Florbela Espanca
1894 - 1930
"A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente."
Biografia de Florbela Espanca
Uma mulher fora do comum para a sua época
Florbela Espanca, nome literário de Flor Bela Lobo, nasceu em Vila Viçosa, Alentejo, no dia 8 de dezembro de 1894. Nasceu de um relacionamento entre patrão e criada, João Maria Espanca e Antónia da Conceição Lobo. Registada como filha de pai desconhecido.
Em 1903, apenas com sete anos, começou a escrever os primeiros textos e a assinar “Flor d’Alma da Conceição”. Nesse mesmo ano, escreveu “A Vida e a Morte”, o seu primeiro poema, já demonstrativo do tom melancólico e amargo que a irá caracterizar. Em 1906, escreveu o conto “Mamã!”. Entretanto, vai apresentando os primeiros sintomas de um estado nervoso debilitado, que se irá acentuar ao longo da vida. Fica órfã de mãe aos 14 anos., sendo então criada, junto com seu irmão Apeles, na casa da madrasta Mariana e do pai, João Maria Espanca. Assim herdou o sobrenome que a tornaria conhecida no universo literário.
Florbela Espanca ingressou no Liceu Nacional de Évora (também conhecido como Liceu Masculino André de Gouveia), onde permaneceu até 1912. Ela foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar um curso liceal. Durante seus estudos no Liceu, Florbela aproveitou para ler extensivamente, requisitando diversos livros na Biblioteca Pública de Évora, incluindo obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro e Garrett.
"Florbela e o irmão Apeles
"Florbela Espanca
Irmão, pai e Florbela.
Em 8 de dezembro de 1913, aos 19 anos, Florbela casou-se com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola. Inicialmente, o casal morou no Redondo. Em 1915, devido a dificuldades financeiras, eles se mudaram para a casa dos Espanca em Évora.
Em 1916, de volta ao Redondo, Florbela reuniu uma seleção da sua produção poética desde 1915, inaugurando assim o projeto Trocando Olhares. A coletânea de oitenta e cinco poemas e três contos serviu-lhe mais tarde como ponto de partida para futuras publicações. Apesar do insucesso inicial, este projeto representou um marco importante no desenvolvimento literário de Florbela Espanca, estabelecendo as fundações para sua futura carreira como poetisa.
Florbela aos três anos de idade
"Eu": Este soneto é um dos mais conhecidos, começando com os versos "Eu sou a que no mundo anda perdida, / Eu sou a que na vida não tem norte"
Em 1917, completou o 11º ano do Curso Complementar de Letras e matriculou-se na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi uma das catorze mulheres entre trezentos e quarenta e sete alunos inscritos. Em 1919 saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. A tiragem (duzentos exemplares) esgotou-se rapidamente. Um ano mais tarde, sendo ainda casada, a escritora passou a viver com António José Marques Guimarães, alferes de Artilharia da Guarda Republicana.
Em meados do 1920 interrompeu os estudos na faculdade de Direito. Em 29 de Junho de 1921 pôde finalmente casar-se com António Guimarães. O casal passou a residir no Porto, mas, no ano seguinte, transferiu-se para Lisboa, onde Guimarães se tornou chefe de gabinete do Ministro do Exército.
O primeiro soneto “Eu”, presente no livro de estreia de Florbela, primeiramente
publicado em 1919 e intitulado Livro de mágoas
"Fanatismo": Um poema de amor apaixonado que inclui os versos "Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida / Meus olhos andam cegos de te ver!"
Florbela Espanca | Eunice Muñoz | fanatismo
Manuscrito do poema "O nosso mundo", de Florbela Espanca (Acervo BN/Portugal)
"Os versos que te fiz": Um soneto romântico que começa com "Deixa dizer-te os lindos versos raros / Que a minha boca tem para te dizer!"
Em 1 de agosto de 1922, a revista Seara Nova publicou o seu soneto "Prince charmant...", um marco significativo, pois foi a primeira vez que um texto de uma mulher foi incluído nesta publicação progressista. Este acontecimento destaca não apenas o talento de Florbela, mas também a sua relevância num contexto literário dominado por homens. Em janeiro de 1923, lançou a sua segunda coletânea de sonetos, Livro de Sóror Saudade, que foi financiada pelo seu pai. Para garantir o seu sustento, começou a dar aulas particulares de português, uma prática comum entre escritores da época
"Amar!": Um poema sobre o desejo intenso de amar, com os versos "Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui... além..."
