Os Lusíadas
Luís Vaz de Camões
Episódio: Inês de Castro
start
Episódio de Inês de Castro
- É narrado por Vasco da Gama ao Rei de Melinde. - Surge na continuidade da apresentação do reinado de D. Afonso IV.
Quem foi Inês de Castro?
Dona Inês de Castro, fidalga galega de reconhecida e requintada formosura, chega a Portugal em 1340 integrada na corte de D. Constância de Castela quando esta se desloca para terras lusitanas com o fim de se casar com o príncipe D. Pedro, filho do Rei Afonso IV.Apesar da consumação desta união que tinha por detrás motivos políticos, numa tentativa de estabilizar as relações entre Portugal e Castela, a verdade é que o herdeiro do trono depressa fixaria as suas atenções nas graça de Dona Inês de Castro, provocando um escândalo na corte do qual os maiores embaraços seriam para D. Constância e D. Afonso IV. Por esse motivo, o monarca português manda que Dona Inês de Castro seja expulsa do reino e esta acaba por se instalar no castelo da localidade espanhola de Alburquerque, na fronteira com Portugal. Espera D. Afonso que desta forma o príncipe se dedicasse de alma e coração à sua legítima esposa. Mas quis o destino que em 1345 D. Constância morresse de parto e D. Pedro, desobedecendo às ordens e à vontade paternas, intensifica a sua relação com Dona Inês de Castro. Manda que a sua amada volte a Portugal e instala-a na sua própria casa, onde passam a viver como marido e mulher e na qual nascem os seus quatro filhos.
Afonso IV, contrariado e preocupado com o facto desta relação poder vir a significar no futuro uma pretensão castelhana ao trono português ou, pelo menos, uma grande influência desta sobre a política interna do reino, decide agir, pressionado pelos seus conselheiros, de forma a acabar de vez com a indecorosa e explosiva relação e manda que Dona Inês de Castro seja assassinada.
Quando Dona Inês de Castro se apercebe das intenções do rei, vai ao seu encontro, rodeada dos seus filhos, para implorar a misericórdia régia. Nesse momento Afonso IV deixa-se embrandecer e adia a sentença de morte. No entanto, esta acontece a 7 de janeiro de 1355.
Episódio de Inês de Castro ( Canto III est. 118-135)
119 Tu só, tu, puro amor, com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga. Se dizem, fero Amor, que a sede tua Nem com lágrimas tristes se mitiga, É porque queres, áspero e tirano, Tuas aras banhar em sangue humano.
118 Passada esta tão próspera vitória, Tornado Afonso à Lusitana terra, A se lograr da paz com tanta glória Quanta soube ganhar na dura guerra, O caso triste, e dino da memória Que do sepulcro os homens desenterra,
Aconteceu da mísera e mesquinha Que depois de ser morta foi Rainha.
121 Do teu Príncipe ali te respondiam As lembranças que na alma lhe moravam, Que sempre ante seus olhos te traziam, Quando dos teus formosos se apartavam; De noite, em doces sonhos que mentiam, De dia, em pensamentos que voavam; E quanto, enfim, cuidava e quanto via Eram tudo memórias de alegria.
120 Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a Fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego, De teus formosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas.
122
De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados tálamos enjeita,
Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai sesudo, que respeita
O murmurar do povo e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,
123
Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo co’o sangue só da morte ladina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor* consentiu que a espada fina,
Que pôde sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra uma fraca dama delicada? *fúria
125
Pera o céu cristalino alevantando,
Com lágrimas, os olhos piedosos
(Os olhos, porque as mãos lhe estava atando
Um dos duros ministros rigorosos);
E despois, nos meninos atentando,
Que tão queridos tinha e tão mimosos,
Cuja orfandade como mãe temia,
Para o avô cruel assim dizia:
124
Traziam-na os horríficos algozes
Ante o Rei, já movido a piedade;
Mas o povo, com falsas e ferozes
Razões, à morte crua o persuade.
