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Os regimes totalitários dos anos 30

Renata Moniz

Created on October 23, 2023

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Os regimes totalitários dos anos 30

Índice

1. O Fascismo e o Nazismo

2. O Estalinismo

3. O papel da propaganda no quadro dos totalitarismos

O início do século XX é marcado pela subida ao poder de figuras como Mussolini (1922), Estaline (1928) e Hitler (1933). A ação dos regimes encabeçados por esses homens caracterizou a nova ordem política, social e económica da Europa dos anos 30 e 40, que ficou marcada pelos Totalitarismos. Tal designa o sistema político em que o Estado se sobrepõe ao indivíduo e, através do partido único, liderado por um chefe, promove a ideologia oficial, sem admitir qualquer forma de contestação, que se estende a todos os domínios da sociedade e da economia. A polícia política e outros meios repressivos e de terror garantem a ordem e o funcionamento do regime.

1. O fascismo e o nazismo

1.1. Semelhanças entre os dois regimes totalitários1.2. Itália - fascismo 1.3. Alemanha - Nazismo

1.1. Semelhanças entre os dois regimes totalitários

  • Eram regimes antidemocráticos e antiliberais - consideram a democracia como a causa da instabilidade política e incapaz de responder aos problemas.
  • Instauraram o partido únido - o liberalismo, o parlamentarismo e pluripartidarismo eram encarados como as causas do enfraquecimento do poder político e da coesão nacional.
  • O indíviduos submetia-se aos interesses do Estado e da Nação.
  • Regimes nacionalistas e imperialistas.
  • Defenderam o militarismo.
  • Recusaram o socialismo e eram anticomunistas, negando a luta de classes.
  • Defendiam o valor da nação e a raça (nazismo - raça ariana).
  • Não acreditavam na igualdade nem nos direitos individuais. Defenderam a diferenção social, pois consideravam que os indíviduos não eram iguais.
  • Eram regimes elitistas, acreditando que a liderança da nação devia estar entre os membros do partido e os melhores da raça, recusando o sufrágio universal.
  • A sociedade foi mobilizada em torno do culto do chefe e da exaltação da nação,
  • A sociedade era controlo pelo Estado, pelo partido ou outros organismos de enquadramento de massas para garantir a adesão aos valores e princípios do regime.
  • Usaram meios repressivos violentos.

1.2. Itália Fascismo

1919

Mussolini cria, em Milão, o movimento fascista com o Grupo Italiano de Combate que atacou os grupos de esquerda

1921

Formação do Partido Nacional Fascista

  • Mussolini, acompanhado por 40 000 Camisas Negras, avança em direção a Roma;
  • O rei Victor Emanuel III, com receio de uma guerra civil, entra o poder aos fascista e nomeia Mussolini Primeiro-Ministro, que afastou os socialistas e comunistas;
  • Desmatelamento das organizações de esquerda.

1922

1923 - 24

A coligação fascita obteve a maioria dos votos nas eleições legisltativas, benefeciando com a Lei do Acerbo (1923) que instituiu que o partido com mais votos, ficaria com 2/3 dos lugares no Parlamento.

O controlo da economia

O Fascismo rejeitou o capitalismo, os valores individualistas da burguesia e o seu modo de vida, que considerava decadentes.

Assim desenvolveram uma política económica marcada pelo:

Autarcia:

Sistema económico segundo o qual um país vive sobre si mesmo, procurando produzir a totalidade de recursos de que necessita, sem depender de terceiros.

Dirigismo económico:

Doutrina política em que o Estado gere e controla a economia do país. Tendência para a intervenção abusiva de uma autoridade.

Itália, adotou o corporativismo como modelo de organização social e económica, regulamentado, em 1927, pela Carta do Trabalho. Este documento, visando eliminar a luta de classes, estabeleceu medidas promotoras da colaboração entre patrões e trabalhadores, organizados por ramo de atividade, em corporações, de modo a garantir o bem comum da nação. O sindicalismo e outras formas de associativismo foram proibidos e enquadrados em organismos corporativos. As greves e o lock-out foram proibidos, para garantir a conciliação da ordem social.

Que medidas foram implementadas para desenvolver a economia nacional?

  • Estimulou o consumo de produtos nacionais, para aumentar a produção e diminuir a dependência face ao estrangeiro.
  • Aumentou as tarifas alfandegárias para diminuiar as importações e proteger a economia nacional.
  • Estabilizou a moeda pela desvalorização, através da Batalha da Lira;
  • Ficou preços e salários.
  • Desenvolver um programa de obras públicas para modernizar o país, através da construção de infraestruturas, ao nível dos transportes e das comunicações, com vista a diminuir o desemprego e a relançar a economia.
  • Desenvolveu a produção nacional através do lançamento da Batalha do Trigo e da Batalha da Bonificação, para aumentar a terra arável.

"Mussolini já tinha se gabado de que, sob o controle fascista, os trens “não atrasavam”. Em 1928, ele anunciou projetos para drenar as áreas atingidas pela malária na Itália e alocá-las para o cultivo, fornecendo aos vilarejos empobrecidos irrigação, drenagem, estradas, água e energia elétrica. Convocou 80 mil agricultores para ir até Roma e lhes informou que a agricultura estava “em primeiro lugar” nas políticas do governo. A lealdade dos agricultores havia sido assegurada de antemão pelo aumento na tabela de preços do trigo, dando a eles um preço mínimo garantido quando o valor do trigo caiu como resultado da superprodução deliberada."

Gilbert, M., (2016), p. 323

O enquadramento das massas

O fascismo consolidou-se como uma sociedade de massas, rígida e hierarquizada, onde o indivíduo não exista. A sociedade foi mobilizada em torno do culto do chefe e da exaltação nacional - Mussolini como Duce - "Guia". Era controlada pelo Estado, pelo partido ou outros organismos de enquadramento de massas para garantir a adesão aos valores e princípios dos regimes.

A população é então enquadrada em organizações, que ocupavam todas as idades, abrangendo diversas atividades (laborais, recreativas e culturais) em prol do Estado.

Imagem retrata os Filhos e as Filhas da Loba, do movimento fascista italiano

Organizações para os adultos

  • Partido único (Partido Nacional Fascista);
  • Organizações de patrões e trabalhadores (Sindicatos Nacionais, Corporações);
  • Organizações recreativas (Dopolavoro - Obra Nacional dos tempos livres).

Organizações paramilitares de juventude (obrigatório)

Para os rapazes - Filhos da Loba (6 aos 8), Balitas (8 aos 14) e Vanguardistas (14 aos 18). Para as raparigas - Filhas da Loba (6 aos 8), Pequenas Italianas (8 aos 14), Jovens Italianas (14 aos 18).

Violência e terror: meios repressivos

Tal como acontecerá depois na Alemanha, em Itália toda a população era submetida a uma vigilância total e a oposição foi reprimida. o culto da forma e da violência assumiu-se como um princípio político. As organizações paramilitares ensinavam o heroísmo guerreiro, a obediência, a disciplina, a defesa do chefe, do Estado e da raça. O instinto foi valorizado em detrimento da Razão. A Razão e felicidade individuais foram substituídas pela virtude da guerra e do sacrifício.

Para além da censura (exercida sobre todas as formas de expressão e comunicação, as milícias armadas (paramilitares) e a polícia política desempenharam um papel fundamental para a promoção da obediência, controlo da sociedade e da repressão.

  • Polícia Política - OVRA (Organização de Vigilância e Repressão Antifascista, criada em 1927
  • Milícias armadas: Esquerdistas ou Camisas Negras, criado em 1919

Menos conhecidos que os seus semelhantes nazis, Mussolini também institui campos de concentração, onde os seus prisioneiros eram submetidos a trabalhos forçados, à tortura e à morte. Em Itália, na ilha Lapari, e em diversos locais da Líbia ocupada existiram campos de concentração.

