O racionalismo de Descartes
Ana Margarida Pinto
Bianca Sousa
Diogo Gonçalves
Maria Inês Cunha
1. Introdução
10. O cogito (a priori)
11. O dualismo cartesiano
2. Contextualização histórica
12. A clareza e a distinção das ideias como critério de verdade
3. O projeto cartesiano
4. A dúvida metódica
13. A ideia de Deus
5. Razões para duvidar
14. O papel da existência de Deus
6. As ilusões dos sentidos
7. A indistinção vigília-sono
15. Objeções ao racionalismo
8. Erros de raciocínio
16. Conclusão
9. A hipótese do Génio Maligno
17. Bibliografia
Índice
Introdução
Neste trabalho vamos fazer uma breve biografia de Descartes e iremos falar sobre a sua teoria racionalista, referiremos os seus vários argumentos a favor do racionalismo e objeções a alguns desses argumentos.
Contextualização histórica
Contextualização histórica
René-Descartes (1596-1650)
Foi um notável matemático e filósofo francês, que estudou no colégio jesuíta La Flèche e posteriormente estudou direito em Poitiers. Na área da matemática ficou marcado por inventar as coordenadas cartesianas através dos movimentos de uma mosca. No campo da filosofia é considerado o “pai” da filosofia moderna e criou uma perspetiva para responder ao problema do ceticismo, apelidada de racionalismo cartesiano. René foi influenciado pelo tempo em que viveu, que foi marcado por grandes transformações sociais, políticas e ideológicas. Essas mudanças puseram as certezas tradicionais em causa e revolucionaram o entendimento do universo e do lugar do ser humano no mesmo.
O projeto cartesiano
O projeto cartesiano
Para responder a questão do ceticismo generalizada, Descartes decidiu recorrer à sua própria dúvida para provar a sua impossibilidade.
Assim o filósofo tinha como objetivo estabelecer um conhecimento seguro e incontestável, para isso o seu método era duvidar de tudo o que se possa imaginar e averiguar o que resiste a esse processo, logo esse procedimento ficou conhecido como dúvida metódica.
Projeto Cartesiano
Método
Objetivo
Dúvida Metódica
Conhecimento seguro
A dúvida metódica
A dúvida metódica
A dúvida metódica ou cartesiana é o método assumido pelo filósofo que parte da dúvida e não da certeza para construir um conhecimento e assim duvidar de tudo e jamais aceitar nada como verdade absoluta até que se poda ter a certeza de que realmente se tratava de algo verdadeiro. Utilizava assim a dúvida metódica como um começo para alcançar a verdade e provar a inconsistência do ceticismo.
dúvida Cartesiana
Metódica
Universal
Provisória
Hiperbólica
- Metódica: Método que o filósofo usa para alcançar o conhecimento e provar a insustentabilidade do próprio ceticismo;
- Universal: À partida, a dúvida metódica não conhece limites e não há nada se que não seja legítimo duvidar;
- Provisória: A dúvida metódica não se trata de uma suspensão permanente do juízo, mas sim de uma decisão de considerar provisoriamente falso tudo o que seja minimamente duvidoso;
- Hiperbólica: Descartes leva a dúvida ao seu extremo, de tal modo que não se limita a suspender o juízo, mas rejeita como falso tudo aquilo que seja meramente duvidoso.
Razões para duvidar
Razões para duvidar
Descartes decide duvidar de tudo o que julgamos saber, para isso decidiu analisar as fontes das nossas crenças, se for detetado o menor grau de dúvida, temos justificação para desconsiderar todas as crenças de que ela provém.
Para isso recorreu a uma argumentação cética e teve como objetivo deitar abaixo todas as nossas crenças e verificar se alguma resiste a tamanha investigação.
As ilusões dos sentidos
As ilusões dos sentidos
Descartes começa por dizer que uma grande parte das nossas crenças são adquiridas através dos nossos sentidos. Uma vez que algumas das nossas crenças são baseadas na experiência sensível, devemos examinar se os nossos sentidos são fontes fiáveis. Dessa forma o filósofo afirma que os nossos sentidos podem nos enganar algumas vezes e por isso nunca poderemos saber se nos estão a enganar ou não, logo não poderemos confiar nas informações que por eles adquirimos, aplicando o princípio hiperbólico da dúvida.
