Conto «George»
Maria Judite de Carvalho
Índice
Sequências narrativas
Tempos
Grupo
Análise textual
Estilo-linguagem
Narrador
Simbologia nomes
Diálogos - vídeo
Espaços
Desafio
Temas
Personagens
Grupo
e distribuição de tarefas
Filipe Solha
Gonçalo Fernandes
Gonçalo Copek
O tempo/linhas de ação
Presente (Regresso à vila/venda da casa)
Presente (viagem de comboio / corte com o passado)
Passado (memórias)
Presente/Futuro (amanhã)
Passado
Futuro
Georgina (quase 70 anos), vive arrependida por não ter mais recordações do passado
Sai de casa e vive modestamente para se focar na pintura
Passado
Presente
Gi (18 anos), incompreendida por todos, não quer uma vida convencional
Com 45, George é uma artista bem sucedida e regressa à vila natal para vender a casa dos pais
Andam lentamente, mais do que se pode, como quem luta sem forças contra o vento, ou como quem caminha, também é possível, na pesada e espessa e dura água do mar. Mas não há água nem vento, só calor, na longa rua onde George volta a passar depois de mais de vinte anos. Calor e também aquela aragem macia e como que redonda, de forno aberto, que talvez venha do sul ou de qualquer outro ponto cardeal ou colateral, perdeu a bússola não sabe onde ou quando, perdeu tanta coisa sem ser a bússola. Perdeu ou largou?
Caminham pois lentamente, George e a outra cujo nome quase quis esquecer, quase esqueceu. Trazem ambas vestidos claros, amplos, e a aragem empurra-os ao de leve, um deles para o lado esquerdo de quem vai, o outro para o lado direito de quem vem, ambos na mesma direção, naturalmente.
O rosto da jovem que se aproxima é vago e sem contornos, uma pincelada clara, e quando os tiver, a esses contornos, ele será o rosto de uma fotografia que tem corrido mundo numa mala qualquer, que tem morado no fundo de muitas gavetas, o único fetiche de George. As suas feições ainda são incertas, salpicando a mancha pálida, como acontece com o rosto das pessoas mortas. Mas, tal como essas pessoas, tem, vai ter, uma voz muito real e viva, uma voz que a cal e as pás de terra, e a pedra e o tempo, e ainda a distância e a confusão da vida de George, não prejudicaram. Quando falar não criará espanto, um simples mal-estar.
+info
Agora estão mais perto e ela encontra, ainda sem os ver, dois olhos largos, semicerrados, uma boca fina, cabelos escuros, lisos, sobre um pescoço alto de Modigliani. Mas esse tempo, dantes, não sabia quem era Modigliani e outros que tais, não eram lá de casa, os pais tinham sido condenados pelas instâncias supremas à quase ignorância, gente de trabalho, diziam como se os outros não trabalhassem, e sorriam um pouco com a superioridade dessa mesma ignorância se a ouviam falar de um livro, de um filme, de um quadro nem pensar, o único que tinham visto talvez fosse a velha, estampa desbotada do Angelus que estava na casa de jantar. Com superioridade, pois, e também com certa indignação. Ou seria mesmo vergonha? Como quem ouve um filho atrasado dizer inépcias diante de gente de fora que depois, Senhor, pode ir contar ao mundo o que ouviu. E rir. E rir. Já não sabe, não quer saber, quando saiu da vila e partiu à descoberta da cidade grande, onde, dizia-se lá em casa, as mulheres se perdem. Mais tarde partiu por além-terra, por além-mar. Fez loiros os cabelos, de todos os loiros, um dia ruivos por cansaço de si, mais tarde castanhos, loiros de novo, esverdeados, nunca escuros, quase pretos, como dantes eram. Teve muitos amores, grandes e não tanto, definitivos e passageiros, simples amores, casou-se, divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a chegar, quantas vezes? Agora está - estava -, até quando?, em Amsterdão.
