Os lusíadas
reflexões do poeta
Canto x
André Figueiredo, n.º4 / Gabriel Primo, n.º7 João Rocha, n.º10 / Rita Benídio, n.º17
Introdução
Ao longo da obra o poeta apresenta várias reflexões, no início e no fim dos cantos, criticando e aconselhando os Portugueses.Os últimos versos da obra revelam sentimentos contraditórios: o desalento, o orgulho e a esperança.
Contextualização
Neste canto os portugueses encontram-se na Ilha dos Amores onde estes recebem um banquete preparado pelas Ninfas e uma delas prenuncia o futuro ilustre dos lusitanos no Oriente. Vasco da Gama tem o privilégio de conhecer a Máquina doMundo, representação em miniatura do globo terrestre, na qual Tétis destaca os locaisque os portugueses alcançarão.
Os marinheiros despedem-se da ilha e retomam a sua viagem de regresso à pátria e a epopeia termina com uma última reflexão do poeta.
Estrofe que inicia a conclusão do poema e traduz o desencanto face à decadência da pátria.
O poeta despede-se da "Musa", Calíope, a quem pedira ajuda.
EStância 145
Sente-se cansado, não de cantar, mas de ver que ninguém ouve o seu canto, pois os portugueses, a gente surda e endurecida não é capaz de o apreciar e a pátria está apenas interessada no gosto da cobiça e na rudeza, vivendo numa visão pessimista traduzida pela utilização de adjetivos de conotação negativa: destemperada, enrouquecida, surda, endurecida, austera, apagada e vil.
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenhoDestemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Düa austera, apagada e vil tristeza.
Após um momento de desalento quanto ao estado da nação, Camões dirige-se a D. Sebastião recomendando-lhe que olhe para o seu povo.
Desalento por verificar que a pátria não tem orgulho nem gosto.
EStância 146
E não sei por que influxo de Destino Não tem um ledo orgulho e geral gosto, Que os ânimos levanta de contino A ter pera trabalhos ledo o rosto. Por isso vós, ó Rei, que por divino Conselho estais no régio sólio posto, Olhai que sois (e vede as outras gentes) Senhor só de vassalos excelentes.
O poeta apela ao rei D. Sebastião para que olhe para estes “vassalos excelentes”, pois representam a glória, a coragem e o espírito patriótico, dispondo-se a enfrentar os maiores perigos e os maiores sacrifícios somente para engrandecerem o Rei e a Pátria.
O poeta continua a exortar o rei, D. Sebastião.
Recursos Expressivos:
Através da comparação este elogia a coragem e a bravura dos portugueses.
Camões utiliza o imperativo “Olhai”, a adjetivação expressiva “ledos” e “bravos”, e a antítese “quentes”/” frias” para melhor caracterizar a audácia e a coragem dos portugueses.
EStância 147
Olhai que ledos vão, por várias vias, Quais rompentes liões e bravos touros,
Dando os corpos a fomes e vigias, A ferro, a fogo, a setas e pelouros, A quentes regiões, a plagas frias, A golpes de Idolátras e de Mouros, A perigos incógnitos do mundo, A naufrágios, a pexes, ao profundo.
Os vassalos excelentes são capazes de avançar ledos (alegres), ultrapassar qualquer obstáculo, guerra, fome, naufrágios e outros perigos...
O poeta continua a exortar o rei, D. Sebastião.
Os vassalos excelentes são obedientes, estão dispostos a tudo e se souberem que são olhados e valorizados pelo rei, tudo farão para o tornar vencedor.
EStância 148
Por vos servir, a tudo aparelhados; De vós tão longe, sempre obedientes; A quaisquer vossos ásperos mandados, Sem dar reposta, prontos e contentes. Só com saber que são de vós olhados,
Demónios infernais, negros e ardentes,
Cometerão convosco, e não duvido Que vencedor vos façam, não vencido.
O poeta continua a exortar o rei, D. Sebastião.
A valorização da experiência é um ideal do Renascimento.
