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Copy - Dia Mundial da Poesia

pinheiro.isabel

Created on March 21, 2022

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Transcript

Bibliotecas do AE de Valadares

Dia Mundial da POESIA

ÍNDICE

1. Autopsicografia

9. Sei um ninho

5. No mistério do sem-fim

10. Ser Poeta

6. O mar dos meus olhos

2. Bilhete

7. O Mostrengo

3. Cântigo Negro

11. Tanto de meu estado me acho incerto

12. Sem título

4. É urgente o amor

8. Pedra Filosofal

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor. Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.

Bilhete

Se tu me amas, ama-me baixinho Não o grites de cima dos telhados Deixa em paz os passarinhos Deixa em paz a mim! Se me queres, enfim, tem de ser bem devagarinho, Amada, que a vida é breve, e o amor mais breve ainda...

Mário Quintana

Cântigo Negro

[...]Ah, que ninguém me dê piedosas intenções! Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: “vem por aqui”! A minha vida é um vendaval que se soltou. É uma onda que se alevantou. É um átomo a mais que se animou… Não sei para onde vou, Não sei para onde vou —Sei que não vou por aí!

É urgente o amor

[...]É urgente destruir certas palavras, ódio, solidão e crueldade, alguns lamentos, muitas espadas. [...]

NO MISTÉRIO DO SEM-FIM

No mistério do sem-fim equilibra-se um planeta. E, no planeta, um jardim, e, no jardim, um canteiro; no canteiro uma violeta, e, sobre ela, o dia inteiro, entre o planeta e o sem-fim, a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

O MAR DOS MEUS OLHOS

[...]Há mulheres que trazem o mar nos olhos pela grandeza da imensidão da alma pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens… Há mulheres que são maré em noites de tardes… e calma

O Mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar Na noite de breu ergueu-se a voar; A roda da nau voou três vezes, Voou três vezes a chiar, E disse: «Quem é que ousou entrar Nas minhas cavernas que não desvendo, Meus tectos negros do fim do mundo?» E o homem do leme disse, tremendo: «El-Rei D. João Segundo!»

pedra filosofal

[...]Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida. Que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança.

SEI UM NINHO

Sei um ninho. E o ninho tem um ovo. E o ovo, redondinho, Tem lá dentro um passarinho Novo. Mas escusam de me atentar: Nem o tiro, nem o ensino. Quero ser um bom menino E guardar Este segredo comigo. E ter depois um amigo Que faça o pino A voar.

Miguel Torga

Ser Poeta

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto, que em vivo ardor tremendo estou de frio; sem causa, juntamente choro e rio, o mundo todo abarco e nada aperto.

Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página E aproveito o facto de teres chegado agora Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia. A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita, Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor, Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre Apesar de nós. Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo, Mesmo que a recuses Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame, A colherei. A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

Daniel Faria