Em 1927, Florbela Espanca iniciou a sua colaboração com o jornal D. Nuno de Vila Viçosa, sob a direção de José Emídio Amaro. Durante esse período, enfrentou dificuldades em encontrar um editor para a sua coletânea Charneca em Flor. Além disso, estava a preparar um volume de contos, que mais tarde se revelou ser O Dominó Preto, publicado postumamente apenas em 1982. Nesse mesmo ano, Florbela começou a traduzir romances para as editoras Civilização e Figueirinhas do Porto, uma atividade que veio a complementar a sua produção literária. A sua vida pessoal sofreu um duro golpe com a morte do irmão Apeles, que faleceu num trágico acidente de avião. Esta perda foi devastadora para a poetisa e inspirou-a a escrever o conjunto de contos As Máscaras do Destino, publicado postumamente em 1931.
A saúde mental de Florbela deteriorou-se após esses eventos, levando-a a uma tentativa de suicídio em 1928. A sua obra e vida pessoal refletem uma profunda sensibilidade e complexidade emocional, características que marcaram a sua produção literária.
D'ALMA - Amar "Florbela Espanca"
"Ao Vento" é um poema de Florbela Espanca que expressa a luta interna da poetisa e sua relação com a natureza, simbolizada pelo vento. O poema reflete sentimentos de liberdade, solidão e a busca por um sentido na vida.
Em 1930, Florbela começou a escrever o Diário do Último Ano, onde registou suas reflexões, angústias e experiências pessoais. Este diário, publicado apenas em 1981, abrange seus últimos meses antes de sua morte, oferecendo uma visão íntima de sua alma atormentada. Florbela expressa a busca por autoconhecimento e a luta contra a solidão e a dor emocional, revelando uma voz poética que é ao mesmo tempo vulnerável e poderosa. Durante este período, Florbela estabeleceu uma correspondência com Guido Battelli, um professor italiano que estava na Universidade de Coimbra. Ele foi responsável pela publicação de Charneca em Flor, a obra-prima da poetisa, que se tornou um marco na literatura portuguesa. A colaboração com revistas como Portugal Feminino e Civilização também destacou seu papel ativo na cena literária da época.
"Charneca em Flor" é considerado o livro mais maduro de Florbela, onde ela alcança uma expressão mais plena e liberta de suas emoções e desejos
"Ao Vento" faz parte da obra "Livro de Mágoas", onde Florbela Espanca explora suas emoções mais profundas e suas experiências pessoais.
O retrato íntimo de Florbela Espanca, a história de uma mulher de paixões.
Perdidamente Florbela- Episodio 1
Florbela enfrentou uma série de crises emocionais e tentou o suicídio em várias ocasiões ao longo de 1930. As tentativas ocorreram em outubro e novembro, culminando em sua trágica morte no dia 8 de dezembro de 1930, data em que completaria 36 anos. A causa da morte foi uma overdose de barbitúricos, especificamente Veronal, um sonífero que ela usava para lidar com sua ansiedade e problemas de saúde, incluindo um diagnóstico de edema pulmonar. A morte de Florbela Espanca gerou discussões sobre a natureza de seu suicídio — se foi premeditado ou acidental.
"Perdidamente Florbela" é uma minissérie portuguesa de três episódios, adaptada do filme "Florbela" de 2012, dirigido por Vicente Alves do Ó. O primeiro episódio aborda desde o nascimento de Florbela em 1894 até seu terceiro casamento, passando por seus dois primeiros matrimónios e o início de sua carreira literária. O segundo episódio, situado em 1925, foca na visita de Florbela a Lisboa para encontrar seu irmão Apeles, um período de turbulência emocional e conflitos familiares. O episódio final trata da morte de Apeles em um acidente de avião e o impacto desse evento na vida de Florbela, culminando em seu retorno a Vila Viçosa e sua decisão de voltar a escrever.
Perdidamente Florbela- Episodio 2
Perdidamente Florbela- Episodio 3
~"Subi ao alto, à minha Torre esguia, / Feita de fumo, névoas e luar..." poema Torre de Névoa
O poema "A Vida e a Morte" foi escrito por Florbela Espanca quando ela tinha aproximadamente 8 ou 9 anos de idade, entre 1903 e 1904. Este poema é considerado o seu primeiro trabalho poético e já demonstrava o tom melancólico e amargo que viria a caracterizar sua obra futura. Eis o poema:
A vida e a morte
O que é a vida e a morte
Aquela infernal inimiga
A vida é o sorriso
E a morte da vida a guarida
A morte tem os desgostos
A vida tem os felizes
A cova tem a tristeza
E a vida tem as raízes
A vida e a morte são
O sorriso lisonjeiro
E o amor tem o navio
E o navio o marinheiro
“Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face… E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa… mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive… Porque me não esqueço eu de viver… para viver?”