EStância 149
Favorecei-os logo, e alegrai-os Com a presença e leda humanidade; De rigorosas leis desalivai-os, Que assi se abre o caminho à santidade. Os mais exprimentados levantai-os, Se, com a experiência, têm bondade Pera vosso conselho, pois que sabem O como, o quando, e onde as cousas cabem.
Os vassalos excelentes merecem ser “desaliviados” de leis rigorosas e os homens com mais experiência devem ser ouvidos e valorizada a sua sabedoria.
O poeta continua a exortar o rei, D. Sebastião.
Os Cavaleiros tende em muita estima, Pois com seu sangue intrépido e fervente
Estendem não sòmente a Lei de cima,
Mas inda vosso Império preminente. Pois aqueles que a tão remoto clima Vos vão servir, com passo diligente, Dous inimigos vencem: uns, os vivos, E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
EStância 150-152
Fazei, Senhor, que nunca os admirados
Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, Possam dizer que são pera mandados, Mais que pera mandar, os Portugueses.
Tomai conselho só d’exprimentados Que viram largos anos, largos meses, Que, posto que em cientes muito cabe. Mais em particular o experto sabe.
Todos favorecei em seus ofícios, Segundo têm das vidas o talento; Tenham Religiosos exercícios De rogarem, por vosso regimento, Com jejuns, disciplina, pelos vícios Comuns; toda ambição terão por vento, Que o bom Religioso verdadeiro Glória vã não pretende nem dinheiro.
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo, De vós não conhecido nem sonhado? Da boca dos pequenos sei, contudo, Que o louvor sai às vezes acabado. Nem me falta na vida honesto estudo, Com longa experiência misturado, Nem engenho, que aqui vereis presente,
Cousas que juntas se acham raramente.
EStância 153-154
De Formião, filósofo elegante, Vereis como Anibal escarnecia, Quando das artes bélicas, diante Dele, com larga voz tratava e lia. A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia,
Sonhando, imaginando ou estudando,
Senão vendo, tratando e pelejando.
Nas estrofes 154 e 155 o poeta traça o seu autorretrato:
- ” humilde, baixo e rudo”; - Possuidor de “honesto estudo”; - Misturado com “longa experiência”; - Possuidor de “engenho” / talento; - Disposto a servir o rei em combate; - Disponível para cantar o rei e os seus feitos.
Nesta estrofe o poeta explica ao rei que só se consegue aprender a arte da querra na prática.
Camões traça o seu autorretrato.
EStância 155
Pera servir-vos, braço às armas feito, Pera cantar-vos, mente às Musas dada; Só me falece ser a vós aceito, De quem virtude deve ser prezada. Se me isto o Céu concede, e o vosso peito Dina empresa tomar de ser cantada, Como a pressaga mente vaticina Olhando a vossa inclinação divina,
Este autorretrato corresponde ao do homem ideal do Renascimento: - Possuidor de um saber feito de estudo e experiência (conciliação do saber teórico e do saber prático); - Detentor de talento e inspiração artística; - Possuidor da lealdade, da coragem e do desapego do bom soldado, sempre disponível para servir o seu rei.
O poeta incentiva o rei a prosseguir a guerra de cruzada no Norte de África.
EStância 156
O poeta oferece-se para cantar os novos feitos e espalhá-los por todo o mundo.
Ou fazendo que, mais que a de Medusa,
A vista vossa tema o monte Atlante, Ou rompendo nos campos de Ampelusa
Os muros de Marrocos e Trudante, A minha já estimada e leda Musa Fico que em todo o mundo de vós cante,
De sorte que Alexandro em vós se veja,
Sem à dita de Aquiles ter enveja.
O próprio Alexandre Magno rever-se-ia em D. Sebastião, sem invejar a glória de Aquiles, pois a do soberano português seria muito superior.
Conclusão
No Canto X, o poeta traduz o
seu desencanto face à situação de
decadência que caracteriza a sua
pátria.
Constatando assim, a oposição
entre o estado do reino e aquilo
que é o assunto da sua epopeia: o
canto dos feitos gloriosos dos
portugueses.
