este poema é parte do livro Aquela Nuvem e Outras.
Não É Verdade - Esta canção, com música de Fernando Guerra, foi interpretada por Simone de Oliveira
Não Canto Porque Sonho - Musicada por Fausto
Lisboa- Interpretada pelos Trovante
Luís Cília - Dedicou álbuns inteiros à poesia de Eugénio de Andrade, como O Peso da Sombra.
As Maos E Os Frutos por Cristina Branco
As Mãos e os Frutos - com música de Fernando Lopes Graça
"As Palavras de Eugénio de Andrade: Uma Viagem pela RTP Ensina"
"O amor é uma ave a tremer nas mãos duma criança."extraída do poema "Quase Nada"
A RTP Ensina dedica uma série de conteúdos à obra de Eugénio de Andrade, um dos poetas mais influentes da literatura portuguesa. Através de programas como "Um Poema por Semana" e "Voz", a RTP apresenta a poesia de Andrade, destacando a musicalidade e a profundidade emocional que caracterizam os seus versos.
O poema"As Palavras Interditas", neste episódio, a atriz Margarida Carvalho recita o poema, que explora temas como a solidão e a busca por conexão. O poema "Um rio te espera" - recitado pelo fadista Camané - este poema transporta os ouvintes para uma reflexão sobre a solidão e as memórias associadas ao passado, com uma forte ligação à natureza e à cidade e o poema "As Palavras", Beatriz Batarda dá voz a este poema que compara as palavras a cristais e punhais, revelando a sua fragilidade e poder.
“Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida.”
Eugénio de Andrade recebeu ao longo da sua vida vários prémios que reconhecem a sua contribuição à literatura. Entre os mais notáveis estão:
Pen Clube (1986); Associação Internacional dos Críticos Literários (1986); Prémio Dom Dinis (1988); Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1989); Prémio Jean Malrieu (França, 1989); APCA (Brasil, 1991); Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (República da Sérvia, 1996); Prémio Vida Literária atribuído pela APE (2000); Prémio "Celso Emilio Ferreiro" em Orense, Galiza (2001). Em 2001, no dia 10 de maio, foi homenageado na Universidade de Bordéus durante o "Carrefour des Littératures", sendo considerado um dos mais importantes escritores do século XX. No ano seguinte, recebeu o Prémio PEN 2001 pela sua obra Os Sulcos da Sede.
A Fundação Eugénio de Andrade foi criada em 1991 na cidade do Porto, com o objetivo de estudar e divulgar a sua obra, além de organizar eventos como lançamentos de livros e recitais. Em 2005, foi distinguido com o doutoramento "Honoris Causa" pela Universidade do Porto.
Eugénio de Andrade, um dos poetas mais reconhecidos de Portugal, teve uma influência significativa tanto a nível nacional como internacional. A sua obra foi traduzida em várias línguas e publicada em diversos países, tornando-o um dos poetas portugueses mais divulgados no mundo, ao lado de Fernando Pessoa.
Eugénio de Andrade
Helena Borralho
Created on January 2, 2025
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"Todas as casas onde há livros e quadros e discos são bonitas. E são feias todas as casas, por mais luxuosas, onde faltem essas coisas"
Eugénio de Andrade
1923 - 2005
"Eugénio de Andrade: O Artesão das Palavras"
“O amor é uma ave a tremer nas mãos duma criança. Serve-se de palavras por ignorar que as manhãs mais limpas não têm voz.” extraída do poema "Quase nada" de Eugénio de Andrade
José Fontinhas, conhecido pelo pseudónimo Eugénio de Andrade, nasceu a 19 de janeiro de 1923 em Póvoa de Atalaia, uma pequena aldeia da Beira Baixa entre o Fundão e Castelo Branco. Filho de uma família de camponeses, cresceu principalmente com a mãe, que se tornou uma figura central na sua vida e poesia. Seu pai, proveniente de uma família de camponeses abastados, teve pouca presença na sua vida devido a um casamento breve. Entrou para a escola da sua aldeia natal, Póvoa de Atalaia, aos 6 anos. Um ano depois, mudou-se com a mãe para Castelo Branco. Em 1932, aos 9 anos, estabeleceu-se em Lisboa, onde seu pai se havia fixado, permanecendo na cidade durante 11 anos.
Durante este período, concluiu a instrução primária e continuou os seus estudos. Em 1935, aos 12 anos, despertou um profundo interesse pela leitura, passando horas em bibliotecas públicas. Foi também nesta fase que começou a escrever os seus primeiros poemas, dando início à sua carreira literária e cimentando as bases para se tornar um dos poetas mais influentes de Portugal.