– Diário (20 de abril de 1930)
É notável que, mesmo em tão tenra idade, Florbela já abordava temas profundos como a vida e a morte, demonstrando uma maturidade precoce em sua escrita.
"(Ser Poeta) Perdidamente"
O poema "Ser Poeta" de Florbela Espanca é um dos seus mais emblemáticos e reflete a intensidade emocional e a profundidade existencial que caracterizam sua obra. Florbela Espanca, uma das maiores poetisas portuguesas, destacou-se por sua poesia confessional, marcada por temas como amor, sofrimento, saudade e morte. Em "Ser Poeta", ela expressa a essência do que significa ser poeta, abordando a sensibilidade extrema e a capacidade de sentir intensamente as dores e alegrias da existência.
O poema descreve o poeta como alguém que vive em constante inquietação e paixão, capaz de transformar sentimentos profundos em palavras. Ele é retratado como um ser que sofre e ama intensamente, que vive entre o êxtase e a dor, refletindo o próprio percurso de vida de Florbela, repleto de tormentos pessoais e buscas incessantes por felicidade.
Trovante
Pelos 125 anos do nascimento de Florbela Espanca, a editora Seven Muses lançou um livro-disco intitulado "O Fado de Florbela Espanca", que reúne 18 faixas interpretadas por importantes vozes femininas do fado português
Alinhamento CD:
01. Joana Melo – Perdidamente * • 02. Ana Laíns – Eu • 03. Cristina de Sousa – Meu Amor * • 04. Catarina Rosa – O Fado *• 05. Débora Rodrigues – Fumo * • 06. Cuca Roseta – Tortura • 07. Katia Guerreiro – Os Meus Versos• 08. Joana Amendoeira – Amar! *• 09. Sílvia Filipe – Para Quê?! • 10. Cristina Maria – Névoa Te Tornaste • 11. Ana Margarida – Contradição * • 12. Alexandros Nathanail feat. Gisela João – Versos Esparsos de Florbela • 13. Cristiana Águas – O Maior Bem * • 14. Ana Rita Prada – Volúpia * • 15. Mísia – Fado das Violetas • 16. Carla Pires – Amiga • 17. Sandra Correia – Tarde Demais • 18. Simone de Oliveira – Lágrima Ocultas *
Homenagens Poéticas
Florbela Espanca deixou uma marca profunda na literatura portuguesa, influenciando seus contemporâneos e gerações posteriores de poetas. Florbela inspirou poetas como Manuel da Fonseca e Fernando Pessoa, que reconheceram sua importância através de homenagens poéticas. Esses escritores destacaram sua singularidade e a profundidade de sua obra.
Manuel da Fonseca - Em seu poema "Para um poema a Florbela" de 1941, ele retrata Florbela de forma vívida:
"E Florbela, de negro,
esguia como quem era,
seus longos braços abria
esbanjando braçados cheios
da grande vida que tinha!"
Fernando Pessoa - Em um poema não datado intitulado "À memória de Florbela Espanca", ele descreve Florbela como:
"alma sonhadora
Irmã gêmea da minha!"
"Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida / Meus olhos andam cegos de te ver! / Não és sequer a razão do meu viver, / Pois que tu és já toda a minha vida!"
Florbela Espanca não apenas produziu poesia de alta qualidade, mas também desafiou as normas sociais de seu tempo, abrindo caminho para futuras gerações de escritoras.
""O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo." Florbela Espanca".
Forbela Espanca
8 de dezembro de 1894 a 8 de dezembro de 1930
"Amo-te tanto. E nunca te beijei... E nesse beijo, amor, que eu não te dei, guardo os versos mais lindos que te fiz."
Florbela Espanca- biografia
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Florbela Espanca
1894 - 1930
"A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente."
