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ALEXANDRE O’NEILL

Helena Borralho

Created on December 18, 2024

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Transcript

Amigo é uma grande tarefa, Um trabalho sem fim, Um espaço útil, um tempo fértil, Amigo é uma grande festa! extraído do poema "Amigo" de Alexandre O'Neill

Centenário de ALEXANDRE O’NEILL

Alexandre O'Neill: O Poeta do Absurdo e da Ironia"

1924 - 1986

«Era um chato, uma tristeza, era filho de gente que não me deixava sair à rua. Era um miúdo fechado, um bocado triste, e passava muito tempo à janela. […] É curioso porque morava na Rua da Alegria e ela provocava-me um sentimento de tristeza, quando via subir as carroças com os trabalhadores de aspecto cansado… interessava-me o espectáculo das pessoas. […] Não foi uma infância feliz nem infeliz. Foi um tempo cinzento, sem relevos.»

1925, O’Neill com a mãe

Nasce em Lisboa a 19 de dezembro de 1924, no n.º 39 da Avenida Fontes Pereira de Melo, Alexandre Manuel Vahia de Castro O’Neill de Bulhões, filho de António Pereira d’Eça O’Neill de Bulhões, de profissão empregado bancário, e de Maria da Glória Vahia de Castro O’Neill de Bulhões. Alexandre O'Neill, viveu parte da sua infância e juventude na Rua da Alegria, em Lisboa. Especificamente, ele morava com sua família no número 19, 4º andar esquerdo. O poeta descreve essa época de sua vida como um período melancólico e restritivo. Ele se sentia confinado em casa, não tendo permissão dos pais para sair à rua. O'Neill passava muito tempo à janela, observando a vida que se desenrolava na rua abaixo. Ironicamente, apesar de morar na Rua da Alegria, O'Neill associava o local a sentimentos de tristeza. Ele observava as carroças que subiam a rua, transportando trabalhadores de aspeto cansado, um espetáculo que o intrigava e comovia.

"Há palavras que nos beijam como se tivessem boca..." é o primeiro verso do poema de Alexandre O'Neill, publicado na obra "No Reino da Dinamarca" pela editora Relógio D'Água em 1997.

«A partir dos quinze anos comecei a ler. Lia Júlio Verne, aqueles livros da altura que todos os rapazes liam. E escrevia versos.»

Alexandre O'Neill iniciou sua educação formal em 1932 na Escola Primária da Rua de S. José dos Carpinteiros. Em seguida, ele transitou para o ensino particular, matriculando-se no Colégio Português de Educação Feminina. Nesta instituição, O'Neill concluiu sua instrução primária e começou seus estudos liceaisA partir dos quinze anos, Alexandre O'Neill começou a explorar o mundo da leitura e da escrita, mergulhando em obras que moldariam sua formação literária. Essa fase de descoberta literária foi marcada por uma intensa curiosidade e um desejo de se expressar artisticamente. A influência de sua família foi significativa nesse processo. O'Neill cresceu em um ambiente onde a literatura era valorizada; seu pai possuía uma vasta biblioteca e a avó era escritora. Essas referências familiares alimentaram seu interesse pela poesia e pela prosa, levando-o a iniciar sua própria produção literária ainda na adolescência. Em 1942, com apenas dezassete anos, O'Neill publicou seus primeiros versos no jornal Flor do Tâmega, em Amarante.

O’Neill com a mãe e a irmã

Embora a sua atividade poética não tenha sido amplamente incentivada pela família, ele começou a ganhar reconhecimento nos círculos artísticos e intelectuais da época. Durante seus anos de liceu, O'Neill também se envolveu com movimentos poéticos contemporâneos, como o Neo-Realismo, e começou a ser conhecido como um jovem poeta promissor.

