- Módulo 2 -
1. A identidade civilizacional da Europa Ocidental
O tempo ...
O que vulgarmente se designa por ocidente medieval é, na verdade, uma realidade muito complexa que se desenvolve entre os sécs. V e XV, entre a queda do Império Romano do Ocidente (conquista de Roma pelos Hérulos em 476) e a queda de Constantinopla (capital do Império Romano do Oriente) às mãos dos turcos em 1453.
IDADE MÉDIA
BAIXA IDADE MÉDIA (SÉCULOS XI A XV)
ALTA IDADE MÉDIA (SÉCULOS V A X)
Introdução
Após a queda de Roma, uma multiplicidade de novos reinos substitui a antiga unidade imperial.
Durante séculos, a Europa mergulhou num tempo de incertezas e violência com grandes consequências:
- anarquia - a "lei do mais forte" substitui o direito romano;
- decadência económica (campos destruídos, o comércio paralizado pela insegurança, indústria incipiente);
- diminuição da população;
- ruralização (destruição das cidades e consequente fuga das populações para o campo);
Batalha de Hastings c. 1022- 1066
- abandono da cultura clássica.
Neste período de fragmentação política da Europa em vários reinos, a Igreja Católica desempenha um papel importante no apoio às populações, tendo a pouco e pouco cristianizado os vários reinos bárbaros:
Clóvis (rei dos Francos), Recaredo (rei dos Visigodos) e Teodomiro (rei dos Suevos) foram dos primeiros. o Cristianismo passou a ser o elemento de união entre os diversos reinos.
Entre os séculos VIII e IX, a Europa sofreu novas invasões:
Muçulmanos - invadiram a Península Ibérica em 711, vindo do Norte de África, criando um clima de instabilidade no Mediterrâneo
Viquingues e Normandos - povos vindos do Norte da europa (Noruega e Dinamarca) atacaram as costas da Europa Ocidental, nos séculos VIII e IX.
Magiares (Húngaros) - atacaram, nos séculos IX e X, as regiões da Alemanha, França e Itália.
O clima de insegurança na Europa agravou-se.
1.1 Poderes e crenças - multiplicidade e unidade
Rosácea da Catedral de Chartres, França.
Multiplicidade de poderes
- A época medieval começa com o fim do império romano do Ocidente.
- Assistimos, a partir daqui, à formação de três grandes conjuntos civilizacionais em torno do Mar Mediterrâneo:
´ - Europa católica; - Império Bizantino; - Islão.
Impérios/reinos, senhorios e comunas
A Europa encontrava-se fragmentada:
Impérios
Sacro-império Romano Germânico
Império Bizantino
Reinos
Senhorios, Ducados e Condados
Comunas
Impérios
"Unidades políticas que abrangem uma vasta extensão territorial e que integram povos com diferentes culturas sob um único poder, governadas por um imperador ou uma imperatriz." in Infopédia
O SACRO IMPÉRIO ROMANO-GERMÂNICO
O sonho de um império romano do ocidente mantinha-se e, no início do século IX, houve uma primeira tentativa:
- Carlos Magno, rei dos Francos, após a conquista de vários territórios e depois de ter ajudado o Papa na defesa contra os Lombardos, fez-se coroar em Roma, pelo Papa, Imperador Romano do Ocidente;
- o império de Carlos Magno, era dirigido a partir de Aix-la-Chapelle (atualmente na Alemanha) e não a partir de Roma;
- sagrado pelo Papa, o seu poder era-lhe atribuído por Deus e considerado o representante (temporal) de Cristo na Terra, protetor da Cristandade - guardião da fé no plano temporal;
- Depois da sua morte (814) o império entra em declínio sendo posteriormente repartido pelos seus três netos, fragmentando-se em reinos.
A coroação de Carlos magno abriu um precedente - a partir daqui todos os reis teriam de ter o apoio do Papa.
- O sonho imperial, contudo, renasceu, no século X, com Otão I, príncipe da Saxónia, na Germânia.
- Otão I conseguiu dominar os outros príncipes da Germânia e fez-se coroar rei (936) em Aix-la Chapelle.
