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Transcript

Na rua onde morao meu país...

"Enfim, não houve forte capitão,Que não fosse também douto e ciente,Da Lácia, Grega, ou Bárbara nação,Senão da Portuguesa tão somente.Sem vergonha o não digo, que a razãoDe algum não ser por versos excelente,É não se ver prezado o verso e rima,Porque, quem não sabe arte, não na estima."

Canto V, estância 97

Os Lusíadas

Na rua onde mora o meu país, não havia nevoeiro. Cantávamos, certos de que as nossas vozes ecoariam na alma de quem lá vive. Dançávamos, convictos de que os nossos passos guiariam os pés de quem lá habita. Escrevíamos, acreditando que os nossos poemas jamais deixariam as bocas dos que ali se abrigam. Não carregávamos apenas o peso dos nossos corpos… Não… Carregávamos, sim, a identidade de toda uma nação. E, conscientes disso, éramos pura luz, uma chama obstinada a brilhar. Até que um dia, a rua ficou vazia… Abrimos os braços para o mar, e navegámos para o desconhecido. Era crucial expandir o país para mais do que uma simples rua. Era necessário levantar as armas e partir… Mesmo que não

Inês Ramos

houvesse tempo para cantar. Mesmo que não houvesse espaço para dançar. Mesmo que não houvesse tinta para escrever. E, pela primeira vez, ardíamos por dentro, sem sabermos que nos extinguiríamos pelo nevoeiro adentro. Hoje, retorno finalmente à rua onde mora o meu país. No entanto, ela já não é minha, e, muito menos, tua. Perdido no nevoeiro denso, tento cantar, mas tu já não ouves. Tento dançar, mas tu já não vês. Tento escrever, mas tu já não lês. E a luz… Tento acendê-la. Mas já toda a nação adormeceu na escuridão. Oh, meu Portugal, se apenas soubesses que ao ignorares a cultura, perdias a tua rua.