O’Neill

"Quando falas ou simulas falar de ti próprio e amalgamas passado, presente, futuro, há sempre os que perguntam se o que contaste é verdade ou não. Nunca indagam se vai ser verdade " in "Uma Coisa em Forma de Assim"

Em 1936, Alexandre O'Neill e sua família mudaram-se para a Rua Arnaldo Gama, no Bairro Social do Arco do Cego. Ele começou a estudar no Colégio Valsassina, onde teve seu primeiro contato com a poesia de Mário de Sá-Carneiro. Seu professor, Avelino Cunhal, não gostava da poesia de Sá-Carneiro, que achava "doentia", mas se tornou um mentor para O'Neill, ensinando-o sobre a poesia neorrealista. Esse ano também foi importante por eventos políticos, como a vitória de Franco na Guerra Civil Espanhola e o início da Segunda Guerra Mundial. No aspeto escolar, O'Neill teve dificuldades em Matemática e reprovou no 3.º ano do liceu. No entanto, ele conseguiu recuperar a nota em aulas particulares, terminando com uma excelente nota final de 19 valores.Em 1945, Alexandre O'Neill conheceu o poeta Mário Cesariny de Vasconcelos no café A Cubana, dando início a uma amizade e cumplicidade intelectual que seria fundamental para sua formação. Ambos compartilhavam um empenho nas atividades do MUD Juvenil e tinham uma postura crítica em relação ao Neorrealismo, tanto esteticamente quanto ideologicamente.

Alexandre com os pais e a irmã

"Quando falas ou simulas falar de ti próprio e amalgamas passado, presente, futuro, há sempre os que perguntam se o que contaste é verdade ou não. Nunca indagam se vai ser verdade " in "Uma Coisa em Forma de Assim"

O ano de 1945, foi significativo não apenas pelo encontro com Cesariny, mas também pelo contexto político e cultural da época. O MUD (Movimento de Unidade Democrática) havia sido fundado em outubro de 1945 como uma resposta à ditadura fascista em Portugal, e O'Neill e Cesariny estavam envolvidos nas suas atividades. Ainda neste ano, O'Neill publicou quatro poemas na revista Litoral: "Explosão", "Cavalos", "Noturno" e "Estátua Equestre". Esses poemas marcaram um passo importante na sua carreira literária e na sua ligação ao surrealismo, que se consolidaria nos anos seguintes com a formação do Grupo Surrealista de Lisboa.

Alexandre, aos 14 anos

Litoral : revista mensal de cultura

"Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos." in "Uma Coisa em Forma de Assim"

Alexandre O'Neill enfrentou uma relação conturbada com os pais, marcada por tensões constantes. O pai, José António, e a mãe, Maria da Glória, não apoiavam sua inclinação artística. A mãe, particularmente, rasgava seus poemas, justificando que queria desviá-lo para uma carreira mais convencional, como advogado, profissão predominante na família materna. Esses conflitos familiares intensificaram-se em 1946, levando Alexandre a sair de casa e ir viver com o tio António Vahia de Castro na Avenida Visconde de Valmor. Esse período marcou o início de sua vida como funcionário público. Durante o auge do surrealismo em Portugal, Alexandre O'Neill dedicou-se intensamente à causa surrealista, como revelam cartas enviadas a Mário Cesariny, que estava em Paris com João Moniz Pereira. Nessas correspondências, O'Neill demonstrava entusiasmo pelas atividades do Grupo Surrealista de Lisboa, fundado em 1947, e pelo dinamismo das criações coletivas, como os cadáveres esquisitos. Esse período foi marcado por uma entrega total ao movimento, refletindo sua busca por novas formas de expressão artística e rompimento com as convenções tradicionais.

Em cima: Mário Cesariny, José-Augusto França e Vespeira. Em baixo: António Pedro, Alexandre O’Neill e João Moniz Pereira

A linguagem , 1948 Alexandre O’Neill

“A minha opção é esta: viver em sociedades abertas e conseguir preservar uma margem de liberdade suficientemente grande para poder manifestar-me contra ou a favor do que eu sinta ser errado ou justo.” – Alexandre O’Neill, em Entrevista a Isabel Risques, A Tarde, Lisboa, 6.9.1984.

Nora Mitrani e Alexandre O'Neill viveram uma intensa história de amor em 1950, marcada por encontros e desencontros. Mitrani, uma poetisa francesa ligada ao surrealismo, chegou a Lisboa no final de 1949 e apresentou a conferência "La Raison Ardente". O'Neill, que traduziu o texto da conferência, apaixonou-se por ela. Após a sua partida, O'Neill planeou ir a Paris para se encontrar com Mitrani, mas a PIDE confiscou o seu passaporte, impedindo a viagem. Durante um longo interrogatório pela polícia política, O'Neill expressou sua admiração por Mitrani, que acabou por se suicidar em 1961. Este amor contrariado inspirou algumas das obras mais marcantes de O'Neill, incluindo o poema "Um Adeus Português" e o texto "Os Lobos Adoram-se". A separação forçada tornou-se um dos mitos românticos da literatura portuguesa do século XX.