OS LUSÍADAS: reflexões do poeta
André Figueiredo
Created on June 11, 2023
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Os lusíadas
reflexões do poeta
Canto x
André Figueiredo, n.º4 / Gabriel Primo, n.º7 João Rocha, n.º10 / Rita Benídio, n.º17
Introdução
Ao longo da obra o poeta apresenta várias reflexões, no início e no fim dos cantos, criticando e aconselhando os Portugueses.Os últimos versos da obra revelam sentimentos contraditórios: o desalento, o orgulho e a esperança.
Contextualização
Neste canto os portugueses encontram-se na Ilha dos Amores onde estes recebem um banquete preparado pelas Ninfas e uma delas prenuncia o futuro ilustre dos lusitanos no Oriente. Vasco da Gama tem o privilégio de conhecer a Máquina doMundo, representação em miniatura do globo terrestre, na qual Tétis destaca os locaisque os portugueses alcançarão.
Os marinheiros despedem-se da ilha e retomam a sua viagem de regresso à pátria e a epopeia termina com uma última reflexão do poeta.
Estrofe que inicia a conclusão do poema e traduz o desencanto face à decadência da pátria.
O poeta despede-se da "Musa", Calíope, a quem pedira ajuda.
EStância 145
Sente-se cansado, não de cantar, mas de ver que ninguém ouve o seu canto, pois os portugueses, a gente surda e endurecida não é capaz de o apreciar e a pátria está apenas interessada no gosto da cobiça e na rudeza, vivendo numa visão pessimista traduzida pela utilização de adjetivos de conotação negativa: destemperada, enrouquecida, surda, endurecida, austera, apagada e vil.
Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenhoDestemperada e a voz enrouquecida, E não do canto, mas de ver que venho Cantar a gente surda e endurecida. O favor com que mais se acende o engenho Não no dá a pátria, não, que está metida No gosto da cobiça e na rudeza Düa austera, apagada e vil tristeza.
Após um momento de desalento quanto ao estado da nação, Camões dirige-se a D. Sebastião recomendando-lhe que olhe para o seu povo.
Desalento por verificar que a pátria não tem orgulho nem gosto.
EStância 146
E não sei por que influxo de Destino Não tem um ledo orgulho e geral gosto, Que os ânimos levanta de contino A ter pera trabalhos ledo o rosto. Por isso vós, ó Rei, que por divino Conselho estais no régio sólio posto, Olhai que sois (e vede as outras gentes) Senhor só de vassalos excelentes.
O poeta apela ao rei D. Sebastião para que olhe para estes “vassalos excelentes”, pois representam a glória, a coragem e o espírito patriótico, dispondo-se a enfrentar os maiores perigos e os maiores sacrifícios somente para engrandecerem o Rei e a Pátria.
O poeta continua a exortar o rei, D. Sebastião.
Recursos Expressivos:
Através da comparação este elogia a coragem e a bravura dos portugueses.
Camões utiliza o imperativo “Olhai”, a adjetivação expressiva “ledos” e “bravos”, e a antítese “quentes”/” frias” para melhor caracterizar a audácia e a coragem dos portugueses.
EStância 147
Olhai que ledos vão, por várias vias, Quais rompentes liões e bravos touros, Dando os corpos a fomes e vigias, A ferro, a fogo, a setas e pelouros, A quentes regiões, a plagas frias, A golpes de Idolátras e de Mouros, A perigos incógnitos do mundo, A naufrágios, a pexes, ao profundo.
Os vassalos excelentes são capazes de avançar ledos (alegres), ultrapassar qualquer obstáculo, guerra, fome, naufrágios e outros perigos...
O poeta continua a exortar o rei, D. Sebastião.
Os vassalos excelentes são obedientes, estão dispostos a tudo e se souberem que são olhados e valorizados pelo rei, tudo farão para o tornar vencedor.
EStância 148
Por vos servir, a tudo aparelhados; De vós tão longe, sempre obedientes; A quaisquer vossos ásperos mandados, Sem dar reposta, prontos e contentes. Só com saber que são de vós olhados, Demónios infernais, negros e ardentes, Cometerão convosco, e não duvido Que vencedor vos façam, não vencido.
O poeta continua a exortar o rei, D. Sebastião.
A valorização da experiência é um ideal do Renascimento.