+info
Depois de ter deixado a vila, viveu sempre em quartos alugados mais ou menos modestos, depois em casas mobiladas mais ou menos agradáveis. As últimas foram mesmo francamente confortáveis. Vives numa casa mobilada sem nada de teu? Mas deve ser um horror, como podes?, teria dito a mãe, se soubesse. Não o soube, porém. As cartas que lhe escrevia nunca tinham sido minuciosas, de resto detestava escrever cartas e só muito raramente o fazia. Depois o pai morreu e a mãe logo a seguir.Uma casa mobilada, sempre pensou, é a certeza de uma porta aberta de par em par, de mãos livres, de rua nova à espera dos seus pés. As pessoas ficam tão estupidamente presas a um móvel, a um tapete já gasto de tantos passos, aos bibelots acumulados ao longo das vias é cheios de recordações, de vozes, de olhares, de mãos, de gente, enfim. Pega-se numa jarra e ali está algo de quem um dia apareceu com rosas. Tem alguns livros, mas poucos, como os amigos que julga sinceros, sê-lo-ão? Aos outros livros, dá-os, vende-os a peso, que leve se sente depois! - Parece- me que às vezes fazes isso, enfim, toda essa desertificação, com esforço, com sofrimento - disse-lhe um dia o seu amor de então. - Talvez - respondeu -, talvez. Mas prefiro não pensar no caso.
+info
Queria estar sempre pronta para partir sem que os objetos a envolvessem, a segurassem, a obrigassem a demorar-se mais um dia que fosse. Disponível, pensava. Senhora de si. Para partir, para chegar. Mesmo para estar onde estava. Os pais não sabiam compreender esse desejo de liberdade, por isso se foi um dia com uma velha mala de cabedal riscado, não havia outra lá em casa. Mas prefere não pensar nos primeiros tempos. E as suas malas agora são caras, leves, malas de voar, e com rodinhas. A outra está perto. Se houve um momento de nitidez no seu rosto, ele já passou, George não deu por isso. Está novamente esfumado. A proximidade destrói ultimamente as imagens de George, por isso a vai vendo pior à medida que ela se aproxima. É certo que podia pôr os óculos, mas sabe que não vale a pena tal trabalho. Param ao mesmo tempo, espantam-se em uníssono, embora o espanto seja relativo, um pequeno espanto inverdadeiro, preparado com tempo. (...) Tão jovem, Gi. A rapariguinha frágil, um vime, que ela tem levado a vida inteira a pintar, primeiro à maneira de Modigliani, depois à sua própria maneira, à de George, pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa. Gi com um pregador de oiro que um dia ficou, por tuta e meia, num penhorista qualquer de Lisboa. Em tempos tão difíceis. (...)
+info
Diálogo Gi-George
-Tu?- Tu, Gi?- Vim vender a casa. - Ah, a casa. - Que pensas fazer, Gi? - Partir, não é? Em que se pode pensar aqui, neste cu de Judas, senão em partir? Ainda não me fui embora por causa do Carlos, mas ... O Carlos pertence a isto, nunca se irá embora. Só a ideia o apavora, não é? - Sim. Só a ideia. - Ri-se de partir , como nós nos rimos de uma coisa impossível, de uma ideia louca. construir uma casa a seu modo. Recebeu uma herança e só sonha com isso. Creio que é altura de eu... - Creio que sim. - Pois, não é verdade?
Quer comprar uma terra,
+info
Diálogo Gi-George
- - senhora da vila, uma esposa exemplar, uma mãe perfeita, tudo isso com muito jeito para o desenho. Até posso fazer retratos das crianças quando tiver tempo, não é verdade? -É o que eles acham, não é? - - Eu sei. [...] -Que calor, cheira a queimado o ar . Terá sido sempre assim? - Farto-me de dizer: cheira a queimado, o ar. Ninguém me ouve .- Ninguém ouve ninguém, não sabes? Que aprendeste com vida, mulher? [...] - Creio que estou atrasada.[...] E não posso perder o comboio. Amanhã, bem cedo, sigo para Amsterdão. Estou a viver, em Amsterdão, agora. Tenho lá um atelier. -
Ainda desenhas?
Se não desenhasse dava em maluca
E eles acham que eu tenho muito jeitinho, que hei de um dia ser uma boa
A mãe está a acabar o meu enxoval
Amsterdão é? Onde fica isso?