- Em 962, foi coroado imperador em S. Pedro de Roma, pelo Papa João XII - fundando o Sacro Império Romano-Germânico.
- disputas com o papa enfraqueceream o seu poder - Otão I tornou obrigatório o juramento de fidelidade do papa ao imperador;
- no território do Império, havia muitos principados (grandes senhores) que eram praticamente autónomos;
- o poder do imperador era, assim, politicamente limitado.
IMPÉRIO BIZANTINO
Afirmou-se como legitimo herdeiro do poder romano e recusou a autoridade do Sacro-Império, argumentando que um chefe bárbaro não poderia liderar os territórios cristãos.
REINOS
Os reinos - unidades territoriais, sob a chefia de um rei, que agregavam pequenas unidades regionais.
A constituição de um reino implica dois elementos:
1) Unidades territoriais que têm por soberano um rei ou uma rainha (chefe político pertencente a uma família nobre que se destacou ao nível político ou militar) - o rei detém sobre todos uma autoridade suprema que deve utilizar para o bem do seu reino;
Castelo de Santa Maria da Feira (século XII?)
2) a delimitação de um território e população, sob o qual o rei exerce a sua autoridade.
No século XIII, os reinos de Portugal, Castela, Aragão, França e Inglaterra são os mais sólidos da Europa Ocidental.
Castelo de Bragança (século XII?)
SENHORIOS
Terra pertencente a: um senhor nobre ou eclesiástico; Constituídos por:
- castelo (ou mosteiro no caso dos senhorios eclesiásticos);
- terras aráveis;
- bosque;
- aglomerados populacionais (podiam incluir vilas e até cidades);
- terras dispersas.
Encontravam-se divididos em: Reserva: parte da terra que o senhor reservava para si, explorando-a através de corveias - serviços obrigatórios, gratuitos, prestados pelos camponeses livres e servos da gleba, durante um certo número de dias por ano. Mansos: parcelas de terra concedidas pelo senhor aos camponeses para que estes as explorassem em troca de trabalho gratuito na reserva e de impostos pagos em géneros ou em dinheiro. Terras comunais: pastos, florestas, baldios…
O poder do Senhor
Económico (sobre as terras):
- arrendar as terras aos camponeses ( em troca de ou trabalho);
- os camponeses livres ou colonos, que exploravam as terras arrendadas ficavam na dependência do senhor.
Livro das Horas do Duque de Berry, 1412-1416
Tinham que explorar a terra e deviam aos senhores determinadas obrigações: pagamento de rendas pelo aluguer das terras; pagamento de peagens (tributo sobre o trânsito de mercadorias que passavam pelas terras do senhor); pagamento da talha (para assegurar a proteção do senhor); cumprimento de corveias (dias de trabalho gratuito na reserva do senhor); cumprimento de banalidades (entrega de parte do produto obtido pela utilização do moinho, forno… do senhor);
O poder do Senhor
Político (sobre os homens): O clima de insegurança e a incapacidade dos reis assegurarem uma defesa eficaz levou as populações a procurarem proteção junto dos senhores, os quais acabaram por se apropriar de poderes outrora exclusivos do rei. Poder judicial - julgar, aplicar penas; Poder fiscal - cobrar impostos e outras taxas; Poder militar- exército próprio, recrutando homens; Poder de cunhar moeda.
Isto representa uma perda eftiva de soberania por parte do rei.
Direito de ban ou bannus
O senhor tinha amplos poderes e autonomia. O seu poder alargou-se progressivamente a outros senhores, conduzindo à divisão dos senhores feudais em duas categorias:
- Grandes senhores (com direito de bannus, como condes, príncipes, abades…);
- Pequenos senhores (fidalgos e monges) sujeitos ao poder banal da justiça, tal como os camponeses.
Entre estes criam-se relações de vassalagem (feudo-vassálicas), oficializadas por um contrato de vassalagem estabelecido entre o suserano (o senhor mais poderoso) e o vassalo (o menos poderoso).