Oposição às ilusões dos sentidos
Alguns autores consideram que este argumento não seja suficiente para nunca acreditar nos nossos sentidos, pois independentemente de nos enganarem algumas vezes, não temos boas razões para nunca acreditarmos neles, já que a maior parte dessas ilusões podem ser facilmente resolvidas recorrendo aos próprios sentidos.
Exemplo: Se pensar que uma cana está partida, e ela não estiver, posso sempre lhe tocar para confirmar que ela não está.
Em suma, podemos utilizar outros sentidos para nos certificarmos que não estamos a ser iludidos por um deles.
A indistinção vigília-sono
A indistinção vigília-sono
Descartes põe em causa se estamos realmente acordados ou se estamos a dormir, por vezes, acreditamos que estamos a ter uma determinada experiência, quando na realidade estamos apenas a sonhar.
Dessa forma, se não conseguimos distinguir inteiramente as experiências que temos quando estamos acordados, das experiências que temos quando estamos a dormir, temos motivos para duvidar da nossa experiência sensível. Logo, as crenças que formamos a partir da experiência sensível não estão devidamente justificadas, por isso, não podemos obter conhecimento a partir delas.
Erros de raciocínio
Erros de raciocínio
Descartes estava convicto que o argumento de indistinção vigília-sono era suficiente para pôr em causa a possibilidade do conhecimento a partir da experiência sensível, mas as verdades da geometria e da aritmética (ex: 2+3=5) são outras fontes fiáveis para as nossas crenças, e independentemente de estarmos acordados ou a dormir o resultado vai ser sempre 5, logo, existe conhecimento que vai contra esse argumento.
Dessa forma, Descartes aplica mais uma vez o príncipio hiperbólico da dúvida e afirma que apesar das verdades da geometria e da aritmética serem infalíveis, podemos sempre cometer erros de raciocínio simples e dessa forma, se cometemos erros, não podemos acreditar em crenças justificadas a partir do nosso raciocínio.
A hipótese do Génio Maligno
A hipótese do Génio Maligno
Descartes começa por dizer que foi ensinado que fomos criados por um ser superior, inteligente e com poderes ilimitados. Ora, um ser com essas características podia fazer com que acreditássemos em coisas absurdas. Poderia, por exemplo, fazer-nos acreditar que um triângulo tem três lados quando na realidade teria quatro. Mas como é que sabemos que isto não está, de facto, a acontecer? Descartes percebe que esta suposição, conhecida como Deus Enganador, enfrenta várias dificuldades, pois a ideia de um Deus, que é perfeito por definição, não pode ter defeitos, como, ser enganador. Descartes abandona essa hipótese e recorre à do Génio Maligno, que seria um ser que tem tantas qualidades como defeitos e que usa o seu poder para nos enganar.
O cogito (a priori)
O cogito (a priori)
Descartes admite que a hipótese do Génio Maligno não é tão inegável quanto parece. O filósofo afirma que em vez de nos fazer concluir de que não se sabe nada, a hipótese do Génio Maligno faz com que chegemos à conclusão de que há algo que podemos, seguramente, saber. O porém é que, apesar de não sabermos se estamos a ser enganados pelo Génio Maligno, ou não, há uma crença de que não podemos de todo duvidar: "Penso; logo, existo". Mesmo que o Génio Maligno me tente convencer que não existo, não o pode fazer, pois para o fazer, eu tenho de existir. O cogito é uma crença básica, acabando a regressão infinita. Desta forma, Descartes considera que o cogito representa um triunfo sobre o ceticismo, pois por muitas que sejam as nossas dúvidas, sabemos sempre que existimos, este conhecimento é a priori, pois só preciso pensar para saber que é verdade.
Razões para duvidar
1. Ilusões dos sentidos
Os sentidos por vezes enganam-nos, por isso, não podemos confiar neles.
Sim, mas podemos recorrer aos sentidos para corrigir essa ilusão.
2. Indistinção vigília-sono
Mas nunca podemos distinguir com segurança quando estamos acordados ou apenas a sonhar.
Sim, mas quer estejamos acordados, quer estejamos a sonhar, podemos saber coisas como "2+2=4"
3. erros de raciocínio
Sim, mas mesmo assim podemos saber coisas elementares como "Um quadrado é uma figura geométrica com quatro lados igais"
Mas podemos cometer erros até nos raciocínios mais elementares.