+info
Diálogo George - Georgina
-Verá que há de passar, tudo passa. Amanhã é sempre outro dia. Só há uma coisa, um crime, que ninguém nos perdoa, nada fazer. Mas isso ainda está longe, muito longe, para quê pensar nisso? Ainda ninguém a acusa, ainda ninguém a condena. Que idade tem?
-Quarenta e cinco anos. Porquê?
- É muito nova. Muito nova.
- Sinto-me velha, às vezes.
- É normal. Eu tenho quase 70 anos. Como estava a chorar, pensei...
- Não tive desgosto nenhum, nenhum. Um encontro, um simples encontro...
- Também tenho muitos encontros, eu. Não quero tê-los mas sou obrigada a isso, vivo tão só. Cheguei à ignomínia de pedir a pessoas conhecidas retratos da minha família. Não tinha nenhum , só um retrato meu de rapariguinha. E retratos de amigos, também. De amigos desaparecidos, levados pelas tempestades, os mais queridos, naturalmente. Porque... o tal crime de que lhe falei, o único sem perdão, a velhice. Um dia vai acordar na sua casa mobilada...
+info
Diálogo George - Georgina
- Como sabe que... - E verá que está só e olhará para o espelho com mais atenção e verá que está velha. Irremediavelmente velha.
- Tenho um trabalho que me agrada.
- Não seja tonta, menina. Outro dia vai reparar, ou talvez já tenha dado por isso, que está a ver pior, e outro ainda que as mãos lhe tremem. E, se for um pouco sensata, ou se souber olhar em volta, descobrirá que este mundo já não lhe pertence, é dos outros, dos que julgam que Baden Powell é um tipo que toca guitarra e que Levi Strauss é uma marca de calças.
- Isso é ignorância, não tem nada a ver com a idade. - Talvez seja ignorância, também. Talvez seja. Estou a incomodá-la, parece-me.
- Dói-me simplesmente a cabeça.
- Desculpe.
+info
PERSONAGENS (como nós as vemos fotos)
Georgina
George
Gi
...
...
...
+info
+info
+info
A SIMBOLOGIA DOS NOMES
Georgina
George
Gi
- Dá a imperessão que estamos a falar com uma pessoa madura
- É um diminuitivo - É um nome pequeno - É um nome simples - É "fofo"
- É um diminuitivo- Já mais composto (devido à maior experiência de vida)
PERSONAGENS
Georgina
George
Gi
Juventude
Vida adulta
Velhice
- 18 anos
- A inocência
- A juventude
- A vida familiar na vila
- Enrizamento familiar e afetivo
- Tentativa de fugir de si mesma
esquecer o passado
- 45 anos
- Vida vazia e de solidão
- Falsa completude existencial
- Desvalorizaçao das relações afetivas
- Mulher independente
- Financeiramente bem sucedida
- 70 anos
- Sem esperanças para o futuro
- O espetro da solidão e a inevitabilidade
da morte
- Valorização das relações afetivas
PERSONAGENS
Georgina
Gi
George
Velhice
Juventude
Vida adulta
- Apresenta-se como uma personagem secundária pois desempenha um papel com menos importância mais ainda assim essencial para o desenrolar da história
- Eles geralmente têm uma única motivação ou característica que os define e não mudam muito ao longo da história.Personagens planas podem ser usados em uma história para fornecer uma função específica, mas geralmente não são tão envolventes ou interessantes quanto personagens redondas.
- Apresenta-se como uma personagem secundária pois desempenha um papel com menos importância mais ainda assim essencial para o desenrolar da história.
- Gi demonstra ser uma personagem com uma personalidade forte.
- Protagonista do conto e desempanha o papel de maior imporância na ação.
- George apresenta-se como uma personagem complexa Esses personagens são geralmente considerados mais interessantes e envolventes do que personagens planas que são definidas por um conjunto limitado de traços de personalidade.
TEMÁTICAS ABORDADAS
ESTADO NOVO
DESIGUALDADE DE GÉNERO
+info
+info
O nosso trailer para um possível filme inspirado neste conto...