EStância 149
Favorecei-os logo, e alegrai-os Com a presença e leda humanidade; De rigorosas leis desalivai-os, Que assi se abre o caminho à santidade. Os mais exprimentados levantai-os, Se, com a experiência, têm bondade Pera vosso conselho, pois que sabem O como, o quando, e onde as cousas cabem.
Os vassalos excelentes merecem ser “desaliviados” de leis rigorosas e os homens com mais experiência devem ser ouvidos e valorizada a sua sabedoria.
O poeta continua a exortar o rei, D. Sebastião.
Os Cavaleiros tende em muita estima, Pois com seu sangue intrépido e fervente Estendem não sòmente a Lei de cima, Mas inda vosso Império preminente. Pois aqueles que a tão remoto clima Vos vão servir, com passo diligente, Dous inimigos vencem: uns, os vivos, E (o que é mais) os trabalhos excessivos.
EStância 150-152
Fazei, Senhor, que nunca os admirados Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses, Possam dizer que são pera mandados, Mais que pera mandar, os Portugueses. Tomai conselho só d’exprimentados Que viram largos anos, largos meses, Que, posto que em cientes muito cabe. Mais em particular o experto sabe.
Todos favorecei em seus ofícios, Segundo têm das vidas o talento; Tenham Religiosos exercícios De rogarem, por vosso regimento, Com jejuns, disciplina, pelos vícios Comuns; toda ambição terão por vento, Que o bom Religioso verdadeiro Glória vã não pretende nem dinheiro.
Mas eu que falo, humilde, baxo e rudo, De vós não conhecido nem sonhado? Da boca dos pequenos sei, contudo, Que o louvor sai às vezes acabado. Nem me falta na vida honesto estudo, Com longa experiência misturado, Nem engenho, que aqui vereis presente, Cousas que juntas se acham raramente.
EStância 153-154
De Formião, filósofo elegante, Vereis como Anibal escarnecia, Quando das artes bélicas, diante Dele, com larga voz tratava e lia. A disciplina militar prestante Não se aprende, Senhor, na fantasia, Sonhando, imaginando ou estudando, Senão vendo, tratando e pelejando.
Nas estrofes 154 e 155 o poeta traça o seu autorretrato:
- ” humilde, baixo e rudo”; - Possuidor de “honesto estudo”; - Misturado com “longa experiência”; - Possuidor de “engenho” / talento; - Disposto a servir o rei em combate; - Disponível para cantar o rei e os seus feitos.
Nesta estrofe o poeta explica ao rei que só se consegue aprender a arte da querra na prática.
Camões traça o seu autorretrato.
EStância 155
Pera servir-vos, braço às armas feito, Pera cantar-vos, mente às Musas dada; Só me falece ser a vós aceito, De quem virtude deve ser prezada. Se me isto o Céu concede, e o vosso peito Dina empresa tomar de ser cantada, Como a pressaga mente vaticina Olhando a vossa inclinação divina,
Este autorretrato corresponde ao do homem ideal do Renascimento: - Possuidor de um saber feito de estudo e experiência (conciliação do saber teórico e do saber prático); - Detentor de talento e inspiração artística; - Possuidor da lealdade, da coragem e do desapego do bom soldado, sempre disponível para servir o seu rei.
O poeta incentiva o rei a prosseguir a guerra de cruzada no Norte de África.
EStância 156
O poeta oferece-se para cantar os novos feitos e espalhá-los por todo o mundo.
Ou fazendo que, mais que a de Medusa, A vista vossa tema o monte Atlante, Ou rompendo nos campos de Ampelusa Os muros de Marrocos e Trudante, A minha já estimada e leda Musa Fico que em todo o mundo de vós cante, De sorte que Alexandro em vós se veja, Sem à dita de Aquiles ter enveja.
O próprio Alexandre Magno rever-se-ia em D. Sebastião, sem invejar a glória de Aquiles, pois a do soberano português seria muito superior.
Conclusão
No Canto X, o poeta traduz o seu desencanto face à situação de decadência que caracteriza a sua pátria.
Constatando assim, a oposição entre o estado do reino e aquilo que é o assunto da sua epopeia: o canto dos feitos gloriosos dos portugueses.