4. Hipótese do génio maligno
Sim, mas para que esse ser me possa enganar eu tenho de existir.
Mas o nosso intelecto pode estar a ser totalmente manipulado por um ser incrivelmente poderoso.
COGITO; ERGO, SUM!PENSO; LOGO, EXISTO!
10
O dualismo cartesiano
O dualismo cartesiano
O dualismo cartesiano, é a tese segundo a qual há dois tipos de substâncias no mundo: os corpos e a mente. Descarte, uma vez que acredita que pode não ter um corpo, mas não é capaz de negar a inexistência de uma mente, conclui, que é essencialmente uma substância pensante (ou res cogitans) logo uma mente que consegue existir independentemente do corpo. Se podemos conceber isso a mente não é igual ao corpo, pois se fossem a mesma coisa, não podíamos imaginar que não existíamos sem uma mente mas poderíamos existir sem um corpo. Este argumento defende em suma a existência de duas esferas de realidade distintas (corpo-natureza física; mente-natureza imaterial).
Depois desta distinção Descartes também se apercebeu, que a sua essência se identifica com a sua mente (ex: não conseguimos imaginar um quadrado sem 4 lados, pois a existência de 4 lados num quadrado faz parte da sua essência).
Logo, até provarmos a existência do Gênio Maligno, a única coisa que sabemos é que existimos, e que até o corpo que consideramos nosso pode realmente não existir.
11
A clareza e a distinção das ideias como critério de verdade
A clareza e a distinção das ideias como critério de verdade
Descartes considerava que, uma vez que o que torna o cogito uma crença tão evidente não é mais do que o seu elevado grau de clareza e distinção, estas características deveriam ser adotadas como critério de verdade, ou seja, como procedimento que nos permite distinguir o que é absolutamente verdadeiro do que é meramente duvidoso ou falso. Assim, o cogito não só fornece um fundamento seguro para o conhecimento, mas também um modelo daquilo que devemos perseguir na procura de um saber seguro e indubitável. Critério de verdade: Só devemos considerar verdadeiro aquilo que concebemos de forma absolutamente clara e distinta. Descartes percebe que existem três tipos de ideias: as ideias adventícias, ideias factícias e ideias inatas.
A clareza e a distinção das ideias como critério de verdade
Tipos de ideia
Adventícias
Fictícias
Inatas
Adventícias: Não dependem da vontade e parecem ser causadas por objetos físicos exteriores à mente (exemplos: mesa, cadeira, calor…)
Fictícias: Inventadas pela vontade e imaginação, a partir de outras ideias (exemplos: sereias, unicórnios, centauros…)
Inatas: Parecem ter nascido conosco, pois não parecem ter sido causadas por objetos físicos exteriores à mente nem dependem da vontade (isto é, não são criadas pela nossa imaginação); dependem apenas da nossa capacidade de pensar, ou seja, correspondem a conceitos matemáticos - como os conceitos de número; triângulo; círculo; etc. - e a conceitos metafísicos - como os conceitos de substância; verdade; e Deus.
12
A ideia de Deus
A ideia de Deus
Descartes levantou a questão da existência de Deus como uma peça essencial no seu argumento. O " argumento da marca" destaca a possibilidade de um ser perfeito e não enganador, que garantiria a confiabilidade das nossas faculdades cognitivas. Este argumento destaca que a existência de Deus é uma ideia inata, logo ter sido imposta por algo tão perfeito como ela, ou seja, Deus. Isto significa que para o filósofo, o facto de termos a ideia que Deus existe comprova a sua existência.
13
O papel da existência de Deus
O papel da existência de Deus
Descartes diz que, se existe um Deus perfeito e não enganador, então podemos confiar nas nossas faculdades cognitivas. A existência divina atua como uma garantia, que podemos confiar nas nossas ideias claras e distintas e de que podemos confiar nos nossos raciocínios pois Deus existe e não é enganador.
Desta forma Descartes utilizou o que entende por clareza e distinção a base para construir com segurança o conhecimento. Alguns exemplos são as verdades matemáticas, a experiência sensível (Descartes pode afirmar assim a existência dos objetos materiais) e a vigília-sono (quer estejamos a dormir ou acordados se concebemos algo de forma clara e distinta a sua verdade é assegurada) pois Deus não permitiria que um ser maléfico nos induza em erro e dessa forma, com a existência de Deus podemos acreditar nessa e noutras ideias concebidas com clareza e distinção.