SABER MAIS
Modigliani
+info
Comparação
Portugal Holanda
- PIB: 1,013 triliões
- Salário médio: 3000€
- Custo de vida: 2100€
- Política: Centro direita
- PIB: 253,7 biliões
- Salário médio: 1600€
- Custo de vida: 1000€
- Política: Centro esquerda
Avaliação do trabalho
Avaliação do trabalho de grupo
Webgrafia
https://portugues-fcr.blogspot.com/2020/02/analise-do-conto-george.html https://www.studocu.com/pt/document/best-notes-for-high-school-pt/portugues/george-resumo-do-conteudo-e-analise-tematica/14467468 https://prezi.com/p/ism4lfswcze7/analise-do-conto-george/ https://estudoemcasa.dge.mec.pt/2020-2021/12o/portugues/26 https://www.google.com/photos/about/ https://www.eurodicas.com.br/custo-de-vida-na-holanda/ https://www.google.com/search?q=politica+atual+portuguesa&oq=politica+atual+portuguesa&aqs=chrome..69i57.7949j0j4&sourceid=chrome&ie=UTF-8 https://www.idinheiro.com.br/custo-de-vida-em-portugal/
Obrigado
12.º A - George - conto (n.º6; n.º8; n.º9)
Filipe Solha
Created on March 1, 2023
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Conto «George» Maria Judite de Carvalho
Índice
Sequências narrativas
Tempos
Grupo
Análise textual
Estilo-linguagem
Narrador
Simbologia nomes
Diálogos - vídeo
Espaços
Desafio
Temas
Personagens
Grupo
e distribuição de tarefas
Filipe Solha
Gonçalo Fernandes
Gonçalo Copek
O tempo/linhas de ação
Presente (Regresso à vila/venda da casa)
Presente (viagem de comboio / corte com o passado)
Passado (memórias)
Presente/Futuro (amanhã)
Passado
Futuro
Georgina (quase 70 anos), vive arrependida por não ter mais recordações do passado
Sai de casa e vive modestamente para se focar na pintura
Passado
Presente
Gi (18 anos), incompreendida por todos, não quer uma vida convencional
Com 45, George é uma artista bem sucedida e regressa à vila natal para vender a casa dos pais
Andam lentamente, mais do que se pode, como quem luta sem forças contra o vento, ou como quem caminha, também é possível, na pesada e espessa e dura água do mar. Mas não há água nem vento, só calor, na longa rua onde George volta a passar depois de mais de vinte anos. Calor e também aquela aragem macia e como que redonda, de forno aberto, que talvez venha do sul ou de qualquer outro ponto cardeal ou colateral, perdeu a bússola não sabe onde ou quando, perdeu tanta coisa sem ser a bússola. Perdeu ou largou? Caminham pois lentamente, George e a outra cujo nome quase quis esquecer, quase esqueceu. Trazem ambas vestidos claros, amplos, e a aragem empurra-os ao de leve, um deles para o lado esquerdo de quem vai, o outro para o lado direito de quem vem, ambos na mesma direção, naturalmente. O rosto da jovem que se aproxima é vago e sem contornos, uma pincelada clara, e quando os tiver, a esses contornos, ele será o rosto de uma fotografia que tem corrido mundo numa mala qualquer, que tem morado no fundo de muitas gavetas, o único fetiche de George. As suas feições ainda são incertas, salpicando a mancha pálida, como acontece com o rosto das pessoas mortas. Mas, tal como essas pessoas, tem, vai ter, uma voz muito real e viva, uma voz que a cal e as pás de terra, e a pedra e o tempo, e ainda a distância e a confusão da vida de George, não prejudicaram. Quando falar não criará espanto, um simples mal-estar.