Ela, com tristes e piedosas vozes,
Saídas só da mágoa e saudade
Do seu Príncipe e filhos, que deixava,
Que mais que a própria morte a magoava,
Responde às questões do teu manual (pp.145 e 146 - até à questão 5.2.)
127
ó tu, que tens de humano o gesto e o peito
(Se de humano é matar hua donzela,
Fraca e sem força, só por ter sujeito
O coração a quem soube vencê-la),
A estas criancinhas tem respeito,
Pois o não tens à morte escura dela;
Mova-te a piedade sua e minha,
Pois te não move a culpa que não tinha.
126
(Se já nas brutas feras, cuja mente
Natura fez cruel de nascimento,
E nas aves agrestes, que somente
Nas rapinas aéreas tem o intento,
Com pequenas crianças viu a gente
Terem tão piedoso sentimento
Como co’a mãe de Nino já mostraram,
E co’s irmãos que Roma edificaram:
129Põe-me onde se use toda a feridade,
Entre leões e tigres, e verei
Se neles achar posso a piedade
Que entre peitos humanos não achei.
Ali, co’amor intrínseco e vontade
Naquele por quem mouro, criarei
Estas relíquias suas que aqui viste,
Que refrigério sejam da mãe triste.)
128
E se, vencendo a Maura resistência,
A morte sabes dar com fogo e ferro,
Sabe também dar vida, com clemência,
A quem peja perdê-la não fez erro.
Mas, se to assim merece esta inocência,
Põe-me em perpétuo e mísero desterro,
Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente,
Onde em lágrimas viva eternamente.
131Qual contra a linda moça Polycena,
Consolação extrema da mãe velha,
Porque a sombra de Aquiles a condena,
Co’ferro o duro Pirro se aparelha;
Mas ela, os olhos, com que o ar serena
(Bem como paciente e mansa ovelha),
Na mísera mãe postos, que endoudece,
Ao duro sacrifício se oferece:
130
Queria perdoar-lhe o Rei benigno,
Movido das palavras que o magoam;
Mas o pertinaz povo e seu destino
(Que desta sorte o quis) lhe não perdoam.
Arrancam das espadas de aço fino
Os que por bom tal feito ali apregoam.
Contra tua dama, ó peitos carniceiros,
Feros vos amostrais e cavaleiros?
133
Bem puderas, ó Sol, da vista destes,
Teus raios apartar aquele dia,
Como da seva mesa de Tiestes,
Quando os filhos por mão de Atreu comia !
Vós, ó côncavos vales, que pudestes
A voz extrema ouvir da boca fria,
O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
Por muito grande espaço repetistes.
132
Tais contra Inês os brutos matadores,
No colo de alabastro, que sustinha
As obras com que Amor matou de amores
Aquele que despois a fez Rainha,
As espadas banhando e as brancas flores,
Que ela dos olhos seus regadas tinha,
Se encarniçavam, fervidos e irosos,
No futuro castigo não cuidosos.
135As filhas do Mondego a morte escura
Longo tempo chorando memoraram,
E, por memória eterna, em fonte pura
As lágrimas choradas transformaram.
O nome lhe puseram, que inda dura,
Dos amores de Inês, que ali passaram.
Vede que fresca fonte rega as flores,
Que lágrimas são a água e o nome Amores.
134
Assim como a bonina, que cortada
Antes do tempo foi, cândida e bela,
Sendo das mãos lascivas maltratada
Da minina que a trouxe na capela,
O cheiro traz perdido e a cor murchada:
Tal está, morta, a pálida donzela,
Secas do rosto as rosas e perdida
A branca e viva cor, co a doce vida.
Episódio de Inês de Castro
Filomena Maria Brasil Cabral Diegues
Created on January 29, 2023
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Os Lusíadas
Luís Vaz de Camões
Episódio: Inês de Castro
start
Episódio de Inês de Castro
- É narrado por Vasco da Gama ao Rei de Melinde. - Surge na continuidade da apresentação do reinado de D. Afonso IV.