1.3. Alemanha nazismo

Na Alemanha, o Nazismo teve as seguintes fases:

  • 1920: Criação do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP).
  • 1923: Hitler empreendeu um golpe de poder - o putsch de Munique, que fracassou. Foi preso e na prisão redigiu A Minha Luta, em 1925, onde definiu as suas ideias políticas.
  • 1932: o Partido Nazi vence as eleições legislativas.
  • 1933: Hitler torna-se chanceler da Alemanha e usa o incêndia do Reichstag, para suprimir as liberdades e reprimir as atividas dos opositores, em especial comunistas;
  • 1934: Hidenburg morre e Hitler acumula o cargo de chanceler e de Presidente da República, tornando-se Fuhrer, por votação do povo.

O controlo da economia

Tal como o Fascismo, o Nazismo rejeitou o capitalismo, os valores individualistas da burguesia e o seu modo de vida, que considerava decadentes.

Assim desenvolveram uma política económica marcada pelo:

Autarcia:

Sistema económico segundo o qual um país vive sobre si mesmo, procurando produzir a totalidade de recursos de que necessita, sem depender de terceiros.

Dirigismo económico:

Doutrina política em que o Estado gere e controla a economia do país. Tendência para a intervenção abusiva de uma autoridade.

Diferente do movimento italiano, o Nacional-Socialismo Alemão adotou frentes nacionais. As greves e o lock-out foram proibidos para garantir a conciliação e ordem social.

Para desenvolver a economia nacional, Hitler implementou as seguintes medidas:

  • Desenvolveu a indústria pesada e a indústria química, recorrendo à concentração industrial;
  • Promoveu novos setores industriais (automóvel e aeronáutica);
  • Relançou o programa de armamento;
  • Incentivou a produção agrícola;
  • Implementou um programa de obras públicas para modernizar o país atraves da construção de infraestruturas.

O enquadramento das massas

Tal como o Fascismo, o Nazismo consolidou-se como uma sociedade de massas, rígida e hierarquizada, onde o indivíduo não exista. A sociedade foi mobilizada em torno do culto do chefe e da exaltação nacional - Hitler como Fuhrer "Chefe". Era controlada pelo Estado, pelo partido ou outros organismos de enquadramento de massas para garantir a adesão aos valores e princípios dos regimes.

Organizações paramilitares de juventude (obrigatório)

Para os rapazes - Jovens alemães (10 aos 14), Juventude Hitleriana (14 aos 18). Para as raparigas - Liga das Jovens Raparigas (10 aos 14), Liga das Jovens Alemães (14 aos 17), Sociedade das Ligas das Jovens Alemães para a Fé e a Beleza (18 aos 21).

Organizações para os adultos

  • Partido único (Partido Nazi);
  • Organizações de patrões e trabalhadores (Frente do Trabalho Nacional-Socialista ou Frente Alemã do Trabalho);
  • Organizações recreativas (Kraft durch Freude - Força pela Alegria).

A negação dos direitos humanos: Racismo e antissemitismo

O regime nazi baseou-se na teoria e na propaganda do mito da "raça superior" que estava destinada a dominar os povos considerados inferiores - judeus, ciganos, eslavos, africanos e asiáticos.

Na Alemanha Nazi, o racismo assumiu-se como um príncipio ideológico que fundamentou a ação política. Atingiu contornos particularmente violentos, sobretudo em relação aos judeus, devido ao antissemitismo, ou seja a manifesta e sistemática atitude de hostilidade e ódio para com os judeus, associada a medidas descriminatórias. O sentimento racista em relação aos judeus acentuou-se na Alemanha, sobretudo depois de 1918, com a crença generalizada de que o desastre da guerra, a crise económica-financeira e todos os males que assolavam a nação eram culpa dos judeus.

Capa do filme antissemita "Der Ewige Jude" - "O Eterno Judeu", 1940

As ideias racistas ganharam especial relevância no livro Mein Kampf - Minha Luta, no qual Hitler considerou os judeus responsáveis pela destruição da Alemanha e defendeu a superioridade da raça ariana para legitimar o direito de dominar e aniquilar os povos considerados inferiores que contaminavam e enfraqueciam a "raça superior"

A perseguição e o extermínio dos judeus na Alemanha Nazi, entre 1933 e 1945, são o exemplo mais extremo do antissemitismo.

Que medidas de controlo racial foram implementadas para promover a pureza da raça ariana?

O regime nazi pôs em prática um conjunto de medidas que evidenciavam duas linhas de ação: a promoção da pureza da raça ariana e a marginalização e segregação dos judeus. São de destacar três datas nesse processo: 7 de abril de 1933, 14 de julho de 1933 e 15 de setembro de 1935.

7 de abril de 1933 - Lei para a Restauração do Serviço Público Profissional

"Em abril de 1933, os nazistas decretam sua primeira lei nacional anti-judaica. Esta lei foi chamada de "Lei para a Restauração do Serviço Público Profissional". Ela permitia que o governo dispensasse, sem quaisquer razões justas, determinados funcionários públicos, dentre eles judeus e oponentes políticos. Os nazistas diziam que a lei tornaria o governo mais confiável e eficiente. Na realidade, aquela lei foi uma forma de expurgo. Esta foi a primeira tentativa dos nazistas para excluir os judeus da vida econômica, social e política da Alemanha."

United States Holocaust Memorial Museum, "Nazi Racism" in Holocaust Encyclopedia, https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/nazi-racism

14 de julho de 1933 - A Lei da Esterilização

"Em 14 de julho de 1933, o regime nazista alemão promulgou uma lei sobre esterilização. Esta lei foi chamada de “Lei para a Prevenção de Progênie com Doenças Hereditárias”. Ela permitia que o governo esterilizasse forçosamente alemães com determinadas doenças. Em particular, a lei se aplicava a indivíduos diagnosticados com nove condições médicas influenciadas por fatores hereditários, incluindo a surdez hereditária, a cegueira hereditária e a esquizofrenia. Os nazistas esterilizaram cerca de 400.000 pessoas sob esta lei."

United States Holocaust Memorial Museum, "Nazi Racism" in Holocaust Encyclopedia, https://encyclopedia.ushmm.org/content/en/article/nazi-racism

15 de setembro de 1935 - "As Leis de Nuremberg"a) Lei de Cidadania do Reich b) Lei de Proteção do Sangue e da Honra Alemã

A "Lei de Cidadania do Reich" definia que só os que possuissem ascêndência alemã é que podiam ser cidadãos. Essa lei atingiu milhares de pessoas, incluindo as que se tinham convertido do judaísmo ao cristianismo e as que os seus pais e avós o tinham feito também, por exemplo, mesmo que não tivessem qualquer laço com as práticas judaicas. A "Lei de Proteção do Sangue e da Honra Alemã" proibia e criminalizava os casamentos e as relações sexuais entre judeus e não-judeus. Proibia também que os homens tivessem contato com empregados com idades inferiores aos 45 anos, assumindo que os homens iam abrigar essas mulheres a manter relações e "poluir a raça".

Gráfico das Leis de Nuremberga ou da chamada "Lei de Proteção do Sangue e da Honra Ariana", que definia quem era considerado ariano e judeu.

Casal "misto" é humilhado publicamente por manterem uma relação.

O totalitarismo nazi levou a cabo uma política de eugenia, ou "apuramento genético da raça", recorrendo a práticas de seleção e eliminação dos que eram considerados fracos (deficientes ou idosos) ou degenerados (homossexuais). Como forma de aperfeiçoamento da "raça ariana", os casamentos e a natalidade entre arianos foram incentivados e a união com outras "raças" consideradas inferiores foi proibida, como visto anteriormente, pelas Leis de Nuremberga.

"Um poster Nazi sobre o Programa T4 afirma: “60.000 Reichsmark é quanto custa esta pessoa que sofre de um defeito hereditário à comunidade do Povo durante a sua vida. Concidadão, este é o seu dinheiro também. Leia ‘O Novo Povo’, a revista mensal do Gabinete de Política Racial do NSDAP”."

O "Programa da Eutanásia"

"A operação de "eutanásia" nazi tomou forma pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, quando Hitler autorizou um programa secreto de assassinato dos incapacitados. Os homens à frente da operação eram o Dr. Karl Brandt, médito pessoal de Hitler, e Philipp Bouhler, chefe da Chancelaria do Fuhrer." (Wachsmann, 2015, p. 252)O quartel-general da operação ficou em uma moradia localizada em Tiergartenstrasse 4, que levou ao nome de código Operação T-4.