COMUNAS
No Séc. XI, com o fim do período de invasões, a Europa atravessa um período de paz – o comercio e a vida urbana reanimam; A cidade vai-se desenvolvendo e procura formas de sobreviver fora da dependência dos senhores, livre das taxas e impostos; As cidades mais prósperas reivindicam autonomia administrativa em relação aos senhores das terras;
Foia ssim que os mercadores do Norte de Itália criaram a comuna, uma associação de habitantes das cidades que, entre si, juram lealdade, assistência e cooperação.
Pretendem que o senhor (ou o rei) lhes passe uma carta comunal - registo dos seus direitos, obrigações e privilégios:
- liberdade pessoal, através da limitação ou o fim dos impostos senhoriais;
- liberdade da cidade - governo próprio, conselho municipal, onde os magistrados eleitos pelos habitantes administram a justiça, gerem as finanças e organizam a defesa.
É neste contexto que vemos desenvolver-se um novo grupo social - a burguesia. O movimento comunal consolidou-se no séc. XIII e vai contribuir para o enfraquecimento do poder senhorial e para o reforço das cidades.
Agora ...
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A identidade civilizacional da Europa Ocidental
Maria Basílio
Created on December 30, 2021
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Transcript
- Módulo 2 -
1. A identidade civilizacional da Europa Ocidental
O tempo ...
O que vulgarmente se designa por ocidente medieval é, na verdade, uma realidade muito complexa que se desenvolve entre os sécs. V e XV, entre a queda do Império Romano do Ocidente (conquista de Roma pelos Hérulos em 476) e a queda de Constantinopla (capital do Império Romano do Oriente) às mãos dos turcos em 1453.
IDADE MÉDIA
BAIXA IDADE MÉDIA (SÉCULOS XI A XV)
ALTA IDADE MÉDIA (SÉCULOS V A X)
Introdução
Após a queda de Roma, uma multiplicidade de novos reinos substitui a antiga unidade imperial.
Durante séculos, a Europa mergulhou num tempo de incertezas e violência com grandes consequências:
- anarquia - a "lei do mais forte" substitui o direito romano;
- decadência económica (campos destruídos, o comércio paralizado pela insegurança, indústria incipiente);
- diminuição da população;
- ruralização (destruição das cidades e consequente fuga das populações para o campo);
Batalha de Hastings c. 1022- 1066
- abandono da cultura clássica.
Neste período de fragmentação política da Europa em vários reinos, a Igreja Católica desempenha um papel importante no apoio às populações, tendo a pouco e pouco cristianizado os vários reinos bárbaros:
Clóvis (rei dos Francos), Recaredo (rei dos Visigodos) e Teodomiro (rei dos Suevos) foram dos primeiros. o Cristianismo passou a ser o elemento de união entre os diversos reinos.
Entre os séculos VIII e IX, a Europa sofreu novas invasões:
Muçulmanos - invadiram a Península Ibérica em 711, vindo do Norte de África, criando um clima de instabilidade no Mediterrâneo
Viquingues e Normandos - povos vindos do Norte da europa (Noruega e Dinamarca) atacaram as costas da Europa Ocidental, nos séculos VIII e IX.
Magiares (Húngaros) - atacaram, nos séculos IX e X, as regiões da Alemanha, França e Itália.
O clima de insegurança na Europa agravou-se.
1.1 Poderes e crenças - multiplicidade e unidade
Rosácea da Catedral de Chartres, França.
Multiplicidade de poderes
- Assistimos, a partir daqui, à formação de três grandes conjuntos civilizacionais em torno do Mar Mediterrâneo:
´ - Europa católica; - Império Bizantino; - Islão.Impérios/reinos, senhorios e comunas
A Europa encontrava-se fragmentada:
Impérios
Sacro-império Romano Germânico
Império Bizantino
Reinos
Senhorios, Ducados e Condados
Comunas
Impérios
"Unidades políticas que abrangem uma vasta extensão territorial e que integram povos com diferentes culturas sob um único poder, governadas por um imperador ou uma imperatriz." in Infopédia
O SACRO IMPÉRIO ROMANO-GERMÂNICO
O sonho de um império romano do ocidente mantinha-se e, no início do século IX, houve uma primeira tentativa:
A coroação de Carlos magno abriu um precedente - a partir daqui todos os reis teriam de ter o apoio do Papa.