Nora Mitrani

Alexandre O'Neill com Marcelino Vespeira e Nora Mitrani

"Um Adeus Português"

O'Neill expressou em várias ocasiões a influência que Mitrani teve na sua obra, incluindo a sua presença em "Poemas com Endereço", onde se encontram os "Seis Poemas Confiados à Memória de Nora Mitrani".

“A relação com as palavras é fundamental e a relação com os outros depende da relação com as palavras. Mas não sacrifico um jantar com um amigo para acabar um soneto.” – Alexandre O’Neill, em Entrevista de Clara Ferreira Alves, Expresso, Lisboa, 21.9.1985.

Alexandre O'Neill publicou o seu primeiro livro de poemas, "Tempo de Fantasmas", em 1951, na coleção "Cadernos de Poesia". No prefácio, intitulado "Pequeno Aviso do Autor ao Leitor", O'Neill distanciou-se do Surrealismo, movimento com o qual esteve associado no início da sua carreira. Embora tenha sido um dos fundadores do Grupo Surrealista de Lisboa e a sua obra inicial tenha sido influenciada por este estilo, ele desenvolveu uma voz poética própria, marcada por ironia e jogos de palavras. A sua evolução artística reflete uma combinação de vanguarda e tradição literária.

Em 1953, Alexandre O'Neill já colaborava com várias publicações literárias, como "Litoral", "Mundo Literário" e "Unicórnio", onde publicou o poema "Um Adeus Português". Nesse ano, foi preso pela PIDE no aeroporto ao esperar Maria Lamas, regressada de reuniões do Conselho Mundial da Paz. Enviado para a prisão de Caxias, permaneceu detido ), sendo libertado graças à intervenção da mãe. Este episódio reflete o seu envolvimento com a oposição ao regime salazarista, embora não fosse militante ativo.

Em 27 de dezembro de 1957, Alexandre O'Neill casou-se com Noémia Delgado e mudaram-se para a Rua do Jasmim.Em 1958, publicou "No Reino da Dinamarca" na coleção "Poesia e Verdade", onde se destaca a sua ironia, sarcasmo e cinismo, refletindo sobre desesperos e ternuras. O livro inclui poemas emblemáticos como "O Revólver de Trazer por Casa"

"Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja, / que o absurdo, mesmo em curtas doses, / defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!" do poema “Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja”

"Abandono Vigiado", publicado por Alexandre O'Neill em 1960, é uma obra que se destaca na poesia portuguesa pela sua abordagem lúdica e subversiva. Integrado na coleção "Poesia e Verdade" da Guimarães Editores, o livro apresenta uma série de poemas que exploram a condição humana através de ironia, sarcasmo e cinismo.

"Divertimento com Sinais Ortográficos" é uma obra criativa de Alexandre O'Neill, publicada em 1960, em colaboração com o designer Sebastião Rodrigues. Neste trabalho, O'Neill dá vida a 28 elementos tipográficos, atribuindo-lhes "vozes" e personalidades. A ideia surgiu enquanto ambos trabalhavam na revista Almanaque, onde O'Neill imaginou os sinais de pontuação a conversarem entre si. Por exemplo, os parêntesis expressam o desejo de estarem juntos sem palavras a separá-los, enquanto a vírgula confessa que, quando está maldisposta, complica o sentido das frases. O ponto de exclamação pede para não ser abusado. Este projeto foi incluído no livro "Abandono Vigiado" e é considerado uma homenagem ao design gráfico. A obra provoca uma reflexão sobre a linguagem e a forma como os sinais de pontuação influenciam a escrita.

"Que bem queme tem feito a levedura ‘ de cerveja! Limpou-me a casposa brotoeja ‘ e a literatura!" do poema "A Levedura de Cerveja" incluído no livro "Feira Cabisbaixa",

Em 1961, Alexandre O'Neill colaborou efetivamente com Ilse Losa na tradução do volume "Teatro I" de Bertolt Brecht para a Portugália Editora. Em 1963, traduz as letras das canções de O Círculo de Giz Caucasiano, para o volume Teatro II, de Brecht, continuando a colaboração com Ilse Losa.