"Esta imagem tem origem em um filme produzido pelo Ministro da Propaganda do Reich. A legenda diz: "Uma concepção da vida moral e religiosa exige a prevenção de filhos com doenças hereditárias".#

Em uma primeira fase, os asilos psiquiátricos tinham que enviar formulários especiais sobre os seus pacientes para os Drs. Mennecke e Steinmeyer, que depois decidiam o destino dos doentes. Só havia uma pergunta a ser feita... O doente tinha capacidade para trabalhar? Se fosse considerado improdutivo seria morto.

Foram ponderados vários meios para cometer os assassinatos em massa, sendo que a primeira possibilidade foram as injeções letais. Acabaram por decidir por decidir, com anuência de Hitler, pelo gaseamento. Entre 1939 e 1940, a SS iniciou as experiências em uma antiga cadeia nos arredores de Berlim.

Ainda nessa primeira fase, foram abertas seis instalações com câmaras de gás:

  • Brandenburg, no Rio Havel próximo a Berlim;
  • Grafeneck, sudoeste da Alemanha;
  • Bernburg, na Saxônia;
  • Sonnenstein, também na Saxônia;
  • Hartheim, próximo a Linz no Danúbio;
  • Áustria Hadamar, em Hessen.

Mapa que indica os centros onde o Programa de Eutanásia, mostrando os diferentes métodos utilizados.

As pessoas selecionadas para morrer enquadravam-se nos seguintes grupos:

  • "pessoas que sofriam de esquizofrenia, epilepsia, demência, encefalite, e outros transtornos crônicos psiquiátricos ou neurológicos;
  • pessoas que não tinham sangue alemão ou "relacionado";
  • pessoas criminalmente insanas ou com motivações criminais;
  • pessoas confinadas à instituição em questão por mais de cinco anos." (United States Holocaust Memorial Museum).

Os pacientes selecionados eram então enviados em autocarros para os centros já mencionados, onde poucas horas depois de chegar, morriam nas câmaras de gás. Depois os seus corpos eram cremados nos crematórios anexados às câmaras.

Muitas dessas mortes foram listadas como "mortes por causas naturais". Os profissionais de saúde e os administradores falsificaram os atestados de óbitos, de forma a disfarçar e esconder do domínio público o que realmente estava a acontecer.

Mas rapidamente o programa se tornou de conhecimento público. "Protestos públicos e privados sobre os extermínios apareceram, especialmente dos membros do clero alemão. Entre os clérigos estava o bispo de Münster, Clemens August Count von Galen. Ele protestou contra os assassinatos do T-4 em um sermão em 3 de agosto de 1941. Face ao conhecimento difundido do povo e dos protestos privados e públicos, Hitler ordenou a interrupção do programa de eutanásia aos fins de agosto de 1941." (United States Holocaust Memorial Museum)

Entre janeiro de 1940 e agosto de 1941, acredita-se que o Programa T-4 tenha assassinado 70.273 de pessoas.

Quando o programa foi "terminado", Dachau, o primeiro campo de concentração inaugurado durante o regime nazi, tornou-se o novo quartel-general da operação.

"Dachau transformou-se num pesadelo. Os cadáveres (...) que morriam durante o trajeto eram atirados para a estação de caminhos-de-ferro. Os reclusos que conseguiam chegar ao recinto jaziam na para ou dentro de barracões esvaziados de presos para o efeito. Estavam pele e osso, muitos tinham as mãos ou os pés com ulcerações do gelo, e estavam cobertos de piolhos, edemas e feridas cheios de pus; os guardas qu passavam ficavam surpreendidos quando estes homens davam sinais de vida, chorando, lamuriando-se e implorando por misericórdia, ou quando gritavam de dor quando os outros lhes puxavam os uniformas agarrados às crotas. Muitos sofriam de disenteria aguda e Dachau encheu-se rapidamente de um fedor infernal. (...) Demasiado fracos para conseguirem andar e comer, muitos foram apenas morrer a Dachau."

WACHSMANN, N., KL - A História dos Campos de Concentração Nazis, Editora D. Quixote, 2015, pág. 253 - 254

Como se processou a marginalizarão e segregação dos judeus?

Através de campanhas de informação, reuniões, panfletos e cartazes, incitou-se o ódio contra os judeus e outros grupos, divulgando-se a ideia de que eram "sub-humanos" e com características diabólicas. A política nazi traduziu-se num conjunto de medidas anti-semitas aplicadas entre 1933 e 1942, que evidenciaram níveis diferentes de violência.

Medidas de marginalização

  • 1933: exclusão dos judeus dos cargos públicos; boicote ao comércio e lojas judaicos;
  • 1935: publicação das Leis de Nuremberga;
  • 1937: arianização da economia com a proibição do exercício de profissões e posse de empresas e lojas por parte dos judeus;
  • 1938: Noite de Cristal, o momento de viragem na política anti-semita, que se tornou mais violenta.

O mapa mostras algumas das sinagogas que foram atacadas na Noite de Cristal, entre 9 e 10 de Novembro, de 1938.

Medidas de segregação

  • Encerramento dos judeus em guetos;
  • Obrigatoriedade de usaram a estrela amarela.

Medidas de extermínio

  • 1942: "Solução Final";
  • Os judeus foram deportados para campos de concentração e de extermínio;
  • Nos campos de concentração, foram submetidos a trabalhos forçados e a viverem em condições sub-humanas.

Violência e terror: meios repressivos

Toda a população era submetida a uma vigilância total e a oposição foi reprimida. o culto da forma e da violência assumiu-se como um princípio político. As organizações paramilitares ensinavam o heroísmo guerreiro, a obediência, a disciplina, a defesa do chefe, do Estado e da raça. O instinto foi valorizado em detrimento da Razão. A Razão e felicidade individuais foram substituídas pela virtude da guerra e do sacrifício.

Para além da censura (exercida sobre todas as formas de expressão e comunicação, as milícias armadas (paramilitares) e a polícia política desempenharam um papel fundamental para a promoção da obediência, controlo da sociedade e da repressão.

Polícia política

  • Gestapo: Polícia Secreta do Estado "Geheime Statspolizei" (criada em 1933)

Milícias armadas

  • SA: de Secções de Assalto (criada em 1921);
  • SS: de Secções de Segurança (criada em 1925) era a mais importante e dirigia os campos de extermínio; tinha força militar própria, designada Waffen_SS.

Os campos de concentração e os campos de extermínio

Entre 1933 e 1945, a Alemanha construiu mais de 40.000 infraestruturas, entre campos de concentração, de extermínio e outros centros de detenção destinados a todos os inimigos da ideologia de Hitler: judeus, testemunhas de Jeóva, homossexuais, ciganos, dissidentes políticos e outros...

Os campos de concentração inicialmente funcionaram à margem da lei do Reich, sendo que vários elementos do partido questionavam o seu funcionamento, brutalidade e rentabilidade. No entanto, Himmler conseguiu convencer Hitler da sua importância na luta contra os inimigos alemães e "foi nomeado, no dia 17 de junho de 1936, chefe da polícia alemã. A Gestapo - transformada em organismo nacional - adquiriu o controlo absoluto sobre a detenção de proteção; todas as decisões em matéria de detenções e libertações dos KL passaram a ser tomadas centralmeente, pelo quartel-general de Berlim. Heinrich Himmler tornou-se o senhor incontestado da detenção por tempo indefinido nos campos de concentração." (Wachsmann, 2015, p. 103)

Com Himmler no poder, com o apoio de Hitler e sem ninguém para lhe questionar, rapidamente, os campos de concentração pararam de ser instalados em infraestruturas já existentes para serem projetados, tendo em conta a sua funcionalidade. "Os novos campos de concentração foram planeados como pequenas cidades de terror com imensos recursos. De facto, de acordo com a visão de Himmler de terror policial desabrido, não se fixou limite para o número de presos." (Wachsmann, 2015, p. 108)

"De uma forma geral, os prisioneiros defrontavam-se à chegada aos campos com um mundo radicalmente oposto ao que era o seu antes da guerra. A vida humana não tinha praticamente nenhum valor e a desumanização era um mecanismo metodicamente posto em prática. Despojados do seu nome, cabelo e roupas, os prisioneiros passavam a ser apenas um número. Todos as manhãs, antes do trabalho e à noite quando regressavam, eram sujeito à interminável chamada durante a qual tinham de permanecer de pé em fila e em silêncio, enquanto os seus números eram gritados". (Mucznik, 2015, p. 41)

Os novos campos possuiam armazéns, garagens, oficinas, escritórios administrativos, bombas de gasolina, instalações com bombas de água e de esgotos, grandes casernas e zonas residenciais para os SS. Havia ainda lavandaria, cozinha e enfermaria. Todos os campos eram rodeados de arame farpado, fossos, vedações, torres de vigia. Os campos foram projetados para serem pequenas cidades.