14
Objeções ao racionalismo
Objeções ao racionalismo
Objeção à hipótese do Génio Maligno
George Edward Moore afirma que a hipótese do Génio Maligno é tão extrema que chega a ter implicações implausíveis. Moore argumenta que este tipo de argumentos utilizados por Descartes como ponderar que existe um gênio maligno que me faça pensar que tenho duas mãos e que na verdade posso não ter, é tão inacreditável que Moore afirma que usar a evidência que temos duas mãos comprove a impossibilidade de estarmos num cenário cético como este (hipótese do Génio Maligno), pois não ter realmente duas mãos seria uma ilusão difícil de manter.
Este argumento utilizado por George Moore ao contrário do de Descartes leva-nos a uma conclusão mais plausível e torna o argumento assim mais convincente.
Objeções ao racionalismo
Objeção ao cogito
Outros autores ao contrário de Descartes não consideram o cogito, como algo certo e induvidável. Descartes afirmava que, mesmo com a existência de um génio maligno, existia um " Eu" , graças ao cogito(“Penso logo existo”), assim para o filósofo poderiamos saber "a priori" a nossa existencia ( "Eu") para poder pensar. Hume, por exemplo sugere que é mais evidente a existência de pensamentos do que a de um pensador pois apesar de pensarmos isso só comprova a existência de pensamentos a decorrer não a existência de um sujeito a quem os pensamentos pertencem e que esse "pensador" é só uma cadeia de imagens e representações e nunca adequadamente alguem a quem pertença os pensamentos.
Objeções ao racionalismo
Objeções ao dualismo cartesiano
Descartes defende que se pode existir sem corpo mas não sem uma mente, mas os críticos interpretam esta estratégia argumentativa como a falácia informal do mascarado. A forma-padrão desta falácia consiste na afirmação de uma atitude ou estado mental relativamente a uma determinada coisa (X) e numa segunda premissa negar uma atitude ou estado mental sobre outra coisa (Y), logo X não pode ser Y. Descartes comete este erro, pois apesar de poder duvidar que tem um corpo, não pode duvidar que tem uma mente. Além disso, Descartes também teve problemas em separar a natureza mental da natureza física (“Como pode uma coisa mental interferir em algo físico e vice-versa?”). Descartes deu a possibilidade da existência de um ponto no cérebro, onde aconteceria essa interação mas não foi o suficiente para explicar como esse contacto é possível.
Objeções ao racionalismo
Objeções ao argumento da marca
O argumento da marca também é alvo de objeções. Os críticos pegam na 1ª premissa: “ Tenho a ideia de ‘ser perfeito’” e dizem que como temos uma definição vaga e difusa do que possa ser um ser perfeito, por causa das nossas limitações, não somos capazes de saber um conceito ilimitado como Deus e a definição de um ‘ser perfeito’. Outro alvo é a 2ª premissa: “Se temos a ideia de ‘ser perfeito’ então o ser perfeito existe”, para a rejeição desta premissa os críticos usam a rejeição da lei da causalidade. Para rejeitar essa lei temos o exemplo da ‘seleção natural’, segundo essa teoria os organismos mais simples deram origem a outros organismos mais complexos e dessa forma obtemos justificação de que Deus poder ser uma ideia fictícia e que a lei da causalidade está errada e que podemos nós próprios imaginar o que seria um ser dotado de todas as perfeições existentes.
Objeções ao racionalismo
Objeção do círculo cartesiano
Há quem ache que o projeto cartesiano está ligado ao fracasso, pois a partir da definição do cogito, Descartes não consegue determinar mais nada sem cair numa petição de princípio. Esta objeção é chamada de círculo cartesiano pois Descartes declara a existência de Deus a partir do principio da marca e que só podemos ter ideias claras e distintas porque Deus existe e dessa forma nem Descartes pode estar certo se os seus raciocínios são certos sem a existência de Deus, logo, cai na referida petição de princípio.
Conclusão
Para concluir, neste trabalho abordamos a interpretação de Descartes, que fundou o racionalismo, para responder ao problema "Será o conhecimento possível?", e percebemos que o filósofo priorizava a razão e não aceitava nada como verdade absoluta. Dessa forma, criou vários argumentos a favor da sua posição e duvidou de tudo até encontrar algo que resistisse a todo esse processo.