Quem foi Inês de Castro?
Dona Inês de Castro, fidalga galega de reconhecida e requintada formosura, chega a Portugal em 1340 integrada na corte de D. Constância de Castela quando esta se desloca para terras lusitanas com o fim de se casar com o príncipe D. Pedro, filho do Rei Afonso IV.Apesar da consumação desta união que tinha por detrás motivos políticos, numa tentativa de estabilizar as relações entre Portugal e Castela, a verdade é que o herdeiro do trono depressa fixaria as suas atenções nas graça de Dona Inês de Castro, provocando um escândalo na corte do qual os maiores embaraços seriam para D. Constância e D. Afonso IV. Por esse motivo, o monarca português manda que Dona Inês de Castro seja expulsa do reino e esta acaba por se instalar no castelo da localidade espanhola de Alburquerque, na fronteira com Portugal. Espera D. Afonso que desta forma o príncipe se dedicasse de alma e coração à sua legítima esposa. Mas quis o destino que em 1345 D. Constância morresse de parto e D. Pedro, desobedecendo às ordens e à vontade paternas, intensifica a sua relação com Dona Inês de Castro. Manda que a sua amada volte a Portugal e instala-a na sua própria casa, onde passam a viver como marido e mulher e na qual nascem os seus quatro filhos.
Afonso IV, contrariado e preocupado com o facto desta relação poder vir a significar no futuro uma pretensão castelhana ao trono português ou, pelo menos, uma grande influência desta sobre a política interna do reino, decide agir, pressionado pelos seus conselheiros, de forma a acabar de vez com a indecorosa e explosiva relação e manda que Dona Inês de Castro seja assassinada. Quando Dona Inês de Castro se apercebe das intenções do rei, vai ao seu encontro, rodeada dos seus filhos, para implorar a misericórdia régia. Nesse momento Afonso IV deixa-se embrandecer e adia a sentença de morte. No entanto, esta acontece a 7 de janeiro de 1355.
Episódio de Inês de Castro ( Canto III est. 118-135)
119 Tu só, tu, puro amor, com força crua, Que os corações humanos tanto obriga, Deste causa à molesta morte sua, Como se fora pérfida inimiga. Se dizem, fero Amor, que a sede tua Nem com lágrimas tristes se mitiga, É porque queres, áspero e tirano, Tuas aras banhar em sangue humano.
118 Passada esta tão próspera vitória, Tornado Afonso à Lusitana terra, A se lograr da paz com tanta glória Quanta soube ganhar na dura guerra, O caso triste, e dino da memória Que do sepulcro os homens desenterra, Aconteceu da mísera e mesquinha Que depois de ser morta foi Rainha.
121 Do teu Príncipe ali te respondiam As lembranças que na alma lhe moravam, Que sempre ante seus olhos te traziam, Quando dos teus formosos se apartavam; De noite, em doces sonhos que mentiam, De dia, em pensamentos que voavam; E quanto, enfim, cuidava e quanto via Eram tudo memórias de alegria.
120 Estavas, linda Inês, posta em sossego, De teus anos colhendo doce fruto, Naquele engano da alma, ledo e cego, Que a Fortuna não deixa durar muito, Nos saudosos campos do Mondego, De teus formosos olhos nunca enxuto, Aos montes ensinando e às ervinhas O nome que no peito escrito tinhas.