Os campos de concentração também tiveram uma importante função económica, principalmente com a intervenção de Oswald Pohl, que iniciou as suas funções como chefe do Departamento Administrativo das SS em finais de fevereiro de 1934, sobre a alçada de Himmler, cuja política era clara: "a mão-de-obra dos campos de concentração tornar-se-ia o principal capital da crescente economia SS". (Wachsmann, 2015, p. 171)

As SS chegaram inclusive a assinar contratos de cooperação com "empresas de topo como IG Ferben, Heinkel, BMW, AFA e VW". As SS forneciam a mão-de-obra escrava, vestuário, alimentação básica, e as empresas contratantes, para além de garantir a construção e manutenção do campo-satélite, pagavam uma diária. (Wachsmann, 2015, p. 418)

As câmaras de gás, ao que tudo indica, foram inventadas e introduzidas no sistema de matança alemão em 1941, quando os médicos SS de Auschwitz decidiram testar ácido prússico - Zyklon B, inspirados pelos gaseamentos feitos no programa T-4. O primeiro teste foi em um pequeno número de prisioneiros soviéticos. Rapidamente o sistema se espalhou.

Campos de extermínio

  • Chelmno, dezembro de 1941;
  • Belzec, fevereiro de 1942;
  • Sobibor, 1942;
  • Treblinka, 1942;
  • Auschwitz-Birkenau, 1943;
  • Majdanek.

Campos de concentração

  • Dachau;
  • Sachsenhausen, 1936 - 1937;
  • Buchenwald; 1937;
  • Mauthausen, 1938 - 1939;
  • Ravensbruck (feminino), 1939;
  • Flossenburgo;
  • Bergen-Belsen;
  • Riga (Letónia);
  • Varsóvia;
  • Natzweiler (França)...

As experiências médicas

As experiências médicas que decorreram nos campos de concentração, aprovadas por Himmler, iniciaram-se pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, sendo que as primeiras foram muitas vezes influenciadas pelos acontecimentos da frente de guerra. Exemplo disso são os envenenamentos com gás mostarda em reclusos. O intuito dos experimentos era testar dois potenciais remédios. As vítimas ficavam com graves queimaduras que se espalhavam até ao pescoço. No fim, os médicos atestaram que os medicamentos eram inúteis.

"Durante o conflito, os médicos abusaram de mais de 20 000 reclusos de uma dúzia de campos de concentração, provocando milhares de mortes." (Wachsmann, 2015, p. 438)

Entre os experimentos são de destacar os seguintes:

  • Testes perpetrados nas câmaras de pressão atmosférica;
  • Testes de água gelada (saber como o corpo reagia à exposição prolongada);
  • Testes de medicamentos contra a septicemia, ferimentos ulcerosos, gangrena gasosa (sulfamidas);
  • Testes de vacinas contra doenças infecciosas como a malária, hepatite, tuberculose, febre tifóide;
  • Testes para a esterilizações em massa;
  • "Ciência racial nazi" - as experiências de Mengele em Auschwitz, "submetendo as suas vítimas a injeções e sangrias, administrando-lhes gotas nos olhos, extraindo-lhes medula óssea". (Wachsmann, 2015, p. 445)

Rapidamente Mengele se tornou um dos mais infames médicos nazi, ficando conhecido como o "Doutor Morte". Para além das bárbaras experiências, "fazia experiências cirúrgicas grotescas, muitas vezes sem anestesia, para comparar a suscetibilidade das crianças à dor. Uma vez, dois meninos - não tinham mais de três quatro anos de idade - foram cosidos um ao outro como se fossem gémeos siameses; gritaram dia e noite até morrerem." (Wachsmann, 2015, p. 446)

Relativamente às experiências de esterilização essas foram feitas com substâncias químicas injetadas no colo do útero das vítimas, que provocavam dores cruciantes e muitas vezes levavam à morte das mulheres, ou através de elevadas doses de radiação, utilizadas de forma descuidada e improvisada. Isso causava "queimaduras profundas dos órgãos sexuais, infeções graves e muitas mortes." (Wachsmann, 2015, p. 445) Ao contrário da primeira técnica, esta era utilizada tanto em mulheres, como homens.

A solução final - o processo

"Auschwitz é desde há muito tempo o símbolo do Holocausto. Os nazis assassinaram em Auschwitz quase um milhão de judeus, mais do que em qualquer outro lugar." (Wachsmann, 2015, p. 302)

"A génese do Holocausto foi prolongada e complexa. (...) o Holocausto foi o culminar de um processo assassino dinâmico, impelido por iniciativas cada vez mais radicais promovidas de cima e de baixo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a prossecução de uma Solução Final pelos nazis passou de planos cada vez mais letais de estabelecimento de "reservas" para os judeus ao extermínio imediato." (Wachsmann, 2015, p. 303) Um dos acontecimentos que levou a essa radicalização foi a invasão alemã da URSS, onde as matanças a tiro de jovens em idade militar se tornaram em uma limpeza étnica. As chacinas incluíam mulheres, crianças e velhos.

Com a construção dos campos de extermínio, a partir do outono de 1941, as deportações sistemáticas tornaram-se rotineiras. Inicialmente na União Soviética, Sérvia e partes da Polónia, rapidamente alastrando-se para a Europa Ocidental e Central. "A partir do verão de 1942, com a intensificação do Holocausto, (...) em Auschwitz, os SS (...) trabalhavam com afinco na prossecução do mesmo objetivo, refinando e aumentando a maquinaria da morte para o Holocausto." (Wachsmann, 2015, p. 305)

"Mas será em 1943 que Auschwitz-Birkenau toma a sua dimensão como centro principal da destruição dos judeus. Aí funcionaram quatro imensas câmaras de gás, com os seus crematórios adjacentes. Para além destes instrumentos de extermínio, encontravam-se em Birkenau trinta depósitos para armazenar os pertences roubados às vítimas, a rampa de chegada e selecção, a "sauna" - instalação oficialmente designada de desinfecção e descontaminação". (Mucznik, 2015, p. 61)

As mulheres no Terceiro Reich

"Ser mulher judia na Alemanha,a partir de 1933, tornou-se sinônimo de reprodutora da raça inferior. O Estado, influenciado pela eugenia, procurou controlar a taxa de natalidade de determinados segmentos da população, principalmente os judeus e os ciganos, adotando programas de esterilização forçada. Cumpre ressaltar que as esterilizações e outras formas hediondas de experiências científicas empreendidas pelos médicos do Terceiro Reich não distinguiam os pacientes segundo o gênero. Entretanto, entendemos que a prática da esterilização atingia as mulheres de forma bastante traumática, deixando sequelas inesquecíveis." (Souza, 2013, p. 2)

A fim de evitar as esterilizações compulsórias, várias "mulheres, sobretudo jovens, tentaram engravidar imediatamente antes da operação, e esta resistência foi tão importatnte que as autoridades lhe deram um nome especial "gravidezes de protesto" (...) Tal resistência acabou quando em 1935 a lei da esterilização foi ampliada, tornando-se também uma lei sobre o aborto: de então em diante os abortos também podiam ser impostos por razões eugénicas até ao sexto mês de gravidez, e eram realizados em simultâneo com a esterelização compulsiva." (Duby & Perrot, 1995, p. 190)

Mas enquanto o Regime Nazi submetia as mulheres judias e ciganas a esterelizações forçadas e a abortos sem as suas permissões, ele negava o acesso às mulheres arianas ao aborto, argumentando que "mulheres saudáveis (arianas) gerariam filhos saudáveis arianos".