Bibliografia
(DA GAMA, Ana; FARIA, Domingos; VERÍSSIMO, Luís) - Como pensar tudo isto?. 1ª edição. Lisboa: Leya. 2023.
Racionalismo Descartes
Bianca Sousa
Created on November 10, 2023
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O racionalismo de Descartes
Ana Margarida Pinto Bianca Sousa Diogo Gonçalves Maria Inês Cunha
1. Introdução
10. O cogito (a priori)
11. O dualismo cartesiano
2. Contextualização histórica
12. A clareza e a distinção das ideias como critério de verdade
3. O projeto cartesiano
4. A dúvida metódica
13. A ideia de Deus
5. Razões para duvidar
14. O papel da existência de Deus
6. As ilusões dos sentidos
7. A indistinção vigília-sono
15. Objeções ao racionalismo
8. Erros de raciocínio
16. Conclusão
9. A hipótese do Génio Maligno
17. Bibliografia
Índice
Introdução
Neste trabalho vamos fazer uma breve biografia de Descartes e iremos falar sobre a sua teoria racionalista, referiremos os seus vários argumentos a favor do racionalismo e objeções a alguns desses argumentos.
Contextualização histórica
Contextualização histórica
René-Descartes (1596-1650)
Foi um notável matemático e filósofo francês, que estudou no colégio jesuíta La Flèche e posteriormente estudou direito em Poitiers. Na área da matemática ficou marcado por inventar as coordenadas cartesianas através dos movimentos de uma mosca. No campo da filosofia é considerado o “pai” da filosofia moderna e criou uma perspetiva para responder ao problema do ceticismo, apelidada de racionalismo cartesiano. René foi influenciado pelo tempo em que viveu, que foi marcado por grandes transformações sociais, políticas e ideológicas. Essas mudanças puseram as certezas tradicionais em causa e revolucionaram o entendimento do universo e do lugar do ser humano no mesmo.
O projeto cartesiano
O projeto cartesiano
Para responder a questão do ceticismo generalizada, Descartes decidiu recorrer à sua própria dúvida para provar a sua impossibilidade. Assim o filósofo tinha como objetivo estabelecer um conhecimento seguro e incontestável, para isso o seu método era duvidar de tudo o que se possa imaginar e averiguar o que resiste a esse processo, logo esse procedimento ficou conhecido como dúvida metódica.
Projeto Cartesiano
Método
Objetivo
Dúvida Metódica
Conhecimento seguro
A dúvida metódica
A dúvida metódica
A dúvida metódica ou cartesiana é o método assumido pelo filósofo que parte da dúvida e não da certeza para construir um conhecimento e assim duvidar de tudo e jamais aceitar nada como verdade absoluta até que se poda ter a certeza de que realmente se tratava de algo verdadeiro. Utilizava assim a dúvida metódica como um começo para alcançar a verdade e provar a inconsistência do ceticismo.
dúvida Cartesiana
Metódica
Universal
Provisória
Hiperbólica
Razões para duvidar
Razões para duvidar
Descartes decide duvidar de tudo o que julgamos saber, para isso decidiu analisar as fontes das nossas crenças, se for detetado o menor grau de dúvida, temos justificação para desconsiderar todas as crenças de que ela provém. Para isso recorreu a uma argumentação cética e teve como objetivo deitar abaixo todas as nossas crenças e verificar se alguma resiste a tamanha investigação.
As ilusões dos sentidos
As ilusões dos sentidos
Descartes começa por dizer que uma grande parte das nossas crenças são adquiridas através dos nossos sentidos. Uma vez que algumas das nossas crenças são baseadas na experiência sensível, devemos examinar se os nossos sentidos são fontes fiáveis. Dessa forma o filósofo afirma que os nossos sentidos podem nos enganar algumas vezes e por isso nunca poderemos saber se nos estão a enganar ou não, logo não poderemos confiar nas informações que por eles adquirimos, aplicando o princípio hiperbólico da dúvida.