122 De outras belas senhoras e Princesas Os desejados tálamos enjeita, Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas, Quando um gesto suave te sujeita. Vendo estas namoradas estranhezas, O velho pai sesudo, que respeita O murmurar do povo e a fantasia Do filho, que casar-se não queria,
123 Tirar Inês ao mundo determina, Por lhe tirar o filho que tem preso, Crendo co’o sangue só da morte ladina Matar do firme amor o fogo aceso. Que furor* consentiu que a espada fina, Que pôde sustentar o grande peso Do furor Mauro, fosse alevantada Contra uma fraca dama delicada? *fúria
125 Pera o céu cristalino alevantando, Com lágrimas, os olhos piedosos (Os olhos, porque as mãos lhe estava atando Um dos duros ministros rigorosos); E despois, nos meninos atentando, Que tão queridos tinha e tão mimosos, Cuja orfandade como mãe temia, Para o avô cruel assim dizia:
124 Traziam-na os horríficos algozes Ante o Rei, já movido a piedade; Mas o povo, com falsas e ferozes Razões, à morte crua o persuade. Ela, com tristes e piedosas vozes, Saídas só da mágoa e saudade Do seu Príncipe e filhos, que deixava, Que mais que a própria morte a magoava,
Responde às questões do teu manual (pp.145 e 146 - até à questão 5.2.)
127 ó tu, que tens de humano o gesto e o peito (Se de humano é matar hua donzela, Fraca e sem força, só por ter sujeito O coração a quem soube vencê-la), A estas criancinhas tem respeito, Pois o não tens à morte escura dela; Mova-te a piedade sua e minha, Pois te não move a culpa que não tinha.
126 (Se já nas brutas feras, cuja mente Natura fez cruel de nascimento, E nas aves agrestes, que somente Nas rapinas aéreas tem o intento, Com pequenas crianças viu a gente Terem tão piedoso sentimento Como co’a mãe de Nino já mostraram, E co’s irmãos que Roma edificaram:
129Põe-me onde se use toda a feridade, Entre leões e tigres, e verei Se neles achar posso a piedade Que entre peitos humanos não achei. Ali, co’amor intrínseco e vontade Naquele por quem mouro, criarei Estas relíquias suas que aqui viste, Que refrigério sejam da mãe triste.)
128 E se, vencendo a Maura resistência, A morte sabes dar com fogo e ferro, Sabe também dar vida, com clemência, A quem peja perdê-la não fez erro. Mas, se to assim merece esta inocência, Põe-me em perpétuo e mísero desterro, Na Cítia fria ou lá na Líbia ardente, Onde em lágrimas viva eternamente.
131Qual contra a linda moça Polycena, Consolação extrema da mãe velha, Porque a sombra de Aquiles a condena, Co’ferro o duro Pirro se aparelha; Mas ela, os olhos, com que o ar serena (Bem como paciente e mansa ovelha), Na mísera mãe postos, que endoudece, Ao duro sacrifício se oferece:
130 Queria perdoar-lhe o Rei benigno, Movido das palavras que o magoam; Mas o pertinaz povo e seu destino (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam. Arrancam das espadas de aço fino Os que por bom tal feito ali apregoam. Contra tua dama, ó peitos carniceiros, Feros vos amostrais e cavaleiros?
133 Bem puderas, ó Sol, da vista destes, Teus raios apartar aquele dia, Como da seva mesa de Tiestes, Quando os filhos por mão de Atreu comia ! Vós, ó côncavos vales, que pudestes A voz extrema ouvir da boca fria, O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes, Por muito grande espaço repetistes.
132 Tais contra Inês os brutos matadores, No colo de alabastro, que sustinha As obras com que Amor matou de amores Aquele que despois a fez Rainha, As espadas banhando e as brancas flores, Que ela dos olhos seus regadas tinha, Se encarniçavam, fervidos e irosos, No futuro castigo não cuidosos.
135As filhas do Mondego a morte escura Longo tempo chorando memoraram, E, por memória eterna, em fonte pura As lágrimas choradas transformaram. O nome lhe puseram, que inda dura, Dos amores de Inês, que ali passaram. Vede que fresca fonte rega as flores, Que lágrimas são a água e o nome Amores.
134 Assim como a bonina, que cortada Antes do tempo foi, cândida e bela, Sendo das mãos lascivas maltratada Da minina que a trouxe na capela, O cheiro traz perdido e a cor murchada: Tal está, morta, a pálida donzela, Secas do rosto as rosas e perdida A branca e viva cor, co a doce vida.