Poster de propaganda nazi, onde se pode ler "Uma gravidez não deve ser terminada! Tenham cuidado com os conselhos e acompanhamento não especializado." A mulher sentada, a cirurgiã, é retrada como uma bruxa, de uma raça que não a ariana.

Então a principal função da mulher ariana era gerar filhos para o Fuhrer. Ter filhos era um dever nacional da mulher! Inclusive, uma mulher que tivesse muitos filhos seria condecorada com a "Cruz da Honra da Mãe Alemã"

Quando os alemães detetavam uma gravidez de uma raça considerada inferior, quer fosse em um campo, quer fosse em um gueto, existiam várias opções.

Ou a mãe seria, sumariamente, assassinada, eliminando assim também o bebé, ou então a mulher seria submetida a terrivéis experiências médicas de aborto.

Os Judeus, tanto homens como mulheres, viram os seus direitos reprodutivos retirados.

Mulheres judias, húngara, com os seus filhos, em um sub-campo de Dachau, Alemanha.

A maioria das crianças que nasceram nos campos de concentração acabaram por perecer devido às condições: fome, frio, fraqueza e debilidade das mães que nem os conseguiam amamentar.

Os que sobreviviam eram escondidos e protegidos pelas mulheres no campo, com elas organizando turnos, sendo que umas iam trabalhar e outras ficavam nos barracões a tomar conta das crianças.

Desenho de sobreviventes do Holocausto, que retrata como as mulheres eram utilizadas e submetidas a experiências médicas.

"Lichtenburgo, que abriu em dezembro de 1937, foi o primeiro KL para mulheres. Theodor Eicke levou três anos a estabelecê-lo, o que refletiu o lugar periférico das mulheres como reclusas na sua visão; para ele, os "inimigos atrás do arame farpado" eram os homens."(Wachsmann, 2015, p. 142)

Em 1939, abriu Ravensbruck. Se no primeiro campo de concentração feminino a vida não era tão dificil quando comparada aos campos masculinos, em Ravensbruck os SS não se contiveram tanto. "No entanto, o terror permaneceu função do género, dado que as SS continuaram a reservar os maus tratos mais violentos para os homens"

"Em Ravensbruck, as contagens eram mais tormentosas, o trabalho forçado mais esgotante, as punições mais severas e a vida era mais rígida; as mulheres passaram a usar vestidos às riscas azuis e cinzentas, avental e lenço na cabeça. (...) Em vez de recorrerem a agressões, as SS faziam mais uso dos cães de guarda". (Wachsmann, 2015, p. 143)

Com o deflagrar da guerra, as condições em todos os campos se agravaram. As rações, já parcas, foram ainda mais reduzidas, as doenças tomaram conta dos locais. "Os SS instauraram um ritual particularmente humilhante à chegada: as mulheres tinham de se despir, tomar um duche e passar por um exame corporal; a muitas também rapavam o cabelo. Quaisquer "tentativas mínimas de manter a modéstia tinham de ser abandonas", escreveu Margarete Buber-Neumann". (Wachsmann, 2015, p. 239)

“Chegou a nossa vez, eram oito mulheres, entre elas eu, minha mãe e a minha irmã. Saímos, tivemos que formar uma roda entre cada mulher uma fascista com um revólver. Nós tínhamos que nos abaixar com uma fascista atrás de nós, nas nossas costas e nos aliviar. Eu morria de vontade urinar, mas não saía uma gota da minha bexiga. A humilhação... eu me sentia violentada, eu me cobri e voltamos com as outras pessoas e é claro que eu não aguentei. O corpo, o frio, aquele ar corrente gelado, a roupa fria no corpo. Eu não podia urinar nas calças porque ia imediatamente se transformar em gelo, e a minha mãe estava com os olhos fechados. Eu a sacodia pensei que já estava morta. Porque a luz era meio verde claro, quase escuro. Eu falei 'mãe, não aguento mais', e ela disse 'você tem que urinar'. Então fomos mais uma vez, fizemos mais uma vez a fila, e aí eu já não me importava. Eu fiz o que precisava fazer em frente deles. Essa foi outra coisa que... tem tantas coisas marcam.” (Souza, 2013, p. 7)

Relato de Gabriella Fischer, húngara, em 2008

A violência sexual também era uma constante para as mulheres das consideradas raças inferiores. Mesmo antes de chegarem aos campos de concentração muitas foram aquelas que se viram obrigadas à prostituição, ainda nos guetos ou nos campos de transição, incluindo com membros das SS, numa tentativa desesperada de conseguir algo para comer, por exemplo. Muitas vezes, não só para si, mas para toda uma família.

Nos guetos e nos campos de transição, essas mulheres podiam ainda ser violadas, por vezes em frente de familiares, como forma dos nazis mostrarem superioridade. A violação era uma arma de guerra. Servia para humilhar a vítima, quem poderia ver e quem viesse a saber. Os nazis tinham liberdade para fazer o que quisessem, quando quisessem.

Algumas das mulheres enviadas para os campos de concentração foram obrigadas a se prostituir. A ideia inicial partiu de Himmler e as mulheres podiam ser abusadas tanto por oficiais das SS como por prisioneiros selecionados, com o intuito de aumentar a produtividade dos campos. Mauthausen foi o primeiro campo a ter um bordel.

"As mulheres, judias sobretudo (...) eram obrigadas a prostituírem-se com dezenas de homens por dia, às vezes ao longo de até 22 horas. Aos homens a quem era permitido entrar nos bordéis (...) quinze minutos com uma prostituta custavam 2 marcos. Era ainda mais barato do que comprar cigarros. E só havia uma regra: a única posição sexual permitida era a de missionário. Se engravidassem, tinham de fazer um aborto." (Observador)

As mulheres, por exemplo de Ravensbruck, foram usadas pelos guardas das SS em um sistema económico baseado na exploração sexual. Elas foram forçadas a trabalhar como prostitutas e eram enviadas para os mais variados campos de concentração, como Dachau, Buchenwald, Mauthausen, entre outros, não só para servir de incentivo aos prisioneiros, mas também de divertimento para os guardas, que por vezes assistiam às "sessões". Existem relatos de raparigas de 16 anos forçadas à prostituição nos campos.

Quando os SS executavam violações em massas de judias, por norma, essas eram seguidas de execuções em massa, eliminando qualquer possibilidade de gravidezes e sangues mistos.

"Os russos chegaram e procuram algumas moças, sabe como é, fingimos que estávamos muito doentes para que não tocassem em nós. Eles eram uns animais, porque não tinham estado com uma mulher há muito tempo, pouco lhes importando se ela está em um campo de concentração, se está doente, se tem piolhos ou não. Não ligavam, e estupraram algumas moças. Por isso tivemos de nos esconder debaixo das camas e de outras coisas. Foi uma luta o tempo todo." (Souza, 2013, p. 9)

Relato de Rose Frochewags Mellender, que conta os factos após a libertação do campo de concentração de Malchow, pelos russos e pelos americanos.

As guardas também continuavam à margem de tudo. Apesar de terem sido aceites no sistema concentratório alemão, nunca foram consideradas membros plenos das SS. Elas sempre foram consideradas auxiliares civis e usavam uniformes especiais cinzentos-esverdeados. "O que atraiu a maioria ds recrutas dos KL não foi nenhuma missão ideológica, mas sim a perspetiva de progressão social. Muitas eram pobres e solteiras, com poucas competências profissionais, e o campo prometia um emprego estável com um salário decente e outras regalias, tais como alojamentos confortáveis e até (a partir de 1941) um jardim de infância SS." (Wachsmann, 2015, p. 144)

Segundo uma resolução da ONU, em 2008, a violência perpetrada contra mulheres em período de conflito deve ser considerada punível como crime de guerra. Essa mesma resolução adverte sobre as necessidades de apoio médico, indemnizações às vítimas e detenção dos culpados.

Desta forma, o que aconteceu nos campos de concentração contra as mulheres, pode ser considerado um crime de guerra, visto que visavam o corpo feminino sem consentimento, degradando e humilhando o outro. Assim podem ser observadas duas dimensões:

  • As violações, os abortos não consentidos e as experiências médicas, que atingem diretamente o corpo das vítimas;
  • As que atingem psicologicamente as vítimas, como as ordens que as obrigavam à nudez pública, as condições de higiene deploravéis, o medo de sofrerem espancamentos, as ameaças e os insultos.