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Agora estão mais perto e ela encontra, ainda sem os ver, dois olhos largos, semicerrados, uma boca fina, cabelos escuros, lisos, sobre um pescoço alto de Modigliani. Mas esse tempo, dantes, não sabia quem era Modigliani e outros que tais, não eram lá de casa, os pais tinham sido condenados pelas instâncias supremas à quase ignorância, gente de trabalho, diziam como se os outros não trabalhassem, e sorriam um pouco com a superioridade dessa mesma ignorância se a ouviam falar de um livro, de um filme, de um quadro nem pensar, o único que tinham visto talvez fosse a velha, estampa desbotada do Angelus que estava na casa de jantar. Com superioridade, pois, e também com certa indignação. Ou seria mesmo vergonha? Como quem ouve um filho atrasado dizer inépcias diante de gente de fora que depois, Senhor, pode ir contar ao mundo o que ouviu. E rir. E rir. Já não sabe, não quer saber, quando saiu da vila e partiu à descoberta da cidade grande, onde, dizia-se lá em casa, as mulheres se perdem. Mais tarde partiu por além-terra, por além-mar. Fez loiros os cabelos, de todos os loiros, um dia ruivos por cansaço de si, mais tarde castanhos, loiros de novo, esverdeados, nunca escuros, quase pretos, como dantes eram. Teve muitos amores, grandes e não tanto, definitivos e passageiros, simples amores, casou-se, divorciou-se, partiu, chegou, voltou a partir e a chegar, quantas vezes? Agora está - estava -, até quando?, em Amsterdão.
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Depois de ter deixado a vila, viveu sempre em quartos alugados mais ou menos modestos, depois em casas mobiladas mais ou menos agradáveis. As últimas foram mesmo francamente confortáveis. Vives numa casa mobilada sem nada de teu? Mas deve ser um horror, como podes?, teria dito a mãe, se soubesse. Não o soube, porém. As cartas que lhe escrevia nunca tinham sido minuciosas, de resto detestava escrever cartas e só muito raramente o fazia. Depois o pai morreu e a mãe logo a seguir.Uma casa mobilada, sempre pensou, é a certeza de uma porta aberta de par em par, de mãos livres, de rua nova à espera dos seus pés. As pessoas ficam tão estupidamente presas a um móvel, a um tapete já gasto de tantos passos, aos bibelots acumulados ao longo das vias é cheios de recordações, de vozes, de olhares, de mãos, de gente, enfim. Pega-se numa jarra e ali está algo de quem um dia apareceu com rosas. Tem alguns livros, mas poucos, como os amigos que julga sinceros, sê-lo-ão? Aos outros livros, dá-os, vende-os a peso, que leve se sente depois! - Parece- me que às vezes fazes isso, enfim, toda essa desertificação, com esforço, com sofrimento - disse-lhe um dia o seu amor de então. - Talvez - respondeu -, talvez. Mas prefiro não pensar no caso.
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Queria estar sempre pronta para partir sem que os objetos a envolvessem, a segurassem, a obrigassem a demorar-se mais um dia que fosse. Disponível, pensava. Senhora de si. Para partir, para chegar. Mesmo para estar onde estava. Os pais não sabiam compreender esse desejo de liberdade, por isso se foi um dia com uma velha mala de cabedal riscado, não havia outra lá em casa. Mas prefere não pensar nos primeiros tempos. E as suas malas agora são caras, leves, malas de voar, e com rodinhas. A outra está perto. Se houve um momento de nitidez no seu rosto, ele já passou, George não deu por isso. Está novamente esfumado. A proximidade destrói ultimamente as imagens de George, por isso a vai vendo pior à medida que ela se aproxima. É certo que podia pôr os óculos, mas sabe que não vale a pena tal trabalho. Param ao mesmo tempo, espantam-se em uníssono, embora o espanto seja relativo, um pequeno espanto inverdadeiro, preparado com tempo. (...) Tão jovem, Gi. A rapariguinha frágil, um vime, que ela tem levado a vida inteira a pintar, primeiro à maneira de Modigliani, depois à sua própria maneira, à de George, pintora já com nome nos marchands das grandes cidades da Europa. Gi com um pregador de oiro que um dia ficou, por tuta e meia, num penhorista qualquer de Lisboa. Em tempos tão difíceis. (...)