Em 1965, Alexandre O'Neill publicou "Feira Cabisbaixa" pela Editora Ulisseia, na coleção Poesia e Ensaio. Esta obra representa uma metáfora poderosa de Portugal, retratando o país de forma complexa e ambivalente - amarfanhado, desesperante, mas ainda assim amado pelo autor. O livro é considerado uma espécie de "balanço de contas" do poeta, onde O'Neill realiza uma profunda autocrítica. Este exercício de introspeção é particularmente evidente no poema "Autocrítica", que se destaca como uma peça fundamental para compreender não apenas a obra do autor, mas também a sua forma de viver e interpretar o mundo ao seu redor.

Em 1962, Alexandre O'Neill publicou "Poemas com Endereço" na prestigiada coleção «Círculo de Poesia» da Livraria Moraes Editora15. Esta obra marca um momento significativo na carreira do poeta, consolidando o seu estilo característico de ironia e auto-ironia.

Esta coleção de poemas oferece uma visão crítica e introspetiva de Portugal e da condição humana, característica do estilo de O'Neill.

«O adjectivo / dá-me de comer. / Se não fora ele / o que houvera de ser? / / Vivo de acrescentar às coisas / o que elas não são. / Mas é por cálculo, / não por ilusão.» versos do poema "O Adjectivo"

Em 1966, é editada, pela Einaudi, de Turim, a tradução de poemas seus intitulada Portogallo Mio Remorso da responsabilidade de Joyce Lussu.

"Entre a Cortina e a Vidraça" é uma obra de Alexandre O'Neill publicada em 1972 pela editora Estudios Cor, em Lisboa. Este livro é notável por incluir um disco de 45 rpm com gravações dos poemas lidos pelo próprio autor

Em 1970 é editada, nos «Cadernos de Literatura» da Dom Quixote, a coletânea de textos “As Andorinhas não Têm Restaurante”, que reúne textos em prosa também editados nos livros de poesia e crónicas que publicava periodicamente em jornais.

Em 1973, Alexandre O'Neill preparou o programa "Museu Aberto" para a RTP em colaboração com Jorge Listopad.

Em 1971, casa-se com Teresa Patrício Gouveia em 4 de Agosto e muda-se para a Rua da Escola Politécnica, n.º 48-2.º, onde viverá até ao fim da vida

Em 1974, Alexandre O'Neill colaborou com Artur Ramos na produção da peça "Schweik na II Guerra Mundial" de Bertolt Brecht para a Companhia de Teatro da RTP, que estava sediada no Teatro Maria Matos.

"Andaste triste mas não foste a tristeza. Sofreste muito mas não foste a dor. Amaste imenso e eras o amor." citação de Alexandre O´Neill

Em novembro de 1975, foi lançado o primeiro número da "Critério - Revista Mensal de Cultura", uma publicação importante na cultura portuguesa após a Revolução dos Cravos. Alexandre O'Neill foi diretor-adjunto da revista, que era dirigida por João Palma-Ferreira, um intelectual ativo nas áreas de ensino, história e crítica literária. A "Critério" tinha uma linha editorial que defendia a democracia socialista, refletindo as mudanças políticas e sociais que Portugal estava a viver após o fim da ditadura. Este foco era relevante para o contexto da época, cheio de debates sobre o futuro do país. A revista contou com a colaboração de muitos escritores e pensadores notáveis, como Revista com um grande leque de colaboradores: Álvaro Guerra, António José Saraiva, Cecília Meireles, David Mourão-Ferreira, Eduardo Lourenço, João Cabral de Melo e Neto, João Gaspar Simões, João-Palma Ferreira, Jorge de Sena, José-Augusto França, Mário Cesariny, Miguel Torga, Orlando Ribeiro, Ruy Cinatti, Sophia de Mello Breyner Andresen, Vergílio Ferreira, Vitorino Magalhães Godinho, …A diversidade dos colaboradores e a qualidade dos textos tornaram a "Critério" um espaço importante para discutir cultura, literatura e política em Portugal nos anos seguintes à Revolução.

Em 1976, Alexandre O'Neill traduziu "A Mandrágora" de Maquiavel. Esta tradução foi realizada especificamente para uma produção do grupo de teatro Os Cómicos, sob a direção de Ricardo Pais.