2. O estalinismo

2.1. O controlo absoluto da sociedade: o enquadramento das massas 2.2. violência e terror: meios repressivos2.3. O controlo da economia: planificação e coletivização

Josef Estaline, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), assumiu a liderança da URSS entre 1928 e 1953, data da sua morte. A sua ação política acelerou a construção do modelo socialista, através de uma nova etapa: o "comunismo de um só país". O marxismo-leninismo continuou a ser a doutrina oficial do regime, cujos princípios base eram a construção de uma sociedade igualitária, sem classes, fundada na propriedade coletiva dos meios de produção.

A aprovação da Constituição de 1936 reforçou o poder do PCUS, o único partido autorizado, considerado o legítimo representante do proletariado, em nome do qual se exerce o poder. Durante o Estalinismo, ideologia do regime liderado por Estaline (1928 - 1953) assente na sua legitimidade como "guia" da URSS, baseado nos princípios doutrinários do marxismo-leninismo, a máquina burocrática foi reforçada, de modo a zelar pelo cumprimento das orientações emanadas pela hierarquia do Estado e do Partido.

2.1. O controlo absoluto da sociedade: o enquadramento das massas

O controlo da população, como em todos os regimes totalitários, foi na URSS um meio para promover a adesão aos princípios e valores do regime, através da integração nos organismos estatais.

Crianças e Jovens

  • Pequenos Outubristas (6 aos 9 anos);
  • Pioneiros (10 aos 14 anos);
  • Komsomol ou Juventude Comunista (15 aos 28 anos).

Adultos

  • Partido Comunista da URSS (PCUS);
  • Sindicatos controlados pelo aparelho partidário e estatal.

As organizações de enquadramento de crianças e jovens eram estatais e asseguravam a ligação ao Partido. A escola incutiu a ideologia oficial e desenvolveu competências do mundo industrial e técnico no qual a URSS de Estaline aspirava a um lugar de potência mundial.

Tal como os outros regimes totalitários, o Estalinismo pretendeu a criação de um "homem novo". As mulheres, por seu turno, ao contrário dos outros regimes, que ficou associada à conservação da raça e à família, na URSS assumiu um papel ativo na economia e no acesso às mais diversas profissões.

"Mulheres emancipadas - Construam o Comunismo", cartaz de 1926

Esse projeto de criação de "homem novo" baseou-se nos seguintes ideais:

  • Criar trabalhadores fortes e técnicos especializados para a modernização do país;
  • Incutir a ideia de luta de classes, associada à luta do proletariado;
  • Promover a noção de igualdade, levada à prática, por exemplo, na defesa da paridade de género.

2.2. violência e terror: meios repressivos

A nova era estalinista teve um carácter totalitário, fortemente repressivo. Os diversos meios de violência e terror destinaram-se não só ao controlo sobre dissidentes ou opositores, mas também às elites políticas e militares, intelectuais, artistas, operários e camponeses.

Quais eram os meios repressivos utilizados na URSS?

Polícia Política

  • NKVD (Comissariado do Povo para os Assuntos Internos), instituída a partir de 1934, vigiava, prendia e torturava os suspeitos de atividades contrárias ao regime.

Campos de trabalho

  • Eram coordenados por uma autoridade governamental encarregada da rede soviética de campos de trabalho forçado (Gulag) e foram um dos meios de repressão política mais temidos. Estavam situados sobretudo no extremo norte da URSS e na Sibéria e destinavam-se a opositores do regime. Os prisioneiros sobreviviam em condições deploráveis, mal alimentados e sujeitos a trabalhos forçados, humilhados e torturados.
  • Os detidos eram utilizados como mão de obra para construir estradas, caminhos de ferro e canais, extrair matérias-primas, o que fez do Gulag um dos motores da industrialização.

Purgas

  • Ações de saneamento ideológico realizadas no interior do Partido Comunista, através da perseguição, afastamento e eliminação de todos os quadros que contestassem a linha oficial e que eram acusados de se desviarem da linha doutrinária (trotskistas, "maus comunistas" e críticos da política estalinista).
  • Fortaleceram o Partido Comunista e Estaline.

Entre 1937 e 1938, a URSS viveu os anos do Grande Terror, durante os quais o papel da polícia foi fundamental. As purgas atingiram antigos bolcheviques que, segundo Estaline, passaram a ser "inimigos do povo", acusados de conspiração e de tentativas de assassinato. Foram condenados à morte em julgamentos-espetáculo, como aconteceu com os "Processos de Moscovo", entre 1936 e 1938, forjados pela polícia política. Estes processos fortaleceram o regime estalinista e reforçaram o aparelho do Partido Comunista, com a inclusão de quadros obedientes do controlo da sociedade e da difusão da superioridade do modelo soviético.

o Gulag

Estima-se que foram enviadas perto de 18 milhões de pessoas para esses campos, onde 1,7 milhões pereceram, existindo entre 450 e 470 campos, em toda a URSS.

O termo "Gulag" passou a descrever todo o sistema soviético de punição e trabalhos forçados voltado para prisioneiros criminais e políticos, crianças e mulheres. Eles surgiram antes mesmo dos campos de concentração nazis como Auschwitz, Sobibor e Treblinka, sendo que continuaram a crescer muito depois do fim da Segunda Guerra Mundial.

Lista dos participantes do julgamento dos professores checos.

Este sistema incluia:

  • Os campos de trabalhos forçados;
  • Os campos punitivos;
  • Os campos criminais e políticos;
  • Os campos femininos;
  • Os campos infantis;
  • Os campos de trânsito.

De modo mais amplo, Gulag acabou por significar todo o conjunto de procedimentos outrora denominado "moedor de carne": as prisões, os interrogatórios, o traslado em vagões de gado sem aquecimento, o trabalho forçado, a destruição de famílias, os anos de degredo, as mortes prematuras e desnecessárias.

"Há monges e padres, Prostitutas e ladrões, Aqui há príncipes e barões, Mas suas coroas lhes foram tomadas... Nesta ilha, os ricos não têm casa, Nem castelo, nem palácio..."

Poema anónimo escrito por um prisioneiro nas ilhas de Solovetsky, 1926 ((Applebaum, A., s/d, s/p)

No que toca à detenção, quando a máquina de opressão russa se estabeleceu, parou-se de capturar gente aleatória nas ruas e colocá-las na prisão, sumariamente, sem motivo ou explicação. Passaram a existir detenções, inquéritos, julgamentos. "Por outro lado, os "crimes" pelos quais se detinham, julgavam e sentenciavam as pessoas eram absurdos, e os procedimentos de inquérito e condenação se mostravam disparatados e até surreais." (Applebaum, A., s/d, s/p)

Atriz russa, Tatiana Okunevskay, na sua juventude e aos 80 anos.

Também nos campos do sistema soviético, os prisioneiros eram desumanizados, privados das suas roupas, identidade, impedidos de contatar com o mundo exterior, interrogados, torturados, julgados em farsas, isso quando eram julgados e, inclusive, proibidos de usar o termo "camarada" entre si.

Já no que toca a inimigos, Estaline tinha um sentido mais abrangente que Hitler: "representantes importantes da burguesia, proprietários de terra, industriais, comerciantes, padres contra-revolucionários, oficiais anti-soviéticos", independentemente da nacionalidade, do sexo ou da idade. Ou seja, todos os que pudessem atacar o regime estalinista.

"Aqui na Lubyanka, você já não é uma pessoa. E não há gente a seu redor. Conduzem você por um corredor, fotografam-na, despem-na, revistam-na mecanicamente. Tudo se faz de maneira totalmente impessoal. Você procura um olhar humano - não falo nem de uma voz humana, só mesmo de um olhar -, mas não o acha. Você fica em pé, desgrenada, diante do fotógrafo. Tenta de algum modo ajdeitar-se nas roupas, e lhe mostram com o dedo onde sentar. Uma voz vazia diz: "De frente" e "De perfil". Não a vêem como ser humano. Você se tornou um objeto."