Biografia de Florbela Espanca
Uma mulher fora do comum para a sua época
Florbela Espanca, nome literário de Flor Bela Lobo, nasceu em Vila Viçosa, Alentejo, no dia 8 de dezembro de 1894. Nasceu de um relacionamento entre patrão e criada, João Maria Espanca e Antónia da Conceição Lobo. Registada como filha de pai desconhecido. Em 1903, apenas com sete anos, começou a escrever os primeiros textos e a assinar “Flor d’Alma da Conceição”. Nesse mesmo ano, escreveu “A Vida e a Morte”, o seu primeiro poema, já demonstrativo do tom melancólico e amargo que a irá caracterizar. Em 1906, escreveu o conto “Mamã!”. Entretanto, vai apresentando os primeiros sintomas de um estado nervoso debilitado, que se irá acentuar ao longo da vida. Fica órfã de mãe aos 14 anos., sendo então criada, junto com seu irmão Apeles, na casa da madrasta Mariana e do pai, João Maria Espanca. Assim herdou o sobrenome que a tornaria conhecida no universo literário.
Florbela Espanca ingressou no Liceu Nacional de Évora (também conhecido como Liceu Masculino André de Gouveia), onde permaneceu até 1912. Ela foi uma das primeiras mulheres em Portugal a frequentar um curso liceal. Durante seus estudos no Liceu, Florbela aproveitou para ler extensivamente, requisitando diversos livros na Biblioteca Pública de Évora, incluindo obras de Balzac, Dumas, Camilo Castelo Branco, Guerra Junqueiro e Garrett.
"Florbela e o irmão Apeles
"Florbela Espanca
Irmão, pai e Florbela.
Em 8 de dezembro de 1913, aos 19 anos, Florbela casou-se com Alberto de Jesus Silva Moutinho, seu colega da escola. Inicialmente, o casal morou no Redondo. Em 1915, devido a dificuldades financeiras, eles se mudaram para a casa dos Espanca em Évora. Em 1916, de volta ao Redondo, Florbela reuniu uma seleção da sua produção poética desde 1915, inaugurando assim o projeto Trocando Olhares. A coletânea de oitenta e cinco poemas e três contos serviu-lhe mais tarde como ponto de partida para futuras publicações. Apesar do insucesso inicial, este projeto representou um marco importante no desenvolvimento literário de Florbela Espanca, estabelecendo as fundações para sua futura carreira como poetisa.
Florbela aos três anos de idade
"Eu": Este soneto é um dos mais conhecidos, começando com os versos "Eu sou a que no mundo anda perdida, / Eu sou a que na vida não tem norte"
Em 1917, completou o 11º ano do Curso Complementar de Letras e matriculou-se na faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Foi uma das catorze mulheres entre trezentos e quarenta e sete alunos inscritos. Em 1919 saiu a sua primeira obra, Livro de Mágoas, um livro de sonetos. A tiragem (duzentos exemplares) esgotou-se rapidamente. Um ano mais tarde, sendo ainda casada, a escritora passou a viver com António José Marques Guimarães, alferes de Artilharia da Guarda Republicana. Em meados do 1920 interrompeu os estudos na faculdade de Direito. Em 29 de Junho de 1921 pôde finalmente casar-se com António Guimarães. O casal passou a residir no Porto, mas, no ano seguinte, transferiu-se para Lisboa, onde Guimarães se tornou chefe de gabinete do Ministro do Exército.
O primeiro soneto “Eu”, presente no livro de estreia de Florbela, primeiramente publicado em 1919 e intitulado Livro de mágoas
"Fanatismo": Um poema de amor apaixonado que inclui os versos "Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida / Meus olhos andam cegos de te ver!"
Florbela Espanca | Eunice Muñoz | fanatismo
Manuscrito do poema "O nosso mundo", de Florbela Espanca (Acervo BN/Portugal)
"Os versos que te fiz": Um soneto romântico que começa com "Deixa dizer-te os lindos versos raros / Que a minha boca tem para te dizer!"
Em 1 de agosto de 1922, a revista Seara Nova publicou o seu soneto "Prince charmant...", um marco significativo, pois foi a primeira vez que um texto de uma mulher foi incluído nesta publicação progressista. Este acontecimento destaca não apenas o talento de Florbela, mas também a sua relevância num contexto literário dominado por homens. Em janeiro de 1923, lançou a sua segunda coletânea de sonetos, Livro de Sóror Saudade, que foi financiada pelo seu pai. Para garantir o seu sustento, começou a dar aulas particulares de português, uma prática comum entre escritores da época
"Amar!": Um poema sobre o desejo intenso de amar, com os versos "Eu quero amar, amar perdidamente! / Amar só por amar: Aqui... além..."