IMPÉRIO BIZANTINO
Afirmou-se como legitimo herdeiro do poder romano e recusou a autoridade do Sacro-Império, argumentando que um chefe bárbaro não poderia liderar os territórios cristãos.
REINOS
Os reinos - unidades territoriais, sob a chefia de um rei, que agregavam pequenas unidades regionais.
A constituição de um reino implica dois elementos:
1) Unidades territoriais que têm por soberano um rei ou uma rainha (chefe político pertencente a uma família nobre que se destacou ao nível político ou militar) - o rei detém sobre todos uma autoridade suprema que deve utilizar para o bem do seu reino;
Castelo de Santa Maria da Feira (século XII?)
2) a delimitação de um território e população, sob o qual o rei exerce a sua autoridade.
No século XIII, os reinos de Portugal, Castela, Aragão, França e Inglaterra são os mais sólidos da Europa Ocidental.
Castelo de Bragança (século XII?)
SENHORIOS
Terra pertencente a: um senhor nobre ou eclesiástico; Constituídos por:
Encontravam-se divididos em: Reserva: parte da terra que o senhor reservava para si, explorando-a através de corveias - serviços obrigatórios, gratuitos, prestados pelos camponeses livres e servos da gleba, durante um certo número de dias por ano. Mansos: parcelas de terra concedidas pelo senhor aos camponeses para que estes as explorassem em troca de trabalho gratuito na reserva e de impostos pagos em géneros ou em dinheiro. Terras comunais: pastos, florestas, baldios…
O poder do Senhor
Económico (sobre as terras):
Livro das Horas do Duque de Berry, 1412-1416
Tinham que explorar a terra e deviam aos senhores determinadas obrigações: pagamento de rendas pelo aluguer das terras; pagamento de peagens (tributo sobre o trânsito de mercadorias que passavam pelas terras do senhor); pagamento da talha (para assegurar a proteção do senhor); cumprimento de corveias (dias de trabalho gratuito na reserva do senhor); cumprimento de banalidades (entrega de parte do produto obtido pela utilização do moinho, forno… do senhor);
O poder do Senhor
Político (sobre os homens): O clima de insegurança e a incapacidade dos reis assegurarem uma defesa eficaz levou as populações a procurarem proteção junto dos senhores, os quais acabaram por se apropriar de poderes outrora exclusivos do rei. Poder judicial - julgar, aplicar penas; Poder fiscal - cobrar impostos e outras taxas; Poder militar- exército próprio, recrutando homens; Poder de cunhar moeda.
Isto representa uma perda eftiva de soberania por parte do rei.
Direito de ban ou bannus
O senhor tinha amplos poderes e autonomia. O seu poder alargou-se progressivamente a outros senhores, conduzindo à divisão dos senhores feudais em duas categorias:
Entre estes criam-se relações de vassalagem (feudo-vassálicas), oficializadas por um contrato de vassalagem estabelecido entre o suserano (o senhor mais poderoso) e o vassalo (o menos poderoso).
COMUNAS
No Séc. XI, com o fim do período de invasões, a Europa atravessa um período de paz – o comercio e a vida urbana reanimam; A cidade vai-se desenvolvendo e procura formas de sobreviver fora da dependência dos senhores, livre das taxas e impostos; As cidades mais prósperas reivindicam autonomia administrativa em relação aos senhores das terras;
Foia ssim que os mercadores do Norte de Itália criaram a comuna, uma associação de habitantes das cidades que, entre si, juram lealdade, assistência e cooperação.
Pretendem que o senhor (ou o rei) lhes passe uma carta comunal - registo dos seus direitos, obrigações e privilégios:
É neste contexto que vemos desenvolver-se um novo grupo social - a burguesia. O movimento comunal consolidou-se no séc. XIII e vai contribuir para o enfraquecimento do poder senhorial e para o reforço das cidades.
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