Em 1979, edita A Saca de Orelhas, na Sá da Costa. Em torno de um tema que já vem desde «Os Velhos de Lisboa» («Velhos, ó meus queridos velhos, / saltem-me para os joelhos: / vamos brincar?»), aparece aqui um friso de poemas plenos de amor e de ternura dedicado a outros tantos velhos.

"Faço uns versos, não os tomo muito a sério." citação de Alexandre O´Neill

Em 1982, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda lançou uma obra de grande importância para a literatura portuguesa: as "Poesias Completas 1951/1981" de Alexandre O'Neill. Esta publicação, integrada na coleção Biblioteca de Autores Portugueses, representa um marco significativo na compilação da obra poética de O'Neill. Um aspeto relevante desta edição é a inclusão do livro mais recente de O'Neill à época, "As Horas já de Números Vestidas", datado de 1981. Esta adição demonstra o cuidado em apresentar uma perspetiva atualizada e completa da obra do poeta até àquele momento. A publicação destas "Poesias Completas" não só preserva o legado literário de Alexandre O'Neill, mas também facilita o acesso do público a uma das vozes mais singulares e influentes da poesia portuguesa do século XX.

Em 1984, foi publicada a segunda edição das "Poesias Completas" de Alexandre O'Neill, que foi ampliada para incluir a produção do poeta até 1983, incluindo o conjunto de poemas intitulado "Dezanove Poemas"

"Defendo-me da morte quando dou meu corpo ao seu desejo violento e lhe devoro o corpo lentamente." citação de Alexandre O´Neill

A 22 de Novembro de 1983, Alexandre O'Neill iniciou a sua colaboração no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias, com uma coluna intitulada "A Escrita por Medida". Esta coluna consistia em crónicas quinzenais onde O'Neill abordava diversos temas sugeridos pelos leitores, refletindo a sua visão crítica e sensível sobre a literatura, a arte e a vida. A primeira crónica desta série, curiosamente chamada "Os Prémios", surgiu num momento em que O'Neill acabara de ser agraciado com o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários pela sua obra "Poesias Completas, 1951-1981". Em 1985, Alexandre O'Neill teve uma reedição do seu livro "Uma Coisa em forma de Assim", agora publicada pela editora Presença. Esta edição foi revista e aumentada, permitindo que a obra alcançasse um novo público. No mesmo ano, em março, O'Neill interrompeu a sua colaboração no JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias devido a problemas de saúde, sendo internado no Hospital de Santa Maria por oito dias para realizar uma desintoxicação medicamentosa. Esses eventos refletem tanto a sua atividade literária quanto os desafios que enfrentou na sua saúde durante esse período.

"E se fôssemos rir,/ Rir de tudo tanto,/ Que à força de rir/ nos tornássemos pranto…" citação de Alexandre O´Neill

Em 1986, Alexandre O'Neill enfrentou um novo acidente cardíaco a 9 de abril. Após ser internado na unidade de cuidados intensivos do Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide, foi transferido para o Hospital Egas Moniz, onde viria a falecer a 21 de agosto. Um mês antes da sua morte, em julho, foi publicado o seu último livro, intitulado "O Princípio de Utopia, o Princípio de Realidade", que inclui os poemas "Ana Brites", "Balada tão ao Gosto Popular Português" e "Vários Outros Poemas". Este livro é caracterizado por um tom triste e melancólico, distinto dos seus trabalhos anteriores, e apresenta uma reflexão sobre a vida em dez poemas. A obra culmina numa espécie de última prece do poeta:

"Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja, que o absurdo, mesmo em curtas doses, defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!"

O livro "Já Cá Não Está Quem Falou" de Alexandre O'Neill foi publicado pela primeira vez em 2008 pela editora Assírio & Alvim. Esta obra é uma compilação póstuma de prosas dispersas do autor, cujo título foi encontrado em uma nota manuscrita no seu espólio, datável de 1981, onde O'Neill indicava que era um "título para um livro póstumo".