Em 1927, Florbela Espanca iniciou a sua colaboração com o jornal D. Nuno de Vila Viçosa, sob a direção de José Emídio Amaro. Durante esse período, enfrentou dificuldades em encontrar um editor para a sua coletânea Charneca em Flor. Além disso, estava a preparar um volume de contos, que mais tarde se revelou ser O Dominó Preto, publicado postumamente apenas em 1982. Nesse mesmo ano, Florbela começou a traduzir romances para as editoras Civilização e Figueirinhas do Porto, uma atividade que veio a complementar a sua produção literária. A sua vida pessoal sofreu um duro golpe com a morte do irmão Apeles, que faleceu num trágico acidente de avião. Esta perda foi devastadora para a poetisa e inspirou-a a escrever o conjunto de contos As Máscaras do Destino, publicado postumamente em 1931.
A saúde mental de Florbela deteriorou-se após esses eventos, levando-a a uma tentativa de suicídio em 1928. A sua obra e vida pessoal refletem uma profunda sensibilidade e complexidade emocional, características que marcaram a sua produção literária.
D'ALMA - Amar "Florbela Espanca"
"Ao Vento" é um poema de Florbela Espanca que expressa a luta interna da poetisa e sua relação com a natureza, simbolizada pelo vento. O poema reflete sentimentos de liberdade, solidão e a busca por um sentido na vida.
Em 1930, Florbela começou a escrever o Diário do Último Ano, onde registou suas reflexões, angústias e experiências pessoais. Este diário, publicado apenas em 1981, abrange seus últimos meses antes de sua morte, oferecendo uma visão íntima de sua alma atormentada. Florbela expressa a busca por autoconhecimento e a luta contra a solidão e a dor emocional, revelando uma voz poética que é ao mesmo tempo vulnerável e poderosa. Durante este período, Florbela estabeleceu uma correspondência com Guido Battelli, um professor italiano que estava na Universidade de Coimbra. Ele foi responsável pela publicação de Charneca em Flor, a obra-prima da poetisa, que se tornou um marco na literatura portuguesa. A colaboração com revistas como Portugal Feminino e Civilização também destacou seu papel ativo na cena literária da época.
"Charneca em Flor" é considerado o livro mais maduro de Florbela, onde ela alcança uma expressão mais plena e liberta de suas emoções e desejos
"Ao Vento" faz parte da obra "Livro de Mágoas", onde Florbela Espanca explora suas emoções mais profundas e suas experiências pessoais.
O retrato íntimo de Florbela Espanca, a história de uma mulher de paixões.
Perdidamente Florbela- Episodio 1
Florbela enfrentou uma série de crises emocionais e tentou o suicídio em várias ocasiões ao longo de 1930. As tentativas ocorreram em outubro e novembro, culminando em sua trágica morte no dia 8 de dezembro de 1930, data em que completaria 36 anos. A causa da morte foi uma overdose de barbitúricos, especificamente Veronal, um sonífero que ela usava para lidar com sua ansiedade e problemas de saúde, incluindo um diagnóstico de edema pulmonar. A morte de Florbela Espanca gerou discussões sobre a natureza de seu suicídio — se foi premeditado ou acidental.
"Perdidamente Florbela" é uma minissérie portuguesa de três episódios, adaptada do filme "Florbela" de 2012, dirigido por Vicente Alves do Ó. O primeiro episódio aborda desde o nascimento de Florbela em 1894 até seu terceiro casamento, passando por seus dois primeiros matrimónios e o início de sua carreira literária. O segundo episódio, situado em 1925, foca na visita de Florbela a Lisboa para encontrar seu irmão Apeles, um período de turbulência emocional e conflitos familiares. O episódio final trata da morte de Apeles em um acidente de avião e o impacto desse evento na vida de Florbela, culminando em seu retorno a Vila Viçosa e sua decisão de voltar a escrever.
