"A ciência, a ciência, a ciência… ", Fernando Pessoa A CIÊNCIA, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!
A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.
"A lâmpada nova", de Fernando Pessoa A lâmpada nova No fim de apagar Volta a dar a prova De estar a brilhar. Assim a alma sua Deveras desperta Quando a noite é nua E se acha deserta. Vestígio que ergueu Sem ser no lugar De onde se perdeu... Nasce devagar!
"Pedra Filosofal", António Gedeão [Rómulo de Carvalho]Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,o de dança,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultrassom, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.
"Dose certa", de João PaivaProcuro a
minha dose.
Quanto sou?
Que espaço ocupo?
Que tempo tomo?
Às vezes, sou demais,
quase veneno.
Encho com excessivas
palavras.
Melhor fora ser
silencioso solvente.
Outras vezes
devia ser mais presente.
Mais soluto.
Mais concentrado.
Sou micro-escala
quando deveria
gritar ao mundo
toda a injustiça.
Meu sonho?
Ser tónico, não tóxico.
Procuro a
minha dose,
a dose certa...
"Homem", de António Gedeão [Rómulo de Carvalho] Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.
não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.
"Fala do homem nascido", de António Gedeão [Rómulo de Carvalho]
Venho da terra assombrada,
do ventre de minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.
Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença! Que a vida é água a correr. Venho do fundo do tempo;
"Lágrima de preta", de António Gedeão [Rómulo de Carvalho] Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.
Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
"Doze signos do céu o sol percorre", de Fernando Pessoa Doze signos do céu o Sol percorre, E, renovando o curso, nasce e morre Nos horizontes do que contemplamos. Tudo em nós é o ponto de onde estamos.
Ficções da nossa mesma consciência,
Jazemos o instinto e a ciência.
E o sol parado nunca percorreu
Os doze signos que não há no céu.
"Da Terra à Lua ", de Maria Fael Esta noite, acariciei o rosto
da lua, senti a sua porosidade
irregularidade, mas também a
suavidade.
Pedi-lhe um beijo, fez-se rogada
não estava sozinha, Júpiter
acompanhava-a com as quatro luas.
Falei-lhe com amor e carinho, ela
roçou o meu rosto
abraçou-me e pediu a Saturno um anel. Os astros abençoaram a união. Esta noite beijei a Lua!
"Ah querem uma luz melhor que a do sol!", de Alberto Caeiro [Fernando Pessoa]
Ah! querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol,
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores –
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
"Física", de José SaramagoColho esta luz solar à minha volta,
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
"Física", de José SaramagoColho esta luz solar à minha volta,
No meu prisma a disperso e recomponho:
Rumor de sete cores, silêncio branco.
Como flechas disparadas do seu arco,
Do violeta ao vermelho percorremos
O inteiro espaço que aberto no suspiro
Se remata convulso em grito rouco.
Depois todo o rumor se reconverte,
Tornam as cores ao prisma que define,
À luz solar de ti e ao silêncio.
"ADN ", de Vitorino NemésioAfinal sou assim, infeliz e volúvel,
Porque minha alma guarda uma ordem diversa
De pulsões celulares ao longo do seu eixo:
Decifre-me quem saiba, que, dispersa,
Com nome A.D.N. aqui na cruz a deixo.
Nervo a pavor, fonte renal de rijo,
Cor dos meus olhos, estatura, gosto,
Quanto me importo, ó Deus, quanto me aflijo,
Tudo A.D.N. inscreve no meu rosto.
"Máquina do Mundo", de António Gedeão [Rómulo de Carvalho] O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
"Densidade", de João Paiva Quando me
centro em mim,
cresce a minha densidade.
Mais massa
no mesmo volume
das minhas possibilidades.
Cheio,
deixo de flutuar.
Ler + Ciência
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Created on November 19, 2024
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"A ciência, a ciência, a ciência… ", Fernando Pessoa A CIÊNCIA, a ciência, a ciência... Ah, como tudo é nulo e vão! A pobreza da inteligência Ante a riqueza da emoção! Aquela mulher que trabalha Como uma santa em sacrifício, Com tanto esforço dado a ralha! Contra o pensar, que é o meu vício! A ciência! Como é pobre e nada! Rico é o que alma dá e tem.
"A lâmpada nova", de Fernando Pessoa A lâmpada nova No fim de apagar Volta a dar a prova De estar a brilhar. Assim a alma sua Deveras desperta Quando a noite é nua E se acha deserta. Vestígio que ergueu Sem ser no lugar De onde se perdeu... Nasce devagar!
"Pedra Filosofal", António Gedeão [Rómulo de Carvalho]Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida tão concreta e definida como outra coisa qualquer, como esta pedra cinzenta em que me sento e descanso, como este ribeiro manso em serenos sobressaltos, como estes pinheiros altos que em verde e oiro se agitam, como estas aves que gritam em bebedeiras de azul. Eles não sabem que o sonho é vinho, é espuma, é fermento, bichinho álacre e sedento, de focinho pontiagudo, que fossa através de tudo num perpétuo movimento. Eles não sabem que o sonho é tela, é cor, é pincel, base, fuste, capitel, arco em ogiva, vitral, pináculo de catedral, contraponto, sinfonia, máscara grega, magia, que é retorta de alquimista, mapa do mundo distante,o de dança,
mapa do mundo distante, rosa-dos-ventos, Infante, caravela quinhentista, que é Cabo da Boa Esperança, ouro, canela, marfim, florete de espadachim, bastidor, passo de dança, Colombina e Arlequim, passarola voadora, pára-raios, locomotiva, barco de proa festiva, alto-forno, geradora, cisão do átomo, radar, ultrassom, televisão, desembarque em foguetão na superfície lunar. Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.