"Há palavras que nos beijam como se tivessem boca." citação de Alexandre O´Neill

Alexandre O'Neill, destacou-se também na área da publicidade, criando slogans memoráveis. A frase "Há mar e mar, há ir e voltar" foi criada por O'Neill para uma campanha de prevenção contra afogamentos nas praias portuguesas nos anos 80. Esta frase, inicialmente um slogan publicitário, ganhou tanta popularidade que passou a ser considerada por muitos como um provérbio. Alexandre O'Neill, criou um slogan irreverente para o Metropolitano de Lisboa: "Vá de metro, Satanás!" Esta frase era um trocadilho espirituoso com a expressão popular "Vá de retro, Satanás!". O poeta propôs o slogan em tom de brincadeira, fazendo um jogo de palavras típico de seu estilo criativo. No entanto, a administração do Metropolitano de Lisboa não apreciou o humor, e a proposta foi rapidamente rejeitada. Outros Slogans de Alexandre O´Neill: "Tofa: revelando num instante o segredo de um aroma" - Criado para o café instantâneo Tofa. "A segurança volta sempre" - Desenvolvido para uma campanha interna de segurança destinada aos motoristas da Rodoviária Nacional. "Gazcidla, o gás da cidade" - Uma versão mais consensual após a rejeição de uma proposta mais ousada (Gazcidla na cozinha é um descanso).

"Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és" - Utilizado em uma campanha para as canetas Parker."Ele não merece, mas vota no PS" para o Partido Socialista Português. "Parker preenche em silêncio o seu papel" - Outro slogan criado para a marca de canetas Parker. "Bosh é Brom acabou por ficar Bosh é Bom."

"Ser copy-writer é uma actividade engraçada pelo lado da invenção de slogans, por exemplo. Só é chata quando o cliente não percebe as nossas intenções e acha que está tudo mal. O jeito para o jogo de palavras, trocadilhos, etc., vive comigo há muito tempo e tem-me prejudicado razoavelmente na poesia, embora agora já esteja melhorzinho." Entrevista a Fernando Assis Pacheco, JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, 6.7.1982.

"Que quis eu da poesia? Que quis ela de mim? Não sei bem." citação de Alexandre O´Neill

"Gaivota" é um fado que marca a estreia de Alexandre O'Neill como letrista de fado, criado em 1969 a pedido do compositor Alain Oulman para ser interpretado por Amália Rodrigues. Este fado é frequentemente considerado um dos mais belos de sempre, destacando-se pela sua origem incomum: a música foi composta primeiro, e a letra foi escrita posteriormente a pedido expresso do compositor.

"Verde Pino, Verde Mastro" é um fado escrito por Alexandre O'Neill, publicado originalmente n'A Capital com o título "Letra para Um Fado" em 1973. Posteriormente, a música foi integrada no disco Segredo de Amália Rodrigues. A letra do fado começa com os versos: "Não há flor do verde pino que responda / A quem, como eu, dorme singela", demonstrando a típica sensibilidade poética de O'Neill aplicada ao universo do fado.

O poema "Gaivota" começa com os versos:"Se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa no desenho que fizesse, nesse céu onde o olhar é uma asa que não voa, esmorece e cai no mar.".

"Formiga Bossa Nova" é uma canção escrita por Alexandre O'Neill e composta por Alain Oulman. Embora inicialmente concebida para ser interpretada por Isabel Ruth, acabou sendo gravada por Amália Rodrigues

"Ao lado do homem vou crescendo / Defendo-me da morte quando dou / Meu corpo ao seu desejo violento / E lhe devoro o corpo lentamente" citação de Alexandre O´Neill

Poemas recitados por O'Neill e por outros artistas

Alexandre O'Neill, tem sua obra amplamente representada em vídeos disponíveis online. Há uma coleção chamada "Dizem os Poetas" que inclui O'Neill recitando sua própria poesia. O segundo volume desta coleção é dedicado a ele, com duas partes: uma onde o próprio poeta diz seus poemas e outra com novos intérpretes.

Além das recitações do próprio O'Neill, há vídeos de outros artistas interpretando seus poemas:

Miguel Fragata interpreta "Cão" em um vídeo com animação e tradução para língua gestual portuguesa

Rui Spranger recita o poema "Portugal" como parte do projeto "Um Poema por Semana"

Mário Viegas recitou o poema "Inventário" de Alexandre O'Neill.

Programa de poesia apresentado por Mário Viegas sobre a obra literária do poeta Alexandre O´Neill, no Museu da EDP na Central Tejo, em Belém.