A relação com a mãe foi fundamental para o desenvolvimento do poeta. Eugénio de Andrade afirmou: "A minha ligação à infância é, sobretudo, uma ligação à minha mãe e à minha terra, porque, no fundo, vivemos um para o outro". Esta ligação profunda com a mãe e com as suas raízes rurais viria a influenciar significativamente a sua obra poética.
"A poesia não faz falta a ninguém: nem a mim escrevê-la nem aos outros lê-la."
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, começou a escrever os seus primeiros versos em 1936. Em 1938, enviou alguns poemas ao poeta António Botto, que se interessou em conhecê-lo. No ano seguinte, em 1939, publicou o seu primeiro poema intitulado "Narciso". Esta obra marca o início da sua carreira literária e, pouco tempo depois, Andrade adotou o seu nome artístico.
Em 1941, fez-se a primeira referência pública à poesia de Eugénio de Andrade durante uma conferência proferida por Joel Serrão, seu amigo, na Faculdade de Letras de Lisboa, com o tema “A Nova Humanidade da Poesia Nova”.
Passa a assinar Eugénio de Andrade logo nos livros que se seguiram àquela primeira publicação, Adolescente (1942) e Pureza (1945). Mais tarde renegados, e dos quais Eugénio de Andrade recupera apenas poucos poemas, «Canção» e «Acorde» do primeiro e seis do segundo que incluirá, em 1977, no volume intitulado Primeiros Poemas.
"Procura a maravilha. Onde um beijo sabe a barcos e bruma." é parte do poema "Procura a maravilha"
Em 1943, Eugénio de Andrade instalou-se na cidade de Coimbra, onde formou amizades com figuras literárias como Afonso Duarte, Carlos de Oliveira, Eduardo Lourenço e Miguel Torga. Em 1946, publicou uma Antologia Poética de García Lorca e, no final desse ano, regressou a Lisboa. Em 1947, ingressou no funcionalismo público e, em 1948, lançou "As Mãos e os Frutos", que se tornaria o seu livro de consagração e o mais reeditado da sua obra.
Durante este período, Andrade também conviveu com outros poetas notáveis, como Mário Cesariny e Sophia de Mello Breyner Andresen. A sua obra é marcada por uma sensibilidade lírica profunda e uma exploração intensa dos temas da identidade, amor e natureza. "As Mãos e os Frutos" é frequentemente considerado um marco na poesia portuguesa do século XX.
"Desde cedo me encontrei desinteressado de coisas que interessavam à maioria. Na adolescência, tive duas fascinações: a santidade e a poesia. A santidade, adeus, aos catorze anos isso estava arrumado. Ficou a poesia" palavras de Eugénio de Andrade
Em 1956, a morte da mãe de Eugénio de Andrade teve um impacto profundo em sua obra, levando-o a publicar, em 1958, o livro Coração do Dia, que é considerado uma homenagem à sua memória. Neste trabalho, Eugénio de Andrade expressa a dor da perda e a saudade, utilizando a poesia como um meio para explorar e transmitir seus sentimentos mais íntimos sobre a relação com sua mãe. Eugénio de Andrade dedicou vários poemas à sua mãe, sendo o mais notável o "Poema à Mãe", que reflete a complexidade da relação entre mãe e filho. Neste poema, ele expressa sentimentos de amor, saudade e a dor da separação, ao mesmo tempo em que aborda as mudanças que ocorrem na vida. "As Mães" de Eugénio de Andrade é um ensaio que reflete sobre a figura materna, onde Andrade explora a complexidade e a importância das mães na vida dos filhos e na sociedade.
"No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe. Tudo porque já não sou o retrato adormecido no fundo dos teus olhos." Uma citação impactante sobre o amor pela mãe de Eugénio de Andrade.
Durante os anos 50, Eugénio de Andrade também estabeleceu contatos com poetas espanhóis da Geração de 27 e cultivou amizades com figuras como Teixeira de Pascoaes e Jorge de Sena. Além de Coração do Dia, ele publicou outros títulos importantes, como As Palavras Interditas (1951), Até Amanhã (1956) e Mar de Setembro (1961).
"Os amigos amei despido de ternura fatigada; uns iam, outros vinham, a nenhum perguntava porque partia, porque ficava; era pouco o que tinha, pouco o que dava, mas também só queria partilhar a sede de alegria por mais amarga." — Este trecho do poema "Os Amigos" reflete a simplicidade e a profundidade das relações de amizade.
"Para um amigo tenho sempre um relógio esquecido em qualquer fundo de algibeira. Mas esse relógio não marca o tempo inútil." é tirada do poema "Para um Amigo" de Eugénio de Andrade.