Oposição às ilusões dos sentidos
Alguns autores consideram que este argumento não seja suficiente para nunca acreditar nos nossos sentidos, pois independentemente de nos enganarem algumas vezes, não temos boas razões para nunca acreditarmos neles, já que a maior parte dessas ilusões podem ser facilmente resolvidas recorrendo aos próprios sentidos. Exemplo: Se pensar que uma cana está partida, e ela não estiver, posso sempre lhe tocar para confirmar que ela não está. Em suma, podemos utilizar outros sentidos para nos certificarmos que não estamos a ser iludidos por um deles.
A indistinção vigília-sono
A indistinção vigília-sono
Descartes põe em causa se estamos realmente acordados ou se estamos a dormir, por vezes, acreditamos que estamos a ter uma determinada experiência, quando na realidade estamos apenas a sonhar. Dessa forma, se não conseguimos distinguir inteiramente as experiências que temos quando estamos acordados, das experiências que temos quando estamos a dormir, temos motivos para duvidar da nossa experiência sensível. Logo, as crenças que formamos a partir da experiência sensível não estão devidamente justificadas, por isso, não podemos obter conhecimento a partir delas.
Erros de raciocínio
Erros de raciocínio
Descartes estava convicto que o argumento de indistinção vigília-sono era suficiente para pôr em causa a possibilidade do conhecimento a partir da experiência sensível, mas as verdades da geometria e da aritmética (ex: 2+3=5) são outras fontes fiáveis para as nossas crenças, e independentemente de estarmos acordados ou a dormir o resultado vai ser sempre 5, logo, existe conhecimento que vai contra esse argumento. Dessa forma, Descartes aplica mais uma vez o príncipio hiperbólico da dúvida e afirma que apesar das verdades da geometria e da aritmética serem infalíveis, podemos sempre cometer erros de raciocínio simples e dessa forma, se cometemos erros, não podemos acreditar em crenças justificadas a partir do nosso raciocínio.
A hipótese do Génio Maligno
A hipótese do Génio Maligno
Descartes começa por dizer que foi ensinado que fomos criados por um ser superior, inteligente e com poderes ilimitados. Ora, um ser com essas características podia fazer com que acreditássemos em coisas absurdas. Poderia, por exemplo, fazer-nos acreditar que um triângulo tem três lados quando na realidade teria quatro. Mas como é que sabemos que isto não está, de facto, a acontecer? Descartes percebe que esta suposição, conhecida como Deus Enganador, enfrenta várias dificuldades, pois a ideia de um Deus, que é perfeito por definição, não pode ter defeitos, como, ser enganador. Descartes abandona essa hipótese e recorre à do Génio Maligno, que seria um ser que tem tantas qualidades como defeitos e que usa o seu poder para nos enganar.
O cogito (a priori)
O cogito (a priori)
Descartes admite que a hipótese do Génio Maligno não é tão inegável quanto parece. O filósofo afirma que em vez de nos fazer concluir de que não se sabe nada, a hipótese do Génio Maligno faz com que chegemos à conclusão de que há algo que podemos, seguramente, saber. O porém é que, apesar de não sabermos se estamos a ser enganados pelo Génio Maligno, ou não, há uma crença de que não podemos de todo duvidar: "Penso; logo, existo". Mesmo que o Génio Maligno me tente convencer que não existo, não o pode fazer, pois para o fazer, eu tenho de existir. O cogito é uma crença básica, acabando a regressão infinita. Desta forma, Descartes considera que o cogito representa um triunfo sobre o ceticismo, pois por muitas que sejam as nossas dúvidas, sabemos sempre que existimos, este conhecimento é a priori, pois só preciso pensar para saber que é verdade.
Razões para duvidar
1. Ilusões dos sentidos
Os sentidos por vezes enganam-nos, por isso, não podemos confiar neles.
Sim, mas podemos recorrer aos sentidos para corrigir essa ilusão.
2. Indistinção vigília-sono
Mas nunca podemos distinguir com segurança quando estamos acordados ou apenas a sonhar.
Sim, mas quer estejamos acordados, quer estejamos a sonhar, podemos saber coisas como "2+2=4"
3. erros de raciocínio
Sim, mas mesmo assim podemos saber coisas elementares como "Um quadrado é uma figura geométrica com quatro lados igais"
Mas podemos cometer erros até nos raciocínios mais elementares.
4. Hipótese do génio maligno
Sim, mas para que esse ser me possa enganar eu tenho de existir.
Mas o nosso intelecto pode estar a ser totalmente manipulado por um ser incrivelmente poderoso.
COGITO; ERGO, SUM!PENSO; LOGO, EXISTO!