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Diálogo Gi-George
-Tu?- Tu, Gi?- Vim vender a casa. - Ah, a casa. - Que pensas fazer, Gi? - Partir, não é? Em que se pode pensar aqui, neste cu de Judas, senão em partir? Ainda não me fui embora por causa do Carlos, mas ... O Carlos pertence a isto, nunca se irá embora. Só a ideia o apavora, não é? - Sim. Só a ideia. - Ri-se de partir , como nós nos rimos de uma coisa impossível, de uma ideia louca. construir uma casa a seu modo. Recebeu uma herança e só sonha com isso. Creio que é altura de eu... - Creio que sim. - Pois, não é verdade?
Quer comprar uma terra,
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Diálogo Gi-George
- - senhora da vila, uma esposa exemplar, uma mãe perfeita, tudo isso com muito jeito para o desenho. Até posso fazer retratos das crianças quando tiver tempo, não é verdade? -É o que eles acham, não é? - - Eu sei. [...] -Que calor, cheira a queimado o ar . Terá sido sempre assim? - Farto-me de dizer: cheira a queimado, o ar. Ninguém me ouve .- Ninguém ouve ninguém, não sabes? Que aprendeste com vida, mulher? [...] - Creio que estou atrasada.[...] E não posso perder o comboio. Amanhã, bem cedo, sigo para Amsterdão. Estou a viver, em Amsterdão, agora. Tenho lá um atelier. -
Ainda desenhas?
Se não desenhasse dava em maluca
E eles acham que eu tenho muito jeitinho, que hei de um dia ser uma boa
A mãe está a acabar o meu enxoval
Amsterdão é? Onde fica isso?
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Diálogo George - Georgina
-Verá que há de passar, tudo passa. Amanhã é sempre outro dia. Só há uma coisa, um crime, que ninguém nos perdoa, nada fazer. Mas isso ainda está longe, muito longe, para quê pensar nisso? Ainda ninguém a acusa, ainda ninguém a condena. Que idade tem? -Quarenta e cinco anos. Porquê? - É muito nova. Muito nova. - Sinto-me velha, às vezes. - É normal. Eu tenho quase 70 anos. Como estava a chorar, pensei... - Não tive desgosto nenhum, nenhum. Um encontro, um simples encontro... - Também tenho muitos encontros, eu. Não quero tê-los mas sou obrigada a isso, vivo tão só. Cheguei à ignomínia de pedir a pessoas conhecidas retratos da minha família. Não tinha nenhum , só um retrato meu de rapariguinha. E retratos de amigos, também. De amigos desaparecidos, levados pelas tempestades, os mais queridos, naturalmente. Porque... o tal crime de que lhe falei, o único sem perdão, a velhice. Um dia vai acordar na sua casa mobilada...
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Diálogo George - Georgina
- Como sabe que... - E verá que está só e olhará para o espelho com mais atenção e verá que está velha. Irremediavelmente velha. - Tenho um trabalho que me agrada. - Não seja tonta, menina. Outro dia vai reparar, ou talvez já tenha dado por isso, que está a ver pior, e outro ainda que as mãos lhe tremem. E, se for um pouco sensata, ou se souber olhar em volta, descobrirá que este mundo já não lhe pertence, é dos outros, dos que julgam que Baden Powell é um tipo que toca guitarra e que Levi Strauss é uma marca de calças. - Isso é ignorância, não tem nada a ver com a idade. - Talvez seja ignorância, também. Talvez seja. Estou a incomodá-la, parece-me. - Dói-me simplesmente a cabeça. - Desculpe.
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Georgina
George
Gi
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George
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- Dá a imperessão que estamos a falar com uma pessoa madura
- É um diminuitivo - É um nome pequeno - É um nome simples - É "fofo"
- É um diminuitivo- Já mais composto (devido à maior experiência de vida)
PERSONAGENS
Georgina
George
Gi
Juventude
Vida adulta
Velhice
- 18 anos
- A inocência
- A juventude
- A vida familiar na vila
- Enrizamento familiar e afetivo
- Tentativa de fugir de si mesma
esquecer o passado- 70 anos
- Sem esperanças para o futuro
- O espetro da solidão e a inevitabilidade
da mortePERSONAGENS
Georgina
Gi
George
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