Testemunho de Inna Shikheeva-Gaister, presa por ser filha de um inimigo do povo, presa em Lubyanka, a cadeia central de Moscovo. (Applebaum, A., s/d, s/p)

Durante o encarceramento, tanto homens como mulheres, eram regularmente revistados e humilhados, tendo que ficar totalmente nus perante os guardas e efetuar um sem fim de tarefas para os guardas confirmarem que os prisioneiros não tinham nada de ilegal em si. Existem relatos de mulheres que caíram em lágrimas nessas revistas, e outras que ficaram histéricas.

Um dia em um gulag começava cedo, com uma ida às latrina, onde aqueles que chegavam primeiro podiam, rapidamente, tomar um duche e aliviar-se. Depois seguia-se o desdejum que se resumia a água quente, com algo semelhante a chá ou café, uma ração diária de pão e dois ou três torrões de açúcar. Partiam para o trabalho, onde não havia nem pausas, nem barulho. A ida às latrinas era proibida. O almoço e o jantar era uma "sopa de cadeia", feita de vísceras, cereal ou repolho podre. Antes das luzes dos barracões se apagarem, tinham uma última posibilidade de ir à latrina. No dia seguinte, tudo se repetia...

"Os presos trabalhavam em quase todas as atividades imaginárias - derrubada de árvores, transporte dessa madeira, mineração, construção civil, manufatura, agropecuária, projeto de aviões e peças de artilharia - e, na realidade viviam num Estado dentro do Estado, quase numa civilização em separado. O Gulag tinha as suas próprias leis, seus próprios costumes, sua moralidade, até sua própria gíria. Gerou a sua própria literatura, seus próprios vilões, seus próprios heróis, e deixou a sua marca em todos os que passaram por ele, fosse como presos, como guardas. Anos depois de libertados, os habitantes do Gulag muitas vezes eram capazes de reconhecer ex-condenados na rua, simplesmente pelo "olhar"." (Applebaum, A., s/d, s/p)

"Quem está doente, imprestável, Fraco demais para as minas, E demovido, mandado Ao campo mais abaixo Para abater as árvores de Kolyma. Parece muito simples. No papel. Mas não consigo esquecer A fieira de trenós na neve E as pessoas, arreadas. Forcejando, os peitos cavados, elas puxam os trenós. Ou param para descansar, Ou vacilam nas encostas íngremes... Aquele enorme peso rola abaixo E, a qualquer momento, As fará tropeçar. Quem já não viu cavalo que tropica? Mas nós... Nós vimos gente com arreios..."

Elena Vladimirova, (Applebaum, A., s/d, s/p)

Para quebrar ainda mais os prisioneiros, os gulags eram dotados com "celas punitivas", para onde eram enviados todos aqueles que se recusavam a acatar as ordens recebidas, nomeadamente participar nos trabalhos diários. Nessas "celas", os prisioneiros viam as suas parcas rações diárias ainda mais reduzidas. O beliche poderia ser substituído por um simples banco. As paredes e o ambiente era húmido e agoniante. Os comandantes dos campos ainda tinham o poder de decidir se o prisioneiro passaria a sua penitência com ou sem roupa.

"Minha roupa de baixo já estava molhada, e eu tremia. Sentia rigidez e cãibras no pescoço e nos ombros. A madeira do banco, bruta e ensopada, estava apodrecendo (...) o banco era tão estreito que eu não conseguia deitar de costas e, quando ficava de lado, as pernas pendiam da beirada; tinha de mantê-las dobradas o tempo todo. Difícil mesmo era resolver de que lado deitar: de um lado, a cara ficava espremida contra a parede; de outro, as costas ficavam molhadas."

Testemunho de Janusz Bardach, cuja cela ficava em um piso inundado (Applebaum, A., s/d, s/p)

No que diz respeito às mulheres enviadas para os gulags o seu tratamento não era diferenciado. No entanto as suas vivências sim, não só porque criavam laços de amizade e apoio, mas também porque tentavam ter cuidados acrescidos consigo mesmas.

Tal como aconteceu na Alemanha nazi, elas também foram vítimas de violações e humilhações. Muitas viram-se forçadas à prostituição em troca de alimento ou de um trabalho mais fácil.

"Razgon também conta a história de uma moça loura, muito nova, com a qual por acaso deparou quando ela varria o pátio de uma unidade médica (...). Na época, Razgon era trabalhador livre, em visita a um médico seu conhecido; e, embora não estivesse com fome, ofereceram-lhe um lauto almoço. Ele deu a comida à moça, que "comeu em silêncio, com asseio e educação" (...). De facto, fez Razgon lembrar-se da própria irmã. A mocinha acabou de comer e empilhou os pratos direitinho na bandeja de madeira. Depois, ergeu o vestido, tirou a calcinha e, segurando-a, voltou-se para mim sem sorrir. "No chão ou em outro lugar", perguntou. De início sem entender minha reação, e depois amendontrada com esta, a jovem se justificou, outra vez sem sorrir de modo algum: "As pessoas não me dão comida de outro jeito..."

(Applebaum, A., s/d, s/p)

"Holodomor" ou "Golodomor"

"Morte pela fome" ou "Holocausto da fome"

"A abastada terra Ucrânia, em termos agrícolas, cantada desde o tempo dos gregos como um celeiro da Europa, foi severamente castigada pelo regime soviético, que impediu os camponeses de acederem aos bens alimentares, muitos destes por eles próprios produzidos. A polícia secreta soviética fechou as fronteiras e barrou o acesso de milhões de camponeses de todas as idades aos alimentos bási- cos. À luz de um plano criminoso, o governo estalinista desencadeou um processo de extinção das elites políticas e intelectuais críticas de Moscovo, bem como da grande massa da população produtiva da Ucrânia, em nome da total sujeição da vontade desta nação e do seu território ao poder imperialista soviético. As elites intelectuais foram silenciadas pela prisão, pelo exílio e pela morte; a Igreja Orto- doxa foi proibida, dezenas de bispos e padres foram perseguidos e mortos, as igrejas esventradas de toda a simbologia religiosa, os fiéis impedidos de manifestar a sua fé e, saliente-se, grande parte das famílias agrícolas foi massacrada por uma fome prolongada e silenciosa, montada artificialmente, enquanto os víveres de cereais apodreciam nos silos (Conquest 1986)."

(Cieszyńska, B. & Franco, J., 2013, p. 18)

O "Holodomor" foi despoletado pelo processo de coletivização da agricultura levado a cabo pela polícia política soviética. Os camponeses, organizados por aldeias, eram obrigados a cumprir elevadas e impossíveis cotas de produção. Comumente, fala-se apenas de cereais, mas na realidade incluía todos os bens alimentícios.

O processo de coletivização e deskulakização da Ucrânia iniciou-se com um ataque surpresa

Objetivo: separar os camponeses ricos, médios e pobres; expropriar as suas propriedades e meios de produção privados, fechar as igrejas e forçar as pessoas a integrar em comunas agrícolas

Resistência ucraniana, que destruíram as suas colheitas, mataram o seu gado e destruíram os seus meios de produção para impedir a colectivização dos mesmos

Perante isso, Estaline viu-se obrigado a recuar e a reorganizar-se, colocando em prática um processo de expropriação menos brutal

Os camponeses iriam poder manter as suas casas e parte das suas terras para exploração privada

Resistência continuou

Expropriação forçada dos cereais e dos meios de produção

A "Grande Fome", de 1932 e 1933

Foi "sobretudo, a forma de impor o regime comunista à "nação camponesa", com a destruição das estruturas tradicionais nos campos, a liquidação de milhões e uma aceleração brutal dos processos processos de urbanização" (Cieszyńska, B. & Franco, J., 2013, p. 43), devido ao êxodo rural.

Essa instrumentalização da fome foi alvo de vários decretos, sendo de destacar:

  • 22 de outubro de 1932 - o envio de duas comissões extraordinárias para a Ucrânia com o objetivo de "acelerar as coletas";
  • 18 e 20 de novembro de 1932 - imposição de multas em géneros;
  • 1 e 3 de dezembro de 1932 - a proibição da comercialização de batatas, carnes e animais;
  • 6 de dezembro de 1932 - a implantação dos "quadros negros" e as suas respetivas consequências;
  • 27 de dezembro de 1932 - a instituição do passaporte interno para todos os soviéticos, à exceção dos camponeses;
  • 22 de janeiro de 1933 - a polícia política recebe ordens específicas para impedir a fuga dos camponeses famintos.