10
O dualismo cartesiano
O dualismo cartesiano
O dualismo cartesiano, é a tese segundo a qual há dois tipos de substâncias no mundo: os corpos e a mente. Descarte, uma vez que acredita que pode não ter um corpo, mas não é capaz de negar a inexistência de uma mente, conclui, que é essencialmente uma substância pensante (ou res cogitans) logo uma mente que consegue existir independentemente do corpo. Se podemos conceber isso a mente não é igual ao corpo, pois se fossem a mesma coisa, não podíamos imaginar que não existíamos sem uma mente mas poderíamos existir sem um corpo. Este argumento defende em suma a existência de duas esferas de realidade distintas (corpo-natureza física; mente-natureza imaterial). Depois desta distinção Descartes também se apercebeu, que a sua essência se identifica com a sua mente (ex: não conseguimos imaginar um quadrado sem 4 lados, pois a existência de 4 lados num quadrado faz parte da sua essência). Logo, até provarmos a existência do Gênio Maligno, a única coisa que sabemos é que existimos, e que até o corpo que consideramos nosso pode realmente não existir.
11
A clareza e a distinção das ideias como critério de verdade
A clareza e a distinção das ideias como critério de verdade
Descartes considerava que, uma vez que o que torna o cogito uma crença tão evidente não é mais do que o seu elevado grau de clareza e distinção, estas características deveriam ser adotadas como critério de verdade, ou seja, como procedimento que nos permite distinguir o que é absolutamente verdadeiro do que é meramente duvidoso ou falso. Assim, o cogito não só fornece um fundamento seguro para o conhecimento, mas também um modelo daquilo que devemos perseguir na procura de um saber seguro e indubitável. Critério de verdade: Só devemos considerar verdadeiro aquilo que concebemos de forma absolutamente clara e distinta. Descartes percebe que existem três tipos de ideias: as ideias adventícias, ideias factícias e ideias inatas.
A clareza e a distinção das ideias como critério de verdade
Tipos de ideia
Adventícias
Fictícias
Inatas
Adventícias: Não dependem da vontade e parecem ser causadas por objetos físicos exteriores à mente (exemplos: mesa, cadeira, calor…) Fictícias: Inventadas pela vontade e imaginação, a partir de outras ideias (exemplos: sereias, unicórnios, centauros…) Inatas: Parecem ter nascido conosco, pois não parecem ter sido causadas por objetos físicos exteriores à mente nem dependem da vontade (isto é, não são criadas pela nossa imaginação); dependem apenas da nossa capacidade de pensar, ou seja, correspondem a conceitos matemáticos - como os conceitos de número; triângulo; círculo; etc. - e a conceitos metafísicos - como os conceitos de substância; verdade; e Deus.
12
A ideia de Deus
A ideia de Deus
Descartes levantou a questão da existência de Deus como uma peça essencial no seu argumento. O " argumento da marca" destaca a possibilidade de um ser perfeito e não enganador, que garantiria a confiabilidade das nossas faculdades cognitivas. Este argumento destaca que a existência de Deus é uma ideia inata, logo ter sido imposta por algo tão perfeito como ela, ou seja, Deus. Isto significa que para o filósofo, o facto de termos a ideia que Deus existe comprova a sua existência.
13
O papel da existência de Deus
O papel da existência de Deus
Descartes diz que, se existe um Deus perfeito e não enganador, então podemos confiar nas nossas faculdades cognitivas. A existência divina atua como uma garantia, que podemos confiar nas nossas ideias claras e distintas e de que podemos confiar nos nossos raciocínios pois Deus existe e não é enganador. Desta forma Descartes utilizou o que entende por clareza e distinção a base para construir com segurança o conhecimento. Alguns exemplos são as verdades matemáticas, a experiência sensível (Descartes pode afirmar assim a existência dos objetos materiais) e a vigília-sono (quer estejamos a dormir ou acordados se concebemos algo de forma clara e distinta a sua verdade é assegurada) pois Deus não permitiria que um ser maléfico nos induza em erro e dessa forma, com a existência de Deus podemos acreditar nessa e noutras ideias concebidas com clareza e distinção.