Eugénio de Andrade, experimentou uma evolução significativa em sua obra, marcada por um interregno na produção poética após a publicação de Ostinato Rigore em 1964. Somente em 1971, ele lançou Obscuro Domínio, um volume que representa uma viragem na sua trajetória literária. Obscuro Domínio representa uma fase crucial na obra de Eugénio de Andrade, onde ele se distancia de suas influências anteriores para desenvolver um estilo mais pessoal e introspetivo. Através de seus poemas, ele convida os leitores a refletirem sobre o amor, a natureza e as complexidades da existência humana.
Entre 1972 e 1980, Eugénio de Andrade continuou a sua prolífica carreira literária, publicando várias obras importantes e recebendo reconhecimento pelo seu trabalho. Em 1972, Eugénio de Andrade organizou e publicou "Versos e Alguma Prosa de Luís de Camões". Em 1973, lançou o livro de poesia "Véspera da Água". No ano de 1974, publicou duas obras: "Escrita da Terra" e "Homenagens e outros Epitáfios". Em 1976, lançou "Limiar dos pássaros", um livro considerado um ponto de viragem na sua obra, onde se entrelaçam os principais núcleos de ressonância autobiográfica. O ano de 1978 foi marcado pela publicação de "Memória Doutro Rio", um livro que apresenta uma experiência dos poemas em prosa. Em 1979, Eugénio de Andrade revelou-se como prosador notável com a publicação de "Rosto Precário" e em 1980, publicou "Matéria Solar", um livro caracterizado por seu metaforismo fulgurante.
"Hoje roubei todas as rosas dos jardins e cheguei ao pé de ti de mãos vazias" do "Poema para o meu amor doente"
Durante 1982 e 1995, Eugénio de Andrade publicou obras importantes como O Peso da Sombra (1982), Branco no Branco (1984), Aquela Nuvem e Outras (1986), e O Outro Nome da Terra (1988), que exploram temas como a passagem do tempo, a natureza, a memória e a identidade. O Sal da Língua é uma obra publicada por Eugénio de Andrade em 1995, que faz parte da sua última fase literária.
Entre 1996 e 2005, Eugénio de Andrade publicou várias obras significativas que refletem sua profundidade poética e sensibilidade. Aqui estão as principais publicações desse período: Pequeno Formato, publicado em 1997, Os Lugares do Lume, publicado em 1998, é uma obra poética de Eugénio de Andrade que reúne trinta e seis poemas. "Os Sulcos da Sede" (2001) é o último livro publicado por Eugénio de Andrade. Esta obra é uma variação sobre o tema do homem velho, explorando questões de envelhecimento, sede e busca poética. Apesar do envelhecimento do poeta, os poemas mantêm sua força e não perdem faculdades. "Eugénio de Andrade recupera aquela sensação que todos temos, a partir de uma certa idade, a sensação de que somos mais novos do que aquilo que somos.» [do prefácio de Pedro Mexia].
"Devias estar aqui rente aos meus lábios para dividir contigo esta amargura dos meus dias partidos um a um."Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa, 1987,
Eugénio de Andrade, escreveu vários poemas emblemáticos que abordam o tema da infância e a figura materna. Alguns dos mais notáveis incluem:
Estes poemas ( e outros como por exemplo "Infância") refletem a importância da infância e da figura materna na obra de Eugénio de Andrade, frequentemente associadas a uma visão idílica do passado e à natureza. Estas memórias servem como um refúgio contra o envelhecimento e a passagem do tempo, temas que o poeta aborda com crescente melancolia em suas obras posteriores.
"Não sei nunca o que me trazem as palavras, elas gostam tanto de me surpreender." do livro "Memória doutro Rio" de Eugénio de Andrade
Em 2002, organizou a antologia "Poemas Portugueses para a Juventude". No prefácio, Eugénio de Andrade fala de sua própria experiência literária, mencionando como aos seis anos leu o "Hino do Amor" de João de Deus e, aos doze, descobriu "o Junqueiro mais incendiário".O poeta faleceu em 13 de junho de 2005, aos 82 anos, na Casa Serrúbia, no Porto.
Último Poema "É Natal, nunca estive tão só. Nem sequer neva como nos versos do Pessoa ou nos bosques da Nova Inglaterra. Deixo os olhos correr entre o fulgor dos cravos e os dióspiros ardendo na sombra. Quem assim tem o verão dentro de casa não devia queixar-se de estar só, não devia."
Eugénio de Andrade, um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa, deixou como legado uma vasta obra poética marcada pela sensibilidade e pela profundidade emocional. As suas últimas palavras, que podem ser consideradas seu último poema, encontram-se no texto intitulado "Último Poema". Neste poema, Andrade reflete sobre a solidão e a melancolia que o acompanhavam, especialmente durante o Natal.
"A solidão não é forçosamente negativa, pelo contrário, até me parece um privilégio. Talvez a minha solidão seja excessiva, mas eu detestei sempre as coisas mundanas. Estar com as pessoas apenas para gastar as horas é-me insuportável." citação de Eugénio de Andrade
“Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida.”
