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O Rio Jaguaribe
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Demócrito Rocha. O POVO, 7 de janeiro de 1929
O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta
por onde escorre e se perde
o sangue do Ceará.
O mar não se tinge de vermelho
porque o sangue do Ceará
é azul...
Todo plasma
toda essa hemoglobina
na sístole dos invernos
vai perder-se no mar. Há milênios... desde que se rompeu a túnica
das rochas na explosão dos cataclismos
ou na erosão secular do calcário
do gnaisse do quartzo da sílica natural...
E a ruptura dos aneurismas dos açudes... Quanto tempo perdido!
E o pobre doente — o Ceará — anemiado,
esquelético, pedinte e desnutrido —
a vasta rede capilar a queimar-se na soalheira —
é o gigante com a artéria aberta
resistindo e morrendo
resistindo e morrendo
resistindo e morrendo
morrendo e resistindo...
(Foi a espada de um Deus que te feriu
a carótida
a ti — Fênix do Brasil.)
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(E o teu cérebro ainda pensa
e o teu coração ainda pulsa
e o teu pulmão ainda respira
e o teu braço ainda constrói
e o teu pé ainda emigra
e ainda povoa.) As células mirradas do Ceará
quando o céu lhe dá a injeção de soro
dos aguaceiros —
as células mirradas do Ceará
intumescem o protoplasma
(como os seus capulhos de algodão)
e nucleiam-se de verde
— é a cromatina dos roçados no sertão... (Ah, se ele alcançasse um coágulo de rocha!)
E o sangue a correr pela artéria do rio Jaguaribe...
o sangue a correr
mal que é chegado aos ventrículos das nascentes...
o sangue a correr e ninguém o estanca...
Homens da pátria — ouvi: — Salvai o Ceará!
Quem é o presidente da República?
Depressa
uma pinça hemostática em Orós!
Homens —
o Ceará está morrendo, está
esvaindo-se em sangue...
Ninguém o escuta, ninguém o escuta
e o gigante dobra a cabeça sobre o peito
enorme,
e o gigante curva os joelhos no pó
da terra calcinada, E — nos últimos arrancos — vai
morrendo e resistindo
morrendo e resistindo
morrendo e resistindo
É ousado por ser um terror com muita luz do início ao fim.
O meu favorito da década. Todos os atos se encaixam, nos contando uma história terrível e incrível ao mesmo tempo.
Espectro
O RIO JAGUARIBE
Catalina Leite
Created on December 15, 2021
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O Rio Jaguaribe
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Demócrito Rocha. O POVO, 7 de janeiro de 1929
O Rio Jaguaribe é uma artéria aberta por onde escorre e se perde o sangue do Ceará. O mar não se tinge de vermelho porque o sangue do Ceará é azul... Todo plasma toda essa hemoglobina na sístole dos invernos vai perder-se no mar. Há milênios... desde que se rompeu a túnica das rochas na explosão dos cataclismos ou na erosão secular do calcário do gnaisse do quartzo da sílica natural...
E a ruptura dos aneurismas dos açudes... Quanto tempo perdido! E o pobre doente — o Ceará — anemiado, esquelético, pedinte e desnutrido — a vasta rede capilar a queimar-se na soalheira — é o gigante com a artéria aberta resistindo e morrendo resistindo e morrendo resistindo e morrendo morrendo e resistindo... (Foi a espada de um Deus que te feriu a carótida a ti — Fênix do Brasil.)
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(E o teu cérebro ainda pensa e o teu coração ainda pulsa e o teu pulmão ainda respira e o teu braço ainda constrói e o teu pé ainda emigra e ainda povoa.) As células mirradas do Ceará quando o céu lhe dá a injeção de soro dos aguaceiros — as células mirradas do Ceará intumescem o protoplasma (como os seus capulhos de algodão) e nucleiam-se de verde — é a cromatina dos roçados no sertão... (Ah, se ele alcançasse um coágulo de rocha!) E o sangue a correr pela artéria do rio Jaguaribe... o sangue a correr mal que é chegado aos ventrículos das nascentes... o sangue a correr e ninguém o estanca...
Homens da pátria — ouvi: — Salvai o Ceará! Quem é o presidente da República? Depressa uma pinça hemostática em Orós! Homens — o Ceará está morrendo, está esvaindo-se em sangue... Ninguém o escuta, ninguém o escuta e o gigante dobra a cabeça sobre o peito enorme, e o gigante curva os joelhos no pó da terra calcinada, E — nos últimos arrancos — vai morrendo e resistindo morrendo e resistindo morrendo e resistindo
É ousado por ser um terror com muita luz do início ao fim.
O meu favorito da década. Todos os atos se encaixam, nos contando uma história terrível e incrível ao mesmo tempo.
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