14
Objeções ao racionalismo
Objeções ao racionalismo
Objeção à hipótese do Génio Maligno
George Edward Moore afirma que a hipótese do Génio Maligno é tão extrema que chega a ter implicações implausíveis. Moore argumenta que este tipo de argumentos utilizados por Descartes como ponderar que existe um gênio maligno que me faça pensar que tenho duas mãos e que na verdade posso não ter, é tão inacreditável que Moore afirma que usar a evidência que temos duas mãos comprove a impossibilidade de estarmos num cenário cético como este (hipótese do Génio Maligno), pois não ter realmente duas mãos seria uma ilusão difícil de manter. Este argumento utilizado por George Moore ao contrário do de Descartes leva-nos a uma conclusão mais plausível e torna o argumento assim mais convincente.
Objeções ao racionalismo
Objeção ao cogito
Outros autores ao contrário de Descartes não consideram o cogito, como algo certo e induvidável. Descartes afirmava que, mesmo com a existência de um génio maligno, existia um " Eu" , graças ao cogito(“Penso logo existo”), assim para o filósofo poderiamos saber "a priori" a nossa existencia ( "Eu") para poder pensar. Hume, por exemplo sugere que é mais evidente a existência de pensamentos do que a de um pensador pois apesar de pensarmos isso só comprova a existência de pensamentos a decorrer não a existência de um sujeito a quem os pensamentos pertencem e que esse "pensador" é só uma cadeia de imagens e representações e nunca adequadamente alguem a quem pertença os pensamentos.
Objeções ao racionalismo
Objeções ao dualismo cartesiano
Descartes defende que se pode existir sem corpo mas não sem uma mente, mas os críticos interpretam esta estratégia argumentativa como a falácia informal do mascarado. A forma-padrão desta falácia consiste na afirmação de uma atitude ou estado mental relativamente a uma determinada coisa (X) e numa segunda premissa negar uma atitude ou estado mental sobre outra coisa (Y), logo X não pode ser Y. Descartes comete este erro, pois apesar de poder duvidar que tem um corpo, não pode duvidar que tem uma mente. Além disso, Descartes também teve problemas em separar a natureza mental da natureza física (“Como pode uma coisa mental interferir em algo físico e vice-versa?”). Descartes deu a possibilidade da existência de um ponto no cérebro, onde aconteceria essa interação mas não foi o suficiente para explicar como esse contacto é possível.
Objeções ao racionalismo
Objeções ao argumento da marca
O argumento da marca também é alvo de objeções. Os críticos pegam na 1ª premissa: “ Tenho a ideia de ‘ser perfeito’” e dizem que como temos uma definição vaga e difusa do que possa ser um ser perfeito, por causa das nossas limitações, não somos capazes de saber um conceito ilimitado como Deus e a definição de um ‘ser perfeito’. Outro alvo é a 2ª premissa: “Se temos a ideia de ‘ser perfeito’ então o ser perfeito existe”, para a rejeição desta premissa os críticos usam a rejeição da lei da causalidade. Para rejeitar essa lei temos o exemplo da ‘seleção natural’, segundo essa teoria os organismos mais simples deram origem a outros organismos mais complexos e dessa forma obtemos justificação de que Deus poder ser uma ideia fictícia e que a lei da causalidade está errada e que podemos nós próprios imaginar o que seria um ser dotado de todas as perfeições existentes.
Objeções ao racionalismo
Objeção do círculo cartesiano
Há quem ache que o projeto cartesiano está ligado ao fracasso, pois a partir da definição do cogito, Descartes não consegue determinar mais nada sem cair numa petição de princípio. Esta objeção é chamada de círculo cartesiano pois Descartes declara a existência de Deus a partir do principio da marca e que só podemos ter ideias claras e distintas porque Deus existe e dessa forma nem Descartes pode estar certo se os seus raciocínios são certos sem a existência de Deus, logo, cai na referida petição de princípio.
Conclusão
Para concluir, neste trabalho abordamos a interpretação de Descartes, que fundou o racionalismo, para responder ao problema "Será o conhecimento possível?", e percebemos que o filósofo priorizava a razão e não aceitava nada como verdade absoluta. Dessa forma, criou vários argumentos a favor da sua posição e duvidou de tudo até encontrar algo que resistisse a todo esse processo.
Bibliografia
(DA GAMA, Ana; FARIA, Domingos; VERÍSSIMO, Luís) - Como pensar tudo isto?. 1ª edição. Lisboa: Leya. 2023.