Eugénio de Andrade é conhecido não apenas pela sua poesia para adultos, mas também por obras voltadas para crianças e jovens. No contexto do programa "Ler +" do Ministério da Educação Português, as suas obras mais recomendadas para este público incluem: - "História da Égua Branca" (1977) - Uma narrativa que combina elementos de fantasia e moralidade, ideal para introduzir os jovens à literatura. - "Aquela Nuvem e Outras" (1986) - Uma coletânea de poemas que encantam as crianças, abordando temas simples e universais com uma linguagem acessível e musicalidade. Essas obras são frequentemente utilizadas em atividades educativas, como as promovidas por bibliotecas e escolas, para estimular o gosto pela leitura e a apreciação da poesia desde cedo. Além disso, a antologia "Poemas Portugueses para a Juventude", organizada por Eugénio de Andrade, também pode incluir poemas que são adequados para jovens leitores. Essas publicações refletem a sensibilidade poética de Andrade e sua capacidade de se conectar com o universo infantil, transmitindo mensagens significativas através de uma linguagem lúdica e envolvente.
"Eugénio de Andrade: Poemas que Cantam"
"O mal é a ausência do homem no homem." do livro "Rosto Precário".
Eugénio de Andrade tem diversos poemas que foram musicados e se tornaram canções. Aqui estão alguns deles:
O Lagarto - Musicado por Manuela Encarnação, este poema é parte do livro Aquela Nuvem e Outras.
Adivinha - musicado por Manuela Encarnação, este poema é parte do livro Aquela Nuvem e Outras.
Não É Verdade - Esta canção, com música de Fernando Guerra, foi interpretada por Simone de Oliveira
Não Canto Porque Sonho - Musicada por Fausto
Lisboa- Interpretada pelos Trovante
Luís Cília - Dedicou álbuns inteiros à poesia de Eugénio de Andrade, como O Peso da Sombra.
As Maos E Os Frutos por Cristina Branco
As Mãos e os Frutos - com música de Fernando Lopes Graça
"As Palavras de Eugénio de Andrade: Uma Viagem pela RTP Ensina"
"O amor é uma ave a tremer nas mãos duma criança."extraída do poema "Quase Nada"
A RTP Ensina dedica uma série de conteúdos à obra de Eugénio de Andrade, um dos poetas mais influentes da literatura portuguesa. Através de programas como "Um Poema por Semana" e "Voz", a RTP apresenta a poesia de Andrade, destacando a musicalidade e a profundidade emocional que caracterizam os seus versos.
O poema"As Palavras Interditas", neste episódio, a atriz Margarida Carvalho recita o poema, que explora temas como a solidão e a busca por conexão. O poema "Um rio te espera" - recitado pelo fadista Camané - este poema transporta os ouvintes para uma reflexão sobre a solidão e as memórias associadas ao passado, com uma forte ligação à natureza e à cidade e o poema "As Palavras", Beatriz Batarda dá voz a este poema que compara as palavras a cristais e punhais, revelando a sua fragilidade e poder.
“Eu nem sequer gosto de escrever, Acontece-me às vezes estar tão desesperado que me refugio no papel como quem se esconde para chorar. E o mais estranho é arrancar da minha angústia palavras de profunda reconciliação com a vida.”
Eugénio de Andrade recebeu ao longo da sua vida vários prémios que reconhecem a sua contribuição à literatura. Entre os mais notáveis estão: Pen Clube (1986); Associação Internacional dos Críticos Literários (1986); Prémio Dom Dinis (1988); Grande Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (1989); Prémio Jean Malrieu (França, 1989); APCA (Brasil, 1991); Prémio Europeu de Poesia da Comunidade de Varchatz (República da Sérvia, 1996); Prémio Vida Literária atribuído pela APE (2000); Prémio "Celso Emilio Ferreiro" em Orense, Galiza (2001). Em 2001, no dia 10 de maio, foi homenageado na Universidade de Bordéus durante o "Carrefour des Littératures", sendo considerado um dos mais importantes escritores do século XX. No ano seguinte, recebeu o Prémio PEN 2001 pela sua obra Os Sulcos da Sede. A Fundação Eugénio de Andrade foi criada em 1991 na cidade do Porto, com o objetivo de estudar e divulgar a sua obra, além de organizar eventos como lançamentos de livros e recitais. Em 2005, foi distinguido com o doutoramento "Honoris Causa" pela Universidade do Porto.
Eugénio de Andrade, um dos poetas mais reconhecidos de Portugal, teve uma influência significativa tanto a nível nacional como internacional. A sua obra foi traduzida em várias línguas e publicada em diversos países, tornando-o um dos poetas portugueses mais divulgados no mundo, ao lado de Fernando Pessoa.