Relata de Maria Chtyfuruk, em 1988, pela primeira vez, de uma memória de infância:

"Dez, quinze pessoas morriam todos os dias. Levavam-nas numa carroça e atiravam-nas para uma vala e, no dia seguinte, recomeçava-se. As pessoas adormeciam e depois partiam... [...] Aquele que não quisesse aderir ao kolkhoz era imediatamente chamado de kulak. Tu possuis uma parelha de cavalos, uma carroça, uma vaca? Então, vão-te deskulaquizar. O meu pai entregou ao kolkhoz, os seus cavalos e a sua vaca. Depois, morreu de fome... Levaram tudo sem deixar nada em troca; deixaram as pessoas a morrer de fome. Destruiram as casas. Deportaram as pessoas para o Grande Norte ou a Sibéria; elas nunca mais voltaram. Só Deus sabe o que lhes aconteceu." (Cieszyńska, B. & Franco, J., 2013, p. 53)

O Holodomor foi uma grande regressão civilizacional:

  • Proliferaram os déspotas locais;
  • Os casos de banditismo aumentaram;
  • Os casos de abandono de crianças aumentaram;
  • Houve uma disseminação de "barracas de morte";
  • Propagação do canibalismo;
  • Propagação dos linchamentos;
  • Propagação dos suicídios coletivos.

Em uma carta interceptada em Fevereiro de 1933, a irmã do recruta L. I. Kostenko, escreve:

"É possível que em breve fiquemos inchados de fome. Por cá ouve-se dizer que já se comem pessoas. Na manhã do dia 18, quando ia ao armazém, vi pessoas a correr em direcção à rua Nikolaevskaia [na cidade de Rostov do Don], onde se descobriram mãos e pés queimados. Levaram cães polícias e apanharam pessoas, mas não sei o que aconteceu depois. Mas sei que no dia seguinte, no mercado, prenderam uma mulher que vendia salsichas de carne humana; vi as salsichas, eram apetitosas e muito amarelas; quanto ao sabor, obviamente que não faço ideia." (Cieszyńska, B. & Franco, J., 2013, p. 74)

"Os casos de necrofagia são igualmente referidos pelo cônsul italiano em Kharkiv, que escreve a 15 de Agosto desse ano:

«Todas as noites, em Kharkiv, são amontoados cerca de 250 cadáveres de pessoas mortas de fome ou de tifo. Verificou-se que uma grande quantidade deles já não tinha o fígado: este parecia ter sido retirado através de uma grande incisão. A polícia acabou por deter alguns dos misteriosos “amputadores”, os quais confessaram que com aquela carne confeccionavam o recheio dos pirojki (pastéis com recheio de legumes, de carne, de arroz, etc.) que seguidamente vendiam, de manhã, no mercado». (Cieszyńska, B. & Franco, J., 2013, p. 74)

2.3. O controlo da economia: planificação e coletivização

No domínio económico, no âmbito do centralismo do Estado, o Estalinismo seguir três orientações.

Como foi implementada a planificação da economia?

O Gosplan - o organismo oficial estatal - elaborava planos quinquenais. Entre 1928 e 1942 foram definidos três planos.

Para concretizar os objetivos da planificação económica e aumentar a produção, o Estado recorreu à emulação socialista, ou seja, apelou ao sentido patriótico dos trabalhadores, para que se superassem e produzissem mais. Atribuiu prémios de produtividade e condecorações aos operários que se destacavam.

Neste cartaz, de 1931, pode ler-se: "A aritmética de um plano industrial-financeiro 2 + 2 mais o entusiasmos dos trabalhadores = 5"

Como se procedeu à colectivizarão agrária?

Os campos foram coletivizados através da deskulakização a partir de dezembro de 1929. Os kulaks foram obrigados a entregar as terras, os instrumentos e o gado. Esse processo também permitiu libertar mão de obra para a indústria, tida como principal. Apesar de secularizada, a agricultura era importante por causa da auto-suficiência e para abastecer a população urbana em crescimento acentuado, concretizado através de armazéns estatais e cooperativas de consumo. Aqueles que resistiram foram deportados para a Sibéria ou executados.

A maquinaria também foi coletivizada e controlada pelo Estado através das MTS, estações de maquinaria e tratores que garantiam a assistência técnica nos campos.

As medidas estalinistas tiveram óptimos resultados tornando a URSS a segunda potência industrializada, em 1939. Em termos agrícolas, a coletivização forçada foi catastrófica, já que a resistência dos kulaks e a destruição de colheitas originaram uma grande fome, entre 1931 - 1933, que fez entre 5 e 8 milhões de vítimas, em diversas repúblicas da URSS, sobretudo na Ucrânia, Cazaquistão, Bielorrússia e nas regiões ao sul dos Urais.

"Quando víamos um cadáver na rua tirávamos um pedaço de carne para cozer”

3. O papel da propaganda no quadro dos totalitarismos

A difusão dos princípios e valores dos regimes totalitários foi garantida pela ação de uma máquina de propaganda.

Quais os domínios e meios de propaganda?

Um dos focos da propaganda foi o culto do chefe, um traço comum a todos os regimes: Mussolini era o Duce, Hitler era o Fuhrer e Estaline era o Pai dos Povos. O líder era apresentado como homem providencial, o guia carismático, detentor do poder. O chefe considerado intérprete da vontade nacional, apoiado por uma administração submissa, tinha de ser seguido de forma cega e obediente.

Entre os meios de propaganda destacaram-se os seguintes:

  • Os discursos políticos (encenados e dramatizados) dirigidos a uma audiência disciplinada e obediente, difundidos pela rádio e no cinema, galvanizavam as massas;
  • Os estandartes, os uniformes e símbolos reforçavam o sentimento de exaltação e grandiosidade;
  • As paradas militares, desfiles e marchas demonstravam o poder e a força do regime e da nação;
  • Os mass media (imprensa, rádio, televisão, cinema e cartazes) foram utilizados para difundir ideias do regime através de mensagens, slogans e discursos, bem como a censura, que eliminava a dissidência;
  • A produção artística e cultural foi submetida a interesses ideológicos, promovendo-se a criação de uma arte oficial.

A propaganda foi confiada a ministérios cuja designação associava as palavras "imprensa e propaganda" (ou "educação nacional e propaganda" ou "cultura e propaganda"), de modo a garantir o controlo totalitário sobre as manifestações culturais.

Cinematografia

4,5/ 10 (IMDb)
Banido
  • Título: Der Ewige Jude - O Eterno Judeu
  • Ano de lançamento: 1940
  • Diretor: Fritz Hippler
  • Sinopse: Em formato de documentário, este filme tem como objetivo retratar os judeus e o impacto negativo que esses estariam a ter na sociedade ocidental, em especial, na Alemanha. Foi um dos filmes de propaganda nazi mais importantes.
8,4/ 10 (IMDb)
M/16
2h22
  • Título: Come and See - Vem e vê
  • Ano de lançamento: 1985
  • Diretor: Elem Klimov
  • Sinopse: O filme desenrola-se em torno da vida de Floria, que após encontrar um rifle decide entrar para a Resistência Soviética e lutar contra as forças alemães. Retrata os horrores terríveis da Segunda Guerra Mundial.
9/ 10 (IMDb)
M/12
3h15
  • Título: Schindler's List - A Lista de Schindler
  • Ano de lançamento: 1993
  • Diretor: Steven Spielberg
  • Sinopse: Durante a Alemanha Nazi, o industrial Oskar Schindler gradualmente começa a se preocupar com a condição dos judeus depois de testemunhar os abusos praticados pelo partido.
7.3/ 10 (IMDb)
2h49
M/12
  • Título: The Painted Bird - O Pássaro Pintado
  • Ano de lançamento: 2019
  • Diretor: Václav Marhoul
  • Sinopse: Um jovem judeu algures na Europa do Leste procura refúgio e proteção durante a Segunda Guerra Mundial, onde encontra diferentes personagens que vão influenciar a sua jornada das mais diversas formas.