"Dose certa", de João PaivaProcuro a minha dose. Quanto sou? Que espaço ocupo? Que tempo tomo? Às vezes, sou demais, quase veneno. Encho com excessivas palavras. Melhor fora ser silencioso solvente. Outras vezes devia ser mais presente. Mais soluto. Mais concentrado. Sou micro-escala quando deveria gritar ao mundo toda a injustiça. Meu sonho? Ser tónico, não tóxico. Procuro a minha dose, a dose certa...
"Homem", de António Gedeão [Rómulo de Carvalho] Inútil definir este animal aflito. Nem palavras, nem cinzéis, nem acordes, nem pincéis são gargantas deste grito. Universo em expansão. Pincelada de zarcão desde mais infinito a menos infinito.
não tenho tempo a perder. Minha barca aparelhada solta o pano rumo ao norte; meu desejo é passaporte para a fronteira fechada. Não há ventos que não prestem nem marés que não convenham, nem forças que me molestem, correntes que me detenham. Quero eu e a Natureza, que a Natureza sou eu, e as forças da Natureza nunca ninguém as venceu. Com licença! Com licença! Que a barca se fez ao mar. Não há poder que me vença. Mesmo morto hei-de passar. Com licença! Com licença! Com rumo à estrela polar.
"Fala do homem nascido", de António Gedeão [Rómulo de Carvalho] Venho da terra assombrada, do ventre de minha mãe; não pretendo roubar nada nem fazer mal a ninguém. Só quero o que me é devido por me trazerem aqui, que eu nem sequer fui ouvido no acto de que nasci. Trago boca para comer e olhos para desejar. Com licença, quero passar, tenho pressa de viver. Com licença! Com licença! Que a vida é água a correr. Venho do fundo do tempo;
"Lágrima de preta", de António Gedeão [Rómulo de Carvalho] Encontrei uma preta que estava a chorar, pedi-lhe uma lágrima para a analisar. Recolhi a lágrima com todo o cuidado num tubo de ensaio bem esterilizado. Olhei-a de um lado, do outro e de frente: tinha um ar de gota muito transparente. Mandei vir os ácidos, as bases e os sais, as drogas usadas em casos que tais. Ensaiei a frio, experimentei ao lume, de todas as vezes deu-me o que é costume: nem sinais de negro, nem vestígios de ódio. Água (quase tudo) e cloreto de sódio.
"Doze signos do céu o sol percorre", de Fernando Pessoa Doze signos do céu o Sol percorre, E, renovando o curso, nasce e morre Nos horizontes do que contemplamos. Tudo em nós é o ponto de onde estamos. Ficções da nossa mesma consciência, Jazemos o instinto e a ciência. E o sol parado nunca percorreu Os doze signos que não há no céu.
"Da Terra à Lua ", de Maria Fael Esta noite, acariciei o rosto da lua, senti a sua porosidade irregularidade, mas também a suavidade. Pedi-lhe um beijo, fez-se rogada não estava sozinha, Júpiter acompanhava-a com as quatro luas. Falei-lhe com amor e carinho, ela roçou o meu rosto abraçou-me e pediu a Saturno um anel. Os astros abençoaram a união. Esta noite beijei a Lua!
"Ah querem uma luz melhor que a do sol!", de Alberto Caeiro [Fernando Pessoa] Ah! querem uma luz melhor que a do Sol! Querem prados mais verdes do que estes! Querem flores mais belas do que estas que vejo! A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me. Mas, se acaso me descontentam, O que quero é um sol mais sol que o Sol, O que quero é prados mais prados que estes prados, O que quero é flores mais estas flores que estas flores – Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!
"Física", de José SaramagoColho esta luz solar à minha volta, No meu prisma a disperso e recomponho: Rumor de sete cores, silêncio branco. Como flechas disparadas do seu arco, Do violeta ao vermelho percorremos O inteiro espaço que aberto no suspiro Se remata convulso em grito rouco. Depois todo o rumor se reconverte, Tornam as cores ao prisma que define, À luz solar de ti e ao silêncio.
"Física", de José SaramagoColho esta luz solar à minha volta, No meu prisma a disperso e recomponho: Rumor de sete cores, silêncio branco. Como flechas disparadas do seu arco, Do violeta ao vermelho percorremos O inteiro espaço que aberto no suspiro Se remata convulso em grito rouco. Depois todo o rumor se reconverte, Tornam as cores ao prisma que define, À luz solar de ti e ao silêncio.
"ADN ", de Vitorino NemésioAfinal sou assim, infeliz e volúvel, Porque minha alma guarda uma ordem diversa De pulsões celulares ao longo do seu eixo: Decifre-me quem saiba, que, dispersa, Com nome A.D.N. aqui na cruz a deixo. Nervo a pavor, fonte renal de rijo, Cor dos meus olhos, estatura, gosto, Quanto me importo, ó Deus, quanto me aflijo, Tudo A.D.N. inscreve no meu rosto.
"Máquina do Mundo", de António Gedeão [Rómulo de Carvalho] O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma. Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea. Espaço vazio, em suma. O resto, é a matéria. Daí, que este arrepio, este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo, esta fresta de nada aberta no vazio, deve ser um intervalo.
"Densidade", de João Paiva Quando me centro em mim, cresce a minha densidade. Mais massa no mesmo volume das minhas possibilidades. Cheio, deixo de flutuar.