Perdidamente Florbela- Episodio 2
Perdidamente Florbela- Episodio 3
~"Subi ao alto, à minha Torre esguia, / Feita de fumo, névoas e luar..." poema Torre de Névoa
O poema "A Vida e a Morte" foi escrito por Florbela Espanca quando ela tinha aproximadamente 8 ou 9 anos de idade, entre 1903 e 1904. Este poema é considerado o seu primeiro trabalho poético e já demonstrava o tom melancólico e amargo que viria a caracterizar sua obra futura. Eis o poema:
A vida e a morte O que é a vida e a morte Aquela infernal inimiga A vida é o sorriso E a morte da vida a guarida A morte tem os desgostos A vida tem os felizes A cova tem a tristeza E a vida tem as raízes A vida e a morte são O sorriso lisonjeiro E o amor tem o navio E o navio o marinheiro
“Ponho-me, às vezes, a olhar para o espelho e a examinar-me, feição por feição: os olhos, a boca, o modelado da fronte, a curva das pálpebras, a linha da face… E esta amálgama grosseira e feia, grotesca e miserável, saberia fazer versos? Ah, não! Existe outra coisa… mas o quê? Afinal, para que pensar? Viver é não saber que se vive… Porque me não esqueço eu de viver… para viver?” – Diário (20 de abril de 1930)
É notável que, mesmo em tão tenra idade, Florbela já abordava temas profundos como a vida e a morte, demonstrando uma maturidade precoce em sua escrita.
"(Ser Poeta) Perdidamente"
O poema "Ser Poeta" de Florbela Espanca é um dos seus mais emblemáticos e reflete a intensidade emocional e a profundidade existencial que caracterizam sua obra. Florbela Espanca, uma das maiores poetisas portuguesas, destacou-se por sua poesia confessional, marcada por temas como amor, sofrimento, saudade e morte. Em "Ser Poeta", ela expressa a essência do que significa ser poeta, abordando a sensibilidade extrema e a capacidade de sentir intensamente as dores e alegrias da existência. O poema descreve o poeta como alguém que vive em constante inquietação e paixão, capaz de transformar sentimentos profundos em palavras. Ele é retratado como um ser que sofre e ama intensamente, que vive entre o êxtase e a dor, refletindo o próprio percurso de vida de Florbela, repleto de tormentos pessoais e buscas incessantes por felicidade.
Trovante
Pelos 125 anos do nascimento de Florbela Espanca, a editora Seven Muses lançou um livro-disco intitulado "O Fado de Florbela Espanca", que reúne 18 faixas interpretadas por importantes vozes femininas do fado português
Alinhamento CD: 01. Joana Melo – Perdidamente * • 02. Ana Laíns – Eu • 03. Cristina de Sousa – Meu Amor * • 04. Catarina Rosa – O Fado *• 05. Débora Rodrigues – Fumo * • 06. Cuca Roseta – Tortura • 07. Katia Guerreiro – Os Meus Versos• 08. Joana Amendoeira – Amar! *• 09. Sílvia Filipe – Para Quê?! • 10. Cristina Maria – Névoa Te Tornaste • 11. Ana Margarida – Contradição * • 12. Alexandros Nathanail feat. Gisela João – Versos Esparsos de Florbela • 13. Cristiana Águas – O Maior Bem * • 14. Ana Rita Prada – Volúpia * • 15. Mísia – Fado das Violetas • 16. Carla Pires – Amiga • 17. Sandra Correia – Tarde Demais • 18. Simone de Oliveira – Lágrima Ocultas *
Homenagens Poéticas
Florbela Espanca deixou uma marca profunda na literatura portuguesa, influenciando seus contemporâneos e gerações posteriores de poetas. Florbela inspirou poetas como Manuel da Fonseca e Fernando Pessoa, que reconheceram sua importância através de homenagens poéticas. Esses escritores destacaram sua singularidade e a profundidade de sua obra.
Manuel da Fonseca - Em seu poema "Para um poema a Florbela" de 1941, ele retrata Florbela de forma vívida: "E Florbela, de negro, esguia como quem era, seus longos braços abria esbanjando braçados cheios da grande vida que tinha!"
Fernando Pessoa - Em um poema não datado intitulado "À memória de Florbela Espanca", ele descreve Florbela como: "alma sonhadora Irmã gêmea da minha!"
"Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida / Meus olhos andam cegos de te ver! / Não és sequer a razão do meu viver, / Pois que tu és já toda a minha vida!"
Florbela Espanca não apenas produziu poesia de alta qualidade, mas também desafiou as normas sociais de seu tempo, abrindo caminho para futuras gerações de escritoras.
""O meu mundo não é como o dos outros, quero demais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que eu nem mesmo compreendo." Florbela Espanca".
Forbela Espanca
8 de dezembro de 1894 a 8 de dezembro de 1930
"Amo-te tanto. E nunca te beijei... E nesse beijo, amor, que eu não te dei, guardo os versos mais lindos que te fiz."